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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Notas sobre a experiência de vida num internato: aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento dos internos]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This work investigates the positive and negative aspects of the experience of living in a boarding school to the psychological development of students, the influences of the collective experience on the school performance and the conception of an ideal boarding school. Five semi-structured interviews were conducted with 15-22 year-old students. Data was analyzed through content analysis. Both positive and negative aspects of the boarding school experience were pointed out from the group-gathering category (possibility of making new friends versus fights and arguments). The limitations of the boarding school concerning facilities and physical structure, as well as the stressful routine, were the main implications of the collective experience on the school performance. The interns' concept of an ideal boarding school depended on facilities and structure improvements, and on the quality of the relationships. The results are important to educative context comprehension's that received little attention in the literatura.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align=right><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="4"><a name=topo></a><b>Notas sobre a experiência    de vida num internato: aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento    dos internos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>Investigating the experience of living in    a boarding school: positives and negatives aspects for the students development</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Normanda Araujo de Morais<sup>I</sup>; Hilmeri    da Silva Leitão<sup>II</sup>; Sílvia Helena Koller<sup>III</sup>; Herculano    Ricardo Campos<sup>IV</sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><sup>I</sup>Psicóloga graduada pela UFRN e mestranda    em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS. Apoio CNPq. Integrante do CEP-Rua    (Centro de Estudos Psicológicos sobre meninos e meninas de rua)    <br>   <sup>II</sup>Psicóloga graduada pela UFRN    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup>III</sup>Docente do Curso de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento    &#151; UFRGS, psicóloga, doutora em Educação pela PUCRS. Coordenadora do CEP-Rua    (Centro de Estudos Psicológicos sobre meninos e meninas de rua)    <br>   <sup>IV</sup>Docente do Curso de Pós-Graduação em Psicologia &#151; UFRN, psicólogo,    doutor em Educação pela UFRN</font></p>     <p><a href="#correspond"><font face="Verdana" size="2">Endereço para correspondência</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Este trabalho investiga os aspectos positivos    e negativos da experiência de internato para o desenvolvimento de alunos de    uma instituição de ensino técnico, a influência da vivência coletiva sobre o    desempenho escolar e a concepção sobre um internato ideal. Foram realizadas    cinco entrevistas com alunos das três séries do Ensino Médio, com idades entre    15 e 22 anos. Os dados foram analisados a partir da análise de conteúdo. Os    aspectos positivos e os negativos da experiência de internato foram apontados    a partir da categoria "convivência grupal" (possibilidade de fazer novos amigos    <i>x </i>brigas e desentendimentos). As limitações estruturais do internato    e a rotina estressante foram as principais implicações percebidas para o desempenho    escolar, enquanto o internato ideal foi concebido a partir de mudanças estruturais    e da qualidade das relações interpessoais. Os resultados são importantes para    a compreensão de contextos educativos desse tipo, os quais são muito pouco referidos    na literatura.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave: </b>internato, juventude,    desenvolvimento.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">This work investigates the positive and negative    aspects of the experience of living in a boarding school to the psychological    development of students, the influences of the collective experience on the    school performance and the conception of an ideal boarding school. Five semi-structured    interviews were conducted with 15-22 year-old students. Data was analyzed through    content analysis. Both positive and negative aspects of the boarding school    experience were pointed out from the group-gathering category (possibility of    making new friends versus fights and arguments). The limitations of the boarding    school concerning facilities and physical structure, as well as the stressful    routine, were the main implications of the collective experience on the school    performance. The interns' concept of an ideal boarding school depended on facilities    and structure improvements, and on the quality of the relationships. The results    are important to educative context comprehension's that received little attention    in the literatura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><b>Key words: </b>boarding school; youth; development.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Essa pesquisa foi desenvolvida em uma escola    técnica federal localizada no município de Macaíba, RN. A escola apresenta como    particularidade um sistema de internato, destinado a estudantes de nível socioeconômico    médio e baixo e oriundos de diferentes municípios do Estado,  que desejam cursar    o Ensino Técnico em Agropecuária e o Ensino Médio. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O objetivo do presente artigo é investigar os    aspectos positivos e negativos da experiência de internato para o desenvolvimento    de alunos de uma instituição pública federal de ensino técnico, bem como a influência    da vivência coletiva sobre o desempenho escolar e a concepção sobre um internato    ideal. Busca-se, assim, a partir do levantamento de alguns elementos essenciais    relativos à experiência de vida de "internado", contribuir para a compreensão    de contextos educativos desse tipo, os quais são muito pouco referidos na literatura.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>SOBRE O "MUNDO DO INTERNATO"</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A compreensão da definição feita por Goffman    (1974) sobre o termo "instituição total" é fundamental para o entendimento do    sistema de internato. Segundo o autor, trata-se de: "um local de residência    e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados    da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada    e formalmente administrada" (p. 11). Esses espaços, dos quais outros exemplos    são os hospitais psiquiátricos, as cadeias, as penitenciárias, os quartéis e    os conventos, são caracterizados, sobretudo, pelo controle das necessidades    humanas, estando os menores segmentos da vida dos internados sujeitos a regulamentos    e julgamentos por parte da equipe dirigente.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O controle exercido sobre a vida dos internados    pode ser identificado através da seqüência rígida de papéis e horários, proibição    de visitas fora de horários previstos e distribuição dos indivíduos nos espaços    coletivos. A perda do próprio nome e da aparência usual, através do uso de uniformes,    assim como a perda de sentido de segurança pessoal, sugere a violação da reserva    de informação quanto ao "eu", ilustrada especialmente pela existência de dormitórios    coletivos e banheiros sem porta. Através deste processo, a instituição parece    impor ao interno uma disciplina de atividade e uma disciplina de ser que gera    mudanças radicais na sua forma de o internado perceber a si e aos outros. Goffman    (1974) chama este processo de <i>mortificação do eu</i>, ao passo que Foucault    (1975) denomina <i>disciplinarização</i>.  Segundo este último autor, nesses    locais o controle disciplinar da atividade humana é fator bastante evidente.    Dessa forma, a disciplina é imposta com o objetivo de fazer crescer a docilidade    e a "utilidade" dos indivíduos, ou seja, a maior obediência destes às regras    e normas de funcionamento da instituição. Além disso, segundo Cookson e Persell    (2002), o controle das mínimas parcelas da vida do indivíduo tem como objetivo,    no quadro de uma escola, transmitir um conteúdo leigo e, ao mesmo tempo, político,    para controle e "utilização" dos indivíduos (p. 111).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O internado, por sua vez, desenvolve respostas    específicas ao controle exercido sobre ele, seja contribuindo para a estabilidade    institucional (nesse caso, ele dá e recebe o que foi sistematicamente planejado),    seja escapando daquilo que a organização supõe que ele deve fazer, obter e ser.    Nesse último caso, o controle da equipe dirigente feito pelos internados pode    se dar através da rejeição da alimentação, da lentidão intencional da produção,    da sabotagem de sistemas de luz, água e comunicação, da gozação e desobediência,    por exemplo. Nas palavras de Goffman (1974), estes comportamentos assim se expressam:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Onde se espera entusiasmo, haverá apatia; onde      se espera afeição, há indiferença; onde se espera freqüência, há faltas; onde      se espera robustez, há algum tipo de doença; onde as tarefas devem ser realizadas,      há diferentes formas de inatividade. Encontramos inúmeras histórias comuns,      cada uma das quais é, ao seu modo, um movimento de liberdade. Sempre que se      impõem mundos, se criam submundos (p. 246).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">A restrição da liberdade e a limitação do espaço    pessoal e da posse de objetos fazem aflorar comportamentos que têm como objetivo    confirmar a própria existência do internado. Trata-se, enfim, de modos de comunicação    e expressão dos internados, os quais são também formas de auto-afirmação, que    refletem a sua busca por uma identidade e servem para devolver a imagem de suas    próprias habilidades, capacidade de desafio e do seu próprio poder (Pol, 1996).    Nas palavras de Goffman (1974), os comportamentos rechaçados pelas instituições    totais são todos expressões de "alguém que tenta separar-se do local em que    foi colocado" (p. 248) e de um "santuário pessoal que tenta defender-se" (p.    258).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Outra perspectiva válida de análise sobre o internato    é dada pela Psicologia Ambiental, que tem desenvolvido várias pesquisas em ambientes    desse tipo. Em linhas gerais, a Psicologia Ambiental dedica-se ao estudo da    inter-relação pessoa-ambiente e compreende as relações humanas como sendo afetadas    pelo espaço físico onde se desenvolvem (Torvisco, 1998).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A fim de entender como essas interações ocorrem    é necessário estar atento ao tamanho das habitações, à forma como ela está organizada    (com grandes ou pequenos quartos, banheiros coletivos ou de uso individual)    e, principalmente, à densidade de ocupação (número de pessoas/espaço disponível).    A alta densidade constitui a principal característica dos internatos. Esse tipo    de ambiente é freqüentemente associado com encontros não desejados e não previstos,    ou seja, com a perda do sentimento de privacidade, que diz respeito à capacidade    do indivíduo de controlar o seu contato social com o grupo e outros residentes    (Holahan &amp; Wandersman, 1987; Valera &amp; Vidal, 1998).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A dificuldade em regular a natureza e a freqüência    das interações sociais, ou seja, em "regular quando, onde e com quem eles poderiam    interagir" (Hombrados, 1998, p. 549) levaria ao que esse autor chama <i>hacinamiento</i>    e ao que Baum e Paulos (1987) denominam <i>crownding</i>. Em português, estes    termos equivalem a "aglomeração". Em resumo, o <i>hacinamiento </i>ou <i>crownding</i>    refere-se a um estado subjetivo, a uma experiência psicológica originada da    demanda de espaço por parte do indivíduo que excede o disponível e gera, como    já relatado, a perda de privacidade e de espaço pessoal.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Conforme afirmam Hombrados (1998) e Baum e Paulos    (1987), os efeitos sociais e psicológicos do <i>hacinamiento</i> sobre os residentes    são comprovadamente negativos. Tais efeitos são expressos pelo prejuízo na produção    de tarefas e no rendimento, pelo aumento de reações de agressividade, hostilidade    e mal-estar e pela diminuição nas condutas de afeto entre os sujeitos. Outras    possíveis conseqüências são o incremento da possibilidade de transmissão de    enfermidades (sobretudo as produzidas por contágio) e da vulnerabilidade ao    estresse. Além disso, Hombrados (1998) afirma que os indivíduos que tendem a    vivenciar esses sentimentos e o estresse decorrente deles nas residências estudantis    "rendem menos e cometem mais falhas na solução de problemas no contexto da aula,    manifestam mais problemas de saúde e desenvolvem condutas de isolamento." (p.169)</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A experiência de <i>hacinamiento</i> ou<i> crownding</i>    pelo indivíduo deve ser avaliada pela análise do contexto - nível de densidade,    ruído e organização social -e também pelo estudo das suas características pessoais    e culturais - estratégias de enfrentamento de uma situação, necessidade de privacidade,    qualidade da interação, posição do indivíduo no grupo e o grau de adaptabilidade    ao mesmo.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A fim de prevenir a aparição do <i>hacinamiento</i>    em internados, Holahan e Wandersman (1987) sugerem que o ambiente seja organizado    de forma a fornecer espaços de maior privacidade, que seja facilitada a formação    de pequenos grupos e incentivada a habilidade dos indivíduos em controlar as    interações sociais não desejadas. O menor tamanho do grupo permite o melhor    desenvolvimento de mecanismos para regular as interações sociais, como a formação    de normas, por exemplo, e a familiarização com outros membros do grupo (Baum    &amp; Paulos, 1987).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A literatura acima destacada tende, destarte,    a fazer uma caracterização do regime de internato a partir das limitações pessoais    colocadas aos internos (controle das mínimas parcelas de vida, diminuição da    privacidade, etc.). Ao mesmo tempo, também não se encontram na literatura referências    a esse espaço como um "contexto educativo" e à sua influência sobre o desenvolvimento    (cognitivo, social e emocional) dos internados. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">É visando, assim, a preencher essa lacuna que    o presente artigo busca caracterizar e destacar algumas implicações desenvolvimentais    da experiência de vida num internato para alunos do ensino médio de uma instituição    pública federal de ensino técnico. Para isso,  investigará quais os aspectos    positivos e negativos destacados pelos internos sobre a experiência de internato,    qual a influência desta sobre o desempenho escolar e qual a concepção sobre    um internato ideal.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>CARACTERIZAÇÃO DO INTERNATO</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O internato é oferecido a dois tipos de clientela:    1) alunos que conciliam o curso de agropecuária e o Ensino Médio (em dois turnos),    advindos de diferentes municípios do interior do Estado; e, 2) alunos membros    da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Rio Grande do Norte (FETARN),    que cursam (nos dois turnos) somente o técnico em agropecuária. Destaca-se entre    esses dois grupos uma diferença significativa de faixa etária quando do seu    ingresso na escola e no internato, sendo os alunos do primeiro grupo concluintes    do Ensino Fundamental (14-15 anos) e os do segundo grupo, trabalhadores rurais,    com Ensino Médio já concluído (20 anos ou acima), que voltaram para a sala de    aula em busca de qualificação profissional.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No total, são dois alojamentos masculinos e um    feminino. O alojamento I masculino conta com seis quartos, sendo quatro deles    com doze pessoas e dois menores com seis; o alojamento II conta com cinco quartos,    sendo um deles com quatro pessoas e os demais com doze. Somente o alojamento    I conta com uma sala de estudo. Entre os dois blocos existe uma sala de televisão    de uso comum e, em ambos, os banheiros são coletivos. Já no alojamento feminino    são quatro quartos, cada um com nove meninas. O banheiro também é coletivo,    não existe sala de estudo, somente uma pequena sala de estar, além de uma cozinha    e um quintal.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O alojamento feminino mostra-se mais limpo e    acolhedor, sendo a organização do seu espaço semelhante à de uma casa. Ao contrário,    os alojamentos masculinos lembram mais a estrutura de um presídio, dada a altura    do prédio, a largura das portas e a escuridão.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Os alunos internos têm horários rígidos para    levantar pela manhã, recolher-se à noite e fazer as refeições. Além de freqüentar    as aulas nos dois turnos e os estágios no campo, eles também são os principais    responsáveis pela limpeza dos alojamentos. As questões disciplinares e do dia-a-dia    do internato (distribuição do material de limpeza, resolução de conflitos, etc.),    estão sob a responsabilidade dos inspetores e de um coordenador geral. Os inspetores    são funcionários da escola e possuem o Ensino Médio. Já o coordenador geral    tem o nível superior e faz parte do corpo de professores da escola. O internato    é mantido pelos recursos federais destinados à instituição, não sendo, por isso,    cobrada nenhuma taxa aos alunos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>M&Eacute;TODO</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Participantes</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Dos cinco residentes entrevistados, três eram    adolescentes do sexo masculino e dois do sexo feminino; tinham entre 15-22 anos    (m= 17,4 anos; DP = 2,7) e eram todos provenientes do interior do Estado. O    objetivo era entrevistar dois alunos (um de cada sexo) de cada série do Ensino    Médio (E.M), porém, em virtude da falta de disponibilidade da aluna do segundo    ano, sua entrevista não pôde ser concluída. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Instrumentos e procedimentos</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A fim de aproximar-se da realidade do internato    e alcançar os objetivos propostos foram realizadas cinco entrevistas semi-estruturadas.    Os entrevistados foram escolhidos por conveniência e a partir da sua disponibilidade    inicial. Informações complementares referentes às temáticas da pesquisa foram    conseguidas através de atividades em momentos diferentes, ao longo de um ano    de inserção das pesquisadoras no ambiente de pesquisa (observações, oficinas    com os internos, dinâmicas de grupo em sala de aula, conversas informais, participação    nas reuniões de professores, etc.). A esse processo de estudo do desenvolvimento-no-contexto,    desenvolvido por Cecconello e Koller (2003), dá-se o nome de <i>inserção ecológica</i>.    Este método, baseado na Abordagem Ecológica do Desenvolvimento Humano de Urie    Bronfenbrenner (1979/1996), privilegia a inserção do pesquisador no ambiente    de pesquisa com o objetivo de estabelecer proximidade com o seu objeto de estudo    e, assim, responder às questões de pesquisa. Dessa forma, o conteúdo das entrevistas    pode ser compreendido à luz da devida contextualização que a presença e a participação    das pesquisadoras no ambiente de pesquisa possibilitam.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O roteiro de entrevista semi-estruturada contava    com questões sobre a caracterização sociodemográfica dos participantes, a sua    avaliação de "como é viver no internato", "quais os aspectos que mais gostam    e os que menos gostam dessa experiência", assim como qual a sua "percepção sobre    a influência da vivência coletiva sobre o seu desempenho escolar" e a "concepção    sobre um internato ideal".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Antes da realização das entrevistas, os participantes    receberam as explicações sobre o propósito da pesquisa e a garantia acerca do    sigilo de sua identidade. Somente após mostrarem-se de acordo e terem suas dúvidas    esclarecidas é que foram entrevistados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>RESULTADOS E DISCUSSÃO</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Os resultados serão apresentados e discutidos    a partir de três unidades temáticas principais que emergiram da análise de conteúdo    (Bardin 1977/1979): avaliação sobre como é viver no internato (aspectos positivos    e negativos da experiência), percepção da vivência em ambiente coletivo sobre    o desempenho escolar e concepção sobre um internato ideal.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Avaliação sobre como é viver no internato</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Todos os alunos entrevistados destacaram o valor    positivo dessa experiência, em virtude, sobretudo, da possibilidade de conviver    com pessoas diferentes. Informaram, ainda, o seu desejo de ingressar na escola    e que o internato foi um elemento motivador para isto. Tal motivação baseou-se    em questões práticas, ou seja, ter onde morar e poder conciliar dois cursos.    A possibilidade vislumbrada de relativa independência familiar e amadurecimento    pessoal também foi destacada como justificativa para a avaliação final positiva    feita pelos internos sobre "como é viver no internato."</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Bem, pra mim é uma experiência e tanto. Se      todos os jovens tivessem uma experiência como essa que a gente tem aqui no      internato, seria bom demais (...) quando você chega aqui no internato, você      vai viver num mundo diferente, mil e uma cabeças diferentes, costumes diferentes,      palavras diferentes que você nunca tinha ouvido falar (...) (Carlos, 17 anos,      1º E.M)</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">É a questão de ter gente de todos os gênios      (...) Quando você ta (...) você mora em casa, você acha que a única pessoa      que existe é você (...) que só existe pessoas de seu tipo. Mas quando você      sai de...perde a mordomia, aí você vê que tem pessoas, gente diferente (...)      (João, 16 anos, 2º E.M)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">De forma geral, todos os entrevistados avaliaram    a experiência de viver no internato como um importante momento de suas vidas,    que lhes ficará marcado na memória. Para isso, destacaram o amadurecimento pessoal    alcançado em virtude das amizades conquistadas e das dificuldades enfrentadas,    assim como pelas possibilidades de reflexão e mudança em suas ações. Esses ganhos    contribuíram, inclusive, para a ressignificação de si mesmos e da experiência    de internato e para tornar secundárias as dificuldades enfrentadas e experiências    negativas. </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">É bom estar aqui. Minha vida mudou muito (André,      22 anos, 3º E.M).</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">(...) Nenhum canto eu acho que você vai encontrar      esse local aqui, uma família... Somos todos quase que nem irmãos, uma casa      que você chega que tem irmãos diferentes, a casa de amigos que vou guardar      pra sempre junto da gente, nunca vou me esquecer, o melhor momento da nossa      vida é aqui (Carlos, 17 anos, 1º E.M).</font></p> </blockquote>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">É uma experiência muito boa, como é que eu      posso dizer, é um pequeno mundo num grande mundo. (...) Em nenhum momento      eu me arrependo de ter vindo pra cá. (...) São coisas que a gente tem que      viver, né? (Bruna, 17 anos, 3º E.M).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Aspectos positivos da experiência de internato</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quando perguntados sobre o que "mais gostam"    da experiência de internato, os participantes destacaram a possibilidade de    fazer novos amigos e a oportunidade de conviver diariamente com eles.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">O que eu mais gosto (...) você pode tá 24h      com amigos(...) (João, 16 anos,  2º  E.M).</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">O que eu mais gosto no internato são as pessoas      sinceras. São as pessoas que dizem ser realmente seus amigos, seus companheiros      do dia-a-dia, seus colegas de classe, são as pessoas pra conversar, são as      pessoas pra dividir os problemas e achar as soluções (...) Eu tenho grandes      amigos lá dentro, grandes irmãos, grandes irmãos meus(...) (André, 22 anos,      3º E.M).</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Realmente, eu gosto muito assim de conversar,      sabe, de estar entre amigos, conversando, debatendo(...) (Bruna, 17 anos,      3º E.M).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">A existência de vínculos afetivos significativos    entre os alunos, sejam eles das relações estabelecidas de amizade ou de namoro,    são importantes tanto pelo seu papel socializador e de formação de identidade    como também por permitirem que os adolescentes partilhem o conhecimento, já    que eles podem constantemente estudar juntos. A importância dada à existência    desses vínculos corrobora a noção de que, na adolescência, os relacionamentos    com outros indivíduos e com grupos diversos, diferentes da família, são enfatizados    (Newcombe, 1996/1999). A escola, em especial, o internato, é um espaço profícuo    e fundamental ao estabelecimento dessas relações, que podem marcar de forma    decisiva a vida desses adolescentes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Steinberg (1985/1996) afirma que a valorização    das amizades e do relacionamento com pares na adolescência está relacionada    ao desenvolvimento da intimidade. Esta consiste no estabelecimento de relacionamentos    mais próximos, pessoais, de maior envolvimento emocional e auto-revelação. Apesar    de as relações próximas serem extremamente importantes para pessoas de todas    as idades, é na adolescência que emergem as primeiras relações verdadeiramente    íntimas. Dessa forma, se as relações de amizade até então costumavam ser orientadas    pelas atividades (brincar, estudar, etc.), na adolescência tornam-se mais autoconscientes    e mais analíticas, sendo construídas a partir do estabelecimento de vínculos    afetivos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Outra importante característica psicossocial    da adolescência destacada por Steinberg (1985/1996) é a da autonomia. Assim    como a intimidade, a autonomia também é especialmente saliente durante a adolescência,    devido às mudanças físicas, cognitivas e sociais do período. Em linhas gerais,    a autonomia diz respeito à capacidade da pessoa de autogovernar-se, o que envolve    tanto o componente comportamental quanto o emocional e o cognitivo. Dessa forma,    são destacados três tipos de autonomia: 1) autonomia emocional, referente à    independência emocional, sobretudo com relação aos pais; 2) autonomia comportamental,    relacionada à capacidade de tomar decisões independentes e orientar o seu comportamento    por elas; e, 3) autonomia de valor, que  diz respeito ao desenvolvimento independente    de crenças e valores sobre o que é certo e errado, importante ou não.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Por fim, vale destacar a ressalva de que o desenvolvimento    da autonomia (individuação) não necessariamente envolve conflito, ruptura e    rebelião contra as pessoas (pais e educadores, por exemplo) e valores vigentes.    Trata-se, muito mais, de um processo que tende a ser mais pacífico e menos tumultuado    quanto maior for o grau de proximidade das pessoas em relação (pais e filhos,    adolescentes e educadores, por exemplo). Dessa forma, práticas educacionais    "autorizadas", as quais são caracterizadas pela amizade, justiça e firmeza,    tendem a encorajar independência, responsabilidade e auto-estima das pessoas    envolvidas. Essa visão rompe, portanto, com a noção de que a adolescência seria    <i>a priori</i> uma fase de "tempestade e tormenta". Ao fazer isso, destaca    a influência sobre o desenvolvimento humano dos vários tipos de contexto e da    qualidade das interações estabelecidas entre as pessoas nele presentes. Daí    afirmar-se que o desenvolvimento psicológico positivo refere-se à capacidade    do adolescente de funcionar tanto independentemente quanto interdependentemente,    através do estabelecimento de relações satisfatórias e saudáveis com outros.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Aspectos negativos da experiência de internato</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Ao mesmo tempo que  a possibilidade de conviver    com amigos o maior período de tempo possível é visto pelos participantes como    um aspecto positivo, verifica-se que os aspectos negativos apontados por eles    também estão estreitamente relacionados com as particularidades da convivência    em grupo. Dessa forma, brigas, desentendimentos, rivalidades, intrigas, jogos    de interesse e incompreensão foram identificados como os aspectos negativos,    bastante presentes em seu cotidiano, os quais eles gostariam que não existissem.    Outros aspectos destacados como negativos, em menor freqüência, foram: a deficiência    na higienização, sobretudo no alojamento masculino, as instalações precárias    dos alojamentos, a má qualidade da alimentação e a falta de um acompanhamento    mais próximo junto aos alunos por parte da equipe responsável pelo internato.    Os trechos abaixo ilustram os aspectos vistos como negativos.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">(...) É triste dizer, mas tem uma falsidade      muito grande e um jogo de interesse, né? Você percebe assim que, às vezes,      as pessoas são seus amigos porque querem alguma coisa de você, tá entendendo?      (Bruna, 17 anos, 3º E.M).</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Tem umas que bagunçam, outras que são mais      organizadas, outras que (...) tem muito desentendimento com outras (Alice,      15 anos, 1º E.M).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">A origem dos conflitos geralmente está relacionada    com o choque de interesses entre os internos, o que pode ser exemplificado da    seguinte forma:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Muitas vezes você tá no quarto, quer estudar,      tá com som ligado, os outros zuando, aí num liga (...) Aí muitas vezes você      tá com uma dúvida, discutindo com outro colega, aí o outro que tá atrás de      dormir diz: 'Não, não sei o quê (...) Você fez isso pra provocar'. Aí, aquele      atrito! (Carlos, 17 anos, 1º E.M)</font></p> </blockquote>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">(...) É som ligado a toda hora do dia, as meninas      falam muito alto, sabe? No banheiro (...) é uma falta de respeito, porque      as meninas iam tomar banho, ficavam gritando mesmo, assim, absurdos (...)      gritos mesmo! Ficavam 20 minutos no banheiro, sabendo que tinha pessoas fora,      sabe, pra tomar banho (...) (Bruna, 17 anos, 3º E.M).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">A dificuldade de relacionamento interpessoal    apontada pelos alunos não é contraditória com a importância atribuída por eles    ao estabelecimento das amizades, uma vez que esses conflitos são também constitutivos    das interações sociais, fazendo parte do cotidiano. A origem dos conflitos estava    relacionada, principalmente, à quebra de regras estabelecidas (som com volume    muito alto, gritos, luz acesa fora de hora, não-obediência à escala de limpeza)    e às limitações estruturais do internato (número elevado de alojados por quarto,    banheiros coletivos e falta de ambiente adequado para o estudo). </font></p> <font face="Verdana" size="2">      <p><b>Influência do ambiente coletivo sobre o desempenho escolar</b></p>     <p>A principal relação identificada pelos alunos entre esses dois aspectos diz    respeito à  inexistência de um ambiente adequado para o estudo. Os internos    destacaram que a bagunça e o barulho tornam o ambiente do alojamento impróprio    para o estudo, exigindo deles a busca por novos espaços mais tranqüilos ou mesmo    de outras estratégias, como acordar mais cedo para estudar.</p>     <blockquote>        <p>Aqui embaixo as salas estavam fechadas. A biblioteca que deveria ter um silencinho      maior sabe, também não consegui estudar lá. Aí eu, 'Onde é que eu vou estudar?'.      No meu quarto eu também não tava conseguindo estudar. Então, o que é que eu      faço? Aí eu desci, consegui uma sala aqui e fiquei estudando com os meninos      (Bruna, 17 anos, 3º E.M)</p> </blockquote>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O único ambiente que tem no alojamento feminino pra estudar é a sala, porque      no quarto tem gente que quer dormir e a luz não pode ficar acesa. Aí elas      começam a fazer zuada, começam  a bagunçar, aí não tem como a gente estudar.      (...) Às vezes eu acordo cedinho pra estudar quando não dá tempo de estudar      à noite (Alice, 15 anos, 1º E.M).</p> </blockquote>     <blockquote>        <p>(...) A gente tem que sair, a gente...lá do conforto dos nossos beliches,      do nosso colchão, para uma cadeira dura, uma calçada dura dessa daí para estudar,      porque já que dentro do internato tem aquele clima e, muitas vezes, há confusão      lá, você já sai com a cabeça estourando de dor de cabeça lá das confusões      (Carlos, 17 anos, 1º E.M).</p> </blockquote>     <p>Viver em um local onde "<i>você não está dividindo trabalho e estudo. Você    só tem compromisso com o estudo."</i> foi um aspecto ressaltado como importante    principalmente por André (22 anos). No entanto, todos os outros participantes    destacaram a complexidade dessa questão, afirmando que o fato de morar e estudar    no mesmo local não é, por si só, garantia de sucesso. Outra dificuldade, além    da falta de ambiente propício ao estudo,  já referida acima, parece ser administrar    o tempo, não só entre as diversas atividades curriculares, mas com outras, como:    conversar com amigos, namorar, participar do teatro e do grêmio. Essa dificuldade    é percebida principalmente no discurso de João. Os demais parecem conciliar    melhor.</p>     <blockquote>        <p>(...) Se eu fosse externo eu não teria tanto tempo de estudar é (...) e quando      chegasse em casa já ia tá tarde e já ia tá cansado. Mas tem aquela outra (...)      a contradição aqui no aloja (...) aqui no (...) no internato, porque você      pode ter um tempo a mais, mas só que você não consegue, porque sempre aparece      um, um, um colega oferecendo coisa pra você fazer. (...) Em um ambiente coletivo      você não consegue estudar como você estudaria em casa, na sua (...) na sua      casa, no seu lugar reservado. Porque aqui no colégio (...) aqui num tem um,      um local específico, restrito para, pra estudo. (...) porque no alojamento      tem uma sala de estudo, mas a sala de estudo dentro do alojamento acho que      não combina porque é (...) fica no corredor e qualquer barulho incomoda lá      na sala de estudo. (...) Se eu tivesse em casa, eu tenho certeza que eu saberia      mais é (...) dividir meu tempo. E (...) até o ano passado eu tava tentando      controlar, mas eu não sei porque motivo (...)é (...) esse ano é (...) Eu acho      um pouco difícil, assim, tentar controlar o tempo, porque tudo pra você é      novidade quando você sai de casa. (João, 16 anos, 2º E.M)</p> </blockquote>     <p>Um outro aspecto ressaltado em todos os depoimentos se referiu à existência    de uma rotina diária bastante estressante, dadas as atividades que têm que cumprir    em horários bem determinados (aulas nos dois turnos, estágios, refeições). Diante    dessa exigência, os entrevistados falaram da necessidade de serem bastante sistemáticos,    organizando bem os seus horários.</p>       <blockquote>      <p>Aqui é assim (...) você tem que saber separar, dizer 'tal hora vou estudar,    tal hora vou fazer isso, tal hora vou fazer aquilo, vou dormir pra acordar tal    hora', tudo programado aqui. É igual a um robô, aqui você tem que tá programado    (Carlos, 17 anos, 1º E.M).</p>   </blockquote>  </font>      <p><font face="Verdana" size="2">A rotina estressante a qual os alunos estão submetidos    é, muitas vezes, fonte de angústia para eles. Uma vez que têm que conciliar    dois cursos e estágios, o tempo que lhes resta é somente a noite. A quantidade    de trabalhos e provas é grande, não há nenhuma articulação entre os dois cursos    (Técnico em Agropecuária e Ensino Médio) e eles ainda têm que dar conta de outras    atividades, como a limpeza dos quartos. Essa angústia e dificuldade dos alunos    em conciliar as diversas atividades é verificada, principalmente, quando querem    dispor de tempo para conversar com amigos, namorar, participar do teatro, do    grêmio e do grupo de orientação profissional. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"><b>Concepção sobre um internato ideal</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Para os alunos entrevistados, um internato ideal    deveria possuir principalmente, assim como destacado por Holahan e Wandersman    (1987) e Baum e Paulus (1987), um menor número de alojados por quarto e um melhor    relacionamento entre os internos, que deveriam respeitar-se mutuamente e ser    solidários uns com os outros. Outras sugestões foram feitas, como: a existência    de banheiros integrados ao quarto (e não coletivos), melhor limpeza dos quartos    e banheiros, seguimento das regras e organização do internato por casa e não    por bloco. Até mesmo um sistema de filmagem nos quartos, a fim de identificar    os verdadeiros "culpados" ou "inocentes" no cumprimento das regras foi sugerido.    Não por acaso, pois entre os alunos é identificado um certo temor da possibilidade    de perda do internato, caso alguma das suas normas sejam quebradas. Nas palavras    de um dos entrevistados: </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana" size="2">Você tem que se agüentar para não quebrar as      regras aqui, se brigar, perde o internato. (...) O maior medo aqui é perder      o internato. Tudo você vai fazer, se você fizer isso você perde o internato,      o cara já desiste (Carlos, 17 anos, 1º E.M).</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>CONSIDERAÇÕES FINAIS</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Dar "voz" aos alunos internos foi um processo    de fundamental importância para a compreensão de como a sua subjetividade e    o seu desenvolvimento estão se configurando a partir da experiência de vida    nesse contexto particular e da sua interação com os outros indivíduos. Conforme    afirma Chaves (2002), é nessas interações que cada indivíduo constrói suas formas    particulares de pensar, sentir e agir, usando para isso tanto de significados    culturais compartilhados pelo grupo como da atribuição de um sentido pessoal,    que age ressignificando o primeiro. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Destarte, ao escutar cada adolescente - seja    através das entrevistas seja pelas observações e trabalhos em grupo -, foi    possível ter acesso a aspectos comuns e particulares de suas experiências. Estes    aspectos, por sua vez, não só confirmaram a forma como o internato vem sendo    descrito na literatura, mas também serviram para despertar a atenção para os    aspectos positivos da experiência de internato, pouco destacados pela literatura    pesquisada.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Enquanto uma "instituição total", o internato    caracteriza-se por dois aspectos principais, que se encontram diretamente relacionados.    O primeiro deles diz respeito ao controle exercido sobre a vida dos internos,    e pode ser identificado pela seqüência rígida de horários a ser cumprida, pelos    papéis a serem desempenhados e pela existência de um regimento que tem como    objetivo punir os comportamentos não desejados. Já o segundo, refere-se à maneira    peculiar como o espaço do internato está organizado. Esta forma de organização    é estabelecida de modo a reforçar o controle e influenciar a relação dos internos    consigo e com os demais. Nesse sentido, o elevado número de indivíduos por quarto,    a existência de banheiros coletivos e a falta de ambientes adequados à realização    de algumas tarefas, como estudar, por exemplo, tendem a gerar a perda do sentimento    de privacidade, que diz respeito à capacidade do interno de regular as suas    interações sociais (onde, quando e com quem relacionar-se). Esse sentimento,    por sua vez, contribui para o surgimento de comportamentos (conflitos interpessoais,    vandalismo, falta de higiene, atraso para as aulas) bastante presentes no cotidiano    desses adolescentes. Esses comportamentos foram apontados como queixa tanto    pelos adolescentes quanto pelos monitores responsáveis pelo internato e pelos    professores da escola, nos diversos momentos informais de conversa entre estes    e as pesquisadoras.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Algumas medidas poderiam contribuir para a minimização    das dificuldades identificadas pelos internos: 1) a existência de um acompanhamento    sistemático e mais próximo por parte da equipe de inspetores e coordenadores;    2) a melhoria na infra-estrutura do internato (menor número de alojados por    quarto, existência de banheiros integrados ao quarto e de local adequado ao    estudo, melhor limpeza dos alojamentos, etc.); e, 3) a realização de um trabalho    de grupo que possibilitasse a reflexão permanente dos internos acerca de aspectos    como comunicação, liderança, conflitos, cooperação, os quais fazem parte da    vida em ambiente coletivo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Sobre o acompanhamento mais sistemático por parte    da equipe, duas ressalvas são feitas: a primeira é a de que os próprios internos    sentem falta da presença de um "mediador", não só nas ocasiões de conflito,    mas também em outras situações nas quais eles precisam recorrer a alguém de    referência. A segunda trata da necessidade de que essa pessoa de referência    não seja alguém distante e autoritário, mas alguém que eles respeitem e que    exerça a autoridade necessária. De acordo com Bronfenbrenner (1979/1996), entre    educadores (inspetores e coordenadores) e internos deveriam ser estabelecidas    relações de reciprocidade, marcadas por uma mutualidade de sentimentos positivos    e pela alteração gradual no equilíbrio de poder. Este equilíbrio ocorre no momento    em que o poder se altera em favor da pessoa em desenvolvimento, ou seja, deixa    de centralizar-se unicamente nas mãos dos inspetores e coordenadores, permitindo    ao adolescente pensar e agir modificando as diferentes situações por ele vividas.    Bronfenbrenner (1979/1996) acrescenta que essa representa uma situação ideal    para a aprendizagem e desenvolvimento do adolescente.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No que se refere às dificuldades identificadas    pelos internos para administrar o seu tempo e cumprir a elevada carga de atividades    escolares, destacam-se duas alternativas  de solucioná-las ou amenizá-las. Trata-se,    assim, da necessidade de se repensarem os currículos de cada curso (E.M e Técnico    em Agropecuária), proporcionando uma maior integração dos seus conteúdos, bem    como da criação de um espaço de discussão conjunta entre equipe dirigente e    alunos acerca da rotina da escola.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">As considerações acerca das dificuldades identificadas    pelos internos, assim como de possibilidades concretas de resolução das mesmas,    apontam para uma importante perspectiva de análise dos comportamentos dos internos.     Estes, longe de serem vistos como um problema individual, passam a ser entendidos    como respostas a uma forma de organização peculiar do regime de internato, o    qual se estrutura impondo ao internado um rígido controle e uma disciplina de    ser que tolhem as mínimas expressões de sua singularidade. Segundo Cookson e    Persell (2002), ao agir assim, a escola cumpre com a sua função de reprodutora    da sociedade e de reforçadora do <i>status quo, </i>já que treina e socializa    os jovens no mundo material e simbólico da geração de seus pais.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Apesar de os fatores citados serem relevantes    à compreensão da dinâmica do internato, é importante ressaltar que eles refletem    apenas um lado da vida nesse espaço, já que tratam somente dos aspectos negativos.    Assim, uma análise mais próxima e coerente da realidade exige a consideração    de uma outra dimensão, que diz respeito ao que de positivo há na experiência    de viver em contextos educativos como esse. Conforme visto, os vínculos afetivos    e o amadurecimento pessoal alcançados foram aspectos bastante destacados pelos    entrevistados. Conseqüentemente, é possível salientar a importância desse espaço,    no qual o convívio com pessoas diferentes e com situações que exigem a resolução    de problemas (administração de horários, tarefas, conflitos interpessoais, a    separação da família) pode levar ao desenvolvimento dos sentimentos de cooperação,    solidariedade e identidade grupal, além da intimidade e da autonomia em administrar    a própria vida. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Ressalta-se, assim, a necessidade de uma análise    que considere o internato na sua complexidade. Esse fato implica o conhecimento    global da instituição na qual o internato está inserido e é somente mais uma    parte, assim como do próprio ambiente do internato e das relações estabelecidas    entre os indivíduos nesse espaço. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>REFERÊNCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Baum, A. &amp;  Paulos, P. (1987). Crownding.    Em  D. Stokols &amp; I. Altman (Org.), <i>Handbook of environmental psychology</i>    (pp. 548-726). New York: Wiley Interscience.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S1413-7372200400030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Bardin, L. (1979). <i>Análise de conteúdo</i>    (L. A. Reto &amp; A. Pinheiro, Trad.). São Paulo: Edições 70/Livraria Martins    Fontes. ( Trabalho original publicado em 1977)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000131&pid=S1413-7372200400030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Bronfenbrenner, U. (1996). <i>A ecologia do    desenvolvimento humano: Experimentos naturais e planejados</i>. Porto Alegre:    Artes Medicas. (Trabalho original publicado em 1979)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S1413-7372200400030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Cecconello, A. M. &amp; Koller, S. H. (2003).    <i>Inserção ecológica na comunidade</i>: Uma proposta metodológica para o estudo    de famílias em situação de risco. <i>Psicologia Reflexão e Crítica</i>,<i>16</i>(3),    515-524.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000133&pid=S1413-7372200400030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Chaves, A. M. (2002). A vida e o viver em um    internato: o ponto de vista de um grupo de meninos residentes. Em E. R. Lordelo;    A. M. A. Carvalho &amp; S. H. Koller (Orgs.),<i> Infância brasileira e contextos    de desenvolvimento </i>(pp. 45-75<i>).</i> São Paulo/Salvador: Casa do Psicólogo/EDUFBA.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S1413-7372200400030000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Cookson, P. W. &amp; Persell, C. H. (2002).    Internatos americanos e ingleses: um estudo comparativo sobre a reprodução das    elites (A. M. F. Almeida, Trad.). Em A. M. F. Almeida &amp; M. A. Nogueira (Orgs.),<i>    A escolarização das elites </i>(pp. 103-119). 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(1974).<i> Manicômios, prisões e    conventos.</i> São Paulo: Perspectiva.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000137&pid=S1413-7372200400030000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Holahan, C. J. &amp; Wandersman, A. (1987).    The community psychology perspective in environmental psychology, Em D. Stokols    &amp; I. Altman (Org.), <i>Handbook of environmental psychology</i> (pp. 835-837).    New York: Wiley Interscience.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S1413-7372200400030000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Hombrados, M. I. (1998). Hacinamiento. Em J.    I. Aragonès &amp; M. Américo (Orgs.), <i>Psicologia ambiental</i> (pp. 149-171).    Madrid: Pirámide.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000139&pid=S1413-7372200400030000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Newcombe, N. (1999). <i>Desenvolvimento infantil:    abordagem de Mussen</i> (8º ed.)<i>.</i> Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho    original publicado em 1996)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S1413-7372200400030000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Steinberg, L. (1996). <i>Adolescence</i>. New    York: McGraw-Hill. (Trabalho original publicado em 1985)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000141&pid=S1413-7372200400030000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Pol, E. (1996). La apropiación del espacio.    Em L. Íñiguez &amp; E. Pol (Orgs.), <i>Cognición, representación y apropriación    del espácio </i>(Colección Monografies Psico-Socio-Ambientals, Vol. 9, pp. 45-62).    Barcelona: Publications de la Unmiversitat de Barcelona.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S1413-7372200400030000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Torvisco, J. M. (1998). Espacio personal y ecologia    del pequeño grupo. Em J. I. Aragonès &amp; M. Américo (Orgs.),<i> Psicologia    ambiental</i> (pp. 548-726). Madrid: Pirámide.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000143&pid=S1413-7372200400030000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"> Valera, S &amp; Vidal, T.  (1998). Privacidad    y territorialidad. Em J. I. Aragonès &amp; M. Américo (Orgs.), <i>Psicologia    ambiental</i> (pp. 123-147). 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<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Recebido em 28/05/2004    <br>   Aceito em 20/09/2004</font></p>      ]]></body><back>
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