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<publisher-name><![CDATA[Associação Nacional de História - ANPUH]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre a beleza do morto e os excessos dos vivos: folclore e tradicionalismo no Brasil meridional]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Between the beauty of death and the excesses of the living: folklore and traditionalism in Southern Brazil]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Santa Catarina Departamento de História ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article examines the participation of Gauchos in the self-named Brazilian Folkloric Movement (Movimento Folclórico Brasileiro) between the 1940s and 1960s. Local participants are divided into two categories of folklorists: traditional folklorists and the group of intellectuals and artists from the State Folklore Commission (Comissão Estadual de Folclore - CEF), official representative of the National Folklore Commission (Comissão Nacional de Folclore - CNFL) in Rio Grande do Sul. Unequal in authority and social position, the asymmetry of the two groups in the regional and national spheres of mutual recognition is the basis on which the authors distinctly see their ancestrality, professional activities, and the social purpose of folklore studies.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="4">Entre a beleza do morto e os excessos dos    vivos: folclore e tradicionalismo no Brasil meridional<a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>1</sup></a></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Between the beauty of death and the excesses    of the living: folklore and traditionalism in Southern Brazil</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Let&iacute;cia Borges Nedel</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Professora Adjunta, Universidade Federal de Santa    Catarina (UFSC), Campus Universit&aacute;rio Trindade, Departamento de Hist&oacute;ria, 88040-970    Florian&oacute;polis &#150; SC &#150; Brasil, E-mail: <a href="mailto:leticiabnedel@gmail.com">leticiabnedel@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O artigo examina a participa&ccedil;&atilde;o ga&uacute;cha no autodenominado    Movimento Folcl&oacute;rico Brasileiro, entre as d&eacute;cadas de 1940 e 1960. Os participantes    locais s&atilde;o divididos em duas categorias de folcloristas: os folcloristas do    tradicionalismo e o grupo de intelectuais e artistas da Comiss&atilde;o Estadual de    Folclore (CEF), representante oficial da Comiss&atilde;o Nacional de Folclore (CNFL)    no Rio Grande do Sul. A assimetria dos dois grupos &#150; desiguais em autoridade    e posi&ccedil;&atilde;o social &#150; nas esferas regional e nacional de reconhecimento m&uacute;tuo &eacute;    a base sobre a qual os atores conceber&atilde;o distintamente a pr&oacute;pria ancestralidade,    sua atividade profissional e a finalidade social dos estudos de Folclore.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave:</b> Rio Grande do Sul; folclore;    historiografia.</font></p> <hr size="1" noshade>    <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">This article examines the participation of <i>Gauchos</i>    in the self-named Brazilian Folkloric Movement (<i>Movimento Folcl&oacute;rico Brasileiro</i>)    between the 1940s and 1960s. Local participants are divided into two categories    of folklorists: traditional folklorists and the group of intellectuals and artists    from the State Folklore Commission (<i>Comiss&atilde;o Estadual de Folclore</i> &#150; CEF),    official representative of the National Folklore Commission (<i>Comiss&atilde;o Nacional    de Folclore</i> &#150; CNFL) in Rio Grande do Sul. Unequal in authority and social    position, the asymmetry of the two groups in the regional and national spheres    of mutual recognition is the basis on which the authors distinctly see their    ancestrality, professional activities, and the social purpose of folklore studies.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Keywords:</b> Rio Grande do Sul (Brazil);    folklore; historiography.</font></p>   <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">A oscila&ccedil;&atilde;o entre o particularismo rom&acirc;ntico    e o universalismo iluminista permeia o modo como os saberes de conte&uacute;do etnol&oacute;gico    foram concebidos pelas elites letradas do Rio Grande do Sul, entre o final do    s&eacute;culo XIX e os anos imediatamente seguintes &agrave; Segunda Guerra Mundial. No intervalo    correspondente &agrave; fase inaugural de inven&ccedil;&atilde;o dos atributos t&iacute;picos <i>regionais</i>,    o Folclore permaneceu mais pr&oacute;ximo da arte &#150; especificamente da literatura &#150;    do que da ci&ecirc;ncia, embora tamb&eacute;m fosse contemplado por esta ao figurar dentro    da antropologia f&iacute;sica ou dos estudos filol&oacute;gicos, com suas cole&ccedil;&otilde;es de voc&aacute;bulos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Foi somente no curso de redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s    e em meio a um processo de expans&atilde;o das frentes de produ&ccedil;&atilde;o de saber e de diversifica&ccedil;&atilde;o    do mercado de bens 'aut&ecirc;nticos' locais, que duas gera&ccedil;&otilde;es de mediadores culturais    reconheceram nas alteridades internas ao Rio Grande e em particular nos estudos    sobre a <i>cultura popular</i> um objeto e uma especialidade a serem metodologicamente    testados <i>in loco &#150; </i>o que implicava tirar do <i>trabalho de campo </i>e    n&atilde;o mais da literatura seus materiais de 'an&aacute;lise'. Engajados em um movimento    nacional federalizado e integrador &#150; autodenominado <i>Movimento Folcl&oacute;rico    Brasileiro </i>&#150; os interessados em coordenar esfor&ccedil;os na &aacute;rea viram ent&atilde;o a    oportunidade de atualizar as formula&ccedil;&otilde;es legadas pela tradi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rico-liter&aacute;ria    fundada no s&eacute;culo anterior, criando novas expectativas profissionais e ampliando    suas bases concretas de sustenta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O presente artigo aborda os condicionantes desse    engajamento, priorizando a operacionalidade da aproxima&ccedil;&atilde;o de historiadores,    cr&iacute;ticos liter&aacute;rios, escritores e militantes <i>tradicionalistas</i> ga&uacute;chos    com os estudos de folclore. A inten&ccedil;&atilde;o &eacute; observar na interse&ccedil;&atilde;o entre a ordem    pr&aacute;tica e a ordem da linguagem, os meios de neutraliza&ccedil;&atilde;o da arbitrariedade    intr&iacute;nseca aos estere&oacute;tipos que esses autores manipulam. Trata-se, em resumo    &#150; e de acordo com a sugest&atilde;o de Rodolfo Vilhena<a name="tx02"></a><a href="#nt02"><sup>2</sup></a> &#150; de compreender    a inter-rela&ccedil;&atilde;o, em dois planos, do processo formador de tr&ecirc;s identidades complementares:    a identidade profissional dos estudiosos, da especialidade que ajudam a fundar    e do territ&oacute;rio em que situam os fen&ocirc;menos estudados, j&aacute; que neles se reconhecia    uma s&eacute;rie de propriedades intr&iacute;nsecas determinantes de um modo privilegiado    de acesso &agrave; na&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Os <i>fronts</i> da mobiliza&ccedil;&atilde;o</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A movimenta&ccedil;&atilde;o que atraiu a aten&ccedil;&atilde;o de eruditos    e tradicionalistas do Rio Grande do Sul foi coordenada, em n&iacute;vel federal, pela    Comiss&atilde;o Nacional de Folclore (CNFL). Organizada na capital do pa&iacute;s como parte    da conven&ccedil;&atilde;o internacional de cria&ccedil;&atilde;o da Unesco, em 1947, ela liderou o empenho    de intelectuais de v&aacute;rios estados em prol da institucionaliza&ccedil;&atilde;o desses estudos    no Brasil. A a&ccedil;&atilde;o foi conduzida em um ponto intermedi&aacute;rio da trajet&oacute;ria das    Ci&ecirc;ncias Sociais, dentro do qual avan&ccedil;ava a fundamenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de novas problem&aacute;ticas,    como as da mobilidade social, do desenvolvimento econ&ocirc;mico e da moderniza&ccedil;&atilde;o    da sociedade brasileira. Em um cen&aacute;rio decisivo para o desenvolvimento e consolida&ccedil;&atilde;o    da pesquisa e do ensino superior no pa&iacute;s, a Comiss&atilde;o e, a partir de 1958, a    Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (CDFB) mantiveram um programa de estudos    visando atender aos seguintes objetivos: primeiramente, a execu&ccedil;&atilde;o de um "inqu&eacute;rito    folcl&oacute;rico brasileiro". Em segundo lugar, a luta pela preserva&ccedil;&atilde;o das heran&ccedil;as    culturais regionais e sua integra&ccedil;&atilde;o ao calend&aacute;rio c&iacute;vico nacional. Por &uacute;ltimo,    a introdu&ccedil;&atilde;o do folclore no ensino formal em n&iacute;veis fundamental e superior (Vilhena,    1997, p.173-175). Essas medidas foram entendidas como uma pr&eacute;-condi&ccedil;&atilde;o para    "a compreens&atilde;o cient&iacute;fica da cultura popular".<a name="tx03"></a><a href="#nt03"><sup>3</sup></a> Mas n&atilde;o se restringia    a isso; a estrat&eacute;gia era atuar em duas frentes, aliando &agrave; formula&ccedil;&atilde;o &#150; em conjunto    com os intelectuais de diferentes estados do pa&iacute;s &#150; de crit&eacute;rios seguros de    trabalho em uma &aacute;rea tendente ao amadorismo, ao saudosismo e ao gabinete, a    uma a&ccedil;&atilde;o civilizadora de forte conte&uacute;do celebrativo, comprometida com a inclus&atilde;o    das popula&ccedil;&otilde;es rurais &agrave; sociedade nacional.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No &acirc;mbito estadual, o movimento teve dois grupos    concorrentes de interessados. De um lado, os mandat&aacute;rios oficiais da Comiss&atilde;o    Nacional, reunidos em torno da Comiss&atilde;o Estadual de Folclore (CEF), criada em    Porto Alegre em abril de 1948. De outro, um grupo iniciante, formado por jovens    que ao longo das duas d&eacute;cadas seguintes acabariam se constituindo numa elite    de ide&oacute;logos do chamado <i>Movimento Tradicionalista</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O <i>tradicionalismo</i> iniciou com a mobiliza&ccedil;&atilde;o    de oito secundaristas que, um ano antes da cria&ccedil;&atilde;o da CEF (em 1947), criaram,    sob a lideran&ccedil;a de Jo&atilde;o Carlos Paix&atilde;o Cortes, um "Departamento de Tradi&ccedil;&otilde;es    Ga&uacute;chas" no Gr&ecirc;mio Estudantil do Col&eacute;gio Estadual Julio de Castilhos. Depois    de se lan&ccedil;arem ao reconhecimento p&uacute;blico pela organiza&ccedil;&atilde;o de piquetes e desfiles    a cavalo em cerim&ocirc;nias oficiais alusivas &agrave; independ&ecirc;ncia nacional e &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o    Farroupilha, de imediato eles ficaram conhecidos como a vanguarda de um movimento    de massas, cujo marco inicial seria retrospectivamente delimitado em torno da    funda&ccedil;&atilde;o do primeiro Centro de Tradi&ccedil;&otilde;es Ga&uacute;chas &#150; o '35' CTG, criado em Porto    Alegre no mesmo ano de cria&ccedil;&atilde;o da comiss&atilde;o de folclore.<a name="tx04"></a><a href="#nt04"><sup>4</sup></a> </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Reputados como a for&ccedil;a motriz que teria originado    a dissemina&ccedil;&atilde;o de outros CTGs pelo estado (e, um pouco mais tarde, pelo pa&iacute;s    afora), na mesma d&eacute;cada esses e outros autodenominados <i>tradicionalistas</i>    trataram de adquirir, al&eacute;m do reconhecimento p&uacute;blico &agrave;s suas confessadas inten&ccedil;&otilde;es    patri&oacute;ticas, o capital social e o instrumental t&eacute;cnico necess&aacute;rio &agrave; conquista    de um espa&ccedil;o institucional de atua&ccedil;&atilde;o, a ser concretizado por meio da aproxima&ccedil;&atilde;o    com a classe pol&iacute;tica e os eruditos locais. Se com o tempo a expectativa daqueles    jovens de conquistarem a condi&ccedil;&atilde;o de pares de autores regionalmente destacados    acabou frustrada, a inten&ccedil;&atilde;o de exercerem certo 'tradicionalismo especializado'    n&atilde;o deixou de ser amplamente recompensada. A come&ccedil;ar pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o,    nos quais em meados da d&eacute;cada de 1950 Ant&ocirc;nio Augusto Fagundes, Carlos Galv&atilde;o    Krebs, Luis Carlos Barbosa Lessa, Paix&atilde;o Cortes e Glaucus Saraiva j&aacute; tinham    atua&ccedil;&atilde;o destacada. Todos participavam de programas de r&aacute;dio destinados &agrave; propaganda    <i>tradicionalista</i>, tendo ainda nos jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o, como <i>Di&aacute;rio    de Not&iacute;cias</i>, <i>A Hora</i> e <i>Jornal do Dia</i>, garantida a publica&ccedil;&atilde;o    regular de artigos, entrevistas e cartas abertas em colunas especializadas nas    mat&eacute;rias <i>regionalismo e tradi&ccedil;&atilde;o</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O investimento foi reconhecido tamb&eacute;m pelo governo    estadual, que incorporou os rituais de 'proje&ccedil;&atilde;o folcl&oacute;rica' inventados por    eles &agrave;s cerim&ocirc;nias c&iacute;vicas oficiais. Al&eacute;m disso, o alinhamento do 'culto &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o'    com a pesquisa do folclore permitiu-lhes ingressar na m&aacute;quina p&uacute;blica. Isso    ocorreu no &uacute;ltimo ano de mandato do ex-interventor, ent&atilde;o governador petebista    Ernesto Dornelles, quando a Assembleia Legislativa aprovou o projeto de reforma    na Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o. A reforma inaugurava, com outros seis &oacute;rg&atilde;os culturais,    uma institui&ccedil;&atilde;o feita para servir de abrigo e lugar de forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica aos    praticantes daquele culto: o Instituto de Tradi&ccedil;&otilde;es e Folclore (ITF). Ali o    diretor Carlos Galv&atilde;o Krebs criaria, dez anos mais tarde (em 1965), o primeiro    curso de gradua&ccedil;&atilde;o em Folclore do estado &#150; a Escola Superior de Folclore (ESF),    submetida &agrave; "Divis&atilde;o de Acultura&ccedil;&atilde;o" da Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura e dirigida    &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de professores para o ensino b&aacute;sico.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O n&uacute;cleo de arregimenta&ccedil;&atilde;o de intelectuais renomados    em torno do Folclore no Rio Grande do Sul foi a CEF. Diferente do ITF, que lan&ccedil;ou    ao reconhecimento p&uacute;blico um grupo de aprendizes dos afazeres da cultura, a    comiss&atilde;o reuniu sumidades de diversas &aacute;reas, como educa&ccedil;&atilde;o musical, cr&iacute;tica    liter&aacute;ria, dan&ccedil;a, artes pl&aacute;sticas, filologia e pesquisa hist&oacute;rica. Foi comandada,    desde a funda&ccedil;&atilde;o em 1948 at&eacute; 1992, por um dos mais conhecidos historiadores    locais &#150; Dante de Laytano &#150;, e a maioria dos s&oacute;cios pertencia &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de intelectuais    polivalentes que se haviam iniciado na literatura, na cr&iacute;tica e no jornalismo    em Porto Alegre, na segunda metade da d&eacute;cada de 1920. Muitos deles haviam participado    ativamente da campanha revolucion&aacute;ria de 1930, integravam o conhecido 'Grupo    da Livraria do Globo', frequentavam jantares e palanques com autoridades pol&iacute;ticas    e dirigiam ou tinham dirigido os principais &oacute;rg&atilde;os de cultura do estado. Na    nominata de membros, veem-se reunidos s&oacute;cios e dirigentes do Instituto Hist&oacute;rico    e Geogr&aacute;fico do Rio Grande do Sul (IHGRS), professores de hist&oacute;ria, de literatura    e de m&uacute;sica nas Faculdades de Filosofia e de Artes, frequentadores das principais    revistas e jornais de Porto Alegre, enfim, "as express&otilde;es todas da cultura rio-grandense",    como frisou o secret&aacute;rio.<a name="tx05"></a><a href="#nt05"><sup>5</sup></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Embora a participa&ccedil;&atilde;o efetiva dos associados    fosse bastante desigual nas rotinas de trabalho da comiss&atilde;o, ela conseguiu desenvolver    um rol variado e intenso de atividades. Realizou congressos e festivais folcl&oacute;ricos    na capital, integrou as comiss&otilde;es organizadoras de congressos realizados em    outros estados (para onde enviou trabalhos e delega&ccedil;&otilde;es); promoveu cursos de    extens&atilde;o sobre Folclore junto &agrave; c&aacute;tedra de Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira nas Faculdades    de Filosofia da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica (PUCRS) e da Universidade Federal    (UFRGS) &#150; c&aacute;tedras estas chefiadas por Laytano &#150;, al&eacute;m de in&uacute;meras confer&ecirc;ncias    e programas de r&aacute;dio veiculados, ao longo de mais de dez anos, a cada 22 de    agosto, "Dia do Folclore". Ilustra&ccedil;&atilde;o desse empenho &eacute; a terceira coloca&ccedil;&atilde;o alcan&ccedil;ada    pela comiss&atilde;o ga&uacute;cha entre todas as demais em n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es nos cadernos    da CNFL.<a name="tx06"></a><a href="#nt06"><sup>6</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Uma das raz&otilde;es para tamanho interesse na promo&ccedil;&atilde;o    dos estudos folcl&oacute;ricos entre os intelectuais sulinos veio da expectativa, nutrida    por aqueles autores, de superar a posi&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria do estado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s    principais pra&ccedil;as culturais no pa&iacute;s (S&atilde;o Paulo e Rio de Janeiro), superando    tamb&eacute;m os polos regionais concorrentes de produ&ccedil;&atilde;o, como Recife e Bahia. Na    verdade, a 'indiferen&ccedil;a' dos centros cosmopolitas para com as realidades internas    do Brasil funcionava como um elemento estruturante do mercado cultural local,    figurando como um argumento permanentemente acionado nas obras dos autores envolvidos    nos debates sobre os contornos da <i>regi&atilde;o </i>desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo. J&aacute;    naquele tempo, Alcides Maya, considerado o fundador da prosa <i>regionalista    </i>no Rio Grande<i>, </i>reclamava ser o Rio Grande injustamente acusado pelos    "helenos requintados que passeiam pela rua do Ouvidor" de figurar como "uma    esp&eacute;cie de Maced&ocirc;nia de atraso e de barbarismos" (Maya, 1979&#91;1909&#93;, p.20). A    raz&atilde;o disso, supunha o autor, &eacute; que o Brasil como um todo n&atilde;o passava, em est&eacute;tica,    de uma depend&ecirc;ncia da Capital Federal.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Considerada a longevidade e recorr&ecirc;ncia dessa    queixa, a perspectiva aberta pelo chamamento de Renato Almeida ao esfor&ccedil;o articulado    de pesquisa inter-regional e em equipe podia servir de est&iacute;mulo para que autores    regionalmente consagrados, mas nacionalmente desconhecidos, levassem sua hist&oacute;rica    bandeira de 'descentraliza&ccedil;&atilde;o das letras' para fora do Rio Grande. N&atilde;o por acaso,    a sensibilidade de Renato Almeida para com os 'intelectuais de prov&iacute;ncia' foi    sempre o foco do reconhecimento manifesto do secret&aacute;rio da CEF na imprensa de    Porto Alegre. Ali Dante de Laytano fez publicar um artigo dedicado ao presidente    da CNFL, louvando as qualidades democratizantes do coordenador e do movimento:    </font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">Renato Almeida soube ir &agrave;s prov&iacute;ncias, lembrou-se      dos Estados da Federa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o esqueceu os oper&aacute;rios que mourejam quase sem      t&iacute;tulos e de poucas esperan&ccedil;as na &aacute;rdua tarefa do imenso compromisso de fazer      literatura, ci&ecirc;ncia e arte, nas capitais do interior, onde os ecos das pr&oacute;prias      palavras desapareceram abafados no sil&ecirc;ncio das ruas quase sempre tranquilas...<a name="tx07"></a><a href="#nt07"><sup>7</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">De outra parte, a oportunidade de esses autores    ampliarem suas conex&otilde;es com a comunidade intelectual brasileira apresentava-se    exatamente no momento em que as vers&otilde;es heroicas do <i>regionalismo ga&uacute;cho </i>vinham    perdendo legitimidade,<a name="tx08"></a><a href="#nt08"><sup>8</sup></a> e que a fun&ccedil;&atilde;o social da pesquisa vinha sendo    questionada por interpreta&ccedil;&otilde;es que acusavam o teor ideol&oacute;gico das f&oacute;rmulas anteriores    de elucida&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. Reagindo &agrave; press&atilde;o dos m&eacute;todos de disciplinas mais    conceituadas, como a sociologia emergente no centro do pa&iacute;s, os pesquisadores    do folclore reivindicam ent&atilde;o a heran&ccedil;a intelectual das d&eacute;cadas de 1920 e 1930    &#150; &eacute;poca em que 'modernistas', 'tradicionalistas' ou n&atilde;o, do Sudeste e do Nordeste    consagram um padr&atilde;o pluralista e regionalizado de representa&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica da    na&ccedil;&atilde;o. Ao retomarem esses modelos de compreens&atilde;o da realidade nacional, os eruditos    locais tentam explorar o potencial heur&iacute;stico e integrador de objetos, personagens,    m&eacute;todos e fontes n&atilde;o usuais dentro da historiografia local, desde a campanha    aliancista empenhada em confirmar documentalmente o 'republicanismo nato' do    ga&uacute;cho, descrito como centauro-guardi&atilde;o das fronteiras do Imp&eacute;rio. Ao lado dele,    temas como a 'vida familiar', o 'cotidiano', o 'an&ocirc;nimo' e a tradi&ccedil;&atilde;o oral come&ccedil;am    a despertar interesse maior da parte de acad&ecirc;micos e literatos das d&eacute;cadas de    1940 e 1950, preocupados em alargar o nicho de inser&ccedil;&atilde;o da <i>regi&atilde;o </i>e de    seus porta-vozes no repert&oacute;rio simb&oacute;lico nacional. 'Vista de baixo', a hist&oacute;ria    da forma&ccedil;&atilde;o sulina deixava de ser apenas o cap&iacute;tulo militar da hist&oacute;ria do Brasil    para se incorporar &agrave;s p&aacute;ginas mais valorizadas da <i>civiliza&ccedil;&atilde;o luso-brasileira</i>    erguida nos tr&oacute;picos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Incentivador entusiasta da divulga&ccedil;&atilde;o da obra    de Gilberto Freyre no e sobre o estado, o presidente da CEF afirmava ent&atilde;o a    afinidade da Hist&oacute;ria com os estudos de folclore, e a solidariedade de ambos    para com o projeto mais amplo de rever os meios de afirma&ccedil;&atilde;o da brasilidade    sulina. Para tanto, apontava a necessidade de atualiza&ccedil;&atilde;o da imagem rural e    militarista do ga&uacute;cho retratado nos textos fundadores da historiografia: "O    ga&uacute;cho n&atilde;o morreu. Ele evoluiu. &Eacute; preciso que se assinalem os ciclos hist&oacute;ricos,    colocando sua personalidade viril, extraordin&aacute;ria, de guerreiro ou revolucion&aacute;rio    a &eacute;pocas do passado".<a name="tx09"></a><a href="#nt09"><sup>9</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Para a juventude tradicionalista, no entanto,    o invent&aacute;rio do folclore regional era justamente o meio de devolver a vida a    esse ga&uacute;cho do passado. A 'retromania' <a name="tx10"></a><a href="#nt10"><sup>10</sup></a> introduzida pela onda tradicionalista    na d&eacute;cada de 1950 trouxe uma diversidade de agentes para competir em um mercado    de bens culturais 'aut&ecirc;nticos' em franca expans&atilde;o. Atrav&eacute;s da prolifera&ccedil;&atilde;o de    CTGs, da promo&ccedil;&atilde;o de festivais gauchescos, rodeios, desfiles, concursos e outras    formas de inclus&atilde;o, nesse mercado, de in&uacute;meros interessados em folclore n&atilde;o    necessariamente ligados aos meios intelectuais, a figura emblem&aacute;tica do <i>centauro    dos pampas </i>imp&ocirc;s-se no centro da reflex&atilde;o coletiva sobre o passado, que    j&aacute; n&atilde;o se limita a ser inventariado, mas &eacute; presentificado pelo culto ritual    &agrave; <i>tradi&ccedil;&atilde;o</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Folclore para americano ver: o 35</font></b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">H&aacute; lugar, no '35', para todos os que desejam      trabalhar em prol das tradi&ccedil;&otilde;es ga&uacute;chas. A porteira do '35' est&aacute; aberta a      todos aqueles que nos queiram auxiliar. N&atilde;o &eacute; s&oacute; de ga&uacute;chos largados que precisamos,      o que bem demonstram as nossas invernadas. A fim de alcan&ccedil;armos plenamente      o nosso objetivo, necessitamos da coopera&ccedil;&atilde;o de todos, principalmente de intelectuais      e artistas, a quem procuraremos mostrar a fartura de elementos que o Rio Grande      fornece a todas as obras culturais.<a name="tx11"></a><a href="#nt11"><sup>11</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">Com esse chamamento, publicado em mat&eacute;ria assinada    por Luis Carlos Barbosa Lessa para a <i>Revista do Globo </i>em 1948, o estudante    secundarista Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido, natural de Dom Pedrito, futuro m&eacute;dico e ent&atilde;o    <i>patr&atilde;o </i>do 35 CTG, frisava o car&aacute;ter culturalmente respons&aacute;vel do mais    recente 'centro gauchesco' criado na capital, e a disposi&ccedil;&atilde;o dos afiliados de    cumprirem um des&iacute;gnio comum, &uacute;til aos artistas e aos intelectuais de Porto Alegre.    Tratava-se de inventariar o folclore que todos davam por desaparecido no Rio    Grande.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A reportagem &#150; cujo texto mal disfar&ccedil;a a simpatia    pessoal do rep&oacute;rter &agrave; causa divulgada &#150; estrutura-se em tr&ecirc;s tempos, de modo    a representar o passado desprovido, o presente promissor e o futuro glorioso    desse intento preservacionista. O primeiro momento &eacute; representado por uma 'tarde    mormacenta' de 1946, em que um casal de fot&oacute;grafos do <i>Reader's Digest</i>    &#150; "de cabelos estranhamente louros e um jeito que logo cheirava a terras long&iacute;nquas"    &#150; apela &agrave; reda&ccedil;&atilde;o da <i>Revista do Globo </i>para divulgar no exterior os cen&aacute;rios    pitorescos da ponta austral do Brasil. Justino Martins, lend&aacute;rio diretor da    revista, explica em mau ingl&ecirc;s aos forasteiros "que um ga&uacute;cho aut&ecirc;ntico constitu&iacute;a    verdadeira raridade em Porto Alegre e arredores". O &uacute;nico jeito seria uma viagem    &agrave; Campanha. Sem tempo para isso, Mr. Beening<i> </i>(como se chamava um dos    fot&oacute;grafos) d&aacute; "meia-volta" e deixa o estado no dia seguinte, sem levar nada    "que dissesse respeito ao nosso ga&uacute;cho" (Lessa, 1948). </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Segundo momento: outubro de 1948 &#150; seis meses    depois de fundado o <i>35</i>, um m&ecirc;s antes da publica&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria. A hist&oacute;ria    &eacute; parecida, mas o final diferente: Ruth Anderson, fot&oacute;grafa da <i>Hispanic Society    of America</i> de Nova York, dirige-se ela tamb&eacute;m &agrave; reda&ccedil;&atilde;o da <i>Revista</i>    para perguntar, desta vez ao ilustrador Nelson Boeira, onde fotografar ga&uacute;chos    e costumes gauchescos. Boeira responde, em portugu&ecirc;s mesmo, que no <i>35</i>    Centro de Tradi&ccedil;&otilde;es Ga&uacute;chas isso seria poss&iacute;vel. O desenhista (decerto atrav&eacute;s    do colega de reda&ccedil;&atilde;o, Barbosa Lessa) faz contato com o grupo de rapazes. Estes    montam, em um dos seus 'chimarr&otilde;es' semanais, um 'curso r&aacute;pido de<i> </i>regionalismo'    para a viajante.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Abrilhantando o 'Livro de Presen&ccedil;as' daquele    'galp&atilde;o crioulo', a fot&oacute;grafa tem ent&atilde;o a oportunidade de vasculhar 'os arquivos    em forma&ccedil;&atilde;o do <i>35</i>'. Como parte do segmento <i>indoor</i>, por assim dizer,    do mencionado 'curso', s&atilde;o-lhe apresentadas as vestimentas t&iacute;picas do ga&uacute;cho    'desde o per&iacute;odo da coloniza&ccedil;&atilde;o at&eacute; a &eacute;poca atual', al&eacute;m de 'composi&ccedil;&otilde;es populares    executadas por instrumentos t&iacute;picos' e 'um grupo de gauchinhas bailando dan&ccedil;as    regionais'. Na falta de tempo ou dinheiro para acompanh&aacute;-la &agrave; fronteira, as    demonstra&ccedil;&otilde;es ao ar livre se desenvolvem na fazenda de um conhecido, na cidade    vizinha de Viam&atilde;o. Ali 'dois ga&uacute;chos do <i>35</i>' &#150; o <i>patr&atilde;o</i> Ant&ocirc;nio    C&acirc;ndido e o '1º Agregado das Pilchas' (tesoureiro) Jo&atilde;o Carlos Paix&atilde;o    C&ocirc;rtes &#150; mostram a Ms. Anderson o vigor do trabalho campeiro. 'Auxiliados' por    funcion&aacute;rios do estabelecimento, eles desfilam diante dos olhos e das lentes    da fot&oacute;grafa todas as lidas que caracterizam 'a vida de nossas est&acirc;ncias', desde    o 'banho no gado' at&eacute; a 'doma de potros'. No encerramento vem a parte recreativa,    coroada por um gordo churrasco regado &agrave; caninha de Santo Ant&ocirc;nio da Patrulha.    Tudo devidamente registrado em quase uma centena de fotos que noticiar&atilde;o a exist&ecirc;ncia    do ga&uacute;cho brasileiro a Nova York.<a name="tx12"></a><a href="#nt12"><sup>12</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A roupagem jornal&iacute;stica aplicada ao epis&oacute;dio    deixa no leitor a impress&atilde;o de tratar-se o <i>35</i> de um complexo cultural    bem aparelhado, uma esp&eacute;cie de parque tem&aacute;tico erguido como a sucursal urbana    de uma propriedade rural de cria&ccedil;&atilde;o pecu&aacute;ria. Mal se percebe, no in&iacute;cio da narrativa,    que as <i>can&ccedil;&otilde;es populares</i> apresentadas a Ms. Anderson pelos 'professores    de <i>gauchismo</i>' eram, na verdade, cria&ccedil;&otilde;es de um elenco diminuto de estudantes    e escoteiros rec&eacute;m 'convertidos' em <i>ga&uacute;chos </i>&#150; ou, por outra, que tinham    iniciado sua ades&atilde;o aos valores e aos costumes rurais da campanha exatamente    ao mudarem para a capital. Essa trupe t&atilde;o dispon&iacute;vel de trovadores, dan&ccedil;arinos,    poetas e contadores de 'causos', &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de uns poucos integrantes, tinha    uma familiaridade n&atilde;o mais do que indireta com a vida no campo. A maioria dos    rapazes aprendera o que sabia nos livros, e a leitura come&ccedil;ara pouco antes,    quando em reuni&otilde;es informais em casa de colegas, feitas nos intervalos do trabalho    e da escola, vestiam-se 'a car&aacute;ter' para tomar chimarr&atilde;o ao redor de um 'fogo    de ch&atilde;o' e "ensina&#91;rem&#93;-se mutuamente fatos de nossa hist&oacute;ria, coisas da vida    campeira, aspectos importantes de nossa forma&ccedil;&atilde;o, curiosidades bibliogr&aacute;ficas    e lingu&iacute;sticas" (Ferreira, 1987, p.55-56).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Desses encontros, e da imagina&ccedil;&atilde;o improvisada    do comerci&aacute;rio palmeirense Wilmar Winck de Souza, tesoureiro e 1&#186; <i>Trovador    </i>do <i>35</i>, devem ter sa&iacute;do as 'aut&ecirc;nticas trovas' assistidas pela fot&oacute;grafa.    Os 'causos' n&atilde;o raro eram vers&otilde;es coloridas de hist&oacute;rias ouvidas por Cyro Dutra    Ferreira quando passava f&eacute;rias na propriedade de seu pai, em General C&acirc;mara.    Os 'instrumentos t&iacute;picos' ficavam a cargo do '1&#186; gaiteiro', Paulo 'Grosso'    Caminha &#150; escoteiro que, junto com Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido, tamb&eacute;m cantava &#150;, do rep&oacute;rter    Lessa e de Jacinto Camargo &#150; este &uacute;ltimo j&aacute; homem feito, descrito como instrumentista    'quieto e reservado' que aparentemente comparecia apenas nos ensaios (Ferreira,    1987, p.75). </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Os declamadores eram tr&ecirc;s. Al&eacute;m de Paix&atilde;o C&ocirc;rtes,    que fazia de tudo um pouco (era tamb&eacute;m cantor, dan&ccedil;arino, ator, core&oacute;grafo)    e do uruguaianense Dirceu Tito Lopes &#150; que, segundo o companheiro Cyro, "declamava    com invulgar sentimento e express&atilde;o corporal &#91;mas&#93; s&oacute; gostava (ou s&oacute; sabia mesmo)    uma poesia, a <i>Carreirada</i> de Vargas Neto" &#150; havia Glaucus Fonseca Saraiva.    Este &uacute;ltimo, escoteiro nascido em S&atilde;o Jer&ocirc;nimo, securit&aacute;rio por profiss&atilde;o e    nas horas vagas lutador de boxe e poeta em forma&ccedil;&atilde;o, seria conhecido como autor    do mais famoso poema <i>tradicionalista </i>(o <i>Chimarr&atilde;o</i>), bem como da    ideia de adotar as designa&ccedil;&otilde;es de uma est&acirc;ncia para os encargos da associa&ccedil;&atilde;o.    'Tio Waldomiro', s&oacute;cio mais velho entre os 24 fundadores,<a name="tx13"></a><a href="#nt13"><sup>13</sup></a><sup>    </sup>era um senhor da vizinhan&ccedil;a de C&ocirc;rtes, que por seu jeito e 'sabedoria'    costumava ser convocado para as apresenta&ccedil;&otilde;es &#150; nas quais os causos e as declama&ccedil;&otilde;es,    em vista do parco repert&oacute;rio coreogr&aacute;fico e musical dispon&iacute;vel, serviam principalmente    "para preencher os espa&ccedil;os" (Ferreira, 1987, p.76). </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">J&aacute; as 'gauchinhas' (um ano mais tarde batizadas    de 'prendas'),<a name="tx14"></a><a href="#nt14"><sup>14</sup></a> eram as irm&atilde;s, primas, colegas e namoradas dos rapazes.    Vestidas de chita, elas reproduziam as bricolagens coreogr&aacute;ficas que Cortes,    com Barbosa Lessa, arduamente vinha montando de descri&ccedil;&otilde;es em almanaques e anu&aacute;rios,    nos escritos de Cezimbra Jacques, Apolin&aacute;rio Porto Alegre, de Von Koseritz,<a name="tx15"></a><a href="#nt15"><sup>15</sup></a><sup>    </sup>na literatura <i>regionalista </i>(como a obra <i>Os amores do Capit&atilde;o    Paulo Centeno</i>)<a name="tx16"></a><a href="#nt16"><sup>16</sup></a><sup> </sup>e nas colet&acirc;neas mais recentes de    folcloristas como Augusto Meyer, Walter Spalding e Dante de Laytano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Como diz a m&aacute;xima italiana, <i>se non &egrave; vero    &egrave; bene trovato</i>. O que a viajante norte-americana assistiu era uma vers&atilde;o    ainda um tanto rascunhada dos futuros espet&aacute;culos <i>tradicionalistas </i>de    'proje&ccedil;&atilde;o folcl&oacute;rica' &#150; que a partir de 1950 correriam ch&atilde;o em festivais e congressos,    programas de r&aacute;dio e em turn&ecirc;s levadas aos teatros do interior do estado, &agrave;s    capitais do Brasil, e at&eacute; ao Olympia de Paris, em 1958. A tais alturas, j&aacute; dispondo    de um contato mais profundo com a bibliografia e os estudiosos do assunto, os    folcloristas do <i>tradicionalismo </i>passam a designar suas cria&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas    desse modo (como 'proje&ccedil;&otilde;es'), em reconhecimento ao fato de n&atilde;o serem nelas    exibidos elementos folcl&oacute;ricos em suas vers&otilde;es 'originais', isto &eacute;, 'espont&acirc;neas'.    Confirmando a tese unanimemente reconhecida do 'desaparecimento' do folclore    no Rio Grande, eles assumem o papel de restauradores desse acervo perdido, ao    defenderem a incorpora&ccedil;&atilde;o de variantes estilizadas &#150; mas documentalmente fundamentadas    &#150; a um patrim&ocirc;nio que 'existia antes e desapareceu'. Afinal, nada impedia que    algum dia essas artes 'voltassem a ser folcl&oacute;ricas', desde que "a massa popular    &#91;as interpretasse&#93; com a mesma espontaneidade e atualidade com que fala ou trabalha,    sem a autoconsci&ecirc;ncia de estar cultuando artisticamente vest&iacute;gios do Passado".<a name="tx17"></a><a href="#nt17"><sup>17</sup></a>    </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Antes de examinar mais a fundo esse argumento,    caberia um par&ecirc;ntese para identificar os diferentes est&aacute;gios de sua elabora&ccedil;&atilde;o.    O objetivo &eacute; verificar, na trajet&oacute;ria desse projeto restaurador,<i> </i>pontos    de inflex&atilde;o importantes para a problem&aacute;tica aqui levantada &#150; qual seja, a concorr&ecirc;ncia    instalada pela diversifica&ccedil;&atilde;o das esferas e modalidades sociais de produ&ccedil;&atilde;o    da mem&oacute;ria social no Rio Grande do Sul. A periodiza&ccedil;&atilde;o abrange os acontecimentos    que assinalam duas muta&ccedil;&otilde;es essenciais &#150; primeiro, a transforma&ccedil;&atilde;o de um clube    (o <i>35</i>) em QG de um movimento (o <i>tradicionalismo</i>); segundo, a incorpora&ccedil;&atilde;o    desse mesmo movimento e das pr&aacute;ticas celebrativas que ele comporta, ao patrim&ocirc;nio    'perdido' que os <i>experts</i> <i>tradicionalistas </i>desejavam desvendar.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Seguindo o rastro documental deixado pela mobiliza&ccedil;&atilde;o,    e tomando por base, nesse procedimento, tanto o conte&uacute;do dos textos como a pr&oacute;pria    varia&ccedil;&atilde;o na quantidade de fontes dispon&iacute;veis, podem ser fixados tr&ecirc;s per&iacute;odos-chave    nesse processo, distribu&iacute;dos entre os anos 1948-1952, 1952-1956 e 1956-1965.    No primeiro intervalo, o car&aacute;ter mais rarefeito das not&iacute;cias jornal&iacute;sticas sobre    os CTGs indica que<i> </i>at&eacute; 1950, a milit&acirc;ncia <i>tradicionalista</i> resumia-se    ao <i>35</i>, a mais duas agremia&ccedil;&otilde;es da capital e quatro do interior.<a name="tx18"></a><a href="#nt18"><sup>18</sup></a><sup>    </sup>Articuladas em torno do <i>35</i>, as lideran&ccedil;as voltavam suas a&ccedil;&otilde;es,    de um lado, &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da estrutura e das diretrizes internas ao centro e,    de outro, &agrave; propaganda, cumprindo o objetivo regimental de fomentar a prolifera&ccedil;&atilde;o    desses n&uacute;cleos pelo estado. Nessa fase, a preocupa&ccedil;&atilde;o mais imediata era justamente    com dar visibilidade social &agrave; forma de proselitismo que haviam inaugurado. Para    tanto, ao mesmo tempo em que promoviam interven&ccedil;&otilde;es, rituais e informais, sobre    o espa&ccedil;o p&uacute;blico de Porto Alegre, os aprendizes investiam na inicia&ccedil;&atilde;o de pesquisa    em folclore, procurando o aval da comunidade intelectual.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O momento seguinte, marcado pela expans&atilde;o do    'culto &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es', define o destino malfadado dessa alian&ccedil;a entre 'novatos'    e 'mestres'. Ele inicia com a multiplica&ccedil;&atilde;o acelerada de CTGs, &eacute; pontuado pelo    aparecimento dos centros mais ativos do interior e, na capital, pela forte penetra&ccedil;&atilde;o    de <i>tradicionalistas </i>na m&iacute;dia escrita e na ind&uacute;stria cultural (cinema,    m&uacute;sica, publicidade e turismo). Do ponto de vista doutrin&aacute;rio, o ponto alto    &eacute; a partida &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o anual dos Congressos, nos quais a unifica&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica    dos CTGs ser&aacute; perseguida sob uma diretriz eminentemente 'popular' e antiacad&ecirc;mica,    oficialmente assumida em 1954. Nas palavras dos atores, o momento representa    a fase de 'transcend&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o'. Reconhecidos como representantes de    um movimento de massas, os militantes anunciam a miss&atilde;o de tornar 'consciente    o gauchismo espont&acirc;neo e bruto' do 'povo', mediante um "trabalho de alta estiliza&ccedil;&atilde;o    e aprimoramento".<a name="tx19"></a><a href="#nt19"><sup>19</sup></a> Esse trabalho desaguar&aacute; n&atilde;o s&oacute; na fus&atilde;o progressiva    das 'tradi&ccedil;&otilde;es' recentemente inventadas com o 'folclore' &#150; objeto do interesse    'cient&iacute;fico' dos autores ligados &agrave; CNFL &#150;, mas na ruptura entre duas gera&ccedil;&otilde;es    de mediadores culturais. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Finalmente, uma terceira fase abre-se no &uacute;ltimo    ter&ccedil;o da d&eacute;cada, com a subida de uma elite mais especializada do <i>tradicionalismo</i>    &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es de governo. Nesse contexto, a consolida&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o intelectual    dos ide&oacute;logos, al&eacute;m de instalar a rivalidade aberta entre o ITF e a CEF, insinua    dentro do pr&oacute;prio movimento as tens&otilde;es entre 'especialistas' e 'amadores', entre    o <i>tradicionalismo</i> 'aut&ecirc;ntico' e o 'comercial' ou 'festivo'. Simultaneamente,    no campo da interven&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica, j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais o <i>ga&uacute;cho antigo </i>o objeto    &uacute;ltimo da celebra&ccedil;&atilde;o, mas os <i>ga&uacute;chos atuais</i>, representados pelo pante&atilde;o    de fundadores da festa <i>tradicionalista</i>, j&aacute; incorporada ao repert&oacute;rio    cultural 'popular' do Rio Grande do Sul como uma esp&eacute;cie inconteste de 'fato    folcl&oacute;rico nascente'. Para usar a s&iacute;ntese lapidar de Daniel Fabre, o 'espet&aacute;culo    da hist&oacute;ria' cede lugar ent&atilde;o a uma 'hist&oacute;ria do espet&aacute;culo'.<a name="tx20"></a><a href="#nt20"><sup>20</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Esse par&ecirc;ntese obriga reconhecer que, ao tempo    da visita de Ms. Anderson, 'tradicionalista' n&atilde;o era mais do que o sujeito aferrado    aos valores e usos do passado. De fato, o <i>tradicionalismo</i> como tal n&atilde;o    tinha sido inventado, e a palavra sequer consta na fala dos entrevistados por    Lessa. Talvez por isso mesmo os planos deles se mantivessem, at&eacute; ent&atilde;o, mais    voltados a prover a pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o em assuntos de folclore, hist&oacute;ria e literatura,    do que &agrave;s logo propaladas 'conscientiza&ccedil;&atilde;o das massas' e 'acultura&ccedil;&atilde;o dos imigrantes'.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No come&ccedil;o, para os estudiosos mais velhos e bem    situados, solidarizar-se com as promo&ccedil;&otilde;es dos estudantes tradicionalistas &#150;    fosse pela presen&ccedil;a nas cerim&ocirc;nias, confer&ecirc;ncias e bailes, fosse atrav&eacute;s de    declara&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de apoio &agrave; 'mocidade ga&uacute;cha do CTG <i>35</i>' &#150; de certa    forma significava dar cumprimento ao legado de transmiss&atilde;o e valoriza&ccedil;&atilde;o dos    temas, obras e autores <i>regionais</i>. Nesse prop&oacute;sito, realmente a curiosidade    de ex-alunos por um assunto que desde o Estado Novo deixara de figurar nos curr&iacute;culos    do ensino secund&aacute;rio e superior reclamava a colabora&ccedil;&atilde;o pessoal dos especialistas    na mat&eacute;ria. Em contrapartida, o car&aacute;ter um tanto espetaculoso do ativismo juvenil    'bem intencionado' quanto &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas, mas prec&aacute;rio quanto &agrave;s bases    <i>cient&iacute;ficas </i>que deveriam orient&aacute;-lo, sugeria vigil&acirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Na pr&aacute;tica, as duas exig&ecirc;ncias foram satisfeitas    por uma inicia&ccedil;&atilde;o informal (no sentido de extradocente), oferecida aos potenciais    disc&iacute;pulos por nomes de peso no debate 'folcl&oacute;rico' local, como &Ecirc;nio Freitas    e Castro, Dante de Laytano, Manoelito de Ornellas e Walter Spalding. Atrav&eacute;s    desses autores, a CEF manteve, nos primeiros anos de atua&ccedil;&atilde;o, uma troca intensa    e sistem&aacute;tica com o <i>35</i>, oferecendo aux&iacute;lio e pref&aacute;cios a Barbosa Lessa    e Paix&atilde;o C&ocirc;rtes, avaliando suas pesquisas, emprestando documentos e intermediando    junto ao governo a transfer&ecirc;ncia de cole&ccedil;&otilde;es de museus a CTGs.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Mas, apesar de ass&iacute;dua, a conviv&ecirc;ncia entre <i>tradicionalistas    </i>e eruditos n&atilde;o foi pac&iacute;fica. Depois do entusiasmo inicial de alguns para    com esses 'jovens devotos do Rio Grande', a maioria dos autores ligados &agrave; CEF    n&atilde;o s&oacute; come&ccedil;ou a discordar da &ecirc;nfase dada por eles ao ga&uacute;cho de antigamente,    como desconfiava de que tal ga&uacute;cho nunca tivesse existido &#150; pelo menos n&atilde;o da    forma retratada nos bailes e desfiles <i>tradicionalistas</i>. A maneira de    falar alto, numa linguagem incompreens&iacute;vel ao pr&oacute;prio homem do campo, o luxo    dos paramentos &#150; que n&atilde;o inclu&iacute;am apenas len&ccedil;o, bombacha e bota, mas tamb&eacute;m    instrumentos de trabalho, alguns j&aacute; em desuso como as boleadeiras, e al&eacute;m delas    tiradores, la&ccedil;os, esporas e outras parafern&aacute;lias que dificultavam os movimentos    &#150;, as not&iacute;cias sobre brigas e tiros em meio a churrascadas em congressos de    tradicionalismo regados com muita bebida alco&oacute;lica &#150; tudo financiado com o dinheiro    p&uacute;blico, parecia um disparate. Os ga&uacute;chos 'posti&ccedil;os' dos CTGs n&atilde;o s&oacute; faziam    lembrar do malfadado caudilho, que tanto tempo levou para ser expulso da historiografia,    como feria o <i>ethos</i> um tanto aristocr&aacute;tico dos intelectuais, inspirado    na reprodu&ccedil;&atilde;o do que entendiam ser a cordialidade do homem brasileiro. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Assim, logo depois de um come&ccedil;o realmente 'cordial'    entre 'jovens aprendizes' e 'mestres' experimentados nas atividades intelectuais,    de inicialmente bem impressionados com a valoriza&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica da terra natal pela    juventude, estes passam em seguida a acusar as imprecis&otilde;es, os excessos e o    <i>exclusivismo particularista</i> defendido pelos primeiros. A contar de 1955,    nas entrevistas, artigos e resenhas dos estudiosos mais velhos, tornam-se comuns    declara&ccedil;&otilde;es ocupadas em separar, para a ci&ecirc;ncia do grande p&uacute;blico, o joio popularesco    do trigo folcl&oacute;rico: "N&atilde;o devemos confundir o cultivo c&iacute;vico da tradi&ccedil;&atilde;o com    o rigor cient&iacute;fico da pesquisa folcl&oacute;rica. Sou o primeiro a aplaudir a cria&ccedil;&atilde;o    dos 'Centros de Tradi&ccedil;&otilde;es Ga&uacute;chas' mas sempre dentro da rigorosa discrimina&ccedil;&atilde;o    de seus limites necess&aacute;rios", dizia Meyer &agrave; <i>Revista do Globo</i> em 1956.<a name="tx21"></a><a href="#nt21"><sup>21</sup></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">&Eacute;rico Ver&iacute;ssimo, o mais afamado integrante da    prestigiada mesa para quem Paix&atilde;o C&ocirc;rtes e Barbosa Lessa apresentaram seus primeiros    resultados de pesquisa na Federa&ccedil;&atilde;o Rural do Rio Grande do Sul (Farsul), logo    abandona qualquer eventual simpatia nutrida para com o movimento. Em artigo    intitulado "Um romancista apresenta sua terra", ao refutar o "espanholismo do    Rio Grande", recha&ccedil;a o largo uso dos "buenas, ch&ecirc;, a la fresca e quejantos que    j&aacute; desapareceram praticamente do portugu&ecirc;s do Rio Grande do Sul, sendo hoje    usados apenas por aqueles que, bovaristicamente, querem afirmar seu <i>gauchismo    festivo</i>".<a name="tx22"></a><a href="#nt22"><sup>22</sup></a> J&aacute; Dante de Laytano, que at&eacute; ent&atilde;o costumava, por    ocasi&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es &agrave; patronagem do CTG de Porto Alegre, manifestar a sintonia    "desta reparti&ccedil;&atilde;o &#91;o Museu Julio de Castilhos&#93;, onde o pr&oacute;prio Estado mant&eacute;m    o culto da hist&oacute;ria do passado" com o '35', em correspond&ecirc;ncia trocada em 1955    com os amigos lotados em inst&acirc;ncias superiores da CNFL refere-se ao tradicionalismo    como uma 'mascarada carnavalesca' e aos CTGs pejorativamente como 'sociedades    bailantes'.<a name="tx23"></a><a href="#nt23"><sup>23</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Realmente era preciso coragem para posicionar-se    j&aacute; de sa&iacute;da contra um movimento que, surgido da empolga&ccedil;&atilde;o tel&uacute;rica de ginasianos    e escoteiros &#150; sendo, portanto, inicialmente tomado por inofensivo &#150; nasceu    sancionado pela proximidade com o poder e pela simpatia das multid&otilde;es. Ao optar    por elas, imediatamente o <i>tradicionalismo </i>passou a influir sobre o estado    de for&ccedil;as reinante entre as elites, engendrando disputas no seio da pr&oacute;pria    comunidade de eruditos. Ser pr&oacute; ou contra o movimento tornou-se uma quest&atilde;o    pol&ecirc;mica entre os s&oacute;cios da CEF. Enquanto Manoelito de Ornellas e Walter Spalding    sustentavam o alinhamento como &uacute;nica forma de manter as r&eacute;deas 'morais' e o    rigor 'cultural' do <i>tradicionalismo</i>, para Laytano pareceu melhor evitar    as confus&otilde;es permanecendo calado: "Nada de falar na abelheira, nem de chegar    perto...".<a name="tx24"></a><a href="#nt24"><sup>24</sup></a> </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em publica&ccedil;&otilde;es posteriores, consumado o 'surto'    comemorativo e confirmada sua representatividade social pelo patroc&iacute;nio da m&iacute;dia,    da classe empresarial e do governo, o ainda secret&aacute;rio da CEF, j&aacute; sem expressar    a mesma contund&ecirc;ncia, distinguiria em termos complementares o folclorista, que    &eacute; 'coletor do an&ocirc;nimo', dos cultores da tradi&ccedil;&atilde;o 'neorregional':</font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">Vencidos os impedimentos naturais das novidades,      os CTGs est&atilde;o em plena pujan&ccedil;a e com isto o tradicionalismo pode viver e conviver      com o mundo contempor&acirc;neo. &Eacute; preciso, de qualquer maneira, considerar que      os CTGs foram os agentes din&acirc;micos da restaura&ccedil;&atilde;o de um neorregionalismo.      E os folcloristas de contrapartida, os agentes subjetivos da investiga&ccedil;&atilde;o      erudita, classificat&oacute;ria, analisada e do fato fabricado pelo povo. Os dois      se complementam. (Laytano, 1981, p.144)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">A raiz da diverg&ecirc;ncia, disfar&ccedil;ada na complementaridade    destacada por Laytano, quanto aos crit&eacute;rios de autenticidade acionados nos dois    casos, pode ser buscada na negocia&ccedil;&atilde;o cruzada entre as identidades territoriais    e as identidades sociais (profissionais) dos atores. Neste sentido, vale ressaltar    uma diferen&ccedil;a importante: ao passo que os <i>tradicionalistas </i>autorizam    seus enunciados pela <i>viv&ecirc;ncia</i>, presumindo uma identidade org&acirc;nica com    os portadores do que deve ser preservado (nomeadamente, o 'ga&uacute;cho campeiro'),    o <i>ethos </i>beletrista ligado &agrave; curiosidade 'cient&iacute;fica', sustentada pelos    <i>pol&iacute;grafos</i> da gera&ccedil;&atilde;o anterior, impunha como dever de of&iacute;cio distinguir    a fun&ccedil;&atilde;o aleg&oacute;rica do ga&uacute;cho <i>t&iacute;pico</i>, a diversidade do <i>ga&uacute;cho </i>gent&iacute;lico    e base documentada &#150; isto &eacute;, <i>aut&ecirc;ntica &#150; </i>do ga&uacute;cho <i>hist&oacute;rico</i>.    Assim, enquanto para o primeiro grupo importava a ades&atilde;o subjetiva, mediante    a <i>reprodu&ccedil;&atilde;o</i> <i>material </i>do <i>regionalismo</i> por indiv&iacute;duos convertidos    ao estilo de vida 'campeiro', no segundo a rela&ccedil;&atilde;o com o objeto de proselitismo    era indireta, porque da legitimidade <i>cient&iacute;fica </i>do discurso sobre o folclore    dependia a pr&oacute;pria integridade 'profissional' dos enunciadores. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Por outro lado, naquele momento, os l&iacute;deres nacionais    da CNFL procuraram a fundamentar nessa mesma dicotomia a autonomia de sua disciplina,    quando tentaram dar densidade te&oacute;rica ao alvo de suas an&aacute;lises. Neste ponto,    o dado significativo &eacute; que o princ&iacute;pio inicialmente adotado, respeitante ao    car&aacute;ter 'an&ocirc;nimo' e 'tradicional' do 'fato folcl&oacute;rico', dificultava-lhes justificar    como <i>folcl&oacute;ricas </i>as cria&ccedil;&otilde;es deles pr&oacute;prios &#150; caso de Darcy Azambuja,    por exemplo, que tinha constru&iacute;do sua reputa&ccedil;&atilde;o de escritor <i>regionalista</i>,    e das fontes, quase sempre liter&aacute;rias, trabalhadas como parte da documenta&ccedil;&atilde;o    oral (por exemplo, as obras de Sim&otilde;es Lopes Neto e Ant&ocirc;nio Chimango, que partiam    de uma inspira&ccedil;&atilde;o 'an&ocirc;nima', mas tinham autoria conhecida). </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em vista disso, e tamb&eacute;m da adequa&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria    ao presumido car&aacute;ter 'inacabado' da forma&ccedil;&atilde;o social brasileira, no I Congresso    Brasileiro de 1951 ficaram estabelecidas a 'espontaneidade' e a 'aceita&ccedil;&atilde;o coletiva'    como crit&eacute;rios de valida&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos, bem como de sua coleta e 'an&aacute;lise'    (classifica&ccedil;&atilde;o). Entretanto, o abandono da medida 'tradicional' teve dois efeitos    complicadores. Primeiro, em vez de encerrar as discuss&otilde;es, trouxe resolu&ccedil;&otilde;es    contradit&oacute;rias de parte da Comiss&atilde;o Nacional, com respeito &agrave; conveni&ecirc;ncia de    se estimular a interven&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica sobre as pr&aacute;ticas culturais 'populares',    considerando o risco de sua adultera&ccedil;&atilde;o ou mesmo de favoritismo de algumas,    em preju&iacute;zo de outras. Em segundo lugar, abriu uma brecha para que o pr&oacute;prio    <i>tradicionalismo</i> se legitimasse como um fato 'folcl&oacute;rico nascente', j&aacute;    que as massas vinham 'espontaneamente' aderindo aos h&aacute;bitos e costumes ali reinventados,    e que a autoria de muitas dessas inven&ccedil;&otilde;es j&aacute; se encontrava 'degradada', sendo    a 'aceita&ccedil;&atilde;o coletiva' do movimento um fato inconteste.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Sem mergulhar muito fundo na discuss&atilde;o te&oacute;rica,    os <i>tradicionalistas </i>assumiram abertamente sua vis&atilde;o instrumental dos    saberes dos quais se valiam para criar espet&aacute;culos que eles chamavam 'de proje&ccedil;&atilde;o    folcl&oacute;rica'. Entre eles, a preocupa&ccedil;&atilde;o comum aos 'cientistas' aparecia de maneira    invertida: tratava-se de impor, a despeito de todo o investimento intelectual    necess&aacute;rio &agrave; concretiza&ccedil;&atilde;o das inten&ccedil;&otilde;es 'restauradoras' do movimento, uma identidade    <i>popular </i>e informal aos engajados. A <i>Carta de Princ&iacute;pios</i> do Tradicionalismo,    aprovada no congresso de 1954, mostra bem essa l&oacute;gica de apropria&ccedil;&atilde;o de teorias    reputadas como cient&iacute;ficas<i> </i>pelo revivalismo identit&aacute;rio. Ao justificar    os objetivos do movimento, Barbosa Lessa foi pr&oacute;digo em enumerar pressupostos    extra&iacute;dos do que ficou conhecido na bibliografia sociol&oacute;gica como Escola de    Chicago, citando dois dos representantes mais conhecidos dessa escola no Brasil    &#150; Donald Pierson (do qual fora aluno na ELSP) e Ralph Linton.<a name="tx25"></a><a href="#nt25"><sup>25</sup></a> Mas,    depois de enunciar postulados sobre a import&acirc;ncia dos <i>grupos locais</i> como    transmissores de cultura e meios de coes&atilde;o social, o ide&oacute;logo proclamava seu    car&aacute;ter eminentemente antiespeculativo, disposto a agir "dentro da consci&ecirc;ncia    coletiva". Afirmava que "O Tradicionalismo deve ser um movimento nitidamente    <i>popular</i>, n&atilde;o simplesmente intelectual ... N&atilde;o se deve confundir o Tradicionalismo,    que &eacute; um <i>movimento, </i>com o Folclore, a Hist&oacute;ria, a Sociologia, etc. que    s&atilde;o <i>ci&ecirc;ncias</i>".<a name="tx26"></a><a href="#nt26"><sup>26</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Se &eacute; verdade que a "idealiza&ccedil;&atilde;o do popular &eacute;    tanto mais f&aacute;cil quanto se efetua sob a forma do mon&oacute;logo",<a name="tx27"></a><a href="#nt27"><sup>27</sup></a> a utilidade    dessa no&ccedil;&atilde;o diz respeito &agrave; intera&ccedil;&atilde;o concorrencial entre os grupos mediadores    da cultura, constituindo-se tamb&eacute;m em instrumento de demarca&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria    pelos agentes que se valem dela. Entre os <i>tradicionalistas </i>a identifica&ccedil;&atilde;o    sum&aacute;ria com o homem do campo serve de argumento para criticar os h&aacute;bitos e habitantes    da capital, acusando o 'descompromisso tel&uacute;rico' dos intelectuais que recriminavam    a 'inautenticidade' das tradi&ccedil;&otilde;es por eles inventadas. Inversamente aos nomes    j&aacute; reconhecidos que compunham os autores 'da Globo' na lista de s&oacute;cios da Comiss&atilde;o,    os jovens <i>tradicionalistas </i>vindos do interior n&atilde;o visavam se impor &agrave;    considera&ccedil;&atilde;o das 'rodas' intelectuais do centro do pa&iacute;s, mas da capital porto-alegrense.    Aqui os interlocutores privilegiados s&atilde;o os habitantes e os intelectuais urbanos    (os mais sujeitos &agrave; 'desagrega&ccedil;&atilde;o dos costumes'), a quem se dirigem como porta-vozes    das popula&ccedil;&otilde;es do campo, eleitas 'guardi&atilde;s' da tradi&ccedil;&atilde;o. Assim, ao passo que    os s&oacute;cios da CEF costumavam legitimar-se evocando a desigualdade entre centro    e periferia (uma vez que sua posi&ccedil;&atilde;o regionalmente consagrada era compensada    pela situa&ccedil;&atilde;o de isolamento do cen&aacute;rio nacional), a tens&atilde;o manipulada pelos    <i>tradicionalistas </i>pretende a revers&atilde;o do estigma do <i>grosso </i>interiorano,    operando uma declina&ccedil;&atilde;o interna do <i>regionalismo</i>: o antagonismo campo/cidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Se no discurso da <i>neutralidade cient&iacute;fica</i>    o <i>tradicionalismo </i>peca pelos excessos 'popularescos', na instrumentaliza&ccedil;&atilde;o    festiva e patrimonial do folclore a categoria <i>popular </i>representa, mais    que um objeto de estudo ou fonte de inspira&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, o agente diretamente    respons&aacute;vel pela sustenta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do movimento &#150; e, para efeitos doutrin&aacute;rios,    pela 'regenera&ccedil;&atilde;o moral' de uma sociedade corrompida pelo cosmopolitismo e pelo    progresso. Para os jovens l&iacute;deres tradicionalistas, as investiga&ccedil;&otilde;es subsidiavam    uma pr&aacute;tica celebrativa comprometida com 'devolver' &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es estudadas    pela <i>ci&ecirc;ncia </i>o seu patrim&ocirc;nio cultural. Valorizando o vivido em preju&iacute;zo    do apreendido, e associando o saber mais &agrave; experi&ecirc;ncia do que &agrave; ci&ecirc;ncia, essa    'subintelectualidade', que n&atilde;o tinha entrada nas inst&acirc;ncias 'acad&ecirc;micas' mais    respeit&aacute;veis, escolhe temas espec&iacute;ficos legados pelos concorrentes mais velhos    para desempenhar concretamente tudo o que &#150; aos olhos da tradi&ccedil;&atilde;o <i>regionalista    </i>culta &#150; encarnava o universo gauchesco: a rusticidade, a franqueza, a for&ccedil;a    f&iacute;sica, a coragem e a proximidade com a natureza.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Sob a capa dos atavismos herdados de um tipo    regional criado nas lutas de fronteira, o <i>ethos</i> <i>tradicionalista</i>    compunha uma vis&atilde;o de mundo em que o uso de armas de fogo &#150; outra cr&iacute;tica ponder&aacute;vel    ao movimento &#150; a luta corporal, as palavras agressivas ou escatol&oacute;gicas, longe    de serem atitudes exc&ecirc;ntricas, s&atilde;o um refor&ccedil;o &agrave; identidade pessoal de indiv&iacute;duos    identificados com o ga&uacute;cho de antanho. Esse aspecto apela ao real sentido carnavalesco    do movimento, j&aacute; transformado em um ritual de invers&atilde;o. Os churrascos e os bailes    promovidos pelos CTGs por ocasi&atilde;o de congressos, inaugura&ccedil;&otilde;es e <i>invernadas</i>,    constituem o espa&ccedil;o sagrado de <i>viv&ecirc;ncia </i>de uma<i> </i>&eacute;tica na qual a    experi&ecirc;ncia transgressora &eacute; sancionada, e os impulsos 'naturais' tomam a forma    da aud&aacute;cia e da valentia. Mesmo nas 'reuni&otilde;es de trabalho' dos congressos &#150;    e contrariamente ao cuidado com que os folcloristas da CNFL tratavam de abafar    as diverg&ecirc;ncias surgidas em plen&aacute;rio &#150; a regra &eacute; a disputa acalorada, a argumenta&ccedil;&atilde;o    em verso, o deboche da pr&oacute;pria seriedade do evento.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Sintomaticamente, esse antagonismo entre novos    e velhos 'folcloristas' se refor&ccedil;a &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que o <i>tradicionalismo</i>    adquire uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica e social antes insuspeita &#150; o que lhe permite    firmar-se como um 'fato folcl&oacute;rico nascente' e formar quadros pr&oacute;prios de intelectuais.    Essa passagem &eacute; vivida pelos folcloristas mais velhos como uma esp&eacute;cie de ressurrei&ccedil;&atilde;o    'do morto' mencionado por Certeau. A festa <i>tradicionalista</i>, incorporada    tanto &agrave; 'cultura popular' quanto &agrave; ind&uacute;stria cultural, traz para diante deles    um 'fato folcl&oacute;rico nascente' nada reconfortante. Porque, concretamente, essa    entidade abstrata, o 'popular', ao inv&eacute;s de servir de salvo-conduto &agrave; atualiza&ccedil;&atilde;o    de uma produ&ccedil;&atilde;o letrada, carrega em si a amea&ccedil;a de desqualifica&ccedil;&atilde;o intelectual    daquela produ&ccedil;&atilde;o. Os mortos n&atilde;o falam, mas os mortos-vivos t&ecirc;m porta-vozes,    e o mais grave &eacute; que eles, compondo uma intelectualidade 'menor' dentro do cen&aacute;rio    metropolitano, sendo os mais loquazes e os mais ouvidos, come&ccedil;am a reivindicar    a autoridade de estudiosos &#150; falando aos demais rio-grandenses e brasileiros    em nome dos praticantes, mas tamb&eacute;m dos int&eacute;rpretes do <i>regionalismo</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Considera&ccedil;&otilde;es finais</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Situado em uma perspectiva de 'longa dura&ccedil;&atilde;o'    do processo de constru&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas e valores associados &agrave; heterogeneidade    cultural sulina, o advento do <i>movimento tradicionalista</i>, assinalado pela    cria&ccedil;&atilde;o do primeiro Centro de Tradi&ccedil;&otilde;es Ga&uacute;chas em 1948, distingue-se como uma    nova modalidade discursiva e institucional do chamado <i>regionalismo ga&uacute;cho.    </i>Em outras palavras, como um marco de diversifica&ccedil;&atilde;o social e de inova&ccedil;&atilde;o    formal dos usos da hist&oacute;ria na sociedade sul-rio-grandense. Tal evento funda    a moderniza&ccedil;&atilde;o das formas anteriores de media&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria no Estado brasileiro.    Com seus novos rituais de celebra&ccedil;&atilde;o, ele realiza o imperativo de dramatiza&ccedil;&atilde;o    de um passado comum que se estende das academias e museus para os movimentos    sociais e a m&iacute;dia, tomando parte em um processo de progressiva patrimonializa&ccedil;&atilde;o    da mem&oacute;ria local.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Na conjuntura de crise em que isso acontece,    a refunda&ccedil;&atilde;o do repert&oacute;rio escatol&oacute;gico <i>regional </i>&eacute; submetida ao primado    da experi&ecirc;ncia. Tal subordina&ccedil;&atilde;o &eacute; justificada pelas lideran&ccedil;as <i>tradicionalistas    </i>como uma engenharia necess&aacute;ria &agrave; supera&ccedil;&atilde;o do estado geral de anomia ou    &#150; para usar uma express&atilde;o da &eacute;poca &#150; de 'desagrega&ccedil;&atilde;o social' trazido pelos    processos de moderniza&ccedil;&atilde;o em curso. O desafio real&ccedil;ado aqui ser&aacute; o da <i>descaracteriza&ccedil;&atilde;o    cultural</i> associada &agrave; decad&ecirc;ncia econ&ocirc;mica do <i>habitat</i> civilizacional    do ga&uacute;cho (a zona de campanha, na fronteira sul do estado) e ao crescimento    do &ecirc;xodo rural &#150; simult&acirc;neo &agrave; ascens&atilde;o pol&iacute;tica e num&eacute;rica do contingente descendente    de europeus, que parecia amea&ccedil;ar a perman&ecirc;ncia das tradi&ccedil;&otilde;es <i>aut&oacute;ctones</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Embora todos estivessem sujeitos &agrave;s press&otilde;es    da &eacute;poca, os protagonistas desse processo de <i>aggiornamento</i> do regionalismo    sul-riograndense, detendo prerrogativas desiguais de autoridade e prest&iacute;gio,    mobilizaram crit&eacute;rios e recursos distintos para formatar a classifica&ccedil;&atilde;o <i>regional</i>    e suas deriva&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas (<i>gauchismo</i>, <i>regionalismo, tradicionalismo</i>)    a prop&oacute;sitos e vis&otilde;es de mundo particulares. Esclarecer as acep&ccedil;&otilde;es tomadas    por essas no&ccedil;&otilde;es, sobretudo nos discursos que repetidas vezes tentaram distinguir    uma mobiliza&ccedil;&atilde;o da outra, exige considerar as interlocu&ccedil;&otilde;es sustentadas pelos    enunciadores, segundo as respectivas posi&ccedil;&otilde;es no cen&aacute;rio de produ&ccedil;&atilde;o cultural    &#150; tratando-se a&iacute; de investigar, em suma, a l&oacute;gica pela qual os grupos se autodefiniam    por vezes em termos complementares, por vezes conflitantes.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Na verdade, as atualiza&ccedil;&otilde;es dos modelos paradigm&aacute;ticos    de interpreta&ccedil;&atilde;o do <i>car&aacute;ter regional </i>foram sendo produzidas, como sempre    acontece, em um campo de possibilidades sujeito a avan&ccedil;os e recuos, conforme    as condi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias do momento e do espa&ccedil;o em que os atores circulavam. Sua    elabora&ccedil;&atilde;o sup&otilde;e, portanto, tanto o c&aacute;lculo quanto o improviso, tanto a busca    estrat&eacute;gica por canais institucionais de viabiliza&ccedil;&atilde;o, quanto as alian&ccedil;as t&aacute;ticas,    firmadas na intera&ccedil;&atilde;o com outros agentes e projetos intelectuais em jogo e em    conflito. Pela ordem, o aspecto inicial a ser considerado diz respeito mais    uma vez &agrave; polissemia assumida pelo folclore, &agrave; medida que a categoria passa    a desempenhar um papel central na compreens&atilde;o que os produtores culturais fazem    de si, de seu tempo, de sua sociedade e das alteridades que ela cont&eacute;m. Precisamente    neste ponto, em que o assunto figura como o elo comum a duas gera&ccedil;&otilde;es de mediadores,    cabe indagar sobre os significados atrelados ao constructo do qual frequentemente    os folcloristas lan&ccedil;am m&atilde;o para reivindicar a legitimidade de seus discursos:    o <i>povo</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">As diferentes formas assumidas pela analogia    entre <i>povo </i>e <i>territ&oacute;rio</i> parecem ser a chave discursiva que especifica    as rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a entre o folclore <i>cient&iacute;fico</i> traduzido em uma 'sociologia    hist&oacute;rica' ou 'hist&oacute;ria social' &#150; e reivindicado por uma gera&ccedil;&atilde;o de autores    cosmopolitas que, prestigiada no Rio Grande do Sul, quer ser respeitada pelo    Brasil &#150; e o folclore <i>revivalista</i> propagandeado na capital por jovens    interioranos, ide&oacute;logos de uma legi&atilde;o de 'praticantes an&ocirc;nimos'. Sem abrir m&atilde;o    das formas anteriores da erudi&ccedil;&atilde;o, estes prop&otilde;em o imperativo in&eacute;dito de uma    presen&ccedil;a sens&iacute;vel do passado na vida social (Fabre, 2001, p.31). Essa presen&ccedil;a,    por sua vez, &eacute; capaz de introduzir novos h&aacute;bitos que acabam por instalar a pr&oacute;pria    celebra&ccedil;&atilde;o e seus her&oacute;is fundadores no pedestal da mem&oacute;ria <i>regional</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">NOTAS</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a> Este    artigo &eacute; uma vers&atilde;o revista do &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da    tese de doutorado <i>Um passado novo para uma hist&oacute;ria em crise</i>:    regionalismo e folcloristas no Rio Grande do Sul (1948-1965), defendida no PPG    Hist&oacute;ria da UnB, em 2005. A pesquisa contou com apoio do CNPq.<font face="Verdana">    <br>   </font><a name="nt02"></a><a href="#tx02">2</a> "Sem compreender a maneira como    se articulam essas tr&ecirc;s identidades &#150; a do folclorista, a dos 'fen&ocirc;menos    folcl&oacute;ricos' e a da na&ccedil;&atilde;o &#150;, n&atilde;o compreenderemos    a forma pela qual se desenvolveu a luta institucional travada pelo movimento    folcl&oacute;rico e os resultados a que ela chegou" (VILHENA, L. R. <i>Projeto    e Miss&atilde;o</i>: o Movimento Folcl&oacute;rico Brasileiro (1947-1964). Rio    de Janeiro: Funarte; FGV, 1997. p.126).    <br>   <a name="nt03"></a><a href="#tx03">3</a>ALMEIDA, Renato. <i>Intelig&ecirc;ncia    do folclore</i>. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957. p.9.    <br>   <a name="nt04"></a><a href="#tx04">4</a> Os Centros de Tradi&ccedil;&otilde;es    Ga&uacute;chas, conhecidos como CTGs, s&atilde;o sociedades civis sem fins lucrativos    que funcionam como clubes, com n&uacute;mero de s&oacute;cios ilimitado e de    cunho cultural, isto &eacute;, que n&atilde;o admitem qualquer filia&ccedil;&atilde;o    expressa pol&iacute;tico-partid&aacute;ria ou religiosa. Os temas evocados em    suas designa&ccedil;&otilde;es obedecem &agrave; simbologia gauchesca, dando    express&atilde;o aos valores, ao linguajar, &agrave; gastronomia, &agrave; paisagem,    aos animais emblem&aacute;ticos e outros motivos t&iacute;picos do Rio Grande    do Sul. 'Pala Branco', 'Quero-quero', 'Mate-amargo', 'Rinc&atilde;o da Lealdade',    'Desgarrados do Pago' (nome de um CTG no Rio de Janeiro), ou ainda 'Armada Grande'    s&atilde;o exemplos da nomenclatura utilizada. Independentemente das varia&ccedil;&otilde;es    de perfil mais inclusivo ou mais elitista, todas essas agremia&ccedil;&otilde;es    valem-se da erudi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, da literatura e dos estudos    de folclore para retirar da&iacute; as dan&ccedil;as e alegorias que comp&otilde;em    suas 'invernadas culturais', 'fandangos', 'chimarr&otilde;es festivos', 'rondas',    desfiles e 'rodeios', entre outras formas de encena&ccedil;&atilde;o ritual    dos h&aacute;bitos da campanha, chamados 'campeiros'. A respeito dos CTGs, veja-se    MACIEL, Maria Eunice de Souza. <i>Bail&otilde;es, &eacute; disto que o povo    gosta</i>: an&aacute;lise de uma pr&aacute;tica cultural de classes populares    no Rio Grande do Sul. Disserta&ccedil;&atilde;o (Mestrado em Antropologia Social)    &#150; Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas, Universidade Federal do Rio    Grande do Sul. Porto Alegre, 1984; OLIVEN, Ruben George. <i>A parte e o todo</i>:    a diversidade cultural no Brasil-na&ccedil;&atilde;o. Petr&oacute;polis (RJ):    Vozes, 1992.    <br>   <a name="nt05"></a><a href="#tx05">5</a> Referia-se ele aos historiadores Walter    Spalding e Othelo Rosa, aos music&oacute;logos Elp&iacute;dio Ferreira Paes    e &Ecirc;nio Freitas e Castro; ao arquiteto e escultor Fernando Corona; ao cr&iacute;tico    de artes Aldo Obino, aos escritores, cr&iacute;ticos liter&aacute;rios e historiadores    Moys&eacute;s Vellinho, Guilhermino C&eacute;sar, cel. Luiz Carlos de Moraes,    Manoelito de Ornellas, Athos Damasceno Ferreira, ao sucessor de Alcides Maya    no conto <i>regionalista</i>,<i> </i>Darcy Azambuja, e ao romancista ga&uacute;cho    de maior proje&ccedil;&atilde;o nacional, o "escritor das multid&otilde;es",    &Eacute;rico Ver&iacute;ssimo. LAYTANO, Dante de.<i> Folclore do Rio Grande    do Sul</i>: levantamento dos costumes e tradi&ccedil;&otilde;es ga&uacute;chas.    Caxias do Sul (RS): Educs, 1987. p.146.    <br>   <a name="nt06"></a><a href="#tx06">6</a> Do total da s&eacute;rie <i>Documentos    </i>da CNFL, 47,7% provinham das comiss&otilde;es estaduais. Entre estas, a    CEF do Rio Grande do Sul contempla 10,5% do total de artigos publicados, atr&aacute;s    de S&atilde;o Paulo (com 26%) e Bahia (com 35%). Cf. VILHENA, 1997, p.303. Algumas    Comiss&otilde;es Estaduais mais organizadas, como as de S&atilde;o Paulo, Esp&iacute;rito    Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, chegaram a publicar seus pr&oacute;prios    peri&oacute;dicos, como a revista trimestral <i>Folclore</i> e os cadernos da    CEF do Rio Grande do Sul, estes de periodicidade irregular.    <br>   <a name="nt07"></a><a href="#tx07">7</a> LAYTANO, citado em VILHENA, 1997, p.250.    <br>   <a name="nt08"></a><a href="#tx08">8</a> CORADINI, Odaci Luiz. As miss&otilde;es    da 'cultura' e da 'pol&iacute;tica': confrontos e reconvers&otilde;es de elites    culturais e pol&iacute;ticas no Rio Grande do Sul (1920-1960). <i>Estudos Hist&oacute;ricos</i>,<i>    </i>Rio de Janeiro, n.32, p.125-144, 2003.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt09"></a><a href="#tx09">9</a> LAYTANO, D. <i>O linguajar do ga&uacute;cho    brasileiro</i>. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia S&atilde;o Louren&ccedil;o    de Brindes, 1981. p.231.    <br>   <a name="nt10"></a><a href="#tx10">10</a> A express&atilde;o &eacute; de Jean    Pierre Rioux. La m&eacute;moire collective. In: RIOUX, J. P.; SIRINELLI, J.    F. <i>Pour une histoire culturelle</i>. Paris: Seuil, 1997. p.235-253.    <br>   <a name="nt11"></a><a href="#tx11">11</a> LESSA, Lu&iacute;s Carlos B. Trinta    e Cinco. <i>Revista do Globo</i>, Porto Alegre, n.471, p.37-39; 74-75, 20 nov.    1948.    <br>   <a name="nt12"></a><a href="#tx12">12</a> Assim os fundadores designavam a sede    do <i>35</i>. A essa altura ela j&aacute; tinha se transferido das casas de    Paix&atilde;o C&ocirc;rtes e Cyro D. Ferreira, na rua Sarmento Leite, e do por&atilde;o    da resid&ecirc;ncia do senador pessedista Carlos Alfredo Simch (pai de Jos&eacute;    Laerte Simch, um dos alunos do Julinho), para a sede da Federa&ccedil;&atilde;o    Rural do Rio Grande do Sul (Farsul). Cyro Dutra Ferreira, filho de um dos fundadores,    trabalhava na Farsul como cont&iacute;nuo e conta como o 35 mudou-se para dentro    do &oacute;rg&atilde;o de representa&ccedil;&atilde;o de criadores no estado:    o "Movimento, que come&ccedil;ou humilde e discretamente dentro do Col&eacute;gio    Estadual J&uacute;lio de Castilhos ... torn&#91;ou&#93; necess&aacute;ria a urgente    busca de um local mais amplo e digno, visto que as reuni&otilde;es de s&aacute;bados    a tarde j&aacute; eram frequentadas por mais de 50 pessoas. Nesta altura a Farsul    foi acionada. Como eu era funcion&aacute;rio da mesma (1942/1950), e meu pai,    Norm&eacute;lio G. C. Ferreira (fundador, em 1927) era o secret&aacute;rio-geral,    dei uma cantada no meu saudoso velho para que pleiteasse, junto ao ent&atilde;o    presidente, o alegretense de Guassu-Boi e extraordin&aacute;rio rio-grandense    Pedro Olympio Pires, uma salinha que havia no terra&ccedil;o e o Sal&atilde;o    Nobre para nossas reuni&otilde;es de s&aacute;bados" Cf. FERREIRA, Cyro Dutra.    A Farsul e o Movimento Tradicionalista Ga&uacute;cho. <i>Sul Rural</i>, n.209,    jan. 2001 &#91;online&#93;. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.senarrs.com.br/SulRural/E209Janeiro2001/Artigo/SulRuralA05.htm" target="_blank"><u>www.senarrs.com.br/SulRural/E209Janeiro2001/Artigo/SulRuralA05.htm</u></a>.    Acesso em: 20 nov. 2002. Outras vers&otilde;es da hist&oacute;ria podem ser    encontradas em FERREIRA, Cyro Dutra. 35 CTG. O pioneiro do Movimento Tradicionalista    Ga&uacute;cho &#150; MTG. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987, p.55-56.    <br>   <a name="nt13"></a><a href="#tx13">13</a> Assinaram a Ata de Funda&ccedil;&atilde;o    do 35, em 24 de abril de 1948: Glaucus Saraiva da Fonseca, Lu&iacute;s Carlos    Barbosa Lessa, Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido da Silva Neto, Francisco Gomes de    Oliveira, Luiz Os&oacute;rio Chagas, Carlos Raphael Godinho Corr&ecirc;a, Dirceu    Tito Lopes, Valdomiro Souza, H&eacute;lio Jos&eacute; Moro Mariante, Luis Carlos    C. da Silva, H&eacute;lio Gomes Leal, Jos&eacute; Simch, Ney Borges, Guilherme    F. da Cunha Corr&ecirc;a, Wilmar Winck de Souza, Paulo Godinho Corr&ecirc;a,    Paulo Caminha, Robes Pinto da Silva, Venerando Vargas da Silveira, Fl&aacute;vio    Silveira Dann, Jo&atilde;o Em&iacute;lio Marroni Dutra, Valdez Correa, Fl&aacute;vio    Ramos, J. C. Paix&atilde;o C&ocirc;rtes. A esses foram acrescentados mais tarde,    numa revis&atilde;o dos estatutos, como fundadores, os participantes do chamado    'Piquete da Tradi&ccedil;&atilde;o', guarda de cavalarianos que acompanhara    os restos de David Canabarro em setembro de 1947.    <br>   <a name="nt14"></a><a href="#tx14">14</a> 'Prenda' foi a palavra escolhida para    designar a mulher tradicionalista, porque a 'china', companheira do ga&uacute;cho    antigo, era sin&ocirc;nimo de prostituta. A terminologia obedeceu a crit&eacute;rios    similares aos da 'pilcha', usada para nomear o traje t&iacute;pico. Os dois    termos remetem a algo de valor &#150; no primeiro caso dinheiro, no segundo, pr&ecirc;mio    ou recompensa. &Eacute; interessante notar que as dan&ccedil;as e os acess&oacute;rios    relativos &agrave; mulher passaram a ser pensados depois de uma viagem dos rapazes    a Montevid&eacute;u, em 1949, quando assistiram a bailados dan&ccedil;ados em    pares, sendo mais bem elaborados por ocasi&atilde;o da realiza&ccedil;&atilde;o    da 'Festa no Galp&atilde;o' &#150; parte gauchesca do festival folcl&oacute;rico    organizado pela CEF em 1950, durante a III Semana Nacional de Folclore. Nesse    terreno, os fundadores do <i>35</i> afirmam taxativamente a necessidade de estiliza&ccedil;&atilde;o    em raz&atilde;o da perene submiss&atilde;o feminina &agrave; moda, que a teria    impedido de fixar qualquer traje tradicional. Glaucus Saraiva, em seu <i>Manual    Tradicionalista</i>, afirma que "a mulher ga&uacute;cha n&atilde;o teve e n&atilde;o    tem indument&aacute;ria pr&oacute;pria ... Tudo n&atilde;o passa de conven&ccedil;&atilde;o    para dar &agrave;s 'prendas' uma vestimenta t&iacute;pica que elas n&atilde;o    souberam fixar atrav&eacute;s da nossa forma&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica,    e isso por uma raz&atilde;o muito simples: a vaidade universal da mulher que    sempre procurou acompanhar a 'moda', venha ela de onde vier" (SARAIVA, Glaucus    Fonseca. <i>Manual do Tradicionalista</i>: orienta&ccedil;&atilde;o geral para    tradicionalistas e Centros de Tradi&ccedil;&otilde;es Ga&uacute;chas. Porto    Alegre: Sulina, s.d., p.57-58. A respeito dessa e de outras tradi&ccedil;&otilde;es    inventadas pelos tradicionalistas, ver OLIVEN, R. O maior movimento de Cultura    Popular do Mundo Ocidental: o tradicionalismo ga&uacute;cho. <i>Cadernos de    Antropologia</i>, Porto Alegre, n.1, p.22-26, 1990; e MACIEL, M. E. A atualiza&ccedil;&atilde;o    do Passado. In: FELIX, L. O.; RECKZIEGEL, A. L. S. <i>RS: 200 Anos</i>: definindo    espa&ccedil;os na hist&oacute;ria nacional. Passo Fundo (RS): UPF, 2002. p.202-203.    <br>   <a name="nt15"></a><a href="#tx15">15</a> Kozeritz, na s&eacute;rie de "Quadrinhas    Populares" divulgada pelo <i>Deutsche Zeitung</i>, inclu&iacute;ra a famosa    can&ccedil;&atilde;o <i>Prenda Minha</i>.    <br>   <a name="nt16"></a><a href="#tx16">16</a> O livro, publicado em 1935, era uma    transposi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria da pe&ccedil;a teatral composta    por Felix Contreras Rodrigues para os festejos do Centen&aacute;rio Farroupilha.    Na obra constavam partituras de ritmos folcl&oacute;ricos conhecidos como caranguejo    e chimarrita, que teriam sido encenados. Procurando pela coreografia, ausente    do livro, Paix&atilde;o C&ocirc;rtes e Barbosa Lessa decidiram encontrar o autor    da pe&ccedil;a em sua est&acirc;ncia, em Bag&eacute;. Mas antes disso, fazem    em contato com Ary Ver&iacute;ssimo Sim&otilde;es Pires, um dos atores, e ficam    sabendo que o que se dan&ccedil;ara no palco n&atilde;o eram as m&uacute;sicas    do livro, mas uma tirana grande. Para a decep&ccedil;&atilde;o dos rapazes,    "ao descrever-nos suas figuras &#150; promenade, caminho da ro&ccedil;a, ramalhete    de damas, faz-traz &#150; nos apercebemos de que a grande tirana nada mais era que    uma pequena quadrilha". O caso retrata as duas principais dificuldades que marcaram    a montagem de um repert&oacute;rio musical e coreogr&aacute;fico 'tipicamente    rio-grandense' pelo <i>35</i>. A primeira refere-se &agrave; 'pouca originalidade'    dos bailados antigos relatados pelos eruditos locais, o que inviabilizava sua    exibi&ccedil;&atilde;o como algo que refletisse a figura gauchesca e a diferenciasse    do caipira ou do sertanejo. A outra complica&ccedil;&atilde;o &eacute; que,    ao seguirem o rastro das fontes antes usadas por maestros e letrados interessados    no folclore, dificilmente encontravam a descri&ccedil;&atilde;o coreogr&aacute;fica    acompanhada da partitura. Por essa raz&atilde;o, os rapazes decidem colar as    m&uacute;sicas compostas ou colhidas por uns, com passos coreogr&aacute;ficos    inventados ou documentados por outros. Por exemplo, a coreografia de uma chimarrita    'colhida' por Tony Petzhold com a partitura de <i>Os amores do Capit&atilde;o    Centeno</i>. Mais adiante, a sa&iacute;da a campo pelas cidades do interior    do estado ir&aacute; incrementar o repert&oacute;rio inventado por Lessa, Saraiva    e C&ocirc;rtes.    <br>   <a name="nt17"></a><a href="#tx17">17</a> CÔRTES, J. C. P.; LESSA, L. C. B.    <i>Dan&ccedil;as e andan&ccedil;as da tradi&ccedil;&atilde;o ga&uacute;cha</i>.    Porto Alegre: Garatuja, 1975. p.11-12.    <br>   <a name="nt18"></a><a href="#tx18">18</a> Em Porto Alegre havia o 'Gr&ecirc;mio    Ga&uacute;cho', associa&ccedil;&atilde;o anterior aos CTGs, que passa a adotar    o padr&atilde;o do <i>35</i>. Al&eacute;m desse, o outro centro existente foi    capitaneado por membros da Brigada Militar, o clube Farrapos. Havia tamb&eacute;m    centros vinculados a escolas, como o Departamento cultural do Col&eacute;gio    Julio de Castilhos e o gr&ecirc;mio do Col&eacute;gio Ros&aacute;rio, ou as    sociedades recreativas como Gl&oacute;ria T&ecirc;nis Clube (pr&oacute;ximo    &agrave; resid&ecirc;ncia de Walter Spalding), onde estava sediada a 'Est&acirc;ncia    da Amizade'. No interior, os CTGs fundados nos dois primeiros anos ap&oacute;s    a cria&ccedil;&atilde;o do <i>35</i> foram 'Fog&atilde;o Ga&uacute;cho', de    Taquara; o 'Minuano', de Ira&iacute;, o '35' de Palmeira das Miss&otilde;es    e a 'Uni&atilde;o Ga&uacute;cha Sim&otilde;es Lopes Neto', de Pelotas, refundada    em moldes tradicionalistas.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt19"></a><a href="#tx19">19</a> PRATES, Gilberto Ant&ocirc;nio da    Silva. "As tr&ecirc;s fases do movimento tradicionalista ga&uacute;cho". Tese    apresentada pelo CTG 'Mello Manso', de Cruz Alta, ao III CONGRESSO TRADICIONALISTA    DO RIO GRANDE DO SUL). In: CLUBE FARROUPILHA, Iju&iacute;, <i>Anais...</i>,    1956, p.31.    <br>   <a name="nt20"></a><a href="#tx20">20</a> S&iacute;ntese, aplicada &agrave;    especializa&ccedil;&atilde;o de eruditos ligados &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    de espet&aacute;culos for&acirc;neos no interior da Fran&ccedil;a. FABRE, Daniel.    L'histoire a chang&eacute; de lieux. In: BENSA, Alban; FABRE, Daniel. <i>Une    histoire &agrave; soi</i>: figurations du pass&eacute; et localit&eacute;s.    Paris: Maison des Sciences de l'Homme, 2001. p.13-41. p.32.    <br>   <a name="nt21"></a><a href="#tx21">21</a> Citado em MEYER, Irene. Augusto Meyer    e a cultura rio-grandense. Entrevista. <i>Revista do Globo</i>, Porto Alegre,    n.678, p.22 e 25, dez. 1956. p.22.    <br>   <a name="nt22"></a><a href="#tx22">22</a> VERISSIMO, Erico. Um romancista apresenta    sua terra. In: _______. et al. <i>Rio Grande do Sul</i>: terra e povo. Porto    Alegre: Globo, 1969 &#91;1964&#93;. p.3-14 .    <br>   <a name="nt23"></a><a href="#tx23">23</a> AMJC, CE 1955, v2, AP 1034, Of. 541    s.d., de Dante de Laytano a Renato Almeida.    <br>   <a name="nt24"></a><a href="#tx24">24</a> AMJC, CE 1955, v.2, AP1034. Of. 541    s.d., de Dante de Laytano a Renato Almeida.    <br>   <a name="nt25"></a><a href="#tx25">25</a> Sobre a experi&ecirc;ncia de Barbosa    Lessa na ELSP e o papel do tradicionalismo na vulgariza&ccedil;&atilde;o de    conceitos tirados da antropologia americana da virada do s&eacute;culo, ver    OLIVEN, 1992, p.81 <i>passim.</i> Sobre a ELSP, ver BOMENY, 2000; KANTOR et    al., 2001; MAIO; VILLAS-BOAS, 1999; e CARVALHO, 1987.    <br>   <a name="nt26"></a><a href="#tx26">26</a> LESSA, L. C. B. O sentido e o valor    do tradicionalismo. <i>Prov&iacute;ncia de S&atilde;o Pedro</i>, Porto Alegre,    v.10, n.20, p.133-138, dez. 1954. p.137, grifo do autor.    <br>   <a name="nt27"></a><a href="#tx27">27</a> CERTEAU, Michel de. A beleza do morto.    In: _______. <i>A cultura no plural</i>. S&atilde;o Paulo: Papirus, 1995, p.55-86.    p.59.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Artigo recebido em 31 de mar&ccedil;o de 2011.        <br>   Aprovado em 10 de outubro de 2011.</font></p>      ]]></body>
</article>
