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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>HOMENAGEM A CHARLES TILLY (1929-2008)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Angela M. Alonso</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na primeira vez em que bati &agrave; sua porta,    em 1998, eu tinha uma vaga id&eacute;ia de quem ele era. Logo surgiram, de sua    vasta sala na Universidade de Columbia, uns olhos de um azul muito v&iacute;vido    emoldurados por cabelos brancos em cacho. "Professor Tilly?", eu perguntei    intimidada. N&atilde;o trazia carta de apresenta&ccedil;&atilde;o nem outra    credencial que a de estudante brasileira. "Me chame de Chuck", ele    respondeu, abrindo seu largo e cativante sorriso. Nas suas aulas, nas quais    fui prontamente aceita, soube logo que a informalidade era a ponta mais vis&iacute;vel    de seu igualitarismo. Alunos de todas as partes do mundo, ignorantes nos assuntos    que ele dominava, eram convidados a palpitar sobre seus livros em andamento.    Ali estava, logo percebi, um c&eacute;rebro privilegiado, que dava concretude    &agrave; no&ccedil;&atilde;o sempre intang&iacute;vel de g&ecirc;nio, com sua    assombrosa erudi&ccedil;&atilde;o e o controle de todos os debates da sociologia,    da hist&oacute;ria e da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Tudo transmitido em falas    coloquiais, curtas, precisas e brilhantes, no duplo sentido de esclarecedoras    e luminares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O mesmo se via nas sess&otilde;es do semin&aacute;rio    que ele criou na Universidade de Michigan (quando era chamado de "Think,    then drink"), levou consigo para a New School of Social Research e de l&aacute;    para a Columbia. Em seus mais de trinta anos de funcionamento, o "Contentious    Politics" misturou, sob a batuta do maestro (que amava o jazz e a m&uacute;sica    cl&aacute;ssica), de doutorandos a figur&otilde;es consagrados, escrevendo sobre    tr&ecirc;s ou quatro s&eacute;culos e todas as regi&otilde;es do globo em torno    de um dos muitos assuntos em que Tilly pontificou: desigualdade, forma&ccedil;&atilde;o    do Estado nacional, urbaniza&ccedil;&atilde;o, movimentos sociais, explica&ccedil;&atilde;o    sociol&oacute;gica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Pelo seu semin&aacute;rio passaram centenas de    <I>papers</I>, inclusive muitos dos cerca de 600 artigos e 51 livros que Tilly    publicou. Alguns j&aacute; nasceram cl&aacute;ssicos, como <I>The Vend&eacute;e:    a sociological analysis of the counter-revolution of 1793</I> (1964); <I>From    mobilization to revolution</I> (1978); <I>As sociology meets history </I>(1981);    <I>Big structures, large processes, huge comparisons</I> (1984); <I>The contentious    french</I> (1983); <I>European revolutions 1492-1992</I> (1993); C<I>ities and    the rise of States in Europe: A.D. 1000 to 1800</I> (1994); <I>Durable inequality</I>    (1998); <I>Dynamics of contention</I> (2001); <I>Social movements 1768-2004</I>    (2004); <I>Trust and rule</I> (2005); <I>Why?</I> (2006). T&iacute;tulos seus    foram traduzidos para v&aacute;rias l&iacute;nguas (em portugu&ecirc;s h&aacute;    apenas <I>Coer&ccedil;&atilde;o, capital e Estados europeus, 9001900</I>) e    lhe valeram pr&ecirc;mios e honrarias acad&ecirc;micas, como o American Sociological    Association's Career of Distinguished Scholarship Award, em 2005, e convites    para ensinar em prestigiosas universidades mundo afora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em seus trabalhos, Tilly combinou, com rigor    e eleg&acirc;ncia, teoriza&ccedil;&atilde;o e pesquisa emp&iacute;rica, an&aacute;lise    hist&oacute;rica e conjuntural, dados qualitativos e quantitativos. Tomando    a Europa dos &uacute;ltimos quatro s&eacute;culos como seu referente emp&iacute;rico    principal, Tilly primava por uma abordagem macrohist&oacute;rica, o que lhe    valeu cr&iacute;ticas reiteradas de excessivo estruturalismo. Em resposta a    elas, vinha construindo uma abordagem mais perme&aacute;vel &agrave; ag&ecirc;ncia    e &agrave;s dimens&otilde;es culturais da vida social. &Eacute; o que se l&ecirc;    em <I>Identities, boundaries and social ties </I>(2006) e &eacute; o que promete    ser o cerne de seu ainda in&eacute;dito <I>Credit and blame.</I> Essa inflex&atilde;o    em sua obra &eacute; s&oacute; um exemplo de seu antidogmatismo, sempre pronto    a acolher cr&iacute;ticas e aprender com elas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Tilly ainda achava tempo para regularmente aconselhar    desenhos de pesquisa, ler e comentar livros, discutir teses e <I>papers</I>    de quem o requisitasse. Jamais deixava algu&eacute;m sem resposta. Era sempre    am&aacute;vel e prestativo, como foi com a <I>Tempo Social</I>, concedendo uma    entrevista, aceitando compor seu Conselho Editorial e enviando artigos, quando    estava j&aacute; debilitado pelo c&acirc;ncer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Generosidade atestada pela avalanche de e-mails    emocionados que, desde de sua morte, em 29 de abril, vem inundando a lista de    discuss&atilde;o que ele mantinha com ex-alunos e colaboradores. Um deles fez    certa vez uma resenha em versos de um livro de Tilly. Em meio a v&aacute;rias    ressalvas, chamou-o de gigante das ci&ecirc;ncias sociais. Na resposta em soneto,    Tilly ofereceu seus ombros para que o cr&iacute;tico edificasse sobre eles uma    nova teoria. A oferta n&atilde;o era ret&oacute;rica. Tilly de fato ajudou Jeff    Goodwin e centenas de outros, como eu, a escrever seus livros, a partir de suas    pr&oacute;prias id&eacute;ias. O "gigante" de Goodwin tampouco era    uma met&aacute;fora. A monumentalidade e a qualidade da obra de Tilly o atestam;    ela j&aacute; impactou quatro gera&ccedil;&otilde;es de soci&oacute;logos, o    que por si s&oacute; configura uma forma de imortalidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As id&eacute;ias de Charles Tilly est&atilde;o    vivas e potentes. Mas Chuck vai fazer muita falta para aqueles que tiveram a    honra e o prazer de conhec&ecirc;-lo.</font></p>      ]]></body>
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