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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A crítica brasileira de poesia contemporânea: velhos debates, outras máscaras]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper aims at reflecting on the Brazilian poetic output and its criticism, taking into account their histories. They are not treated as separate instances, but instead are considered to be the result of practices issuing from a common theory of Art. The starting point of the discussion is an article by Iumna Maria Simon and Vinícius Dantas, "Negativo e ornamental: Um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", published in Novos Estudos do Cebrap, n.91, Nov. 2011.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="es"><p><![CDATA[Este artículo se propone a discutir sobre la producción poética y su crítica, sobre la historia de la poesía y de su crítica. No se va a discutirlas como instancias aisladas, pero, al revés, serán tomadas como prácticas de una misma teoría/pensamiento sobre el arte. Toma-se como eje para la discusión el artículo de Iumna Maria Simon y Vinícius Dantas, "Negativo e ornamental: Um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", publicado en la revista Novos Estudos do Cebrap, n.91, nov. de 2011.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right">&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A cr&iacute;tica brasileira de poesia contempor&acirc;nea:  velhos debates, outras m&aacute;scaras</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Brazilian contemporary poetry criticism: old debates, other masks</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Susana Scramim</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Universidade Federal de Santa Catarina Florian&oacute;polis, SC, Brasil</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Prop&otilde;e-se com este artigo refletir tanto sobre a produ&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica quanto a sua cr&iacute;tica, tanto sobre a hist&oacute;ria da poesia quanto da hist&oacute;ria da cr&iacute;tica. Elas n&atilde;o s&atilde;o discutidas como inst&acirc;ncias separadas, mas, ao contr&aacute;rio, ser&atilde;o tomadas como pr&aacute;ticas de uma mesma teoria/pensamento sobre a arte. A cr&iacute;tica de poesia contempor&acirc;nea no Brasil tem que enfrentar alguns desafios propostos pelo modo de se produzir poesia no presente. No lugar de impor as mesmas exig&ecirc;ncias e cobran&ccedil;as das pr&aacute;ticas cr&iacute;ticas idealistas e ut&oacute;picas &agrave; poesia e de responder com par&aacute;frases de velhos debates aos desafios do presente, a cr&iacute;tica tem diante de si a poesia a tarefa de tamb&eacute;m tentar elaborar sentidos para a cultura do contempor&acirc;neo, o que implica sempre uma rela&ccedil;&atilde;o de interpreta&ccedil;&atilde;o com o passado e com a tradi&ccedil;&atilde;o. Longe de ser diagnosticado como um processo de "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o", "formaliza&ccedil;&atilde;o" e "esteticiza&ccedil;&atilde;o" dos problemas da cultura, a produ&ccedil;&atilde;o de poesia produz uma an&aacute;lise do tempo presente t&atilde;o ou mais eficaz do que vem atribuindo-lhe certos setores da cr&iacute;tica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave: </b>Poesia brasileira contempor&acirc;nea; cr&iacute;tica liter&aacute;ria; Carlito Azevedo; Iumna Maria Simon.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">This paper aims at reflecting on the Brazilian poetic output and its criticism, taking into account their histories. They are not treated as separate instances, but instead are considered to be the result of practices issuing from a common theory of Art. The starting point of the discussion is an article by Iumna Maria Simon and Vin&iacute;cius Dantas, "Negativo e ornamental: Um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", published in Novos Estudos do Cebrap, n.91, Nov. 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords: </b>Brazilian contemporary poetry; criticism; Carlito Azevedo; Iumna Maria Simon.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMEN</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este art&iacute;culo se propone a discutir sobre la producci&oacute;n po&eacute;tica y su cr&iacute;tica, sobre la historia de la poes&iacute;a y de su cr&iacute;tica. No se va a discutirlas como instancias aisladas, pero, al rev&eacute;s, ser&aacute;n tomadas como pr&aacute;cticas de una misma teor&iacute;a/pensamiento sobre el arte. Toma-se como eje para la discusi&oacute;n el art&iacute;culo de Iumna Maria Simon y Vin&iacute;cius Dantas, "Negativo e ornamental: Um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", publicado en la revista Novos Estudos do Cebrap, n.91, nov. de 2011.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palabras-llave: </b>Poes&iacute;a brasile&ntilde;a contempor&aacute;nea; cr&iacute;tica literaria; Carlito Azevedo; Iumna Maria Simon.</font></p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Adolf Loos e eu, ele literal e eu linguisticamente, nada mais fizemos que mostrar que  entre uma urna funer&aacute;ria e um penico existe uma diferen&ccedil;a, e que s&oacute; nessa diferen&ccedil;a h&aacute; espa&ccedil;o para a cultura. Mas os outros, os positivos, se dividem entre aquele que usam a urna como penico e aqueles que usam o penico como urna</i>.<a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a>, <a name="1b*"></a><a href="#1a*"><sup>1*</sup></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos mitos que foram constru&iacute;dos no decorrer da hist&oacute;ria da cr&iacute;tica de arte &eacute; o de que existe a possibilidade da elabora&ccedil;&atilde;o de tipos, para os realistas, ou de arqu&eacute;tipos, para os primeiros rom&acirc;nticos, munidos da fun&ccedil;&atilde;o de indicar a normatividade de certos modelos. Eles se apresentam n&atilde;o como problemas relativos &agrave; forma art&iacute;stica, mas como solu&ccedil;&atilde;o. E inclui-se, nesses casos, a vida vivida exposta e refletida na obra de arte compreendida tamb&eacute;m como um mito da origem, como solu&ccedil;&atilde;o do problema art&iacute;stico. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O n&uacute;mero 91 da revista <i>Novos Estudos</i>, publicada em novembro de 2011, apresenta o artigo "Negativo e ornamental: um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", escrito pela professora e cr&iacute;tica liter&aacute;ria Iumna Maria Simon e pelo poeta, ensa&iacute;sta e tradutor Vin&iacute;cius Dantas.<a name="2b*"></a><a href="#2a*"><sup>2*</sup></a> A opera&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica colocada em pr&aacute;tica ali acusa a poesia de Carlito Azevedo de ser espet&aacute;culo, textual ou imag&eacute;tico, sem referente na realidade, que sua experi&ecirc;ncia po&eacute;tica subjetiva se reduz ao recalque, contrapondo a esta mesma poesia uma aut&ecirc;ntica poesia que, diferentemente, se imporia como manufatura de imagens e met&aacute;foras. Essa maneira de empreender um julgamento, esse modo de organizar os valores da poesia n&atilde;o deixa de recorrer a arqu&eacute;tipos e tipos, doadores de solu&ccedil;&otilde;es, da cr&iacute;tica antiga. A cr&iacute;tica construiu, a partir e contra Goethe, uma tradi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria. Os mitos que a constitu&iacute;ram n&atilde;o cessam de configurar o espa&ccedil;o de embate dessa mesma tradi&ccedil;&atilde;o. Sabe-se que opera&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica moderna est&aacute; diametralmente oposta &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de Goethe, para quem a "criticabilidade" da obra de arte &eacute; uma empresa imposs&iacute;vel, porque somente o artista estaria munido da intui&ccedil;&atilde;o do arqu&eacute;tipo para poder fazer o ju&iacute;zo apod&iacute;tico sobre as suas obras. Entretanto, ap&oacute;s o desdobramento da quest&atilde;o por Walter Benjamin, a cr&iacute;tica das obras n&atilde;o s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel como &eacute; objetivamente necess&aacute;ria, s&oacute; que essa mesma cr&iacute;tica, equiparada pelo fil&oacute;sofo alem&atilde;o ao trabalho de elabora&ccedil;&atilde;o das formas, produz suas pr&oacute;prias solu&ccedil;&otilde;es m&iacute;ticas. Para esse Benjamin que escreve sua tese sobre o conceito de cr&iacute;tica de arte no romantismo alem&atilde;o, tanto o conceito de forma como o conceito de cr&iacute;tica em Goethe s&atilde;o insuficientes para dar conta da tarefa que se antepunha tanto para a cr&iacute;tica como para a poesia rom&acirc;ntica, mas ele compreendia tamb&eacute;m que nesses problemas residia ainda algo de muito urgente para a tarefa do cr&iacute;tico e da poesia no momento hist&oacute;rico, as primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, em que ele escreve e se prop&otilde;e a trabalhar como cr&iacute;tico de arte e da cultura. Decorre dessa posi&ccedil;&atilde;o a "negatividade" da opera&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica proposta por ele, ou seja, a de lidar e questionar seu objeto sem nunca poder apropriar-se dele.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando a cr&iacute;tica contempor&acirc;nea acusa a arte e a poesia de produzirem formas "fraquinhas de negatividade",<a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> aquilo que &eacute; cobrado nesse julgamento n&atilde;o s&atilde;o formas "fortes" da negatividade, e sim a origem da forma n&atilde;o como geradora de mais e mais questionamentos, mas antes, tomada em seus mitos, como doadora de solu&ccedil;&otilde;es apaziguadoras em sua sistematiza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o quero dizer com isso que a pr&aacute;tica intertextual promovida por Haroldo de Campos, como reivindicada por Iumna Simon em 2011, pudesse ser analisada como sendo uma forma forte de negatividade. Ao contr&aacute;rio, o que postulo &eacute; que a tradu&ccedil;&atilde;o compreendida como um novo original n&atilde;o escapa de operar uma reivindica&ccedil;&atilde;o da propriedade legal do objeto. Portanto, a pr&aacute;tica do intertexto n&atilde;o &eacute; suficiente porque seja fraca, mas sim porque ainda afirma uma positividade, e, com isso, o mito em seu desejo por sistematiza&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido, e por mais paradoxal que isso possa parecer, o que a cr&iacute;tica liter&aacute;ria Iumna Simon cobra da poesia contempor&acirc;nea &eacute; a mesma posi&ccedil;&atilde;o frente &agrave; obra vivida e reivindicada por Haroldo de Campos, seja na sua pr&aacute;tica po&eacute;tica, seja na atividade da cr&iacute;tica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; uma urg&ecirc;ncia em se investigar a rela&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;todos dos quais se vale esta opera&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, vale dizer, sua rela&ccedil;&atilde;o com o ideal de obra de arte pensado como aquele que &eacute; produtor de exemplaridade e a partir do qual se produz uma forma original. A ideia de arte, seu conte&uacute;do de verdade, &eacute; sistematizada por essa cr&iacute;tica rom&acirc;ntica em um mito, um ideal: uma forma sistematizada. &Eacute; importante ressaltar novamente: o problema n&atilde;o reside na observ&acirc;ncia do exemplo, e sim na reivindica&ccedil;&atilde;o do original. Toda a pr&aacute;tica da produ&ccedil;&atilde;o de cultura tem necessariamente de lidar com a hist&oacute;ria de cada &aacute;rea da cultura. A cr&iacute;tica n&atilde;o escapa a essa prerrogativa. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Negativo e ornamental</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1931, Walter Benjamin escreveu um ensaio sobre Karl Kraus, escritor e redator do jornal <i>Die Fackel </i>("A tocha"), que viveu em Viena praticamente durante toda sua vida e foi, antes de tudo, um grande polemista, inflex&iacute;vel e radical. No ensaio, Benjamin destaca que, &agrave; semelhan&ccedil;a de outro polemista contempor&acirc;neo seu, Adolf Loos, autor do ensaio<i> Ornament und Vebrechen</i>,<a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a> cujo objetivo principal &eacute; oferecer as bases para uma cr&iacute;tica &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o de uma sociedade materializada no ornamento, Kraus entendia a cultura do ornamento como um dos sintomas da doen&ccedil;a cr&ocirc;nica que era propagada especialmente pela imprensa: a inautencidade. N&atilde;o devemos esquecer-nos que Kraus tamb&eacute;m escreveu, em 1908, <i>Sitttlichkeit und Kriminalit&auml;t</i> ("Moralidade e criminalidade"), dando-nos uma pequena dimens&atilde;o do efeito que seus escritos pol&ecirc;micos tinham em sua sociedade. Walter Benjamin fala da "intera&ccedil;&atilde;o estranha entre a teoria reacion&aacute;ria e da pr&aacute;tica revolucion&aacute;ria que &eacute; cumprida em todo Kraus".<a name="3b*"></a><a href="#3a*"><sup>3*</sup></a> De acordo com Benjamin, o movimento operado pela escrita de Kraus era retroativo e aparentemente conservador, por&eacute;m, tratava-se de uma pr&aacute;tica progressista que se materializava em uma apar&ecirc;ncia c&iacute;nica frente ao novo, e essa era para Benjamin a caracer&iacute;stica mais forte do trabalho de Kraus.  Benjamin alude a uma pr&aacute;tica de ataque da parte do escritor que teria por motiva&ccedil;&atilde;o trazer o objeto de volta &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o de origem, isto &eacute;, a um estado em que o objeto irradia indaga&ccedil;&otilde;es a um sujeito que as recebe e elabora um sentido para elas, desdobrando essas indaga&ccedil;&otilde;es em novos problemas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando se atenta para o t&iacute;tulo do o artigo "Negativo e ornamental: um poema de Carlito Azevedo em seus problemas", j&aacute; se percebe logo no t&iacute;tulo que h&aacute; a retomada mascarada de velhos debates, pois ao parafrasearem, sem citar, o t&iacute;tulo do ensaio de Adolf Loos que foi publicado na "ultra-avan&ccedil;ada" Viena dos anos de 1908, os cr&iacute;ticos liter&aacute;rios autores do artigo sobre o poema de Carlito Azevedo fazem ecoar sentido e o efeito social do ensaio de Adolf Loos.<a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a> O artigo dos cr&iacute;ticos brasileiros desenha parcialmente o marco ao qual a an&aacute;lise proposta estaria circunscrita - um poema de Carlito Azevedo. No entanto, as ambi&ccedil;&otilde;es do artigo ultrapassam uma an&aacute;lise meramente textual e o leitor se depara com a arquitetura do julgamento de toda a poesia do poeta Carlito Azevedo e, por extens&atilde;o, de toda a poesia que se pensa a si mesma como contempor&acirc;nea. Tal pretens&atilde;o do ensaio igualmente mimetiza os procedimentos do sistema de an&aacute;lise desenhado pela cr&iacute;tica marxista que exige que sua interven&ccedil;&atilde;o seja capaz de produzir um julgamento eficaz e funcional em rela&ccedil;&atilde;o a um ideal de totalidade. Tanto a arte como a poesia t&ecirc;m que funcionar na l&oacute;gica de uma totalidade. N&atilde;o se deve negligenciar o coment&aacute;rio de Theodor Adorno a respeito do ensaio de Loos. Quando publica o texto "Revendo o Surrealismo", em <i>Notas de Literatura</i>,<a name="5b"></a><a href="#5a"><sup>5</sup></a> confirma o preconceito contra o ornamento de Loos, dizendo que at&eacute; surrealismo rejeitou o ornamento, e pensou-o a partir de uma negatividade. Entretanto, a pr&oacute;pria sociedade j&aacute; n&atilde;o queria mais pensar o negativo uma vez que os homens recusavam esta consci&ecirc;ncia negativa, e conclui, por isso, que at&eacute; o Surrealismo tornou-se sem fun&ccedil;&atilde;o. H&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de semelhan&ccedil;a tanto de argumenta&ccedil;&atilde;o como de julgamento entre o ensaio de Loos, o julgamento de Adorno e o dos cr&iacute;ticos brasileiros que salta aos olhos do leitor. Iumna Maria Simon e Vin&iacute;cius Dantas t&ecirc;m raz&atilde;o quando indicam j&aacute; na primeira frase de seu artigo que ainda est&aacute; por fazer-se "uma hist&oacute;ria da intertextualidade na experi&ecirc;ncia recente da poesia brasileira em que se diferenciem as v&aacute;rias pr&aacute;ticas de apropria&ccedil;&atilde;o, glosa e cr&iacute;tica dos materiais da tradi&ccedil;&atilde;o. E tampouco se registrou como essas pr&aacute;ticas se modificaram ao correr do tempo".<a name="4b*"></a><a href="#4a*"><sup>4*</sup></a> Pode-se dizer o mesmo com rela&ccedil;&atilde;o a essa pr&aacute;tica na cr&iacute;tica liter&aacute;ria, especialmente nos usos decalcados que se fazem no presente de debates antigos, e, com isso, torna-se urgente uma reflex&atilde;o sobre a cr&iacute;tica neo-rom&acirc;ntica e seus arqu&eacute;tipos. O espa&ccedil;o-tempo que nos separa do passado e do futuro, e que opera a distin&ccedil;&atilde;o entre a glosa e o coment&aacute;rio do texto original, deveria ser o de assumir uma posi&ccedil;&atilde;o de se estar em jogo, de compreender que aquilo que deixamos para tr&aacute;s pode, por fatores de probabilidade e condi&ccedil;&otilde;es factuais, comprometer as pr&aacute;ticas do presente e, do mesmo modo, que aquele que est&aacute; &agrave; frente pode afetar o presente na sua impossibilidade mesma de alcance. Esse modo de operar vem da f&oacute;rmula de Karl Kraus expressa na ep&iacute;grafe a este artigo: "diferen&ccedil;a, e que s&oacute; essa diferen&ccedil;a faz existir um espa&ccedil;o de manobra (<i>Spielraum</i>) para a cultura".<a name="5b*"></a><a href="#5a*"><sup>5*</sup></a> Transcrevo a cita&ccedil;&atilde;o em alem&atilde;o porque o sentido dessa frase &eacute; fundamental para a compreens&atilde;o do que se prop&otilde;e como fun&ccedil;&atilde;o da arte e de sua cr&iacute;tica: "<i>ein Unterschied ist und da&#223; in diesem Unterschied erst die Kultur Spielraum hat</i>".<a name="6b*"></a><a href="#6a*"><sup>6*</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O m&eacute;todo empreendido pelos cr&iacute;ticos Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas se assemelha em muito ao de Loos e Kraus na cr&iacute;tica direcionada aos produtores culturais de sua cultura e de seu tempo. Todos investem naquilo que poder&iacute;amos chamar de um "estilo polemista", apresentam um mapeamento e uma an&aacute;lise radical, que agem de modo conservador, dos dados constatados. Em ambas as situa&ccedil;&otilde;es, tanto da "ultra-avan&ccedil;ada" cultura da Viena dos anos de 1908 e 1909 como da poesia brasileira, tamb&eacute;m muito sofisticada em fins do s&eacute;culo XX, trata-se de uma den&uacute;ncia de falseamento do car&aacute;ter avan&ccedil;ado que os objetos analisados aparentemente apresentam. Os objetos s&atilde;o analisados por todos os cr&iacute;ticos em quest&atilde;o como n&atilde;o tendo "fun&ccedil;&atilde;o" na sociedade em que s&atilde;o produzidos. No entanto, n&atilde;o posso cobrar da rela&ccedil;&atilde;o que se estabelece entre essa tradi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica a mesma coisa que eles cobram de seus objetos. N&atilde;o irei buscar a constata&ccedil;&atilde;o que eles s&atilde;o semelhantes em seus m&eacute;todos e julgamentos, procuro justamente o espa&ccedil;o de manobra entre eles e que poder&aacute; permitir que encontremos nesse amontoado de cinzas algo de vivo para o tempo presente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seu ensaio <i>Ornamento e crime</i>, o julgamento que Adolf Loos desfere contra os artistas do estilo <i>Art Nouveau</i> &eacute; taxativo, incontorn&aacute;vel, absoluto e injusto. Venho tentando demonstrar nos &uacute;ltimos anos com meu trabalho de pesquisa sobre a "perviv&ecirc;ncia"<a name="6b"></a><a href="#6a"><sup>6</sup></a> na poesia de vanguarda brasileira e sul-americana que essa "perviv&ecirc;ncia" tanto do nosso passado colonial como da modernidade decadentista na modernidade sul-americana n&atilde;o impinge culpa alguma &agrave;s vanguardas ou qualquer dem&eacute;rito &agrave; poesia moderna brasileira ou sul-americana. No entanto, no caso de Loos, a inten&ccedil;&atilde;o era a de separar a arquitetura da arte por ser a arte, segundo o ensa&iacute;sta, menos funcional e, portanto, menos &uacute;til, que a arquitetura (divis&atilde;o esta que as artes aplicadas n&atilde;o cessavam de colocar em crise). Essa inten&ccedil;&atilde;o estava fundamentada no argumento de que "<i>Descubr&iacute; lo siguiente y lo comuniqu&eacute; al mundo: la evoluci&oacute;n de la cultura equivale a la eliminaci&oacute;n del ornamento del objeto utilit&aacute;rio</i>".<a name="8b*"></a><a href="#8a*"><sup>8*</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com seu ensaio, Loos inicia uma cruzada contra o ideal de obra de arte total ou o da cultura das belas artes. E seu argumento e consequente julgamento do <i>Art Nouveau</i> n&atilde;o poderiam ser mais injustos: associa o uso do ornamento ao crime. Isso se transformou em um lema da cr&iacute;tica modernista contra o decadentismo. Loos era um grande polemista e, juntamente com Karl Kraus, chegou a ser considerado pelos defensores da arte e da cr&iacute;tica funcionalista como verdadeiro guardi&atilde;o flagelador do impuro e do sup&eacute;rfluo. Claro que esses polemistas despertar&atilde;o a aten&ccedil;&atilde;o de Walter Benjamin, pois novamente tinha diante de si o argumento de que cr&iacute;tica e arte deveriam ser julgadas em inst&acirc;ncias separadas. Com isso, o que se observa &eacute; a forma&ccedil;&atilde;o de certos modelos da cr&iacute;tica, operados ao longo de sua pr&oacute;pria pr&aacute;tica, que de algum modo negligenciam os aspectos hist&oacute;ricos das demandas de seu tempo. Uma pergunta em clave hist&oacute;rica deve ser feita: o que o ornamento tem a dizer para a opera&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica contempor&acirc;nea? Ou ainda, o que o debate contra o ornamento produz na opera&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica e na opera&ccedil;&atilde;o com as formas art&iacute;sticas?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas, a poesia de Carlito Azevedo &eacute; ornamental e negativa, vazia de conte&uacute;do vivido, e na qual n&atilde;o se pode levar a s&eacute;rio nem mesmo sua carater&iacute;stica mais forte constatada pelos cr&iacute;ticos como sendo "a vertigem", pois a vertigem &eacute; uma met&aacute;fora er&oacute;tica e o erotismo na poesia de Carlito Azevedo, ainda segundo os cr&iacute;ticos, &eacute; produto de um "espet&aacute;culo textual gozosamente tatuado".<a name="9b*"></a><a href="#9a*"><sup>9*</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em <i>Design and crime, and others diatribes </i>(2002), Hal Foster comenta, em releitura hist&oacute;rica, a "cruzada" de Adolf Loos contra o ornamento na arquitetura. Num dos textos desse livro, "Design and crime", o cr&iacute;tico constr&oacute;i uma rede de semelhan&ccedil;as entre o <i>Style 1900</i> ou <i>Art Nouveau </i>e o que ele denomina de <i>Style 2000</i> para fazer o leitor ouvir as novas resson&acirc;ncias de um velho debate. Foster relembra que o uso e a cr&iacute;tica ao ornamento n&atilde;o paracem ter ficado para tr&aacute;s e n&atilde;o est&atilde;o muito longe de nossa &eacute;poca cultural. Entretanto, h&aacute; diferen&ccedil;as e s&atilde;o essas diferen&ccedil;as que tornam o debate interessante para o presente. Foster destaca o modo de operar a cultura que girava em torno de um ideal de "obra de arte total", <i>Gesamtkunstwerk</i>, obra composta por meio das artes e of&iacute;cios, o que submeteu a arte a uma esp&eacute;cie de processo de indiferencia&ccedil;&atilde;o entre subjetividade e "objetualidade" em que o artista se esfor&ccedil;ava para imprimir sua subjetividade em todos os tipos de objetos mediante uma express&atilde;o vitalista, tendo com esse processo o desejo de resistir, de alguma maneira, ao avan&ccedil;o da reifica&ccedil;&atilde;o industrial. Adolf Loos, com sua austera pr&aacute;tica da arquitetura, n&atilde;o acreditava, segundo Foster, que com o uso do ornamento se fosse capaz de "resistir" &agrave; reifica&ccedil;&atilde;o humana, tornando-se um grande cr&iacute;tico do hibridismo est&eacute;tico do <i>Art Nouveau</i>. A pol&ecirc;mica se instaurou motivada pelo achincalho produzido por Loos quando associa o estilo <i>Art Nouveau </i>a rabiscos de crian&ccedil;a nas paredes e &agrave; pele tatuada de um "Papua". E ainda vaticinou do alto de sua moral dizendo que o estilo ornamental era er&oacute;tico e degenerado, uma invers&atilde;o do caminho correto da civiliza&ccedil;&atilde;o e, portanto, deveria ser sublimado, separado e purificado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; poss&iacute;vel encontrar um espa&ccedil;o de manobra entre o julgamento de Loos do erotismo decadentista do final do s&eacute;culo XIX e o taxativo julgamento dos cr&iacute;ticos brasileiros ao se referirem a uma poesia que n&atilde;o apresenta um erotismo original e verdadeiro? Ou, ainda, que seu erotismo advidiria do recalque sublimador no uso discursivo da tradi&ccedil;&atilde;o? Nesse sentido, caberia mais uma vez perguntar: quando o erotismo n&atilde;o foi um uso discursivo e perform&aacute;tico? Mas deixemos de buscar por origens e sistematiza&ccedil;&otilde;es, porque esse debate poderia se repetir tantas vezes quisermos. Basta lembrar o que M&aacute;rio de Andrade cobrou da poesia dos parnasianos brasileiros e tamb&eacute;m da poesisa de  Oswald de Andrade: "faltava-lhes o lirismo". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De outra parte, seria interessante pensar como uma quest&atilde;o do passado volta a provocar crise e para tal deve ser repensada j&aacute; em suas formula&ccedil;&otilde;es iniciais, n&atilde;o tomando como dadas as conclus&otilde;es que historicamente foram atribu&iacute;das a essas mesmas quest&otilde;es em sua &eacute;poca, bem como nas &eacute;pocas que a sucederam. No caso da cr&iacute;tica de Hal Foster ao conservadorismo polemista de Loos, a an&aacute;lise conclui que o modernismo propagou uma atitude reativa e inconteste contra o ornamento.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>Este ditado anti-decorativo &eacute; um mantra modernista, se &eacute; que alguma vez houve um, e para o dom&iacute;nio puritano ele est&aacute; inscrito em cada palavra que os p&oacute;s-modernos usam, por sua vez, para condenar os modernistas como Loos.<a name="7b"></a><a href="#7a"><sup>7</sup></a>, <a name="10b*"></a><a href="#10a*"><sup>10*</sup></a> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cr&iacute;tico norte-americano d&aacute; &ecirc;nfase cr&iacute;tica ao fato de que devemos encontrar algo nesse debate entre Loos e os modernos que retome essa mesma crise instaurada na modernidade ocidental, crise essa que nos constitui a todos n&oacute;s enquanto modernos. </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>Mas talvez os tempos tenham mudado novamente; talvez estejamos em um momento em que as distin&ccedil;&otilde;es entre as pr&aacute;ticas possam ser revalorizadas ou refeitas - sem a bagagem ideol&oacute;gica da pureza e da propriedade anexadas a essas retomadas.<a name="8b"></a><a href="#8a"><sup>8</sup></a>, <a name="11b*"></a><a href="#11a*"><sup>11*</sup></a> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cr&iacute;tica de Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas guarda estreitas rela&ccedil;&otilde;es com a pr&aacute;tica cr&iacute;tica modernista opondo-se ao ornamento e, portanto, contra a n&atilde;o funcionalidade. Padece, assim, do mesmo problema modernista de n&atilde;o incluir a si mesma no quadro no qual o ornamento vicejaria. Ao n&atilde;o incluir a arte ornamental no &acirc;mbito da arte moderna, a cr&iacute;tica n&atilde;o inclui a si mesma no interior da crise, e emite seu julgamento situada em um lugar privilegiado, vale dizer, a partir de um exterior. As consequ&ecirc;ncias de uma posi&ccedil;&atilde;o como essa conduzem o pensamento do e sobre o moderno para fora da crise que instaura a pr&oacute;pria modernidade: a crise da linguagem, da representa&ccedil;&atilde;o e, por consequ&ecirc;ncia, do legado a ser transmitido. N&atilde;o produz dessa maneira o questionamento sobre aquilo que n&atilde;o cessa de n&atilde;o se inscrever, n&atilde;o cessa de escapar-nos: a de como lidar com a rela&ccedil;&atilde;o vital entre a cr&iacute;tica e a hist&oacute;ria do pensamento ocidental. Ou ainda: a de "como" prover de um sentido revolucion&aacute;rio a batalha da cr&iacute;tica contra a superficialidade e a banalidade na cultura na primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI? Entre o progressismo e o cinismo, h&aacute; algum espa&ccedil;o de manobra que possa fornecer a possibilidade da exist&ecirc;ncia de uma cultura? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se h&aacute; um processo de "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o" na poesia brasileira<a name="9b"></a><a href="#9a"><sup>9</sup></a> iniciado na &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo XX, mais do que a constata&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno, a tarefa da cr&iacute;tica &eacute; encontrar aquilo que Walter Benjamin reivindicava para toda a motiva&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, isto &eacute;, descobrir e trazer novamente &agrave; vida o que pervive da fa&iacute;sca do vivo nas cinzas que restaram da combust&atilde;o da hist&oacute;ria em seu sentido de transforma&ccedil;&atilde;o e amadurecimento.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>Si, para usar una comparaci&oacute;n, se quiere ver la obra en crecimiento como una hoguera en llamas, el comentarista est&aacute; frente a ella como un qu&iacute;mico; el cr&iacute;tico como un alquimista. Mientras que para aqu&eacute;l s&oacute;lo quedan como objeto de su an&aacute;lisis maderas y cenizas, para &eacute;ste s&oacute;lo la llama misma conserva un enigma: el de lo vivo. As&iacute;, el cr&iacute;tico pregunta por la verdad, cuya llama viva sigue ardiendo sobre los pasados le&ntilde;os de lo que ha sido y las ligeras cenizas de lo vivido.<a name="12b*"></a><a href="#12a*"><sup>12*</sup></a> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os cr&iacute;ticos brasileiros em quest&atilde;o constatam um "movimento" em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o" da poesia. Partindo dessa constata&ccedil;&atilde;o, a a&ccedil;&atilde;o mais urgente a se empreender &eacute; a de ouvir criticamente o que nesse reacomodar de camadas, que &eacute; o terremoto da hist&oacute;ria, surge como uma voz que pode produzir a cultura, ou ainda, como na formula&ccedil;&atilde;o de Kraus, o que cria a necessidade no ser humano de se movimentar e de viver nesse espa&ccedil;o de morte que &eacute; o passado. Tal atitude exige uma busca do cr&iacute;tico pelo espa&ccedil;o de manobra entre o tradicional e sua "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o", entre a morte e a vida, para que se possa compreender o sentido que essa resson&acirc;ncia devolve ao presente, ou seja, colocar em jogo, em movimento esse processo de rever&ecirc;ncia ao passado observado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se h&aacute; a retomada, ou ainda, como proponho, se h&aacute; a "perviv&ecirc;ncia" de elementos do passado na arte, e, portanto, na poesia contempor&acirc;nea, esses elementos est&atilde;o vivos. Esta sim &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o viva, por&eacute;m residual, uma vez que eles subsistem enquanto fa&iacute;sca, enquanto possibilidade, entretanto t&ecirc;m outra raz&atilde;o de ser que n&atilde;o aquelas que tiveram em seus outros modos de vida. Se h&aacute; uma op&ccedil;&atilde;o pelo conceito de "perviv&ecirc;ncia" para ler os movimentos da cultura, claramente &eacute; em outro modo de entender a rela&ccedil;&atilde;o com a tradi&ccedil;&atilde;o que se posiciona. Walter Benjamin, para quem a rela&ccedil;&atilde;o com o passado era fundamental para ler o presente, compreendeu a "perviv&ecirc;ncia" - "<i>das Fortleben</i>": o viver em, o viver atrav&eacute;s -  na rela&ccedil;&atilde;o que o texto resultante de uma tradu&ccedil;&atilde;o mantinha com o original. Escrito como pref&aacute;cio &agrave;s tradu&ccedil;&otilde;es para o alem&atilde;o que Benjamin fizera de poemas de Charles Baudelaire, o ensaio no qual &eacute; desenvolvido o conceito de <i>Fortleben</i> &eacute; uma proposi&ccedil;&atilde;o clara da rela&ccedil;&atilde;o do escritor com o passado. Deve-se ressaltar aqui que o ensaio sobre a tarefa do tradutor foi escrito durante os mesmos anos nos quais Benjamin se dedicava a escrever sobre a fun&ccedil;&atilde;o da cr&iacute;tica, ou seja, ao redor dos anos de 1916-1923, anos de prepara&ccedil;&atilde;o das tradu&ccedil;&otilde;es dos poemas de Baudelaire, de 1914-1915, quando escreve o ensaio sobre H&ouml;lderlin, e de 1919 quando foi terminada a primeira vers&atilde;o do ensaio sobre o livro <i>As afinidades eletivas</i>, ensaio cujo tema de investiga&ccedil;&atilde;o &eacute;, antes de tudo,  a fun&ccedil;&atilde;o da cr&iacute;tica como uma "busca aut&ecirc;ntica" pela verdade. &Eacute; interessante lembrar aqui tamb&eacute;m que &eacute; durante esses anos que Walter Benjamin trabalha na revolucion&aacute;ria pesquisa sobre o barroco. Entre seu esbo&ccedil;o, em 1916, e sua vers&atilde;o final, em 1925, no livro <i>Origem do drama barroco alem&atilde;o</i> observa-se a obsess&atilde;o do cr&iacute;tico em elaborar um m&eacute;todo anacr&ocirc;nico com o qual ele pudesse ler o seu presente mediante a an&aacute;lise da hist&oacute;ria a contrapelo. Benjamin estava muito interessado em compreender o expressionismo das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, para tal empreendeu uma tarefa de pesquisar o barroco enquanto uma teoria da linguagem na modernidade e tentar "medir" a intensidade e "modo de vida" de sua &eacute;poca frente a essa "perviv&ecirc;ncia".</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>Nessa aventura, a falta de autonomia caracter&iacute;stica da presente gera&ccedil;&atilde;o sucumbiu ao peso impressionante do Barroco, ao defrontar-se com ele. Somente em poucos casos a mudan&ccedil;a de perspectiva que come&ccedil;ou com o expressionismo, embora tenha sido afetada pela po&eacute;tica de Stefan George, levou a uma intui&ccedil;&atilde;o capaz de descobrir novas e verdadeiras conex&otilde;es, n&atilde;o entre o cr&iacute;tico moderno e seu objeto, <i>mas dentro do pr&oacute;prio objeto</i>.<a name="13b*"></a><a href="#13a*"><sup>13*</sup></a> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, n&atilde;o se trata de encontrar, nisso que alguns cr&iacute;ticos denominam como teoria e pr&aacute;tica neobarrocas, posi&ccedil;&otilde;es transgressivas frente ao estabelecido ou formula&ccedil;&otilde;es de experi&ecirc;ncias exclu&iacute;das, ou, ainda, n&atilde;o se trata de criar um espa&ccedil;o para uma teoria n&atilde;o oficial da mesti&ccedil;agem (o que quer que seja uma mesti&ccedil;agem oficial). Retomar criticamente o problema do barroco &eacute;, segundo uma postura cr&iacute;tica produtiva, repensar o seu pr&oacute;prio objeto; n&atilde;o &eacute; estabelecer com ele uma rela&ccedil;&atilde;o de identidade, ou seja, entre cr&iacute;tico e objeto, &eacute;, ao contr&aacute;rio, descobrir nele novas e verdadeiras conex&otilde;es a ponto de redimensionar sua pr&oacute;pria pr&aacute;tica da linguagem. Uma teoria do barroco pensada como teoria da linguagem na modernidade n&atilde;o resulta necessariamente em composi&ccedil;&otilde;es transgressivas. Ademais, ser ou n&atilde;o transgressivo n&atilde;o se deve simplesmente &agrave; posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de reconhecer ou n&atilde;o c&acirc;nones e de manter ou n&atilde;o o devido respeito frente &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o. Ser transgressivo &eacute; compreender-se como n&atilde;o lugar ou compreender o lugar como algo mais <i>origin&aacute;rio</i> que o espa&ccedil;o. Se h&aacute; algo fora de lugar nessa pr&aacute;tica da linguagem &eacute; precisamente o de n&atilde;o haver o reconhecimento de "um" lugar, lugar privilegiado para observa&ccedil;&atilde;o, ou, ainda, seu movimento &eacute; em busca do lugar em que se vive a cis&atilde;o entre palavra e referente, teoria essa j&aacute; formulada por Michel Foucault em seu, n&atilde;o t&atilde;o novo, por&eacute;m, inesquec&iacute;vel estudo sobre a linguagem na modernidade: <i>As palavras e as coisas</i>. H&aacute; uma maneira de ler o barroco e o neobarroco como uma reflex&atilde;o filos&oacute;fica e pr&aacute;tica sobre a pol&iacute;tica da domina&ccedil;&atilde;o, da soberania dos sujeitos, isto &eacute;, da sujei&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria, da autocensura como aberra&ccedil;&atilde;o inserida no cora&ccedil;&atilde;o do sistema e do pr&oacute;prio sentido dos la&ccedil;os sociais. Portanto, h&aacute; mais coisas entre o barroco e n&oacute;s do que nos fazem ver os outros modos de compreender o neobarroco. Al&eacute;m da transgress&atilde;o h&aacute; o horizonte de discuss&atilde;o daquilo que fundamenta e erige as rela&ccedil;&otilde;es sociais. H&aacute; uma discuss&atilde;o visceral, portanto, corporal sobre o poder.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O artigo de Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas constata que a escrita de Carlito Azevedo &eacute; altamente hedonista e caprichosa em suas idas e vindas, mas, se isso &eacute; um fato, n&atilde;o &eacute; porque essa poesia deseja continuar dentro de uma tradi&ccedil;&atilde;o, ou ainda, porque deseja evitar as inconsist&ecirc;ncias e inconsequ&ecirc;ncias das pr&aacute;ticas provocadoras. Ao contr&aacute;rio, o artista sabe que as &eacute;pocas de decad&ecirc;ncia art&iacute;stica s&atilde;o &eacute;pocas de "vontade" art&iacute;stica. Sabe que n&atilde;o pode inventar mais nada, por isso mimetiza o fazer art&iacute;stico e o transforma em um "querer" art&iacute;stico e &eacute; por isso que l&ecirc; com dignidade a sua &eacute;poca, ele n&atilde;o tem a pretens&atilde;o de ser um grande artista e tampouco de oferecer f&oacute;rmulas ou formula&ccedil;&otilde;es pass&iacute;veis de se transformarem em um estilo transmiss&iacute;vel: porque original, pessoal e fruto de experi&ecirc;ncia individual. O artista sabe que esses s&atilde;o os quesitos do c&acirc;none moderno, e isso permitiria a uma obra ser transmitida como legado. O termo "legado" em latim quer dizer "enviado". O enviado &eacute; aquele que est&aacute; institu&iacute;do do poder de dizer algo sobre sua &eacute;poca, seu ditado tornar-se-&aacute; apropri&aacute;vel, propriedade. Por&eacute;m, ler e dizer algo com dignidade n&atilde;o quer dizer simplesmente compreender e, ao mesmo tempo, ser apropriado por sua &eacute;poca. Giorgio Agamben, em seu livro <i>Id&eacute;ia da prosa</i>, escreve sobre a ideia de &eacute;poca criticando a obsess&atilde;o do presente tempo em salvar, no sentido de resgatar, toda a cultura da barb&aacute;rie instaurada pelo moderno, sem perceber que da barb&aacute;rie somos todos coparticipantes. Essa opera&ccedil;&atilde;o de salvamento resulta no seu contr&aacute;rio: ao n&atilde;o querer perder a nova &eacute;poca que j&aacute; chegou ou chegar&aacute;, mesmo que seja a &eacute;poca da impossibilidade de ser uma &eacute;poca, perde-se a &eacute;poca. O pensamento conservador, com isso, perde sua capacidade de admira&ccedil;&atilde;o, de paix&atilde;o pela possibilidade de recome&ccedil;ar tudo desde o in&iacute;cio.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E n&atilde;o h&aacute; nada mais triste que o esgar com que, no meio do mal-estar geral, os mais espertos roubam aos seus semelhantes os seus pr&oacute;prios sofrimentos, mostrando-lhes que eles s&atilde;o apenas os hier&oacute;glifos, para eles pr&oacute;prios por enquanto indecifr&aacute;veis, da nova felicidade dessa &eacute;poca. &#91;...&#93;    <br>   Em nossa obstina&ccedil;&atilde;o de nos darmos tempo, perdemos o sentido deste dom, tal como, no nosso querer incessantemente tomar a palavra, &eacute; a pr&oacute;pria raz&atilde;o da linguagem que perdemos.<a name="14b*"></a><a href="#14a*"><sup>14*</sup></a> </p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Agamben, o contempor&acirc;neo &eacute; aquilo que se pode entrever na temporalidade do presente &eacute; sempre retorno que n&atilde;o cessa de se repetir, e de nunca se inscrever, portanto, nunca funda uma origem e, com isso, aproxima-se da no&ccedil;&atilde;o de poesia. Penso que &eacute; disso que se trata, quando se analisa em clave hist&oacute;rica o artigo de Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas. Ao n&atilde;o se dar conta de que cr&iacute;tica e poesia mant&ecirc;m-se em vital rela&ccedil;&atilde;o com seu passado e que est&atilde;o totalmente imbricadas com o seu presente, os cr&iacute;ticos n&atilde;o se d&atilde;o conta do espa&ccedil;o de manobra entre eles e sua tradi&ccedil;&atilde;o, perdem a capacidade ou a pot&ecirc;ncia de admira&ccedil;&atilde;o, de paix&atilde;o pela possibilidade de recome&ccedil;ar tudo desde o in&iacute;cio, ou seja, pela possibilidade de poder dizer "de novo"; em outras palavras, n&atilde;o conseguem produzir a cultura justamente por n&atilde;o se colocarem em jogo nesse espa&ccedil;o de manobra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute;, portanto, como estabelecer qualquer tipo de rela&ccedil;&atilde;o com a tradi&ccedil;&atilde;o se s&atilde;o escolhidos <i>a priori</i> conceitos como o de criminalidade e de ornamental. A rela&ccedil;&atilde;o com o passado, como nos demonstra Walter Benjamin, &eacute; sempre de atraso e reten&ccedil;&atilde;o. Num procedimento que mant&eacute;m conex&otilde;es com o pensamento barroco no sentido de uma teoria da linguagem na modernidade, pode-se afirmar que a entrada na temporalidade do presente &eacute; uma caminhada em dire&ccedil;&atilde;o a uma arqueologia daquilo que no presente n&atilde;o podemos viver e, "restando n&atilde;o vivido, &eacute; incessantemente relan&ccedil;ado para a origem, sem jamais poder alcan&ccedil;&aacute;-la."<a name="15b*"></a><a href="#15a*"><sup>15*</sup></a> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Baltazar Graci&aacute;n, talvez o mais instigante pensador do mundo barroco, discorre sobre arte na sua rela&ccedil;&atilde;o com os modos de vida. A arte pode ser pensada como produtora de um saber pr&aacute;tico que antes de mais nada &eacute; tamb&eacute;m uma maneira de pensar as rela&ccedil;&otilde;es de e com o poder. Em <i>A agudeza e a arte do engenho</i>, Graci&aacute;n desenvolve sua no&ccedil;&atilde;o de "arte sutil" como uma dobra da no&ccedil;&atilde;o mesma de "reserva". Uma arte sutil requer uma dila&ccedil;&atilde;o, uma hesita&ccedil;&atilde;o e um atraso. O <i>r&eacute;ten</i>, a reserva, em todas as mat&eacute;rias sempre foi uma grande regra do viver, sobretudo o do viver com &ecirc;xito, o que era uma quest&atilde;o de extrema import&acirc;ncia para o pensador barroco. Nesse sentido, n&atilde;o h&aacute; como concordar com a rejei&ccedil;&atilde;o por parte do artigo dos cr&iacute;ticos brasileiros em quest&atilde;o de que a poesia de Carlito Azevedo n&atilde;o &eacute; neobarroca porque n&atilde;o &eacute; transgressiva, porque reafirma "a ilus&atilde;o liter&aacute;ria e refunda a literatice como p&oacute;s-vanguardismo";<a name="16b*"></a><a href="#16a*"><sup>16*</sup></a> essa poesia &eacute; neobarroca porque compreende e assume o labor da sua tarefa de interrogar, formular e proferir o ditame da poesia na modernidade. A consequ&ecirc;ncia disso &eacute; que visitar o passado como se ele estivesse disposto em prateleiras de um grande bazar de novidades antigas n&atilde;o tem o sentido de interrup&ccedil;&atilde;o ou de nega&ccedil;&atilde;o da possibilidade de dizer. O problema do dizer n&atilde;o &eacute; um problema restrito ao poeta moderno; &eacute;, ao contr&aacute;rio, um problema da modernidade, da modernidade pensada enquanto crise - crise da linguagem, da representa&ccedil;&atilde;o e do tempo. Como problema instaurado nessa crise, o ornamento perde todo o sentido da imputa&ccedil;&atilde;o de um crime e se pensado como uma pr&aacute;tica do viver do artista moderno perde a sua fun&ccedil;&atilde;o de ornamento. Deixa de ser ornamental, n&atilde;o porque tenha elevado o n&iacute;vel do trabalho e sua pr&aacute;tica da autoreferencialidade passasse a "revelar", como cobram os cr&iacute;ticos de Carlito Azevedo, "os elementos materiais da figura&ccedil;&atilde;o",<a name="17b*"></a><a href="#17a*"><sup>17*</sup></a> tamb&eacute;m n&atilde;o deixa de ser uma impostura da negatividade porque, ainda como reprovam os cr&iacute;ticos, "tenha deixado de se construir com os recursos sabotadores da beleza",<a name="18b*"></a><a href="#18a*"><sup>18*</sup></a> deixando de transformar assim o negativo em ornamental. O poema deixa de sofrer a imputa&ccedil;&atilde;o do crime da ornamenta&ccedil;&atilde;o porque tem que cumprir uma fun&ccedil;&atilde;o, esta sim inexor&aacute;vel, a de obedecer ao ditame da poesia.  E qual &eacute; esse ditame? O de escapar ao sil&ecirc;ncio a que estamos todos os modernos condenados. Escapar ao car&aacute;ter celebrat&oacute;rio do poder institu&iacute;do - venha ele de onde vier, seja ele quem seja -  que a sociedade moderna imputou &agrave; poesia. E o modo de operar dessa poesia &eacute; o de fazer "girar em falso" a engrenagem da l&iacute;ngua, fazendo com que um hino opere como uma elegia, na qual a perda cantada tradicionalmente no g&ecirc;nero n&atilde;o tenha o sentido propriamente de uma perda e sim de um an&uacute;ncio da poesia "que vem", "que est&aacute; vindo". Nesse sentido, os cr&iacute;ticos de Carlito Azevedo n&atilde;o precisariam mais ficar preocupados porque constatam que a rela&ccedil;&atilde;o do poeta, "tal qual (n)outros poetas atuais, com a arte &eacute; quase sempre uma par&aacute;frase de inten&ccedil;&otilde;es (imaginadas ou documentadas)" seja uma rela&ccedil;&atilde;o meramente "tem&aacute;tica" marcada por uma "gra&ccedil;a p&oacute;s-moderna, imaginemos, de fazer odes ou elegias para desenhos de Lichtestein ou glosar Rothko para dissertar sobre a efemeridade da vida".<a name="19b*"></a><a href="#19a*"><sup>19*</sup></a> Se compreendidos como manifesta&ccedil;&atilde;o e di&aacute;logo com a modernidade pensada enquanto "crise", essa rela&ccedil;&atilde;o deixa de ser  meramente tem&aacute;tica, para erigir-se como cr&iacute;tica ao presente que se instaura no cora&ccedil;&atilde;o mesmo da mitologia da &eacute;poca. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Escapar ao sil&ecirc;ncio, escapar ao mito que nos funda de que n&atilde;o h&aacute; mais nada a ser dito, essa &eacute; a tarefa da poesia e a da cr&iacute;tica hoje. O ditado da poesia &eacute; o de poder dizer novamente o sofrimento, s&oacute; que maneira diferida, fazendo girar em falso a engrenagem autorit&aacute;ria e subordinadora da l&iacute;ngua. &Eacute; por isso que a poesia moderna "diz de novo". E para alguns, isso "soa" como ornamental, como desnecess&aacute;rio, como ast&uacute;cia, ou como aposta em caminhos j&aacute; trilhados e, portanto, mais f&aacute;ceis, sem dificuldades, conforme apregoam Iumna Simon e Vin&iacute;cius Dantas. Essa cobran&ccedil;a &eacute; decorrente de uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica que ainda tem na figura do "her&oacute;i" a figura privilegiada do poeta. Reivindica&ccedil;&atilde;o essa que pode ser encontrada no "antimodelo" de poeta constatado com a poesia de Carlito Azevedo:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>Poesia marginal, Drummond, maneirismo, decadentismo, neobarroco, surrealismo, Cabral - todas essas referencias est&atilde;o comprimidas de tal modo que ganhem indetermina&ccedil;&atilde;o e cada uma delas se perca numa textualidade afetadamente estetizada, nefelibata quase dir&iacute;amos, sugerindo que n&atilde;o h&aacute; evolu&ccedil;&atilde;o de formas e o pluralismo &eacute; vitorioso. Tendo deixado de refletir a press&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o de formas como processo superador em sentido estrutural, a tradi&ccedil;&atilde;o agora parece ser um patrim&ocirc;nio equ&acirc;nime e homog&ecirc;neo, ao qual o intertextualista tem livre acesso a qualquer instante (justamente o oposto da arena de impedimentos, repress&otilde;es e proibi&ccedil;&otilde;es, que definem a vig&ecirc;ncia de uma tradi&ccedil;&atilde;o).* </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do modo como articulam os argumentos, os cr&iacute;ticos parecem requerer mais um poeta e uma poesia que tenham a fun&ccedil;&atilde;o de fazer evoluir as formas da arte (em que pese toda a discuss&atilde;o sobre a "forma" da arte empenhada no in&iacute;cio deste texto), bem como a de "refletir a press&atilde;o da evolu&ccedil;&atilde;o como processo superador", e a de vencer na arena contra os conservadores os "impedimentos, repress&otilde;es e proibi&ccedil;&otilde;es", vit&oacute;ria esta que far&aacute; entrar em vig&ecirc;ncia uma outra tradi&ccedil;&atilde;o. Para os cr&iacute;ticos, a poesia tem uma fun&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o uma tarefa. Uma perguntar merece ser aqui enunciada: a fun&ccedil;&atilde;o de conservador e de revolucion&aacute;rio n&atilde;o assume com isso uma mera altern&acirc;ncia de espa&ccedil;os? Ora institu&iacute;dos, ora instituintes? O obedecer ao ditado ou ditame, tomado como tarefa da poesia, tem sempre uma disposi&ccedil;&atilde;o ao compartilhamento de experi&ecirc;ncias entre os que convivem na e produzem a cultura. O que se busca nesse processo &eacute; justamente o contr&aacute;rio desse niilismo ou m&aacute; f&eacute; constatado. O que se busca &eacute; o poder dizer "de novo" a dor e com isso "ouvir" o sofrimento da cada um, esse poder dizer "de novo" &eacute; decorrente da crise instaurada pelo moderno. A tarefa da cr&iacute;tica n&atilde;o &eacute; cumprida - ao contr&aacute;rio, serve com isso ao niilismo - se ela opera o rapto dessa possibilidade de dizer "de novo".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se a cr&iacute;tica liter&aacute;ria brasileira constata que h&aacute; um processo de "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o" na poesia atual e que essa "retradicionaliza&ccedil;&atilde;o", como em outros julgamentos nos quais j&aacute; se proferiu a senten&ccedil;a, n&atilde;o produz nada de novo ou de interessante na literatura contempor&acirc;nea no Brasil, se a cr&iacute;tica liter&aacute;ria denuncia, sem se sentir inclu&iacute;da, que essa tomada do passado como mercadoria ou como meio de distin&ccedil;&atilde;o social produz uma literatura na qual se desenham palavras sem fundo, sem a contraparte do sentimento e emo&ccedil;&atilde;o das quais elas deveriam ser consequ&ecirc;ncia, h&aacute; uma contraparte nesse quadro geral delimitado pela cr&iacute;tica que pode ser compreendido dentro de outros modos de socializa&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de v&iacute;nculos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o faz parte do horizonte de expectativa do artista contempor&acirc;neo a discuss&atilde;o sobre a fun&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o em sua obra, pois o passado para ele se oferece, como se oferece a todos n&oacute;s, como um tempo cumprido, como um tempo dos mortos. Quem faz esse tipo de cobran&ccedil;a e desfere seus julgamentos implac&aacute;veis se a postura do artista/her&oacute;i n&atilde;o condiz com o legado de transmiss&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o &eacute; uma parte da cr&iacute;tica liter&aacute;ria. A quest&atilde;o da arte e do artista &eacute; a de "como" viver, "como" inventar novos modos de vida frente &agrave; morte. "Como" descobrir a fa&iacute;sca do vivo no peda&ccedil;o de carv&atilde;o que resulta do processo hist&oacute;rico. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para finalizar, exponho um relato de quem trabalha, h&aacute; mais de 15 anos, o ensino e a cr&iacute;tica que se faz na universidade brasileira em rela&ccedil;&atilde;o com as concep&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas do ensino de literatura no ensino m&eacute;dio. Como parte das atividades que planejava e executava com meus alunos do curso de Letras na Universidade Federal de Santa Catarina, entre as quais convidava poetas para falarem com os alunos do ensino m&eacute;dio, convidei certa vez o poeta Carlito Azevedo, que aceitou prontamente meu convite, para uma palestra no Col&eacute;gio de Aplica&ccedil;&atilde;o da universidade. Entre as tantas perguntas que os alunos lhe fizeram e as tantas e quantas respostas que demonstravam aos alunos a viv&ecirc;ncia daquele poeta com a poesia, Carlito em uma de suas respostas a um aluno come&ccedil;ou a falar do poema <i>Un coup de d&eacute;s</i>, de Mallarm&eacute;, como um poema da ambival&ecirc;ncia entre a coragem e a indecis&atilde;o. Destacou a figura do capit&atilde;o do navio, deste que, na fun&ccedil;&atilde;o de her&oacute;i do poema, deveria enfrentar o desafio de conduzir um navio em meio a uma tempestade e de, diante de toda essa dificuldade, tentar impedir que ele fosse a pique. O capit&atilde;o do navio cogita todos os modos de rever a situa&ccedil;&atilde;o catastr&oacute;fica, entre essas maneiras revisita em ritmo de partitura musical toda a tradi&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, todo o ditado da poesia a respeito da cat&aacute;strofe. Desde a <i>Odisseia</i> at&eacute; <i>Las soledades</i> passando tamb&eacute;m por <i>Hamlet</i>. O capit&atilde;o cogita em lan&ccedil;ar os dados, &uacute;nica a&ccedil;&atilde;o que ele se permitiria, pois n&atilde;o abandonaria o navio, recorrendo a quem sabe uma configura&ccedil;&atilde;o estelar capaz de, numa determinada conjun&ccedil;&atilde;o, interferir no destino do navio e no dele. O capit&atilde;o morreria e sem lan&ccedil;ar os dados, afundaria juntamente com o navio, e seu gesto de simult&acirc;nea indecis&atilde;o e coragem - a &uacute;ltima parte de seu corpo a afundar foi o bra&ccedil;o esticado para cima e com a m&atilde;o cerrada contendo dentro dela os dados - foi o gesto de algu&eacute;m tocado pelo contempor&acirc;neo, ou seja, de algu&eacute;m que empreendeu a tarefa de lidar, enfrentando-se com os mortos, com o incompreens&iacute;vel, o inapreens&iacute;vel e o enigm&aacute;tico de sua &eacute;poca. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antes de terminarmos a conversa de Carlito Azevedo com os alunos, pedi a ele que lesse seu poema "Fractal", poema do acidente que tamb&eacute;m revisita todo o ditado da poesia a respeito da cat&aacute;strofe. O poeta preferiu ler o poema "Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno", tamb&eacute;m um poema do acidente, e o leu em ritmo de partitura musical, com tons dram&aacute;ticos, pois h&aacute; outras vozes que comp&otilde;em a circunst&acirc;ncia do acidente. "Mas como o poema ia crescendo, &#91;...&#93;"<a name="20b*"></a><a href="#20a*"><sup>20*</sup></a> e o poeta n&atilde;o parou no final do &uacute;ltimo verso escrito e continuou lendo o poema sem parar, estabelecendo um tipo de comunica&ccedil;&atilde;o sonora com os ouvintes a partir da repeti&ccedil;&atilde;o infinita dos versos do poema. O que se repetia ali? Certamente que n&atilde;o eram meros fonemas que eram repetidos. A repeti&ccedil;&atilde;o daqueles "sons" era a possibilidade de um "dizer de novo" a dor de todos simultaneamente a um "escutar" de novo o sofrimento de cada um.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando sa&iacute;mos todos do audit&oacute;rio do col&eacute;gio, um menino se aproximou e dirigiu-se a Carlito Azevedo: "Professor, professor", disse o menino. "Como &eacute; mesmo o t&iacute;tulo daquele poema do cara que morre com a m&atilde;o fechada sem lan&ccedil;ar os dados?", Carlito permaneceu mais uns vinte minutos conversando com o menino. Havia ali algo a ser dito e algo a ser escutado. Tratava-se do ditado da poesia. Com isso, n&atilde;o se quer dizer que a comunica&ccedil;&atilde;o entre eles estabelecida e os la&ccedil;os sociais ali criados s&atilde;o referentes aos temas da adolesc&ecirc;ncia e que os poetas de hoje t&ecirc;m emo&ccedil;&otilde;es de garotos. Repito a cita&ccedil;&atilde;o de Agamben: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>E n&atilde;o h&aacute; nada mais triste que o esgar com que, no meio do mal-estar geral, os mais espertos roubam aos seus semelhantes os seus pr&oacute;prios sofrimentos, mostrando-lhes que eles s&atilde;o apenas os hier&oacute;glifos, para eles pr&oacute;prios por enquanto indecifr&aacute;veis.<a name="21b*"></a><a href="#21a*"><sup>21*</sup></a> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, que fique dito: a poesia de Carlito Azevedo n&atilde;o &eacute; a poesia brasileira, bem como este texto n&atilde;o &eacute; representativo da cr&iacute;tica de poesia no Brasil de hoje. S&atilde;o apenas tentativas, um "fazer" motivado pela "vontade" art&iacute;stica. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido em  15/03/2012    <br>   Aprovado em  30/03/2012</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Susana Scramim </b>&eacute; professora de Teoria Liter&aacute;ria  da Universidade Federal de Santa Catarina, bolsista de Produtividade em Pesquisa n&iacute;vel 2 do CNPq,  Coordenadora do N&uacute;cleo de Pesquisa em Estudos Liter&aacute;rios e Culturais - NELIC/ UFSC. &Eacute; doutora em Teoria Liter&aacute;ria e Literatura Comparada pela Universidade de S&atilde;o Paulo. P&oacute;s-Doutorado na Universidad de Sevilla, em 2005. Professora Visitante no Talen en culturen van Latijns Amerika (Departamento de Estudos de Cultura Latino-americana), da Leiden Universiteit, na Holanda, em 2007. &Eacute; autora do livro de ensaios de cr&iacute;tica liter&aacute;ria <i>Literatura do Presente</i> (Argos, 2007) e do livro <i>Carlito Azevedo</i>, para a cole&ccedil;&atilde;o <i>Ciranda de Poesia</i> (EdUERJ, 2010). Organizou e preparou a colet&acirc;nea de ensaios de Giorgio Agamben<i> O que &eacute; o contempor&acirc;neo? e outros ensaios</i> (Argos, 2009) e <i>Enigmas. Eg&iacute;pcio, barroco, neobarroco na sociedade e na arte</i>, de Mario Perniola (Argos, 2009). E-mail: &lt;<a href="mailto:sscramim@uol.com.br">sscramim@uol.com.br</a>&gt;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1a*"></a><a href="#1b*">1*</a> (KRAUS, Karl. <i>Aforismos</i>. Renato Zwick (trad.). Porto Alegre: Editorial Arquip&eacute;lago, 2010: 169.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1517-106X201200010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="2a*"></a><a href="#2b*">2*</a> (SIMON, Iumna Maria; DANTAS, Vin&iacute;cius. "Negativo e ornamental: um poema de Carlito Azevedo em seus problemas". In: <i>Novos Estudos.</i> S&atilde;o Paulo: Cebrap, n. 91, novembro de 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1517-106X201200010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="3a*"></a><a href="#3b*">3*</a> (BENJAMIN, Walter. "Karl Kraus". In: <i>Gesammelte Schriften,</i> Band II-1, Herausgegeben von Rolf Tiedmann. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1977: 336.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000081&pid=S1517-106X201200010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="4a*"></a><a href="#4b*">4*</a> (SIMON, Iumna Maria; DANTAS, Vin&iacute;cius, op. cit.: 109)     <!-- ref --><br>   <a name="5a*"></a><a href="#5b*">5*</a> (KRAUS, Karl. <i>Aforismos.</i> Renato Zwick (trad.). Porto Alegre: Editorial Arquip&eacute;lago, 2010: 169.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1517-106X201200010000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="6a*"></a><a href="#6b*">6*</a> (KRAUS, Karl. "Die Zeit". In: <i>Aforismen: Spr&uuml;che und Widerspr&uuml;che; Pro domo et mundo; Nacht</i>. Berlim, Directmedia, 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1517-106X201200010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="7a*"></a><a href="#7b*">7*</a> (LOOS, Adolf. <i>Ornamentos y delito y otros escritos.</i> Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1972: 44.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1517-106X201200010000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <br>   <a name="8a*"></a><a href="#8b*">8*</a> (SIMON, Iumna Maria; DANTAS, Vin&iacute;cius, op. cit.: 119.)     <!-- ref --><br>   <a name="9a*"></a><a href="#9b*">9*</a> (FOSTER, Hal. <i>Design and crime, and others diatribes,</i> New York: Verso, 2002: 14.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000091&pid=S1517-106X201200010000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="10a*"></a><a href="#10b*">10*</a> (<i>Idem</i>)     <!-- ref --><br>   <a name="11a*"></a><a href="#11b*">11*</a> (BENJAMIN, Walter. <i>Dos ensayos sobre Goethe.</i> Barcelona: Gedisa Editorial, 2000: 14)     &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000094&pid=S1517-106X201200010000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="12a*"></a><a href="#12b*">12*</a> (BENJAMIN, Walter. <i>Origem do drama barroco alem&atilde;o.</i> S&atilde;o Paulo: Brasiliense, 1984: 76, grifo meu.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000095&pid=S1517-106X201200010000800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="13a*"></a><a href="#13b*">13*</a> (AGAMBEN, Giorgio. <i>A Id&eacute;ia da prosa</i>. Jo&atilde;o Barrento (trad.). Lisboa: Ed. Cotovia, 1999: 82.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000097&pid=S1517-106X201200010000800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <!-- ref --><br>   <a name="14a*"></a><a href="#14b*">14*</a> (AGAMBEN, Giorgio. "O que &eacute; o contempor&acirc;neo?" In: <i>O que &eacute; o contempor&acirc;neo?</i> e outros ensaios. Vin&iacute;cius Honesko (trad;). Chapec&oacute;: Ed. Unochapec&oacute;, 2009: 55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S1517-106X201200010000800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <br>   <a name="15a*"></a><a href="#15b*">15*</a> (SIMON, Iumna Maria; DANTAS, Vin&iacute;cius, op. cit.: 120)     <br>   <a name="16a*"></a><a href="#16b*">16*</a> (<i>Idem</i>)     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="17a*"></a><a href="#17b*">17*</a> (<i>Idem</i>     <br>   <a name="18a*"></a><a href="#18b*">18*</a> (<i>Ibidem:</i> 117.)    <br>   <a name="19a*"></a><a href="#19b*">19*</a> (<i>Ibidem:</i> 116-117.)    <!-- ref --><br>   <a name="20a*"></a><a href="#20b*">20*</a> (AZEVEDO, Carlito. "Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno". In: <i>Versos de Circunst&acirc;ncia.</i> Rio de Janeiro: Moby Dick Ed., 2001: 7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000106&pid=S1517-106X201200010000800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->)     <br>   <a name="21a*"></a><a href="#21b*">21*</a> (AGAMBEN, Giorgio, op. cit., 1999: 82.)     <br>   <a name="1a"></a><a href="#1b">1</a> No original: "Adolf Loos und ich, er w&ouml;rtlich, ich sprachlich, haben nichts weiter getan als gezeigt, da&#223; zwischen einer Urne und einem Nachttopf ein Unterschied ist und da&#223; in diesem Unterschied erst die Kultur Spielraum hat. Die andern aber, die Positiven, teilen sich in solche, die die Urne als Nachttopf, und die den Nachttopf als Urne gebrauchen". Cf. KRAUS, Karl. "Die Zeit". In: <i>Aforismen: Spr&uuml;che und Widerspr&uuml;che; Pro domo et mundo; Nacht. </i>Berlim, Directmedia, 2007.     <br>   <a name="2a"></a><a href="#2b">2</a> Quando se refere &agrave; rela&ccedil;&atilde;o que o poeta Haroldo de Campos mantinha com a tradi&ccedil;&atilde;o, Iumna Maria Simon reduz essa rela&ccedil;&atilde;o a uma pr&aacute;tica do intertexto e a julga como uma forma de negatividade. Cf. SIMON, Iumna Maria. "Condenados &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o". In: <i>Piau&iacute;</i>, n. 61, outubro de 2011.     <br>   <a name="3a"></a><a href="#3b">3</a> H&aacute; uma edi&ccedil;&atilde;o recente do ensaio de Adolf Loss em portugu&ecirc;s, <i>Ornamento e crime</i>, publicada pela editora Cotovia, de Lisboa, em 2004. As refer&ecirc;ncias que farei aqui s&atilde;o da edi&ccedil;&atilde;o e tradu&ccedil;&atilde;o para o castelhano <i>Adolf Loos: ornamentos y delito y otros escritos</i>, traduzidos por Lourdes Cirlot e Pau P&eacute;rez, da Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 1972.     <br>   <a name="4a"></a><a href="#4b">4</a> Os autores do ensaio apontam as caracter&iacute;sticas da poesia de Carlito Azevedo que os fazem julg&aacute;-la como ornamental e sem fun&ccedil;&atilde;o ou, em suas palavras, negativa. "A autorreferencialidade, rebaixada a elemento entre outros de ourivesaria, obviamente perdeu o teor cr&iacute;tico - metalinguagem passa a significar produ&ccedil;&atilde;o de ilus&atilde;o encadeada, mera componente de uma maquinaria neoesteticista de efeitos, sem compromisso de revelar os elementos materiais da figura&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o mais exerce a fun&ccedil;&atilde;o de criticar seu ve&iacute;culo e refletir sobre o fazer po&eacute;tico, pois agora comp&otilde;e a ret&oacute;rica da imagem (ou da met&aacute;fora), valendo por um espet&aacute;culo verbal e conceitualmente prol&iacute;fico de figuras e paramenta&ccedil;&otilde;es sem fim. A t&ocirc;nica deixou de ser posta na desmontagem das imagens, ou nas interrup&ccedil;&otilde;es autorreflexivas, porquanto a metalinguagem tornou-se instrumento para a produ&ccedil;&atilde;o de beleza dentro do programa esteticista do poema - programa que se formula, como em muita arte contempor&acirc;nea, com os recursos sabotadores e cr&iacute;ticos da beleza, os mesmos da vanguarda e da poesia moderna. Negatividade ornamental, pois." (SIMON, I. M.; DANTAS, V., op. cit.: 119).     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="5a"></a><a href="#5b">5</a> Agrade&ccedil;o &agrave; professora, cr&iacute;tica liter&aacute;ria e poeta Mas&eacute; Lemos pela lembran&ccedil;a do texto sobre o surrealismo de Theodor Adorno.     <br>   <a name="6a"></a><a href="#6b">6</a> Walter Benjamin desenvolve o conceito de <i>perviv&ecirc;ncia, Das Fortleben</i>, argumentando que h&aacute; algo que faz com que alguns elementos ou as obras de arte mesmas sobrevivam para al&eacute;m da &eacute;poca que as viu nascer. O prefixo <i>fort</i> em alem&atilde;o tem o sentido de indicar um movimento em dire&ccedil;&atilde;o a ou de passagem.  No conceito de <i>Fortleben</i>, ou da "perviv&ecirc;ncia" da obra na mem&oacute;ria coletiva, sobressaem as observa&ccedil;&otilde;es sobre "transforma&ccedil;&atilde;o" (<i>Wandlung</i>) e sobre "renova&ccedil;&atilde;o" (<i>Erneuerung</i>). A isso, Walter Benjamin chama o "p&oacute;s-amadurar" (<i>Nachreife</i>) da linguagem da obra, segundo ele "um dos processos hist&oacute;ricos mais fecundos". Cf. BENJAMIN, Walter. "A Tarefa do Tradutor". In: <i>Cl&aacute;ssicos da Teoria da Tradu&ccedil;&atilde;o</i>. Werner Heidermann (org.). Florian&oacute;polis: UFSC, N&uacute;cleo de Tradu&ccedil;&atilde;o, 2001.     <br>   <a name="7a"></a><a href="#7b">7</a> No original: "<i>This anti-decorative dictate is a modernist mantra if ever there was one, and it is for the puritanical propriety inscribed in such words that postmodernists have condemned modernists like Loos in turn.</i>"     <br>   <a name="8a"></a><a href="#8b">8</a> No original: "<i>But maybe times have changed again; maybe we are in a moment when distinctions between practices might be reclaimed or remade - without the ideological baggage of purity and propriety attached.</i>"     <br>   <a name="9a"></a><a href="#9b">9</a> Em artigo j&aacute; citado, "Condenados &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o", a professora Iumna Simon antecipa o julgamento que repetiria no artigo publicado na revista <i>Novos Estudos</i>, a respeito da poesia contempor&acirc;nea brasileira. "O discurso da tradi&ccedil;&atilde;o tornou-se desse modo o fiador de um estado de normalidade contra a exce&ccedil;&atilde;o anterior que, afinal, p&ocirc;de ser controlada pela institucionaliza&ccedil;&atilde;o progressiva, pelo oficialismo midi&aacute;tico e por um calculismo <i>highbrow</i>. Temos de sugerir que a poesia que escrevem est&aacute; integrada a essa pr&aacute;tica relutantemente cr&iacute;tica, que reverencia a tradi&ccedil;&atilde;o e se apropria dela, embora aqui e ali ambos possam temperar o paradigma retradicionalizador com os seus pr&oacute;prios interesses geracionais. Em Carlito Azevedo, o rigor construtivo vira esteticismo escancarado, um dispositivo de dissolu&ccedil;&atilde;o referencial e vertigem sint&aacute;tica que transp&otilde;e a contund&ecirc;ncia do cabralismo para um espet&aacute;culo de indetermina&ccedil;&atilde;o textual movido pelo desejo de ornamento e beleza." (SIMON, Iumna Maria, op. cit.: 9)</font></p>      ]]></body><back>
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