<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0101-3300</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Novos Estudos - CEBRAP]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Novos estud. - CEBRAP]]></abbrev-journal-title>
<issn>0101-3300</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro Brasileiro de Análise e Planejamento]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0101-33002012000100009</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.1590/S0101-33002012000100009</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Lebrun, o único em suas propriedades]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giannotti]]></surname>
<given-names><![CDATA[José Arthur]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Cebrap  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<numero>92</numero>
<fpage>133</fpage>
<lpage>141</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-33002012000100009&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0101-33002012000100009&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0101-33002012000100009&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[A partir de uma leitura de O avesso da dialética, de Gérard Lebrun, o autor relembra a influência do filósofo francês no debate filosófico brasileiro contemporâneo.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article recalls the figure of the French philosopher Gérard Lebrun and his influence on philosophical debates in contemporary Brazil.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Gérard Lebrun]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[dialética]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[F. Nietzsche]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[G. W. F. Hegel]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Gérard Lebrun]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[dialectics]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Nietzsche]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Hegel]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp; </p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="enda"></a><b>Lebrun, o &uacute;nico em suas propriedades<a href="#end"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute; Arthur Giannotti</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir de uma leitura de <i>O avesso da dial&eacute;tica</i>, de G&eacute;rard Lebrun, o autor relembra a influ&ecirc;ncia do fil&oacute;sofo franc&ecirc;s no debate filos&oacute;fico brasileiro contempor&acirc;neo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> G&eacute;rard Lebrun; dial&eacute;tica; F. Nietzsche; G. W. F. Hegel.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">The article recalls the figure of the French philosopher G&eacute;rard Lebrun and his influence on philosophical debates in contemporary Brazil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> G&eacute;rard Lebrun; dialectics; Nietzsche; Hegel.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">G&eacute;rard Lebrun chegou ao Brasil pela primeira vez em 1960. Vinha substituir Gilles Gast&oacute;n Granger, que terminara sua segunda estadia entre n&oacute;s, na posi&ccedil;&atilde;o de professor de l&oacute;gica. Seu maior interesse era escrever sua tese sobre Kant. Aos poucos, por&eacute;m, foi adensando o di&aacute;logo com seus colegas e alunos. De um lado, colaborou para perfazer nossa forma&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica; de outro, nos ajudou a desconfiar das modas parisienses. E desde logo tomou dist&acirc;ncia daquele nosso esfor&ccedil;o de repensar o marxismo. S&oacute; mais tarde percebi a situa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil em que o coloquei ao pedir que escrevesse a orelha de <i>Origens da dial&eacute;tica do trabalho</i><a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a>. Basta l&ecirc;-la para que se perceba a delicadeza com que diverge de minha interpreta&ccedil;&atilde;o, ele que havia lido o Hegel de Alexandre Koj&egrave;ve e fora aluno de Jean Beaufret. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas condi&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis dos anos 1970 tent&aacute;vamos recuperar o f&eacute;rtil di&aacute;logo sobre a dial&eacute;tica que se instalara entre n&oacute;s na d&eacute;cada anterior. As circunst&acirc;ncias eram outras, mas ainda est&aacute;vamos interessados numa cr&iacute;tica do desenvolvimento capitalista, principalmente na Am&eacute;rica Latina, que se expandia associado a regimes autorit&aacute;rios. J&aacute; trat&aacute;vamos de perguntar como se processaria a passagem do autoritarismo para a democracia, e j&aacute; t&iacute;nhamos consci&ecirc;ncia de que era preciso deixar de lado os paradigmas do socialismo real, que come&ccedil;ara a cair por terra. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em particular, que heran&ccedil;a Marx nos deixava? Poucos de n&oacute;s rez&aacute;vamos pela cartilha marxista. Os soci&oacute;logos n&atilde;o escapavam da influ&ecirc;ncia de Durkheim, Weber e Marx, cada um apresentando um ponto de vista para entender as v&aacute;rias din&acirc;micas da sociedade. N&oacute;s fil&oacute;sofos, formados na escola da epistemologia francesa, pergunt&aacute;vamos pelo sentido de uma contradi&ccedil;&atilde;o real. Continu&aacute;vamos procurando entender o que poderia ser uma dial&eacute;tica materialista, e eu mesmo tentava examinar os meandros do esquema da produ&ccedil;&atilde;o, do metabolismo do homem com a natureza tal como Marx os pensara em v&aacute;rios momentos de sua carreira. Nas <i>Origens da dial&eacute;tica do trabalho </i>procurei mostrar que o esquema do trabalho manual, mesmo quando atravessado pela aliena&ccedil;&atilde;o, era insuficiente para dar conta dos problemas levantados pela troca mercantil. S&oacute; em <i>Trabalho e reflex&atilde;o</i><a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> amplio meu projeto e tento desenhar a l&oacute;gica do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista como um todo. Procurava tornar mais n&iacute;tida a reflex&atilde;o do capital: partindo da equa&ccedil;&atilde;o de troca M = M, era poss&iacute;vel chegar &agrave;s tr&ecirc;s formas nas quais o capital se apresenta no m&aacute;ximo de sua aliena&ccedil;&atilde;o: o capital produzindo lucro (e juros), a terra, renda, e o trabalho, sal&aacute;rio. Mas ao percorrer esse percurso de Marx chegava &agrave; conclus&atilde;o de que a tend&ecirc;ncia &agrave; baixa da taxa de lucro se esfarelava por causa de tantas outras for&ccedil;as contr&aacute;rias que o pr&oacute;prio desenvolvimento do sistema ia criando. Se essa tend&ecirc;ncia n&atilde;o era interna ao sistema, como o futuro poderia encontrar sua matriz no presente?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, demarcada a estrutura de um modo de produ&ccedil;&atilde;o que parece crescer por si mesmo, cabia desde logo distinguir essa hist&oacute;ria categorial, o desdobrar das categorias umas nas outras, daquela outra hist&oacute;ria, a do seu vir a ser, de tudo aquilo que se fizera necess&aacute;rio para que se instalasse a hist&oacute;ria categorial, respeitando as condi&ccedil;&otilde;es de cada realidade local: o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista n&atilde;o se instala na Europa do mesmo modo que se instala nos Estados Unidos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lebrun seguia esse projeto com olhos cr&iacute;ticos, assim como acompanhava cuidadosamente os trabalhos de meus colegas. De certo modo, seu livro <i>La patience du Concept: Essai sur Le Discours h&eacute;g&eacute;lien</i><a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a> era uma tentativa de nos mostrar como o conceito hegeliano, ao transformar-se em discurso, barrava nossas esperan&ccedil;as de encontrar um fundo materialista em nossas interpreta&ccedil;&otilde;es. E sua an&aacute;lise da nega&ccedil;&atilde;o determinada mostrava como era imposs&iacute;vel inverter qualquer dial&eacute;tica. N&atilde;o foi &agrave; toa que recebeu uma cr&iacute;tica &aacute;cida de Paulo Arantes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos momentos de transi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; comum a academia participar do debate nacional. Procur&aacute;vamos ocupar todos os espa&ccedil;os poss&iacute;veis. O pr&oacute;prio Lebrun come&ccedil;ou a escrever artigos de ocasi&atilde;o para a <i>Folha de S.Paulo</i> e para o <i>Estad&atilde;o</i>, sempre puxando a corda para dar oportunidade a uma reflex&atilde;o filos&oacute;fica. Do outro lado, se Paris demorou a avaliar a import&acirc;ncia de sua obra, n&atilde;o foi por isso que deixava de estar atento &agrave;s suas modas. Seu colega Michel Foucault veio pela primeira vez a S&atilde;o Paulo em 1966, quando nos deu as prim&iacute;cias de <i>Les mots et les choses</i>. Foucault exerceu maior ou menor influ&ecirc;ncia em todos n&oacute;s, e Lebrun foi levado por ele a mergulhar nos estudos nietzschianos. N&atilde;o devemos esquecer, por&eacute;m, que Lebrun lia David Hume constantemente. E uma vez me confessou que estudara Kant para ver se refutava Hume, embora trabalhasse cada vez mais na linha desse fil&oacute;sofo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De certo modo, <i>O avesso da dial&eacute;tica</i><a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a> &eacute; o ponto final no nosso debate. Ao ler Hegel aos olhos de Nietzsche, Lebrun tentava nos mostrar que hav&iacute;amos tomado uma dire&ccedil;&atilde;o errada no nosso esfor&ccedil;o de compreender a modernidade, e que muitas vezes hav&iacute;amos nos perdido pelo caminho. Lembrava ser preciso reler a dial&eacute;tica hegeliana procurando "determinar certas op&ccedil;&otilde;es que ela, sem o dizer, implica"<a name="5b"></a><a href="#5a"><sup>5</sup></a>. Como, por&eacute;m, apontar op&ccedil;&otilde;es num pensamento que prima por corroer todos os seus pr&oacute;prios pressupostos, e no qual a Raz&atilde;o destr&oacute;i, sempre, as marca&ccedil;&otilde;es tra&ccedil;adas pelo Entendimento? Para n&atilde;o mergulharmos inteiramente na ilus&atilde;o de que ter&iacute;amos o "discurso da Verdade", ref&uacute;gio inesperado da teologia<a name="6b"></a><a href="#6a"><sup>6</sup></a>, Lebrun come&ccedil;a por duvidar da exist&ecirc;ncia de um logos inteiri&ccedil;o. N&atilde;o haveria outra maneira de fazer filosofia? "Filosofar poderia muito bem consistir em interrogar a experi&ecirc;ncia que temos das palavras, e em restituir a suas origens diversas as significa&ccedil;&otilde;es cuja verdade os fil&oacute;sofos pretendem reencontrar com o 'discurso s&eacute;rio'. N&atilde;o mais investigar o sentido (que, desde sempre, esperava ser enunciado), mas investigar os acasos de sua forma&ccedil;&atilde;o"<a name="7b"></a><a href="#7a"><sup>7</sup></a>. A defesa do ponto de vista geneal&oacute;gico, aqui, &eacute; evidente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em vez de estudar os interesses de classe, sentimentos inconfess&aacute;veis ou o impensado que orientam uma obra, Nietzsche se atraca contra o car&aacute;ter normativo, impositivo, dos conceitos, em particular do conceito hegeliano. N&atilde;o seria melhor investigar o pr&oacute;prio mecanismo enviesado da forma&ccedil;&atilde;o da norma? Esse tema &eacute; explicitamente tratado no cap&iacute;tulo "A grande suspeita" de <i>O avesso da dial&eacute;tica</i>: "N&atilde;o procurar o que o pensador disfar&ccedil;ava, mas atrav&eacute;s de que 'interpreta&ccedil;&atilde;o' determinada ele nomeava as coisas"<a name="8b"></a><a href="#8a"><sup>8</sup></a>. Cada interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; uma forma de nomear, e, no fundo, diz Nietzsche, n&atilde;o existem coisas, mas apenas interpreta&ccedil;&otilde;es. Da&iacute; seu perspectivismo, a necessidade de sempre nomear o devir levando em conta pontos de vista diferentes, para que ele n&atilde;o perca seu pr&oacute;prio car&aacute;ter m&oacute;vel. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas n&atilde;o seria isso o mesmo que reatar com os sofistas? O que quer dizer, ent&atilde;o, o "nascimento da consci&ecirc;ncia de si", precisamente o tra&ccedil;o marcante da modernidade, tal como Hegel a entende? O que significa essa express&atilde;o? Basta, como mostra Lebrun, dar cr&eacute;dito ao pr&oacute;prio Hegel: "Censurou-se aos sofistas o fato de haverem favorecido as paix&otilde;es, os interesses privados. Isso decorre, imediatamente, de seu modo de cultura. Este fornece <i>diferentes pontos de vista</i>, e depois cabe ao sujeito decidir a seu talante porque n&atilde;o existem fundamentos firmes. A&iacute; est&aacute; o perigo (<i>darin liegt das Gef&auml;hrliche</i>)"<a name="9b"></a><a href="#9a"><sup>9</sup></a>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ora, para Nietzsche "'consci&ecirc;ncia' &eacute; o nome do 'instinto greg&aacute;rio individual', o 'valor infinito do indiv&iacute;duo' &eacute; o nome do apagamento do individual na esp&eacute;cie"<a name="10b"></a><a href="#10a"><sup>10</sup></a>. A den&uacute;ncia se faz no modo de nomear, o que d&aacute; &agrave; filosofia de Nietzsche um car&aacute;ter muito seu. Mas o que importa agora &eacute; que o nome "consci&ecirc;ncia" est&aacute; sendo aplicado para descrever a boa maneira de os indiv&iacute;duos se integrarem na esp&eacute;cie, sobretudo na medida em que passam a controlar suas paix&otilde;es. Mas de onde prov&eacute;m essa liga&ccedil;&atilde;o do "bom" e de toda legalidade? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa legalidade, por&eacute;m, simplesmente se firma como adestramento das puls&otilde;es individuais; mas "estar for&ccedil;ado a lutar contra as puls&otilde;es, eis a f&oacute;rmula da decad&ecirc;ncia". Isso porque toda medida, obtida por esse meio, vem de fora. Desse modo, n&atilde;o se considera a possibilidade de uma domina&ccedil;&atilde;o aut&oacute;ctone do indiv&iacute;duo. Para arranc&aacute;-lo de sua fraqueza e para ensin&aacute;-lo a equilibrar-se &eacute; sempre preciso recorrer a essa repress&atilde;o efetuada pelo <i>nomos: "</i>Ou viver temendo a pr&oacute;pria 'imoralidade', ou atrever-se a provar, contra todos os 'moralizadores', que o amoralismo &eacute; o contr&aacute;rio de uma queda"<a name="11b"></a><a href="#11a"><sup>11</sup></a>. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Nietzsche esse questionamento da norma libera a pot&ecirc;ncia dos seres. No caso particular do homem, a libera para que os mais fortes possam, exercendo suas for&ccedil;as, medirem-se a si mesmos e se tornarem capazes de serem &oacute;timos, isto &eacute;, encarnarem sua vontade de pot&ecirc;ncia como um valor. Somente os mais fortes s&atilde;o capazes de demarcar, no curso do devir, um ponto de parada a que um nome pode referir. Somente os fortes possuem o direito de nomear e assim estabelecer os &acirc;ngulos pelos quais as perspectivas lingu&iacute;sticas podem ser montadas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o nos cabe aqui examinar como Lebrun descreve a demoli&ccedil;&atilde;o nietzschiana de qualquer normatividade, em particular da moralidade. Salientemos apenas que essa nomea&ccedil;&atilde;o &eacute; avaliadora e que ela depende dos mais fortes, os &uacute;nicos capazes de avaliarem a si pr&oacute;prios. Que n&atilde;o se entenda, por&eacute;m, essa fortaleza como simples exerc&iacute;cio da viol&ecirc;ncia. </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>Esp&eacute;cie de homem que seria capaz de "descartar toda confian&ccedil;a, toda bonomia, toda atenua&ccedil;&atilde;o, toda ternura &#91;...&#93;, que se confiaria ao devir sem se preocupar com garantias ou seguran&ccedil;as, e que consideraria a dor e o perigo como estimulantes". Esses fortes nada representam, exceto a Ideia reguladora de uma</i> Einstellung<i> avaliadora inteiramente distinta. N&atilde;o parece que Nietzsche tenha tentado, a s&eacute;rio, localiz&aacute;-los na hist&oacute;ria. E os que, aterrorizados, viram em Nietzsche o apologista pr&eacute;-nazista das "belas feras loiras" deveriam recordar afinal que segundo o autor essa ra&ccedil;a de fortes estava condenada historicamente a perder a partida - que "a regra quer que os homens superiores, as almas de elite sucumbam e naufraguem" </i><a name="12b"></a><a href="#12a"><sup>12</sup></a>.</blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse perspectivismo n&atilde;o h&aacute; palavra abstrata que possa ser referida a um sentido un&iacute;voco. Assim, o que entender pelo nome "vontade de pot&ecirc;ncia"? N&atilde;o &eacute; justamente esse conceito que Heidegger vai tomar como indicador do car&aacute;ter metaf&iacute;sico de todo o pensamento nietzschiano? Se ela &eacute; chamada "ess&ecirc;ncia da vida" &eacute; para que</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>o leitor se previna contra os avaliadores ing&ecirc;nuos que se precipitaram em determinar uma "ess&ecirc;ncia" (esta entre par&ecirc;nteses) da "vida". Assim, a Spencer, que define a vida pela adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s circunst&acirc;ncias, Nietzsche n&atilde;o pretende absolutamente opor uma defini&ccedil;&atilde;o melhor </i>no mesmo terreno<i>. Ele apenas observa - o que &eacute; inteiramente distinto - que a "adapta&ccedil;&atilde;o", longe de ser a &uacute;ltima palavra, pode e deve ser considerada ainda um dos investimentos da vontade de pot&ecirc;ncia, uma das dire&ccedil;&otilde;es que esta tomou. O decifrador da vontade de pot&ecirc;ncia continua a ser o int&eacute;rprete que atravessou a "grande suspeita", o fil&oacute;logo empenhado em acertar as "tor&ccedil;&otilde;es de sentido"; ent&atilde;o como ele poderia sonhar em fazer concorr&ecirc;ncia aos fixadores, aos doutores em defini&ccedil;&otilde;es</i><a name="13b"></a><a href="#13a"><sup>13</sup></a>?</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; textos que confirmam a polissemia do nome "vontade de pot&ecirc;ncia". Lembremos que tanto o mundo pode vir a ser a vontade de pot&ecirc;ncia e nada mais, como essa vontade est&aacute; associada a uma morfologia, cujos t&iacute;tulos seriam vontade de pot&ecirc;ncia como <i>natureza</i>, assim como <i>vida, sociedade, vontade de verdade, religi&atilde;o, arte, moral, humanidade</i>. Como fazer dela um princ&iacute;pio metaf&iacute;sico? Ela &eacute; apenas um decodificador. </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>O decodificador n&atilde;o pretende falar uma linguagem mais profunda ou mais "verdadeira". Contenta-se em remontar at&eacute; ao estoque metaf&iacute;sico m&iacute;nimo, sem o qual jamais teria havido conte&uacute;dos alusivos do devir ou de determinado aspecto de devir, que pudessem depois ser constitu&iacute;dos como signos. Assim compreendida, a vontade de pot&ecirc;ncia responde &agrave; pergunta: o que fez funcionar as imagens? De onde surgiram os "dados imediatos"? Mais do que uma</i> arch&eacute;<i> &eacute; uma indispens&aacute;vel </i>hyl&eacute;<a name="14b"></a><a href="#14a"><sup>14</sup></a>.</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aqui n&atilde;o sigo os passos de Lebrun. Com certeza a vontade de pot&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; princ&iacute;pio, mas uma mat&eacute;ria, como o espa&ccedil;o &eacute; mat&eacute;ria onde as figuras geom&eacute;tricas s&atilde;o desenhadas, assim como a pot&ecirc;ncia &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel de qualquer avalia&ccedil;&atilde;o que demarca um valor ou at&eacute; mesmo a transforma&ccedil;&atilde;o de todos os valores. Mas essa condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel nomeadora, embora n&atilde;o seja princ&iacute;pio, configura todo e qualquer ente como <i>algo</i> ao qual um ponto de vista h&aacute; de ser conformado. Esse nome n&atilde;o passa ent&atilde;o a designar o ser que, a despeito de n&atilde;o ser princ&iacute;pio nem fundamento, caracteriza o ser do que est&aacute; vindo a ser, a identidade que os mais fortes configuram porque s&atilde;o os que t&ecirc;m o direito de nomear? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sim, a vontade de pot&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; uma <i>arch&eacute;</i>, um fundamento, mas um decodificador, uma<i> hyl&eacute;.</i> N&atilde;o vem a ser a mat&eacute;ria plat&ocirc;nica, simples capacidade de receber a forma, mas n&atilde;o estaria pr&oacute;xima da mat&eacute;ria formal aristot&eacute;lica quando um g&ecirc;nero se torna a mat&eacute;ria de suas esp&eacute;cies, o decodificador das diferen&ccedil;as para nelas perceber o nome que as engloba? Mas, se essa interpreta&ccedil;&atilde;o for correta, Heidegger tem toda raz&atilde;o de ver em Nietzsche o &uacute;ltimo dos metaf&iacute;sicos. Nem sempre a metaf&iacute;sica procura um princ&iacute;pio, uma causa primeira, seus vi&eacute;s &eacute; procurar na totaliza&ccedil;&atilde;o do ente como ente outro ente ou entidade respons&aacute;vel por ele vir a ser. Sob esse aspecto, o decodificador &eacute; um ente. A despeito do perspectivismo nietzschiano, as varia&ccedil;&otilde;es s&atilde;o dadas pelo mesmo impulso de vida. Como n&atilde;o podia deixar de ser, Heidegger descreve a hist&oacute;ria do esquecimento do ser a partir do que ele pr&oacute;prio entende por ser. Enquanto totaliza&ccedil;&atilde;o dos entes, enquanto captura deles no que apenas est&atilde;o sendo, o ser <i>se d&aacute;</i> como o mais profundo ser do <i>Dasein</i> enquanto sendo no mundo. Por isso, "s&oacute; h&aacute; ser enquanto h&aacute; <i>Dasein</i>": </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>Ser &eacute; um conceito que o ser humano necessita para poder pensar os entes. Conhecer e pensar os entes e falar deles em enunciados &eacute; o que marca a presen&ccedil;a do ser humano na hist&oacute;ria das conquistas das ci&ecirc;ncias e da t&eacute;cnica. Sem a concomitante pr&eacute;-compreens&atilde;o do ser, nada disso seria poss&iacute;vel. &Eacute; por isso que Heidegger afirma: "T&atilde;o finitos somos n&oacute;s que precisamos do conceito de ser para pensar"</i><a name="15b"></a><a href="#15a"><sup>15</sup></a>.</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>O avesso da dial&eacute;tica</i> foi escrito para nos servir de alerta contra nossa teimosia em recorrer a Hegel para chegar at&eacute; Marx. A resposta irada, como j&aacute; lembramos, veio de Paulo Eduardo Arantes, no artigo "Ideias ao l&eacute;u", uma digress&atilde;o a prop&oacute;sito do livro de Lebrun.J&aacute; na primeira frase do artigo a dire&ccedil;&atilde;o est&aacute; marcada: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>Por que ler Hegel &agrave; luz de Nietzsche, como quer G&eacute;rard Lebrun? Com o perd&atilde;o da enormidade, n&atilde;o seria mais razo&aacute;vel passar de uma vez &agrave; ordem do dia e, antes de prosseguir, examinar &agrave; luz da experi&ecirc;ncia contempor&acirc;nea a poss&iacute;vel atualidade de um cl&aacute;ssico que afinal fez da capacidade de elevar o Presente ao plano do Conceito a prova dos nove de toda filosofia</i><a name="16b"></a><a href="#16a"><sup>16</sup></a>?</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A porrada valia para muitos de n&oacute;s que ainda estud&aacute;vamos os textos filos&oacute;ficos procurando desvendar sua estrutura e seu tempo l&oacute;gico, como se pretend&ecirc;ssemos completar um &aacute;lbum de figurinhas, para tomar uma express&atilde;o de Ruy Fausto. No que me concerne, vale at&eacute; hoje, quando ainda teimo em encontrar as tor&ccedil;&otilde;es por que passam certos conceitos quando s&atilde;o repensados por outros fil&oacute;sofos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, no que consiste essa "experi&ecirc;ncia contempor&acirc;nea" &agrave; luz da qual se pode examinar a atualidade de um cl&aacute;ssico? N&atilde;o &eacute; precisamente a partir da experi&ecirc;ncia da t&eacute;cnica contempor&acirc;nea que Heidegger, tomando essa t&eacute;cnica como a mais completa conforma&ccedil;&atilde;o da metaf&iacute;sica, tra&ccedil;ar&aacute; sua hist&oacute;ria do esquecimento do ser? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Paulo Arantes confia no seu taco. Em <i>Ressentimento da dial&eacute;tica</i><a name="17b"></a><a href="#17a"><sup>17</sup></a>, ele submete a pr&oacute;pria dial&eacute;tica &agrave; prova dos nove da experi&ecirc;ncia. Mas que experi&ecirc;ncia? Como a filosofia n&atilde;o trata de hip&oacute;teses, sua experi&ecirc;ncia precisa se ater &agrave; luta de classes e aos movimentos do capital. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O perigo dessa explica&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de abrir as portas para o psicologismo ou para o sociologismo, &eacute; acreditar que, tendo descoberto a palavra que abre o tesouro de Ali Bab&aacute;, seja poss&iacute;vel acoimar de ideologia todo pensamento que lhe &eacute; adverso. Como diria Lebrun, &eacute; transformar o conceito de ideologia num insulto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Minha dificuldade &eacute; outra. N&atilde;o creio que ningu&eacute;m tenha a chave do que venha a ser a "experi&ecirc;ncia contempor&acirc;nea". Sempre pensamos com ru&iacute;nas do pensamento e a pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia tamb&eacute;m evolui nesse mesmo espa&ccedil;o. Para n&atilde;o confundir o trabalho do fil&oacute;sofo com o trabalho do cientista, creio ser conveniente nos mover no terreno dos sentidos, sempre indagando: O que isto quer dizer? Parece-me dif&iacute;cil, entretanto, legitimar essa teia de sentidos e dos comportamentos que a anima mediante conte&uacute;dos experimentais. Em contrapartida, Paulo Arantes pergunta: que s&atilde;o as experi&ecirc;ncias atuais que nos trazem este emaranhado de textos que estamos acostumados a classificar de filos&oacute;ficos? Na aus&ecirc;ncia desse conte&uacute;do, Lebrun teria girado em falso: "Na falta por&eacute;m de uma reconstru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica material", escreve Paulo Arantes, </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>abafada por grandes filia&ccedil;&otilde;es geneal&oacute;gico-culturais, o que h&aacute; de vertiginoso e desconcertante na arte lebruniana de citar situa&ccedil;&otilde;es do repert&oacute;rio filos&oacute;fico se deve em grande parte &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o imediata de no&ccedil;&otilde;es mal aclimatadas e que assim fulminam &agrave; queima-roupa os altos e baixos da paisagem ideol&oacute;gica pr&oacute;xima, conservando embora o atrativo infal&iacute;vel da cita&ccedil;&atilde;o erudita</i><a name="18b"></a><a href="#18a"><sup>18</sup></a>.</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como &eacute; poss&iacute;vel encontrar a "mat&eacute;ria social" que um discurso filos&oacute;fico formaliza, segundo as pretens&otilde;es de Paulo Arantes? Como reconstruir esse conte&uacute;do de conhecimento? O problema &eacute; cl&aacute;ssico no interior do marxismo, e muitos autores tiveram o cuidado de n&atilde;o pressupor que uma realidade, porque conhecida empiricamente, poderia explicar de modo direto as forma&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Luk&aacute;cs, por exemplo, &eacute; muito consciente dessa dificuldade. Esse real s&oacute; poderia ser desvendado do ponto de vista do proletariado precisamente por causa de sua condi&ccedil;&atilde;o de classe que traz em pot&ecirc;ncia a sociabilidade inteira do futuro. Em <i>Hist&oacute;ria e consci&ecirc;ncia de classe</i>, particularmente no ensaio "A consci&ecirc;ncia de classe", Luk&aacute;cs precisa desenvolver o conceito de <i>possibilidade objetiva</i> ao qual a produ&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica poderia ser referida:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote><i>Reportando a consci&ecirc;ncia &agrave; totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido numa situa&ccedil;&atilde;o vital determinada,</i> se eles tivessem sido capazes de apreender perfeitamente <i>esta situa&ccedil;&atilde;o e os interesses que da&iacute; se seguissem tanto em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o imediata como em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; estrutura, conforme a esses interesses, de toda sociedade; descobrem-se, pois, os pensamentos, etc. que s&atilde;o conforme &agrave; situa&ccedil;&atilde;o objetiva deles<a name="19b"></a><a href="#19a"><sup>19</sup></a></i>.</blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Somente essa adapta&ccedil;&atilde;o do conceito weberiano de tipo ideal permite a Luk&aacute;cs configurar o conceito de falsa consci&ecirc;ncia, isto &eacute;, de ideologia.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote><i>N&atilde;o se trata do que este ou aquele prolet&aacute;rio ou mesmo do proletariado inteiro se</i> representa (vorstellt) <i>num momento como seu fim. Trata-se do que &eacute; o proletariado e do que, conforme ao seu ser</i> (Sein), <i>ser&aacute; historicamente capaz de fazer</i><a name="20b"></a><a href="#20a"><sup>20</sup></a>.</blockquote></font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No pr&oacute;prio Marx esse conceito &eacute; fluido. N&atilde;o &eacute; o proletariado de sua &eacute;poca que pode servir de base para o desvendamento ideol&oacute;gico. Como diz Marx numa frase da <i>Sagrada fam&iacute;lia</i>, que Luk&aacute;cs cita no in&iacute;cio de seu ensaio, &eacute; o pr&oacute;prio ser do proletariado que est&aacute; em quest&atilde;o:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que sentido, por&eacute;m, apresenta esse "ser" que n&atilde;o se confunde com os movimentos dos prolet&aacute;rios sendo? Segundo <i>O Capital</i>, ele seria a imagem do capital social total; seria a unifica&ccedil;&atilde;o do capital numa entidade contradit&oacute;ria que configuraria a matriz capaz de fundir os comportamentos dos prolet&aacute;rios num empuxo revolucion&aacute;rio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mais de cem anos j&aacute; se passaram sem que o movimento das sociedades capitalistas caminhasse nessa dire&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio, os trabalhadores n&atilde;o se identificam como prolet&aacute;rios internacionais, mas segundo categorias e profiss&otilde;es, e est&atilde;o enraizados em regi&otilde;es ou na&ccedil;&otilde;es. Os capitais se fragmentam, e aqueles que conseguem dominar ainda que fugazmente o monop&oacute;lio da inven&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica impedem que se institua um &uacute;nico padr&atilde;o da produtividade para todos os trabalhos. Tenho insistido que, nessas condi&ccedil;&otilde;es, fibrilam as categorias do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista, de sorte que grande parte de sua for&ccedil;a normativa fica &agrave; merc&ecirc; de ajustamentos <i>ad hoc</i>. E essa fibrila&ccedil;&atilde;o afeta a maioria dos sistemas normativos pelos quais pautamos nossas condutas. A norma jur&iacute;dica se exerce na medida em que a jurisprud&ecirc;ncia cobre o espa&ccedil;o entre o que ela manda fazer e os detalhes dessa feitura. Negociamos com as normas &eacute;ticas, principalmente porque elas nos afetam diferentemente se a transgress&atilde;o vem de um amigo &iacute;ntimo ou de atores agindo no espa&ccedil;o p&uacute;blico. E o pr&oacute;prio mundo no qual nos lan&ccedil;amos e que nos abra&ccedil;a somente pode ter uma imagem trincada, como se fosse um espelho partido.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Lebrun tentou contrapor a essa imagem partida a identidade do al&eacute;m do homem, ainda que seu fasc&iacute;nio pela eternidade fosse apenas sub-rept&iacute;cio. Mas afirmou tenazmente o princ&iacute;pio de sua identidade, ainda que pudesse ser contradit&oacute;ria. Foi um anarquista que, mesmo que de forma amig&aacute;vel e calorosa, apostou na capacidade de se individualizar a tal ponto que pudesse pairar acima do jogo dos consensos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> &Eacute; sintom&aacute;tico que, na &uacute;ltima vez que conversamos, me tenha dito: "Na minha vida fui muito imprudente". Imprud&ecirc;ncia, creio eu, que derivou de seu individualismo stineriano. Porque desconfiou da norma fibrilada de hoje, passou a acreditar na possibilidade de criar uma norma &iacute;ntima. No fim de sua carreira, o jovem comunista tinha se convertido num anarquista descrente do valor e da efic&aacute;cia da norma negociada. Da&iacute; seu desprezo pela democracia. Esse individualista empedernido nos deixou uma grande li&ccedil;&atilde;o: sua grande imprud&ecirc;ncia te&oacute;rica e pessoal nunca diminuiu o respeito e o carinho que sempre demonstrou aos amigos e aos advers&aacute;rios. T&atilde;o grande respeito que, nos &uacute;ltimos anos, quando a imprensa brasileira despejou seu lixo em sua vida pessoal, preferia n&atilde;o ver os amigos para n&atilde;o lhes passar uma gota de ressentimento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em 9 de dezembro de 2011.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">JOS&Eacute; ARTHUR GIANNOTTI &eacute; professor em&eacute;rito do Departamento de Filosofia da FFLCH (USP), e pesquisador do Cebrap.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="end"></a>&#91;<a href="#enda">*</a>&#93; Texto apresentado no col&oacute;quio <i>Pensando Lebrun</i>. Centro Universit&aacute;rio Maria Antonia, 19/08/2011.    <!-- ref --><br>  <a name="1a"></a>&#91;<a href="#1b">1</a>&#93; Giannotti, J. A. <i>Origens da dial&eacute;tica do trabalho.</i> S&atilde;o Paulo: Difus&atilde;o Europeia do Livro, 1966.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S0101-3300201200010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>  <a name="2a"></a>&#91;<a href="#2b">2</a>&#93; Giannotti, J. A. <i>Trabalho e reflex&atilde;o: ensaios para uma dial&eacute;tica da sociabilidade</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense, 1983.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000068&pid=S0101-3300201200010000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>  <a name="3a"></a>&#91;<a href="#3b">3</a>&#93; Lebrun, G. <i>La patience du Concept: Essai sur Le Discours h&eacute;g&eacute;lien</i>. Paris: Gallimard, 1972.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000069&pid=S0101-3300201200010000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><    <!-- ref --><br>  <a name="4a"></a>&#91;<a href="#4b">4</a>&#93; Lebrun, G. <i>O avesso da dial&eacute;tica: Hegel &agrave; luz de Nietszche</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1988.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000071&pid=S0101-3300201200010000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>  <a name="5a"></a>&#91;<a href="#5b">5</a>&#93; Ibidem, p. 11.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>  <a name="6a"></a>&#91;<a href="#6b">6</a>&#93; Ibidem, p. 14.    <br>  <a name="7a"></a>&#91;<a href="#7b">7</a>&#93; Ibidem.    <br>  <a name="8a"></a>&#91;<a href="#8b">8</a>&#93; Ibidem, p. 119.    <br>  <a name="9a"></a>&#91;<a href="#9b">9</a>&#93; Ibidem.    <br>  <a name="10a"></a>&#91;<a href="#10b">10</a>&#93; Ibidem.    <br>  <a name="11a"></a>&#91;<a href="#11b">11</a>&#93; Ibidem, p. 118.    <br>  <a name="12a"></a>&#91;<a href="#12b">12</a>&#93; Ibidem, p. 125.    <br>  <a name="13a"></a>&#91;<a href="#13b">13</a>&#93; Ibidem, p. 127.    <br>  <a name="14a"></a>&#91;<a href="#14b">14</a>&#93; Ibidem, p. 130.    <!-- ref --><br>  <a name="15a"></a>&#91;<a href="#15b">15</a>&#93; Stein, E. <i>Pensar e errar</i>. Iju&iacute;: Uniju&iacute;, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S0101-3300201200010000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>  <a name="16a"></a>&#91;<a href="#16b">16</a>&#93; Arantes, P. E. "Ideias ao l&eacute;u", <i>Novos Estudos Cebrap</i>, n. 25, out. 1989, p. 61.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000083&pid=S0101-3300201200010000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>  <a name="17a"></a>&#91;<a href="#17b">17</a>&#93; Arantes, P. E. <i>Ressentimento da dial&eacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Paz e Terra, 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S0101-3300201200010000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>  <a name="18a"></a>&#91;<a href="#18b">18</a>&#93; Arantes, "Ideias ao l&eacute;u", op. cit., p. 67.    <!-- ref --><br>  <a name="19a"></a>&#91;<a href="#19b">19</a>&#93; Luk&aacute;cs, Georg. <i>Hist&oacute;ria e consci&ecirc;ncia de classe</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2012 &#91;1920&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S0101-3300201200010000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.    <!-- ref --><br>  <a name="20a"></a>&#91;<a href="#20b">20</a>&#93; Marx, K. <i>Die Heilige Familie</i>. Dietz Verlag Berlin, 1953, p. 138.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S0101-3300201200010000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giannotti]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Origens da dialética do trabalho]]></source>
<year>1966</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Difusão Europeia do Livro]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giannotti]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Trabalho e reflexão: ensaios para uma dialética da sociabilidade]]></source>
<year>1983</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Brasiliense]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lebrun]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La patience du Concept: Essai sur Le Discours hégélien]]></source>
<year>1972</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lebrun]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O avesso da dialética: Hegel à luz de Nietszche]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Companhia das Letras]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Stein]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Pensar e errar]]></source>
<year>2011</year>
<publisher-loc><![CDATA[Ijuí ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Unijuí]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Arantes]]></surname>
<given-names><![CDATA[P. E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ideias ao léu]]></article-title>
<source><![CDATA[Novos Estudos Cebrap]]></source>
<year>out.</year>
<month> 1</month>
<day>98</day>
<numero>25</numero>
<issue>25</issue>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Arantes]]></surname>
<given-names><![CDATA[P. E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ressentimento da dialética]]></source>
<year>1996</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Paz e Terra]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lukács]]></surname>
<given-names><![CDATA[Georg]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[História e consciência de classe]]></source>
<year>2012</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Martins Fontes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Marx]]></surname>
<given-names><![CDATA[K.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Die Heilige Familie: Dietz Verlag Berlin]]></source>
<year>1953</year>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
