<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1516-1498</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Ágora (Rio J.)]]></abbrev-journal-title>
<issn>1516-1498</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1516-14982011000200003</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.1590/S1516-14982011000200003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Atuações delinquentes, passagens ao ato suicida na adolescência]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Benhaim]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michèle]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Provence Laboratório de Psicopatologia Clínica e Psicanálise ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Centro Saint-Charles ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<volume>14</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>197</fpage>
<lpage>207</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1516-14982011000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1516-14982011000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><self-uri xlink:href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1516-14982011000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=en"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Como articular a passagem ao ato delinquente e a passagem ao ato suicida na adolescência? Pretende-se mostrar o quanto e como uma e outra esclarecem a relação com a transgressão no que esta tem de exploração, de verificação, de teste dos limites corporais, familiais e sociais.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Delinquent acting, suicidal acting out in adolescence. How should delinquent acting and suicidal acting out in adolescence be articulated? This text aims at showing how much and how one and the other highlight the relation to transgression in its feature of exploration, verification and testing the body, the family and the social limits.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Passagem pelo ato]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[delinquência]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[adolescência]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[alteridade]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Acting out]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[delinquency]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[adolescence]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[otherness]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="4">Atua&ccedil;&otilde;es delinquentes, passagens ao ato suicida    na adolesc&ecirc;ncia</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="2">Mich&egrave;le Benhaim</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Psicanalista, professora de Psicopatologia Cl&iacute;nica    no Laborat&oacute;rio de Psicopatologia Cl&iacute;nica e Psican&aacute;lise da Universidade de Provence,    Centro Saint-Charles, E-mail: <a href="mailto:michelebenhaim@voila.fr">michelebenhaim@voila.fr</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2"> Como articular a passagem ao ato delinquente    e a passagem ao ato suicida na adolesc&ecirc;ncia? Pretende-se mostrar o quanto e    como uma e outra esclarecem a rela&ccedil;&atilde;o com a transgress&atilde;o no que esta tem de    explora&ccedil;&atilde;o, de verifica&ccedil;&atilde;o, de teste dos limites corporais, familiais e sociais.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave:</b> Passagem pelo ato, delinqu&ecirc;ncia,    adolesc&ecirc;ncia, alteridade.</font></p> <hr size="1" noshade>    <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Delinquent acting, suicidal acting out in adolescence.    How should delinquent acting and suicidal acting out in adolescence be articulated?    This text aims at showing how much and how one and the other highlight the relation    to transgression in its feature of exploration, verification and testing the    body, the family and the social limits.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Keywords: </b>Acting out, delinquency, adolescence,    otherness.</font></p>   <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font face="Verdana" size="2">"A adolesc&ecirc;ncia: o sentimento de    que sua pr&oacute;pria tristeza est&aacute;     <br>   intimamente ligada &agrave; tristeza do mundo..."</font></p>     <p align="right"><font face="Verdana" size="2">(M. Benhaim)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Observa&ccedil;&otilde;es gerais</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A crise puberal gera vulnerabilidade no sujeito    e desnuda, no centro de uma vacila&ccedil;&atilde;o, uma dimens&atilde;o humana &#151; a da rela&ccedil;&atilde;o com    a morte.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Cada adolescente vive um drama singular ante    a castra&ccedil;&atilde;o, em seu encontro com seu corpo e no fato de ter que agora assumir    alguma coisa do gozo, articulando-a &agrave; lei. Ele n&atilde;o pode mais escapar, mas acontece    que esse drama vai cair na trag&eacute;dia da castra&ccedil;&atilde;o radical, a morte. Esta observa&ccedil;&atilde;o    prop&otilde;e a problem&aacute;tica do excesso na adolesc&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Estudando a delinqu&ecirc;ncia juvenil, Winnicott muitas    vezes interpretou as transgress&otilde;es adolescentes como afirma&ccedil;&otilde;es do sujeito,    sem as quais ele estaria em perigo.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Por outro lado, a adolesc&ecirc;ncia &eacute; a idade do ato,    do agir, mais do que da palavra, esta &uacute;ltima podendo, sem d&uacute;vida, trair brutalmente    emo&ccedil;&otilde;es e sentimentos. Quanto &agrave; passagem adolescente, esta n&atilde;o vai acontecer    sem correr riscos.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O ato, a atua&ccedil;&atilde;o, a passagem ao ato, <i>a passagem    pelo ato</i>, induzem uma forma de impulsividade na medida da dimens&atilde;o absoluta    da busca adolescente, e podem evidenciar a resolu&ccedil;&atilde;o do drama em trag&eacute;dia.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O suic&iacute;dio, a morte volunt&aacute;ria, dominada, pode    assumir os tra&ccedil;os desse absoluto radical, ato supremo tanto quanto irrevers&iacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Como articular a passagem ao ato delinquente    e a passagem ao ato suicida na adolesc&ecirc;ncia? Uma e outra esclarecem a rela&ccedil;&atilde;o    com a transgress&atilde;o no que esta tem de explora&ccedil;&atilde;o, de verifica&ccedil;&atilde;o, de teste dos    limites corporais, familiais e sociais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b><font face="Verdana" size="3">O "sentido" do ato</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Uma cl&iacute;nica de adolescentes apanhados em processos    de passagem aos atos violentos graves ou suicidas evidencia que as motiva&ccedil;&otilde;es    que est&atilde;o por tr&aacute;s do agir escapam ao sujeito. Ela esclarece o que Freud apontava    em seu texto de 1910, "Contribui&ccedil;&otilde;es para uma discuss&atilde;o acerca do suic&iacute;dio",    uma press&atilde;o, na adolesc&ecirc;ncia, entre o ideal do eu sobre o qual o sujeito poderia    apoiar-se para ensaiar-se na vida, e a zona de sombra no n&uacute;cleo de seu ser,    essa parte pulsional que o gozo recobre. Quando a inf&acirc;ncia se afasta, insiste    essa <i>press&atilde;o</i> ("me puseram na press&atilde;o"), que pode levar o adolescente    a sair de cena, da cena de sua inser&ccedil;&atilde;o num Outro da linguagem. O ato pode,    ent&atilde;o, revelar os aspectos de uma esp&eacute;cie de texto atuado &agrave; revelia do sujeito,    por ser indecifr&aacute;vel. A press&atilde;o induz, ademais, no adolescente, essa experi&ecirc;ncia    do corpo transformado pela puberdade, como n&atilde;o sendo ainda verdadeiramente o    seu, como separado dele mesmo ("Eu tinha o sentimento de que eu matava meu corpo,    meus pais n&atilde;o me ver&atilde;o mais, mas eu estarei sempre l&aacute;, que eu os verei"). Al&eacute;m    da dimens&atilde;o de corte entre o corpo e o esp&iacute;rito que essa revela&ccedil;&atilde;o pressup&otilde;e,    pode-se tamb&eacute;m marcar a&iacute; a atualidade do inconsciente freudiano que n&atilde;o conhece    a morte e se articula a muitos projetos de suic&iacute;dios adolescentes, nos quais    o desejo de morte n&atilde;o entra em contradi&ccedil;&atilde;o com o sentimento humano de ser eterno.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O dito delinquente muitas vezes n&atilde;o tem nada    a dizer de seu ato, a n&atilde;o ser a express&atilde;o de perplexidade ante os efeitos que    esse ato produz nos que est&atilde;o ao seu redor.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Confrontado ao fato de querer morrer, o adolescente    acredita saber de que sofre, e nessa cren&ccedil;a repousa sua tentativa de figura&ccedil;&atilde;o    do acontecimento desencadeante que, aos seus olhos, n&atilde;o pode encontrar outro    meio de se resolver sen&atilde;o na morte.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Podemos pensar que na base dessas express&otilde;es    extremas que s&atilde;o essas exposi&ccedil;&otilde;es ao perigo, h&aacute; um sentimento intoler&aacute;vel de    aus&ecirc;ncia de certeza &#151; certeza de existir e certeza de ser numa identidade. Como    se, para um e outro desses adolescentes, a ilus&atilde;o identit&aacute;ria n&atilde;o se desse por    si mesma. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Uma menina adolescente, em seguida a uma crise    de viol&ecirc;ncia extremamente repentina no curso da qual ela solta gritos prolongados    de dor, cospe, bate com a cabe&ccedil;a nas paredes em torno, aterroriza e amea&ccedil;a de    morte outra adolescente, como se realmente tudo transbordasse, esgotada, p&ocirc;de    dizer, "eu sempre vivi morta", "eu n&atilde;o sei mais o que sinto".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Interrogada mais tarde acerca do que poderia    estar contido nesse "viver morta", ela vai extrair do esquecimento que uma doen&ccedil;a    infantil a tinha impedido, com dois anos e meio de idade, de embarcar no avi&atilde;o    em que seus pais, ent&atilde;o, vieram a encontrar a morte. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Estaria ela, de certa maneira, "morta com eles"?    "Morta ela tamb&eacute;m"?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">A alternativa man&iacute;aco-depressiva</font></b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Uma resolu&ccedil;&atilde;o de um vazio, podendo adotar comportamento    psic&oacute;tico, mas nem assim resgatando da psicose, poderia cair na mania que assinala    a escalada repetitiva das passagens ao ato delinquentes, ou na melancolia que    engendra a atua&ccedil;&atilde;o de um desejo de morte.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O aspecto man&iacute;aco do tratamento do sofrimento    visaria a dominar esse sofrimento. A vertente depressiva grave poderia, por    seu lado, visar a romper com esse sofrimento.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Eis aqui, portanto, dois limites em que, tanto    num caso como no outro, &eacute; a onipot&ecirc;ncia (infantil) que parece governar o agir,    algumas vezes de maneira ca&oacute;tica, quando, &agrave; beira de uma passagem ao ato, a    adolescente conta o quanto se sentiu fr&aacute;gil, sem personalidade, tornando-se    um perigo para si mesma ou para os outros, tendo perdido qualquer referencial.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">N&atilde;o se pode deixar de pensar nesses adolescentes    para os quais o arranjo delinquente aparece claramente como solu&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica,    em especial quando, al&eacute;m da queixa, vemos com nitidez um apaziguamento da ang&uacute;stia,    um al&iacute;vio talvez de ter escapado a um fechamento psic&oacute;tico, mesmo se essa economia    se fa&ccedil;a ao custo de um encarceramento, isto &eacute;, de outro fechamento.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Decerto essa &eacute; uma solu&ccedil;&atilde;o que aparece bem depressa    em sua extrema fragilidade como preservando do pior num primeiro momento, mas    logo se torna uma trag&eacute;dia que n&atilde;o &eacute; mais solu&ccedil;&atilde;o para a ang&uacute;stia.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Um pouco como nas escarifica&ccedil;&otilde;es nas adolescentes,    esses furos que se repetem no corpo que, sem d&uacute;vida, devem ser tomados ao p&eacute;    da letra como permitindo escapar da ang&uacute;stia: "&eacute; para fazer o mal sair", dizem    elas, e ei-las apaziguadas por esse corte entre si e o fora-de-si. Um tempo    a&iacute; tamb&eacute;m fr&aacute;gil, no qual sobreviver &eacute; fugir.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Freud, em "Tipos psicop&aacute;ticos no palco" (1905/1984),    dizia que "o sentimento do corpo, desde ent&atilde;o modificado, p&otilde;e um termo a todo    gozo ps&iacute;quico".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">&Eacute; claro que o paradoxo est&aacute; presente de sa&iacute;da:    a atua&ccedil;&atilde;o delinquente parece estruturar psiquicamente o adolescente e, no entanto,    o obriga a infringir a lei: &eacute; esse paradoxo que faz disso uma solu&ccedil;&atilde;o tempor&aacute;ria,    solu&ccedil;&atilde;o que v&ecirc; o adolescente &#151; cuja ang&uacute;stia a repeti&ccedil;&atilde;o n&atilde;o consegue mais aliviar    &#151; cair na err&acirc;ncia ao fim de um momento, uma identidade em err&acirc;ncia agindo mortalmente    a busca de um lugar de inscri&ccedil;&atilde;o, na falta de figuras identificat&oacute;rias s&oacute;lidas.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Uma palavra do outro, e o universo pode balan&ccedil;ar    e cair no caos, uma palavra, um significante proferido &agrave; revelia daquele mesmo    que o enuncia e que, no entanto, muitas vezes condensa o ponto de horror da    hist&oacute;ria do sujeito ao qual &eacute; dirigido: essa constata&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica cotidiana nos    obriga a ter que decifrar as modalidades do processo de simboliza&ccedil;&atilde;o nesses    adolescentes cujas express&otilde;es de viol&ecirc;ncia, fatais &agrave;s vezes, d&atilde;o conta de um    fracasso desse trabalho ps&iacute;quico.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Perdidos porque abandonados pelo pensamento,    ei-los aqui amea&ccedil;ados de um vazio letal: esses adolescentes ditos perigosos    s&atilde;o os primeiros expostos &agrave; sua pr&oacute;pria viol&ecirc;ncia. Sempre a prop&oacute;sito de psicopatia,    Freud falava do "desencadeamento de afetos pessoais e do gozo que resulta da&iacute;,    que corresponde ao al&iacute;vio por descarga eficaz". Estaria ele pensando na passagem    ao ato mortal como podendo compensar um sentimento de aus&ecirc;ncia vital?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Paradoxalmente, por&eacute;m, a pr&aacute;tica cl&iacute;nica junto    a adolescentes delinquentes ou suicidas, ao contr&aacute;rio dessa alternativa "man&iacute;aco-depressiva"    muito esquem&aacute;tica, pode evidenciar a morte como equivalente de uma esp&eacute;cie de    "projeto de vida", a "<i>verdadeira vida"</i> como dizia Arthur Rimbaud, essa    vida que se p&otilde;e a repousar sobre a autenticidade contida num ato mais do que    numa palavra. Como se uma palavra n&atilde;o fosse suficiente para traduzir o que se    destaca do excesso.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Assim, acontece de ver-se desmoronar o adolescente    apanhado no agir violento grave ao fim de uma escalada de passagens ao ato sempre    mais perigosas, que s&oacute; o fechamento vai interromper. (E n&atilde;o necessariamente    a lei.)</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Do mesmo modo que o ap&oacute;s Tentativa de Suic&iacute;dio    pode deixar perplexos os que o cercam ante a repentina vitalidade transbordante    do sujeito jovem que vem se precipitar impetuosamente na finitude. O suic&iacute;dio    aparece aqui como invers&atilde;o de perspectiva em que teria sido quest&atilde;o n&atilde;o de desaparecer,    mas de viver de outro modo. Resta o problema de que os suic&iacute;dios consumados    evidenciam que se trata mais de um ponto de condensa&ccedil;&atilde;o de um desejo mal constru&iacute;do    do que de verdadeira ambival&ecirc;ncia neur&oacute;tica.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A intrica&ccedil;&atilde;o puls&atilde;o de vida/puls&atilde;o de morte n&atilde;o    poupa a passagem ao ato adolescente num contexto em que, se os nomes do pai    s&atilde;o pouco mais ou menos operantes, as leis da linguagem fracassam.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">A alteridade, O outro, o Outro</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A prop&oacute;sito dos limites que parecem ser transgredidos    pelo lado de um interdito no ato violento, e pelo lado de um tabu no suic&iacute;dio,    pode ser que a quest&atilde;o da alteridade se proponha a&iacute; com toda a for&ccedil;a.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Na falta de espa&ccedil;o alterit&aacute;rio, o adolescente    n&atilde;o pode encontrar o outro: ali&aacute;s, "eu o matei sem motivo".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quando o ato atinge a integridade f&iacute;sica do outro,    ou de si mesmo, a realidade ps&iacute;quica do adolescente transbordado por sua pr&oacute;pria    viol&ecirc;ncia e do adolescente suicida exprime, muitas vezes, para um como para    o outro, uma esp&eacute;cie de confus&atilde;o quanto ao corpo atingido. Os limites se apagam,    h&aacute; uma esp&eacute;cie de transitivismo, de equival&ecirc;ncia especular entre assassinato    e suic&iacute;dio em que apenas o plano do espelho estaria ligeiramente deslocado:    n&atilde;o ser&aacute;, de fato, que o corpo do outro aparentemente &eacute; visado no fato de atingi-lo    para esbarrar num limite real, ou ent&atilde;o, ser&aacute; tamb&eacute;m o envolvimento de seu corpo    pr&oacute;prio que &eacute; agido num corpo a corpo brutal, brutal demais e &agrave;s vezes ilimitado?    A que, ent&atilde;o, pode remeter esse corpo a corpo ilimitado, sen&atilde;o a um ponto de    aliena&ccedil;&atilde;o materna imposs&iacute;vel de ultrapassar do qual os adolescentes, como as    m&atilde;es, nos informam por meio de suas dificuldades de separa&ccedil;&atilde;o? Estar morto para    se separar e/ou para restabelecer os la&ccedil;os perdidos? "Isso me toma a cabe&ccedil;a"...    De que &eacute; que o adolescente tem que se separar, e por que o ato evidencia um    fracasso desse processo? Da m&atilde;e, do pai, dos parentes, ou do significante que    at&eacute; ent&atilde;o podia represent&aacute;-lo para outro significante? E se n&atilde;o houvesse outro?    Se n&atilde;o houvesse outro significante que o tornasse digno de ser, ainda e apesar    de tudo, acolhido? De ser ainda, e apesar de tudo, o filho Ideal? O objeto ideal?    Antes morto do que insignificante? A adolesc&ecirc;ncia faz <i>passar</i> todo mundo,    o adolescente e quem est&aacute; &agrave; volta, de uma margem &agrave; outra: se algu&eacute;m resiste,    a passagem, em vez de ser uma transgress&atilde;o necess&aacute;ria que permite uma conflitualidade    necess&aacute;ria para todos, pode, ao menos, ser for&ccedil;ada e, no pior dos casos, se    tornar puro <i>im-passe</i>, isto &eacute;, ficar aqu&eacute;m da quest&atilde;o do desejo e deixar    o adolescente como que em d&iacute;vida com o que n&atilde;o adveio.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Mas como fazer com o atual de um "mundo que se    esvazia de sua pr&oacute;pria signific&acirc;ncia" (citando Stiegler), como antecipar a&iacute;    um significante?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Da mesma maneira, n&atilde;o ser&aacute; sen&atilde;o seu corpo pr&oacute;prio    que a vontade aparente de morrer convoca ou, ricocheteando, a representa&ccedil;&atilde;o    que vai ficar dele na cabe&ccedil;a do outro, uma vez completado o suic&iacute;dio? H&aacute; a&iacute;    como uma dimens&atilde;o de eternidade que cont&eacute;m a quest&atilde;o da presen&ccedil;a/aus&ecirc;ncia e    onde, nesse <i>fort-da </i>perigoso demais, o corpo pr&oacute;prio, tal como um s&iacute;mbolo    <i>real</i> demais, faria o papel do carretel. "Eu queria morrer porque sentia    que estava mesmo para morrer", dizia esse adolescente que, como pode, relata    de que maneira escapou de si mesmo, quando <i>ser</i> se tornou sin&ocirc;nimo de    <i>morte</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Evocando sua no&ccedil;&atilde;o de <i>tend&ecirc;ncia antissocial</i>,    Winnicott dizia que esta "visava menos as puls&otilde;es que se exprimem atrav&eacute;s dela,    do que as rea&ccedil;&otilde;es totais do ambiente".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">De fato, a dificuldade do trabalho com esses    adolescentes &#151; dentre outras nesse paradoxo que nos confronta a atos de corte    radical em que fazem curto-circuito de uma rela&ccedil;&atilde;o com o Outro &#151; continua a    ser, no fundo, uma mensagem endere&ccedil;ada a esse Outro. Paradoxo no centro de uma    ambival&ecirc;ncia amor/&oacute;dio imposs&iacute;vel de elaborar, que se redobra pelo fato de que,    se nos perguntarmos de que Outro se trata, de certa maneira vamos esbarrar num    Outro assassinado ou repelido. &Agrave;s vezes, conseguir alcan&ccedil;ar o gozo do Outro    &eacute; fundir-se a&iacute; totalmente at&eacute; morrer ou faz&ecirc;-lo morrer, presa de uma forma de    gozo origin&aacute;rio. "Melhor agir do que ficar esperando passivamente", nos diz    esse adolescente que d&aacute; pancada como se estivesse abra&ccedil;ando, que maltrata como    se estivesse dando um "amasso".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No texto consagrado &agrave; "Delinqu&ecirc;ncia, sinal de    esperan&ccedil;a", em suas <i>Conversations</i><i> ordinaires</i> (WINNICOTT, 1988)    Winnicott insiste no fato de que "o ato delinquente espera encontrar uma resist&ecirc;ncia    do ambiente". </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em todos os casos, nessas duas situa&ccedil;&otilde;es de efra&ccedil;&atilde;o    corporal, h&aacute; ruptura do pensamento &#151; "eu n&atilde;o sei o que &eacute; que me deu", "eu queria    parar de pensar nisso" &#151;, h&aacute; (tentativa de) anula&ccedil;&atilde;o corporal, do corpo do outro    e/ou do corpo pr&oacute;prio, numa esp&eacute;cie de confus&atilde;o quase "incestuosa", uma tentativa    de congelar esse corpo (do outro ou o seu pr&oacute;prio) para poder desfazer-se dele,    habitados por uma viol&ecirc;ncia que se imp&otilde;e sem que seja convocada. "Eu n&atilde;o sei    por que fiz isso" &#151; o sujeito n&atilde;o pode saber, uma vez que n&atilde;o estava l&aacute;.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Essas observa&ccedil;&otilde;es mostram o quanto &eacute; necess&aacute;rio    ao adolescente &#151; na extrema desordem que uma confronta&ccedil;&atilde;o ao gozo puberal pode    produzir em bases fr&aacute;geis demais, essa viol&ecirc;ncia que as palavras n&atilde;o se mostram    &agrave; altura de significar &#151; o quanto &eacute; necess&aacute;rio agir para n&atilde;o pensar mais.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Estar sem Outro que devesse desprender de um    gozo excessivo de n&atilde;o poder ser ligado ao significante, pode assinalar um ponto    insuper&aacute;vel.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">O ato e (&eacute;) o discurso</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Apesar de tudo o que indica para n&oacute;s, cl&iacute;nicos,    a que ponto conv&eacute;m que essas atua&ccedil;&otilde;es sejam recebidas como equivalentes de discursos,    &eacute; o que nos recomenda expressamente que fiquemos na escuta da manifesta&ccedil;&atilde;o (sintom&aacute;tica,    isso continua a ser uma quest&atilde;o) em vez de querer faz&ecirc;-la desaparecer, custe    o que custar. Esses discursos falam de limites, de cortes, de separa&ccedil;&atilde;o, de    ataque aos la&ccedil;os &#151; familiais, sociais, mas em especial os la&ccedil;os internos, la&ccedil;os    de depend&ecirc;ncia, la&ccedil;os que assinalam a aliena&ccedil;&atilde;o exclusiva ao Outro, aliena&ccedil;&atilde;o    que evoca a afli&ccedil;&atilde;o do lactente ante o desejo do Outro, esse Outro que ele pode    anular tanto quanto pode ser anulado por ele. A&iacute; a passagem ao ato violenta    referida ao outro pode assumir o aspecto de estrat&eacute;gia de sobreviv&ecirc;ncia ps&iacute;quica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Adolescentes (meninos e meninas)</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A rela&ccedil;&atilde;o com o corpo e os limites fica marcada    por diferen&ccedil;as entre meninos e meninas adolescentes.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A algazarra e a pulveriza&ccedil;&atilde;o suicida frequentemente    s&atilde;o devastadoras nos meninos, e evidenciam muitas vezes uma figura&ccedil;&atilde;o da queda,    como dependendo de uma redu&ccedil;&atilde;o do sujeito ao objeto destru&iacute;do. S&atilde;o, todavia,    menos espetaculares nas meninas, nas quais muitas vezes s&atilde;o os atos de cortes,    como as escarifica&ccedil;&otilde;es mais ou menos profundas, esp&eacute;cie de tentativas de extra&ccedil;&atilde;o,    que interrogam os limites corporais. Ainda que hoje essa distin&ccedil;&atilde;o tenha perdido    import&acirc;ncia e que, para existir, determinadas adolescentes relatam o quanto    a &uacute;nica sa&iacute;da &eacute; "fazer como os garotos". Este &uacute;ltimo ponto insiste, talvez,    na necessidade de inscrever o sintoma adolescente no contexto atual de banaliza&ccedil;&atilde;o    da morte com base na aboli&ccedil;&atilde;o das fronteiras entre o real e a fantasia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">O passe/o im-passe</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">A cl&iacute;nica a partir da qual, para mim, se coloca    a quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o do adolescente com a morte, &eacute; uma cl&iacute;nica da repeti&ccedil;&atilde;o    de passagens ao ato marcadas de destrutividade &#151; destrutividade que, dizia-nos    Freud, &eacute; uma das figuras da puls&atilde;o de morte: ser&aacute; que dentro da repeti&ccedil;&atilde;o o    adolescente atualizaria &agrave; vista de todo mundo um movimento pulsional em sua    vertente mortal? Visaria esse movimento, n&atilde;o obstante, a ligar os vest&iacute;gios    de viol&ecirc;ncias traum&aacute;ticas, inscrevendo-os, talvez mesmo corrigindo-os? Como    &eacute; poss&iacute;vel que um adolescente n&atilde;o disponha sen&atilde;o do modo da viol&ecirc;ncia mortal    para exprimir o que uma palavra teria sido suficiente para dizer?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">O momento louco</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Na adolesc&ecirc;ncia, todo mundo espera que algo aconte&ccedil;a...    ser&aacute; poss&iacute;vel morrer para arrumar melhor psiquicamente aquilo que n&atilde;o parou    de n&atilde;o se inscrever? Como se a puls&atilde;o visasse de prefer&ecirc;ncia <i>o que j&aacute; est&aacute;    morto</i>, e n&atilde;o a morte? A viol&ecirc;ncia assassina pode visar a sobreviv&ecirc;ncia,    mesmo ps&iacute;quica, de si mesmo &agrave; custa da morte do outro? O suic&iacute;dio pode valer    mais do que a err&acirc;ncia subjetiva? Err&acirc;ncia tomada no sentido duplo em que Lacan    a compreende, o de n&atilde;o ser enganado pelo significante, mas tamb&eacute;m o da "repeti&ccedil;&atilde;o",    errar em busca da palavra que pudesse pensar a coisa. Esse ponto de trope&ccedil;o    no pensamento e na palavra poderia ilustrar o acento psic&oacute;tico que a passagem    ao ato pode conter: "&eacute; como se n&atilde;o fosse mais eu", "&eacute; como se algu&eacute;m me obrigasse    a fazer isso", tantas express&otilde;es de apar&ecirc;ncia esquizoide ou injun&ccedil;&otilde;es persecut&oacute;rias.    "Injun&ccedil;&otilde;es" que impelem o adolescente n&atilde;o somente a ir ver em outro lugar mas,    sobretudo, talvez a ir ver <i>de outro lugar</i>: &eacute; como a vida vista sob outro    &acirc;ngulo? Esta quest&atilde;o diz, talvez, algo acerca dos roteiros mortais que o adolescente    constr&oacute;i dentro de sua cabe&ccedil;a: um semelhante ensanguentado, o encarceramento,    ou o desenrolar de seu pr&oacute;prio enterro, essa cena para a qual &eacute; t&atilde;o imposs&iacute;vel    que ele seja convidado quanto para a cena prim&aacute;ria.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">"&Eacute; como se eu n&atilde;o sentisse mais nada": esta desconex&atilde;o    quanto ao afeto que assinala uma insensibilidade mais pr&oacute;xima de uma n&atilde;o exist&ecirc;ncia,    uma "despossess&atilde;o de sua subst&acirc;ncia vital", diria Artaud, mais pr&oacute;xima, portanto,    da n&atilde;o exist&ecirc;ncia do que da morte propriamente dita. Isso assinala tamb&eacute;m uma    proje&ccedil;&atilde;o do sujeito num espa&ccedil;o intemporal para, igualmente, evocar um momento    psic&oacute;tico no qual o dentro e o fora, o antes e o depois, tendo voado em peda&ccedil;os,    o pensamento se congela e nada mais vem garantir um la&ccedil;o alterit&aacute;rio interno,    tanto quanto externo.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Assim, o suic&iacute;dio pode aparecer a&iacute; como tentativa    de inscrever algo, &agrave; beira do imposs&iacute;vel, &agrave; beira da vida &#151; e a cl&iacute;nica mostra    que ser&aacute; menos um discurso, um apelo, uma demanda, que ter&aacute; vindo assinalar    a destrui&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o da palavra, mas das pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es da palavra, da simboliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Este seria aqui um momento louco dentro do qual    a morte real tende a se confundir com o assassinato da Coisa. Pensar, diz ainda    Artaud, "&eacute; n&atilde;o sentir em si um buraco capital".</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O que se inclina em dire&ccedil;&atilde;o a tal momento &eacute; que    a atua&ccedil;&atilde;o delinquente, como a passagem ao ato suicida na adolesc&ecirc;ncia, parecem    vir anular passado e futuro, o tempo do desejo, e mostrar o quanto, ent&atilde;o, estar    no tempo presente, numa suspens&atilde;o do escoamento do tempo, &eacute; estar morto.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Ent&atilde;o, por certo, confrontado ao gozo puberal,    o adolescente n&atilde;o seria simultaneamente apanhado num gozo Outro (descoberta    do Outro sexo, o sexo da m&atilde;e...) que, ent&atilde;o, mesmo que ele devesse deixar a    inf&acirc;ncia, o apanharia de volta.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Assim poderia ser descrito o momento louco do    ato cujo <i>a posteriori</i> (&eacute; um momento louco, e n&atilde;o uma estrutura louca),    revela uma dimens&atilde;o de tentativa de elabora&ccedil;&atilde;o de uma conflitualidade. &Eacute; o que    nos autoriza a propor a quest&atilde;o de saber o que &eacute; que se <i>passa</i> (ou que    n&atilde;o se passa) quando n&atilde;o h&aacute; a passagem ao ato? Podemos, desse &acirc;ngulo, encarar    a passagem ao ato como tendo valor estruturante para o sujeito?</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Nesse tempo de colapso de todos os referenciais,    o adolescente fr&aacute;gil pode se encontrar presa de uma solid&atilde;o absoluta em rela&ccedil;&atilde;o    a todos os la&ccedil;os familiais estabelecidos at&eacute; ent&atilde;o. Esse momento louco, que    consiste em n&atilde;o poder fazer de outra maneira sen&atilde;o em <i>passar pelo ato</i>,    pode de fato evocar uma forma de la&ccedil;o alterit&aacute;rio fora das normas, certamente    &#151; e &eacute; por isso que se pode falar de momento louco &#151; mas que, de modo paradoxal,    se revelou necess&aacute;rio &agrave; sobreviv&ecirc;ncia do sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O interesse cl&iacute;nico de passar al&eacute;m do curto-circuito    manifesto do outro, e pensar, n&atilde;o obstante, as coisas em termos de mensagem    endere&ccedil;ada, &eacute; o que vai fazer dessa tentativa de la&ccedil;o, um la&ccedil;o, a via de inscri&ccedil;&atilde;o    de um la&ccedil;o.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Esta hip&oacute;tese permitiria, talvez, apreender o    impulso de vitalidade que pode se seguir ao ato, ou a queda melanc&oacute;lica que    assinalaria, ao contr&aacute;rio, como fal&ecirc;ncia da tentativa.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Muitas vezes, o discurso <i>a posteriori</i>    do adolescente n&atilde;o consegue evocar grande coisa do ato, mas termina por exprimir    esse momento de eclipse subjetivo que evoca o colapso de Winnicott, &eacute; o momento    no qual o adolescente, no ato, tenta talvez tratar a irrup&ccedil;&atilde;o de uma cat&aacute;strofe    n&atilde;o inscrita, cat&aacute;strofe que, por falta de inscri&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pode sen&atilde;o ser uma    cat&aacute;strofe para um sujeito, isto &eacute;, exatamente romper todos os limites.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">V&ecirc;-se a&iacute; que sentir a morte vale mais do que    n&atilde;o sentir nada ou, dito de outro modo, como a reatualiza&ccedil;&atilde;o do movimento pulsional    vale mais do que uma ruptura do trabalho do pensamento e da simboliza&ccedil;&atilde;o indo    a par com um curto-circuito do Outro.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Se o ato pode ser um acontecimento para um sujeito    e deix&aacute;-lo transformado, a repeti&ccedil;&atilde;o do ato revela que essa tentativa est&aacute; votada    ao fracasso (penso aqui num adolescente que encontrei por ocasi&atilde;o de uma hospitaliza&ccedil;&atilde;o.    Ap&oacute;s ter experimentado diversas formas de transgress&otilde;es delinquentes, como acossado    diante do que nunca se inscrevia para ele, terminou por se atirar da janela,    e, felizmente foi resgatado: o encontro cl&iacute;nico mostrou a que ponto a viol&ecirc;ncia,    aparentemente estruturante, o desorganizou, e o quanto esses atos mortais eram    ao mesmo tempo outras tantas tentativas de romper com representa&ccedil;&otilde;es intoler&aacute;veis    que, n&atilde;o obstante, eram tentativas de simboliza&ccedil;&atilde;o de tra&ccedil;os traum&aacute;ticos desligados).</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Assim, se por meio da passagem ao ato o adolescente    tenta se proteger do que lhe parece como sendo o pior, uma explos&atilde;o ps&iacute;quica    &#151; &eacute; que a jogada n&atilde;o &eacute; o ato, mas antes o pr&oacute;prio sujeito, o sujeito confrontado    a um tempo de anula&ccedil;&atilde;o das representa&ccedil;&otilde;es e dos ideais. Dito de outra maneira,    a confronta&ccedil;&atilde;o ao real, esse imposs&iacute;vel que estrutura a realidade, o dentro/fora,    o antes/depois, e onde a alteridade poderia ser encarada, n&atilde;o funciona mais.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Esse ponto encontra ainda a cat&aacute;strofe winnicottiana    sempre ao ponto de advir, uma vez que n&atilde;o ocorreu por falta de um sujeito para    viv&ecirc;-la e de um outro que a nomeasse. Essa cat&aacute;strofe, dizia-nos ele, diz respeito    aos pacientes acostumados &agrave;s fronteiras entre a vida e a morte.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">As ideias suicidas de que nos falam os adolescentes    que ainda n&atilde;o passaram ao ato, ou que talvez nunca vir&atilde;o a passar ao ato, ali&aacute;s,    revelam o quanto a ideia da morte alivia a sensa&ccedil;&atilde;o de explos&atilde;o identit&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Quando as garantias da palavra parecem destru&iacute;das,    como construir um outro a quem falar?</font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Nessas rela&ccedil;&otilde;es violentas com a morte, que &eacute;    que procura inscrever-se assim, &agrave; beira do imposs&iacute;vel, pondo a vida em risco?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Conclus&atilde;o</font></b></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Um &uacute;ltimo ponto para concluir. O tempo do discurso    que segue o tempo do ato, quando adv&eacute;m &#151; e se uma transfer&ecirc;ncia se estabelece    &#151;, v&ecirc; surgir, ao fim de determinado tempo, um sentimento de culpa (de ter feito    mal ao outro, de que tenha agredido esse outro ou de que tenha tentado fazer    desaparecer a si mesmo) que nos conduz numa din&acirc;mica neur&oacute;tica prop&iacute;cia a momentos    de an&aacute;lise de sua pr&oacute;pria l&oacute;gica de ruptura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Precisamos, entretanto, enfatizar o risco que,    para alguns, se inscreve na coloca&ccedil;&atilde;o em palavras &#151; e devemos ficar atentos    a isso.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">"Ele est&aacute; dormindo ao sol, com a m&atilde;o em cima      do peito.    <br>     </font><font face="Verdana" size="2">Tranquilo. Tem dois furos vermelhos do      lado direito."</font></p>       <p><font face="Verdana" size="2">(Arthur Rimbaud &#151; <i>Le dormeur du Val</i>)      </font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Refer&ecirc;ncias</font></b></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">ARTAUD, A. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.scribd.com/doc/36669023/Antonin-Artau-De-La-Chair-Au-Cri" target="_blank">http://www.scribd.com/doc/36669023/Antonin-Artau-De-La-Chair-Au-Cri</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000110&pid=S1516-1498201100020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">FREUD, S. (1910/1984), Pour introduire la discussion    sur le suicide, in <i>R&eacute;sultats, Id&eacute;es, probl&egrave;mes, </i>v. 1, Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000112&pid=S1516-1498201100020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">_____. (1910/1984) <i>Personnages psychopathiques    &agrave; la sc&egrave;ne.</i> <i>R&eacute;sultats, Id&eacute;es, probl&egrave;mes,    </i>v. 1, Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S1516-1498201100020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2"><i>STIEGLER, B. </i>(<i>1994) La technique et    le temps 1. La faute d'Epim&eacute;th&eacute;e, </i>Galil&eacute;e<i>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000116&pid=S1516-1498201100020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </i></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">WINNICOTT, D.W. (1988), La d&eacute;linquance signe    d'espoir, in <i>Conversations ordinaires</i>, Paris, n.r.f.: Gallimard, 99-109    ou <i>Folio essais</i>. p 130-145.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000118&pid=S1516-1498201100020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">_____. (1994) <i>D&eacute;privation et d&eacute;linquance</i>.    Paris: Payot.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000120&pid=S1516-1498201100020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Recebido em 9/11/2008.     <br>   Aprovado em 12/12/2008.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Tradu&ccedil;&atilde;o    <br>   </font><font face="Verdana" size="2"><i>Pedro Henrique Bernardes Rondon    <br>   </i></font><font face="Verdana" size="2">Psicanalista, membro efetivo da Sociedade    de Psican&aacute;lise da Cidade do Rio de Janeiro (SPCRJ).    <br>   </font><font face="Verdana" size="2">Membro efetivo da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira    para o Estudo da Psicologia Psicanal&iacute;tica do Self (Abepps).</font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARTAUD]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FREUD]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Pour introduire la discussion sur le suicide]]></article-title>
<source><![CDATA[Résultats, Idées, problèmes]]></source>
<year></year>
<volume>1</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FREUD]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Personnages psychopathiques à la scène: Résultats, Idées, problèmes]]></source>
<year></year>
<volume>1</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[STIEGLER]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La technique et le temps 1: La faute d'Epiméthée]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-name><![CDATA[Galilée]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WINNICOTT]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[La délinquance signe d'espoir]]></article-title>
<source><![CDATA[Conversations ordinaires]]></source>
<year>1988</year>
<page-range>99-109</page-range><publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[WINNICOTT]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Déprivation et délinquance]]></source>
<year>1994</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Payot]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
