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BrJP

Print version ISSN 2595-0118On-line version ISSN 2595-3192

BrJP vol.3 no.2 São Paulo Jan./Mar. 2020  Epub June 08, 2020

https://doi.org/10.5935/2595-0118.20200029 

ARTIGO ORIGINAL

Ansiedade e depressão associados à dor e desconforto das desordens temporomandibulares

Lélio Fernando Ferreira Soares1 
http://orcid.org/0000-0003-4174-2943

Lucas Machioni Coelho1 
http://orcid.org/0000-0002-0789-8322

Amália Moreno2 
http://orcid.org/0000-0002-3474-2091

Daniel Augusto de Faria Almeida1 
http://orcid.org/0000-0003-1210-4985

Marcela Filié Haddad1 
http://orcid.org/0000-0003-3455-6624

1Universidade Federal de Alfenas, Faculdade de Odontologia, Alfenas, MG, Brasil.

2Universidade Federal de Minas Gerais, Cirurgia Oral, Patologia e Clínica Odontológica, Belo Horizonte, MG, Brasil.


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS:

A etiologia das disfunções temporomandibulares engloba fatores locais e sistêmicos, destacando-se a condição oclusal, trauma, atividades parafuncionais e estresse emocional, derivando-se os sinais de ansiedade e de depressão. Esses, por sua vez, apresentam maior propensão em se desenvolver na população universitária devido às mudanças exigidas ao ingressar na universidade e a cobrança por um bom desempenho. O objetivo deste estudo foi avaliar a correlação de sintomas de ansiedade e de depressão e a existência de sintomas associados às disfunções temporomandibulares em estudantes universitários.

MÉTODOS:

Realizou-se um estudo clínico epidemiológico, aleatório e transversal, cuja amostra foi constituída por 100 estudantes universitários, aos quais foram aplicados os questionários Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders: Eixo II e o Hospital Anxiety and Depression Scale. Para a análise estatística foram utilizados os testes Qui-quadrado e o Modelo de regressão logística.

RESULTADOS:

Os resultados do presente estudo foram constituídos pelas respostas de 79 mulheres e 21 homens, com média de idade de 19 anos. Foram observadas as seguintes associações: estado de saúde geral e depressão, ansiedade e dor na face/estalos, hábito de ranger/apertar os dentes ao dormir, e resposta “sim” para ansiedade, desconforto com seus dentes e depressão; estado de angustiado/preocupado com todas as questões de ansiedade; depressão e pensamentos sobre morte, dificuldade em respirar e sentir-se desanimado sobre o futuro.

CONCLUSÃO:

A partir dos dados obtidos foi possível concluir que a presença de sintomas relativos à ansiedade e depressão interferem nos sintomas dolorosos das disfunções temporomandibulares da população abordada.

Descritores: Estresse psicológico; Sinais e sintomas; Transtornos da articulação temporomandibular

ABSTRACT

BACKGROUND AND OBJECTIVES:

The etiology of temporomandibular disorders includes local and systemic factors, with an emphasis on the occlusal condition, trauma, parafunctional activities, and emotional stress, deriving signs of anxiety and depression. These, in turn, are more likely to develop in the university population, due to the changes required when entering university and the demand for good performance. This study aimed to evaluate the correlation between anxiety and depression symptoms and the existence of symptoms associated with temporomandibular disorders in university students.

METHODS:

An epidemiological, randomized, and cross-sectional clinical study conducted with 100 university students. The Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders: Axis II and the Hospital Anxiety and Depression Scale questionnaires were applied. For the statistical analysis, the Chi-square tests and the Logistic regression model were used.

RESULTS:

The results of the present study consisted of responses from 79 women and 21 men, with a mean age of 19 years. The following associations were observed: general health status and depression; anxiety and pain in the face/ clicking; habit of grinding/clenching teeth when sleeping, and a “yes” answer to anxiety; discomfort with your teeth and depression; state of anguished/worried about all anxiety issues; depression and thoughts about death, difficulty in breathing and feeling discouraged about the future.

CONCLUSION:

From the data obtained, it was possible to conclude that the presence of symptoms related to anxiety and depression interfere with the painful symptoms of temporomandibular disorders in the addressed population.

Keywords: Signs and symptoms; Psychological stress; Temporomandibular joint disorders

INTRODUÇÃO

As desordens musculares e da articulação temporomandibular (ATM) formam um grupo de condições designado como disfunção temporomandibular (DTM). Cerca de 40 a 60% da população apresenta algum sinal ou sintoma relacionado à DTM. A faixa etária dos indivíduos acometidos é mais frequente entre 20 e 40 anos e em relação ao sexo, a prevalência entre as mulheres chega a ser de três a nove vezes maior quando comparada com homens1,2.

De etiologia multifatorial e complexa, a origem das disfunções engloba tanto fatores locais, quanto sistêmicos; destacando-se, principalmente, a condição oclusal, trauma, estresse emocional, estímulo de dor profunda e atividades parafuncionais. Dentre os sintomas, são observados dor ou desconforto na ATM, nos músculos faciais e ouvidos, presença de estalido, crepitação e amplitude de movimento limitada3. Embora seja uma condição sistêmica e dita indireta, existe forte correlação entre o estresse emocional e sinais de ansiedade e de depressão com o aparecimento dos sintomas da DTM2,4-8.

Outrossim, ao correlacionar a etiologia das desordens e sua respectiva incidência, existe correlação entre os indivíduos que vivem sob a condição de estresse emocional como fator predisponente no desenvolvimento das DTMs; como pode ocorrer com estudantes universitários4,9. Devido às mudanças ao ingressar na universidade, a cobrança por bom desempenho e as adversidades enfrentadas fazem com que essa população seja mais propensa ao desenvolvimento de doenças de ordem psicológica, como ansiedade e depressão10,11.

O objetivo deste estudo foi avaliar a correlação de sintomas de ansiedade e depressão e a existência de sintomas associados às DTM em estudantes universitários.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo clínico epidemiológico, aleatório e transversal, cuja amostra foi constituída por 100 estudantes universitários. O recrutamento dos participantes foi feito após a divulgação em redes sociais e em salas de aula.

Os critérios de inclusão utilizados foram indivíduos de ambos os sexos; matriculados em algum dos cursos de graduação oferecidos pela UNIFAL-MG e ter idade superior a 18 anos.

Após os devidos esclarecimentos, os indivíduos que se enquadraram nos critérios de inclusão foram convidados a participar deste estudo mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TLCE).

Todos os participantes foram avaliados quanto à existência de sintomas associados à DTM por meio da aplicação de um questionário para a identificação de sinais e sintomas relativos às DTM, Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD): Eixo II12,13.

Para a avaliação de sinais ou sintomas decorrentes de ansiedade ou depressão foi aplicado o questionário Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS)14.

Após a aplicação dos questionários, os dados foram tabulados para a análise estatística comparativa, conforme a seguir.

Para a avaliação da frequência da ansiedade e da depressão foram analisadas as respostas aos itens correspondentes à ansiedade (HADS-A) e depressão (HADS-D). Para ambas as subescalas de HADS foram adotados os pontos de cortes14, e definida a seguinte dicotomização, sendo zero como “não” para ansiedade ou depressão, para o total de escores de zero a 8; e sendo 1 como “sim” para ansiedade ou depressão, para o total de escores ≥9. A pesquisa também avaliou todas as variáveis do eixo II do RDC e considerou aquelas que podem estar relacionadas às subescalas HADS. Esses fatores foram divididos nas seguintes categorias: estado de saúde geral/bucal e dados demográficos, dor na face/hábitos orais e oclusão, e estado de angustiado ou preocupado. As categorias de respostas para algumas dessas variáveis foram agrupadas e/ou dicotomizadas sendo zero=não e 1=sim, para sintetizar as informações e o poder dos testes.

Para a primeira categoria foram coletados dados sobre estado de saúde geral e bucal (ótima, boa, regular, ruim ou péssima), sexo, cor ou raça, com ausência de raças específicas nas respostas. Considerando os fatores dor na face/hábitos orais e oclusão, os indivíduos responderam “não” ou “sim” para os seguintes questionamentos: já sentiram dor na face em locais como a mandíbula, nos lados da cabeça, na frente do ouvido, ou no ouvido nas últimas quatro semanas; se ouvem estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca; se percebeu - ou alguém falou - que range ou aperta os dentes quando está dormindo; e se sentem desconforto ou diferença na forma como os dentes se encostam.

A avaliação do estado de angustiado ou preocupado nas últimas quatro semanas incluiu algumas informações como perda de interesse ou prazer sexual, sentir “aperto no peito” ou no coração, ter pensamentos sobre morte, sentir-se só ou triste, dificuldade em respirar, sentir um “nó na garganta”, e sentir-se desanimado sobre o futuro, todas da questão 20 do RDC. As respostas aos itens foram agrupadas para não ou nem um pouco; ou sim, um pouco, moderadamente ou muito; havendo ausência da resposta “extremamente”.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos (CEP/UNIFAL-MG), obtendo aprovação sob o número 2.816.052.

Análise estatística

Foi realizada a análise estatística das respostas obtidas e o teste Qui-quadrado foi utilizado para avaliar a associação entre os resultados das subescalas de HADS em relação a cada variável relevante do estudo. Quanto ao valor de p<0,05 houve diferença estatística significante.

O modelo de regressão logística foi estimado para avaliar a dependência entre a escala HADS e as variáveis do estudo, que foram consideradas individualmente significantes no teste de Qui-quadrado (p<0,05). As razões de chances (OR) foram estimadas para mensurar essa dependência.

RESULTADOS

A amostra final foi constituída por 100 indivíduos, sendo 79 do sexo feminino e 21 do sexo masculino, com média de idade de 19 anos. Em relação ao estado de saúde geral e bucal, foi observada associação apenas entre o estado de saúde geral e HADS-D (x2=5,991; p=0,000). Não foi observada associação estatisticamente significante (p>0,05) para as demais variáveis.

Em relação à ansiedade (HADS-A) e os fatores de dor na face/hábitos orais e oclusão, foi constatada associação entre dor na face nas últimas quatro semanas e (x2=3,841; p=0,044) (Tabela 1), também entre ouvir estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca (x2=3,841; p=0,036), sendo que 47 indivíduos relataram ouvir em contraste com 19 indivíduos com resposta negativa. Além disso, 56 indivíduos que responderam ter o hábito de ranger/apertar os dentes ao dormir, 42 apresentaram categoria “sim” na HADS-A, em comparação com 24 de 44 indivíduos que responderam “não” ter o hábito de ranger/apertar os dentes ao dormir (x2=3,841; p=0,032). Não houve evidência de associação entre as mesmas variáveis (dor na face nas últimas quatro semanas, ouvir estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca, e ranger/apertar os dentes ao dormir) e HADS-D (p>0,05) (Tabela 1). No entanto, em relação a sentir-se desconfortável com a forma como os dentes se encostam, constatou-se associação apenas com o HADS-D. Nesse caso, entre os 35 indivíduos que se sentiam desconfortáveis com os seus dentes, 17 apresentaram estado afirmativo de depressão, percentual maior que os 17 entre os 65 indivíduos que responderam “não” (x2=3,841; p=0,024) (Tabela 1).

Tabela 1 Associação de dor na face/hábitos orais e oclusão avaliado no RDC em relação ao HADS (n=100) 

HADS-A HADS-D
Não Sim Total Valor
de p
Não Sim Total Valor
de p
n %a n %a n %b n % a n %a n %b
Dor na face nas últimas quatro semanas
Não 19 45,2 23 54,8 42 42,0 0.044* 27 64,3 15 35,7 42 42,0 0,758 ns
Sim 15 25,9 43 74,1 58 58,0 39 67,2 19 32,8 58 58,0
Ouve estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca
Não 17 47,2 19 52,8 36 36,0 0.036* 24 66,7 12 33,3 36 36,0 0,916 ns
Sim 17 26,6 47 73,4 64 64,0 42 65,6 22 34,4 64 64,0
Ranger/apertar os dentes ao dormir
Não 20 45,5 24 54,5 44 44,0 0,032* 29 65,9 15 34,1 44 44,0 0,986 ns
Sim 14 25,0 42 75,0 56 56,0 37 66,1 19 33,9 56 56,0
Sente-se desconfortável com a forma como os dentes se encostam
Não 25 38,5 40 61,5 65 65,0 0.199 ns 48 73,8 17 26,2 65 65,0 0,024*
Sim 9 25,7 26 74,3 35 35,0 18 51,4 17 48,6 35 35,0
Total 34 34,0 66 66,0 100 100,0 66 66,0 34 34,0 100 100,0

aValores expressos como porcentagem;

bValores expressos como porcentagem.

Teste Qui-quadrado.

nsNão significativo; p>0,05;

*Significante; p<0,05.

Em relação à associação entre o estado de angustiado ou preocupado nas últimas quatro semanas e HADS-A, verificou-se associação estatisticamente significante para todas as variáveis avaliadas: perda de interesse ou prazer sexual (x2=3,841; p=0,004), sentir “aperto no peito” ou no coração (x2=3,841; p=0,009), ter pensamentos sobre morte (x2=3,841; p=0,000), sentir-se só (x2=3,841; p=0,008), sentir-se triste (x2=3,841; p=0,005), dificuldade em respirar (x2=3,841; p<0,0001), sentir um “nó na garganta” (x2=3,841; p=0,001), sentir-se desanimado sobre o futuro (x2=3,841; p<0,0001) (Tabela 2). Além disso, avaliando a associação entre o estado de angustiado ou preocupado nas últimas quatro semanas e HADS-D pode-se verificar a influência do estado de depressão em ter pensamentos sobre morte (x2=3,841; p<0,0001), sentir-se só (x2=3,841; p=0,009), sentir-se triste (x2=3,841; p=0,043), dificuldade em respirar (x2=3,841; p=0,001), e sentir-se desanimado sobre o futuro (x2=3,841; p=0,008) (Tabela 2).

Tabela 2 Associação do estado de angustiado ou preocupado nas últimas 4 semanas avaliado no RDC em relação ao HADS (n=100) 

HADS-A HADS-D
Não Sim Total Valor
de p
Não Sim Total Valor
de p
n %a n %a n %b n %a n %a n %b
Pela perda de interesse ou prazer sexual
Não 27 45,0 33 55,0 60 60,0 0,004* 44 73,3 16 26,7 60 60,0 0,058 ns
Sim 7 17,5 33 82,5 40 40,0 22 55,0 18 45,0 40 40,0
Por sentir "aperto no peito" ou no coração
Não 20 48,8 21 51,2 41 41,0 0,009* 29 70,7 12 29,3 41 41,0 0,405 ns
Sim 14 23,7 45 76,3 59 59,0 37 62,7 22 37,3 59 59,0
Por ter pensamentos sobre morte
Não 28 48,3 30 51,7 58 58,0 0,000* 49 84,5 9 15,5 58 58,0 <0.0001*
Sim 6 14,3 36 85,7 42 42,0 17 40,5 25 59,5 42 42,0
Por sentir-se só
Não 16 53,3 14 46,7 30 30,0 0,008* 26 86,7 4 13,3 30 30,0 0,009*
Sim 18 25,7 52 74,3 70 70,0 40 57,1 30 42,9 70 70,0
Por sentir-se triste
Não 13 59,1 9 40,9 22 22,00 0,005* 19 86,4 3 13,6 22 22,0 0,043*
Sim 21 26,9 57 73,1 78 78,00 47 60,3 31 39,7 78 78,0
Por ter dificuldade em respirar
Não 31 49,2 32 50,8 63 63,0 <0.0001* 49 77,8 14 22,2 63 63,0
Sim 3 8,1 34 91,9 37 37,0 17 45,9 20 54,1 37 37,0 0,001*
Por sentir um "nó na garganta"
Não 23 53,5 20 46,5 43 43,0 0,000 * 33 76,7 10 23,3 43 43,0 0,049 ns
Sim 11 19,3 46 80,7 57 57,0 33 57,9 24 42,1 57 57,0
Por sentir-se desanimado sobre o futuro
Não 16 69,6 7 30,4 23 23,0 <0,0001* 21 91,3 2 8,7 23 23,00 0,008*
Sim 18 23,4 59 76,6 77 77,0 45 58,4 32 41,6 77 77,00
Total 34 34,0 66 66,0 100 100,0 66 66,0 34 34,0 100 100,0

HADS = Hospital Anxiety and Depression Scale;

avalores expressos como porcentagem em linha;

bvalores expressos como porcentagem.

teste Qui-quadrado.

nsNão significativo; p>0,05;

*Significante; p<0,05.

O odds ratio foi estimado pelo modelo de regressão logística para as variáveis estatisticamente significantes associadas à escala HADS (Tabela 3). Entre as variáveis, apenas ter dificuldade em respirar aumenta a chance de ansiedade em 8,5 vezes, com diferença estatística significante (p=0,002); e sentir-se desaminado aumenta significativamente em 5,4 vezes (p=0,003). Quanto à variável ter pensamento sobre morte, estima-se um aumento de 5,9 vezes à chance de ter depressão, com diferença estatística significante (p=0,019); e sentir-se desconfortável aumenta a chance em 3,8 vezes, estatisticamente significante (p=0,001). Além disso, alguma influência da saúde geral boa em relação à referência: péssima/regular/ruim, reduz em aproximadamente 89% (1-0,109) a chance de depressão com diferença estatística significante (p=0,001). Já a saúde geral ótima, em relação à referência, estima-se reduzir em aproximadamente 69% (1-0,312) a chance de depressão, no entanto sem diferença estatística significante (p=0,204) (Tabela 3).

Tabela 3 Regressão logística entre variáveis do estudo e ao HADS considerando 2 modelos (n=100) 

Variáveis HADS (zero PARA NÃO e 1 PARA SIM)
HADS-A HADS-D
OR [IC 95%] EV (EP) Valor de p OR [IC 95%] EV (EP) Valor de p
(Intercepto) 0,317 -1,149 (0,494) 0,020* 0,576 -0,552 (0,602) 0,359 ns
Por ter dificuldade em respirar
Não 1 [Referência]
Sim 8,467 [2,264;31,662] 2,136 (0,673) 0,002* - - -
Por sentir-se desanimado sobre o futuro
Não 1 [Referência]
Sim 5,422 [1,793;16,399] 1,691 (0,565) 0,003* - - -
Saúde geral
Péssima/regular/ruim 1 [Referência]
Boa - - - 0,109 [0,030;0,397] -2,212 (0,658) 0,001*
Ótima - - - 0,312 [0,052;1,885] -1,165 (0,918) 0,204 ns
Sente-se desconfortável com a forma como os dentes se encostam
Não 1 [Referência]
Sim - - - 3,780 [1,239;11,528] 1,330 (0,569) 0,019*
Por ter pensamentos sobre morte
Não 1 [Referência]
Sim - - - 5,858 [2,042;16,800] 1,768 (0,538) 0,001*

HADS = Hospital Anxiety and Depression Scale; EV = estimativa; OR - odds ratio; EP = erro padrão; IC = intervalo de confiança, p (valor de probabilidade);

Lista de todas as variáveis consideradas em procedimento interativo passo a passo.

Apenas variáveis estatisticamente significativas após o procedimento.

nsNão significante; p>0,05;

*Significante; p<0,05.

DISCUSSÃO

A média de idade da amostra estudada foi semelhante a encontrada em outro estudo15 e esteve dentro da variação apresentada em trabalhos semelhantes4,16,17. Entretanto, houve grande diferença entre os sexos com predominância de 79% para o sexo feminino.

Em relação à associação entre os aspectos de saúde geral, saúde bucal, sexo e cor ou raça e a presença de sinais ou sintomas de depressão, representados pelo HADS-D, apenas o estado de saúde geral gerou associação estatisticamente significativa. Não havendo associação estatisticamente significante com p>0,05 para aspectos como saúde bucal, sexo e cor ou raça. Os resultados encontrados contestam outros estudos que associam o estado da saúde bucal e o desenvolvimento de DTMs à depressão. Entretanto, haja vista que o Eixo I do questionário RDC não foi aplicado, a identificação de indivíduos com DTM e sua correlação com gênero não pôde ser realizada, uma vez que em outros trabalhos, a proporção entre os sexos afetados chega a ser de três até nove vezes maior entre as mulheres1,2,9.

Outros resultados obtidos em estudos semelhantes também podem ter correlações com o país onde foi aplicado, bem como com o estilo e a qualidade de vida. Outro ponto que pode interferir é a idade da amostra abordada, podendo apresentar mais ou menos propensão ao desenvolvimento de sintomas de depressão ou ansiedade, bem como o desenvolvimento de sintomas associados às DTMs por outras razões4-6.

Por outro lado, ao associar sinais e sintomas relativos à ansiedade, representada pelo HADS-A, e fatores relacionados aos sintomas da DTM, o estudo constatou associação estatisticamente significante entre dor na face nas últimas quatro semanas, ouvir estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca e hábito de ranger/apertar os dentes ao dormir.

Tal associação também foi confirmada por outros autores4-6,16,17. Uma possível explicação para a associação entre a DTM e a dor na face seria que essas dores estão relacionadas à atividade muscular excessiva. A tensão excessiva, por sua vez, pode acarretar um apertamento dentário constante, o qual leva à alteração na circulação local nos músculos e à troca iônica entre as membranas celulares, levando ao acúmulo de ácido lático e ácidos pirúvicos, contribuindo para a estimulação de receptores de dor. A presença de ruído na ATM, por sua vez, pode ser devido ao posicionamento incorreto da cartilagem articular, que desloca a cabeça da mandíbula superiormente quando a boca é aberta, resultando em um estalido1.

Para o estado afirmativo da depressão, representado pelo HADS-D, fatores como dor na face nas últimas quatro semanas, ouvir estalos ao mastigar, abrir ou fechar a boca, e ranger/apertar os dentes ao dormir não tiveram associação estatisticamente significativa, havendo apenas relação com o sentir-se desconfortável com a forma como os dentes se encostam. Ao contrário dos resultados obtidos em outros trabalhos que apresentam a associação entre quadros de depressão e sua influência direta no desenvolvimento das sintomatologias das DTMs4,18.

Além disso, os resultados obtidos neste estudo confirmaram os dados encontrados por outros autores10-12,19, que apresentaram os principais sintomas relacionados ao desenvolvimento de ansiedade e depressão em estudantes universitários brasileiros. Os encontrados neste estudo foram: ansiedade: perda de interesse ou prazer sexual, sentir “aperto no peito” ou no coração, ter pensamentos sobre morte, sentir-se só, sentir-se triste, dificuldade em respirar, sentir um “nó na garganta”, sentir-se desanimado sobre o futuro; para a depressão: pensamentos sobre morte, sentir-se só, sentir-se triste, dificuldade em respirar, e sentir-se desanimado sobre o futuro. Como mecanismo da resposta estressora há o desencadeamento de mecanismos neuroquímicos com a condução pelas vias neuroendócrinas. Dessa forma, ocorre primeiramente uma descarga inicial do sistema nervoso simpático, por meio da liberação hormonal de noradrenalina e adrenalina, essa última, visando aumentar a função de órgãos vitais e determinar o estado de alerta geral do organismo. Aumento da frequência cardíaca, pupilas dilatadas, elevação da pressão arterial e constrição de vasos sanguíneos da pele e extremidades são os resultados desse mecanismo. Além disso, o indivíduo em situação de estresse também se encontra tipicamente tenso devido ao aumento da contração muscular nas regiões do ombro e pescoço, além de apresentar respirações rápidas e superficiais, assim como os sintomas apresentados neste estudo7,19,20.

Em relação à propensão ao desenvolvimento de depressão e ansiedade, os sintomas de “dificuldade para respirar” e “sentir-se desanimado” aumentaram as chances de desenvolvimento de ansiedade, de acordo com o estudo. Já em relação à depressão, os fatores que tiveram influência foram o “pensamento sobre morte” e “sentir-se desconfortável”. Outro trabalho11, também com estudantes universitários, mostrou que uma boa condição de saúde ou autoestima é capaz de auxiliar na prevenção ao desenvolvimento de depressão. No presente estudo, a autoavaliação de saúde geral dos participantes indicou que uma saúde geral boa é capaz de reduzir em 89% a chance de desenvolvimento de depressão, com diferença estatística significante.

Dessa forma, destaca-se que, embora o trabalho não tenha utilizado o Eixo I do questionário RDC/TMD que permitiria a quantificação e identificação de indivíduos com DTM; este estudo atuou qualificando e correlacionando os sinais e sintomas relativos à DTM mais prevalentes na população abordada, correlacionando aos mais prevalentes para a presença e desenvolvimento de ansiedade ou depressão, de maneira específica. Nota-se, ainda, uma carência de estudos na literatura acerca do tema abordado, uma vez que a maioria dos estudos que abordam o assunto não apresentam os fatores e sintomas específicos de ansiedade e depressão relacionados ao desenvolvimento das DTM, mas a sua identificação relacionada a fatores mais generalistas.

CONCLUSÃO

Os sintomas relativos à ansiedade e depressão interferiram na sintomatologia da disfunção temporomandibular nos estudantes universitários abordados. Além disso, a população estudada apresenta alta propensão ao desenvolvimento de quadros de ansiedade/depressão e, esses, por sua vez, influenciarão o desenvolvimento de sintomas associados à DTM.

AGRADECIMENTOS

Esta pesquisa está associada ao projeto de extensão “Viver mais leve”, vinculado às atividades do Programa de Educação Tutorial do Curso de Odontologia da UNIFAL-MG. Agradecemos ao Programa pela oportunidade e fomento na forma de bolsa ao discente Lélio Fernando Ferreira Soares e à docente tutora Marcela Filié Haddad.

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Recebido: 15 de Janeiro de 2020; Aceito: 18 de Abril de 2020

Endereço para correspondência: Rua Américo Totti, 1440 - Jardim Panorama, 37132-170 Alfenas, MG, Brasil. E-mail: leliosoaresss@hotmail.com

Conflito de interesses: não há - Fontes de fomento: não há.

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