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BrJP

Print version ISSN 2595-0118On-line version ISSN 2595-3192

BrJP vol.2 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2019  Epub Dec 02, 2019

https://doi.org/10.5935/2595-0118.20190056 

EDITORIAL

Algumas reflexões sobre a Dor e o Sofrimento

Durval Campos Kraychete2 
http://orcid.org/0000-0001-6561-6584

2Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil


Ao longo de 30 anos trabalhando com Clínica de Tratamento da Dor, e após quase 4 anos como Editor Chefe de uma revista científica que vem melhorando gradativamente sua qualidade técnica, faço um questionamento de que posição a dor, enquanto sintoma físico, modifica o curso da história do sujeito. Seguramente, o paciente sofre. Enfatizo que dor e sofrimento são palavras que traduzem significados distintos e estão rodeadas por um mar de significados. O sofrimento existencial pelo que se é, acaba gerando dor física. E a dor física provoca sofrimento. Recordo de uma pessoa que atendi no início de minha carreira, que amputou as pernas, dois dedos da mão e perdeu a memória, a situação financeira, a posição social e a imagem corporal. Sem dúvida, houve dor física durante todo o processo da amputação e o sofrimento foi da ordem do meu imaginário1. Há dor quando há empatia. Felizmente, a paciente não evoluiu com dor de membro fantasma e tampouco no coto de amputação, fato que poderia ter consequências mais estrondosas. Isso tudo após uma infecção gastrointestinal, seguida de septicemia e vasculite sistêmica. O impacto desse incidente, entretanto, a nível neuronal periférico e central, ainda é um grande desafio para os pesquisadores2,3. Afinal, qualquer registro mnêmico que cause dor, sofrimento e modifique o curso natural da história do sujeito, ainda é tratado hermeticamente nos consultórios de psicoterapia, e após uma média de 8 anos chega aos cuidados de um médico especializado4. A liquidez contemporânea, motivo de tantas faltas, incluindo a de amor e a de compaixão ao próximo, além da busca desesperada por uma posição de representação social de peso, no entanto, afasta o paciente do cuidador e do profissional de saúde5. Talvez, as consequências ao longo do tempo do registro no sistema nervoso da dor e do sofrimento em recém-nascidos e prematuros, relatados atualmente nas publicações como ansiedade, dor abdominal, redução do escore para coeficiente de inteligência, entre outras, alerte os profissionais de saúde sobre a importância de evitarmos a dor e o sofrimento em qualquer nível6-8. Saliento que esse binômio não torna uma pessoa melhor, e sim pior9. As cargas e agressões impostas pelo mundo moderno interferem no curso da história do sujeito, dependendo da genética individual, do ambiente, da história social, econômica e psíquica, e é modulada pela sua capacidade de enfretamento. Tanto que os programas educacionais em dor centrados no paciente têm ajudado claramente na aderência e no resultado do tratamento10. Concluo essa reflexão enfatizando que o cuidado com o corpo, com a alma e com o espírito é fundamental para o fluxo correto de uma vida plena: - sem dor e sem sofrimento. A vida é para ser feliz.

Durval Campos Kraychete
Editor Científico (2016-2019)
Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil
https://orcid.org/0000-0001-6561-6584
E-mail: dkt@terra.com.br

REFERENCES

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