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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESENHAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Transformar a metr&oacute;pole, igreja cat&oacute;lica, territ&oacute;rios e mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais em S&atilde;o Paulo, 1970-2000</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria da Gl&oacute;ria Gohn </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">IFFLY, Catherine. Transformar a metr&oacute;pole, igreja cat&oacute;lica, territ&oacute;rios e mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais em S&atilde;o Paulo, 1970-2000. Ed UNESP, 2010, 360p </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro de Catherine Iffly, <i>Transformar a Metr&oacute;pole</i>, &eacute; fruto de uma tese de doutoramento apresentada na &aacute;rea de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica da Universit&eacute; Panthe&eacute;on-Assas (Paris II), ao final dos anos de 1990, e foi publicado na Fran&ccedil;a em 2004 com o apoio do Minist&eacute;rio de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores, sob o t&iacute;tulo <i>Eglise catholique, territoires et mobilizations au Br&eacute;sil</i>. A vers&atilde;o em portugu&ecirc;s, editada pela UNESP, traz uma importante contribui&ccedil;&atilde;o para a mem&oacute;ria hist&oacute;rica das lutas e movimentos sociais em S&atilde;o Paulo, entre os anos de 1970-2000. Tomando como foco central de investiga&ccedil;&atilde;o as a&ccedil;&otilde;es da Igreja Cat&oacute;lica naquele per&iacute;odo, a autora faz a reconstru&ccedil;&atilde;o dessas a&ccedil;&otilde;es focalizando atores relevantes na &eacute;poca, nos diferentes lugares da hierarquia eclesial. Suas fontes de dados incluem um rico acervo de documentos - destacam-se o material produzido por diferentes agentes sociais, jornais, e os documentos oficiais de encontros eclesiais -, assim como um rol exemplar de entrevistas com personagens da &eacute;poca. As a&ccedil;&otilde;es s&atilde;o analisadas segundo a intera&ccedil;&atilde;o dos membros do clero com outros atores do cen&aacute;rio sociopol&iacute;tico no per&iacute;odo, tais como lideran&ccedil;as populares, membros do poder p&uacute;blico e de outras entidades da sociedade civil, inst&acirc;ncias da Igreja, como a CNBB-Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional dos Bispos, e a a&ccedil;&atilde;o ou o di&aacute;logo, em certos momentos hist&oacute;ricos, com segmentos de outras igrejas ou cren&ccedil;as crist&atilde;s. Destaca-se, nessa trajet&oacute;ria o papel de Dom Paulo Evaristo Arns e de alguns bispos que atuaram na capital, a exemplo de Dom Bernardino S&acirc;ndalo, especialmente na Zona Leste - l&oacute;cus da investiga&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica da autora. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro tem quatro extensos cap&iacute;tulos. O primeiro aborda a "Territorializa&ccedil;&atilde;o religiosa na Arquidiocese de S&atilde;o Paulo". O segundo apresenta a tem&aacute;tica dos direitos no per&iacute;odo, com o t&iacute;tulo o "Espa&ccedil;o religioso e a forma&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o pol&iacute;tico". O terceiro focaliza as a&ccedil;&otilde;es da igreja e dos movimentos sociais em uma regi&atilde;o de S&atilde;o Paulo: "Recomposi&ccedil;&otilde;es religiosas e pol&iacute;ticas: o caso de S&atilde;o Miguel Paulista". O &uacute;ltimo cap&iacute;tulo retoma o geral e avan&ccedil;a no tempo hist&oacute;rico, apresentando "A a&ccedil;&atilde;o da Igreja em S&atilde;o Paulo nos anos de 1990". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Destaca-se inicialmente, no livro, o registro e a an&aacute;lise das inova&ccedil;&otilde;es e mudan&ccedil;as que a Igreja Cat&oacute;lica realizou em sua forma de atuar em S&atilde;o Paulo, nos anos de 1970, criando Centros Comunit&aacute;rios (CC) - estruturas arquitet&ocirc;nicas simples, diferentes do modelo predominante at&eacute; ent&atilde;o, de constru&ccedil;&atilde;o de capelas ou templos religiosos nos novos bairros da periferia. Os CCs eram constru&iacute;dos via mutir&otilde;es populares, nos terrenos adquiridos pela Igreja com verbas advindas da coopera&ccedil;&atilde;o internacional. In&uacute;meros Centros Comunit&aacute;rios abrigaram outra inova&ccedil;&atilde;o na estrutura do modo de agir da Igreja nos anos de 1970 - os Centros de Defesa de Direitos Humanos (CDDH). Com os CC e os CDDH, a Igreja modelou a territorialidade de sua a&ccedil;&atilde;o de forma descentralizada, incentivando a participa&ccedil;&atilde;o de leigos, em uma cidade dividida entre centro <i>versus</i> periferia, com regi&otilde;es pobres e sem infraestrutura urbana de transportes, sa&uacute;de, creches etc., em um momento dif&iacute;cil da vida nacional. Com o regime militar e o forte controle social reinante, esses centros, dotados de infraestrutura e log&iacute;stica, foram espa&ccedil;os para o di&aacute;logo, a reflex&atilde;o e a organiza&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o; transformaram-se em espa&ccedil;os de constru&ccedil;&atilde;o da resist&ecirc;ncia, em espa&ccedil;os de organiza&ccedil;&atilde;o e conscientiza&ccedil;&atilde;o dos grupos que l&aacute; se instalavam. Havia, especialmente nos anos 70 e primeiros anos de 1980, uma fus&atilde;o entre espa&ccedil;o religioso e espa&ccedil;o de forma&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tico. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Orienta&ccedil;&otilde;es advindas dos anos de 1960 do Conc&iacute;lio Vaticano da Igreja e de Confer&ecirc;ncias na Am&eacute;rica Latina, como a de Medell&iacute;n, deram suporte e incentivo para a a ala que desenvolveu a Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o criar Comunidades Eclesiais de Base nos novos espa&ccedil;os comunit&aacute;rios (CCs). O livro apresenta as tens&otilde;es que permearam essa constru&ccedil;&atilde;o. Os CCs e CDDHs foram estruturas de suporte para as Pastorais, forma por excel&ecirc;ncia de a&ccedil;&atilde;o da Igreja junto a camadas e segmentos exclu&iacute;dos. As Pastorais desenvolviam-se via planos estrat&eacute;gicos, tais como a Opera&ccedil;&atilde;o Periferia, lan&ccedil;ada em 1972, em S&atilde;o Paulo, por D. Paulo E. Arns. As a&ccedil;&otilde;es eram descentralizadas, mas a coordena&ccedil;&atilde;o era centralizada na Arquidiocese de S&atilde;o Paulo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do ponto de vista do estudo e da an&aacute;lise dos movimentos sociais, o livro nos apresenta alguns pontos para a atualiza&ccedil;&atilde;o dos debates naquele per&iacute;odo, tais como a quest&atilde;o do basismo. O texto deixa claro que o basismo dizia respeito &agrave; estrutura da a&ccedil;&atilde;o da Igreja, a forma de participa&ccedil;&atilde;o do povo nas novas a&ccedil;&otilde;es da Igreja, e n&atilde;o algo que fosse fruto de um projeto ou concep&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de ser contra o Estado, como foi interpretado por v&aacute;rios analistas, cr&iacute;ticos das posturas isolacionistas ou de organiza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o fora das estruturas convencionais, como partidos e sindicatos. A base de recrutamento e agrega&ccedil;&atilde;o das pessoas era o territ&oacute;rio, a comunidade de pessoas que vivia em um dado territ&oacute;rio, e n&atilde;o o social ou a sele&ccedil;&atilde;o dos vulner&aacute;veis na escala socioecon&ocirc;mica, como na atualidade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi essa divis&atilde;o territorial religiosa que possibilitou tamb&eacute;m a articula&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as sociopol&iacute;ticas, no local de moradia, entre o "povo" e os religiosos. Nessa articula&ccedil;&atilde;o, profissionais a exemplo de m&eacute;dicos, jornalistas, sanitaristas e assistentes sociais, como tamb&eacute;m funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, desempenharam o papel de mediadores, e (ou) assessores das nascentes organiza&ccedil;&otilde;es populares locais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma representa&ccedil;&atilde;o usual criada sobre os movimentos sociais da chamada "era movimentalista"- nos anos de 1970-1988 - atribu&iacute;a &agrave;s dificuldades dos movimentos as limita&ccedil;&otilde;es de suas reivindica&ccedil;&otilde;es, tidas como muito localizadas, ligadas a suas necessidades mais imediatas. A pr&oacute;pria Catherine incorre nesse erro de interpreta&ccedil;&atilde;o, mas os fatos apresentados no livro nos demonstram, cabalmente, que havia uma articula&ccedil;&atilde;o entre a luta por direitos civis e a luta pelos direitos socioecon&ocirc;micos. Os primeiros revelavam-se nas a&ccedil;&otilde;es em busca de retorno &agrave; democracia, contra o regime militar, em a&ccedil;&otilde;es em que os movimentos se uniam a outras entidades da sociedade civil para protestar contra a viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos e demandar o retorno das elei&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s; a luta pelos direitos socioecon&ocirc;micos aparecia nas reivindica&ccedil;&otilde;es por condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas de sobreviv&ecirc;ncia na grande cidade, tais como moradia, creches, sa&uacute;de e transportes urbanos. Havia uma pedagogia que apostava no car&aacute;ter did&aacute;tico da aprendizagem via pequenas a&ccedil;&otilde;es. Essa a&ccedil;&atilde;o configurou os territ&oacute;rios da metr&oacute;pole e justifica o t&iacute;tulo do livro. A respeito desse &uacute;ltimo, creio que o t&iacute;tulo original em franc&ecirc;s &eacute; mais elucidativo que o t&iacute;tulo da vers&atilde;o em portugu&ecirc;s, embora fosse pretensioso: <i>Eglise catholique, territoires et mobilizations au Br&eacute;sil</i>. O subt&iacute;tulo da vers&atilde;o em portugu&ecirc;s manteve a tr&iacute;ade: igreja, territ&oacute;rios e mobiliza&ccedil;&otilde;es, registrando agora que se trata de S&atilde;o Paulo, datando tamb&eacute;m os acontecimentos (1970-2000). Registre-se ainda que a categoria territ&oacute;rio n&atilde;o era muito usual na literatura sociol&oacute;gica at&eacute; os anos de 1990: era mais restrita &agrave; &aacute;rea da geografia. Atualmente, &eacute; uma categoria de uso corrente n&atilde;o s&oacute; nas Ci&ecirc;ncias Sociais como at&eacute; nos projetos sociais das ONGs para pedirem verbas ou se apresentarem para concursos e pr&ecirc;mios. Portanto, o livro inovou tamb&eacute;m nesse aspecto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro ponto relevante no livro e muito atual ainda para os movimentos sociais &eacute; a quest&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Ela foi vital nos anos de 1970-1980, tratada como estrat&eacute;gica pela Igreja ao criar jornais da e na periferia, como o "Grita Povo", e mesmo o Seman&aacute;rio "O S&atilde;o Paulo". Criou-se o CEMI - Centro de Comunica&ccedil;&atilde;o e Educa&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Miguel Paulista, por exemplo, que desempenhou o papel de um centro de educa&ccedil;&atilde;o popular. Panfletos, faixas, cartazes, cartilhas populares (tendo em vista o grande n&uacute;mero de analfabetos), r&aacute;dios comunit&aacute;rias e outras formas de comunica&ccedil;&atilde;o desempenharam o papel de ativar a participa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Destaca-se tamb&eacute;m o relato e a an&aacute;lise das consequ&ecirc;ncias na mudan&ccedil;a de rumos na orienta&ccedil;&atilde;o da Igreja Cat&oacute;lica, a partir do final dos anos de 1980, e seus reflexos na organiza&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o popular. A&ccedil;&otilde;es eclesiais na cidade de S&atilde;o Paulo foram descentralizadas: bispos foram deslocados de suas regi&otilde;es, Centros Comunit&aacute;rios e Centros de Direitos foram fechados ou redefinidos em suas fun&ccedil;&otilde;es, a coopera&ccedil;&atilde;o internacional deixou de apoiar trabalhos da linha da Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o etc. A mobiliza&ccedil;&atilde;o popular passou a ocorrer em torno de outras causas. Ocorreu o surgimento de novas orienta&ccedil;&otilde;es religiosas dentro da pr&oacute;pria Igreja Cat&oacute;lica - que j&aacute; se ressentia da concorr&ecirc;ncia e da perda de fi&eacute;is para outras matrizes religiosas, tais como para a Assembleia de Deus, do bispo Edir Macedo. S&atilde;o criados, no interior da Igreja Cat&oacute;lica, os grupos de ora&ccedil;&atilde;o e as novas pr&aacute;ticas de espiritualidade individualizantes, presentes na corrente da Renova&ccedil;&atilde;o Carism&aacute;tica. A autora afirma que o tempo das mobiliza&ccedil;&otilde;es e reivindica&ccedil;&otilde;es se encerrou nessa nova etapa, mas que a Igreja continuou envolvida politicamente, passando da a&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica para a a&ccedil;&atilde;o de ajuda assistencial aos indiv&iacute;duos. Atualmente, os indiv&iacute;duos participantes de projetos sociais s&atilde;o tratados como cidad&atilde;os no papel, mas, na pr&aacute;tica, s&atilde;o usu&aacute;rios e consumidores de pol&iacute;ticas sociais de distribui&ccedil;&atilde;o de renda (bolsa fam&iacute;lia, renda m&iacute;nima etc.), ou participantes de cooperativas de produ&ccedil;&atilde;o artesanal e gera&ccedil;&atilde;o de renda. Solidariedade substitui a categoria mobiliza&ccedil;&atilde;o, solidariedade estrategicamente articulada via mobiliza&ccedil;&atilde;o de recursos e oportunidades dadas pela conjuntura pol&iacute;tica, e n&atilde;o constru&iacute;dos via processos de participa&ccedil;&atilde;o, reflex&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o, geradas pela comunidade. Tal comunidade &eacute; agora executora de projetos predefinidos, controlados por ONGs e associa&ccedil;&otilde;es, religiosas ou n&atilde;o, mediadoras de processos que atenuam a pobreza, mas n&atilde;o mexem em estruturas e causas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; interessante tamb&eacute;m observar que, do ponto de vista te&oacute;rico, a autora n&atilde;o recorreu &agrave;s teorias que embasaram a grande maioria dos estudos sobre os movimentos sociais nos anos de 19701990, no Brasil, de matriz marxista, ou estruturalmarxista, ou p&oacute;s-estruturalista, ou p&oacute;s-moderna. Dentre os poucos autores citados, com exce&ccedil;&atilde;o de Bourdieu, a maioria &eacute; da corrente norte-americana da teoria da Mobiliza&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica de Recursos, a exemplo de Charles Tilly e Anthony Oberschall. Ali&aacute;s, essa corrente, via Sidney Tarrow, tem encontrado, na atualidade, in&uacute;meros adeptos no Brasil, na an&aacute;lise dos movimentos sociais. O curioso &eacute; que os atuais adeptos dessa abordagem dizem que ela &eacute; "renovada", e que outras, de um passado ainda recente, dos anos 80 etc. seriam p&aacute;ginas viradas. O livro de Catherine &eacute; um exemplo de que a abordagem est&aacute; sendo recuperada, revisitada, mas ela j&aacute; existia desde os anos de 1990 e, portanto, n&atilde;o &eacute; nova, nem elimina as demais. Outro ponto que falta no livro &eacute; uma an&aacute;lise mais completa da literatura brasileira do per&iacute;odo da pesquisa, sobre os movimentos sociais. Certamente que o foco da autora &eacute; a a&ccedil;&atilde;o da Igreja, e os movimentos s&atilde;o coadjuvantes que entram e saem de cena. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro de Catherine &eacute; um importante registro hist&oacute;rico de um tempo que passou, mas deixou in&uacute;meros frutos. &Eacute; um tipo de depoimento-mem&oacute;ria. Fruto de um estudo acad&ecirc;mico, n&atilde;o &eacute; um livro de leitura f&aacute;cil, porque a publica&ccedil;&atilde;o manteve o formato de tese, com centenas de extensas notas de p&eacute; de p&aacute;gina, muitas fundamentais para explicar os fatos em tela, que poderiam ser incorporadas ao texto, mas muitas poderiam ser exclu&iacute;das. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em 27 de setembro de 2011)    <br>   (Aceito em 03 de janeiro de 2012) </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria da Gl&oacute;ria Gohn</b> -Doutora em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Bolsista I do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPQ). Professora titular da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Tem experi&ecirc;ncia na &aacute;rea de Sociologia, Educa&ccedil;&atilde;o e Pol&iacute;ticas Sociais atuando principalmente nos seguintes temas: movimentos sociais, participa&ccedil;&atilde;o social, educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-formal, associativismo e cidadania. Dentre seus livros destacam-se: Novas teorias dos movimentos sociais (Loyola, 2012, 4a ed.); Teorias dos movimentos sociais (Loyola, 2012, 10a ed); Historia dos movimentos e lutas sociais (Loyola, 2011, 6a ed.); Movimentos sociais e redes de mobiliza&ccedil;&otilde;es civis no Brasil contempor&acirc;neo (Vozes, 2012, 3a ed); Movimentos sociais e educa&ccedil;&atilde;o (Cortez, 2012, 8a ed). <a href="mailto:mgohn@uol.com.br">mgohn@uol.com.br</a> </font></p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Exclus&atilde;o social e ruptura dos la&ccedil;os sociais: an&aacute;lise cr&iacute;tica do debate contempor&acirc;neo</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Claudete Gomes Soares </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">LEAL, Giuliana Franco. Exclus&atilde;o social e ruptura dos la&ccedil;os sociais: an&aacute;lise cr&iacute;tica do debate contempor&acirc;neo. Santa Catarina: Editora UFSC: Florian&oacute;polis, 2011. 233p. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quais os significados da pobreza, da marginaliza&ccedil;&atilde;o, priva&ccedil;&atilde;o material e dos processos de precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho na sociedade contempor&acirc;nea? Quais desafios os novos rearranjos dessa sociedade, ora denominada p&oacute;s-industrial, da informa&ccedil;&atilde;o, sociedade em redes imp&otilde;em as ci&ecirc;ncias sociais e aos analistas sociais? Com quais categorias de an&aacute;lise daremos conta de explicar as novidades que nos cercam? Em que medida essas novidades representam rupturas ou continuidades com um tipo de organiza&ccedil;&atilde;o social que convencionamos chamar de sociedade industrial, capitalista, moderna? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas s&atilde;o quest&otilde;es que permeiam a problem&aacute;tica em debate no livro de Giuliana Franco Leal. Motivada pela populariza&ccedil;&atilde;o que a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o ganhou na sociedade contempor&acirc;nea, a partir da d&eacute;cada de 1990, Leal se debru&ccedil;a sobre uma parte da literatura das ci&ecirc;ncias humanas (e n&atilde;o apenas sociais): sociologia, ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica, psicologia social, educa&ccedil;&atilde;o, etc. com o objetivo de recuperar os usos e significados do termo exclus&atilde;o social evidenciando seus limites enquanto categoria de an&aacute;lise para as explica&ccedil;&otilde;es dos fen&ocirc;menos sociais geralmente a ele associado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; em raz&atilde;o da fragilidade do termo enquanto instrumento de an&aacute;lise que ela se refere a ele como no&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o como conceito. Embora um levantamento bibliogr&aacute;fico possa revelar a populariza&ccedil;&atilde;o do termo nas ci&ecirc;ncias humanas, evidente no n&uacute;mero de t&iacute;tulos e de situa&ccedil;&otilde;es sociais a ele associado, a verdade &eacute; que na maioria das vezes ele carece de defini&ccedil;&atilde;o, precis&atilde;o, rigor. O que leva Leal a classific&aacute;-lo como "<i>apoio superficial que n&atilde;o se configura como instrumento anal&iacute;tico que traga algo de verdadeiramente novo para a compreens&atilde;o da realidade social" (p.12).</i> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quest&atilde;o que a autora se coloca &eacute; se existiria na prolifera&ccedil;&atilde;o dos usos do termo exclus&atilde;o social algum movimento no sentido de tornar a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o mais rigorosa, al&ccedil;ando-a a instrumento de an&aacute;lise social. &Eacute; na busca por esse movimento que se desenvolve o livro. A autora toma como ponto de partida algo que sugere uma defini&ccedil;&atilde;o, uma regularidade: exclus&atilde;o como vulnerabilidade, como n&atilde;o acesso aos recursos materiais e imateriais. Para ent&atilde;o se lan&ccedil;ar sobre as v&aacute;rias perspectivas e olhares sobre o tema da exclus&atilde;o social e suas implica&ccedil;&otilde;es te&oacute;rico-metodol&oacute;gicas. No entanto, diante de um tema t&atilde;o vasto, ainda era necess&aacute;rio mais um recorte. Entre as v&aacute;rias abordagens da exclus&atilde;o, o livro se dedica &agrave; que trata a exclus&atilde;o social como <i>fragiliza&ccedil;&atilde;o e quebra dos la&ccedil;os sociais</i>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; no primeiro cap&iacute;tulo que a autora mais se dedica &agrave; quest&atilde;o da fragiliza&ccedil;&atilde;o e da quebra dos la&ccedil;os sociais: "<i>tecidos pelo trabalho, pelo consumo e pelas rela&ccedil;&otilde;es de sociabilidade prim&aacute;ria</i>" (p.25). A presen&ccedil;a da bibliografia francesa, predominante neste cap&iacute;tulo, justifica-se pelo pioneirismo dos franceses no emprego do termo exclus&atilde;o e pela dimens&atilde;o de sua influencia no debate brasileiro. Neste cap&iacute;tulo, o leitor &eacute; apresentado a outras no&ccedil;&otilde;es associadas &agrave; exclus&atilde;o social: desfilia&ccedil;&atilde;o, desqualifica&ccedil;&atilde;o, desinser&ccedil;&atilde;o, vulnerabilidade etc. Esses termos aparecem na bibliografia em an&aacute;lise ora como sin&ocirc;nimo de exclus&atilde;o ora como sua nega&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica. Outro tema derivado da perspectiva da exclus&atilde;o como fragiliza&ccedil;&atilde;o e quebra dos la&ccedil;os sociais, abordado pela autora, &eacute; o da integra&ccedil;&atilde;o/desintegra&ccedil;&atilde;o social, no que concerne a rela&ccedil;&atilde;o indiv&iacute;duo e sociedade e a da sociedade enquanto conjunto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Leal ao fazer a an&aacute;lise cr&iacute;tica da bibliografia n&atilde;o deixa de mencionar os eventos que corroboraram para a intensifica&ccedil;&atilde;o do uso da no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o pelas ci&ecirc;ncias humanas: a crise do Estado de bem-estar e o seu impacto para os direitos; as transforma&ccedil;&otilde;es no mundo do trabalho e os processos de precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho e de desemprego delas decorrentes; o decl&iacute;nio de institui&ccedil;&otilde;es que se constitu&iacute;ram enquanto pilares da modernidade. No entanto, &eacute; pouco, o leitor se ressentir&aacute; da aus&ecirc;ncia de uma contextualiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica que lhe permita relacionar esses processos ao tema da exclus&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No cap&iacute;tulo dois, a autora procura evidenciar como se constituiu o debate da exclus&atilde;o como fragiliza&ccedil;&atilde;o e quebra dos la&ccedil;os sociais na sociedade brasileira por meio da influ&ecirc;ncia dos franceses e as &ecirc;nfases dos autores brasileiros em considera&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade hist&oacute;rico-social em que desenvolvem suas pesquisas e an&aacute;lises. Uma das particularidades do debate brasileiro &eacute; a associa&ccedil;&atilde;o entre desumaniza&ccedil;&atilde;o, viol&ecirc;ncia e processos de exclus&atilde;o social. "<i>A sujei&ccedil;&atilde;o potencial &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica &eacute; um quesito da condi&ccedil;&atilde;o da exclus&atilde;o repetido por v&aacute;rios autores que, em sua maioria, se citam e se referenciam mutuamente</i>" (p.91). Se na an&aacute;lise francesa a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o tem sido utilizada para pensar, entre outros problemas, o processo de migra&ccedil;&atilde;o em uma situa&ccedil;&atilde;o de decl&iacute;nio do Estado de bem-estar e aumento do desemprego, no Brasil a condi&ccedil;&atilde;o dos moradores de rua &eacute; por excel&ecirc;ncia um problema t&iacute;pico-ideal para as an&aacute;lises que operam com a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, Leal exp&otilde;e as cr&iacute;ticas &agrave; no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o a partir da perspectiva da contradi&ccedil;&atilde;o. O leitor sentir&aacute; a quebra do padr&atilde;o adotado pela autora nos cap&iacute;tulos anteriores. Naqueles a abordagem &eacute; feita por meio da apresenta&ccedil;&atilde;o das ideias de v&aacute;rios autores. Aqui ela deixa claro que a cr&iacute;tica ser&aacute; reconstru&iacute;da por meio dos argumentos de dois autores brasileiros: Pedro Demo e Jos&eacute; de Souza Martins. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ess&ecirc;ncia da cr&iacute;tica desses autores &agrave; no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o adv&eacute;m de suas filia&ccedil;&otilde;es a uma perspectiva de an&aacute;lise da realidade social constru&iacute;da no campo do marxismo, que se desenvolve por meio da l&oacute;gica da unidade dos contr&aacute;rios, das rela&ccedil;&otilde;es antag&ocirc;nicas e contradit&oacute;rias. Elementos, para essa perspectiva, constitutivos do capitalismo enquanto sistema. Neste sentido, n&atilde;o haveria grandes novidades na no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o e nos fen&ocirc;menos aos quais ela se aplica. Esses seriam processos inerentes ao capitalismo e/ou aprofundamentos de suas contradi&ccedil;&otilde;es. Essa vis&atilde;o de exclus&atilde;o leva a autora a recuperar parte do debate sobre marginalidade social da d&eacute;cada de 1960 e 1970, com o objetivo de identificar as afinidades entre a abordagem da exclus&atilde;o como contradi&ccedil;&atilde;o e a da marginalidade social. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode-se dizer que a autora nos leva a concluir que embora a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o tenha ca&iacute;do no gosto de uma vasta gama de analistas sociais, al&eacute;m de aparecer em programas de governos, partidos e orienta&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas, a sua consolida&ccedil;&atilde;o enquanto categoria de an&aacute;lise n&atilde;o se opera ou se opera de modo muito fr&aacute;gil. Entre as refer&ecirc;ncias analisadas pela autora, n&atilde;o &eacute; raro que a op&ccedil;&atilde;o pelo uso da no&ccedil;&atilde;o seja acompanhada de retic&ecirc;ncias, justificativas e mesmo de ressalvas quanto ao seu alcance. No entanto, a recorr&ecirc;ncia dos usos, adv&eacute;m do fato de a no&ccedil;&atilde;o se referir a um leque bastante variado de situa&ccedil;&otilde;es que se n&atilde;o s&atilde;o propriamente novas ganharam uma nova roupagem em raz&atilde;o das transforma&ccedil;&otilde;es que atingiram a sociedade contempor&acirc;nea a partir da d&eacute;cada de 1970 do s&eacute;culo passado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Giuliana Franco Leal ao se propor fazer uma an&aacute;lise cr&iacute;tica da no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o o que faz, al&eacute;m disso, &eacute; nos levar a pensar sobre os limites das ci&ecirc;ncias sociais em particular e das ci&ecirc;ncias humanas em geral em refazer seus paradigmas explicativos em um mundo marcado pelo signo do novo e do incerto. Talvez, ao final, o leitor espere que ela opere a passagem da no&ccedil;&atilde;o para o conceito de exclus&atilde;o; que ela forne&ccedil;a um conceito de exclus&atilde;o v&aacute;lido, preciso, n&atilde;o poliss&ecirc;mico ou que invalide a no&ccedil;&atilde;o. Ela n&atilde;o chega a invalid&aacute;-la, por&eacute;m o que fica para o leitor &eacute; a pergunta: dever&iacute;amos continuar usando a no&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o? </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em 31 de janeiro de 2012)     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   (Aceito em 29 de mar&ccedil;o de 2012) </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Claudete Gomes Soares</b> -Doutora em sociologia. Professora Adjunta I da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapec&oacute;- SC, da &aacute;rea de conhecimento Sociologia e Pol&iacute;tica. Principais publica&ccedil;&otilde;es: A radicaliza&ccedil;&atilde;o da democracia e a quest&atilde;o racial no projeto pol&iacute;tico do PT da d&eacute;cada de 1990. Perseu: Hist&oacute;ria, Mem&oacute;ria e Pol&iacute;tica, 2011; A politiza&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o racial. Teoria e Debate, 2009; Romantismo e pol&iacute;tica na teologia da liberta&ccedil;&atilde;o. Id&eacute;ias. Rev. do IFCH-UNICAMP, 2005. <a href="mailto:claudetesoares@gmail.com">claudetesoares@gmail.com</a> </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Institucionaliza&ccedil;&atilde;o da sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Amurabi Oliveira </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">MEUCCI, Simone. Institucionaliza&ccedil;&atilde;o da sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos. S&atilde;o Paulo: Hucitec: Fapesp, 2011. 169 p. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro de Simone Meucci &eacute; lan&ccedil;ado num momento demasiadamente oportuno, quando consideramos o pr&oacute;prio processo de reintrodu&ccedil;&atilde;o da Sociologia no Ensino M&eacute;dio, mas n&atilde;o s&oacute;. Pois, muito al&eacute;m de uma pesquisa voltada para a Sociologia da Educa&ccedil;&atilde;o, a presente obra constitui uma Sociologia dos Intelectuais, a partir de uma constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica que vai para al&eacute;m de uma revisita aos primeiros manuais de sociologia produzidos no Brasil. Ela analisa o pr&oacute;prio movimento de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da Sociologia, entre as d&eacute;cadas de 20 a 40, do s&eacute;culo XX. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O olhar lan&ccedil;ado traz um tra&ccedil;o eminentemente original, por caminhar na contram&atilde;o da maior parte dos estudos que se debru&ccedil;am sobre a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da Sociologia no Brasil, e se referenciam a esse processo, quase que exclusivamente, a partir da Universidade, com in&iacute;cio nos anos 30. Meucci traz uma an&aacute;lise acerca do processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o e rotiniza&ccedil;&atilde;o do conhecimento sociol&oacute;gico ao longo das d&eacute;cadas de 20, 30 e 40, incluindo, a&iacute;, autores menos consagrados que atuaram nessa seara. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A autora destaca que, a partir dos anos 30, houve uma explos&atilde;o de manuais de Sociologia. Entre os anos de 1931 e 1945, ela levanta 35 t&iacute;tulos, incluindo tanto autores "desconhecidos", como outros mais ilustres, como Fernando de Azevedo, Delgado de Carvalho, Amaral Fontoura e Gilberto Freyre. S&atilde;o apontadas como raz&otilde;es que viabilizaram tal profus&atilde;o tanto a consolida&ccedil;&atilde;o da Sociologia no sistema de ensino, nesse per&iacute;odo, quanto um mercado editorial favor&aacute;vel ao investimento na &aacute;rea pedag&oacute;gica. No &iacute;mpeto de ir para al&eacute;m de um olhar sobre os manuais, Meucci investiga quem eram os sujeitos envolvidos na tarefa de sistematizar esse conhecimento sociol&oacute;gico, os quais apresentam algumas caracter&iacute;sticas distintivas, como o fato de gravitarem em torno do Estado, bem como de estarem envolvidos no debate educacional. Em meio a esse cen&aacute;rio, &eacute; levantada a hip&oacute;tese de que: "&#91;...&#93; a Sociologia passou a se constituir como uma linguagem importante, por meio da qual se traduziram os embates fundamentais do per&iacute;odo. &#91;...&#93; O discurso sociol&oacute;gico era ent&atilde;o a for&ccedil;a atuante e decisiva nos debates da &eacute;poca." (Ibidem, p. 42). Devido a esse fato, teria conseguido mobilizar tantos intelectuais brasileiros do per&iacute;odo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m h&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o em desvendar que significado a sociologia passou a ter quando introduzida no pa&iacute;s, apontando que, nesses ambientes intelectuais, em especial a partir das Faculdades de Direito, a Sociologia passou a ser apontada como a ci&ecirc;ncia capaz de esclarecer certas rela&ccedil;&otilde;es sociais, bem como foi compreendida como a disciplina capaz de renovar a forma&ccedil;&atilde;o intelectual das Faculdades de Direito no pa&iacute;s, chegando, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, de acordo com intelectuais como Pontes de Miranda, a beneficiar a institui&ccedil;&atilde;o de uma "pol&iacute;tica positiva". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao contr&aacute;rio do ensa&iacute;smo jur&iacute;dico e liter&aacute;rio, a Sociologia seria capaz de renovar a vida intelectual, atrav&eacute;s do seu realismo cient&iacute;fico, o que seria propiciado, de acordo com o que era proposto pelos manuais, atrav&eacute;s de um papel ativo do professor, substituindo a longa e abstrata prele&ccedil;&atilde;o por atividades que despertassem, nos alunos, o interesse pelas quest&otilde;es sociais, atrav&eacute;s de semin&aacute;rios, debates, pesquisas etc. A Sociologia parecia, nesse momento, opor-se ao pr&oacute;prio modelo bacharelesco presente na forma&ccedil;&atilde;o intelectual ofertada nas Faculdades de Direito, respons&aacute;vel pela principal causa da inoper&acirc;ncia pol&iacute;tica: o divorcio entre o modelo pol&iacute;tico e a realidade social do pa&iacute;s. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse cen&aacute;rio de mudan&ccedil;a no ambiente intelectual brasileiro &eacute; marcado pela pr&oacute;pria guinada na percep&ccedil;&atilde;o do lugar dos intelectuais na sociedade brasileira. &Eacute; um momento em que as reformas na educa&ccedil;&atilde;o passaram a ser percebidas como uma reforma da pr&oacute;pria sociedade, e os intelectuais envolvidos passaram a se reconhecer como elementos ativos na obra de forma&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o. &Eacute; nesse bojo de transforma&ccedil;&otilde;es, que a Sociologia, nos cursos de forma&ccedil;&atilde;o de professores (ent&atilde;o denominados cursos normais), juntamente com outras disciplinas, como metodologia do ensino, psicologia etc., visavam a dar mais cientificidade e pragmatismo ao &acirc;mbito da forma&ccedil;&atilde;o docente. A introdu&ccedil;&atilde;o da Sociologia como disciplina indispens&aacute;vel para a forma&ccedil;&atilde;o de educadores se vincula ao pr&oacute;prio movimento da Escola Nova, que tinha ent&atilde;o, na d&eacute;cada de 20 e 30, grande repercuss&atilde;o no meio intelectual brasileiro. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A autora levanta uma interessante hip&oacute;tese acerca das expectativas depositadas na Sociologia e na pr&oacute;pria tarefa dos educadores, que teriam sua origem na no&ccedil;&atilde;o de que o Brasil seria um pa&iacute;s inconcluso. "Ou seja, tratava-se de um pa&iacute;s em que a unidade entre sociedade e na&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tinha sido efetivamente completada." (Ibidem, p. 68). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse momento, a Sociologia, em especial atrav&eacute;s de seus manuais, torna-se palco de uma intensa batalha entre aqueles vinculados &agrave; Escola Nova, representados principalmente por Fernando de Azevedo, e a pedagogia cat&oacute;lica, representada por Amoroso Lima, para quem a Sociologia seria, acima de tudo, uma disciplina moral. Para Meucci, os livros de Sociologia Crist&atilde; que emergem nesse per&iacute;odo podem ser compreendidos como resultado de uma rea&ccedil;&atilde;o &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es da sociedade, as quais, supostamente, pareciam p&ocirc;r em risco o ide&aacute;rio cat&oacute;lico. Os livros de Sociologia tornam-se, portanto, ve&iacute;culos de express&atilde;o de um debate pol&iacute;tico sobre a natureza da sociedade e da educa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro aspecto trazido pela autora &eacute; a centralidade que a perspectiva te&oacute;rica de Durkheim vai tomar nesse per&iacute;odo, encontrando eco, principalmente, atrav&eacute;s de Fernando de Azevedo. Tal intelectual trata, ainda, de apresentar a figura do soci&oacute;logo, ao contr&aacute;rio da Sociologia, bastante conhecida atrav&eacute;s do sistema de ensino. A Sociologia e o soci&oacute;logo s&atilde;o apresentados como agentes e como produtos do progresso, e, portanto, o processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o dessa ci&ecirc;ncia no Brasil mostrava-se favor&aacute;vel ao desenvolvimento do pa&iacute;s. Outro ponto interessante destacado nessa obra &eacute; a singularidade da sistematiza&ccedil;&atilde;o de Freyre da Sociologia, realizada atrav&eacute;s de manuais, que se origina no pr&oacute;prio car&aacute;ter <i>sui generis</i> da sua forma&ccedil;&atilde;o intelectual. Ele era o &uacute;nico do per&iacute;odo, dentre os autores analisados, com uma forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica em ci&ecirc;ncias sociais, bem como aquele que faz refer&ecirc;ncias a autores para al&eacute;m do mundo anglo-franc&oacute;fono. Para Freyre, da mesma forma que n&atilde;o havia uma &uacute;nica Sociologia, n&atilde;o havia um &uacute;nico modelo de modernidade poss&iacute;vel. Nesse per&iacute;odo, na interpreta&ccedil;&atilde;o da autora, os livros de Sociologia expressariam as for&ccedil;as atuantes que disputavam o monop&oacute;lio da explica&ccedil;&atilde;o da sociedade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, a autora aponta para conceitos-chave para a compreens&atilde;o do debate retratado atrav&eacute;s dos livros did&aacute;ticos: progresso, e organiza&ccedil;&atilde;o social. Dentro da no&ccedil;&atilde;o de progresso, destaca-se a perspectiva te&oacute;rica apregoada por Spencer, aquela que encontrou mais receptividade entre os primeiros sistematizadores e "rotinizadores" do conhecimento sociol&oacute;gico, o que ocorreu, principalmente, durante o per&iacute;odo do Estado Novo. Nesse ponto, a autora nos chama a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de essa formula&ccedil;&atilde;o estar em conson&acirc;ncia com o pacto nacional que era ent&atilde;o alinhavado. No que tange ao conceito de organiza&ccedil;&atilde;o social, ela chama a aten&ccedil;&atilde;o para o fato que se buscava impor, por meio do ensino de Sociologia, um padr&atilde;o de organiza&ccedil;&atilde;o social, propondo, assim, um homem novo para um Estado novo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Meucci destaca, ao longo de sua obra, como a sociologia foi encarada com otimismo por parte dos mais diversos segmentos intelectuais brasileiros, apontada como a disciplina que seria capaz de renovar intelectual e socialmente o pa&iacute;s, pois teria as ferramentas cient&iacute;ficas para tanto. Sua obra tem como grande contribui&ccedil;&atilde;o a investiga&ccedil;&atilde;o do debate intelectual envolto no processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da Sociologia no Brasil, observado a partir de um &acirc;ngulo pouco explorado, ou seja, a partir dos primeiros manuais, abrindo outras possibilidades de an&aacute;lise e, mesmo, de indaga&ccedil;&atilde;o em torno da institucionalidade da Sociologia no cen&aacute;rio atual. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em 17 de outubro de 2011)    <br>   (Aceito em 03 de janeiro de 2012) </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Amurabi Oliveira</b> - Doutor em Sociologia. Professor da Universidade Federal de Alagoas. Editor da REALIS -Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais. Possui experi&ecirc;ncia na &aacute;rea de sociologia, de antropologia e de educa&ccedil;&atilde;o, com &ecirc;nfase em: pr&aacute;tica de pesquisa no ensino de sociologia no ensino m&eacute;dio e na &aacute;rea de sociologia e antropologia da religi&atilde;o. Atua principalmente nos seguintes temas: Religiosidades, Nova Era, Novos Movimentos Religiosos, Vale do Amanhecer, Educa&ccedil;&atilde;o, Sociologia e Antropologia da Educa&ccedil;&atilde;o, Ensino de Sociologia, D&aacute;diva, Estudos P&oacute;s-Coloniais. <a href="mailto:amurabi_cs@hotmail.com">amurabi_cs@hotmail.com</a> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
