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PRESS RELEASE

Dados vol.52 no.2 Rio de Janeiro June 2009



http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582009010200001 

A Intolerância desavergonhada: por que a nova extrema-direita cresce?

 

 

Uma pesquisa realizada por Ana Paula Tostes, professora de Michigan State University, nos Estados Unidos, mapeou o crescimento de votos em partidos da nova extrema-direita em eleições nacionais em países membros da União Europeia. A tese da pesquisa é a de que consequências da política regional refletem na preferência do eleitor em eleições nacionais. Os votos nesses partidos na Europa ocidental estão fortemente associados ao fato de que esses partidos possuem uma agenda nacionalista forte, um posicionamento de resistência à expansão de direitos a imigrantes, à flexibilização de fronteiras e perda de soberania. Sendo assim, a pesquisadora argumenta que o "voto intolerante" em partidos políticos que suportam agendas não pluralistas não pode ser explicado apenas por motivações de política doméstica, como tem sido feito. A União Europeia e sua política de abertura de fronteiras e extensão de cidadania comum incomoda o eleitor da nova extrema-direita, inclusive quando ele vota em eleições locais. A nova ideologia de extrema-direita, que representa uma nova defesa de idéias autoritárias e de mudança de regras pluralistas e democráticas, tem procurado ganhar espaço e poder político dentro das próprias vias que a democracia oferece: pela representação. Enquanto a tradicional extrema-direita está relacionada ao fascismo, a nova extrema-direita representa uma nova clivagem política, fruto da "sociedade pós-industrial". O que torna curiosa esta nova ideologia de extrema-direita é que, defender a liberdade de imprensa, liberdade de opinião, bem como o fim da censura, faz parte da agenda deste grupo de preferências políticas e ideológicas que se contrap›e aos princípios democráticos de inclusão, pluralismo e diversidade. Em outras palavras, é por isso que assistimos as propagandas políticas de Le Pen, o mais tradicional e conhecido personagem desta tribo, defender fortemente o fim da censura. Os defensores da extrema direita querem defender a intolerância livremente.

Estes partidos não diferem de outros partidos políticos de direita em vários itens de sua agenda econômica, no entanto diferem radicalmente nas agendas política e social. ƒ ainda preciso entender, segundo a pesquisadora, que a extrema-direita européia não se op›e à União Européia no seu projeto econômico, mas apenas quanto à integração política. Assim, os programas políticos desses partidos procuram culpar os imigrantes pelo demprego e pelo aumento da violência; a globalização pela baixa performance econômica e a União Européia pela perda de soberania e identidade nacional. O valor do nacionalismo étnico ou cultural é assumido sem qualquer vergonha, sempre na contramão do que passou a ser considerado politicamente correto no mundo democrático: multiculturalismo ou assimilação. Para estes radicais, nem uma nem outra política de integração de imigrantes ou mesmo a defesa de direito de outras minorias, como homossexuais, é aceitável. Assim, neste artigo é possível verificar algumas evidências empíricas que contradizem o discurso dos líderes e seguidores dos partidos de extrema-direita, quando associam a xenofobia a eventuais perdas materiais ou econômicas das populações multinacionais européias por culpa da imigração e abertura de fronteiras.

O resultado é que, timidamente, mas de modo crescente, a preferência pelo discurso abertamente radical de direita vem ganhando adeptos, mudando o perfil destes e começando a surgir mesmo em países sem tradição de suporte a este radicalismo. A pesquisa apura uma média geral do crescimento dos votos em partidos de extrema-direita em todas as eleições nacionais ocorridas desde o surgimento destes partidos até o ano de 2008 na Europa ocidental (Portugal, Espanha, Irlanda, Alemanha, çustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Itália, Luxemburgo, Reino Unido e Suécia). O resultado é que o crescimento da média de votos em partidos da nova extrema-direita cresceu de 1,36% em eleições do começo da década de 1980 para 7% em eleições de 2008.

Com os dados apurados por cada país a pesquisa permitiu uma comparação com variáveis como desemprego, crescimento econômico, nível de informação, nível de violência e capacidade de interferência no processo decisório europeu, para buscar algumas explicações para o crescimento dos votos nesses partidos. O interessante de alguns achados da pesquisa é que eles indicam que, ao contrário do que uma análise baseada nos programas políticos e nos discursos de líderes de extrema-direita poderia sugerir, a presença de imigrantes, o nível de violência ou o grau de desenvolvimento econômico não são os melhores indicadores para se compreender o aumento da preferência de eleitores europeus ocidentais por partidos que defendem agendas de reformas não inclusivas, não pluralistas e eurocéticas. Em outras palavras, a atitude de intolerância e a opção pelo voto à intolerância não tem crescido mais em países com pior distribuição de renda, mais desemprego ou maior criminalidade. A diferença da média de população imigrante entre países em que há crescimento de votos na nova extrema-direita e naqueles em que não há diferem um pouco mas não muito, contudo há mais crimes de ódio (tipicamente crimes de intolerância ao imigrante) nos países em que há aumento de suporte à nova ideologia de extrema-direita. Indicadores relevantes são mesmo os que se referem atitude dos eleitores frente à União Européia. Mais intolerantes são os mais bem informados sobre as instituições européias (ou ao menos aqueles que assim se consideram) mas confiam significativamente na União Europeia e foram contra a adoção do Tratado da Constituição.

Uma pesquisa como essa procura introduzir o desafio em considerar-se a percepção do eleitor sobre instâncias da política regional mais relevante do que a literatura tem apontado. Isso porque, as inœmeras e crescentes pesquisas sobre o crescimento desse extremismo de direita na Europa não consideram que a dinâmica política europeia produz consequências no cálculo das preferências eleitorais por partidos políticos em todos os âmbitos de competição eleitoral.

 

 

Ana Paula Tostes
Michigan State University
tostes@msu.edu
+15176146997