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PRESS RELEASE

Rev. Nutr. vol.23 no.5 Campinas Oct. 2010



https://doi.org/10.1590/S1415-52732010010500005 

Qual a importância do consumo frequente de café da manhã para a saúde?

 

 

Pesquisadoras do Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições (NUPPRE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) caracterizaram a importância do consumo do café da manhã para a saúde em texto publicado na Revista de Nutrição, volume 23, número 5 de 2010.

A partir da revisão de artigos científicos publicados sobre o tema, observou-se o estabelecimento de uma relação positiva entre o consumo frequente e adequado do café da manhã com baixo risco de sobrepeso e obesidade, bem como com a melhoria no rendimento escolar. Relaciona-se, assim, o habito de consumir café da manhã com um estilo de vida saudável.

Esta revisão demonstra que, apesar do café da manhã ser considerado, em várias regiões do mundo, uma das 3 principais refeições do dia, juntamente com o almoço e o jantar,  existem evidências científicas da diminuição do seu consumo, o que caracteriza uma modificação importante do comportamento alimentar atual. Entre as razões para o declínio no consumo de café da manhã, destacam-se mudanças no estilo de vida contemporâneo da população, tais como, aumento do número de indivíduos que moram sozinhos, falta de tempo para realizar as refeições e particularidades no consumo de pratos diferentes pelos membros da família.

Cabe destacar que a omissão do café da manhã não é vista como uma atitude saudável, sendo possível relacioná-la com consequências prejudiciais à saúde. O não consumo de café da manhã apresenta relação com aumento do consumo de lanches calóricos (ricos em carboidratos e gorduras), inviabilização da elevação da glicemia aos níveis necessários às atividades matinais e favorecimento de uma possível deficiência de cálcio.

Assim, estudos permitem traçar um perfil dos consumidores frequentes de café da manhã, composto por pessoas adultas que praticam atividade física, não fumantes, que não fazem uso frequente de álcool e que controlam o peso, bem como por crianças e adolescentes com bom rendimento escolar (melhor desempenho cognitivo, atenção, memória para atividades escolares, e frequência escolar). Autores demonstram que crianças e adolescentes que consomem o café da manhã despendem mais tempo nos estudos do que os não consumidores dessa refeição; consequentemente, esses alunos apresentaram melhor rendimento escolar. Por outro lado, o perfil dos não consumidores desta refeição é composto por pessoas com baixa frequência de atividade física, fumantes, que fazem uso frequente de álcool, apresentando sobrepeso e obesidade (principalmente adiposidade visceral) que fazem dietas restritivas sem acompanhamento, bem como por crianças e adolescentes com déficit no aprendizado.

As pesquisas analisadas identificaram que o consumo do café da manhã aumenta com a idade quando se trata de adultos, entre 18 e 60 anos e diminui em crianças e adolescentes, entre 4 e 18 anos. Constatam ainda que, na idade adulta, em geral, o consumo de café da manhã é predominantemente maior que em outras fases da vida. Já na omissão desta refeição cabe destaque as adolescentes do sexo feminino, que se preocupam com a imagem corporal levando a dietas restritivas sem orientação, situação em que a prática de omitir refeições é muito comum e pode levar a sérios problemas de saúde.

As recomendações científicas são de que o café da manhã deve ser uma refeição com alimentos ricos em nutrientes, fontes de fibras, cálcio e energia. Que, para a realidade brasileira, atenda um consumo médio de 500 kcal, o que representa 25% do Valor Energético Total (VET) que é de 2 mil Kcal conforme sugere o Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde para adultos eutróficos. No Brasil, a composição mais habitual do café da manhã é composta por: leite, café, pães, frios (queijos e apresuntados), biscoitos, frutas e sucos de frutas, geléias, manteiga/margarina.

Outro alimento identificado no café da manhã como forma de escolhas saudáveis são os cereais matinais. No entanto, o texto salienta que a escolha deste cereal deve ser encarada com cuidado, pois muitos deles são elaborados com farinhas e açúcar refinados, adicionados de vitaminas e minerais, sendo, portanto, fontes de carboidratos simples e micronutrientes artificiais. Em comparação, são recomendados aqueles cereais matinais elaborados com farinhas integrais, oleaginosas e açúcar mascavo, sendo fontes de carboidratos complexos, fibras, vitaminas e minerais.

Destaca-se também que, frente aos benefícios do consumo do café da manhã para a saúde, surgiram alguns programas nacionais e internacionais, públicos e privados, que visam educar e incentivar crianças e adolescentes para o consumo dessa refeição de forma mais saudável. Tais programas podem potencialmente diminuir a disparidade do consumo nutricional de alimentos e adequar a ingestão alimentar no café da manhã, além de contribuir para a diminuição de sobrepeso e obesidade e para a melhoria do rendimento escolar em crianças e adolescentes.

A contribuição principal deste texto é enfatizar para os profissionais da saúde e órgãos públicos a importância do consumo frequente e adequado do café da manhã e a sua importante relação com um estilo de vida saudável. E, através dos programas de saúde ligados à alimentação, incrementar o incentivo para a realização dessa refeição, objetivando a criação de um hábito alimentar que a inclua.

Este texto serviu de base para o desenvolvimento de um instrumento de Avaliação da Qualidade nutricional e sensorial de bufês de Café da Manhã (AQCM). Esse instrumento pode ser utilizado por gestores de Unidades Produtoras de Refeições (UPR) para avaliar se a oferta de alimentos no bufê de café de amanhã é adequada. Sugere um padrão mínimo para garantir a qualidade nutricional e sensorial desta oferta de alimentos, além de fornecer alternativas de melhorias por meio de um plano de ação estruturado. O instrumento de avaliação desenvolvido respeita a oferta de alimentos saudáveis, regionais e da estação, as opções de melhorias, a forma de apresentação dos alimentos, bem como a disponibilização de informações alimentares importantes para a saúde, dentre outros itens.

A pesquisa foi desenvolvida como uma dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

 

 

Contato:
Rossana Pacheco da Costa Proença
Universidade Federal de Santa Catarina
Curso de Graduação e Programa de Pós-Graduação de Mestrado em Nutrição
e-mail: rossana@mbox1.ufsc.br