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<publisher-name><![CDATA[Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS-Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A casa de Joana Dark: drama e montagem]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[While discussing images of Our Lady and of the mothers and women of the Garden of Flowers (or &#8220;Devils&#8217; Hole&#8221;), a peripheral district of a city in the interior of São Paulo state, this paper intends to explore the specificity of dramatic aesthetics. Rather than depend upon the aesthetics of social drama, as discussed in the works of Victor Turner, the present paper deals with a concept of montage that is inspired by the cinema of Sergei Eisenstein in order to illuminate a selection of field notes... and, along with Eisenstein, Julia Kristeva, Walter Benjamin, Michael Taussig and Antonin Artaud. Wit regards to those readers interested in hearing what these women may have to say, caution is suggested, for the words of these women may ring in our ears as the sounds of musket shots.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="4"><b><a name="topo"></a>A casa de Joana Dark: drama e montagem<sup><a href="#nota">*</a></sup></b></font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>John Cowart Dawsey</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">John Dawsey &eacute; professor titular do Departamento de Antropologia e coordenador do N&uacute;cleo de Antropologia, Performance e Drama (Napedra) do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade de S&atilde;o Paulo. E-mail: &lt;<a href="mailto:johndaws@usp.br">johndaws@usp.br</a>&gt;</font></font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>  <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Neste artigo, ao discutir o modo como se configuram   imagens de Nossa Senhora e de m&atilde;es e mulheres no Jardim das Flores (ou   &#8220;buraco dos capetas&#8221;), na periferia de uma cidade do interior   paulista, pretende-se explorar a especificidade de est&eacute;ticas   dram&aacute;ticas. A seguir, ainda mais do que a est&eacute;tica do drama   social, associada &agrave; obra de Victor Turner, o princ&iacute;pio da   montagem, que se inspira no cinema de Sergei Eisenstein, ilumina registros de   cadernos de campo. E com Eisenstein &#8212; Julia Kristeva, Walter Benjamin,   Michael Taussig, e Antonin Artaud.     A quem se dispuser a fazer uma audi&ccedil;&atilde;o dessas mulheres, sugiro cautela. Pois em nossos ouvidos talvez ressoem os tiros de uma garrucha.</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b> Montagem, Drama, G&ecirc;nero, M&atilde;e, Nossa Senhora</font>.</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">While discussing images of Our Lady and of the   mothers and women of the Garden of Flowers (or &#8220;Devils&#8217;   Hole&#8221;), a peripheral district of a city in the interior of S&atilde;o   Paulo state, this paper intends to explore the specificity of dramatic   aesthetics. Rather than depend upon the aesthetics of social drama, as   discussed in the works of Victor Turner, the present paper deals with a concept   of montage that is inspired by the cinema of Sergei Eisenstein in order to   illuminate a selection of field notes... and, along with Eisenstein, Julia   Kristeva, Walter Benjamin, Michael Taussig and Antonin Artaud. Wit regards to   those readers interested in hearing what these women may have to say, caution   is suggested, for the words of these women may ring in our ears as the sounds of musket shots</font>.</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><b>Key   words:</b> Montage, Drama, Gender, Mother, Our Lady</font>.</p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Joana D&#8217;Arc...! Aquela era   mulher de verdade, uma santa!     <br> (Palavras de Diol&iacute;ndia, ap&oacute;s assistir a um filme na televis&atilde;o, 21/01/84)</font></p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Circuitos</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Neste ensaio pretendo dizer algo sobre imagens de m&atilde;es e mulheres, tais como elas lampejam no Jardim das Flores, o &#8220;buraco dos capetas&#8221;. Para este fim, vou revisitar anota&ccedil;&otilde;es feitas em cadernos de campo nos anos 1980. Nessa &eacute;poca, o Jardim das Flores era uma ravina, ou pequeno abismo que, em testemunho de poderosas for&ccedil;as de eros&otilde;es geol&oacute;gicas e sociais, irrompia na periferia de Piracicaba, uma cidade do interior paulista.   Em suas encostas alojava-se uma centena de barracos. Ali se apresentava uma imagem do Brasil: havia gente dos sert&otilde;es do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste e tamb&eacute;m gente de substratos piracicabanos oriunda do antigo bairro do Risca-Faca, de cujas cinzas de mato queimado o Jardim das Flores surgiu. </font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O percurso de muitas dessas pessoas   evocava um rito de passagem ins&oacute;lito: a passagem para um estado de   passagem &#8212; o estranhamento de quem se via virando &#8220;boia-fria&#8221;   (Dawsey 1999, 2005). O pasmo cotidiano. Em meados dos anos de 1970, grande   parte do interior paulista transformara-se em canavial. Com a &#8220;crise do   petr&oacute;leo&#8221; e o esgotamento do &#8220;milagre econ&ocirc;mico&#8221;   brasileiro, foram criados os grandes projetos de desenvolvimento   Pro&aacute;lcool e Planal&ccedil;&uacute;car. Nesse cen&aacute;rio, irromperam   os &#8220;boias-frias&#8221; cortadores de cana. Multid&otilde;es de pessoas   sa&iacute;am dos sert&otilde;es para residir em barrac&otilde;es de usinas e   barracos em periferias de cidades onde circulavam os caminh&otilde;es e os   &ocirc;nibus de &#8220;boias-frias&#8221;. Nos canaviais produziam as fontes de   energia renov&aacute;vel que alimentavam a ind&uacute;stria   automobil&iacute;stica. Em meio a um clima de embriaguez de uma   na&ccedil;&atilde;o movida por sonhos de progresso, os   &#8220;boias-frias&#8221; tomavam o lugar dos <i>sheiks</i> do petr&oacute;leo. </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em Piracicaba, conforme relatos de pessoas do &#8220;buraco dos capetas&#8221;, antes de virarem &#8220;boias-frias&#8221;, elas constru&iacute;ram um parque industrial. Ergueram a Caterpillar, uma f&aacute;brica de tratores e m&aacute;quinas que, no campo, tomavam os lugares de quem vinha para a cidade. Um detalhe: entre as m&aacute;quinas que ali seriam produzidas, as colheitadeiras de cana iriam permanecer &#8212; como at&eacute; hoje, em grande parte, permanecem &#8212; nas vitrines de lojas e de usinas. Depois de haverem constru&iacute;do a Caterpillar, seguem os relatos, as pessoas &#8220;ca&iacute;ram no buraco&#8221; &#8212; o &#8220;buraco dos capetas&#8221;. Tamb&eacute;m &#8220;ca&iacute;ram na cana&#8221;, virando &#8220;boias-frias&#8221;. </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nesse lugar fui acolhido por um casal do norte de Minas Gerais: uma mulher que vou chamar de Anaoj e seu marido, Mister Z&eacute;.<a name="topo1"></a><sup><a href="#nota1">1</a></sup> Tive o privil&eacute;gio, em 1983, de fazer parte do circuito de suas rela&ccedil;&otilde;es.<a name="topo2"></a><sup><a href="#nota2">2</a></sup> Fios el&eacute;tricos de cores diferentes, improvisados pelos moradores, emendando-se uns nos outros, iluminavam o Jardim das Flores. Atravessando o espa&ccedil;o em m&uacute;ltiplas dire&ccedil;&otilde;es, eles forneciam pistas para se detectar a configura&ccedil;&atilde;o de redes sociais. </font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A trajet&oacute;ria labir&iacute;ntica percorrida pelos fios do     barraco de Anaoj revela um sistema de energia que envolve v&aacute;rios     barracos. Trazendo a for&ccedil;a que vem da rua, os fios entram no barraco de     Aparecida e Gabriel (primeira filha e genro de Anaoj). Dali seguem para o     barraco de Margarida e Manuel (cunhada e irm&atilde;o de Gabriel). Suspensos por     uma vara de bambu, os fios sobem ladeira. Passam pelo c&ocirc;modo de Maria e     Z&eacute; do Mar (segunda filha e genro de Anaoj). Penetram o barraco de Anaoj     e Mister Z&eacute;, onde tamb&eacute;m moram os dois filhos mais novos do     casal: Daniel e Mois&eacute;s. Logo ent&atilde;o, os fios entram no     c&ocirc;modo do pesquisador &#8212; eu mesmo &#8212; a quem, despertando risos,     Anaoj &agrave;s vezes se refere como o seu filho branco: &#8220;Jo&atilde;o     Branco&#8221; ou &#8220;Jo&atilde;o de Anaoj&#8221;. Saindo desse c&ocirc;modo,     os fios se conectam com a l&acirc;mpada em frente ao barraco de Anaoj e Mister     Z&eacute;. Dali, com a ajuda de uma segunda vara de bambu, os fios cruzam por     cima de uma valeta at&eacute; alcan&ccedil;arem, ao lado do sarav&aacute;, o     barraco de Jasmim e Jeremias (nora e primeiro filho homem de Anaoj). Dos seis     filhos vivos de Anaoj, apenas Ad&atilde;o, o segundo na ordem de idade dos     filhos homens, mora em outro bairro (19/07/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A imagem &eacute; prop&iacute;cia. Parentes e vizinhos, unidos por redes de energia, transmitem for&ccedil;a uns para os outros. Mas n&atilde;o deixam de ocorrer curtos-circuitos. O Jardim das Flores se ilumina especialmente atrav&eacute;s de lampejos, nas inerva&ccedil;&otilde;es corporais resultantes de choques cotidianos, e nas rela&ccedil;&otilde;es eletrizantes envolvendo mulheres e homens. As redes est&atilde;o carregadas de tens&otilde;es.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A seguir me arrisco a discutir algumas de suas imagens mais luminosas, produzidas por espelhos de m&atilde;es e mulheres do &#8220;buraco dos capetas&#8221;. Nos cadernos de campo, elas fulguram em tr&ecirc;s conjuntos de rela&ccedil;&otilde;es: Anaoj e seus filhos, Maria e Z&eacute; do Mar, e Anaoj e Mister Z&eacute;.<b> </b></font></p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Uma est&eacute;tica de Nossa Senhora</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Na literatura antropol&oacute;gica referente a popula&ccedil;&otilde;es do baixo corpo social, imagens de m&atilde;es se associam aos poderes de media&ccedil;&atilde;o. Talvez mais do que em qualquer outro estrato o corpo da m&atilde;e vira a sua meton&iacute;mia. Em meio ao caos que frequentemente acompanha os deslocamentos errantes de filhos, companheiros e esposos, as m&atilde;es e mulheres tecem os fios que sustentam a pr&oacute;pria vida. Tal como se costuram colchas de retalhos das sobras e dos recortes de diferentes cores e texturas, emergem arranjos de vida nesses substratos. Tal como se juntam na obra de um <i>bricoleur </i>os materiais sens&iacute;veis do seu mundo, re&uacute;nem-se em torno de m&atilde;es e mulheres os elementos que animam as redes de parentesco e vizinhan&ccedil;a. Assim se fundam teias de reciprocidade. E se infunde um pequeno terror: o medo de ver-se sem as pr&oacute;prias teias. Trata-se de redes carregadas de tens&otilde;es. Remendadas, ru&iacute;das e tecidas com rudes materiais, as redes que protegem tamb&eacute;m precisam ser protegidas. M&atilde;es e mulheres reparam as redes que elas pr&oacute;prias tecem.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em sociedades cat&oacute;licas uma a&ccedil;&atilde;o mediadora se transfigura no espelho m&aacute;gico de Nossa Senhora.<sup><a name="topo3"></a><a href="#nota3">3</a></sup> As redes se ampliam. Tornam-se poderosas e surpreendentes. Lugares ermos onde lampejam imagens de virgens m&atilde;es de Deus transformam-se em pontos luminosos de peregrina&ccedil;&otilde;es e romarias. Rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero tamb&eacute;m se tecem no plano do sagrado. </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Neste ensaio, tenho interesse em explorar a especificidade de est&eacute;ticas dram&aacute;ticas para entender o modo como, em gestos e inerva&ccedil;&otilde;es corporais, se configuram imagens de Nossa Senhora e de m&atilde;es e mulheres no Jardim das Flores. Considerando-se a for&ccedil;a da a&ccedil;&atilde;o mediadora de tais personagens talvez seja poss&iacute;vel se falar, nos termos de Victor Turner, de uma est&eacute;tica do drama social. Inspirando-se no pensamento teatral, Turner (1982:10; 1996:91-94) encontra nos dramas sociais uma est&eacute;tica da trag&eacute;dia grega, e um modelo que se desdobra em quatro momentos: 1. ruptura, 2. crise e intensifica&ccedil;&atilde;o da crise, 3. a&ccedil;&atilde;o reparadora, e 4. desfecho. Na literatura antropol&oacute;gica referente &agrave;s classes ou &agrave;s camadas inferiores da sociedade, momentos de &#8220;ruptura&#8221; geralmente se associam ao g&ecirc;nero masculino, e &#8220;a&ccedil;&otilde;es reparadoras&#8221; ao g&ecirc;nero feminino. </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Aqui, por&eacute;m, pretendo investigar os alcances de outra est&eacute;tica para se pensarem as imagens de m&atilde;es e mulheres no Jardim das Flores, e de sua a&ccedil;&atilde;o mediadora: a da montagem. Tal est&eacute;tica &#8212; que se associa ao cinema de Sergei Eisenstein (1990a, 1990b) e &agrave;s vanguardas art&iacute;sticas do in&iacute;cio do s&eacute;culo 20 &#8212; tamb&eacute;m irrompe em momentos expressivos do Jardim das Flores. Um dos registros de cadernos de campo, capaz de fazer estremecer a pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o de sincretismo, &eacute; particularmente revelador. No final do circuito el&eacute;trico formado por barracos do grupo de parentesco e vizinhan&ccedil;a de Anaoj e Mister Z&eacute;, em um dos seus pontos mais fr&aacute;geis, uma missa transforma-se em montagem:</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Naquela mesma noite Padre &Acirc;ngelo rezou missa no barraco de     Jasmim e Jeremias. A ideia da missa surgira ap&oacute;s uma s&eacute;rie de     acontecimentos explosivos. Al&eacute;m de ver-se em brigas tempestuosas com a     Jasmim, Jeremias envolvia-se em brigas de bar. Invocando as for&ccedil;as do     alto, Anaoj procurava conter a braveza do seu filho.     <br> &Agrave;s 19h, fazendo uso de um     alto-falante, o ajudante do padre lan&ccedil;a um convite: &#8220;Estamos aqui     na casa de Jeremias, um rapaz pobre como todos n&oacute;s. &#8216;Feliz o     pobre!&#8217;, disse Jesus. Mas falamos do pobre de esp&iacute;rito, o que     n&atilde;o briga com os outros. O que perdoa o seu inimigo, esse &eacute;     pobre. Venham participar da santa missa!&#8221;     <br> &Agrave;s 19h10 ouve-se um estrondo,     um tiro de garrucha! O tiro vem do vizinho de Jeremias, do barraco do     &#8220;Sarav&aacute;&#8221;. O &#8220;Professor Pardal&#8221;, um inventor de     garruchas e de livros de dar choque, est&aacute; &#8220;testando&#8221; uma de     suas inven&ccedil;&otilde;es. &Agrave;s 19h30, o padre come&ccedil;a a rezar     missa. &Agrave;s 20h20, um segundo estrondo.       &Agrave;s 20h25, ap&oacute;s uma leitura b&iacute;blica, ouve-se um terceiro     tiro. O padre faz um serm&atilde;o sobre a import&acirc;ncia de &#8220;sermos     bons para que Deus mande coisas boas&#8221;. &Agrave;s 20h50, ap&oacute;s a     ora&ccedil;&atilde;o do &#8220;Pai Nosso&#8221;, o barraco do     &#8220;Sarav&aacute;&#8221; irrompe em sons do atabaque. Tentando dirigir uma     liturgia a respeito do &#8220;Cordeiro de Deus que curais o pecado do     mundo&#8221;, o padre reclama: &#8220;Quanto barulho! Quanto barulho!&#8221;.     <br> Da pequena congrega&ccedil;&atilde;o     surge um c&acirc;ntico sobre o amor ao pr&oacute;ximo.       A batida do atabaque se intensifica. Padre &Acirc;ngelo incentiva os     c&acirc;nticos. Ele volta a falar. O seu portugu&ecirc;s dispara, tornando-se     inintelig&iacute;vel, e parecendo haver se transfigurado em algum dialeto italiano.     Finalmente, o atabaque e o padre chegam ao fim. Padre &Acirc;ngelo termina com     um c&acirc;ntico de louvor a Nossa Senhora Aparecida (27/07/83).</font></p> </blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Essa montagem carregada de tens&otilde;es, de uma missa piedosa pontuada por tiros, e de leituras b&iacute;blicas e c&acirc;nticos de louvor acompanhados pela batida alucinante de um atabaque, &eacute; uma express&atilde;o do Jardim das Flores e das rela&ccedil;&otilde;es que tomam vida em circuitos de fam&iacute;lia e vizinhan&ccedil;a. Se, por um lado, com vozes brandas, o padre e seu ajudante invocavam a presen&ccedil;a serena e humilde da m&atilde;e de Deus, recobrindo o barraco de Jasmim e Jeremias com a aura de Nossa Senhora, por outro, os tiros do Professor Pardal e as batidas de atabaque do barraco vizinho faziam estremecer o Jardim das Flores, num clima explosivo quase em estado de frenesi.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Eisenstein (1990a:41) escreve: &#8220;O que, ent&atilde;o, caracteriza a montagem e, consequentemente, sua c&eacute;lula &#8212; o plano? A colis&atilde;o. O conflito de duas pe&ccedil;as em si. O conflito. A colis&atilde;o&#8221;. Tal concep&ccedil;&atilde;o de montagem teve influ&ecirc;ncia marcante nos escritos de Walter Benjamin e no teatro de Bertolt Brecht. Na antropologia, observa-se o seu impacto particularmente nos escritos de Michael Taussig, com destaque para o livro <i>Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem</i> (Taussig 1986). As ideias de George Marcus quanto &agrave; relev&acirc;ncia de procedimentos relacionados ao cinema em face dos novos desafios da descri&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica tamb&eacute;m chamam a aten&ccedil;&atilde;o. Creio, por&eacute;m, que sua concep&ccedil;&atilde;o de montagem &#8212; voltada para captar &#8220;exist&ecirc;ncias paralelas atrav&eacute;s de justaposi&ccedil;&otilde;es da vida cotidiana em diferentes locais&#8221; (Marcus 1994:51) &#8212;   aproxima-se mais dos filmes de David Wark Griffith e da hist&oacute;ria origin&aacute;ria do cinema norte-americano do que dos experimentos de Eisenstein. Quanto a essas diferentes concep&ccedil;&otilde;es, o cineasta russo comenta: &#8220;Ao paralelismo e &agrave; altern&acirc;ncia de primeiros planos dos Estados Unidos oferecemos o contraste de uni-los em fus&atilde;o&#8221; (Eisenstein 1990a:202). A partir da fus&atilde;o de dois fatores em conflito cria-se uma imagem ou montagem carregada de tens&otilde;es. </font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Subterr&acirc;neos dos s&iacute;mbolos</b></font></p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Num artigo sobre Hidalgo e a revolu&ccedil;&atilde;o mexicana, Victor Turner (1974:105) ressalta que Nossa Senhora de Guadalupe, um dos s&iacute;mbolos poderosos de uma nacionalidade emergente, &eacute; a sucessora de Tonantzin, a m&atilde;e dos deuses na cosmologia asteca, cujo culto, anteriormente celebrado no mesmo lugar agora dedicado ao culto de Nossa Senhora de Guadalupe, havia sido eliminado pelos espanh&oacute;is. Sugere-se uma quest&atilde;o: haveria no registro de uma missa pontuada por tiros de garrucha do Professor Pardal os ind&iacute;cios de uma Nossa Senhora que tamb&eacute;m se revela como <i>outra</i> &#8212; de forma explosiva? Uma observa&ccedil;&atilde;o: sabe-se que a imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, &eacute; fendida. Na audi&ccedil;&atilde;o desse registro ouvir&iacute;amos os estrondos de uma &#8220;hist&oacute;ria noturna&#8221;, irrompendo dos fundos de uma mem&oacute;ria involunt&aacute;ria, ou do inconsciente sonoro de um baixo corpo social?<sup><a name="topo4"></a><a href="#nota4">4</a></sup> Brotariam tais ru&iacute;dos das fendas de uma cis&atilde;o social? Seriam eles os barulhos de uma revoada, tal como num teatro de Antonin Artaud (1987), onde se agitam as sombras de uma na&ccedil;&atilde;o?</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Edmund Leach (1983:129) observa que os cultos &agrave; Virgem ganham for&ccedil;a em sociedades patriarcais altamente hierarquizadas, tais como a do Brasil colonial, nas quais &#8220;senhores jamais se casam com pessoas de classes inferiores, mas [...] graciosamente se dignam a tomar escravas como concubinas e a elevar seus filhos &agrave; altura da elite&#8221;. Nas inerva&ccedil;&otilde;es corporais de m&atilde;es e mulheres do Jardim das Flores seria poss&iacute;vel detectar a fric&ccedil;&atilde;o produzida pelo encontro, em uma montagem carregada de tens&otilde;es, de duas ou tr&ecirc;s linhagens sobrepostas &#8212; envolvendo as filhas e devotas de Nossa Senhora, de um lado, e as filhas ou netas e bisnetas de &#8220;negas de senzala&#8221; e &#8220;&iacute;ndias la&ccedil;adas no mato&#8221;, de outro?</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Pureza e perigo</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Os tiros que afloram como as flores do mal de uma garrucha do sarav&aacute; poderiam evocar a imagem de uma esp&eacute;cie de m&atilde;e primordial? Ou a experi&ecirc;ncia do abjeto? &#8220;O feminino &eacute; tonitruante e terr&iacute;vel&#8221;, escreve Artaud (1987:169). Pureza e perigo. A jun&ccedil;&atilde;o das imagens evoca o t&iacute;tulo de um livro de Mary Douglas (1976). E, em estado de fric&ccedil;&atilde;o, dois escritos de J&uacute;lia Kristeva (1980; 2002a): <i>Pouvoirs de l&#8217;horreur</i> e &#8220;Stabat Mater&#8221;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em <i>Pouvoirs de l&#8217;horreur</i>, Kristeva interpreta a experi&ecirc;ncia primordial do feminino: lugar hediondo, sujo, amb&iacute;guo, e liminar. Corpo de m&atilde;e. Fecundante e estranhamente familiar. Nem eu, nem outro, nem nada. O abjeto n&atilde;o se apresenta simplesmente como um objeto, contrapondo-se ao eu. No abjeto o pr&oacute;prio eu se decomp&otilde;e. Anterior &agrave; ordem simb&oacute;lica, o abjeto coloca toda ordem em estado de risco. Sob a luz negra da abje&ccedil;&atilde;o, a m&atilde;e-mulher se revela. Perigosa! </font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em &#8220;Stabat Mater&#8221;,<sup><a name="topo5"></a><a href="#nota5">5</a></sup> Kristeva discute o lugar da Virgem Nossa Senhora na constitui&ccedil;&atilde;o do universo social e simb&oacute;lico do Cristianismo. Afinidades com o trabalho de Mary Douglas tamb&eacute;m aqui s&atilde;o not&aacute;veis. A forma&ccedil;&atilde;o de ordens simb&oacute;licas envolve processos de purifica&ccedil;&atilde;o. Na atribui&ccedil;&atilde;o de virgindade &agrave; Maria, m&atilde;e de Cristo &#8212; que surge, diz Kristeva (2002a:312), de um &#8220;erro de tradu&ccedil;&atilde;o&#8221; &#8212; levanta-se uma suspeita: suas rela&ccedil;&otilde;es de afinidade com homens poderosos. Dramas de tradu&ccedil;&atilde;o? E de trai&ccedil;&atilde;o? Purificada do &#8220;pecado&#8221;, Maria torna-se m&atilde;e de Deus. Vira rainha. No imagin&aacute;rio das cortes medievais, e dos poderes que se associam &agrave;s senhoras da nobreza feudal, ela vira Nossa Senhora. Um detalhe: com a transforma&ccedil;&atilde;o de Maria em Virgem, o corpo materno se reduz ao sil&ecirc;ncio (Kristeva 2002b:296-297). A Virgem se cala.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">&Agrave;s leitoras e aos leitores que se propuserem a fazer uma audi&ccedil;&atilde;o dessa Senhora, sugiro cautela. Pois talvez se deparem com um tiro de garrucha.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Tamb&eacute;m pe&ccedil;o aten&ccedil;&atilde;o. A discuss&atilde;o sobre a imagem de Nossa Senhora n&atilde;o deixa de se apresentar como um desvio motivado por um registro etnogr&aacute;fico de uma missa-sarav&aacute;, lido a partir de uma est&eacute;tica da montagem e sob a luz negra do pensamento de Kristeva e do teatro de Artaud. Assim, acredito, se obt&eacute;m o deslocamento necess&aacute;rio para explorar as inerva&ccedil;&otilde;es corporais das mulheres do Jardim das Flores. Eis o foco deste ensaio: as rela&ccedil;&otilde;es dessas mulheres &#8212; particularmente as da Casa de Anaoj &#8212; com seus filhos e companheiros. E, com outros homens que povoam seu universo social. </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Um tema se enuncia: a imagem de m&atilde;e e mulher. Observa-se o procedimento de Eisenstein (1990b:18):</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A representa&ccedil;&atilde;o A e a representa&ccedil;&atilde;o     B devem ser selecionadas entre todos os aspectos poss&iacute;veis do tema em     desenvolvimento, devem ser procuradas de tal modo que sua     justaposi&ccedil;&atilde;o &#8212; isto &eacute;, a justaposi&ccedil;&atilde;o     desses pr&oacute;prios elementos e n&atilde;o de outros, alternativos &#8212;     suscite na percep&ccedil;&atilde;o e nos sentimentos do espectador a mais     completa imagem do pr&oacute;prio tema.</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Na releitura de registros de cadernos de campo que proponho a seguir, duas representa&ccedil;&otilde;es foram selecionadas. A representa&ccedil;&atilde;o A fulgura sob o signo da Virgem, de uma imagem de <i>Piet&aacute;</i>, ou &#8220;mulher sofrida&#8221;. Frequentemente ela aparece como v&iacute;tima da viol&ecirc;ncia de &#8220;homens errantes ou marginais&#8221; &#8212; ou seja, conforme se evidencia nos registros, de seus pr&oacute;prios companheiros e filhos &#8220;pecadores&#8221;. Por vezes, essa &#8220;m&atilde;e e mulher sofrida&#8221; tamb&eacute;m evoca afinidades com homens poderosos e seus meios de comunica&ccedil;&atilde;o, constituindo-se em uma das for&ccedil;as vitais de ordens sociais e simb&oacute;licas.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A representa&ccedil;&atilde;o B irrompe sob o signo de uma <i>outra</i>, da m&atilde;e perigosa e da mulher &#8220;doida de raiva&#8221;. Trata-se de uma imagem de mulher furiosa, capaz de matar &#8212; e sem medo de enfrentar &#8220;os homens&#8221;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">No experimento que aqui se prop&otilde;e as duas representa&ccedil;&otilde;es se alternam e se sobrep&otilde;em em velocidade. Seria tentador, em alguns casos, fazer uma leitura do material tendo em vista tr&ecirc;s momentos: representa&ccedil;&atilde;o A, representa&ccedil;&atilde;o B, e fus&atilde;o de ambas as representa&ccedil;&otilde;es. Desse modo, poder&iacute;amos propor um modelo alternativo ao do drama social, de Victor Turner. O exerc&iacute;cio exige cuidado. Acredito que todo modelo corre riscos de se transformar, como disse Geertz (1983:28) em rela&ccedil;&atilde;o ao modelo de Turner, em &#8220;uma f&oacute;rmula para todas as esta&ccedil;&otilde;es&#8221; (<i>a form for all seasons</i>). Neste ensaio, talvez o risco maior seja o de suprimir a natureza explosiva do material.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O coment&aacute;rio de Eisenstein (1990a:42) &eacute; prop&iacute;cio: &#8220;Se a montagem deve ser comparada a alguma coisa, ent&atilde;o uma legi&atilde;o de trechos de montagem, de planos, deveria ser comparada &agrave; s&eacute;rie de explos&otilde;es de um motor de combust&atilde;o interna&#8221;. E, ainda outro: &#8220;Um personagem [...] para produzir uma impress&atilde;o verdadeiramente viva, deve ser constru&iacute;do diante do espectador, durante o curso da a&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o apresentado como uma figura mec&acirc;nica com caracter&iacute;sticas determinadas <i>a priori</i>&#8221; (Eisenstein 1990b:21). Embora duas representa&ccedil;&otilde;es tenham sido selecionadas, &eacute; preciso estar atento aos movimentos surpreendentes dos personagens. E aos lampejos, ou instantes fugidios, quando representa&ccedil;&otilde;es opostas se fundem numa &uacute;nica imagem, ou montagem carregada de tens&otilde;es.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Reino dos mortos</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O efeito de montagem produzido por um (des)encontro entre a missa e o sarav&aacute; ilumina as rela&ccedil;&otilde;es que se tecem no Jardim das Flores. Entre as personagens que aqui fulguram, relampeiam imagens de m&atilde;es e mulheres. O que dizer sobre elas? </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Um aviso: a casa de Anaoj n&atilde;o existe mais. Ao se entrar no reino dos mortos, revisitando os lugares de um tempo que j&aacute; passou, sente-se no corpo um leve arrepio. A quem pedir passagem? Tamb&eacute;m surge, &agrave; dist&acirc;ncia, como quem olha as coisas de um lugar privilegiado, bem acima do &#8220;buraco dos capetas&#8221;, uma tenta&ccedil;&atilde;o: a de se transformar em her&oacute;is as personagens de velhos e desbotados cadernos de campo. Talvez, de fato, no ensaio que aqui se anuncia, esse cair em tenta&ccedil;&atilde;o seja dif&iacute;cil de evitar. Mas n&atilde;o h&aacute; her&oacute;is no Jardim das Flores. H&aacute; contradi&ccedil;&otilde;es. De acordo com Bertolt Brecht, &#8220;s&oacute; tem vida o que &eacute; cheio de contradi&ccedil;&otilde;es&#8221; (apud Bornheim 1992:272). Talvez, de fato, seja preciso desmontar &#8220;her&oacute;is&#8221; e &#8220;hero&iacute;nas&#8221; &#8212; at&eacute; mesmo os da grandeza de Anaoj e Mister Z&eacute; &#8212; para que as personagens tenham vida.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nem por isso uma esp&eacute;cie de hero&iacute;smo cotidiano &#8212; ao gosto de Brecht &#8212; deixa de caracterizar algumas das personagens do Jardim das Flores. Os pequenos lamentos e s&uacute;plicas de Anaoj &agrave;s vezes eram dessa natureza: &#8220;Ai Deus, me d&aacute; for&ccedil;a de banhar!&#8221; (07/06/83). Caso se montasse uma pe&ccedil;a teatral a partir de personagens do Jardim das Flores, um dos di&aacute;logos de <i>M&atilde;e Coragem</i>, envolvendo um capel&atilde;o e a pr&oacute;pria Coragem, seria sugestivo: </font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Capel&atilde;o &#8212; O jeito de a senhora tratar dos seus     neg&oacute;cios e ir sempre em frente &eacute; uma coisa que eu admiro muito:     entendo bem por que lhe deram o apelido de Coragem.    <br> M&atilde;e Coragem &#8212; Quem &eacute; pobre precisa ter     coragem, sen&atilde;o est&aacute; perdido. At&eacute; para sair da cama cedo, e     aguentar o roj&atilde;o! Para lavrar um alqueire de terra, em plena guerra! E     ainda p&ocirc;r mais crian&ccedil;as no mundo &eacute; prova de coragem: porque     n&atilde;o h&aacute; nenhuma perspectiva. Os pobres t&ecirc;m de ser carrascos     uns dos outros, e se matarem reciprocamente, para depois se olharem cara a     cara: ent&atilde;o precisam ter muita coragem. Suportar um imperador e um papa     &eacute; sinal de uma coragem tremenda, e isso custa a pr&oacute;pria vida     deles! <i>Senta-se, tira do bolso       um pequeno cachimbo, e come&ccedil;a a fumar</i>. O senhor bem que podia     rachar um pouquinho de lenha... (Brecht 1991:230).</font></p> </blockquote>        <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Como um intruso conhecido que novamente pede passagem &agrave; Casa de Anaoj &#8212; num momento em que este se afunda no reino das sombras &#8212; convido leitoras e leitores a uma releitura de trechos de cadernos de campo. O material se organiza em tr&ecirc;s se&ccedil;&otilde;es principais: 1. Anaoj e seus filhos,   2. Maria e Z&eacute; do Mar (filha e genro de Anaoj e Mister Z&eacute;), e 3. Anaoj e Mister Z&eacute;. A primeira se&ccedil;&atilde;o subdivide-se em tr&ecirc;s: a) Anaoj e Jeremias, b) Anaoj e Daniel, e c) Anaoj e Mois&eacute;s. No intervalo entre as duas &uacute;ltimas subdivis&otilde;es, duas digress&otilde;es se apresentam: uma sobre &#8220;a revolta de Anaoj com o papel de m&atilde;e e mulher&#8221;, e outra sobre &#8220;o caso de Z&eacute; Galinha&#8221;.</font></p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Anaoj e seus filhos</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><i>Anaoj e Jeremias</i>. Dos filhos de Anaoj, apenas Aparecida nasceu antes de Jeremias. Em 1983, aos 30 anos de idade, Jeremias considerava-se &#8220;velho e acabado&#8221;. Ele tinha fama de ser bravo (<i>brabi</i>) e, apesar de franzino, se metia a ser valente. Quase um m&ecirc;s ap&oacute;s a missa-sarav&aacute; registra-se uma das erup&ccedil;&otilde;es de Jeremias.</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Acordo com a voz ofegante de Jasmim, que fala com Anaoj:     &#8220;Ele virou o capeta. Avan&ccedil;ou pra cima de mim. Est&aacute;     quebrando tudo. Os ovos que eu comprei ele jogou tudo no ch&atilde;o.     Pingu&ccedil;o! Eu largo aquela desgra&ccedil;a! Vontade de sumir...!&#8221;    <br> Decidida, Anaoj atravessa a valeta, deslocando-se em     dire&ccedil;&atilde;o &agrave; tempestade. Os barulhos recrudescem (19/08/83).</font></p> </blockquote>        <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A seguir, surge uma imagem de m&atilde;e:</font></p>       <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">&#8220;Ai... ai... ai... ai... ai, meu Deus. Ai... ai&#8221;. Os     gemidos se prolongam. Aos poucos se afundam no corpo, tornando-se viscerais, e     virando &acirc;nsia de v&ocirc;mito. &#8220;M&atilde;e!&#8221;     &#8220;Anaoj!&#8221; &#8220;Press&atilde;o baixa...&#8221;; &#8220;Tem que levar     pro Pronto Socorro...&#8221;; &#8220;Anaoj, voc&ecirc; quer ir pro Pronto     Socorro?&#8221;    <br> Sem alarde, Maria explica:     &#8220;Toda vez que o Jeremias fica assim, a press&atilde;o dela baixa.     &Eacute; perigoso, n&atilde;o &eacute;? Pode morrer a qualquer hora&#8221;.    <br> &#8220;Ai... ai... ai.&#8221;    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> Mister Z&eacute; sai para procurar     um carro. &#8220;Voc&ecirc; vai, Anaoj? Se eu chamar o carro e depois voc&ecirc;     n&atilde;o ir...&#8221; (19/08/83).</font></p> </blockquote>        <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O sofrimento de Anaoj produz efeitos:</font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Maria olha para o alto. &#8220;Est&aacute; vendo l&aacute; em     cima? De vez em quando voc&ecirc; v&ecirc; a cabe&ccedil;a do Jeremias. Ele     fica atr&aacute;s da moita, espiando pra ver como &eacute; que est&aacute; a     m&atilde;e. Depois, se falar que a m&atilde;e ficou doente, ele vira uma     on&ccedil;a. Avan&ccedil;a pra cima de voc&ecirc;&#8221;.     <br> Familiares se re&uacute;nem.     Vizinhos perguntam sobre a sa&uacute;de de Anaoj. H&aacute; um movimento de     pessoas entrando e saindo do barraco de Anaoj e Mister Z&eacute;. Anaoj     est&aacute; de cama (19/08/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">No in&iacute;cio do m&ecirc;s, Anaoj havia aconselhado Jasmim, a sua nora, a dar &#8220;uma paulada&#8221; no Jeremias. Agora, por&eacute;m, era a pr&oacute;pria Anaoj que parecia ter levado a paulada. A m&atilde;e sentia no corpo as dores causadas por um filho. Essa imagem comovia. Causava impacto. Enquanto pessoas da vizinhan&ccedil;a se reuniam em frente ao barraco de Anaoj, Jeremias observava.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em novembro de 1983, h&aacute; registros de novas brigas. Ap&oacute;s receber uma conta no boteco, Jeremias ficou revoltado. Tomou pinga. Voltou tarde para casa. Brigou com a Jasmim. Bateu. Dessa vez at&eacute; jogou uma cadeira contra Anaoj. No dia seguinte, tal como no espelho quebrado de Anaoj, em uma de suas faces mais cortantes, ou pungentes, lampeja a figura de uma senhora armada.</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Na &aacute;rea do tanque, Anaoj limpa um frango para o     almo&ccedil;o. Maria lava roupa. Ouve-se a voz de Anaoj: &#8220;N&atilde;o     aguento mais. Passei tr&ecirc;s noites sem dormir. Ele s&oacute; pirra&ccedil;a     eu. Eu nunca pirracei meu pai e minha m&atilde;e. Nunca! Ele sabe que eu sou     doida, que eu n&atilde;o sou gente! Ou ele sai daqui ou eu furo ele! (Num gesto     repentino e violento, Anaoj enfia a faca em um ser imagin&aacute;rio.) Furo     aquela peste! Furo e dou risada! Ai, meu Deus do c&eacute;u! Ser&aacute; que     ele n&atilde;o sabe que eu sou m&atilde;e? N&atilde;o sou cadela! Sabe o que eu     vou fazer? Vou comprar um veneno pra eu tomar! Voc&ecirc;s v&atilde;o     ver!&#8221;.     <br> Jeremias aparece na porta do     barraco. &#8220;O que &eacute; m&atilde;e?&#8221;; &#8220;N&atilde;o &eacute;     nada n&atilde;o.&#8221;; &#8220;O que &eacute; m&atilde;e?&#8221;; &#8220;O que     &eacute;, o que &eacute;, o que &eacute;, o que &eacute;...&#8221;. Os sons se     repetindo ganham a intensidade de uma erup&ccedil;&atilde;o. Furiosa Anaoj     arremessa o frango! (12/11/83).</font></p> </blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O filho de Anaoj aqui aparece sob o signo de uma cadeira errante. Logo emerge a imagem de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221;: &#8220;N&atilde;o aguento mais. Passei tr&ecirc;s noites sem dormir&#8221;.<sup><a name="topo6"></a><a href="#nota6">6</a></sup> Dessa imagem irrompe outra: &#8220;Ele sabe que eu sou doida, que eu n&atilde;o sou gente! Ou ele sai daqui ou eu furo ele! Furo aquela peste! Furo e dou risada!&#8221;. Em um &uacute;nico gesto &#8212; enfiando a faca que ela usa para limpar o frango &#8212; Anaoj produz uma imagem tensa. A m&atilde;e que prepara o alimento tamb&eacute;m &eacute; capaz de matar. Ambas as alternativas sinalizam uma condena&ccedil;&atilde;o. For&ccedil;ar Jeremias a sair do Jardim das Flores e da rede matrifocal que o protege n&atilde;o deixa de ser uma amea&ccedil;a t&atilde;o grande, talvez, quanto &agrave; que lampeja na l&acirc;mina de Anaoj. A raiva vira lamento: &#8220;Ai, meu Deus do c&eacute;u! Ser&aacute; que ele n&atilde;o sabe que eu sou m&atilde;e?&#8221;. O lamento se afunda virando raiva. Dessa vez, por&eacute;m, a amea&ccedil;a se apresenta atrav&eacute;s de uma imagem de m&atilde;e sofrida que acena com a sua pr&oacute;pria morte.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O que seria de Jeremias sem a sua m&atilde;e? A resposta vem em forma de um gesto. O frango, que seria alimento, vira proj&eacute;til. Nesse gesto se condensam as figuras de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221; e &#8220;doida de raiva&#8221;. A cena tem o efeito de uma montagem, tal como a que se produz numa missa pontuada por tiros do Professor Pardal, ou nos c&acirc;nticos de louvor acompanhados por um atabaque em estado de frenesi. Aqui, por&eacute;m, a montagem se produz no corpo de uma &uacute;nica personagem e, at&eacute; mesmo, em um &uacute;nico gesto.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em mar&ccedil;o do ano seguinte, a briga entre Jasmim e Jeremias seria ainda mais tempestuosa. Com o cabo da faca ele bateu na cabe&ccedil;a de Jasmim. &#8220;Jorrou sangue&#8221;. A pr&oacute;pria Jasmim virou imagem de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221;. Devido a um acidente no servi&ccedil;o de constru&ccedil;&atilde;o, que provocou a inflama&ccedil;&atilde;o de uma de suas m&atilde;os, Jeremias n&atilde;o trabalhava desde janeiro. Mesmo com dois filhos pequenos, incluindo o nen&eacute;m, Jasmim foi catar algod&atilde;o. A fam&iacute;lia come&ccedil;ou a passar fome. Johnny, de 3 anos de idade, chutou de raiva as panelas vazias de sua m&atilde;e, at&eacute; ca&iacute;rem na valeta. Jeremias bebia pinga. Jasmim se inervou. Irrompeu a briga. Jeremias amea&ccedil;ou, &#8220;vou te matar!&#8221;. Anaoj interveio, &#8220;ent&atilde;o voc&ecirc; vai ter que me matar primeiro!&#8221; (13/03/84). Jasmim refugiou-se com Johnny na casa de um tio materno, deixando o nen&eacute;m aos cuidados de Anaoj. Os amigos de Jeremias pararam de frequentar o seu barraco. A m&atilde;o de Jeremias latejava. Estava infeccionada. Mesmo assim, enfaixando-a com um pano e cobrindo-a de pl&aacute;stico, Jeremias foi catar algod&atilde;o.<sup><a name="topo7"></a><a href="#nota7">7</a></sup> Virou &#8220;boia-fria&#8221;. No final do dia ele trouxe da ro&ccedil;a uma melancia para o seu filho, Johnny.   Em 22 de mar&ccedil;o, uma semana ap&oacute;s Jeremias haver virado &#8220;boia-fria&#8221;,   Jasmim voltou ao seu barraco e esposo. Anaoj devolveu o nen&eacute;m.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Um detalhe: dizia-se que no dia da briga Jasmim havia dado parte na pol&iacute;cia. Mas quando Jeremias tomou coragem de ir catar algod&atilde;o, Anaoj lhe disse que a hist&oacute;ria n&atilde;o era verdadeira. Jeremias reagiu: &#8220;Eu n&atilde;o tenho medo de pol&iacute;cia! Eu queria que ela desse parte mesmo!&#8221; (14/03/84). Talvez o que tenha levado Jeremias a virar &#8220;boia-fria&#8221; tenha sido uma imagem de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221;.</font></p>           <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><i>Anaoj e     Daniel</i>. Em 1983, Daniel tinha 18 anos de idade. Era o     pen&uacute;ltimo dos filhos vivos. Solteiro, ele morava com os pais. Daniel     &#8220;trampava&#8221;. Quanto ao f&iacute;sico, ele era nessa &eacute;poca o     mais forte da fam&iacute;lia. Aparentemente menos rebelde que Jeremias, sua     melancolia talvez tenha sido mais profunda: &#8220;Sou pobre, e pobre tem que     pegar no trampo at&eacute; morrer, indo de trampo em trampo at&eacute; o grito     final&#8221; (20/05/83). &#8220;Estou acostumado a sofrer, e a dar cabe&ccedil;ada no mundo&#8221; (13/07/84). </font></p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Tal como outros &#8220;boias-frias&#8221;, em   &eacute;pocas de safra da cana-de-a&ccedil;&uacute;car, Daniel via-se em uma     luta com os canaviais. Deparava-se no dia a dia com cana &#8220;brava&#8221;,   &#8220;enfezada&#8221;, e &#8220;embramada&#8221;. N&atilde;o se sabia ao certo     se era ele que cortava a cana, ou a cana de palha afiada que o cortava. Se era     ele que derrubava a cana, ou a cana que o derrubava. Dos canaviais o seu corpo     voltava mo&iacute;do. Virava-se baga&ccedil;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Tal como a M&atilde;e Coragem, cujo sustento vinha de uma   guerra, o sustento de Anaoj vinha dos canaviais. As contas eram feitas na ponta do l&aacute;pis, ou da l&iacute;ngua. Exigia-se de Daniel uma entrega total:</font></p>       <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Anaoj descobre que Daniel est&aacute; fazendo Cr$ 17 mil por     semana. Dos dezessete, por&eacute;m, ele s&oacute; entregava dez para Anaoj.     Ela reclama: &#8220;Mister Z&eacute; entrega tudo!&#8221;. Maria apoia:     &#8220;Z&eacute; do Mar tamb&eacute;m!&#8221;. Ad&atilde;o, um dos     irm&atilde;os mais velhos, d&aacute; raz&atilde;o para sua m&atilde;e. Anaoj     comenta: &#8220;O Daniel compra duas, tr&ecirc;s garrafas de pinga pra tomar     ele mais os colegas no servi&ccedil;o!&#8221; (25/07/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A cena n&atilde;o deixava de evocar uma imagem de Aparecida do Norte: &#8220;Voc&ecirc; ouve o dia inteiro... plim, plim... o barulho do dinheiro caindo nos cofres do lado da santa&#8221; (27/05/83).</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O coment&aacute;rio final de Anaoj, sobre as garrafas de pinga, serve para justificar a entrega do dinheiro &agrave; m&atilde;e. Mas ele tamb&eacute;m revela uma verdade de fundo: precisa-se de coragem para enfrentar um canavial.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Apesar da fama que Daniel tinha de &#8220;pegar no trampo&#8221;, Anaoj se preo&shy;cupava com as suas brigas de bar.</font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Anaoj se lamenta: &#8220;Ai, meu Deus, n&atilde;o aguento mais.     Desde que n&oacute;s chegamos a Piracicaba &eacute; esse desgosto. Meus filhos     desse jeito... Disgrama! Tinha que ir no bar!&#8221;. &#8220;Daniel procura se     explicar. &#8220;M&atilde;e, eu, eu... tive que... Ele chamou de preto     sujo!&#8221;. Anaoj reage: &#8220;sujo?!&#8221; Daniel continua: &#8220;Fa...     falei, &#8216;eu trabalho. N&atilde;o sou vagabundo que nem     voc&ecirc;!&#8217;&#8221;. Anaoj explode: &#8220;Voc&ecirc; devia &eacute; ter     levado ele pra fora do bar e metido a m&atilde;o na cara dele!&#8221;     (04/07/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Primeiro, um lamento: a imagem de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221;. A dor se transforma em raiva. De repente, uma explos&atilde;o, em dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria &agrave; do lamento inicial.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">As anota&ccedil;&otilde;es finais da noite tamb&eacute;m s&atilde;o reveladoras:</font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Daniel volta cantarolando um dos hinos de missa. Naquela noite     tamb&eacute;m se ouve no Jardim das Flores os hinos cantados por     &#8220;crentes&#8221;, em meio aos aleluias: &#8220;Aleluia! Gl&oacute;ria a     Deus!&#8221;. Anaoj ironiza: &#8220;Sai at&eacute; l&aacute;grima&#8221;.    <br> Antes de se deitar para dormir,     Anaoj ri quando se lembra de uma outra vez em que algu&eacute;m chamou Daniel     de &#8220;preto sujo&#8221;. Orgulhosa, ela diz: &#8220;Daniel voou em     cima!&#8221; (04/07/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Aqui tamb&eacute;m se produz uma montagem. Daniel, que havia acabado de brigar e que levara dois &#8220;pitos&#8221; da m&atilde;e, primeiro por ter brigado e depois por n&atilde;o ter brigado at&eacute; mais, &#8220;volta cantarolando um dos hinos de missa&#8221;. Anaoj, que havia acabado de se lamentar, ri do choro dos &#8220;crentes&#8221; vizinhos. &#8220;Sai at&eacute; l&aacute;grima&#8221;. Antes havia se envergonhado dos filhos; agora se orgulha: &#8220;Daniel voou em cima!&#8221;.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Os tiros que pontuavam o cotidiano do Jardim das Flores &agrave;s vezes se tornavam expressivos. No final de agosto de 1983, Daniel disparou: &#8220;Vou fazer que nem o Professor Pardal. Vou comprar uma garrucha e tacar tiro pra cima!&#8221; (29/08/83).</font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Primeira digress&atilde;o: a revolta de Anaoj com o papel de m&atilde;e e mulher</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Existem pap&eacute;is de vidro ou cer&acirc;mica? Olhando-se no espelho, a pr&oacute;pria Anaoj &agrave;s vezes parecia querer dar tiros, como se pap&eacute;is de m&atilde;e e mulher pudessem virar estilha&ccedil;os. Em maio de 1984, h&aacute; claros sinais de rebeldia. &#8220;Bravo com Anaoj por ela n&atilde;o conseguir controlar os filhos, Mister Z&eacute; exclama: &#8216;Os filhos todos chumbados!&#8217;. Anaoj retruca: &#8216;Puxaram &agrave; sua m&atilde;e que vive chumbada!&#8217;&#8221; (14/05/84).</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em junho, um vizinho,   querendo que Mister Z&eacute; o acordasse na hora de sair para o trabalho,   pergunta: &#8220;Anaoj, a que horas a senhora acorda o Mister   Z&eacute;?&#8221;. Anaoj responde: &#8220;Eu n&atilde;o acordo ele. N&atilde;o   sou rel&oacute;gio!&#8221;. O vizinho insiste: &#8220;Mas a que horas a senhora   levanta pra fazer a marmita dele?&#8221;. Anaoj responde:     &#8220;A hora que meus olhos estiverem se abrindo!&#8221; (Obs: Ela se levanta,   geralmente, entre 4h30 e 5h) (14/06/84). Os pr&oacute;prios programas de   r&aacute;dio incentivam nas madrugadas o papel a que Anaoj aqui se recusa:   &#8220;Dona de casa, joga &aacute;gua na cara dele! Vamos trabalhar! Moleza! Dormindo a essa hora?!&#8221; (20/07/83).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">As rela&ccedil;&otilde;es entre Anaoj e seus pap&eacute;is de m&atilde;e e mulher entrariam em crise em 30 de junho de 1984, na festa organizada por universit&aacute;rios e moradores do Jardim das Flores. Dessa vez, ao inv&eacute;s de Anaoj controlar o seu filho Jeremias, os dois pareciam coreografar suas explos&otilde;es numa festa-teatro em estado de embriaguez.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">No dia seguinte, o clima estava carregado, sombrio. Mister Z&eacute; atacou: &#8220;Mulher que bebe pinga em festa &eacute; biscate!&#8221;. Anaoj rebate: &#8220;Durante a semana eu sou sogra, m&atilde;e, e cozinheira. Mas durante a festa n&atilde;o sou nada disso! Quero beber pinga e dan&ccedil;ar!&#8221; (01/07/84). Na segunda-feira, Anaoj parecia fazer penit&ecirc;ncia: &#8220;Triste, quieta, calada. Passou mal. Foi levada &agrave; farm&aacute;cia. Tomou duas inje&ccedil;&otilde;es&#8221; (02/07/84).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Quase dois meses ap&oacute;s essa festa, os cadernos apresentam um registro marcante. Como estrat&eacute;gia para fazer um dinheiro extra, Anaoj come&ccedil;ou a vender pinga no seu barraco. Inicialmente, ela havia pensado em montar uma quitanda. Por&eacute;m, calculando os prov&aacute;veis preju&iacute;zos de tal empreendimento, numa vizinhan&ccedil;a em que a fome rondava e um c&oacute;digo informal de reciprocidade se impunha, ela decidiu que seria melhor vender pinga.  A pinga, que dissipava as for&ccedil;as de seus filhos, virou por alguns meses uma fonte de renda. Por causa de seu novo neg&oacute;cio, Anaoj veria seu nome envolvido numa briga que estourou num barraco vizinho.</font></p>      <p>&nbsp;</p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Segunda digress&atilde;o: o caso de Z&eacute; Galinha </b></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Ou&ccedil;o os barulhos de uma briga entre Z&eacute; Galinha e a     sua mulher, no barraco vizinho. Anaoj comenta: &#8220;Jorrou sangue!&#8221;.     Z&eacute; Galinha grita: &#8220;Voc&ecirc; pensa que a pol&iacute;cia &eacute;     mais homem do que eu?!&#8221;.     <br> A pol&iacute;cia chega. Z&eacute;     Galinha reage: &#8220;Eu sou homem!&#8221;. O policial desafia: &#8220;Por que     voc&ecirc; n&atilde;o bate em mim?! Olhe o rosto dessa crian&ccedil;a, e de sua     mulher que ainda est&aacute; amamentando!&#8221;.    <br> Horas depois, ao lavar roupa, Maria     levanta a sua voz em dire&ccedil;&atilde;o ao barraco de Z&eacute; Galinha:     &#8220;N&atilde;o gosto de gente que fala pelas costas! Por que n&atilde;o vem     falar aqui?!&#8221;. Maria estava com raiva. A vizinha havia dito que a culpa     era de Anaoj por ter vendido pinga para Z&eacute; Galinha (25/08/84).</font></p> </blockquote>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Trata-se de um fragmento ins&oacute;lito. Por   detr&aacute;s de uma imagem de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221; irrompe a   pol&iacute;cia. Em um &uacute;nico gesto, atos contrastivos se sobrep&otilde;em   numa montagem carregada de tens&otilde;es: a agress&atilde;o &agrave; mulher e   o desafio &agrave; pol&iacute;cia &#8212; &#8220;Voc&ecirc; pensa que a   pol&iacute;cia &eacute; mais homem que eu?!&#8221;. Paradoxalmente, a   &#8220;covardia&#8221; de bater em uma m&atilde;e conjuga-se &agrave;   &#8220;valentia&#8221; de enfrentar a pol&iacute;cia. Ao vender pinga, Anaoj se   fragiliza. Configura-se um espantoso cotidiano: tal como uma M&atilde;e   Coragem, Anaoj fazia com&eacute;rcio com aquilo que estava matando os seus pr&oacute;prios filhos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><i>Anaoj e Mois&eacute;s</i>. Em 1983, Mois&eacute;s era um menino de 10 anos de idade. Ia &agrave; escola de manh&atilde; e, &agrave; tarde, engraxava sapatos no centro da cidade. No registro a seguir um disparo do Professor Pardal acende a imagina&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Ontem &agrave; noite, quando ouvi o tiro da garrucha, me deu uma     tremura. At&eacute; a fome eu perdi. A Maria disse, &#8220;a m&atilde;e     n&atilde;o quer comer mais&#8221;. Eu n&atilde;o quis comer. Isso &eacute; da     minha natureza. Eu sou revoltada. Comecei a pensar sobre o causo que o     Z&eacute; do Mar contou do menino que foi levado pela chuva no Piracicamirim e     da m&atilde;e que endoidou, com vontade de morrer. E o meu menino que vai pro     centro trabalhar! Meu Deus, tanta coisa acontece nesse mundo! E se os marginais     fizerem alguma coisa com meu menino? Eu, aqui, n&atilde;o sabendo de nada!       O desespero e a preocupa&ccedil;&atilde;o v&atilde;o acabar com o povo     (10/06/83).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">As palavras de Anaoj parecem entrar em rela&ccedil;&atilde;o de mimesis com o disparo da garrucha, despertando a nervura de um discurso amoroso e levando-o &agrave; beira de uma explos&atilde;o. Nem por isso Anaoj deixava de empurrar o seu filho em dire&ccedil;&atilde;o ao mundo. A seguir, um refor&ccedil;o escolar:</font></p>       <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">&Agrave;s 4h, Daniel sai para trabalhar. &Agrave;s 6h30, ainda     na cama, ou&ccedil;o a voz tr&ecirc;mula de Mois&eacute;s tentando fazer frente     aos estrondos de Anaoj: &#8220;Estou com frio&#8221;. &#8220;Vai capeta!     Vagabundo!&#8221;. &#8220;Estou com frio&#8221;. &#8220;Vai, sen&atilde;o     arranco suas tripas pela boca!&#8221;. &#8220;N&atilde;o vou&#8221;.     &#8220;Voc&ecirc; vai apanhar! Vou bater at&eacute; ficar zonzo!&#8221;.         <br> Ou&ccedil;o barulhos na cozinha,     seguidos pela batida da porta. &#8220;N&atilde;o volto nunca mais!&#8221;.     &#8220;N&atilde;o volta, sen&atilde;o te mato!&#8221;.    <br> Naquela noite, Mister Z&eacute;     passaria um longo tempo segurando a cabe&ccedil;a de Mois&eacute;s no colo,     fazendo carinho, procurando piolhos (Nas escolas se fazem     inspe&ccedil;&atilde;o de cabe&ccedil;as para ver se as crian&ccedil;as     t&ecirc;m piolhos) (16/06/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em suas rela&ccedil;&otilde;es com Mois&eacute;s, a voz de Anaoj &agrave;s vezes adquiria a qualidade de um tiro. &#8220;Arranco-seu-couro!&#8221;. &#8220;Tem-que-amarrar-no-pau!&#8221;. &#8220;Arranco-suas-tripas-pela-boca!&#8221;. Perdiam-se vogais: &#8220;rntrapr-c&aacute;!&#8221; (entra pra c&aacute;). Palavras viram estrondos.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Com efeitos de choque, uma imagem faz o seu retorno. Uma m&atilde;e se recobre da <i>persona</i> aterrorizante da pol&iacute;cia: &#8220;Vou fazer com voc&ecirc; que nem a pol&iacute;cia fez com o mineirinho, vou bater at&eacute;...!&#8221; (14/07/84). No ano seguinte essa mesma imagem faria estremecer o corpo de Anaoj de horror:</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Hoje Anaoj foi com um grupo de mulheres do bairro buscar cestas     de alimentos da Dona Alzira, na Vila Rezende. Ela narra o que viu: </font></p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">&#8220;Seis meninos cercaram uma     mulher no ponto de &ocirc;nibus. A mulher era rica, da fam&iacute;lia Dedini.     Ia acontecer um roubo. Mas a pol&iacute;cia chegou antes. Pegaram um menino.     Era um negrinho. Ergueram o menino no alto, e tacaram no ch&atilde;o. Chutaram     de bota a sua barriga. Deram murros. Pa! Pa! Bateram a sua cabe&ccedil;a contra     uma &aacute;rvore. A orelha do menino come&ccedil;ou a sangrar. O     irm&atilde;ozinho dele chegou perto. Gritaram: &#8216;Voc&ecirc; quer     morrer?!&#8217;. Prenderam todos eles. Puseram no cambur&atilde;o. O menino     saiu mancando, com o corpo todo quebrado. Ai que d&oacute;! Fiquei pensando,     vai ver que &eacute; fome, n&atilde;o &eacute;? Era fome! O menino era     magrinho. Parecia o Mois&eacute;s. Quando vi a pol&iacute;cia batendo, fiquei     mordida de raiva. S&oacute; de pensar que podia ser um menino meu. Uma mulher     falou, &#8216;a pol&iacute;cia n&atilde;o devia fazer aquilo com tantas     mulheres olhando&#8217;. As mulheres chorando... Aquele branco troncudo ainda     olhou feio pra n&oacute;s!&#8221; (14/05/85).</font></p> </blockquote>        <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nesse relato mulheres e m&atilde;es ocupam um espa&ccedil;o de media&ccedil;&atilde;o. A pr&oacute;pria elite se recobre da <i>persona</i> de uma esp&eacute;cie de Nossa Senhora da Vila Rezende, num momento em que um grupo de m&atilde;es do Jardim das Flores busca alimentos para os seus filhos. Um duplo dessa senhora aparece numa parada de &ocirc;nibus.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A presen&ccedil;a dos seis meninos produz uma revela&ccedil;&atilde;o: a media&ccedil;&atilde;o dessa &#8220;Nossa Senhora&#8221; &eacute; insuficiente. &#8220;Era fome!&#8221;. A imagem estranhamente familiar de um menino magrinho produz um efeito de interrup&ccedil;&atilde;o: um choque. Os meninos evocavam imagens dos pr&oacute;prios filhos das mulheres do Jardim das Flores. Nesse momento, a Nossa Senhora da Vila Rezende revela um corpo assustador. Dissipando-se a aura, em seu lugar irrompe a imagem de um &#8220;branco troncudo&#8221;. Assim se produz a inerva&ccedil;&atilde;o corporal das m&atilde;es do Jardim das Flores. Sua raiva, dessa vez, dirige-se para o alto &#8212; tal como um tiro de garrucha do Professor Pardal.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O coment&aacute;rio de uma das mulheres &#8212; &#8220;a pol&iacute;cia n&atilde;o devia fazer aquilo com tantas mulheres olhando&#8221; &#8212; &eacute; particularmente ins&oacute;lito. O que dizer do adendo &#8212; &#8220;com tantas mulheres olhando&#8221;? Trairia a perturba&ccedil;&atilde;o de quem v&ecirc; algumas de suas rela&ccedil;&otilde;es inomin&aacute;veis virem &agrave; luz? Revelaria, no lampejo da montagem carregada de tens&otilde;es, uma esp&eacute;cie de cumplicidade subterr&acirc;nea e espantosa entre a pol&iacute;cia e as pr&oacute;prias m&atilde;es?</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Maria e Z&eacute; do Mar (filha e genro de Anaoj e Mister Z&eacute;)</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em fins de novembro, enquanto fazia planos para desencostar seu c&ocirc;modo do barraco de seus pais, Maria falou sobre o sofrimento de mulher:</font></p>       <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Maria: &#8220;Mulher &eacute; o bicho mais sofrido da terra... e     a mais vagabunda.&#8221;     <br> Pag&eacute;: &#8220;A que mais trabalha.&#8221;     <br> Maria: &#8220;A que mais     trabalha, mas a mais vagabunda, porque desfaz o que faz. Lava o copo, o copo     torna a sujar. Lava roupa, a roupa torna a sujar. Lava a casa, a casa torna a     sujar. Eu queria ser homem por modo de poder matar!&#8221; (28/11/83).</font></p> </blockquote>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">No momento em que Maria esbo&ccedil;a uma imagem de &#8220;mulher sofrida&#8221;, ela mesma se sacaneia: &#8220;Mulher &eacute; o bicho mais sofrido da terra... e a mais vagabunda&#8221;. Ironizando ciclos de afazeres que se associam ao g&ecirc;nero feminino, um desejo aflora do fundo do corpo. Ao inv&eacute;s de elaborar seu esbo&ccedil;o inicial, no qual se configuram os tra&ccedil;os de uma &#8220;Nossa Senhora&#8221;, o que emerge &eacute; uma vontade aparentemente estranha, com efeitos de espanto &#8212;   &#8220;Eu queria ser homem por modo de poder matar!&#8221;. Haveria nos disparos do Professor Pardal a express&atilde;o de desejos suprimidos de uma mulher &#8212; a interrup&ccedil;&atilde;o de um ciclo infernal?</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Al&eacute;m do eterno retorno de afazeres cotidianos de Maria, outra esp&eacute;cie de ciclo infernal se evidencia ao longo dos cadernos de campo: os seus enfrentamentos com Z&eacute; do Mar. As rela&ccedil;&otilde;es ganham um cheiro de p&oacute;lvora:   &#8220;A Maria mais eu pusemos uma bombinha na dobra de sua cal&ccedil;a. Mister Z&eacute; falou pra n&atilde;o fazer isso, porque podia quebrar a canela do rapaz. Mas era pra isso mesmo. Era pra ele parar de caminhar&#8221;. (16/06/83). A pr&oacute;pria sexta-feira santa adquire uma forma explosiva: &#8220;Maria e Z&eacute; do Mar discutem. Maria empurra. Z&eacute; do Mar reage: &#8220;U&eacute;? Hoje pode bater?&#8221;. Anaoj responde:   &#8220;De tarde pode&#8221; (05/04/85). Uma l&acirc;mina lampeja: &#8220;Quando estou trabalhando, n&atilde;o vem n&atilde;o. Pe&atilde;o &eacute; solto! Essa faca a&iacute;, Maria!&#8221; (26/07/83). Em uma das brigas, quando Z&eacute; do Mar amea&ccedil;ava bater em Maria, uma imagem familiar retornou: &#8220;Bate na pol&iacute;cia!&#8221; (17/09/84).</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Por&eacute;m, um dos registros leva as marcas de um momento extraordin&aacute;rio. Trata-se de um acontecimento &uacute;nico: Maria &#8220;avan&ccedil;a&#8221; sobre a pol&iacute;cia em defesa de Z&eacute; do Mar. </font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O clima est&aacute; tenso. Em frente ao barraco de Anaoj     vizinhos conversam. A pol&iacute;cia parou Z&eacute; do Mar, que voltava do     &#8220;trampo&#8221;, for&ccedil;ando-o a testemunhar a apreens&atilde;o de     maconha na casa de M&atilde;ozinha. Maria foi correndo em dire&ccedil;&atilde;o     ao local. Orgulhosa da filha, Anaoj dizia: &#8220;A Maria ficou doida de raiva!     Ela avan&ccedil;ou no Luis&atilde;o!&#8221; (investigador da pol&iacute;cia).     Isso, para que Z&eacute; do Mar n&atilde;o fosse levado &agrave; delegacia.    <br> M&atilde;ozinha foi algemado.     &#8220;Coitado, as suas costas arrebentadas...&#8221;. Quando a       sua m&atilde;e se aproximou, o investigador a empurrou: &#8220;Sai, bruxa     velha!&#8221; (06/06/84).</font></p> </blockquote>        <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Foi esse provavelmente o melhor momento de Maria e Z&eacute; do Mar registrado nos cadernos. Dessa vez, os estrondos de Maria se dirigem contra a pol&iacute;cia. &#8220;Doida de raiva&#8221;, ela defende Z&eacute; do Mar. A rea&ccedil;&atilde;o de Maria n&atilde;o deixa de evocar uma hist&oacute;ria carregada de tens&otilde;es. Z&eacute; do Mar vinha do &#8220;trampo&#8221;. Um detalhe: uma m&atilde;e &eacute; chamada de &#8220;bruxa velha&#8221;.</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Anaoj e Mister Z&eacute;</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nos termos de Leach (1983:129), como vimos no in&iacute;cio, o poder que se atribui &agrave;s Nossas Senhoras se associa &agrave; sua a&ccedil;&atilde;o mediadora entre, de um lado, uma popula&ccedil;&atilde;o de filhos e filhas nascidos nos substratos da sociedade e, de outro, remotas e poderosas figuras patriarcais. No espelho da fam&iacute;lia sagrada, no qual fulguram figuras do Divino, da Virgem Maria e seu filho, atenua-se uma imagem de Jos&eacute;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Os filhos de Anaoj tinham um pai: Mister Z&eacute;.   Talvez a sua presen&ccedil;a nos circuitos de fam&iacute;lia e   vizinhan&ccedil;a n&atilde;o fosse t&atilde;o eletrizante quanto a de Anaoj. Mas   para fam&iacute;lias que criam os seus filhos &#8220;com o suor dos bra&ccedil;os&#8221;, Mister Z&eacute; surge como uma figura exemplar.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Diversos trechos dos cadernos ressaltam a sua fama de trabalhador. &#8220;Mister Z&eacute; trabalha; 52 anos, e fazer o que ele faz! Ele leva um saco de cimento direto pro ombro! Muito mo&ccedil;o n&atilde;o faz isso!&#8221; (24/05/83). &#8220;Anaoj conta que, hoje, o Mister Z&eacute; n&atilde;o foi trabalhar. &#8216;Ele est&aacute; doido pra ir trabalhar. Mas por causa de press&atilde;o baixa, ele precisou ir &agrave; Santa Casa&#8217;&#8221; (27/04/83). &#8220;Hoje &eacute; domingo, o &#8216;Dia do Trabalhador&#8217;. Mister Z&eacute; foi colocar manilhas de 40 quilos no barro&#8221; (01/05/83).</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A depender da disposi&ccedil;&atilde;o para &#8220;pegar no trampo&#8221;, podia-se sempre contar com Mister Z&eacute;. O drama do Mister Z&eacute; era que ele n&atilde;o podia contar com o &#8220;trampo&#8221;. Como dizia o compadre Antonio, &#8220;pobre vive como charuto em boca de b&ecirc;bado&#8221;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A despeito da admira&ccedil;&atilde;o que as pessoas sentiam por Mister Z&eacute;, percebem-se, em alguns trechos dos cadernos, os sinais de d&oacute; e at&eacute; mesmo desprezo: &#8220;O meu tio, coitado, aquele &eacute; trabalhador, aquele trabalha! Mas ganha pouco. E agora ele est&aacute; ruim de sa&uacute;de&#8221; (27/04/83). A manifesta&ccedil;&atilde;o mais expl&iacute;cita de desprezo pela figura de Mister Z&eacute; nos cadernos vem de Mestre Bimba, um rapaz que tinha fama de matar &#8220;bobos&#8221;: &#8220;O Mister Z&eacute; &eacute; um coitado!&#8221; (10/06/83). </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Alguns dos &uacute;ltimos fragmentos do per&iacute;odo de 1983-85, referentes a Mister Z&eacute;, retomam, em s&eacute;ries sucessivas de lamenta&ccedil;&otilde;es, uma imagem de &#8220;coitado&#8221;. &#8220;Olha o Z&eacute; chegando. Coitado, como est&aacute; magro, o Z&eacute;! Ele est&aacute; morrendo de trabalhar!&#8221; (08/02/85). &#8220;N&oacute;s n&atilde;o estamos aguentando mais, compadre Antonio. Eu estou pra endoidar. Coitado, o Z&eacute; est&aacute; se acabando, morrendo aos pouquinhos de tanto trabalhar!&#8221; (17/05/85). A imagem de &#8220;coitado&#8221; ecoa num coment&aacute;rio de compadre Ant&ocirc;nio sobre um bandido da vizinhan&ccedil;a chamado Divino: &#8220;&Eacute;, o Divino vai se dar mal. Ontem de noite ele tentou entrar no barraco do Mister Z&eacute;. O Mister Z&eacute;, coitado, est&aacute; morrendo de tanto trabalhar, pra fam&iacute;lia dele n&atilde;o passar fome&#8221; (08/02/85).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">As dores que Anaoj sentia por seus filhos, ela tamb&eacute;m sentia por Mister Z&eacute;. Mas essas cenas n&atilde;o deixam de suscitar imagens carregadas de tens&otilde;es, envolvendo n&atilde;o apenas as rela&ccedil;&otilde;es entre Mister Z&eacute; e o Divino, mas tamb&eacute;m as suas rela&ccedil;&otilde;es com Anaoj. O trabalho que sustentava Anaoj e a sua fam&iacute;lia estava acabando com seu marido e seus filhos.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Os anos de trabalho produzem efeitos sobre o corpo de Mister Z&eacute;: &#8220;Se penicar os bra&ccedil;os e as pernas, ele n&atilde;o sente. O corpo dele fica amortecido&#8221; (05/10/84). Em um dos registros observa-se uma competi&ccedil;&atilde;o ins&oacute;lita. </font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Ramiro, o sobrinho de Anaoj e Mister Z&eacute;, usa uma lima     para tirar os calos das palmas de suas m&atilde;os. Olhando para as suas     pr&oacute;prias m&atilde;os, e comparando-as com as do sobrinho, Mister     Z&eacute; diz: &#8220;Voc&ecirc; pode enfiar um alfinete na minha m&atilde;o     que eu n&atilde;o sinto. Voc&ecirc; consegue fazer isso, Ramiro? Vamos ver quem     consegue enfiar mais fundo?&#8221;. O sobrinho ignora Mister Z&eacute;     (20/11/84).</font></p> </blockquote>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Talvez n&atilde;o haja nos cadernos imagem mais pungente do que esta para evocar o orgulho de Mister Z&eacute; por uma condi&ccedil;&atilde;o adquirida atrav&eacute;s do trabalho: a insensibilidade do seu corpo &agrave; dor. Aqui, a etimologia da palavra torna-se expressiva: <i>tripalium</i>, um instrumento de tortura medieval.   O trabalho produz uma esp&eacute;cie de amortecimento. Anaoj tamb&eacute;m sentia no   Jardim das Flores essa aliena&ccedil;&atilde;o do corpo: &#8220;Morar aqui est&aacute; feito um sonho. Hoje amanheci com tudo doendo. Quando amanheci, n&atilde;o era meu corpo n&atilde;o&#8221; (17/08/83).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Mas certas imagens suscitam um despertar. No dia em que Mister Z&eacute; &#8220;caiu na cana&#8221;, virando &#8220;boia-fria&#8221;, os cadernos registram os primeiros ind&iacute;cios de sua &#8220;valentia&#8221;. Anaoj lembra-se com orgulho da vez em que, no bar do Risadinha, Mister Z&eacute; teria dito: &#8220;Vou matar aqui, agora. Vou bater pra amanhecer deitado!&#8221; (04/07/83). Dois dias depois, uma lembran&ccedil;a da ro&ccedil;a arrepia um corpo amortecido pelo trabalho: &#8220;Mister Z&eacute; se anima, lembrando-se de uma cena: &#8216;Hoje, a poli&ccedil;aiada estava l&aacute; parada olhando todos n&oacute;s &#8212; 50 homens, mulheres e crian&ccedil;as armados de fac&atilde;o! Os homens olhando, re, re&#8217;. Na hora de dormir, deitado na cama, Mister Z&eacute; conta de novo: &#8216;a pol&iacute;cia no Morro Branco olhando a turma toda armada de fac&atilde;o, re, re&#8217;&#8221; (06/07/83). </font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Um registro revela uma lembran&ccedil;a luminosa. Mister Z&eacute; enfrenta um fazendeiro que matara muitos pe&otilde;es: &#8220;Eu trabalho a semana, a vida inteira pra voc&ecirc; ficar bestando feito uma vagabunda!&#8221;. Quando o fazendeiro do Norte de Minas Gerais ofereceu dinheiro, Mister Z&eacute; ainda teria dito: &#8220;Fica de gorjeta pra voc&ecirc;! Isso &eacute; o meu suor pra voc&ecirc; comer no caminho dos infernos!&#8221; (31/04/84).<a name="topo8"></a><sup><a href="#nota8">8</a></sup></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Num momento de perigo, em que Mister Z&eacute; se v&ecirc; amea&ccedil;ado de ficar sem o pagamento da semana, a imagem de homem &#8220;ruim&#8221; relampeia em narrativas de Anaoj: &#8220;Se o Z&eacute; n&atilde;o receber, ele vai fazer alguma coisa pra aquele homem. Z&eacute; &eacute; ruim!&#8221; (01/10/83). Em outra ocasi&atilde;o, depois de receber uma ninharia por 18 dias de trabalho sem contrato numa constru&ccedil;&atilde;o, Mister Z&eacute; esmoreceu. Anaoj enraiveceu. &#8220;Ser&aacute; que ele virou moleque agora?! Isso n&atilde;o &eacute; papel de homem! Falei pra ele: &#8216;Z&eacute;, voc&ecirc; vai l&aacute; e tira sangue se precisar! Voc&ecirc; pode ir at&eacute; preso, mas preso voc&ecirc; n&atilde;o fica n&atilde;o!&#8217;&#8221; (04/02/84).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em um dos registros, a pr&oacute;pria Anaoj cai como um raio em frente a um boteco em defesa da honra de Mister Z&eacute; e da fam&iacute;lia: &#8220;Como &eacute; que voc&ecirc; faz isso?! Deixou a cara do Z&eacute; no ch&atilde;o! O Z&eacute; derrama o suor dele pra n&oacute;s n&atilde;o passarmos fome, e sempre pagamos as nossas d&iacute;vidas! Mas pode deixar que n&oacute;s n&atilde;o vamos mais comprar aqui n&atilde;o!&#8221;. Quando o dono do boteco falou &#8220;mulher doida!&#8221;, Anaoj retrucou: &#8220;Sou doida mesmo! Voc&ecirc; est&aacute; pensando que eu sou gente?! R&aacute;! N&atilde;o &eacute; com o suor do Z&eacute; e de meus filhos que voc&ecirc; vai enricar!&#8221; (12/06/84).</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nessas anota&ccedil;&otilde;es, Anaoj se apresenta em um de seus momentos mais redentores. Talvez seja de fato seu melhor momento nos cadernos enquanto &#8220;m&atilde;e e mulher&#8221;. Justo aqui ela se revela como &#8220;mulher doida&#8221;. &#8220;Voc&ecirc; est&aacute; pensando que eu sou gente?! R&aacute;!&#8221;. O &#8220;r&aacute;!&#8221; de Anaoj escapa como um disparo do fundo do seu corpo. Em um dos seus instantes mais expressivos como m&atilde;e e mulher, Anaoj revela-se como uma &#8220;mulher doida de raiva!&#8221;.</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Drama e montagem</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Retornam as quest&otilde;es: drama e montagem. Ilumina-se um percurso.   De in&iacute;cio, o modelo de drama social de Victor Turner parece ser prop&iacute;cio para uma an&aacute;lise dos registros de cadernos de campo realizados no Jardim das Flores. Em dramas sociais, elementos estruturalmente arredios revitalizam processos estruturantes. Ru&iacute;dos transformam-se em sons musicais tocando e recriando um corpo social. Mas o que dizer dos res&iacute;duos revoltos que permanecem &agrave;s margens at&eacute; mesmo dos fluxos poderosos de dramas sociais? Ou dos ru&iacute;dos de paisagens sonoras &#8212; como um leve suspiro, um grito assombroso, ou um riso infernal &#8212; que, &agrave;s vezes, escapam dos processos de organiza&ccedil;&atilde;o do som? (cf. Dawsey 2009:352). A Virgem se cala, diz Kristeva. Creio que o princ&iacute;pio da montagem de Eisenstein possibilita uma esp&eacute;cie de audi&ccedil;&atilde;o. Os ru&iacute;dos v&ecirc;m das entranhas. E a voz da santa irrompe dos fundos, estrondosa, como um tiro de garrucha.</font></p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em &#8220;O teatro em Aparecida: santa e lobisomem&#8221; (Dawsey 2006:146), escrevi: </font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Eis uma quest&atilde;o: o que a liturgia e o processo ritual     separam em Aparecida, para fins de compor a imagem impass&iacute;vel da santa     no espa&ccedil;o do sagrado, une-se nas imagens carregadas de tens&otilde;es no     Jardim das Flores. Aquilo que estava reunido nos corpos dessas mulheres,     tensionando-os, neles suscitando estados de inerva&ccedil;&atilde;o corporal,     separava-se, em Aparecida, por meio de uma classifica&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria     operada pelo processo ritual, instituindo uma oposi&ccedil;&atilde;o entre     sagrado e profano, catedral e parque de divers&otilde;es, Aparecida e     mulher-lobisomem. </font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Neste ensaio, procurei focar as inerva&ccedil;&otilde;es dos corpos no Jardim das Flores. Na literatura sobre grupos de baixa renda, desde as pesquisas sobre &#8220;cultura da pobreza&#8221;, comportamentos &#8220;positivos&#8221; (reciprocidade, estabilidade etc.) tendem a se associar ao g&ecirc;nero feminino e &agrave; imagem de uma esp&eacute;cie de &#8220;mulher sofrida&#8221; (tal como a <i>persona</i> da Virgem M&atilde;e do imagin&aacute;rio cat&oacute;lico discutido por Kristeva). Os comportamentos &#8220;negativos&#8221; (viol&ecirc;ncia, revolta, transgress&atilde;o etc.) inclinam-se a se ligar ao g&ecirc;nero masculino (cf. Dawsey 1989:280-330). Nos termos do modelo de drama social de Turner, o g&ecirc;nero feminino associa-se &agrave; a&ccedil;&atilde;o reparadora, e o masculino &agrave; ruptura e &agrave; crise. Creio, por&eacute;m, que o princ&iacute;pio de montagem possibilita uma an&aacute;lise mais complexa das rela&ccedil;&otilde;es no Jardim das Flores. Neste local, imagens explosivas e &#8220;negativas&#8221; vinculadas ao g&ecirc;nero feminino, tais como a &#8220;mulher doida de raiva&#8221; ou a &#8220;filha de &iacute;ndia la&ccedil;ada no mato&#8221;, tamb&eacute;m s&atilde;o mobilizadas e valorizadas por atores sociais. A oscila&ccedil;&atilde;o veloz entre imagens de mulheres &#8220;sofridas&#8221; e &#8220;doidas de raiva&#8221;, que se revela em registros de uma etnografia de casos desdobrados, diz algo sobre as tens&otilde;es e os aspectos n&atilde;o resolvidos da vida social. &Agrave;s vezes, &#8220;sofredoras&#8221; se transformam, repentinamente, em &#8220;doidas de raiva&#8221;, e vice-versa. Gestos e imagens se fundem virando montagens. &#8220;S&oacute; tem vida o que &eacute; cheio de contradi&ccedil;&otilde;es&#8221;.<a name="topo9"></a><sup><a href="#nota9">9</a></sup></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Nos registros de cadernos de campo, as tens&otilde;es. Circuitos se iluminam. Anaoj e seus filhos. O primeiro deles, Jeremias. Tr&ecirc;s incidentes sucessivos, envolvendo uma m&atilde;e e um filho errante, violento. Lampeja a imagem poderosa de uma &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221; que sente no corpo as dores provocadas por um filho em revolta. Percebe-se a como&ccedil;&atilde;o da vizinhan&ccedil;a e o modo como as energias de um corpo social se avolumam em torno da figura de uma m&atilde;e. Em seguida, a oscila&ccedil;&atilde;o veloz entre imagens da &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221; e da &#8220;mulher doida&#8221; capaz de matar o pr&oacute;prio filho. As imagens se fundem em um &uacute;nico gesto. Finalmente, a repeti&ccedil;&atilde;o da primeira cena, com a nora, desta vez, como &#8220;m&atilde;e e mulher sofrida&#8221;. O desdobramento &eacute; revelador: o filho (com a m&atilde;o inflamada) vai catar algod&atilde;o, virando &#8220;boia-fria&#8221;. A m&atilde;e e sua nora se recobrem parcialmente da aura de uma <i>Piet&aacute;</i>.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O segundo filho, Daniel, revela-se como uma figura agon&iacute;stica, levando no corpo as dores do mundo do trabalho. No registro de cadernos de campo, o filho gaguejante procura explicar para uma m&atilde;e furiosa as circunst&acirc;ncias de uma briga de bar. Na oscila&ccedil;&atilde;o repentina de imagens, uma m&atilde;e que se lamenta por ter um filho briguento repreende-o por n&atilde;o ter brigado ainda mais. As imagens se fundem.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Primeira digress&atilde;o. A revolta de Anaoj com o seu papel de m&atilde;e e mulher. E a contradi&ccedil;&atilde;o de uma m&atilde;e que, por um breve tempo, vende pinga para vizinhos, buscando sustento naquilo que ao mesmo tempo lhe causa revolta pela forma com que dissipa a for&ccedil;a de seus filhos.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Segunda digress&atilde;o. Paradoxalmente, em uma &uacute;nica imagem, a &#8220;covardia&#8221; de Z&eacute; Galinha de bater em uma &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221; conjuga-se &agrave; &#8220;valentia&#8221; de enfrentar a pol&iacute;cia. A imagem de &#8220;poder do fraco&#8221; (cf. Turner 1969), que se associa &agrave; figura de &#8220;m&atilde;e sofrida&#8221;, revela-se aqui de maneira ins&oacute;lita.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O terceiro filho, Mois&eacute;s. Tr&ecirc;s registros sucessivos: a imagem de uma <i>Piet&aacute;</i> que sente no corpo as dores de um filho; a imagem de uma m&atilde;e transtornada que adquire a <i>persona</i> aterrorizante da pol&iacute;cia; e uma <i>Piet&aacute;</i> com raiva da pol&iacute;cia, com um adendo perturbador: ind&iacute;cios de cumplicidade entre pol&iacute;cia e <i>Piet&aacute;</i>.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O segundo conjunto de anota&ccedil;&otilde;es de cadernos de campo tem a ver com as rela&ccedil;&otilde;es entre Maria e Z&eacute; do Mar, filha e genro de Anaoj e Mister Z&eacute;. No primeiro registro, o lamento de uma &#8220;mulher sofrida&#8221; interrompido por uma frase que irrompe de suas entranhas como o tiro de uma garrucha: &#8220;eu queria ser homem por modo de poder matar!&#8221;. A seguir, uma s&eacute;rie de enfrentamentos explosivos. Amea&ccedil;as e contra-amea&ccedil;as. Uma mulher com faca. E uma jun&ccedil;&atilde;o repentina: imagens de mulher e pol&iacute;cia. No &uacute;ltimo registro, o lampejo da imagem de uma &#8220;mulher doida de raiva&#8221;. Desta vez, contra a pol&iacute;cia e em defesa do companheiro.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">O terceiro conjunto: Anaoj e Mister Z&eacute;. Numa s&eacute;rie de registros, uma imagem tensa: &#8220;trabalhador honrado&#8221;/&#8220;coitado morrendo de trabalhar&#8221;.   A seguir, nova s&eacute;rie: &#8220;coitado&#8221;/homem &#8220;ruim&#8221; e valente &#8220;capaz de matar&#8221;. Acompanhando essas s&eacute;ries, a imagem de <i>Piet&aacute;</i>, ou da &#8220;mulher sofrida&#8221;, alternando com a da mulher em p&eacute; de guerra e que incita o companheiro a &#8220;tirar sangue&#8221;. Por fim, a imagem explosiva da &#8220;mulher doida de raiva&#8221; enfrentando o dono de boteco: &#8220;R&aacute;! N&atilde;o &eacute; com o suor do Z&eacute; e de meus filhos que voc&ecirc; vai enricar!&#8221;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Uma contradi&ccedil;&atilde;o de fundo, que evoca a figura da M&atilde;e Coragem de Brecht, acompanha os registros: o sustento de m&atilde;es e fam&iacute;lias vem de uma guerra sem fim, o mercado de trabalho que suga as for&ccedil;as de filhos e companheiros. &#8220;Mister Z&eacute;, coitado, est&aacute; morrendo de trabalhar&#8221;. A f&oacute;rmula desta ladainha tamb&eacute;m foi usada por Anaoj em registros referentes a dois de seus filhos, Jeremias e Daniel, em momentos recorrentes de desemprego, quando, enfim, com muita resist&ecirc;ncia, e empurrados pela pr&oacute;pria m&atilde;e, ca&iacute;ram nos fund&otilde;es dos mundos do trabalho. Como efeito de estranhamento, o registro apresentado na primeira digress&atilde;o &eacute; revelador: a revolta de Anaoj com o seu papel de m&atilde;e e mulher. Tamb&eacute;m s&atilde;o reveladores, ao longo dos cadernos de campo, os modos como mulheres subvertem seus pap&eacute;is.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">A <i>Piet&aacute;</i> sofre por seus filhos e companheiros. Trata-se de uma figura complexa. A imagem de &#8220;m&atilde;e e mulher sofrida&#8221; &eacute; poderosa. Ela comove um corpo social. E, em determinadas circunst&acirc;ncias, ela mobiliza for&ccedil;as capazes de assimilar ou diluir at&eacute; mesmo a revolta de filhos e companheiros errantes.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Em meio &agrave;s tens&otilde;es, a &#8220;m&atilde;e ou mulher sofrida&#8221; tamb&eacute;m se transforma em &#8220;mulher doida&#8221;. Figura aterrorizante. &Agrave;s vezes, ela amea&ccedil;a fazer ruir as redes da vida que ela mesma teceu. Nesses momentos, qualquer aura de m&atilde;e se dissipa. Irrompe a imagem de mulher abjeta, perigosa e hedionda, capaz de subverter os fundamentos da ordem simb&oacute;lica.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Os ind&iacute;cios de cumplicidade entre a imagem da <i>Piet&aacute;</i> e da pol&iacute;cia, que aparecem em alguns registros, podem ser perturbadores. A pol&iacute;cia (assim como, acredito, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o e as produ&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas) &agrave;s vezes mobiliza essa imagem, com efeitos sobre criaturas em revolta. A digress&atilde;o sobre o caso de Z&eacute; Galinha &eacute; exemplar: &#8220;O policial desafia: &#8216;Por que voc&ecirc; n&atilde;o bate em mim?! Olhe o rosto dessa crian&ccedil;a, e de sua mulher que ainda est&aacute; amamentando!&#8217;&#8221;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Apesar da aura associada &agrave; imagem de uma <i>Piet&aacute;</i> no Jardim das Flores, creio que aquilo sobre o que as mulheres mais gostavam de falar tinha a ver com as suas transforma&ccedil;&otilde;es repentinas em &#8220;mulheres doidas de raiva&#8221;. Tais instantes, particularmente aqueles em que m&atilde;es e mulheres irrompem com raiva contra as for&ccedil;as que colocam em risco a vida de filhos e companheiros, fazem parte de acervos de lembran&ccedil;as preciosas. Em momentos como esses, em que elas amea&ccedil;am tudo destruir, correndo riscos ainda maiores e revelando-se como mulheres perigosas, elas tamb&eacute;m refazem, em meio &agrave;s inerva&ccedil;&otilde;es corporais, os la&ccedil;os amorosos que lhes d&atilde;o os sentidos de viver.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Eis uma diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao modelo de drama social de Victor Turner.   O instante da ruptura coincide com o da cura. Em momentos explosivos detecta-se a libera&ccedil;&atilde;o de energias retidas nos fundos de um corpo social. Lugar hediondo, sujo e liminar. Corpo de m&atilde;e-mulher. Nem eu, nem outro, nem nada. Ningu&eacute;m. Mulher perigosa. Aparecida, apari&ccedil;&atilde;o. Com espanto ela cura. E destr&oacute;i.</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>A missa e o sarav&aacute;</b></font></p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Afinidades entre Anaoj e o inventor de garruchas caseiras do sarav&aacute; merecem aten&ccedil;&atilde;o:</font></p>        <blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Eu passo o dia assim sentado nessa cadeira... os n&uacute;meros     multiplicando, multiplicando na minha cabe&ccedil;a, minha cabe&ccedil;a     fervilhando... A&iacute;, eu levanto, vou l&aacute; fora e     &#8220;p&ecirc;!&#8221; &#8212; dou um tiro. Sento de novo na cadeira... os     n&uacute;meros multiplicando, multiplicando na minha cabe&ccedil;a, minha     cabe&ccedil;a fervilhando... vou l&aacute; fora e &#8220;p&ecirc;!&#8221;     &#8212;       dou um tiro. Sento de novo na cadeira... at&eacute; que, um dia, fico doido,     vou l&aacute; fora e grito. Todo mundo acha que fiquei doido. Mas &eacute;     a&iacute; que eu vou inventar alguma coisa! Por isso me chamam de Professor     Pardal (17/06/83).</font></p> </blockquote>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Anaoj tamb&eacute;m passava horas e horas com a cabe&ccedil;a fervilhando. Tais per&iacute;odos de &#8220;aquecimento&#8221; precediam as suas irrup&ccedil;&otilde;es. Em seu corpo de m&atilde;e e mulher, virando imagem carregada de tens&otilde;es, suscitava-se a inerva&ccedil;&atilde;o de um corpo social.</font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">No espelho m&aacute;gico da missa rezada pelo Padre &Acirc;ngelo, as pessoas do &#8220;buraco dos capetas&#8221; transfiguram-se em personagens de um drama de propor&ccedil;&otilde;es c&oacute;smicas.<sup><a name="topo10"></a><a href="#nota10">10</a></sup> Mas os estrondos que irrompem do barraco do sarav&aacute;, com tiros de garrucha e sons de atabaque, fazem estremecer o espelho, que se parte ao meio. Num espelho partido, com efeitos de montagem, produzem-se imagens de senhoras do Jardim das Flores. Uma Nossa Senhora assim se revela na justaposi&ccedil;&atilde;o da missa &agrave; sauda&ccedil;&atilde;o ruidosa do &#8220;sarav&aacute;!&#8221;. &#8220;Ave Maria!&#8221;. Com estrondos ela salva. Assim como imagens n&atilde;o resolvidas, com efeitos de despertar, emergiam em revoada os tiros do Professor Pardal.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Tamb&eacute;m h&aacute; afinidades entre o barraco do sarav&aacute; e os palcos sobre os quais Brecht ensaiava um teatro &eacute;pico e seus &#8220;efeitos de estranhamento&#8221; (<i>Verfremdungseffekt</i>). Se a missa do Padre &Acirc;ngelo apresentava-se como uma esp&eacute;cie de &#8220;teatro do maravilhoso&#8221;, os disparos do Professor Pardal produziam um abalo. &#8220;Mais do que uma semiologia&#8221;, diz Roland Barthes (1987:194), &#8220;o que dever&iacute;amos reter de Brecht seria uma sismologia&#8221;, um abalo da &#8220;logosfera&#8221;. Talvez seja isso, tamb&eacute;m, o que devemos reter dos tiros de garrucha. Em corpos de m&atilde;es e mulheres do Jardim das Flores, o &#8220;buraco dos capetas&#8221;, ressoam os ru&iacute;dos e os estrondos de linhagens sobrepostas, como placas geol&oacute;gicas que se friccionam em meio aos movimentos s&iacute;smicos. Das camadas mais fundas de um corpo social, nos dom&iacute;nios de <i>Mater Dei</i>, irrompe uma mat&eacute;ria incandescente. Imagens de m&atilde;es primordiais: &#8220;n&ecirc;gas de senzala&#8221; e &#8220;&iacute;ndias la&ccedil;adas no mato&#8221;. <i>&Eacute;trangers &agrave; nous-m&ecirc;mes</i> (Kristeva 1988). Em tais circunst&acirc;ncias a etnografia adquire &#8212; sob o signo de Benjamin, Kristeva e Artaud &#8212; as qualidades de uma esp&eacute;cie de &#8220;hist&oacute;ria noturna&#8221; de Nossa Senhora do Jardim das Flores.<a name="topo11"></a><sup><a href="#nota11">11</a></sup></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Relampeiam imagens de estratos suprimidos, com invers&otilde;es de sinais, energizando um corpo social. No extraordin&aacute;rio cotidiano do Jardim das Flores, com estrondos, imagens de m&atilde;es e mulheres suscitam a inerva&ccedil;&atilde;o de corpos adormecidos e amortecidos. Circuitos se acendem? Em meio a curtos-circuitos, incendeiam. Nesses registros, o que seria um curto-circuito sen&atilde;o uma ilumina&ccedil;&atilde;o profana &#8212; um clar&atilde;o de luz negra que irrompe do fundo do &#8220;buraco dos capetas&#8221;?<sup><a name="topo12"></a><a href="#nota12">12</a></sup></font></p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Anaoj tomava um susto a cada tiro do Professor Pardal. At&eacute; que ponto ela se assustava consigo mesma? Assim se diz em <i>Grande sert&atilde;o: veredas </i>(Rosa 1988:11): &#8220;Deus mesmo, quando vier, que venha armado!&#8221;. No espelho m&aacute;gico e quebrado do Jardim das Flores n&atilde;o me surpreenderia se ele viesse no corpo de uma senhora com rosto de Diadorim.</font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Notas</b></font></p>       <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><a name="nota"></a><a href="#topo">*</a> Agrade&ccedil;o &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq) por apoios recebidos para o desenvolvimento desta pesquisa.    <br> <a name="nota1"></a><a href="#topo1">1</a>. Os nomes pr&oacute;prios que constam do texto podem ser considerados como fic&ccedil;&otilde;es liter&aacute;rias do pesquisador. Esta observa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; v&aacute;lida para o nome &#8220;Jardim das Flores&#8221;. O termo &#8220;buraco dos capetas&#8221;, assim como o nome &#8220;Jo&atilde;o Branco&#8221;, do pesquisador, n&atilde;o deixam de ser fic&ccedil;&otilde;es reais, nascidas da poesia dos moradores.    <br> <a name="nota2"></a><a href="#topo2">2</a>. Morei em um c&ocirc;modo feito por Mister Z&eacute;, ao lado do barraco ocupado por ele e Anaoj, de abril a dezembro de 1983. Registros de cadernos de campo foram feitos de 6 de mar&ccedil;o de 1983 a 28 de maio de 1985. As primeiras conversas com Anaoj, anotadas em cadernos, aconteceram em 1 de junho de 1978, em &eacute;poca anterior ao per&iacute;odo de pesquisa, quando a conheci. Ap&oacute;s um per&iacute;odo de aus&ecirc;ncia do Brasil, de dezembro de 1979 a julho de 1982, retomei os contatos com Anaoj e Mister Z&eacute; com o objetivo de realizar uma pesquisa de tese de doutorado sobre rela&ccedil;&otilde;es de trabalho dos boias-frias. Falei com eles sobre as possibilidades de alugar um barraco no Jardim das Flores. Mas eles sugeriram que eu morasse com eles, em c&ocirc;modo feito por Mister Z&eacute;. Na primeira semana em que eu estava morando no c&ocirc;modo caiado, um menino de 10 anos de idade escreveu em sua fachada: &#8220;esta casa quem mora &eacute; Jo&atilde;o, mas quem fez foi Mister Z&eacute;&#8221;. Ao todo, foram 354 registros em cadernos de campo, com datas diferentes.    <br> <a name="nota3"></a><a href="#topo3">3</a>. A met&aacute;fora do &#8220;espelho m&aacute;gico&#8221; aparece em v&aacute;rios escritos de Victor Turner (Cf. Turner 1987:22). No espelho m&aacute;gico de uma experi&ecirc;ncia liminar, a sociedade pode ver-se a si mesma a partir de m&uacute;ltiplos &acirc;ngulos, experimentando, num estado de subjuntividade, as formas alteradas do ser.    <br> <a name="nota4"></a><a href="#topo4">4</a>. Sugiro a no&ccedil;&atilde;o de &#8220;baixo corpo social&#8221; como forma de evocar a ideia de baixo corporal (Bakhtin 1993) no registro de um corpo social. E sugiro a ideia de inconsciente sonoro como o equivalente auditivo da no&ccedil;&atilde;o benjaminiana de inconsciente &oacute;ptico (Cf. Benjamin 1985b). A express&atilde;o &#8220;hist&oacute;ria noturna&#8221; se inspira no t&iacute;tulo traduzido de um dos livros de Carlo Ginzburg (1991).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <a name="nota5"></a><a href="#topo5">5</a>. Publicado originalmente como &#8220;L&#8217;Herethique de l&#8217;amour&#8221; (Kristeva 1977).    <br> <a name="nota6"></a><a href="#topo6">6</a>. O n&uacute;mero tr&ecirc;s pode estar funcionando aqui como uma f&oacute;rmula da tradi&ccedil;&atilde;o oral, de origem b&iacute;blica, evocativa da morte e da ressurrei&ccedil;&atilde;o de Cristo. Anaoj conta que quando ela recebeu uma carta com pano preto no Paran&aacute;, sinalizando que seu pai havia morrido, ela e Aparecida, sua filha mais velha, ficaram tr&ecirc;s dias de cama. Depois de tr&ecirc;s dias, conforme a tradi&ccedil;&atilde;o, Jesus ressurgiu dos mortos.    <br> <a name="nota7"></a><a href="#topo7">7</a>. A cata do algod&atilde;o era vista como servi&ccedil;o de mulher e crian&ccedil;a. Isto por privilegiar a agilidade das m&atilde;os e a baixa estatura. Em algumas propriedades do interior do Estado de S&atilde;o Paulo, o plantio da cana intercalava-se com o plantio do algod&atilde;o.    <br> <a name="nota8"></a><a href="#topo8">8</a>. A frase talvez esteja evocando, com ironia, uma passagem b&iacute;blica citada em liturgias de santas ceias: &#8220;Isto &eacute; o meu corpo, que &eacute; dado por v&oacute;s; fazei isto em mem&oacute;ria de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou tamb&eacute;m o c&aacute;lice...&#8221; (1 Co 11.23-25).    <br> <a name="nota9"></a><a href="#topo9">9</a>. A frase vem de Brecht (apud Bornheim 1992:272).    <br> <a name="nota10"></a><a href="#topo10">10</a>. Cf. nota 4.    <br> <a name="nota11"></a><a href="#topo11">11</a>. Cf. nota 5. A express&atilde;o &#8220;hist&oacute;ria noturna&#8221; se inspira em t&iacute;tulo traduzido de um dos livros de Carlo Ginzburg (1991).    <br> <a name="nota12"></a><a href="#topo12">12</a>. A ideia de &#8220;ilumina&ccedil;&atilde;o profana&#8221; sugere um duplo estranhamento, em rela&ccedil;&atilde;o ao cotidiano e ao extraordin&aacute;rio tamb&eacute;m (Cf. Benjamin 1985a:35).</font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">ARTAUD,   Antonin. 1987. <i>O teatro e o seu duplo</i>. S&atilde;o Paulo: Max Limonad.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000223&pid=S0104-9313201200010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">BAKHTIN, Mikhail. 1993. <i>A cultura popular na Idade M&eacute;dia e no Renascimento</i>. S&atilde;o Paulo: Hucitec/ Bras&iacute;lia: Ed. da UnB.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000225&pid=S0104-9313201200010000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">BARTHES, Roland. 1987. &#8220;Brecht e o discurso: contribui&ccedil;&atilde;o para o estudo da discursividade&#8221;. In: <i>O rumor da l&iacute;ngua</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. pp. 193-200.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000227&pid=S0104-9313201200010000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">BENJAMIN, Walter. 1985a. &#8220;O surrealismo&#8221;. In: <i>Obras escolhidas: magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. pp. 21-35.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000229&pid=S0104-9313201200010000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup>1985b. &#8220;A obra de arte na era da reprodutibilidade t&eacute;cnica&#8221;. In: <i>Obras escolhidas: magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. pp. 165-196.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000231&pid=S0104-9313201200010000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">BORNHEIM, Gerd. 1992. <i>Brecht: a est&eacute;tica do teatro. </i>S&atilde;o Paulo: Graal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000233&pid=S0104-9313201200010000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">BRECHT, Bertolt. 1991. &#8220;M&atilde;e coragem e seus filhos&#8221;. In: <i>Teatro completo 6.</i> Rio de Janeiro: Paz e Terra. pp. 171-266.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000235&pid=S0104-9313201200010000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">DAWSEY, John C. 1989. <i>Vila Vit&oacute;ria: the emergence of proletarian culture</i>. Ann Arbor, Michigan: UMI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000237&pid=S0104-9313201200010000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup>1999. De que riem os &#8220;boias-frias&#8221;? Walter Benjamin e o teatro &eacute;pico de Brecht em carrocerias de caminh&otilde;es. Tese de Livre-Doc&ecirc;ncia em Antropologia Social, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000239&pid=S0104-9313201200010000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup>2005. &#8220;O teatro dos &#8216;boias-frias&#8217;: repensando a antropologia da performance&#8221;. <i>Horizontes Antropol&oacute;gicos</i>, 24:15-34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000241&pid=S0104-9313201200010000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup>2006. &#8220;O teatro em Aparecida: a santa e o lobisomem&#8221;. <i>Mana</i>. <i>Estudos de Antropologia Social</i>, 12(1):135-150.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000243&pid=S0104-9313201200010000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup>2009. &#8220;Por uma antropologia benjaminiana: repensando paradigmas do teatro dram&aacute;tico&#8221;. <i>Mana. Estudos de Antropologia Social, </i>15(2):349-376.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000245&pid=S0104-9313201200010000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">DOUGLAS, Mary. 1976. <i>Pureza e perigo</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000247&pid=S0104-9313201200010000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">EISENSTEIN, Sergei. 1990a. <i>A forma do filme.</i> Rio de Janeiro: Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000249&pid=S0104-9313201200010000400014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___. </sup>1990b. <i>O sentido do filme</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000251&pid=S0104-9313201200010000400015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">GEERTZ, Clifford. 1983. &#8220;Blurred genres: the refiguration of social thought&#8221;. In: <i>Local knowledge</i>. New York: Basic Books. pp. 19-35.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000253&pid=S0104-9313201200010000400016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">GINZBURG, Carlo. 1991. <i>Hist&oacute;ria noturna: decifrando o Sab&aacute;</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000255&pid=S0104-9313201200010000400017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">KRISTEVA, Julia. 1977. &#8220;Herethique de l&#8217;amour&#8221;. <em>Tel Quel</em>, 74:30-49.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000257&pid=S0104-9313201200010000400018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___. </sup>1980. <i>Pouvoirs de l&#8217;horreur</i>. Paris: Editions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000259&pid=S0104-9313201200010000400019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___. </sup>1988. <i>&Eacute;trangers &agrave; nous-m&ecirc;mes</i>. Paris: Fayard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000261&pid=S0104-9313201200010000400020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 2002a. &#8220;Stabat mater&#8221;. In: <i>The portable Kristeva</i>. Ed. Kelly Oliver. New York: Columbia University Press. pp. 310-332.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000263&pid=S0104-9313201200010000400021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 2002b. <i>The portable Kristeva</i>. Ed. Kelly Oliver. New York: Columbia University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000265&pid=S0104-9313201200010000400022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">LEACH, Edmund. 1983. &#8220;Nascimento virgem&#8221;. In: <i>Edmund Leach</i>. S&atilde;o Paulo: &Aacute;tica. pp. 116-138.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000267&pid=S0104-9313201200010000400023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">MARCUS, George E. 1994. &#8220;The modernist sensibility in recent ethnographic writing and the cinematic metaphor of montage&#8221;. In: L. Taylor (org.), <i>Visualizing theory</i>. New York and London: Routledge. pp. 37-53.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000269&pid=S0104-9313201200010000400024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">ROSA, Jo&atilde;o Guimar&atilde;es. 1988. <i>Grande Sert&atilde;o: Veredas</i>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000271&pid=S0104-9313201200010000400025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">TAUSSIG, Michael. 1986. <i>Shamanism, colonialism, and the wild man: a study in terror and healing</i>. Chicago/London: The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000273&pid=S0104-9313201200010000400026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">TURNER, Victor. 1969. &#8220;Liminality and communitas&#8221;. In: <i>The ritual process: structure and anti-structure</i>. Ithaca, New York: Cornell University Press. pp. 94-130.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000275&pid=S0104-9313201200010000400027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 1974. &#8220;Hidalgo: history as social drama&#8221;. In: <i>Dramas, fields and metaphors: symbolic action in human society</i>. Ithaca and London: Cornell University Press. pp. 98-155.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000277&pid=S0104-9313201200010000400028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 1982. &#8220;Introduction&#8221;. In: <i>From ritual to theatre: the human seriousness of play</i>. New York: PAJ Publications. pp. 7-19.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000279&pid=S0104-9313201200010000400029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 1987. &#8220;Images and reflections: ritual, drama, carnival, film and spectacle in cultural performance&#8221;. In: <i>The anthropology of performance</i>. New York: PAJ Publications. pp. 21-32.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000281&pid=S0104-9313201200010000400030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2"><sup>___.</sup> 1996. <i>Schism and continuity in an african society</i>. Washington, D.C.: Berg.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000283&pid=S0104-9313201200010000400031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Geneva, sans-serif" size="2">Recebido em 02 de junho de 2011    <br> Aprovado em 28 de mar&ccedil;o de 2012</font></p>         ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARTAUD]]></surname>
<given-names><![CDATA[Antonin]]></given-names>
</name>
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