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PRESS RELEASE

DINIZ, Debora  and  MEDEIROS, Marcelo. Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2010, vol.15, suppl.1, pp.959-966. ISSN 1413-8123.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000700002.



http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010011600001 

Pesquisa da UNB revela que ao completar 40 anos uma em cada cinco Brasileiras adultas já terá feito aborto

 

 

Ao completar 40 anos, uma em cada cinco brasileiras já terá feito um aborto. Esta é uma das principais conclusões do estudo apresentado no artigo "Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna", publicado na Revista Ciência e Saúde Coletiva, editada pela ABRASCO. O artigo, de autoria de Debora Diniz e Marcelo Medeiros, mostra os primeiros resultados da Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília e pelo instituto de pesquisa Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, avaliou populações urbanas com rigor científico pioneiro para o tema, utilizando técnicas de urna, garantindo desta forma o sigilo das mulheres entrevistadas e a precisão dos dados.

Contrariando uma ideia muito difundida, a pesquisa revela que o aborto não é feito apenas por adolescentes ou mulheres mais velhas. Na verdade, cerca de 60% das mulheres fizeram seu último (ou único) aborto no centro do período reprodutivo, isto é, entre 18 e 29 anos, sendo o pico da incidência entre 20 e 24 anos (24% nesta faixa etária apenas). Segundo os pesquisadores, a interrupção da gravidez costuma ser mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional. Outro resultado reflete a composição religiosa do país: a maioria dos abortos foi feita por católicas, seguidas de protestantes e evangélicas e, finalmente, por mulheres de outras religiões ou sem religião.

Para Marcelo Medeiros, três resultados da pesquisa se sobressaíram chamando a atenção da equipe. Em primeiro lugar, descobrir que cerca de uma em cada cinco mulheres adultas dos centros urbanos do Brasil já fez aborto. "Trata-se de uma proporção muito expressiva. Em números absolutos isso significaria mais de cinco milhões de mulheres", enfatiza o pesquisador. A segunda constatação é que a brasileira que faz aborto é uma mulher comum. "Não são monstros, são mulheres casadas, com filhos, religiosas e de todas as classes sociais. É o perfil das nossas mães, irmãs, filhas ou e vizinhas de rua" pondera.  Finalmente, o estudo determinou que aproximadamente metade das mulheres que fizeram o procedimento precisou de atendimento médico. Esse elevado nível de internação por complicações do aborto terminou transformando a questão em prioridade na agenda da saúde pública nacional. "Não estamos falando de ir ao médico, mas de algo muito mais grave, ter que permanecer no hospital, às vezes por dias", afirma Marcelo.

 

Descriminalização do aborto

Atualmente o aborto é tipificado pelo Código Penal como crime contra a vida. Os artigos que tratam da matéria são o 124, o 125 e o 126. De acordo com o artigo 125, a mulher que provoca o próprio aborto ou se submete voluntariamente ao procedimento pode ser condenada a até três anos de prisão.

Nesse contexto, os resultados da PNA levantam grandes questões sobre a descriminalização do aborto. Para Medeiros, "tratar o aborto como um caso de polícia e não de saúde pública vai continuar fazendo com que as mulheres abortem sem assistência médica, tendo hemorragias, perdendo a capacidade de ter filhos no futuro e correndo riscos graves de saúde". Ele conclui lembrando que os casos previstos na lei brasileira demonstram que quando realizado em condições seguras o aborto não constitui ameaça à saúde da mulher e praticamente não exige internação.

O artigo "Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna" foi publicado na Revista Científica Ciência & Saúde Coletiva (Vol.15, Suplemento 01, Rio de Janeiro, Julho/Agosto 2010), editada pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) e pode ser acessado através da página http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1413-8123

O estudo foi financiado pelo projeto Implementação de Políticas de Atenção à Saúde da Mulher – Política Nacional de Planejamento Familiar, da Diretoria Executiva do Fundo Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.

 

 

Contato:
Debora Diniz
anis@anis.org.br
Telefones: (55 61) 3343.1731 / (55 61) 9323.5016
Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (SER/UnB) e pesquisadora da organização não governamental Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.