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<journal-title><![CDATA[Lua Nova: Revista de Cultura e Política]]></journal-title>
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<article-id pub-id-type="doi">10.1590/S0102-64452002000100015</article-id>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Hannah Arendt e Merleau-Ponty sobre Maquiavel]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Arendt and Merleau-Ponty on Machiavelli]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Notes for lectures on Machiavelli made by Hannah Arendt in 1949 are published together with an important text by Merleau-Ponty on the same subject.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P><font size="4" face="Verdana"><B>Hannah Arendt e Merleau-Ponty sobre Maquiavel</B></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3" face="Verdana"><b>Arendt and Merleau-Ponty on Machiavelli</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P> <hr size="1" noshade>     <P><font size="2" face="Verdana"><b>RESUMO</b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Notas para um curso de Hannah Arendt sobre Maquiavel    em 1949 s&atilde;o publicadas junto com um escrito cl&aacute;ssico de Merleau-Ponty    sobre o mesmo tema.</font></P> <hr size="1" noshade>     <P><font size="2" face="Verdana"> <b>ABSTRACT</b></font></P>     <P><font size="2" face="Verdana">Notes for lectures on Machiavelli made by Hannah    Arendt in 1949 are published together with an important text by Merleau-Ponty    on the same subject.</font></P> <hr size="1" noshade>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><FONT FACE="Verdana" SIZE=2>NOTA: Reservamos para este n&uacute;mero de <I>Lua    Nova </I>dois textos de grandes autores do s&eacute;culo XX &#150; Hannah Arendt    e Maurice Merleau-Ponty &#150; sobre a concep&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;tica    e do Estado em Maquiavel. O primeiro &eacute; in&eacute;dito, e resulta de anota&ccedil;&otilde;es    de Arendt para curso que apresentou em 1955 na California. O segundo &eacute;    composto a partir de um artigo de Maurice Merleau-Ponty que reproduz confer&ecirc;ncia    feita em 1949. Anos dif&iacute;ceis: em 1949 j&aacute; se acendia e em 1955    estava em pleno curso a &quot;guerra fria&quot;, que deixaria marcas, diretas    ou indiretas, em praticamente toda a produ&ccedil;&atilde;o cultural importante    na segunda metade do s&eacute;culo XX. Mais uma raz&atilde;o para que a reflex&atilde;o    sobre o fundador da grande tradi&ccedil;&atilde;o realista moderna no pensamento    pol&iacute;tico fosse um desafio ao qual figuras do porte dessas duas n&atilde;o    ficariam indiferentes. Vale a pena, hoje, conhecer as anota&ccedil;&otilde;es    de Hannah Arendt e reler as &quot;notas&quot; de Merleau-Ponty, que certamente    estavam presentes para seu disc&iacute;pulo Claude Lefort na concep&ccedil;&atilde;o    do seu monumental <I>Le travail de l'oeuvre. Machiavel</I>, publicado em 1972.    </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Uma advert&ecirc;ncia necess&aacute;ria: na leitura    de ambos esses textos &eacute; preciso ter-se presente que n&atilde;o se trata    de tradu&ccedil;&otilde;es rigorosas e autorizadas, mas apenas de esfor&ccedil;os    para chamar a aten&ccedil;&atilde;o para a sua import&acirc;ncia. No caso do    texto de Merleau-Ponty isso significa que n&atilde;o se trata de edi&ccedil;&atilde;o    integral, mas de uma composi&ccedil;&atilde;o de suas passagens fundamentais,    que reproduz cerca de 60% do conjunto. Leituras para fins de pesquisa exigem    o recurso ao Hannah Arendt Literary Trust, que vem tornando dispon&iacute;veis    os in&eacute;ditos da autora e, no caso de Merleau-Ponty, o acesso direto ao    texto publicado originalmente na sua colet&acirc;nea <I>Signes </I>(Gallimard,    1960), reeditada na cole&ccedil;&atilde;o Folio-Essais em 2001, dispon&iacute;vel    em portugu&ecirc;s na tradu&ccedil;&atilde;o de Maria Ermantina Gomes Pereira    (Editora Martins Fontes). &#91;G.C.&#93;</FONT></P>     <P>&nbsp;</P> <hr size="1" noshade>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=4 FACE="Verdana"><b><a name="tx01"></a>Notas sobre a politica e    o Estado em Maquiavel <sup><a href="#nt01">*</a></sup></b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana"><b>Hannah Arendt</b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O primeiro cap&iacute;tulo do <I>Pr&iacute;ncipe    </I>cont&eacute;m o quadro conceitual principal de toda a obra. O <I>Pr&iacute;ncipe    </I>&eacute; como a condensa&ccedil;&atilde;o dos <I>Discorsi </I>&#91;os <I>Coment&aacute;rios    &agrave; Primeira D&eacute;cada de Tito L&iacute;vio</I>&#93;, os <I>Discorsi    </I>s&atilde;o um coment&aacute;rio do <I>Pr&iacute;ncipe</I>; a &ecirc;nfase    do <I>Pr&iacute;ncipe</I> incide nas &quot;monarquias&quot;, nos <I>Discorsi</I>,    sobre as &quot;rep&uacute;blicas&quot;, mas a monarquia e a rep&uacute;blica    est&atilde;o presentes nas duas obras. Para Maquiavel &eacute; decisivo que    ele tenha achado uma nova palavra para designar ambas. Essa palavra &eacute;    Estado.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O Estado: pouco importa de onde vem a palavra &#150;    ela designa o que &eacute; est&aacute;vel, sua fazenda (Burkhardt) &#150; concebido    como um &quot;novo sistema&quot; (cap&iacute;tulo 26) que deve ser &quot;introduzido&quot;.    Mas, por outro lado, &eacute; algo que j&aacute; existe.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O que &eacute; o Estado? Os franceses n&atilde;o    compreendiam o &quot;Estado&quot;, do contr&aacute;rio jamais teriam permitido    &aacute; Igreja tornar-se t&atilde;o poderosa (cap&iacute;tulo 3). Em primeiro    lugar, pois: o Estado contra a Igreja.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Isso significa duas coisas: a ascens&atilde;o do    secular contra o cristianismo e a ascens&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o contra    as inger&ecirc;ncias internacionais. (O grande pecado da Igreja foi permitir    que os estrangeiros se instalassem na It&aacute;lia. A It&aacute;lia dividida    entre Mil&atilde;o, N&aacute;poles. Veneza, Floren&ccedil;a e os estados pontif&iacute;cios).</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Significa tamb&eacute;m: a ascens&atilde;o do &quot;homem    novo&quot; &#150; os <I>condottieri </I>que sabem como bem fundar um Estado    e dar &agrave;s coisas a sua &quot;grandeza&quot; (cap&iacute;tulo 26). Esse    homem ser&aacute; o fundador de algo novo. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, aparece    o conceito de funda&ccedil;&atilde;o. Ele libertar&aacute; o seu pa&iacute;s;    portanto, aparece o conceito de liberdade. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A a&ccedil;&atilde;o desse homem novo, que funda    uma nova organiza&ccedil;&atilde;o, um corpo pol&iacute;tico, deve seguir certas    normas que s&atilde;o igualmente &quot;novas&quot;: uma nova moralidade, mas    n&atilde;o uma raz&atilde;o de Estado. N&atilde;o &eacute; o Estado, uma institui&ccedil;&atilde;o,    que raciocina, mas os homens. &Eacute; a necessidade, e n&atilde;o a raz&atilde;o,    que &quot;constrange&quot; os estados a &quot;numerosas coisas a que a raz&atilde;o    n&atilde;o nos impele&quot; (<I>Discorsi</I>, I, 6). Mas a raz&atilde;o n&atilde;o    &eacute; a necessidade, e a necessidade n&atilde;o &eacute; razo&aacute;vel.    Se a necessidade est&aacute; do seu lado, ela pode impor-lhe a raz&atilde;o    ou a n&atilde;o-raz&atilde;o. Que a necessidade talvez pudesse ser ela pr&oacute;pria    razo&aacute;vel, racional, &eacute; uma id&eacute;ia alheia a Maquiavel. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A primeira frase: &quot;Todos os estados, todos    os dom&iacute;nios, que tiveram poder sobre os homens eram ou s&atilde;o seja    rep&uacute;blicas seja principados&quot;. As rep&uacute;blicas e as monarquias    s&atilde;o estados. Elas s&atilde;o meras formas de governo, e os governos podem    ir e vir, o que deveria permanecer &eacute; o Estado. Com esse termos ele n&atilde;o    designa a administra&ccedil;&atilde;o ou a maquinaria estatal. Por exemplo:    a R&uacute;ssia &eacute; tanto o Estado czarista quanto a R&uacute;ssia bolchevista.    Esse &quot;governo&quot; que permanece n&atilde;o &eacute; governo, mas o territ&oacute;rio    e o povo, representado pelo Estado. Enquanto existir o povo sobre o territ&oacute;rio,    a It&aacute;lia, o Estado &#150; o Estado-na&ccedil;&atilde;o &#150; existe.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Dois tipo de monarquia: heredit&aacute;ria, como    a dos reis e dos imperadores; aqueles que reinam tamb&eacute;m sobre territ&oacute;rios    que herdaram mas nos quais n&atilde;o nasceram. Ou ent&atilde;o recente &#150;    s&atilde;o os <I>condottieri</I>, pessoas que surgem durante per&iacute;odos    turbulentos e se tornam dirigentes. E pode-se esperar dos <I>condottieri</I>,    as quais s&oacute; Maquiavel presta aten&ccedil;&atilde;o, que eles fundem um    novo sistema, pois eles s&atilde;o &quot;homens novos&quot;. Eles adquiriram    essas monarquias pela for&ccedil;a das armas ou pela <I>fortuna </I> e pela    <I>virt&uacute;. </I> </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Temos aqui todos os conceitos. Desde logo temos    o Estado, a nova organiza&ccedil;&atilde;o que Maquiavel queria ver fundada.    Temos as principais formas de governo, as rep&uacute;blicas e as monarquias,    &agrave;s quais devemos juntar a aristocracia (Veneza), mas elas n&atilde;o    s&atilde;o muito interessantes para Maquiavel. Pensa ele que, seja qual for    a forma de governo que o Estado assuma, o principal &eacute; que dure. Ou ainda:    ainda que os governos possam mudar, o Estado deve durar; ele pode passar de    uma forma a outra. O Estado s&oacute; &eacute; destru&iacute;do quando o pa&iacute;s    &eacute; dividido, vale dizer, quando h&aacute; muitos governos no mesmo pa&iacute;s,    quando o mesmo povo vive sob diferentes tipos de regras, ou quando um estrangeiro    penetra no pa&iacute;s. O conceito de estrangeiro &eacute; muito novo. Ele significa    que n&atilde;o s&atilde;o id&ecirc;nticos todos os crist&atilde;os, que um novo    princ&iacute;pio de distin&ccedil;&atilde;o entre os homens se introduz, um    princ&iacute;pio que n&atilde;o &eacute; religioso mas secular: onde voc&ecirc;s    nasceram, que l&iacute;ngua falam, quais as suas lembran&ccedil;as hist&oacute;ricas?    Maquiavel tinha raz&atilde;o: o Estado nacional podia desenvolver-se sob a forma    da monarquia e da rep&uacute;blica. Maquiavel contempla ambas, n&atilde;o do    ponto de vista do desenvolvimento hist&oacute;rico mas como igualmente poss&iacute;veis.    Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, sua discuss&atilde;o das formas de governo, embora    muito importante na sua obra, n&atilde;o nos ocupar&aacute;. Ela &eacute; secund&aacute;ria    em rela&ccedil;&atilde;o ao seu principal tema: o Estado. Discutiremos as formas    de governo em Montesquieu, quem, sob muitos aspectos, lembra Maquiavel.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Isso nos deixa com os seguintes conceitos:</FONT></P>     <blockquote>        <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O <I>Estado</I>;    <br>     a ascens&atilde;o de homens novos capazes      de fundar &#150; a <I>funda&ccedil;&atilde;o</I>;    <br>     <I>virt&uacute; </i>e <I> fortuna </I>como      as for&ccedil;as maiores encerradas nesta &uacute;ltima;    <br>     a <I>grandeza</I> como crit&eacute;rio      &uacute;ltimo.</FONT></p> </blockquote>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O Estado: o Estado &eacute; um termo para o secular,    contra a Igreja e o cristianismo. Entre os numerosos estrangeiros a Igreja &eacute;    a mais perigosa, n&atilde;o somente porque sempre apela aos estrangeiros para    manter seu poder temporal mas porque enquanto poder temporal, e somente como    tal, ela atravessa as fronteiras. Se a Igreja se restringisse &agrave; religi&atilde;o    isso n&atilde;o seria problema.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A religi&atilde;o como cren&ccedil;a crist&atilde;    &eacute; antipol&iacute;tica. E &eacute; somente pela compara&ccedil;&atilde;o    das duas &#150; a religi&atilde;o e a pol&iacute;tica &#150; que podemos compreender    o que Maquiavel entendia por ser pol&iacute;tico, por viver numa esfera pol&iacute;tica.    Maquiavel n&atilde;o &eacute; um ateu moderno, que n&atilde;o cr&ecirc; em Deus.    Ele quer por em risco sua alma e enfrentar a dana&ccedil;&atilde;o eterna pelo    seu pa&iacute;s (ver Kant a prop&oacute;sito do orgulho: desprezo pelos que    s&atilde;o bons porque esperam ser re compensados no c&eacute;u). Talvez haja    ego&iacute;smo naqueles que vivem por sua pr&oacute;pria salva&ccedil;&atilde;o    ao inv&eacute;s de redimir seu pa&iacute;s. Aqueles que n&atilde;o amam o mundo    mas amam sua pr&oacute;pria alma s&atilde;o maus para o mundo: a maldade do    mundo e a bondade das almas puras. (Este argumento est&aacute; sempre presente    na f&oacute;rmula &quot;os que n&atilde;o querem sujar as m&atilde;os para permanecer    limpos&quot;, que se ouve em todas as revolu&ccedil;&otilde;es). Mas essas pessoas    &#91;os crist&atilde;os&#93; permanecem fora da esfera p&uacute;blica e n&atilde;o pronunciam    exorta&ccedil;&atilde;o nessa esfera, ent&atilde;o h&aacute; um certo respeito.    (Cf. o tratamento de Savonarola). </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">H&aacute; uma raz&atilde;o mais profunda: a Igreja,    se fosse aceit&aacute;vel, o que n&atilde;o &eacute; o caso, ensinaria os homens    como serem bons (se n&atilde;o faz isso a Igreja &eacute; o pior de todos os    poderes temporais). E os italianos tornaram-se t&atilde;o maus porque a Igreja    n&atilde;o cumpre mais o seu dever. Como ela n&atilde;o sabe ensinar aos homens    como serem bons (...) ela os tornou maus. O verdadeiro problema &eacute; ent&atilde;o    o seguinte: que &eacute; a bondade? &Eacute; poss&iacute;vel ser ao mesmo tempo    bom e agir na esfera pol&iacute;tica?</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O principal conceito da a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    &eacute; a gl&oacute;ria, que &eacute; alcan&ccedil;ada pela <I>fortuna </I>e    pela <I>virt&uacute;</I>: a gl&oacute;ria para um povo ou um pr&iacute;ncipe    ou quem quer que esteja envolvido nos neg&oacute;cios mundanos. A gl&oacute;ria    brilha &#150; <I>doxa </I>&#91;apar&ecirc;ncia, louvor&#93;, aparece, &eacute;    vista e se faz ver. O pr&iacute;ncipe realiza grandes empresas pela gl&oacute;ria    eterna e a gl&oacute;ria presente. A fama &eacute; o prolongamento da gl&oacute;ria,    &eacute; a gl&oacute;ria tornada dur&aacute;vel. A gl&oacute;ria brilha por    si mesma gra&ccedil;as a todas as grandes a&ccedil;&otilde;es e empreendimentos.    Ela se difunde. O homem aparece e se mostra. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, surge    a quest&atilde;o da distin&ccedil;&atilde;o entre aparecer e ser. Em pol&iacute;tica:    devemos aparecer, ver e ser vistos, ouvir e ser ouvidos, o que mostramos &eacute;    o que somos e n&atilde;o o inverso. O que somos n&atilde;o &eacute; importante,    &eacute; privado. A gl&oacute;ria &eacute; o apogeu da apar&ecirc;ncia e ela    s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel onde outros v&ecirc;em e onde eu sou visto.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A bondade: em sentido absoluto ela n&atilde;o existe    nessa esfera, pois uma boa a&ccedil;&atilde;o se dissimula. Uma vez conhecida    ela n&atilde;o &eacute; mais boa mas vaidade, desejo de aparecer como boa. O    conceito de bondade &eacute; o <I>agathon</I>. Jesus: n&atilde;o dizei que sou    bom, s&oacute; nosso pai que est&aacute; nos c&eacute;us &eacute; bom. O homem    n&atilde;o pode ser bom no sentido de que t&atilde;o logo parece s&ecirc;-lo    a bondade se vai; a bondade desaparece no processo de sua apari&ccedil;&atilde;o.    O embara&ccedil;o quando a bondade aparece: o pr&iacute;ncipe em <I>O Idiota    </I>&#91;de Dostoi&eacute;vski&#93;. No mundo o homem bom &eacute; um    idiota, vale dizer, bom no sentido crist&atilde;o. Idiota no antigo sentido    do termo &#91;isolado, s&oacute; ele&#93;. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Maquiavel ensina n&atilde;o a ser bom mas a agir    politicamente no mundo das apar&ecirc;ncias, onde nada conta sen&atilde;o o    que aparece. O mundo. Eis algu&eacute;m que ama verdadeiramente o mundo.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Um outro problema est&aacute; envolvido nisso,    &eacute; a quest&atilde;o da imortalidade. A &quot;boa nova&quot; do cristianismo    &eacute; que a vida, enquanto <I>bios </I>individual, &eacute; eterna, que a    morte est&aacute; superada. &Eacute; a nova mensagem bem sucedida em face do    mundo antigo e, com ele, do pessimismo, e essa mensagem se apodera desse mundo.    Os antigos acreditavam na eternidade &#150; <I>aei on </I>&#150; da natureza    e do universo e na potencial perman&ecirc;ncia do mundo. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia    buscava sempre o melhor, vale dizer, o governo mais est&aacute;vel. No seio    deste, na <I>polis</I>, na cidade eterna, o homem pode deixar o seu tra&ccedil;o    e tornar-se eterno, mas o que ele faz s&atilde;o grandes obras. As institui&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;ticas existem em parte para tornar poss&iacute;vel esse <I>athanatidzein</I>    &#91; ser imortal&#93;. Assim, Aquiles troca sua vida breve por proezas que    ser&atilde;o lembradas para sempre (ele precisa de Homero). A <I>polis </I>ateniense    dispensa Homero. Temos assim, por este lado, as id&eacute;ias seguintes: os    homens s&atilde;o mortais, eles desaparecem e aparecem, o mundo continua se    os homens s&atilde;o bons para o mundo, e o cosmos &eacute; <I>aei on </I>&#91;permanente&#93;.    O cosmos &eacute; <I>aei </I>porque n&atilde;o foi criado, ele n&atilde;o tem    fim porque n&atilde;o tem come&ccedil;o.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Do lado do cristianismo: o universo &eacute; criado,    tem um come&ccedil;o, est&aacute; sujeito a perecer. Mas o homem &eacute; criado    &agrave; imagem de Deus e partilha da sua imortalidade. Mas tudo que criam os    homens, que s&atilde;o mortais e criam num mundo mortal, perece. Temos portanto    aqui a concep&ccedil;&atilde;o seguinte: o mundo est&aacute; condenado &agrave;    morte, o universo poderia n&atilde;o durar, s&atilde;o eternos Deus e a vida    do homem.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A atitude em face da pol&iacute;tica: os antigos    poderiam tornar-se imortais somente ao juntar algo ao mundo, que continua ap&oacute;s    a morte. Os crist&atilde;os, pelo contr&aacute;rio, est&atilde;o seguros da    imortalidade fa&ccedil;am o que fizerem, e s&oacute; devem ent&atilde;o escolher    a &quot;boa vida&quot; para estarem certos da vida al&eacute;m. Os antigos:    a vida como tal, sendo mortal, nada &eacute; sen&atilde;o uma oportunidade para    tornar-se imortal. Para os crist&atilde;os: a vida como tal &eacute; imortal,    e portanto ela &eacute; tudo. A vida e o mundo. Vivemos no mundo: a vida continua    ap&oacute;s ter-se extinto o mundo; ou o mundo continua ap&oacute;s ter-se extinta    a vida. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Maquiavel n&atilde;o pergunta jamais: para que    serve a pol&iacute;tica? Isto &eacute; muito surpreendente. Ningu&eacute;m salvo    ele p&otilde;e inteiramente de lado essa quest&atilde;o. A pol&iacute;tica n&atilde;o    tem fim mais elevado do que ela pr&oacute;pria. O cristianismo: a pol&iacute;tica    deve ser organizada de tal modo que o homem e sua alma possam estar certos da    salva&ccedil;&atilde;o eterna. Este &eacute; o crit&eacute;rio &uacute;ltimo.    Plat&atilde;o e Arist&oacute;teles pensavam que a pol&iacute;tica devesse ser    organizada de tal modo que a filosofia &#150; o cuidado com as coisas eternas    &#150; fosse poss&iacute;vel. Ou: a pol&iacute;tica existe para possibilitar    a &quot;boa vida&quot; (Arist&oacute;teles), enquanto que as necessidades da    mera exist&ecirc;ncia s&atilde;o satisfeitas no &acirc;mbito dom&eacute;stico.    Ou mais tarde: a pol&iacute;tica deve ser institu&iacute;da para assegurar uma    exist&ecirc;ncia pac&iacute;fica e prevenir a &quot;morte violenta&quot; (Hobbes).    Maquiavel menciona numa ocasi&atilde;o a necessidade dos homens de se defenderem    e que esse &eacute; provavelmente o primeiro motivo para os homens juntarem-se    em corpos pol&iacute;ticos. Mas isso n&atilde;o lhe interessa. A pol&iacute;tica    n&atilde;o tem fim em si mesma, ela n&atilde;o &eacute; um meio. Mas tudo na    pol&iacute;tica regula-se por esta m&aacute;xima: o fim justifica os meios.    </FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">*</a>    Extrato de texto para curso de hist&oacute;ria das teorias pol&iacute;ticas    pronunciado por Hannah Arendt em 1955 na Universidade de Berkeley, que integra    a massa de escritos in&eacute;ditos da autora. Foi utilizada para a presente    publica&ccedil;&atilde;o a tradu&ccedil;&atilde;o francesa por Marie Gaille-Nikodimov    publicada no n&uacute;mero 397 (abril de 2001) de <I>Magazine Litt&eacute;raire</I>.    Tradu&ccedil;&atilde;o, t&iacute;tulo e acr&eacute;scimos entre colchetes por    Gabriel Cohn. </FONT></P>     <P>&nbsp;</P> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=4 FACE="Verdana"><b><a name="tx02"></a>Nota sobre Maquiavel<sup><a href="#nt02">*</a></sup></b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana"><b>Maurice Merleau-Ponty</b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Como compreend&ecirc;-lo? Ele escreve contra os    bons sentimentos em pol&iacute;tica, mas tamb&eacute;m &eacute; contra a viol&ecirc;ncia.    Ele tanto desconcerta os que cr&ecirc;em no Direito como na Raz&atilde;o de    Estado, pois tem a aud&aacute;cia de falar de <I>virtude </I>no mesmo momento    em que fere duramente a moral ordin&aacute;ria. &Eacute; porque ele descreve    esse n&uacute;cleo da vida coletiva no qual a moral pura pode ser cruel e a    pol&iacute;tica pura exige algo como uma moral. N&atilde;o se aceitaria um c&iacute;nico    que nega os valores ou um ing&ecirc;nuo que sacrifica a a&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o se ama esse pensador dif&iacute;cil e sem &iacute;dolo.(...)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Mas ele tem isso de original de, tendo posto o    princ&iacute;pio da luta, v&aacute; al&eacute;m dele sem jamais esquec&ecirc;-lo.    Na pr&oacute;pria luta ele encontra coisa diversa do antagonismo. (...) H&aacute;    um circuito do eu e do outro, uma Comunh&atilde;o dos Santos negra, o mal que    fa&ccedil;o o fa&ccedil;o a mim, e &eacute; contra mim mesmo que luto ao lutar    contra o outro. (...) Estamos longe das rela&ccedil;&otilde;es de pura for&ccedil;a    que existem entre os objetos. Para empregar as palavras de Maquiavel, passamos    dos &quot;animais&quot; ao &quot;homem&quot; (<I>P</I>, XVIII). </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Mais exatamente, passamos de um modo de combate    a outro, do &quot;combate com a for&ccedil;a&quot; ao &quot;combate com as leis&quot;    (<I>Ibid.</I>). O combate humano &eacute; diferente do combate animal, mas &eacute;    um combate. O poder n&atilde;o &eacute; mais for&ccedil;a nua, mas tampouco    honesta delega&ccedil;&atilde;o das vontades individuais, como se elas pudessem    anular sua diferen&ccedil;a. Heredit&aacute;rio ou novo, ele &eacute; sempre    descrito no <I>Pr&iacute;ncipe</I> como contest&aacute;vel e amea&ccedil;ado.    Um dos deveres do pr&iacute;ncipe &eacute; de resolver as quest&otilde;es antes    que se <I>tornem insol&uacute;veis </I>pela emo&ccedil;&atilde;o dos s&uacute;ditos    (<I>P</I>, III). Dir-se-ia que se trata de prevenir o despertar dos cidad&atilde;os.    N&atilde;o h&aacute; poder com fundamento absoluto, apenas h&aacute; uma cristaliza&ccedil;&atilde;o    da opini&atilde;o. Ela tolera, ela tem como dado o poder. O problema est&aacute;    em evitar que esse acordo se descomponha, o que pode ocorrer r&aacute;pido sejam    quais forem os meios de coer&ccedil;&atilde;o, passado um certo ponto de crise.    O poder &eacute; da ordem do t&aacute;cito. Os homens abandonam-se ao horizonte    do Estado e da lei at&eacute; quando a injusti&ccedil;a os torne cons cientes    do que ambos tem de injustific&aacute;vel. O poder dito leg&iacute;timo &eacute;    aquele que consegue evitar o <I>desprezo</I> e o <I>&oacute;dio</I> (<I>P</I>,    XVI), &quot;O pr&iacute;ncipe deve fazer-se temer de tal modo que, se n&atilde;o    &eacute; amado pelo menos n&atilde;o seja odiado&quot; (<I>P</I>, XVII). (...)</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Nem puro fato, nem direito absoluto, o poder n&atilde;o    contrange, nem persuade: ele manobra &#150; e manobra-se melhor recorrendo    &agrave; liberdade do que aterrorizando. (...) O melhor apoio ao poder nem mesmo    resulta da a&ccedil;&atilde;o do pr&iacute;cipe: s&atilde;o os que cr&ecirc;em    ter direitos sobre ele ou pelo menos sentem-se em seguran&ccedil;a. (...) A    viol&ecirc;ncia pura s&oacute; pode ser epis&oacute;dica. Ela n&atilde;o poderia    obter o assentimento produndo que faz o poder, e n&atilde;o a substitui. &quot;Se    &#91;o pr&iacute;ncipe&#93; se v&ecirc; na necessidade de punir com a morte, ele deve    expor os motivos&quot; (<I>P</I>, XVII). Isso eq&uuml;ivale a dizer que n&atilde;o    h&aacute; poder absoluto...</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">(...) O pessimismo de Maquiavel n&atilde;o &eacute;    pois <I>fechado</I>. Ele indicou mesmo as condi&ccedil;&otilde;es de uma pol&iacute;tica    que n&atilde;o seja injusta: ser&aacute; aquela que satisfaz o povo. N&atilde;o    que o povo saiba tudo, mas porque. se algu&eacute;m &eacute; inocente &eacute;    ele: &quot;Pode-se sem injusti&ccedil;a satisfazer o povo, n&atilde;o os grandes:    estes procuram exercer a tirania, aqueles apenas a querem evitar ... O povo    n&atilde;o quer mais do que n&atilde;o ser oprimido&quot; (<I>P</I>, IX).(...)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Maquiavel n&atilde;o diz em lugar nenhum que os    s&uacute;ditos sejam enganados. Ele descreve o nascimento de uma vida comum,    que ignora as barreiras do amor pr&oacute;prio. Falando aos Medici ele lhes    prova que o poder n&atilde;o dispensa o apelo &agrave; liberdade. Nesta invers&atilde;o    &eacute; talvez o pr&iacute;ncipe que &eacute; enganado. Se Maquiavel foi republicano    &eacute; porque descobriu um princ&iacute;pio de comunh&atilde;o. Ao colocar    o conflito e a luta na origem do poder social ele n&atilde;o quis dizer que    o acordo fosse imposs&iacute;vel, ele queria sublinhar a condi&ccedil;&atilde;o    para um poder que n&atilde;o seja uma burla, e que &eacute; a participa&ccedil;&atilde;o    numa situa&ccedil;&atilde;o comum. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">O &quot;imoralismo&quot; de Maquiavel ganha nisso    seu verdadeiro sentido. Cita-se sempre suas m&aacute;ximas que remetem a honestidade    &agrave; vida privada e fazem do interesse do poder a &uacute;nica regra em    pol&iacute;tica. Mas vejamos as raz&otilde;es pelas quais ele retira a pol&iacute;tica    do puro julgamento moral: ele oferece duas. Primeiro que &quot;um homem que    queira ser perfeitamente honesto no meio de pessoas desonestas certamente perecer&aacute;    cedo ou tarde&quot; (<I>P</I>, XV). Fraco argumento, pois poderia igualmente    ser aplicado &agrave; vida privada, na qual entretanto Maquiavel permanece &quot;moral&quot;    A segunda raz&atilde;o leva mais longe: &eacute; que, na a&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica, a bondade &eacute; &agrave;s vezes catastr&oacute;fica, e    a crueldade &eacute; menos cruel que a &iacute;ndole bondosa. (...) O que transforma    por vezes a do&ccedil;ura em crueldade e a dureza em valor, subvertendo os preceitos    da vida privada, &eacute; os atos do poder interv&ecirc;m num certo estado da    opini&atilde;o, que altera o seu sentido; despertam um eco por vezes desmesurado;    abrem ou fecham fissuras secretas no bloco do consentimento geral e desencadeiam    um processo molecular que pode modificar todo o curso das coisas. Ou ainda:    assim como espelhos dispostos em c&iacute;rculo tornam fe&eacute;rica uma diminuta    chama, os atos do poder, refletidos na constela&ccedil;&atilde;o das consci&ecirc;ncias,    se transfiguram, e os reflexos desses reflexos criam uma apar&ecirc;ncia que    &eacute; o lugar pr&oacute;prio e em suma a verdade da a&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica.    O poder traz em torno de si um halo, e sua maldi&ccedil;&atilde;o &eacute; de    n&atilde;o ver a imagem de si mesmo que oferece aos outros (&quot;penso que    &eacute; preciso ser pr&iacute;ncipe para bem conhecer a natureza do povo, e    povo para bem conhecer a dos pr&iacute;ncipes&quot;, escreve Maquiavel na Dedicat&oacute;ria    do <I>Pr&iacute;ncipe</I>). &eacute; portanto uma condi&ccedil;&atilde;o fundamental    da pol&iacute;tica o desenrolar-se na apar&ecirc;ncia. (...)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Isso n&atilde;o quer dizer que seja necess&aacute;rio    ou mesmo prefer&iacute;vel enganar, mas que, na dist&acirc;ncia e no grau de    generalidade em que se estabelecem as rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas    desenha-se um personagem lend&aacute;rio, feito de alguns gestos e algumas palavras,    e que os homens honram ou detestam cegamente. O pr&iacute;ncipe n&atilde;o &eacute;    um impostor, como Maquiavel escreve expressamente. (...) &Eacute; preciso portanto    que o pr&iacute;ncipe tenha o sentimento desses ecos despertados pelas suas    palavras e seus atos ... &eacute; preciso que ele permane&ccedil;a livre em    face mesmo das suas virtudes. O pr&iacute;ncipe deve ter as qualidade que parece    ter, diz Maquiavel, mas, completa ele, &quot;permanecer senhor de si o bastante    para exibir seus contr&aacute;rios quando isso &eacute; conveniente&quot; (<I>P</I>,    XVII). (...) Maquiavel n&atilde;o exige que se governe pelos v&iacute;cios,    a mentira, o terror, o ardil, ele tenta definir uma <I>virtude</I> pol&iacute;tica,    que, para o pr&iacute;ncipe, de falar a esses espectadores mudos em torno de    si. (...) Essa virtude n&atilde;o est&aacute; exposta aos contratempos que atingem    o pol&iacute;tico moralisante, pois ela nos instala desde logo na rela&ccedil;&atilde;o    com o outro que ele ignora. &Eacute; ela que Maquiavel toma como signo de valor    em pol&iacute;tica &#150; e n&atilde;o o sucesso, pois ele d&aacute; como exemplo    C&eacute;sar Borgia, que n&atilde;o teve &ecirc;xito mas tinha <I>virt&ugrave;</I>,    e p&otilde;e muito atr&aacute;s dele Francesco Sforza, que teve sucesso, mas    pela <I>fortuna</I>. (...)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">A incompreens&atilde;o de Maquiavel adv&eacute;m    de que ele une o sentimento mais agudo da conting&ecirc;ncia ou do irracional    no mundo com o gosto da cons ci&ecirc;ncia ou da liberdade no homem. Considerando    essa hist&oacute;ria na qual h&aacute; tanta desordem, tanta opress&atilde;o,    tanto de inesperado e de revers&atilde;o, ele nada v&ecirc; que a predestine    a uma conson&acirc;ncia final. Ele evoca a id&eacute;ia de um acaso fundamental,    de uma adversidade que a entregaria aos mais inteligentes e aos mais fortes.    E se ele finalmente exorcisa esse mau g&ecirc;nio n&atilde;o &eacute; por qualquer    princ&iacute;pio transcendente mas por um simples recurso aos dados de nossa    condi&ccedil;&otilde;es. Ele descarta no mesmo gesto a esperan&ccedil;a e o    desespero. (...) O acaso n&atilde;o se manifesta sen&atilde;o quando renunciamos    a compreender e a querer. A <I>fortuna </I>&quot;exerce seu poder quando n&atilde;o    lhe opomos nenhuma barreira; ela incide sobre os pontos mal defendidos&quot;    (<I>P</I>, XXV). Se parece haver um curso inflex&iacute;vel das coisas, &eacute;    somente no passado; se a <I>fortuna</I> parece &agrave;s vezes favor&aacute;vel    &agrave;s vezes desfavor&aacute;vel, &eacute; porque o homem &agrave;s vezes    compreende o seu tempo e &agrave;s vezes n&atilde;o, e as mesmas qualidades    fazem quer o seu sucesso ou a sua perda, mas n&atilde;o por acaso. (...)</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Reprova-se nele a id&eacute;ia de que a hist&oacute;ria    &eacute; uma luta e a pol&iacute;tica &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o com    homens mais do que com pr&iacute;ncipes. H&aacute; contudo algo mais seguro?    A hist&oacute;ria, depois de Maquiavel ainda mais do que antes dele, n&atilde;o    mostrou que os princ&iacute;pios n&atilde;o comprometem a nada e que s&atilde;o    adapt&aacute;veis a todos os fins? (...) Maquiavel tinha raz&atilde;o: &eacute;    preciso ter valores, mas isto n&atilde;o &eacute; suficiente, e &eacute; mesmo    perigoso ater-se a isso; enquanto n&atilde;o se escolheu aqueles que t&ecirc;m    a miss&atilde;o de lev&aacute;-los &agrave; luta hist&oacute;rica n&atilde;o    se fez nada. Ora, n&atilde;o &eacute; somente no passado que vemos rep&uacute;blicas    recusar a cidadania &agrave;s suas col&ocirc;nias, matar em nome da liberdade    e tomar a ofensiva em nome da lei. Bem entendido, a dura sabedoria de Maquiavel    n&atilde;o as repreender&aacute; por isso. A hist&oacute;ria &eacute; uma luta,    e se as rep&uacute;blicas n&atilde;o lutasssem elas desapareceriam. Pelo menos    devemos ver que os meios continuam sanguin&aacute;rios, impiedosos, s&oacute;rdidos.    O supremo ardil das Cruzadas &eacute; n&atilde;o confess&aacute;-lo. Cumpriria    romper o c&iacute;rculo.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">&Eacute; evidentemente nesse terreno que uma cr&iacute;tica    de Maquiavel &eacute; poss&iacute;vel e necess&aacute;ria. Ele n&atilde;o estava    errado ao insistir no problema do poder. Mas ele contentou-se com evocar em    algumas palavras um poder que n&atilde;o seria injusto, sem buscar com a maior    energia sua defini&ccedil;&atilde;o. O que o desencoraja &eacute; crer que os    homens s&atilde;o imut&aacute;veis, e que os regimes se sucedem em ciclos (<I>Discorsi,    </I>I). Haveria sempre dois tipos de homens, os que vivem e os que fazem a hist&oacute;ria.    (...) Ele &eacute; tentado a pensar que n&atilde;o h&aacute; uma humanidade,    mas homens hist&oacute;ricos e pacientes &#150; e a por-se do lado dos primeiros.    &Eacute; ent&atilde;o que, n&atilde;o tendo mais raz&atilde;o alguma para preferir    um &quot;profeta armado&quot; a um outro, ele parte para a aventura: ele deposita    esperan&ccedil;as temer&aacute;rias no filho de Louren&ccedil;o de M&eacute;dicis,    e os M&eacute;dicis, seguindo suas pr&oacute;prias regras, o comprometem sem    empreg&aacute;-lo. Republicano, ele desqualifica no pref&aacute;cio &agrave;    <I>Hist&oacute;ria de Floren&ccedil;a </I>o juizo que os republicanos faziam    dos M&eacute;dicis, e os republicanos, que n&atilde;o lhe perdoam isso, tampouco    o empregar&atilde;o. A conduta de Maquiavel acusa o que faltava &agrave; sua    pol&iacute;tica: um fio condutor que lhe permitisse reconhecer, entre os poderes,    aquele do qual se poderia esperar algo de valoroso, e elevar decididamente a    <I>virtude </I>acima do oportunismo. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">(...) Cumpre acrescentar, para ser eq&uuml;itativo,    que a tarefa era dif&iacute;cil. Para os contempor&acirc;neos de Maquiavel o    problema pol&iacute;tico era desde logo de saber se os italianos seriam por    muito tempo impedidos de cultivar e de viver pelas incurs&otilde;es da Fran&ccedil;a,    ou da Espanha, quando n&atilde;o eram do Papado. Que se poderia querer razoavelmente    sen&atilde;o uma na&ccedil;&atilde;o italiana e soldados para faze-la? Para    fazer a humanidade era preciso come&ccedil;ar por fazer esse peda&ccedil;o de    vida humana. (...) N&atilde;o h&aacute; humanismo s&eacute;rio a n&atilde;o    ser esse que busca atrav&eacute;s do mundo o reconhecimento efetivo do homem    pelo homem; ele n&atilde;o poderia ent&atilde;o preceder o momento em que a    humanidade se prov&ecirc; dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e de comunh&atilde;o.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">Eles existem hoje e o problema de um humanismo    real, posto por Maquiavel, foi retomado por Marx h&aacute; cem anos. Pode-se    dizer que esteja resolvido? Marx precisamente prop&ocirc;s, para fazer uma humanidade,    encontrar um outro apoio que aquele, sempre equ&iacute;voco, dos pr&iacute;ncipes.    Ele procurou na situa&ccedil;&atilde;o e no movimento vital dos homens mais    explorados, mais oprimidos, mais desprovidos de poder, o fundamento de um poder    revolucion&aacute;rio, vale dizer capaz de suprimir a explora&ccedil;&atilde;o    e a opress&atilde;o. Mas evidenciou-se que todo o problema residia em constituir    um poder dos sem-poder. (...) A solu&ccedil;&atilde;o somente se poderia encontrar    numa rela&ccedil;&atilde;o absolutamente nova do poder aos submetidos. Era necess&aacute;rio    inventar formas pol&iacute;ticas capazes de controlar o poder sem anul&aacute;-lo,    precisava-se de chefes capazes de explicar aos submetidos as raz&otilde;es de    uma pol&iacute;tica e de obter deles, se fossem necess&aacute;rios, os sacrif&iacute;cios    que o poder normalmente lhes imp&otilde;e. Essas formas pol&iacute;ticas foram    esbo&ccedil;adas, esses chefes apareceram na revolu&ccedil;&atilde;o de 1917,    mas, desde a &eacute;poca da Comuna de Cronstadt, o poder revolucion&aacute;rio    perdeu o contato com uma fra&ccedil;&atilde;o do proletariado entretanto provada,    e, para esconder o conflito, come&ccedil;a a mentir. Ele proclama que o estado-maior    dos insurgentes est&aacute; nas m&atilde;os das guardas brancas, do mesmo modo    como as tropas de Bonaparte &#91;enviadas para conter a revolta negra em S&atilde;o    Domingos&#93; tratam Toussaint-Louverture como agente do estrangeiro. (...) Em todo    caso, hoje &#91;1949&#93; que o expediente de Cronstadt tornou-se sistema e que o poder    revolucion&aacute;rio tomou decididamente o lugar do proletariado como camada    dirigente, com os atributos de pot&ecirc;ncia de uma elite fora de controle,    podemos concluir que, cem anos ap&oacute;s Marx, o problema de um humanismo    real permanece inteiro, e portanto mostrar indulg&ecirc;ncia para com Maquiavel,    que apenas podia entrev&ecirc;-lo.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=2 FACE="Verdana">(...) H&aacute; uma maneira de desqualificar Maquiavel    que &eacute; maquiav&eacute;lica, e consiste no ardil piedoso daqueles que dirigem    seus olhos e os nossos para o c&eacute;u dos princ&iacute;pios para desvi&aacute;-los    daquilo que fazem. E h&aacute; uma maneira de louvar Maquiavel que &eacute;    todo o contr&aacute;rio do maquiavelismo, pois honra na sua obra uma contribui&ccedil;&atilde;o    &agrave; clareza pol&iacute;tica. </FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT FACE="Verdana" SIZE=2><a name="nt02"></a><a href="#tx02">*</a>    Maurice Merleau-Ponty. &quot;Note sur Machiavel&quot;. in <I>Signes. </I>Paris,    Gallimard, 1960, pp. 267-283. Sele&ccedil;&atilde;o e tradu&ccedil;&atilde;o    por Gabriel Cohn.</FONT></P>      ]]></body>
</article>
