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<publisher-name><![CDATA[Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS-Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O beijo de Spade: gênero, narrativa, cognição]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article is an initial elaboration of the screen persona of the American actor Humphrey Bogart at the film The Maltese Falcon of 1941. I argue that the notion of the Hollywoodian person produces the mediation between the image of the artist and his/her social trajectory. It is a kind of symbolic power, capable of establishing the artist within the structure of cinematographic production. In this manner, I use a scene from the The Maltese Falcon to relate the two analytical axes of this argument: on the one hand, the sign of gender that characterizes Bogart's persona, alternating between apparent indifference and sudden vulnerability; on the other, the visual culture - unthinkable as separated from a local social experience - a symbolic dimension that constrains the geometry of the eyes (audience, camera, cast). My narrative searches through a series of clues collected from various sources (films, literature, biographies, historiography), sharing with the Hollywoodian classic its most characteristic trait: the detective mode of knowledge.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face= "verdana, arial, helvetica, sans-serif" size="4"><b>O beijo de Spade: g&ecirc;nero,    narrativa, cogni&ccedil;&atilde;o<a href="#back"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><b>Lu&iacute;s Felipe Sobral</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Doutorando em antropologia    social pela Unicamp. E-mail: &lt;<a href= "mailto:lf_sobral@yahoo.com">lf_sobral@yahoo.com</a>&gt;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Este artigo descreve a primeira elabora&ccedil;&atilde;o da <i>persona</i>    cinematogr&aacute;fica do ator norte-americano Humphrey Bogart, em <i>O falc&atilde;o    malt&ecirc;s</i>, de 1941. Argumento que tal no&ccedil;&atilde;o de pessoa hollywoodiana    produz a media&ccedil;&atilde;o entre a imagem do artista e sua trajet&oacute;ria    social: ela &eacute; uma esp&eacute;cie de poder simb&oacute;lico capaz de estabelecer    o artista na estrutura de produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica. Assim,    a partir de uma cena de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>, relaciono os dois    eixos anal&iacute;ticos deste argumento: de um lado, a marca de g&ecirc;nero    que caracteriza a <i>persona</i> de Bogart entre a indiferen&ccedil;a aparente    e a vulnerabilidade s&uacute;bita; de outro, a cultura visual - impens&aacute;vel    apartada de uma experi&ecirc;ncia social localizada - dimens&atilde;o simb&oacute;lica    que condiciona a geometria de olhares (p&uacute;blico, c&acirc;mera, elenco).    Minha narrativa percorre uma s&eacute;rie de pistas oriundas de fontes diversas    (filmes, literatura, biografias, historiografia) e compartilha com o cinema    cl&aacute;ssico hollywoodiano seu tra&ccedil;o mais caracter&iacute;stico: a    forma de conhecimento detetivesca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><b>Palavras-chave:</b> Humphrey Bogart (1899-1957), Hollywood, G&ecirc;nero,    No&ccedil;&atilde;o de pessoa.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">This article is an initial elaboration of the screen persona of the American    actor Humphrey Bogart at the film The Maltese Falcon of 1941. I argue that the    notion of the Hollywoodian person produces the mediation between the image of    the artist and his/her social trajectory. It is a kind of symbolic power, capable    of establishing the artist within the structure of cinematographic production.    In this manner, I use a scene from the The Maltese Falcon to relate the two    analytical axes of this argument: on the one hand, the sign of gender that characterizes    Bogart's persona, alternating between apparent indifference and sudden vulnerability;    on the other, the visual culture - unthinkable as separated from a local social    experience - a symbolic dimension that constrains the geometry of the eyes (audience,    camera, cast). My narrative searches through a series of clues collected from    various sources (films, literature, biographies, historiography), sharing with    the Hollywoodian classic its most characteristic trait: the detective mode of    knowledge.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><b>Key words:</b> Humphrey Bogart (1899-1957), Hollywood, Gender, Notion of    person.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>1</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Spade tocou a campainha apenas para avisar que entrava no apartamento, pois    possu&iacute;a a chave. Brigid estava ansiosa: perguntou se a pol&iacute;cia    sabia algo sobre ela; Spade colocou o chap&eacute;u sob um abajur, atirou o    sobretudo em uma cadeira e respondeu que, por enquanto, n&atilde;o. Ela questionou    se n&atilde;o arranjaria problemas para si; ele replicou que n&atilde;o se importava    em arranjar problemas. Convidou-o a sentar-se; sem encar&aacute;-lo, verificou    as unhas e ajeitou o ornamento florido que lhe enfeitava o vestido. Spade desabotoou    o palet&oacute; e observou-a de p&eacute;, com um sorriso de quem se diverte.    Sentou-se e comentou, fleum&aacute;tico, que ela n&atilde;o era exatamente o    tipo de pessoa que fingia ser; Brigid dissimulou, mas ele esclareceu: "O jeito    de boa mo&ccedil;a. Voc&ecirc; sabe: enrubescendo, gaguejando e tudo isso".    Confessou-lhe que n&atilde;o teve uma vida boa, que tinha sido m&aacute;, pior    do que ele podia imaginar. Spade preferiu assim, pois, do contr&aacute;rio,    fingindo ser quem n&atilde;o era, n&atilde;o chegariam a lugar algum. "N&atilde;o    serei inocente", garantiu, e Spade mostrou-se satisfeito, e emendou: "A prop&oacute;sito,    vi Joel Cairo esta noite". Brigid reagiu com uma impassividade r&iacute;gida:    perscrutou-o e inquiriu se conhecia o dito Cairo; Spade respondeu que apenas    vagamente. Ela levantou-se e, de costas para ele, ati&ccedil;ou o fogo na lareira.    Observou-a, divertindo-se com a artimanha de sua performance. Sem sair de sua    poltrona, tomou-lhe o ati&ccedil;ador das m&atilde;os; ela buscou outra coisa    para ocupar-se, o que a levou &agrave; cigarreira sobre um aparador no centro    da sala. Enquanto acendia um cigarro, os esbo&ccedil;os de sorriso de Spade    &agrave;s suas costas transformaram-se em uma risada de esc&aacute;rnio: "Voc&ecirc;    &eacute; boa. Voc&ecirc; &eacute; muito boa". Sem jamais virar-se para ele,    sentou-se no bra&ccedil;o da poltrona no outro extremo da lareira e indagou    o que Cairo dissera sobre ela; "Nada", foi a resposta. De esguelha, perguntou    do que falaram, e Spade revelou que Cairo oferecera 5 mil d&oacute;lares pelo    p&aacute;ssaro negro. Brigid levantou-se. Spade, com as m&atilde;os tran&ccedil;adas,    inquiriu se ela continuaria arrumando as coisas e ati&ccedil;ando o fogo; com    um sorriso nervoso, falou que n&atilde;o e, enfim, voltou-se para ele, ansiosa    por saber o que respondera a Cairo: "Que 5 mil &eacute; muito dinheiro". Confessou-lhe,    derrotista, que era mais do que poderia oferecer por sua lealdade. Spade, com    um sorriso curto, saltou da poltrona. "&Eacute; engra&ccedil;ado, vindo de voc&ecirc;",    disse, ao aproximar-se. "O que me deu al&eacute;m de dinheiro? Alguma vez me    disse a verdade?". Inclinou-se levemente sobre ela: "N&atilde;o quis comprar    minha lealdade com dinheiro?". E ela, aflita: "Com o que mais poderia compr&aacute;-la?".    Agarrou-a pelo rosto e a beijou. Os polegares enterraram-se nas suas bochechas,    e os olhos se fincaram. Spade afastou-se e, olhando para a janela, disse-lhe    que n&atilde;o ligava para seus segredos; n&atilde;o poderia, contudo, prosseguir    a investiga&ccedil;&atilde;o sem um pouco de confian&ccedil;a nela: teria de    convenc&ecirc;-lo de que n&atilde;o era apenas um jogo. Ela suplicou um pouco    mais de confian&ccedil;a; ele perguntou o que ela esperava. "Tenho de falar    com Joel Cairo". Spade disse que ela poderia v&ecirc;-lo aquela noite e arremeteu-se    ao telefone: Cairo fora ao teatro e, assim, deixara um recado em seu hotel.    Brigid apoiou-se no sof&aacute;; angustiada, protestou, enquanto ele discava    o n&uacute;mero: Cairo n&atilde;o poderia saber onde ela estava, pois o temia.    Irredut&iacute;vel, Spade, sem soltar o fone, concordou que o encontro seria    em seu apartamento. Brigid, afinal, resignou-se.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>2</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Trata-se de uma cena de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s,</i> interpretada    por Humphrey Bogart (1899-1957) e Mary Astor.<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>    H&aacute; uma discrep&acirc;ncia entre a brutalidade do beijo de Spade e o extenuante    processo de filmagem da cena: foram necess&aacute;rias sete tentativas para    satisfazer o diretor John Huston, pois Bogart tinha dificuldade com o beijo.    Isto se justifica por dois motivos: o primeiro, alegado pelo pr&oacute;prio    ator, refere-se &agrave; falta de pr&aacute;tica oriunda dos in&uacute;meros    capangas de g&acirc;ngster que encarnara at&eacute; ent&atilde;o, aos quais    eram interditadas as cenas de beijo; o segundo, indicado por Astor, circunscreve-se    ao desconforto do colega com o ac&uacute;mulo de saliva em um canto da boca,    devido &agrave; cicatriz no l&aacute;bio superior (Sperber &amp; Lax 1997:159-160).    Tal cicatriz provocava um leve sibilo caracter&iacute;stico na pron&uacute;ncia    de Bogart, e existem v&aacute;rias vers&otilde;es de sua origem, todas ap&oacute;crifas:    infligida pelo pai na inf&acirc;ncia; causada pelo estilha&ccedil;o de um proj&eacute;til    durante a Primeira Guerra Mundial; decorrente do confronto com um prisioneiro    no per&iacute;odo em que serviu &agrave; Marinha (Sperber &amp; Lax 1997:27,    34-35); produto da briga desenrolada em uma bebedeira. Entre o insolente beijo    de Spade e a obscura cicatriz de Bogart interp&otilde;e-se uma descontinuidade,    a saber, aquela que separa a imagem de seu processo de produ&ccedil;&atilde;o    e, em particular, a imagem art&iacute;stica, da trajet&oacute;ria social do    artista. &Eacute; esta descontinuidade que ambiciono superar neste ensaio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>3</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O p&uacute;blico    cinematogr&aacute;fico de hoje, diante de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>,    assume naturalmente o fato de Spade ser um detetive particular c&iacute;nico    e oportunista que, em meio a uma s&eacute;rie de personagens de moral duvidosa,    mostra-se, afinal, ao lado da lei; na verdade, o p&uacute;blico espera por isso,    pois &eacute; Bogart quem encarna Spade: atrav&eacute;s da continuidade entre    a figura do ator e as subsequentes apropria&ccedil;&otilde;es culturais &agrave;s    quais foi submetida, Spade &eacute; um personagem familiar. Contudo, diante    dos pap&eacute;is de Bogart anteriores a este filme, o mesmo p&uacute;blico    passaria por uma experi&ecirc;ncia de estranhamento: "Ele &#91;Bogart&#93; rosnou    e balbuciou em toda uma s&eacute;rie de pap&eacute;is superficiais &#91;...&#93;.    Ganhava 650 d&oacute;lares por semana e, l&aacute; pelo fim da maior parte dos    filmes, era baleado, rosnando" (Friedrich 1988:93). Assim, o p&uacute;blico    de 1941 n&atilde;o poderia esperar algo muito diferente, mesmo tendo havido    algumas poucas exce&ccedil;&otilde;es nessa s&eacute;rie. A atua&ccedil;&atilde;o    de Bogart como Spade, em <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> &#151; filme produzido    durante a era dos est&uacute;dios pela Warner Bros., especialista em filmes    de g&acirc;ngster &#151; representa, a um s&oacute; tempo, uma ruptura em rela&ccedil;&atilde;o    a todos os pap&eacute;is que interpretara e um resultado da experi&ecirc;ncia    adquirida atrav&eacute;s deles.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>4</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Bogart iniciou, destitu&iacute;do de treinamento profissional, sua carreira    de ator na Broadway, onde, de 1922 a 1935, atuou em pelo menos 17 pe&ccedil;as    e percorreu uma trajet&oacute;ria irregular, com algumas cr&iacute;ticas favor&aacute;veis.<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a>    A partir de 1928 &#151; com o advento do cinema sonoro e a demanda por artistas    que soubessem falar em cena (Schatz 1991:72-80; Sklar 1992:21-24) &#151; empreendeu    uma s&eacute;rie de incurs&otilde;es a Hollywood: fez alguns filmes espor&aacute;dicos    que, todavia, n&atilde;o lhe proporcionaram um contrato a m&eacute;dio prazo,    o primeiro passo para alojar-se na ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica.    O insucesso dessas empreitadas explica-se por duas raz&otilde;es inter-relacionadas:    primeiro, a obsolesc&ecirc;ncia de alguns personagens que representou, uma vez    que incorporou, como fazia na Broadway, o "tipo juvenil" &#151; arrivista charmoso    que ambiciona triunfar por meio do casamento com uma jovem rica &#151; encarado,    em uma &eacute;poca de depress&atilde;o, com crescente impopularidade; segundo,    a in&eacute;pcia de </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Bogart diante das c&acirc;meras, que oscilava desde uma gestualidade repetitiva    e desconfort&aacute;vel at&eacute; erros crassos, como dar as costas &agrave;    c&acirc;mera durante uma cena importante (Sklar 1992:24-26).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Entre a Broadway e Hollywood, por&eacute;m, Bogart p&ocirc;de esbo&ccedil;ar    um novo tipo: de um modo geral, enquanto no teatro continuava a interpretar    o "tipo juvenil", no cinema ensaiava o vil&atilde;o coadjuvante. Eles n&atilde;o    estavam separados, pois o segundo emergia do primeiro, de forma que, na primeira    metade da d&eacute;cada de 1930, apesar de um vis&iacute;vel envelhecimento,    "ele ainda tinha a inexperiente apar&ecirc;ncia de um jovem", da qual se delineava    "uma voz &aacute;spera, um visual austero, e um ar de viol&ecirc;ncia mal contida,    acentuados por um novo gesto de frisar seu l&aacute;bio superior e descobrir    seus dentes" (Sklar 1992:59).<a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O estabelecimento    de Bogart em Hollywood, enfim, n&atilde;o ocorreu de forma direta, atrav&eacute;s    de suas incurs&otilde;es &agrave; Costa Oeste; foi sua interpreta&ccedil;&atilde;o    do foragido ladr&atilde;o de bancos Duke Mantee, na pe&ccedil;a <i>A floresta    petrificada</i>, de 1935, que possibilitou seu acesso &agrave; ind&uacute;stria    cinematogr&aacute;fica. &Eacute; preciso entender o interesse de Hollywood &#151;    e da Warner Bros., em particular &#151; por esta pe&ccedil;a teatral.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>5</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A segunda metade    da d&eacute;cada de 1910 e o final dos anos 1950 s&atilde;o as balizas temporais    que delimitam o sistema de est&uacute;dios, uma maneira espec&iacute;fica de    fazer filmes que, a despeito de suas varia&ccedil;&otilde;es ao longo desse    intervalo, &eacute; identific&aacute;vel pela estabilidade de suas linhas gerais.    Consistia na estrutura social, econ&ocirc;mica e cultural que, a partir de um    processo industrial &#151; que controlava e executava todas as etapas da produ&ccedil;&atilde;o    de um filme, desde a elabora&ccedil;&atilde;o do roteiro at&eacute; sua exibi&ccedil;&atilde;o    nas salas de cinema &#151; formava um sistema integrado entre os escrit&oacute;rios    de Wall Street e os est&uacute;dios de Los Angeles, cujo objetivo final era    gerar lucros (Schatz 1991:17-26). Tratava-se de um oligop&oacute;lio, cada est&uacute;dio    "constituindo uma varia&ccedil;&atilde;o distinta do estilo cl&aacute;ssico    de Hollywood" (Schatz 1991:23), com especificidades de produ&ccedil;&atilde;o    e, consequentemente, produtos peculiares; a MGM, por exemplo, n&atilde;o estava    preparada, nem tinha os profissionais certos, a come&ccedil;ar pelos int&eacute;rpretes,    para produzir um filme de g&acirc;ngster do tipo da Warner que, por sua vez,    n&atilde;o poderia fazer um filme de terror como os da Universal, e assim por    diante &#151; os est&uacute;dios devem, portanto, ser pensados em sua hist&oacute;ria    inter-relacionada (Schatz 1991:23-26).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O ponto de acesso    para uma an&aacute;lise do sistema de est&uacute;dios &eacute; atrav&eacute;s    dos arquitetos do estilo de cada est&uacute;dio, os pouqu&iacute;ssimos produtores    executivos &#151; os quais "eram sempre homens" (Schatz 1991:21) &#151; que,    por meio da media&ccedil;&atilde;o entre o polo dominado de produ&ccedil;&atilde;o    cultural (Hollywood) e o polo econ&ocirc;mico dominante (Wall Street), uniam    em uma estrutura hier&aacute;rquica vertical o que estava separado horizontalmente    por uma dist&acirc;ncia continental; em suma, "traduziam o or&ccedil;amento    anual, apresentado pelo escrit&oacute;rio de Nova York, numa programa&ccedil;&atilde;o    espec&iacute;fica de filmes" (Schatz 1991) e, nesse processo, concentravam,    de uma perspectiva ampla, toda a opera&ccedil;&atilde;o do est&uacute;dio (Schatz    1991:21-22). A posi&ccedil;&atilde;o do executivo, contudo, s&oacute; &eacute;    intelig&iacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras do est&uacute;dio    &#151; isto &eacute;, as posi&ccedil;&otilde;es de diretores, roteiristas, atores    e atrizes, t&eacute;cnicos de som e de ilumina&ccedil;&atilde;o, e assim por    diante &#151; pois esse cinema &eacute; uma arte coletiva por excel&ecirc;ncia;    mas, diante dos m&uacute;ltiplos interesses em quest&atilde;o, "a realiza&ccedil;&atilde;o    cinematogr&aacute;fica de est&uacute;dio era menos um processo de colabora&ccedil;&atilde;o    do que uma arena de negocia&ccedil;&otilde;es e de luta" (Schatz 1991:26). Um    filme da era de est&uacute;dios, portanto, &eacute; oriundo desse campo de for&ccedil;as    sociais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>6</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O est&uacute;dio    que se interessou por <i>A floresta petrificada</i> foi a Warner Bros., que    apresentava "o estilo mais diferenciado de Hollywood" (Schatz 1991:147), estabelecido    na passagem para a d&eacute;cada de 1930 e pautado na combina&ccedil;&atilde;o    de uma dupla economia (t&eacute;cnica e narrativa) em conson&acirc;ncia com    uma rigorosa pol&iacute;tica financeira. "Renunciando ao brilho e ao glamour    da MGM e da Paramount, a Warner optou por uma vis&atilde;o de mundo mais sombria    e in&oacute;spita" (Schatz 1991), que a levou a especializar-se em filmes de    a&ccedil;&atilde;o masculinos, em particular os filmes de g&acirc;ngster, diretamente    vinculados ao empreendimento sonoro pioneiro da Warner (tiros, gritos, pneus    cantando) e &agrave;s manchetes jornal&iacute;sticas da Depress&atilde;o (Schatz    1991:146-157; 1981:85). Em linhas gerais, o g&acirc;ngster consistia em um renegado    urbano de propor&ccedil;&otilde;es her&oacute;ico-an&aacute;rquicas que era    criado pela cidade e por ela destru&iacute;do; nele coabitavam impulsos contradit&oacute;rios    que oscilavam entre interesses individuais incontrol&aacute;veis e constri&ccedil;&otilde;es    sociais inflex&iacute;veis: ele morria no final do filme e, assim, sublinhava    de modo amb&iacute;guo seu individualismo, porque seu comportamento era autodestrutivo,    incapaz de equilibrar indefinidamente essa tens&atilde;o e, ao mesmo tempo,    impersuad&iacute;vel a deixar de tentar faz&ecirc;-lo (Schatz 1991:82-85).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1935, quando    <i>A floresta petrificada</i> foi produzida na Warner, dois eventos intervieram    na ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica de um modo geral e, em particular,    na figura do g&acirc;ngster: por um lado, a autocensura &#151; sa&iacute;da    pol&iacute;tica de Hollywood para defender-se das in&uacute;meras comiss&otilde;es    de censura municipais e estaduais &#151; cujo c&oacute;digo de produ&ccedil;&atilde;o    impunha restri&ccedil;&otilde;es especialmente aos crimes contra a lei e &agrave;    sexualidade, sob pena de n&atilde;o conceder o selo que autorizava a exibi&ccedil;&atilde;o    do filme (Douin 1998:155-157); por outro, o governo de Roosevelt empreendia    uma campanha contra a ilegalidade, e pressionava a m&iacute;dia popular a encerrar    a glamoriza&ccedil;&atilde;o do g&acirc;ngster (Sklar 1992:62).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A segunda metade    da d&eacute;cada de 1930 testemunhou uma curiosa reformula&ccedil;&atilde;o,    na qual a tens&atilde;o passou a ser externa ao protagonista: n&atilde;o mais    uma tend&ecirc;ncia criminal quase inata assumida como destino an&aacute;rquico,    mas uma escolha entre o mundo do crime e a lei. Isto permitiu duas varia&ccedil;&otilde;es:    manter a postura bruta e c&iacute;nica do g&acirc;ngster, mas deslocada para    o dur&atilde;o defensor da lei; e contrapor o g&acirc;ngster a uma figura a    favor da ordem social, de apelo simb&oacute;lico equivalente e da mesma origem    social. Este j&aacute; n&atilde;o era mais o g&acirc;ngster do in&iacute;cio    da d&eacute;cada e do g&ecirc;nero, uma vez desprovido da for&ccedil;a simb&oacute;lica    advinda de sua ambiguidade: "Quando o g&acirc;ngster n&atilde;o era mais o her&oacute;i    do filme de crime urbano, tornou-se, muito simplesmente, um criminoso endurecido"    (Schatz 1981:99). Imp&ocirc;s-se, assim, um distanciamento entre ele e o p&uacute;blico:    este n&atilde;o simpatizava, n&atilde;o se identificava mais com aquele, personagem    complexo metamorfoseado em um tipo plano (Schatz 1981:98-102). Foi sob esta    imagem que Bogart, na forma de Duke Mantee, estabeleceu-se em Hollywood: "Algu&eacute;m    poderia temer Mantee, ser aterrorizado por ele, at&eacute; mesmo sentir pena    dele &#151; mas a interpreta&ccedil;&atilde;o compacta, reprimida e aberrante    de Bogart tornou improv&aacute;vel algu&eacute;m jamais desejar <i>ser</i> ele"    (Sklar 1992:63, grifo do autor).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Dessa forma, o interesse da Warner por <i>A floresta petrificada</i> &#151;    que, em sua vers&atilde;o dramat&uacute;rgica, j&aacute; supunha todas essas    constri&ccedil;&otilde;es &#151; explica-se pela converg&ecirc;ncia, de um lado,    da forma e do conte&uacute;do da pe&ccedil;a e, de outro, do estilo de produ&ccedil;&atilde;o    do est&uacute;dio. Pode-se resumir isto tudo atrav&eacute;s da perspectiva do    g&ecirc;nero narrativo, pois esta</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">&#91;...&#93; (1) assume que a produ&ccedil;&atilde;o de filmes &eacute; uma      arte <i>comercial</i> e, portanto, que seus criadores contam com f&oacute;rmulas      testadas para economizar e sistematizar a produ&ccedil;&atilde;o; (2) reconhece      o contato pr&oacute;ximo do cinema com sua <i>audi&ecirc;ncia</i>, cuja resposta      a filmes individuais tem afetado o gradual desenvolvimento de f&oacute;rmulas      de enredo e pr&aacute;ticas de produ&ccedil;&atilde;o padronizadas; (3) trata      o cinema, em primeiro lugar, como um meio <i>narrativo</i> (contar uma hist&oacute;ria),      cujas hist&oacute;rias familiares envolvem conflitos dram&aacute;ticos, os      quais s&atilde;o eles mesmos inspirados em <i>conflitos culturais</i> correntes;      e (4) estabelece um contexto no qual a <i>carreira art&iacute;stica</i> cinem&aacute;tica      &eacute; avaliada em termos da capacidade de nossos cineastas em reinventar      conven&ccedil;&otilde;es formais e narrativas estabelecidas (Schatz 1981:vii-viii).</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>7</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um fato envolvendo    dois atores, em particular, contribuiu para que a Warner mantivesse Bogart na    adapta&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica de <i>A floresta petrificada</i>.    Edward G. Robinson foi lan&ccedil;ado &agrave; fama como o prot&oacute;tipo    do g&acirc;ngster com <i>Alma no lodo</i>, de 1931; tal sucesso tornou-o um    dos atores mais bem pagos da Warner e concedeu-lhe uma autonomia relativa, na    forma de um contrato sem exclusividade, que lhe permitia fazer filmes em outros    est&uacute;dios, e com direito de aprova&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via de roteiros.    Meses se passaram sem que Robinson e a Warner chegassem a um meio-termo para    definir o pr&oacute;ximo filme do ator &#151; at&eacute; ele ler o roteiro de    <i>A floresta petrificada</i> e deparar-se com Mantee (Sperber &amp; Lax 1997:52).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Robinson era irredut&iacute;vel em seu direito &#151; tamb&eacute;m garantido    por contrato &#151; de cr&eacute;dito, na abertura de seus filmes, acima de    qualquer outro ator, e a Warner j&aacute; havia acertado o primeiro lugar com    o protagonista Leslie Howard; Robinson aceitava, no m&aacute;ximo, dividi-lo    com Howard (Sklar 1992:61). Este, preeminente figura da Broadway e ator em Hollywood,    interpretara o escritor errante e desiludido na pe&ccedil;a, da qual detinha    os direitos junto com o produtor, o diretor e o dramaturgo. Ele havia garantido    a Bogart o papel no cinema e, acima de tudo, tinha consci&ecirc;ncia de que    o sucesso da pe&ccedil;a residia, em grande medida, no contraste entre sua interpreta&ccedil;&atilde;o    e a de Bogart; exigiu, ent&atilde;o, a perman&ecirc;ncia deste para encarnar    Mantee novamente (Sperber &amp; Lax 1997:50-53). "Ele &#91;Bogart&#93; estava    de volta aos filmes, e &#91;a maneira&#93; como os outros administravam suas    carreiras tinha maior impacto em sua fortuna do que como ele administrava a    sua pr&oacute;pria" (Sklar 1992:61).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O artista no sistema    de est&uacute;dio era um ser em luta com a estrutura de produ&ccedil;&atilde;o:    todo o seu esfor&ccedil;o estava voltado para conquistar e manter uma autonomia    relativa.<a name="top4"></a><a href="#back4"><sup>4</sup></a> Esta s&oacute;    era alcan&ccedil;ada se seu trabalho fosse capaz de gerar lucro atrav&eacute;s    da recep&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, o que era mais prov&aacute;vel    segundo uma f&oacute;rmula narrativa testada, pois cumpria a expectativa da    audi&ecirc;ncia por meio de um produto que o est&uacute;dio estava imediatamente    preparado para produzir. J&aacute; para manter a autonomia, o artista deveria    ser flex&iacute;vel o suficiente para adaptar as conven&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas    aos respectivos temas, que acompanhavam as quest&otilde;es culturais do momento.    Como se v&ecirc;, o artista encontrava sua autonomia relativa na estrutura da    perspectiva do g&ecirc;nero narrativo citada acima: por este motivo &eacute;    que ele tendia a se especializar em um determinado g&ecirc;nero e, assim, em    personagens similares. N&atilde;o obstante, se, de um lado, a continuidade da    imagem art&iacute;stica, ao longo de pequenas varia&ccedil;&otilde;es eficazes,    garantia um valor de mercado est&aacute;vel, de outro, amea&ccedil;ava desvaloriz&aacute;-lo    pelo risco de tornar-se desgastada. Portanto, do artista no sistema de est&uacute;dio    exigia-se a habilidade propriamente pol&iacute;tica de, a um s&oacute; tempo,    esquivar-se das constri&ccedil;&otilde;es estruturais &#151; sem jamais ter    &ecirc;xito completo, porque estruturais &#151; e utiliz&aacute;-las a seu favor:    nesta faixa estreit&iacute;ssima &eacute; que ele encontrava sua autonomia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>8</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O historiador Robert    Sklar, a partir da perspectiva perform&aacute;tica, aproximou os personagens    interpretados por James Cagney e Bogart em Hollywood, sem deixar de notar qu&atilde;o    distantes s&atilde;o as origens sociais dos dois atores. Ambos nasceram em 1899,    em Nova York: o primeiro, no Lower East Side, filho de um propriet&aacute;rio    de bar, cat&oacute;lico e irland&ecirc;s; o segundo, no Upper East Side, filho    de um m&eacute;dico e de uma sufragista ent&atilde;o famosa por ilustrar populares    livros infantis anglo-sax&otilde;es protestantes (Sklar 1992:4-6). Cagney e    Bogart come&ccedil;aram suas carreiras na Broadway: o primeiro interpretava    uma variante do delinquente que o levaria a Hollywood (Sklar 1992:12-17); o    segundo, o rom&acirc;ntico juvenil que repetiria &agrave; exaust&atilde;o e    que lhe interditaria o acesso &agrave; ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica.    Se Cagney foi obrigado a se afastar da figura do g&acirc;ngster para proporcionar    autonomia &agrave; sua carreira cinematogr&aacute;fica j&aacute; estabelecida,    Bogart, no mesmo per&iacute;odo, apenas conseguiu estabelecer-se em Hollywood    encarnando uma variante da mesma figura contraventora na Broadway.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">H&aacute; uma evidente converg&ecirc;ncia entre, de um lado, os personagens    &#151; o delinquente e o "tipo juvenil" &#151; que marcaram o in&iacute;cio    das duas carreiras e, de outro, as respectivas origens sociais; longe de apontar    para qualquer esp&eacute;cie de determinismo, tal converg&ecirc;ncia parece    ter sido tra&ccedil;ada n&atilde;o apenas pelo que as experi&ecirc;ncias sociais    de ambos, em circuitos distintos da metr&oacute;pole, diferenciavam-nos, mas    sobretudo pelo que compartilhavam, isto &eacute;, a aus&ecirc;ncia de educa&ccedil;&atilde;o    dramat&uacute;rgica formal, fatores que os dispuseram a aprender o of&iacute;cio    a partir daquilo que conheciam melhor. Ao longo do tempo, todavia, essa converg&ecirc;ncia    foi transformada pelas duas viv&ecirc;ncias profissionais que, apesar de comporem    hist&oacute;rias individuais distintas, foram expostas &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es    de for&ccedil;a da estrutura de produ&ccedil;&atilde;o hollywoodiana e, em particular,    da Warner. A despeito das origens sociais, portanto, a l&oacute;gica do processo    era a mesma, mas as trajet&oacute;rias dos dois n&atilde;o estavam sincronizadas:    em 1936, enquanto Cagney, estabelecido h&aacute; meia d&eacute;cada, lutava    por autonomia, Bogart, o <i>outsider</i>, ainda deveria mostrar seu valor ao    est&uacute;dio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, tratava-se    de um per&iacute;odo conturbado da vida de Bogart. Logo completaria 36 anos,    e seria a primeira vez na vida que teria estabilidade financeira por conta pr&oacute;pria.    Decepcionara os pais, que o educaram com o intuito de que frequentasse uma universidade    de prest&iacute;gio, como Yale, aonde nunca chegou, pois foi expulso por reprova&ccedil;&atilde;o    da escola preparat&oacute;ria; subsequentemente, alistou-se na Marinha em fins    da Primeira Guerra (Friedrich 1988:92-93).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O investimento    escolar &#151; visto como meio de produzir e manter o <i>status</i> social &#151;    n&atilde;o pode ser menosprezado na vida do ator: os Bogart n&atilde;o apenas    eram de classe m&eacute;dia alta como reivindicavam marcas aristocr&aacute;ticas,    inscritas na profiss&atilde;o de m&eacute;dico do pai e de ilustradora educada    em Paris da m&atilde;e (Sperber &amp; Lax 1997:11-13). Isto era particularmente    vis&iacute;vel no nome de seu filho, Humphrey DeForest Bogart: Humphrey era    a transforma&ccedil;&atilde;o em nome do sobrenome da m&atilde;e, Maud, de origem    inglesa, ligada por uma conex&atilde;o lateral aos Churchills; DeForest provinha    do pai, Belmont DeForest Bogart, cujo pai, fazendeiro descendente de holandeses    emigrados nos Seiscentos, ascendeu de pequeno hoteleiro de prov&iacute;ncia    a manufatureiro de an&uacute;ncios publicit&aacute;rios na Nova York da segunda    metade do s&eacute;culo XIX, e proveu o filho com os nomes de duas fam&iacute;lias    novaiorquinas preeminentes (Sperber &amp; Lax 1997:8-10, 13-14). Assim, o fracasso    escolar minava a aspira&ccedil;&atilde;o aristocr&aacute;tica dos pais nutrida    por meio da continuidade geneal&oacute;gica: exclu&iacute;da a passagem por    uma universidade de elite, o estabelecimento de uma posi&ccedil;&atilde;o com    <i>status</i> social elevado era remoto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Quando <i>A floresta petrificada</i> estreou na Broadway, em janeiro de 1935,    a posi&ccedil;&atilde;o de Bogart era particularmente delicada: seu segundo    casamento, com a atriz de teatro Mary Philips, deteriorava-se, pois as infrut&iacute;feras    incurs&otilde;es de Bogart em Hollywood os mantinham separados &#151; situa&ccedil;&atilde;o    que iria se acentuar ap&oacute;s seu contrato com a Warner &#151; uma vez que    ela ocupava uma s&oacute;lida posi&ccedil;&atilde;o na Broadway; a Depress&atilde;o    esvaziava os teatros, onde ambos estavam ancorados financeiramente; meses antes,    em setembro de 1934, o pai de Bogart falecera, deixando d&iacute;vida a ser    paga (Sperber &amp; Lax 1997:42-47); e, enfim, um ano e pouco depois de assinar    o contrato com a Warner, uma de suas duas irm&atilde;s morreu, enquanto a outra,    diagnosticada man&iacute;aco-depressiva em decorr&ecirc;ncia de um parto dific&iacute;limo,    era abandonada pelo marido falido, for&ccedil;ando Bogart a assumir seus cuidados    e despesas (Sperber &amp; Lax 1997:42, 85-86).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 10 de dezembro    de 1935, assinou, afinal, o contrato de exclusividade com a Warner, que passava    a reter todos os direitos sobre seu trabalho, n&atilde;o apenas no est&uacute;dio,    mas em qualquer lugar e m&iacute;dia em que aparecesse. Com efeito, "Bogart    abriu m&atilde;o de tudo, exceto sua sombra" (Sperber &amp; Lax 1997:61): trocou    todas as formas de sua imagem por mais uma aposta no sucesso hollywoodiano e,    sobretudo, pela estabilidade financeira, que lhe garantia 26 semanas de trabalho    a 550 d&oacute;lares cada, ao final das quais o est&uacute;dio se reservava    o direito de decidir pela renova&ccedil;&atilde;o do contrato por outro per&iacute;odo    equivalente, aumentando em 50 d&oacute;lares o pagamento (Sperber &amp; Lax    1997).<a name="top5"></a><a href="#back5"><sup>5</sup></a> Com uma margem de    manobra estreita, devido a todas as constri&ccedil;&otilde;es sociais e econ&ocirc;micas    citadas, Bogart aceitou todas as intemp&eacute;ries em que o trabalho no est&uacute;dio    o lan&ccedil;avam: representou, muitas vezes sem intervalo, em um filme ap&oacute;s    o outro, e chegou a atuar em mais de um filme em um &uacute;nico dia; trabalhou,    via empr&eacute;stimos lucrativos para a Warner, em filmes de produtores independentes    e de outros est&uacute;dios; mostrou v&aacute;rias vezes, com algumas poucas    exce&ccedil;&otilde;es, certo deslocamento nas interpreta&ccedil;&otilde;es    dos pap&eacute;is que poderiam salv&aacute;-lo da s&eacute;rie de bandidos que    lhe era imposta; especializou-se e aprimorou um tipo de vil&atilde;o coadjuvante,    isto &eacute;, o capanga de g&acirc;ngster (Sklar 1992:63-71, 88). "Assim, Humphrey    Bogart, que fracassou no caminho que lhe era destinado em Yale, tornou-se um    g&acirc;ngster" (Friedrich 1988:93).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>9</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na cena descrita    de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> que abre este artigo, vislumbra-se uma    duplicidade na figura de Spade. Pode-se dividir a descri&ccedil;&atilde;o em    duas partes, demarcadas por "Spade, com um sorriso curto, saltou da poltrona".    At&eacute; ent&atilde;o, por meio de uma postura fleum&aacute;tica, ele pareceu    ter o dom&iacute;nio completo da situa&ccedil;&atilde;o: entrou no apartamento    de Brigid munido da pr&oacute;pria chave; mostrou-se &agrave; vontade ao retirar    o chap&eacute;u e o sobretudo; respondeu &agrave; quest&atilde;o dela sobre    a pol&iacute;cia de forma direta; recha&ccedil;ou a preocupa&ccedil;&atilde;o    consigo mesmo; mostrou a inefic&aacute;cia das dissimula&ccedil;&otilde;es de    Brigid; provocou sua afli&ccedil;&atilde;o ao falar de Cairo e sua proposta    pelo p&aacute;ssaro negro; divertiu-se, enfim, com a constante dissimula&ccedil;&atilde;o    de Brigid. Na segunda parte, a impassibilidade insolente de Spade, que aparentemente    lhe garantia certo controle, &eacute; obscurecida pela paix&atilde;o: levantou-se    do sof&aacute; movido pela c&oacute;lera; beijou-a com o desejo ati&ccedil;ado    pela ira; reivindicou honestidade para o bem da investiga&ccedil;&atilde;o,    exig&ecirc;ncia vagamente separ&aacute;vel do beijo desferido; atendeu, afinal,    &agrave; s&uacute;plica de Brigid por mais confian&ccedil;a atrav&eacute;s do    encontro com Cairo. No momento em que Spade parecia estar no controle da situa&ccedil;&atilde;o,    sua posi&ccedil;&atilde;o estava sendo minada pela sequ&ecirc;ncia infatig&aacute;vel    de t&aacute;ticas de Brigid, que culmina no uso expl&iacute;cito da sedu&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Tal divis&atilde;o anal&iacute;tica, contudo, n&atilde;o pode levar a crer    que as duas fases s&atilde;o homog&ecirc;neas em suas caracter&iacute;sticas,    pois ent&atilde;o Spade seria um personagem descont&iacute;nuo e, portanto,    inveross&iacute;mil para os padr&otilde;es da narrativa cl&aacute;ssica hollywoodiana.    De forma inversa, pode-se dizer: a paix&atilde;o interv&eacute;m como parte    do pr&oacute;prio motivo da presen&ccedil;a de Spade no apartamento de Brigid;    e a postura fleum&aacute;tica &eacute; requerida logo ap&oacute;s o beijo, na    tentativa de retomar um pragmatismo em benef&iacute;cio da posi&ccedil;&atilde;o    segura do trabalho. A brutalidade da indiferen&ccedil;a e a vulnerabilidade    da paix&atilde;o n&atilde;o se combinam, em Spade, como termos excludentes,    mas conviventes: uma tens&atilde;o que oscila entre a superf&iacute;cie e a    profundidade do personagem. O beijo de Spade concentra e potencializa essa tens&atilde;o:    o desejo col&eacute;rico de beijar Brigid torna-o vulner&aacute;vel, e por isso    a beija com uma f&uacute;ria insolente. A duplicidade de Spade, assim, repousa    na marca de g&ecirc;nero caracter&iacute;stica da media&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica    entre indiferen&ccedil;a e vulnerabilidade, desenvolvida ao longo da narrativa    de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>.<a name="top6"></a><a href="#back6"><sup>6</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>10</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De setembro de    1929 a janeiro de 1930, a revista de entretenimento popular <i>Black Mask</i>    publicou, em cinco partes, o romance policial <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>,    logo em seguida editado por Alfred A. Knopf em Nova York (Hammett 1999:960-961).    Dashiell Hammett, seu autor, havia trabalhado para a Ag&ecirc;ncia Nacional    de Detetives Pinkerton, e a&iacute; fizera todo tipo de servi&ccedil;o, desde    seguir pessoas at&eacute; sabotar greves de sindicatos (Friedrich 1988:87).    O protagonista de seu romance &eacute; o c&iacute;nico Sam Spade, detetive particular    em San Francisco, trabalho que executa ao lado de um s&oacute;cio, cuja esposa    &eacute; sua amante. Quando o s&oacute;cio &#151; ao seguir o perigoso homem    que fugira com a irm&atilde; da senhorita Wonderly, linda cliente dos detetives    &#151; &eacute; assassinado, Spade v&ecirc;-se diante de um caso intrincado,    no qual nenhum elemento, ou ningu&eacute;m, se revela por completo: a senhorita    Wonderly &#151; "de tirar o f&ocirc;lego", na verdade Brigid O'Shaughnessy,    que inventou a hist&oacute;ria sobre a irm&atilde; &#151; </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">suplica ajuda e recusa-se a expor suas reais inten&ccedil;&otilde;es; o levantino    Joel Cairo, que anda "com passinhos curtos, afetados, saltitantes", apresenta-se    a Spade como cliente, apenas para, munido de uma pistola, vasculhar o escrit&oacute;rio    do detetive em busca de um obscuro artefato; Wilmer, um "espi&atilde;o baixinho"    que segue Spade de forma indiscreta pelas ruas de San Francisco; e o gordo Casper    Gutman, cujas "protuber&acirc;ncias balofas" sacodem-se quando anda e que, por    meio de uma postura cavalheiresca e um discurso sobre confian&ccedil;a, pretende    fazer neg&oacute;cio com Spade acerca de um valioso objeto hist&oacute;rico,    cuja origem &eacute; o &uacute;nico a conhecer.<a name="top7"></a><a href="#back7"><sup>7</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Logo Spade descobre que est&atilde;o todos atr&aacute;s de uma rel&iacute;quia    inestim&aacute;vel &#151; o falc&atilde;o do t&iacute;tulo &#151; e que n&atilde;o    medir&atilde;o esfor&ccedil;os para possu&iacute;-la. Spade, por sua vez, &eacute;    t&atilde;o amb&iacute;guo quanto os outros personagens, pois seu pragmatismo    c&iacute;nico confunde-se com oportunismo, ao dizer sempre o que &eacute; vantajoso    para si, de acordo com a situa&ccedil;&atilde;o. O subterf&uacute;gio narrativo    de Hammett &#151; e aqui repousa a for&ccedil;a do livro &#151; n&atilde;o &eacute;    menos amb&iacute;guo: o narrador apresenta-se em terceira pessoa, sem jamais    abandonar a perspectiva de Spade que, portanto, estende-se de forma ub&iacute;qua    ao longo do livro. Tudo se passa como se o leitor, de certa dist&acirc;ncia,    seguisse Spade em suas perambula&ccedil;&otilde;es por San Francisco: ele sabe,    por um lado, que o detetive n&atilde;o &eacute; culpado do crime, pois acompanha-o    ininterruptamente; por outro, que ele seria perfeitamente capaz de comet&ecirc;-lo,    de acordo com a avalia&ccedil;&atilde;o dos outros personagens.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>11</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">John Huston &#151; ex-boxeador, ex-membro da cavalaria mexicana, ex-pintor,    filho do ator Walter Huston e, no come&ccedil;o da d&eacute;cada de 1940, escritor    promissor na Warner &#151; pautou-se no argumento de que o livro de Hammett    "nunca tinha sido na realidade levado &agrave; tela" e no direito, estabelecido    por seu agente em cl&aacute;usula no contrato com o est&uacute;dio, de escolher    um filme para dirigir, e escreveu um roteiro fiel a <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>    (Friedrich 1988:87-90).<a name="top8"></a><a href="#back8"><sup>8</sup></a>    O m&eacute;todo de Huston n&atilde;o era usual: ao inv&eacute;s de escrever    o roteiro a partir do enredo do livro, o que tinha por resultado, em geral,    uma adapta&ccedil;&atilde;o distante na qual intervinham em seguida o produtor,    o diretor, o elenco, e assim por diante, ele quis seguir o livro, isto &eacute;,    acompanhar cada guinada de a&ccedil;&atilde;o. Em suma, concentrava em suas    m&atilde;os grande parte do processo criativo de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No come&ccedil;o    de 1941, Bogart, a despeito do sucesso de <i>O &uacute;ltimo ref&uacute;gio</i>,    continuava negligenciado pela Warner: perdera as disputas pelos filmes que lhe    interessavam, fora remetido de volta &agrave; s&eacute;rie de personagens secund&aacute;rios    e, afinal, recusara-se a trabalhar e fora suspenso (era um direito do est&uacute;dio)    por seis meses (Sperber &amp; Lax 1997:141-147). Quando retornou, Huston preparava-se    para filmar <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>, e Bogart demonstrou interesse,    mas foi submetido ao jogo pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico t&iacute;pico dos    est&uacute;dios: a Warner queria Henry Fonda para um filme espec&iacute;fico,    mas o ator tinha contrato com a Fox que, por sua vez, queria em troca George    Raft; para ter espa&ccedil;o de barganha, a Warner escalou Raft para interpretar    Spade. Este, todavia, poderia recusar o encargo &#151; privil&eacute;gio garantido    por seu contrato &#151; e o fez, justificando sua decis&atilde;o com o fato    de que <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> "n&atilde;o era um filme importante";    tal recusa abria caminho para Bogart, preferido por Huston (Sperber &amp; Lax    1997:149-151).<a name="top9"></a><a href="#back9"><sup>9</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Enquanto isso, o produtor Henry Blanke assinava os contratos tempor&aacute;rios    de tr&ecirc;s artistas de fora do est&uacute;dio: Mary Astor, que havia trabalhado    com Bette Davis, interpretaria Brigid; o expatriado austro-h&uacute;ngaro Peter    Lorre, que havia trabalhado no cinema alem&atilde;o at&eacute; a ascens&atilde;o    nazista, seria Cairo; e o ingl&ecirc;s veterano do teatro Sydney Greenstreet,    ent&atilde;o com 61 anos, faria sua estreia no cinema como Gutman (Schatz 1991:314-315).    Em 18 de julho de 1941, ap&oacute;s 34 dias de filmagem, Huston concluiu o filme    com dois dias de anteced&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o ao cronograma e    54 mil d&oacute;lares de economia em rela&ccedil;&atilde;o ao or&ccedil;amento.    As pr&eacute;vias &#151; s&eacute;rie de testes de audi&ecirc;ncia que antecedia    o lan&ccedil;amento do filme &#151; mostraram que a recep&ccedil;&atilde;o seria    boa, progn&oacute;stico confirmado pela estreia em 3 de outubro (Schatz 1991:316-317).    A cr&iacute;tica, em particular, prestigiou o filme, indicado a tr&ecirc;s Oscars,    apesar de n&atilde;o ter ganho nenhum: melhor ator coadjuvante (Greenstreet),    melhor filme, melhor roteiro (Huston). Em <i>O &uacute;ltimo ref&uacute;gio</i>,    Bogart, apesar de ter sido o protagonista, teve o nome anunciado em segundo    lugar; agora, pela primeira vez na carreira, tinha seu nome exposto em primeiro    lugar nos cr&eacute;ditos do filme, &iacute;ndice do seu novo estatuto de estrela.    Bogart, o g&acirc;ngster, havia se transformado em Bogart, o detetive particular.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>12</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Parti da descri&ccedil;&atilde;o de uma cena de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>    para indicar a descontinuidade que se verifica entre a imagem vis&iacute;vel    na tela e seu processo invis&iacute;vel de produ&ccedil;&atilde;o. Contrapus    o olhar do p&uacute;blico de hoje, habituado a uma imagem de Bogart sedimentada    ao longo do s&eacute;culo, ao do contempor&acirc;neo a 1941, acostumado com    os repetitivos g&acirc;ngsteres que encarnava, para apontar a situa&ccedil;&atilde;o    em que se encontrava o ator em sua carreira cinematogr&aacute;fica. Esbocei    sua trajet&oacute;ria profissional, da Broadway a Hollywood, e seus condicionantes    sociais, econ&ocirc;micos e culturais, e tamb&eacute;m, de uma forma geral,    os do artista na era dos est&uacute;dios. Delineei o que caracterizou, do &acirc;ngulo    perform&aacute;tico, a emerg&ecirc;ncia de Bogart como um int&eacute;rprete    estabelecido em Hollywood: a media&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica entre indiferen&ccedil;a    e vulnerabilidade. Nesse percurso, tratei os est&uacute;dios como um sistema    n&atilde;o isolado de produ&ccedil;&atilde;o industrial e ressaltei a pertin&ecirc;ncia    do g&ecirc;nero narrativo como perspectiva organizadora da pr&aacute;tica cinematogr&aacute;fica    correspondente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No entanto, uma    vez que se tratava de uma arte comercial popular que contava hist&oacute;rias    a um p&uacute;blico por meio de conven&ccedil;&otilde;es narrativas reformuladas    ao longo do tempo na pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o com tal p&uacute;blico,    &eacute; necess&aacute;rio um exame de tais conven&ccedil;&otilde;es. Em outras    palavras, analiso a seguir o que o historiador da arte Michael Baxandall denominou    "estilo cognitivo do per&iacute;odo", isto &eacute;, no caso, a cultura visual    &#151; oriunda da experi&ecirc;ncia social &#151; que, a despeito das distintas    viv&ecirc;ncias entre produtores e consumidores de imagens, permitia-lhes compartilhar    hist&oacute;rias comuns (Baxandall 1988:38-40).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>13</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A melhor descri&ccedil;&atilde;o    jamais feita do estilo cognitivo hollywoodiano da era dos est&uacute;dios h&aacute;    de equiparar-se &agrave; li&ccedil;&atilde;o do executivo Monroe Stahr em <i>The    last tycoon</i>. Este romance inacabado e p&oacute;stumo de F. Scott Fitzgerald    (2001), escrito a partir de sua experi&ecirc;ncia como roteirista em Hollywood,    foi publicado em 1941, um ano ap&oacute;s seu falecimento repentino ter interrompido    a reda&ccedil;&atilde;o, e mesmo ano de <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A chegada de George    Boxley ao escrit&oacute;rio de Stahr precede o excerto. Boxley, romancista ingl&ecirc;s    contratado para escrever roteiros em Hollywood, quase nunca assiste a filmes.    Ele est&aacute; perturbado pelas dificuldades que encontra no trabalho, particularmente    em rela&ccedil;&atilde;o aos di&aacute;logos, que considera "artificiais" (Fitzgerald    2001:39). Stahr pede que esque&ccedil;a os di&aacute;logos por um momento; pergunta    ao escritor se seu escrit&oacute;rio possui um aquecedor que se acende com f&oacute;sforos,    e Boxley, empertigado, diz que pensa que sim, mas nunca o usa. Stahr prossegue:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Imagine que voc&ecirc; est&aacute; em seu escrit&oacute;rio. Voc&ecirc; tem      travado duelos ou escrito o dia todo e est&aacute; muito cansado para lutar      ou escrever mais. Voc&ecirc; est&aacute; l&aacute; sentado fitando &#151;      entorpecido, como n&oacute;s todos ficamos &agrave;s vezes. Uma bonita esten&oacute;grafa      que voc&ecirc; j&aacute; viu antes entra na sala e voc&ecirc; a observa &#151;      de forma indolente. Ela n&atilde;o v&ecirc; voc&ecirc;, apesar de estar muito      pr&oacute;ximo. Ela despe as luvas, abre sua bolsa e a esvazia sobre uma mesa."</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Stahr levantou-se, meneando seu chaveiro sobre sua mesa.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Ela tem vinte centavos e um n&iacute;quel &#151; e uma caixa de f&oacute;sforos.      Ela deixa o n&iacute;quel sobre a mesa, p&otilde;e os vinte centavos de volta      em sua bolsa e leva suas luvas pretas ao aquecedor, abre-o e as coloca dentro.      H&aacute; um f&oacute;sforo na caixa e ela come&ccedil;a a acend&ecirc;-lo,      ajoelhada ao aquecedor. Voc&ecirc; percebe que h&aacute; um vento firme soprando      da janela &#151; mas a&iacute; ent&atilde;o seu telefone toca. A garota atende,      diz al&ocirc; &#151; escuta &#151; e diz deliberadamente ao telefone, 'Eu      nunca possu&iacute; um par de luvas pretas em minha vida'. Ela desliga, ajoelha-se      ao aquecedor outra vez, e precisamente quando ela acende o f&oacute;sforo,      voc&ecirc; olha ao redor muito repentinamente e v&ecirc; que h&aacute; outro      homem no escrit&oacute;rio, observando cada movimento que a garota faz."</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Stahr deteve-se. Pegou suas chaves e colocou-as em seu bolso.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Continue", disse Boxley, sorrindo. "O que acontece?"</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Eu n&atilde;o sei", disse Stahr. "Eu estava apenas fazendo filmes".</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Boxley sentiu que estava sendo colocado em contrassenso.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"&Eacute; apenas melodrama", disse.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"N&atilde;o necessariamente", disse Stahr. "Em todo caso, ningu&eacute;m se      moveu violentamente ou falou di&aacute;logo barato ou teve absolutamente quaisquer      express&otilde;es faciais. Houve somente uma fala ruim, e um escritor como      voc&ecirc; poderia melhor&aacute;-la. Mas voc&ecirc; estava interessado".</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Para que era o n&iacute;quel?", perguntou Boxley, evasivo.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Eu n&atilde;o sei", disse Stahr. De repente, riu. "Ah, sim &#151; o n&iacute;quel      era para o cinema."</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">&#91;...&#93; Ele &#91;Boxley&#93; relaxou, inclinou-se para tr&aacute;s em      sua cadeira e riu.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Para que diabos voc&ecirc; me paga?", inquiriu. "Eu n&atilde;o entendo a      maldita coisa."</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"Voc&ecirc; entender&aacute;", disse Stahr arreganhando os dentes, "ou voc&ecirc;      n&atilde;o teria perguntado sobre o n&iacute;quel" (Fitzgerald 2001:40-41).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O drama de Boxley    consiste em, munido de palavras, enveredar-se por um of&iacute;cio visual: se    um roteiro de cinema &eacute; feito de palavras, seu objetivo &eacute; visual.    A engenhosidade da li&ccedil;&atilde;o de Stahr repousa em eleger um elemento    da viv&ecirc;ncia cotidiana de Boxley &#151; o aquecedor em seu escrit&oacute;rio,    mesmo que dele n&atilde;o fa&ccedil;a uso &#151; para, em sua vizinhan&ccedil;a,    construir uma narrativa fundamentalmente visual: trata-se de fic&ccedil;&atilde;o,    mas &eacute; veross&iacute;mil que ocorresse ali mesmo, em seu local de trabalho.    O efeito dessa did&aacute;tica &eacute; a aproxima&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima    entre a narrativa e Boxley que, entretido pela riqueza de detalhes (o entorpecimento    da rotina, a beleza da esten&oacute;grafa, seu comportamento misterioso) passa    a fazer conjecturas para preencher as lacunas desse fragmento de hist&oacute;ria:    da&iacute; a quest&atilde;o sobre o n&iacute;quel, do qual n&atilde;o se diz    uma palavra, mas o olhar da suposta c&acirc;mera exp&otilde;e como significativo    para se compreender a trama. Em suma, Stahr explica a Boxley &#151; que, incoerente,    n&atilde;o cultiva a viv&ecirc;ncia do cinema, mas escreve para ele &#151; o    que &eacute; o cinema cl&aacute;ssico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>14</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A l&oacute;gica    narrativa do filme cl&aacute;ssico consiste em apresentar personagens individualizados    por tra&ccedil;os particulares bem delineados que comp&otilde;em uma identidade    homog&ecirc;nea, confirmada na primeira apari&ccedil;&atilde;o e cuja consist&ecirc;ncia    se mant&eacute;m por repeti&ccedil;&atilde;o. Uma vez apresentados, os personagens    s&atilde;o orientados para a busca de um objetivo, o que estabelece uma corrente    linear de causas e efeitos, a&ccedil;&otilde;es e rea&ccedil;&otilde;es que    esculpe as expectativas do p&uacute;blico na forma de hip&oacute;teses a serem    testadas (Bordwell 1985:13-18). Como a narrativa cl&aacute;ssica &eacute; fundamentalmente    confi&aacute;vel, &eacute; poss&iacute;vel, para o p&uacute;blico, organizar    as hip&oacute;teses por probabilidade e, assim, reduzir a amplitude de alternativas    de a&ccedil;&atilde;o, cujo sentido est&aacute; voltado para o que ir&aacute;    ocorrer a seguir. Ao longo desse eixo narrativo, o movimento &eacute; gerado    cont&iacute;nua e sistematicamente pela abertura de brechas logo preenchidas,    sendo que nenhuma brecha &eacute; permanente (Bordwell 1985:40-41). Se o espectador    &eacute; o detetive da narrativa cl&aacute;ssica hollywoodiana, &eacute; um    detetive que, com um pouco de aten&ccedil;&atilde;o, sempre resolve seu caso;    da&iacute; a convic&ccedil;&atilde;o de Stahr de que Boxley, por estar atento    ao n&iacute;quel, acabar&aacute; por compreender a mec&acirc;nica cinematogr&aacute;fica.    "O filme hollywoodiano n&atilde;o nos leva a conclus&otilde;es inv&aacute;lidas    &#91;...&#93;; na narrativa cl&aacute;ssica, o corredor pode ser sinuoso, mas    nunca &eacute; desonesto" (Bordwell 1985:41).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O livro de Hammett    &eacute; inteiramente compat&iacute;vel com essa forma narrativa. Primeiro,    a identidade de cada personagem: o cinismo pragm&aacute;tico de Spade; as mentiras    sedutoras de Brigid; a afeta&ccedil;&atilde;o delicada de Cairo; a obsess&atilde;o    cavalheiresca de Gutman; a inabilidade de Wilmer como capanga. Segundo, o objetivo:    ao indicar apenas o de Spade &#151; empreender a investiga&ccedil;&atilde;o    para descobrir o assassino de seu s&oacute;cio &#151; o livro obriga o leitor    a deduzir progressivamente, atrav&eacute;s da linearidade de causas e efeitos    constru&iacute;da pelas a&ccedil;&otilde;es dos personagens, o objeto obscuro    em torno do qual todos gravitam. A busca pela rel&iacute;quia n&atilde;o passou    de um pretexto para estabelecer as rela&ccedil;&otilde;es entre os personagens.    O fato de o leitor acompanhar tais rela&ccedil;&otilde;es ininterruptamente    a partir da perspectiva de Spade indica que o objetivo &uacute;ltimo de <i>O    falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> &eacute; descrever o olhar do detetive. A perspic&aacute;cia    de Huston residiu em ter notado a homologia poderosa entre o olhar do detetive    mediado por palavras e o olhar do detetive mediado pela c&acirc;mera, o que    sup&otilde;e, em ambos os casos, o p&uacute;blico como duplo &#151; a consci&ecirc;ncia    aguda da representa&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica, que teria seu apogeu com    <i>Um corpo que cai</i> e, de uma forma geral, com o cinema de Alfred Hitchcock.<a name="top10"></a><a href="#back10"><sup>10</sup></a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A principal diferen&ccedil;a    entre o livro de Hammett e o filme de Huston reside no rompimento &#151; o &uacute;nico    &#151; que Huston opera no olhar de Spade. Trata-se da &uacute;nica cena em    todo o filme em que Spade n&atilde;o est&aacute; presente, a saber, a do assassinato    do s&oacute;cio, baleado enquanto trabalhava no caso de Brigid, que se passava    por senhorita Wonderly. Nota-se que o s&oacute;cio surge de chap&eacute;u e    sobretudo, com as m&atilde;os no bolso e um leve sorriso, e parece reconhecer    seu algoz; seu sorriso se encerra ao ver, antes do espectador, o rev&oacute;lver    apontado em sua dire&ccedil;&atilde;o; ele &eacute; baleado e rola barranco    abaixo. Ela n&atilde;o est&aacute; presente no livro porque rompe a continuidade    do olhar de Spade e, afinal, &eacute; in&uacute;til, pois a pol&iacute;cia colocar&aacute;    o protagonista (e o p&uacute;blico) a par dos detalhes do crime. Tal rompimento    n&atilde;o refor&ccedil;a as suspeitas que pairam sobre Spade, pois o sorriso    do s&oacute;cio para o assassino misterioso n&atilde;o &eacute; o tipo de sorriso    que lan&ccedil;aria a um homem: seu algoz &eacute; uma mulher.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em suma, pode-se    dizer:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Como um detetive particular, o her&oacute;i dur&atilde;o era por natureza      um solit&aacute;rio isolado, um vigoroso individualista, e um homem com seu      pr&oacute;prio c&oacute;digo pessoal de honra e justi&ccedil;a. De fato, em      seu passado obscuro, o detetive invariavelmente havia resignado ou sido despedido      de uma posi&ccedil;&atilde;o oficial de lei e ordem, e compartilha com o elemento      criminal um profundo ressentimento das autoridades leg&iacute;timas. Neste      sentido, ele tem mais em comum com o her&oacute;i do <i>western</i> do que      com o g&acirc;ngster, o policial, ou o mais tradicional detetive no estilo      Sherlock Holmes. Como o <i>westerner</i>, a capacidade do detetive para a      viol&ecirc;ncia e o conhecimento das ruas aliavam-no ao elemento fora da lei,      enquanto seu c&oacute;digo pessoal e idealismo o comprometiam &agrave; promessa      da ordem social. E tal como interpretado por Bogart, o detetive dur&atilde;o      provou ser um tipo cinematogr&aacute;fico ideal para o pr&eacute;-guerra &#151;      um her&oacute;i irreverente e relutante, um idealista amarrotado cujo exterior      duro e c&iacute;nico esconde um homem sens&iacute;vel, vulner&aacute;vel e      fundamentalmente &iacute;ntegro. E, de forma significativa, esse tipo cinematogr&aacute;fico      tamb&eacute;m provou ser prontamente adapt&aacute;vel para o contexto de guerra,      como Bogart demonstraria ap&oacute;s Pearl Harbor (Schatz 1997:115-116).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Esta foi a parte que coube a Bogart &#151; em sua estreit&iacute;ssima margem    de manobra &#151; executar; sua compet&ecirc;ncia como ator adv&eacute;m do    fato circunstancial de estar apto a oferecer, por meio da experi&ecirc;ncia    profissional acumulada, uma performance adequada aos elementos contingentes    que escapavam completamente de seu dom&iacute;nio. Fosse ele in&aacute;bil,    ou caso n&atilde;o estivesse preparado para executar seu trabalho de acordo    com tais circunst&acirc;ncias, ou ainda, fossem outros os elementos contingentes,    ent&atilde;o a hist&oacute;ria teria sido outra e, talvez, jamais tivesse superado    a categoria de promessa de estrela cinematogr&aacute;fica que ocupava na passagem    para a d&eacute;cada de 1940. Havia, enfim, no sistema de est&uacute;dios, um    imenso desequil&iacute;brio estrutural na rela&ccedil;&atilde;o entre o reduzido    espa&ccedil;o de negocia&ccedil;&atilde;o de Bogart e a vastid&atilde;o de elementos    que intervieram, de forma direta e indireta, em sua carreira.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>15</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao tratar dos tra&ccedil;os    que caracterizaram as interpreta&ccedil;&otilde;es de Bogart &#151; do in&iacute;cio    de sua carreira na Broadway at&eacute; <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> &#151;    falei de tipo, imagem, figura; n&atilde;o falei de identidade, palavra capciosa    e discordante do movimento anal&iacute;tico processual privilegiado aqui. A    historiografia do cinema norte-americano, por sua vez, distingue um termo interessante:    <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica (<i>screen persona</i>). Considere-se    o seguinte excerto que, apesar de longo, tem a dupla vantagem de, por um lado,    oferecer uma vis&atilde;o geral do per&iacute;odo decisivo da carreira de Bogart    e justificar, em certa medida, minha escolha pelo ator, que permite um recorte    hist&oacute;rico bem delineado; por outro, mostrar bem o que a historiografia    entende por <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><i>O sono eterno</i> &#91;1946&#93; proveu um ve&iacute;culo adequado para      levar Bogart al&eacute;m dos anos de guerra, assim como <i>O falc&atilde;o      malt&ecirc;s</i> tinha adequadamente introduzido tal per&iacute;odo. De fato,      havia uma simetria not&aacute;vel na carreira de Bogart no come&ccedil;o dos      anos 1940: seu retrato pr&eacute;-guerra do detetive Sam Spade e seu p&oacute;s-guerra      Philip Marlowe efetivamente colocaram entre par&ecirc;nteses a era de guerra,      enquanto Bogart abria e fechava o pr&oacute;prio per&iacute;odo de guerra      com outros dois filmes estranhamente sim&eacute;tricos, <i>Casablanca</i>      &#91;1942&#93; e <i>Uma aventura na Martinica</i> &#91;1944&#93;. Estes, por      sua vez, colocaram entre par&ecirc;nteses v&aacute;rios filmes de combate      feitos em 1943, no meio da guerra. Aqui tamb&eacute;m h&aacute; uma trajet&oacute;ria      linear, um claro desenvolvimento da <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica      de Bogart. <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> e <i>Casablanca</i> estabeleceram      firmemente a <i>persona</i> de Bogart justo quando Cagney e Robinson deixaram      a Warner, e eles tamb&eacute;m distinguiram Bogart do outro astro masculino      principal da Warner, Errol Flynn. Enquanto Flynn era vigoroso e atl&eacute;tico,      Bogart era contemplativo e um pouco sedent&aacute;rio. Flynn era hipercin&eacute;tico;      Bogart era essencialmente "frio". Flynn cintilava beleza jovial e transpirava      sexualidade; Bogart era amarrotado e pr&oacute;ximo da meia-idade. (Bogart      era, na verdade, dez anos mais velho que Flynn.) Flynn estava em movimento      constante e ofegante; Bogart era uma figura em repouso, arqueado em um casaco      de trincheira com um cigarro pendente dos l&aacute;bios. Bogart tamb&eacute;m      provou em <i>A&ccedil;&atilde;o no Atl&acirc;ntico Norte</i> &#91;1943&#93;      e <i>Saara</i> &#91;1943&#93; ser mais adapt&aacute;vel ao filme de guerra      que Flynn, enquanto tamb&eacute;m poderia sustentar-se em pap&eacute;is mais      rom&acirc;nticos (Schatz 1997:221).<a name="top11"></a><a href="#back11"><sup>11</sup></a></font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na compara&ccedil;&atilde;o    entre Bogart e Flynn, ator australiano da Warner que se estabeleceu como her&oacute;i    de capa e espada, percebe-se que a ideia de <i>persona</i> consiste em uma individualidade    art&iacute;stica delineada pela performance na </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">tela &#151; uma vez que &eacute; discriminada entre os filmes ao longo da    carreira &#151; a partir da qual &eacute; descrita atrav&eacute;s de tra&ccedil;os    f&iacute;sicos e gestos corporais. A implica&ccedil;&atilde;o &eacute; que os    personagens dos dois atores n&atilde;o s&atilde;o intercambi&aacute;veis: Flynn    ficaria esquisito como detetive particular e Bogart seria impens&aacute;vel    como Robin Hood. A no&ccedil;&atilde;o de <i>persona</i> art&iacute;stica, ent&atilde;o,    diferencia um int&eacute;rprete de outro, ou seja, &eacute; um mecanismo de    distin&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas art&iacute;stica, mas tamb&eacute;m,    e fundamentalmente, social, uma vez que estabelece uma posi&ccedil;&atilde;o    para se alojar na estrutura de produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica,    tal como esbo&ccedil;ada acima.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Essa interpreta&ccedil;&atilde;o evoca duas no&ccedil;&otilde;es bem conhecidas    da antropologia que remetem a Marcel Mauss: a de pessoa e a de t&eacute;cnicas    corporais (Mauss 2003b; 2003c). Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; no&ccedil;&atilde;o    de pessoa, &eacute; preciso lembrar, por um lado, que a conclus&atilde;o do    autor ressalta a incompletude do processo, isto &eacute;, tal no&ccedil;&atilde;o    persiste em se transformar; por outro, que o sentido de artif&iacute;cio do    termo n&atilde;o &eacute; explorado na mesma medida em que o de "Eu". Ora, ao    tomar a imagem de Bogart, produto do artif&iacute;cio mec&acirc;nico (c&acirc;mera)    e perform&aacute;tico (corpo), devo levar em conta que h&aacute; outro Bogart,    ou seja, o ator, acess&iacute;vel atrav&eacute;s dos depoimentos biogr&aacute;ficos    e da historiografia do cinema, mas que apenas o primeiro &eacute; diretamente    observ&aacute;vel por meio dos filmes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se a no&ccedil;&atilde;o    de pessoa varia ao longo do tempo e entre as sociedades, ela &eacute; &#151;    ao menos na acep&ccedil;&atilde;o com que Mauss fez a hist&oacute;ria social    &#151; uma abstra&ccedil;&atilde;o &ecirc;mica; j&aacute; as t&eacute;cnicas    corporais s&atilde;o um conceito forjado pelo autor a partir de observa&ccedil;&otilde;es    concretas. Ora, estas &uacute;ltimas &eacute; que s&atilde;o diretamente observ&aacute;veis    nos filmes: atrav&eacute;s das performances do int&eacute;rprete, isto &eacute;,    dos usos dram&aacute;ticos que Bogart faz de seu corpo ao longo do tempo &eacute;    poss&iacute;vel descrever sua <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica. Tal descri&ccedil;&atilde;o    ser&aacute; sempre um esfor&ccedil;o comparativo, uma vez que a arte perform&aacute;tica    hollywoodiana pressup&otilde;e sempre uma rela&ccedil;&atilde;o &#151; seja    entre os int&eacute;rpretes de um filme, como na descri&ccedil;&atilde;o que    abre este ensaio, seja entre int&eacute;rpretes contempor&acirc;neos, como no    excerto que contrap&otilde;e Bogart e Flynn, ou entre distintas performances    do mesmo int&eacute;rprete.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Qual a rela&ccedil;&atilde;o entre essas duas <i>personas</i> &#151; entre    Spade e Bogart? </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Estaria em cena, na tela, a representa&ccedil;&atilde;o de uma no&ccedil;&atilde;o    de "Eu" &#151; sen&atilde;o nos tipos, ao menos nos personagens com espessura    dram&aacute;tica, como Spade &#151; </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">que, oriunda da performance, &eacute; distinta, mas insepar&aacute;vel, da    <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica de seu int&eacute;rprete? At&eacute; que    ponto tais <i>personas</i> se confundem, se &eacute; que podem efetivamente    ser diferenciadas, mesmo analiticamente? Qual &eacute;, afinal, a forma que    a ideia de <i>persona</i>, em seu duplo significado (representa&ccedil;&atilde;o    do "Eu" e artif&iacute;cio cinematogr&aacute;fico), assume na Hollywood da era    dos est&uacute;dios e, em particular, no caso de Bogart?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>16</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Heloisa Pontes (2004) &#151; ao enfrentar a equa&ccedil;&atilde;o entre nome,    g&ecirc;nero, corpo e conven&ccedil;&otilde;es, atrav&eacute;s de um fen&ocirc;meno    singular, a saber, o elevado prest&iacute;gio desfrutado pelas atrizes do jovem    teatro moderno brasileiro &#151; delineou o que chamou de mecanismo social e    cultural de burla teatral: o acordo t&aacute;cito entre profissionais do teatro    e p&uacute;blico que permite aos int&eacute;rpretes, em benef&iacute;cio do    espet&aacute;culo, contornarem constrangimentos diversos: f&iacute;sicos, sociais,    de g&ecirc;nero. A efic&aacute;cia do mecanismo, pr&oacute;prio do teatro, repousa    na corporifica&ccedil;&atilde;o de um int&eacute;rprete capaz de produzir uma    performance simbolicamente persuasiva (Pontes 2004:231-238).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caso exemplar    &eacute; a atriz Cacilda Becker, dona de uma "flama interior", de acordo com    o cr&iacute;tico D&eacute;cio de Almeida Prado (Pontes 2004:245). Somente atrav&eacute;s    do mecanismo de burla &eacute; que se compreende como ela p&ocirc;de transitar    por personagens t&atilde;o heter&oacute;clitos como a rainha Mary Stuart e o    menino Pega-Fogo: em seu trabalho de interpreta&ccedil;&atilde;o, a atriz possu&iacute;a    a sagacidade de fundir recursos de verossimilhan&ccedil;a &#151; respectivamente,    o traje real e o esparadrapo que lhe diminu&iacute;a os seios &#151; e sua pr&oacute;pria    experi&ecirc;ncia pessoal, o que lhe conferia uma efic&aacute;cia dram&aacute;tica    capaz de sustentar a negocia&ccedil;&atilde;o t&aacute;cita que est&aacute;    na base do mecanismo (Pontes 2004:258). O poder deste &eacute; equivalente &agrave;    habilidade que demanda. O fato de que Cacilda estava, em certa medida, deslocada    dos padr&otilde;es est&eacute;ticos do p&oacute;s-guerra &eacute; particularmente    relevante: a beleza &eacute; uma marca dif&iacute;cil de contornar nas artes    perform&aacute;ticas e tende a sabotar o esfor&ccedil;o de burla teatral (Pontes    2004:254) &#151; a beleza permitiria a Cacilda incorporar a rainha, mas seria    um estorvo na interpreta&ccedil;&atilde;o do menino. Vinte anos depois, ela    comentou sobre sua incurs&atilde;o infrut&iacute;fera ao cinema nos anos 1940:    "E fui considerada, na &eacute;poca, pessoa n&atilde;o feita para o cinema,    isto &eacute;, antifotog&ecirc;nica, de ossos expostos etc." (Pontes 2004:250).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O cinema n&atilde;o    possui o mecanismo de burla porque o int&eacute;rprete e seu p&uacute;blico,    apartados, n&atilde;o podem estabelecer o acordo: os constrangimentos &#151;    </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">principalmente as marcas corporais &#151; s&atilde;o, em grande medida, incontorn&aacute;veis    para a c&acirc;mera que medeia a rela&ccedil;&atilde;o. Assim, o int&eacute;rprete    cinematogr&aacute;fico &eacute; selecionado menos pela compet&ecirc;ncia do    que pelas marcas de sua apar&ecirc;ncia &#151; processo fisiognom&ocirc;nico    inverso ao teatro &#151; e a repeti&ccedil;&atilde;o de sua performance n&atilde;o    faz outra coisa sen&atilde;o refor&ccedil;ar sistematicamente tal apar&ecirc;ncia,    de forma que o esfor&ccedil;o de mudan&ccedil;a geralmente &eacute; v&atilde;o    e ref&eacute;m da converg&ecirc;ncia de um grande n&uacute;mero de elementos    contingentes. Em suma, o cinema concentra uma especialidade imag&eacute;tica;    o teatro amplia uma diversidade perform&aacute;tica. Pontes indica que, quando    Cacilda morreu de modo prematuro em 1969, Carlos Drummond de Andrade escreveu:    "Morreram Cacilda Becker". N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel dizer o mesmo    de Bogart: o ator faleceu em 1957, mas sua <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica    &#151; a &uacute;nica que possu&iacute;a &#151; continua viva por meio da reprodutibilidade    t&eacute;cnica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Quando Walter Benjamin, em um c&eacute;lebre ensaio, comparou o teatro e o    cinema, sublinhou do segundo uma caracter&iacute;stica <i>sui generis</i> e    de grande import&acirc;ncia do ponto de vista social: o int&eacute;rprete representa    diante da c&acirc;mera e de um "gr&ecirc;mio de especialistas" que podem intervir    a qualquer momento; tal procedimento transforma a interpreta&ccedil;&atilde;o    em uma s&eacute;rie de testes a serem aprovados e destitui o ator da unidade    da representa&ccedil;&atilde;o, pois fica sujeito a um cronograma de filmagem    fracionado e previamente estabelecido (Benjamin 1994). Em outras palavras, ao    int&eacute;rprete cinematogr&aacute;fico &eacute; interditada a entrada no interior    de um papel, como &eacute; exigido de seu correspondente teatral que encarna    de forma ininterrupta, do come&ccedil;o ao fim, a exist&ecirc;ncia completa    de um personagem (Benjamin 1994:181). No cinema, o ator e a atriz percorrem    uma rotina de descontinuidade perform&aacute;tica cuja &uacute;nica continuidade    &eacute; o fato de que est&atilde;o, todos os dias, a executar sob contrato    a cena exigida. &Eacute; assim que Benjamin evoca Luigi Pirandello: "O ator    de cinema sente-se exilado. Exilado n&atilde;o somente do palco, mas de si mesmo"    (Benjamin 1994:179).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Da perspectiva    de Bogart em <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>, v&ecirc;-se que: ap&oacute;s    uma enorme s&eacute;rie de personagens ins&iacute;pidos, obteve certo sucesso,    mas o est&uacute;dio continuou a negligenci&aacute;-lo; protestou e foi suspenso    por quase seis meses; no retorno, mostrou interesse pelo papel de Spade; obteve-o    porque outro ator o descartou; dirigiu-se ao est&uacute;dio de acordo com o    cronograma de Huston; executou seus testes perform&aacute;ticos at&eacute; obter    aprova&ccedil;&atilde;o &#151; o que, algumas vezes, como na cena do beijo,    podia demorar um pouco; concluiu a parte que lhe cabia no filme e foi trabalhar    em outro; meses depois, o filme era lan&ccedil;ado no cinema; nele, Spade, afinal,    apresentou-se por inteiro na sequ&ecirc;ncia completa da montagem, manipula&ccedil;&atilde;o    de outrem de imagens que cont&ecirc;m, entre outros, Bogart; obteve, enfim,    uma rea&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico e cr&iacute;tica. Ora, o controle    de Bogart nesse processo todo &eacute; m&iacute;nimo e aquele seu outro que    v&ecirc; na tela lhe &eacute; estranho: da descontinuidade da produ&ccedil;&atilde;o    adv&eacute;m a descontinuidade entre Bogart e Spade &#151; mas &eacute; atrav&eacute;s    deste, primeiro personagem de uma s&eacute;rie, que a <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica    daquele come&ccedil;a a ser constru&iacute;da.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De um lado, conforme    a <i>persona</i> se delineia, Bogart passa a obter maior controle sobre a produ&ccedil;&atilde;o    de seus filmes, pois sedimenta uma posi&ccedil;&atilde;o; de outro, torna-se    cada vez mais dependente de tal <i>persona</i>, pois ela &eacute; que medeia    sua posi&ccedil;&atilde;o no est&uacute;dio. Como Spade fez sucesso, Bogart    viu-se obrigado a repeti-lo com uma pequena varia&ccedil;&atilde;o e a compor    outra interpreta&ccedil;&atilde;o descont&iacute;nua que gerou outro personagem    completo apenas como imagem na tela do cinema. A varia&ccedil;&atilde;o diferencia    um personagem do outro, mas ela &eacute; sempre m&iacute;nima para forjar a    unidade da <i>persona</i>. Em resumo, atrav&eacute;s de um trabalho perform&aacute;tico    fragmentado e coletivo, Bogart comp&ocirc;s Spade, personagem que medeia com    efic&aacute;cia a sua posi&ccedil;&atilde;o no est&uacute;dio por meio do esbo&ccedil;o    de uma <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica que o distingue art&iacute;stica    e socialmente &#151; e do qual, a partir de ent&atilde;o, o ator &eacute; dependente.    A <i>persona</i>, assim, &eacute; o &uacute;nico elemento presente nos dois    mundos &#151; dentro e fora da tela, em Spade e em Bogart &#151; e, portanto,    s&oacute; &eacute; apreens&iacute;vel na rela&ccedil;&atilde;o entre tais mundos,    ou seja, na media&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica, sem reduzir-se a uma imagem,    entre rela&ccedil;&otilde;es sociais: em Bogart, atrav&eacute;s de Spade, e    vice-versa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">"<i>O ator cinematogr&aacute;fico t&iacute;pico s&oacute; representa a si    mesmo</i>", afirmou Benjamin (1994:182, grifos do autor). Esse "si mesmo", entretanto,    j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais o pr&oacute;prio ator: &eacute; sua <i>persona</i>    cinematogr&aacute;fica, produto da representa&ccedil;&atilde;o coletiva do qual    est&aacute;, a um s&oacute; tempo, radicalmente separado por uma s&eacute;rie    de intermedi&aacute;rios e inseparavelmente ligado pelas imagens que compartilham.    Em suma, a <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica &#151; express&atilde;o das    rela&ccedil;&otilde;es sociais nas quais foi elaborada &#151; &eacute; dupla    do ator.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>17</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A cena escolhida    que abre este artigo serve de fio condutor &#151; descritivo, narrativo, explicativo.    &Eacute; necess&aacute;rio ter em vista o c&eacute;lebre coment&aacute;rio de    Marcel Mauss de que "&eacute; preciso observar o dado" (2003a:311). Ora, o dado    n&atilde;o &eacute; Hollywood, mas seus filmes; n&atilde;o &eacute; Bogart nem    sua <i>persona</i>, mas sua imagem. Se as imagens s&atilde;o o acesso mais pertinente    a um grupo social voltado completamente &agrave; cultura visual, &eacute; necess&aacute;rio,    contudo, atravessar esse labirinto de imagens com o intuito de restitu&iacute;-las    &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es e &agrave;s experi&ecirc;ncias sociais que    as possibilitaram.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O historiador da    arte Michael Baxandall (1988), ao tratar da pintura italiana dos Quatrocentos,    explicou: a partir dos fatos sociais, desenvolvem-se habilidades e h&aacute;bitos    visuais particulares que s&atilde;o identific&aacute;veis no estilo de um pintor,    ou seja, a pintura quatrocentista &eacute; um dep&oacute;sito de rela&ccedil;&otilde;es    sociais (entre pintor e p&uacute;blico), econ&ocirc;micas (entre pintor e comandit&aacute;rio)    e culturais (entre a habilidade do pintor e a experi&ecirc;ncia visual do p&uacute;blico)    mediadas por conven&ccedil;&otilde;es pict&oacute;ricas; o movimento, portanto,    &eacute; de m&atilde;o dupla: se as pinturas s&atilde;o impens&aacute;veis afastadas    da sociedade em que vieram &agrave; tona, nossa percep&ccedil;&atilde;o da mesma    sociedade &eacute; aprimorada atrav&eacute;s das pinturas. Pierre Bourdieu,    em breve exame do livro de Baxandall &#151; que denomina ora de uma "sociologia    da percep&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica", ora de uma "etnologia hist&oacute;rica"    (Bourdieu 2005:348-356) &#151; resumiu o assunto na rela&ccedil;&atilde;o entre    "um <i>habitus hist&oacute;rico</i> e o mundo <i>hist&oacute;rico</i> que o    povoa, e que ele habita" (Bourdieu 2005:356, grifos do autor).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Assim, tomar a dimens&atilde;o pict&oacute;rica &#151; ou imag&eacute;tica    &#151; como posto de observa&ccedil;&atilde;o &eacute; estabelecer-se na interse&ccedil;&atilde;o    estrat&eacute;gica de todas essas for&ccedil;as. Entretanto, o que era experi&ecirc;ncia    pr&aacute;tica incorporada para as pessoas que frequentavam o universo social    no qual se alojava a pintura quatrocentista, &eacute; reconstitui&ccedil;&atilde;o    anal&iacute;tica fragmentada da respectiva experi&ecirc;ncia social para o pesquisador.    Nesta imensa dist&acirc;ncia hist&oacute;rica, reside o perigo da "semicompreens&atilde;o    ilus&oacute;ria", como diz Bourdieu; a implica&ccedil;&atilde;o, aponta Baxandall,    &eacute; a dificuldade, a impossibilidade mesmo, de reconstruir por completo    uma experi&ecirc;ncia social, da&iacute; o valor do testemunho pict&oacute;rico    (Baxandall 1988:152-153). Tal desafio anal&iacute;tico toma forma na dist&acirc;ncia    incomensur&aacute;vel entre, de um lado, visualizar e, de outro, descrever.    A descri&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre uma representa&ccedil;&atilde;o do    que se pensa ter visto em um quadro e, por isso, encerra uma demonstra&ccedil;&atilde;o    de car&aacute;ter ostensivo: &eacute; insepar&aacute;vel do pr&oacute;prio quadro,    sob pena de se tornar vaga (Baxandall 2006).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Neste argumento h&aacute; um perspicaz discernimento dos limites da representa&ccedil;&atilde;o    e do conhecimento hist&oacute;rico. O racioc&iacute;nio de Baxandall &eacute;    extens&iacute;vel a esta pesquisa. Neste caso, meu desafio se localiza na margem    oposta &agrave; que se encontra Boxley, o roteirista transtornado de Fitzgerald,    pois entre as duas abre-se a dist&acirc;ncia intranspon&iacute;vel entre imagens    e palavras: para Boxley, trata-se de produzir palavras que se tornar&atilde;o    imagem; para mim, de expressar em palavras o que vi nas imagens. Se o meu olhar    e as minhas palavras s&atilde;o onipresentes nestas linhas, precisam estar expl&iacute;citos;    &eacute; preciso considerar a geometria das dist&acirc;ncias impl&iacute;cita    nessa investiga&ccedil;&atilde;o e, para tanto, &eacute; necess&aacute;rio fazer    uma distin&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>18</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Quando, em 1934, o romance policial <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> foi    inclu&iacute;do na s&eacute;rie <i>Modern library</i>, Hammett escreveu uma    breve introdu&ccedil;&atilde;o na qual relata como criou os personagens a partir    de sua experi&ecirc;ncia como detetive. Por &uacute;ltimo, ao chegar em Spade,    escreve:</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Spade n&atilde;o teve original. Ele &eacute; um homem de sonho no sentido      de que &eacute; o que a maioria dos detetives particulares com quem trabalhei      gostaria de ter sido e o que apenas alguns em seus momentos mais empertigados      pensaram se aproximar. Pois o detetive particular n&atilde;o quer &#151; ou      n&atilde;o queria, dez anos atr&aacute;s quando era meu colega &#151; ser      um erudito esclarecedor de charadas ao modo de Sherlock Holmes; ele quer ser      um cara duro e astuto, capaz de tomar conta de si mesmo em qualquer situa&ccedil;&atilde;o,      capaz de obter o melhor de qualquer um com quem entre em contato, seja criminoso,      espectador inocente ou cliente (Hammett 1999:965).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Neste excerto valioso, Spade &eacute; descrito como um modelo de masculinidade    em fun&ccedil;&atilde;o de sua maneira de conhecer o mundo, de relacionar-se    com as pessoas; por contraposi&ccedil;&atilde;o, localiza Sherlock Holmes como    outro modelo de masculinidade e seu respectivo m&eacute;todo cognitivo &#151;    ambos podem fazer uso de pistas, mas o que os caracteriza s&atilde;o m&eacute;todos    distintos: o primeiro &eacute; mundano, o segundo, cerebral. A dist&acirc;ncia    que os separa &eacute; a exata dist&acirc;ncia que afasta esta pesquisa de Spade    (e de Bogart), pois meu m&eacute;todo n&atilde;o &eacute; outro sen&atilde;o    o de Holmes; mais precisamente, da maneira como foi apropriado por Carlo Ginzburg    para compor o que denominou paradigma indici&aacute;rio sob a m&aacute;xima    detetivesca: "Se a realidade &eacute; opaca, existem zonas privilegiadas &#151;    sinais, ind&iacute;cios &#151; que permitem decifr&aacute;-la" (Ginzburg 2002:177),    um m&eacute;todo hist&oacute;rico pautado em pistas infinitesimais que servem    de fio condutor para uma investiga&ccedil;&atilde;o exposta em forma de narrativa.    Se este &eacute; um jeito de proceder, persiste a resigna&ccedil;&atilde;o l&uacute;cida    e melanc&oacute;lica de Baxandall sobre a impossibilidade de se atingir a realidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O detetive, enfim,    compartilha com o analista do produto cultural &#151; antrop&oacute;logo, historiador,    soci&oacute;logo &#151; o tra&ccedil;o mais peculiar de seu of&iacute;cio: ambos    s&oacute; tomam contato com seus respectivos casos, na maioria das vezes, ap&oacute;s    os eventos terem ocorrido, de modo que lhes restam apenas algumas pistas. Todo    o esfor&ccedil;o anal&iacute;tico se resume, assim, em reconstituir o caso atrav&eacute;s    dos fatos, e estes, por meio das pistas. Trata-se de um m&eacute;todo empirista,    isto &eacute;, de uma an&aacute;lise <i>a posteriori</i> que busca explicar    as causas a partir dos efeitos, de tr&aacute;s para frente, como um rolo de    filme ao contr&aacute;rio, no qual, como se sabe, o olhar n&atilde;o &eacute;    inocente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>19</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">Parti de uma pista oriunda do &acirc;mbito de g&ecirc;nero, localizada em    um produto cultural hollywoodiano, para indicar a descontinuidade entre tal    produto e o mundo social que o elaborou. A supera&ccedil;&atilde;o dessa dist&acirc;ncia    &#151; que corresponde &agrave;quela entre o beijo de Spade e a cicatriz de    Bogart &#151; exigiu n&atilde;o apenas o enfrentamento da cultura visual, dimens&atilde;o    simb&oacute;lica que condiciona a geometria de olhares, mas tamb&eacute;m o    desafio de descrever como essa cultura &eacute; impens&aacute;vel apartada de    uma experi&ecirc;ncia social localizada. A pista n&atilde;o &eacute; evidente;    depende de as minhas palavras estabelecerem a media&ccedil;&atilde;o. Um jogo    duplo, ent&atilde;o, toma forma entre as dimens&otilde;es cinematogr&aacute;fica    e etnogr&aacute;fico-hist&oacute;rica, a saber, a rela&ccedil;&atilde;o entre    um modelo cognitivo e uma forma narrativa e descritiva. Portanto, estabelecido    esse n&iacute;vel referencial comum, torna-se poss&iacute;vel uma compara&ccedil;&atilde;o    precisa entre estes dois modelos de conhecimento. Assim, ao longo desse percurso,    esbocei o processo inicial de elabora&ccedil;&atilde;o da <i>persona</i> de    Bogart, poder simb&oacute;lico que lhe permitiu estabelecer-se na ind&uacute;stria    cinematogr&aacute;fica, e cuja efic&aacute;cia dependia da marca de g&ecirc;nero    que se alimentava da tens&atilde;o dram&aacute;tica entre indiferen&ccedil;a    aparente e vulnerabilidade s&uacute;bita.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>Notas</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back"></a><a href="#top"><sup>*</sup></a>    Vers&atilde;o resumida do primeiro cap&iacute;tulo de <i>Bogart duplo de Bogart.    Pistas da persona cinematogr&aacute;fica de Humphrey Bogart, 1941-46</i>, disserta&ccedil;&atilde;o    em antropologia social orientada por Heloisa Pontes, financiada pelo CNPq e    defendida em abril de 2010, na Unicamp. Agrade&ccedil;o &agrave; Heloisa Buarque    de Almeida e Silvana Rubino, que compuseram a banca, pelas cr&iacute;ticas e    sugest&otilde;es. Esta vers&atilde;o tamb&eacute;m foi apresentada no 34º Encontro    Anual da Anpocs, em outubro de 2010, no simp&oacute;sio tem&aacute;tico "Imagem    e suas leituras nas ci&ecirc;ncias sociais", organizado por Ana Paula Simioni    e Marco Antonio Gon&ccedil;alves; agrade&ccedil;o a eles e a Scott Head pelo    di&aacute;logo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1"><sup>1</sup></a>    <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> (<i>The Maltese Falcon</i>, dirigido por    J. Huston, produzido por H. B. Wallis e H. Blanke, Warner Bros., 1941).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back2"></a><a href="#top2"><sup>2</sup></a> Antes de ser ator, Bogart    foi <i>office-boy</i>, dirigiu um pequeno filme e trabalhou como gerente de    produ&ccedil;&atilde;o (Duchovnay 1999:6-7).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back3"></a><a href="#top3"><sup>3</sup></a> Salvo indica&ccedil;&atilde;o    contr&aacute;ria, todas as tradu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o minhas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back4"></a><a href="#top4"><sup>4</sup></a> Ver, por exemplo, a revolta    de James Cagney - que havia alcan&ccedil;ado o sucesso em 1931 com <i>Inimigo    p&uacute;blico</i>, filme pioneiro do g&ecirc;nero g&acirc;ngster - contra a    Warner; tal disputa envolvia quest&otilde;es salariais e a querela sobre a autoria    de sua imagem art&iacute;stica (reivindicada pelo produtor Darryl Zanuck) que,    em grande medida, levou Cagney a tentar se afastar da figura do delinquente    urbano que o estabelecera em Hollywood (Sklar 1992:35-44). Ou ainda, a longa    luta de Bette Davis para se livrar, na Warner, "da pecha de 'James Cagney de    saias' e dos <i>thrillers</i> urbanos, passando a estrelar &#91;...&#93; alguns    dos maiores melodramas da hist&oacute;ria de Hollywood", processo dific&iacute;limo,    "uma vez que a transforma&ccedil;&atilde;o de sua <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica    contrariava o tradicional <i>ethos</i> masculino do est&uacute;dio &#151; <i>ethos</i>    que predominava tanto no conte&uacute;do dos filmes quanto entre os executivos    da Warner" (Schatz 1991:234-235).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back5"></a><a href="#top5"><sup>5</sup></a> Uma estat&iacute;stica    de 1939 indica que apenas 6% dos atores e das atrizes hollywoodianos recebiam    pelo menos 2 mil d&oacute;lares por semana; 79,9% recebiam menos de 1000 d&oacute;lares    semanais e 20,1%, entre 1000 e 2 mil d&oacute;lares semanais (Rosten 1941:344).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back6"></a><a href="#top6"><sup>6</sup></a> No romance de Hammett,    essa tens&atilde;o &eacute; menos intensa: Spade coloca-se em posi&ccedil;&otilde;es    vulner&aacute;veis, tanto f&iacute;sica quanto emocionalmente, mas sua postura    &eacute; muito mais dura. Veja o equivalente da cena descrita no in&iacute;cio    deste ensaio em Hammett (2001:78-79). A duplicidade perform&aacute;tica de Bogart    esbo&ccedil;ou-se em <i>O &uacute;ltimo ref&uacute;gio</i>, de 1940, por&eacute;m    seu personagem ainda era fundamentalmente um g&acirc;ngster.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back7"></a><a href="#top7"><sup>7</sup></a> As descri&ccedil;&otilde;es    est&atilde;o em Hammett (2001:8, 58-59, 71, 141).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back8"></a><a href="#top8"><sup>8</sup></a> A Warner comprara os    direitos do livro de Hammett no ano de sua publica&ccedil;&atilde;o, e produzira    duas vers&otilde;es sem grande sucesso (<i>The Maltese Falcon</i>, de 1931;    e <i>Satan Met a Lady</i>, de 1936) e um terceiro roteiro inacabado (Sperber    &amp; Lax 1997:148-149).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back9"></a><a href="#top9"><sup>9</sup></a> Com seu or&ccedil;amento    modesto de 380 mil d&oacute;lares, <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i> n&atilde;o    era um filme de prest&iacute;gio, isto &eacute;, uma superprodu&ccedil;&atilde;o    nos moldes de ..<i>.E o vento levou</i>, por exemplo; todavia, tamb&eacute;m    n&atilde;o era um filme B, realizado com baixo or&ccedil;amento (Schatz 1997:115).    Na verdade, consistia em um "ve&iacute;culo de estrela" (<i>star-vehicle</i>),    principal produto dos est&uacute;dios cujo objetivo era veicular a imagem de    um artista com estatuto de estrela, ou com potencial para se tornar uma, como    era o caso de Bogart (Schatz 1997:41-43).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back10"></a><a href="#top10"><sup>10</sup></a> "Kate Cameron, do    <i>Daily News</i>, considerava a dire&ccedil;&atilde;o de Huston &#91;em <i>O    falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>&#93; 'compar&aacute;vel ao melhor de Hitchcock'    &#91;...&#93;" (Schatz 1991:317). Remeto ao ensaio em que Ismail Xavier (2003:31-57)    mostra como, em <i>Um corpo que cai</i>, filme de Hitchcock de 1958, o p&uacute;blico    acompanha cada passo do detetive protagonista, contratado para seguir o misterioso    percurso urbano de uma mulher; ao longo dessa narrativa, verifica-se uma geometria    de olhares que imp&otilde;e uma dist&acirc;ncia entre a mulher e o detetive    (mediada pela persegui&ccedil;&atilde;o), e entre este e o p&uacute;blico (mediada    pela c&acirc;mera). O subsequente rompimento de tal geometria no filme exp&otilde;e    n&atilde;o apenas o processo cognitivo cinematogr&aacute;fico e a fragilidade    do m&eacute;todo de conhecimento detetivesco, mas tamb&eacute;m a homologia    entre eles. Ver, ainda, que <i>Cidad&atilde;o Kane</i>, de 1941, um dos principais    filmes produzidos pela Hollywood cl&aacute;ssica, pode ser lido como uma hist&oacute;ria    de detetive: a investiga&ccedil;&atilde;o que busca entender o significado de    <i>Rosebud</i> (derradeira palavra de Kane que faz as vezes de pista) acaba    por tra&ccedil;ar um retrato do magnata (Schatz 1981:120-122).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2"><a name="back11"></a><a href="#top11"><sup>11</sup></a> Trato desses outros    filmes, assim como do restante da trajet&oacute;ria social de Bogart pertinente    &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de sua <i>persona</i> cinematogr&aacute;fica,    em Sobral (2010:71-121).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">BAXANDALL, Michael. 1988. <i>Painting and experience in fifteenth-century    Italy. A primer in the social history of pictorial style</i>. 2a. ed. Oxford:    Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000154&pid=S0104-9313201100030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 2006. <i>Padr&otilde;es de inten&ccedil;&atilde;o. A explica&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica dos quadros</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000156&pid=S0104-9313201100030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">BENJAMIN, Walter. 1994a. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t&eacute;cnica.    Primeira vers&atilde;o". In: <i>Magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica.    Ensaios sobre literatura e hist&oacute;ria da cultura</i>. S&atilde;o Paulo:    Brasiliense. pp. 165-196.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000158&pid=S0104-9313201100030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">BORDWELL, David. 1985. "The classical hollywood style, 1917-60". In: D. Bordwell,    J. Staiger &amp; K. Thompson (orgs.), <i>The classical hollywood cinema. Film    style &amp; mode of production to 1960</i>. New York: Columbia University Press.    pp. 1-84.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000160&pid=S0104-9313201100030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">BOURDIEU, Pierre. 2005. <i>As regras da arte. G&ecirc;nese e estrutura do    campo liter&aacute;rio</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000162&pid=S0104-9313201100030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">DOUIN, Jean-Luc. 1998. <i>Dictionnaire de la censure au cin&eacute;ma</i>.    Paris: Presses Universitaires de France.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000164&pid=S0104-9313201100030000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">DUCHOVNAY, Gerald. 1999. <i>Humphrey Bogart. A bio-bibliography</i>. Westport,    Connecticut: Greenwood Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000166&pid=S0104-9313201100030000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">FITZGERALD, F. Scott. 2001. <i>The last tycoon</i>. London: Penguin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000168&pid=S0104-9313201100030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">FRIEDRICH, Otto. 1988. <i>A cidade das redes. Hollywood nos anos 40</i>. S&atilde;o    Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000170&pid=S0104-9313201100030000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">GINZBURG, Carlo. 2002. "Sinais. Ra&iacute;zes de um paradigma indici&aacute;rio".    In: <i>Mitos, emblemas, sinais. Morfologia e hist&oacute;ria</i>. S&atilde;o    Paulo: Companhia das Letras. pp. 143-179.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000172&pid=S0104-9313201100030000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">HAMMETT, Dashiell. 1999. <i>Complete novels</i>. New York: The Library of    America.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000174&pid=S0104-9313201100030000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 2001. <i>O falc&atilde;o malt&ecirc;s</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia    das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000176&pid=S0104-9313201100030000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">MAUSS, Marcel. 2003a. "Ensaio sobre a d&aacute;diva. Raz&atilde;o e forma    da troca nas sociedades primitivas". In: <i>Sociologia e antropologia</i>. S&atilde;o    Paulo: Cosac Naify. pp. 183-314.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000178&pid=S0104-9313201100030000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 2003b. "Uma categoria do esp&iacute;rito humano: a no&ccedil;&atilde;o    de pessoa, a de 'Eu'". In: <i>Sociologia e antropologia</i>. S&atilde;o Paulo:    Cosac Naify. pp. 367-397.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000180&pid=S0104-9313201100030000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 2003c. "As t&eacute;cnicas do corpo". In: <i>Sociologia e antropologia</i>.    S&atilde;o Paulo: Cosac Naify. pp. 399-422.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000182&pid=S0104-9313201100030000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">PONTES, Heloisa. 2004. "A burla do g&ecirc;nero. Cacilda Becker, a Mary Stuart    de Pirassununga". <i>Tempo Social</i>, 16(1): 232-262.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000184&pid=S0104-9313201100030000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">ROSTEN, Leo C. 1941. <i>Hollywood. The movie colony, the movie makers</i>.    Nova York: Harcourt, Brace and Company.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000186&pid=S0104-9313201100030000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">SCHATZ, Thomas. 1981. <i>Hollywood genres. Formulas, filmmaking, and the studio    system</i>. New York: McGraw-Hill.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000188&pid=S0104-9313201100030000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 1991. <i>O g&ecirc;nio do sistema. A era dos est&uacute;dios em Hollywood</i>.    S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000190&pid=S0104-9313201100030000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">___. 1997. <i>Boom and bust. American cinema in the 1940s</i>. Berkeley: University    of California Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000192&pid=S0104-9313201100030000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">SKLAR, Robert. 1992. <i>City boys. Cagney, Bogart, Garfield</i>. Princeton:    Princeton University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000194&pid=S0104-9313201100030000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">SOBRAL, Lu&iacute;s Felipe. 2010. Bogart duplo de Bogart. Pistas da persona    cinematogr&aacute;fica de Humphrey Bogart, 1941-46. Disserta&ccedil;&atilde;o    de Mestrado, Unicamp, Campinas, S&atilde;o Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000196&pid=S0104-9313201100030000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size= "2">SPERBER, Ann M. &amp; LAX, Eric. 1997. <i>Bogart</i>. 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