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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ficções urbanas: estratégias para a ocupação das cidades]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Interventions on urban space such as graffiti and "pichação" create cracks in the real that sometimes may generate violent reactions, since most of us find difficulties in dealing with phenomena that stretch out our sense of security. Fantastic creatures and a typography that is hard to read defy not only common sense, but also the laws. The text "Urban fiction" analyzes the differences between the strategies of graffiti and "pichação" in São Paulo. These procedures are considered in their dynamics to take over urban landscape and examined in relation to the theoretical framework of contemporary art debate.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Fic&ccedil;&otilde;es    urbanas: estrat&eacute;gias para a ocupa&ccedil;&atilde;o das cidades<a href="#back"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Andr&eacute;a    Tavares</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Artista pl&aacute;stica,    trabalhando principalmente com desenho, gravura e fotografia. Mestre em Po&eacute;ticas    Visuais pela ECA-USP, leciona na Faculdade Armando &Aacute;lvares Penteado</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As interven&ccedil;&otilde;es    do grafite e da picha&ccedil;&atilde;o na cidade criam fissuras no real que,    por vezes, geram rea&ccedil;&otilde;es violentas, j&aacute; que a maioria de    n&oacute;s tem dificuldade em lidar com fen&ocirc;menos atuantes fora da dita    ordem natural das coisas. Seres fant&aacute;sticos e uma tipografia herm&eacute;tica    desafiam n&atilde;o s&oacute; o senso comum, mas tamb&eacute;m as leis. "Fic&ccedil;&otilde;es    urbanas" pretende analisar as diferen&ccedil;as entre as estrat&eacute;gias    da picha&ccedil;&atilde;o e do grafite na cidade de S&atilde;o Paulo. Esses    procedimentos s&atilde;o considerados em suas din&acirc;micas de apropria&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o cotidiano e em rela&ccedil;&atilde;o ao quadro te&oacute;rico    do debate art&iacute;stico contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:    </b> grafite; site specific; arte contempor&acirc;nea</font></p> <hr noshade size="1">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Interventions on    urban space such as graffiti and "picha&ccedil;&atilde;o" create cracks in the    real that sometimes may generate violent reactions, since most of us find difficulties    in dealing with phenomena that stretch out our sense of security. Fantastic    creatures and a typography that is hard to read defy not only common sense,    but also the laws. The text "Urban fiction" analyzes the differences between    the strategies of graffiti and "picha&ccedil;&atilde;o" in S&atilde;o Paulo.    These procedures are considered in their dynamics to take over urban landscape    and examined in relation to the theoretical framework of contemporary art debate.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    graffiti; site specific; contemporary art</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ars/v8n16/02f01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um sambaqui. O    centro da cidade de S&atilde;o Paulo, assim como o de outras metr&oacute;poles    da Am&eacute;rica Latina, pode ser entendido como um sambaqui. Um lugar constru&iacute;do    por sedimentos, sobreposi&ccedil;&otilde;es de vest&iacute;gios de &eacute;pocas    diversas. Longe da homogeneidade das propostas urban&iacute;sticas modernas,    vivemos na heterogeneidade dos sambaquis.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse lugar de    amalgamento de sedimentos temporal e ideologicamente diferentes, como &eacute;    o centro de S&atilde;o Paulo - centro hist&oacute;rico, centro do governo, centro    imagin&aacute;rio da cidade -, surge espa&ccedil;o para diversas experi&ecirc;ncias    est&eacute;ticas. Aquelas a que me dedico neste ensaio s&atilde;o o grafite    e a picha&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o manifesta&ccedil;&otilde;es intra/entre/sobremuros    que nomeiam brechas na realidade. Nos desenhos e arabescos que tomam de assalto    o horizonte, as brechas deixam vis&iacute;vel um universo on&iacute;rico, um    lugar de suspens&atilde;o onde a realidade e a fic&ccedil;&atilde;o se misturam.    O fil&oacute;sofo Arthur Danto, em seu livro <i>A transfigura&ccedil;&atilde;o    do lugar comum</i>, escreve: "como classe, as obras de arte se op&otilde;em    &agrave;s coisas reais do mesmo modo que as palavras e colocam os que as contemplam    como obras de arte a uma dist&acirc;ncia compar&aacute;vel"<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>.    As imagens se relacionam com o real cotidiano, configurando uma realidade pr&oacute;pria    e diferente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&atilde;o as figuras    que nos olham que me chamam a aten&ccedil;&atilde;o, produtos de uma complexa    pesquisa po&eacute;tica. Figuras sublimes - assustadoras e fascinantes -, idealizadas    em sua beleza, nost&aacute;lgicas pela sua liberdade despudorada. Foram as imagens    figurativas, que parecem personagens de hist&oacute;rias em quadrinhos, que    primeiro me chamaram a aten&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essas imagens de    personagens an&ocirc;nimos se organizam de maneira amistosa. As figuras desenhadas    por uns se justap&otilde;em &agrave;s dos outros, os desenhos se somam uns aos    outros, assim como se somaram as marcas do muro, sem disputa de territ&oacute;rio.    Os desenhistas de quem falo procuram o di&aacute;logo entre os seus personagens    e os lugares. O muro n&atilde;o serve apenas como suporte, uma tela em branco,    um papel virgem; o muro &eacute; incorporado com sua hist&oacute;ria, suas marcas    e sua rela&ccedil;&atilde;o com o que h&aacute; em volta. Os muros s&atilde;o    escolhidos pela sua posi&ccedil;&atilde;o na rua, pelas marcas que o tempo inscreveu    ali; muitas vezes s&atilde;o as paredes de lugares abandonados, onde o desenho    pode ser feito com tranquilidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se ainda n&atilde;o    cito aqui um grafite espec&iacute;fico, um determinado trabalho ou um grafiteiro,    &eacute; porque pretendo me manter, neste primeiro momento, no tempo deste ensaio,    &agrave; dist&acirc;ncia. Um observador impressionado pela sensa&ccedil;&atilde;o    atmosf&eacute;rica proporcionada por um conjunto de imagens que configura uma    situa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A din&acirc;mica</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Proponho entender    que a imagem do grafite n&atilde;o &eacute; apenas o desenho no muro, mas toda    a situa&ccedil;&atilde;o nomeada pela interven&ccedil;&atilde;o no muro. Costuma    haver uma diferencia&ccedil;&atilde;o entre grafite e picha&ccedil;&atilde;o,    definida principalmente pelo tipo de figura&ccedil;&atilde;o, no caso do primeiro,    usando o recurso figurativo de personagens an&ocirc;nimos e no da segunda, uma    tipografia feroz e ileg&iacute;vel para leigos. O grafite tem sido aceito como    manifesta&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica no Brasil desde a d&eacute;cada    de 1980<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a>; institui&ccedil;&otilde;es    art&iacute;sticas t&ecirc;m feito exposi&ccedil;&otilde;es com grafite e atualmente    temos galerias especializadas no assunto. Isso e mais a aceita&ccedil;&atilde;o    que grafiteiros como a dupla "Os g&ecirc;meos" t&ecirc;m encontrado no mercado    internacional legitimam definitivamente o grafite como arte, pelo menos dentro    da teoria institucional. A picha&ccedil;&atilde;o tem assumido o papel de ovelha    negra do grafite. Em in&uacute;meras entrevistas, que podem ser acessadas mediante    uma simples busca no Google, os grafiteiros dizem querer deixar a cidade mais    bonita; pichador quer colocar sua marca no cidade, a conversa dele &eacute;    outra.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Analisar a produ&ccedil;&atilde;o    das duas din&acirc;micas de trabalho, grafite e picha&ccedil;&atilde;o, parece    ser o caminho para entender os dois fen&ocirc;menos frente &agrave; arte contempor&acirc;nea.    Nas &uacute;ltimas quatro d&eacute;cadas, com as correntes conceituais, temos    a inclus&atilde;o de propostas art&iacute;sticas que dissolvem e tensionam os    limites entre arte e vida, que criticamente questionam, ao mesmo tempo, o envolvimento    do homem com a paisagem e a pr&oacute;pria ideia de territ&oacute;rio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As an&aacute;lises    feitas sobre o grafite e a picha&ccedil;&atilde;o a partir da d&eacute;cada    de 1970 tomam como ponto de partida a picha&ccedil;&atilde;o dos levantes estudantis    da Europa na d&eacute;cada de 1960 e as mensagens subversivas dos grupos de    esquerda na Am&eacute;rica Latina. A partir desses dois momentos a picha&ccedil;&atilde;o    passa a ser entendida como um fen&ocirc;meno da comunica&ccedil;&atilde;o. O    muro como o &uacute;ltimo recurso, a &uacute;ltima m&iacute;dia poss&iacute;vel    quando todas as outras est&atilde;o inacess&iacute;veis. Hoje tamb&eacute;m    h&aacute; no discurso dos pr&oacute;prios grafiteiros aqui de S&atilde;o Paulo    essa vontade de se comunicar massivamente. Poder&iacute;amos ser levados a crer    que, com a facilidade de se criar um blog ou flog, essas m&iacute;dias virtuais    acess&iacute;veis, "democr&aacute;ticas" e de amplo alcance poderiam substituir    a picha&ccedil;&atilde;o como meio de comunica&ccedil;&atilde;o. No entanto,    o que pode ser visto &eacute; que os meios digitais est&atilde;o sendo usados    como ferramentas auxiliares na divulga&ccedil;&atilde;o e no planejamento das    a&ccedil;&otilde;es de pichadores e grafiteiros. A mensagem s&oacute; se configura    efetivamente na inser&ccedil;&atilde;o do signo na paisagem urbana.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os pichadores disputam    espa&ccedil;os em muros, n&atilde;o respeitam o <i>tag</i> do colega, grafam    o seu por cima, maior, querem conquistar o lugar mais alto, mais vis&iacute;vel.    Por qu&ecirc;? Uma hip&oacute;tese: reapropria&ccedil;&atilde;o territorial.    Como se o territ&oacute;rio da cidade estivesse perdido e fosse preciso reconquist&aacute;-lo.    N&atilde;o se trata simplesmente de marcar territ&oacute;rio - c&atilde;es e    gatos fazem isso, animais irracionais fazem isso instintivamente; seres humanos    utilizam estrat&eacute;gias racionais, ou que pelo menos podem ser organizadas    racionalmente. A estrat&eacute;gia dos pichadores parece ter uma motiva&ccedil;&atilde;o,    como um contra-ataque &agrave;s pol&iacute;ticas do uso do espa&ccedil;o urbano.    O territ&oacute;rio, at&eacute; onde a vista alcan&ccedil;a, n&atilde;o lhes    pertence; quem domina ali s&atilde;o as corpora&ccedil;&otilde;es e institui&ccedil;&otilde;es    p&uacute;blicas. Os edif&iacute;cios, grandes marcos pl&aacute;sticos na cidade,    imp&otilde;em sua autoridade simb&oacute;lica como guardi&atilde;es do capital    ou da ordem; t&ecirc;m seu interior guardado por porteiros que ficham cada visitante.    No exterior deles, onde est&atilde;o fixados letreiros, cartazes e outdoors,    agregam valor as logomarcas alardeando novas imagens/produtos. N&atilde;o h&aacute;    no imagin&aacute;rio desses sujeitos um sentimento de pertencimento. N&atilde;o    &eacute; estar fora fisicamente, n&atilde;o habitar o centro, porque a picha&ccedil;&atilde;o    tamb&eacute;m est&aacute; na periferia; este estar deslocado no mundo &eacute;    n&atilde;o se sentir representado, n&atilde;o se sentir parte constituinte da    cidade, ainda que se a habite. O historiador Giulio Carlo Argan<a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a>    defendia que n&atilde;o se pode preservar nenhum centro hist&oacute;rico sem    garantir qualidade de vida na periferia, correndo o risco de que a cidade se    divida.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Imagin&aacute;rio</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As cidades foram    invadidas por logomarcas que ocupam o espa&ccedil;o do sujeito; em todo lugar    que se olha h&aacute; uma propaganda, no metr&ocirc;, nos &ocirc;nibus, at&eacute;    em t&aacute;xis. Essa invas&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas uma apropria&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o do sujeito, mas do seu imagin&aacute;rio. As corpora&ccedil;&otilde;es,    grandes empresas, a m&iacute;dia, o Estado, todos querem um peda&ccedil;o do    nosso imagin&aacute;rio; &eacute; o espa&ccedil;o do nosso imagin&aacute;rio    que &eacute; vendido para os anunciantes. Manifesta&ccedil;&atilde;o rebelde,    marcar a cidade com seu sinal individual, perme&aacute;vel primariamente &agrave;    sua pr&oacute;pria comunidade. Segundo esta hip&oacute;tese o <i>tag</i> ocupa    um lugar dominado pela propaganda das grandes empresas - mesmo ap&oacute;s a    Lei Cidade Limpa isso ainda &eacute; verdade. O sujeito, mesmo sem estrutura    econ&ocirc;mica e social que lhe apoie, chega ali e disputa espa&ccedil;o com    os "grandes". O que tamb&eacute;m, como din&acirc;mica, n&atilde;o deixa de    ser da ordem da fic&ccedil;&atilde;o, um movimento que trabalha na fissura da    realidade e do sonho. A estrat&eacute;gia que atua fisicamente na cidade, como    fato visual, acontece legitimamente no imagin&aacute;rio dos sujeitos envolvidos    na atividade e na sua apreens&atilde;o (sujeitos como eu ou voc&ecirc; que nunca    se arriscaram a ser presos por pichar um muro, mas que se interessam por essa    atividade; apreendemos &agrave; dist&acirc;ncia, como <i>voyeurs</i>). O fato    da a&ccedil;&atilde;o dos pichadores ser reprimida de maneira violenta torna-a    efetiva tamb&eacute;m no plano da realidade. In&uacute;meros autores foram processados,    aprisionados, censurados, excomungados por causa do conte&uacute;do licencioso    e n&atilde;o convencional de suas obras, m&uacute;sicas romances, novelas, contos,    pinturas. A fic&ccedil;&atilde;o altera o imagin&aacute;rio, que &eacute; a    base de forma&ccedil;&atilde;o do sujeito. Atuar no elemento formativo do sujeito    pode ser trabalhar para mudar a trama do imagin&aacute;rio social. A fic&ccedil;&atilde;o    cria um estado de suspens&atilde;o da l&oacute;gica dominante que torna poss&iacute;vel    ver-se a si de fora, de maneira cr&iacute;tica. "O valor filos&oacute;fico da    arte reside no fato hist&oacute;rico de, em seu surgimento, ter ajudado a trazer    &agrave; consci&ecirc;ncia dos homens o conceito de realidade"<a name="top4"></a><a href="#back4"><sup>4</sup></a>.    Para que haja uma mudan&ccedil;a real no imagin&aacute;rio, as manifesta&ccedil;&otilde;es    desnaturalizadas, fora da "ordem normal das coisas", precisam ser comentadas,    precisam estar ligadas com o real. Seus autores precisam ter consci&ecirc;ncia    hist&oacute;rica sobre suas a&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Marginalidade</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A picha&ccedil;&atilde;o    precisa da marginaliza&ccedil;&atilde;o decorrente da sua ilegalidade e do seu    car&aacute;ter invasivo. Sem isso, &eacute; apenas, embora j&aacute; seja bastante,    uma pesquisa tipogr&aacute;fica (e o marketing j&aacute; se apropriou dessa    tipografia). Seu car&aacute;ter de resist&ecirc;ncia e sua pot&ecirc;ncia po&eacute;tica    residem na sua marginalidade. Se n&atilde;o fosse proibido, se n&atilde;o fosse    considerado sujo e feio, n&atilde;o teria a pot&ecirc;ncia heroica do sujeito    que se prop&otilde;e a enfrentar todos os riscos para deixar sua marca na cidade.    A picha&ccedil;&atilde;o foge do espa&ccedil;o legalizado da arte; o grafite    transita por ele livremente. A manuten&ccedil;&atilde;o da pot&ecirc;ncia da    picha&ccedil;&atilde;o &eacute; a manuten&ccedil;&atilde;o do seu estado marginalizado.    A picha&ccedil;&atilde;o tem como din&acirc;mica a ocupa&ccedil;&atilde;o dos    espa&ccedil;os urbanos, os lugares por onde milh&otilde;es de pessoas passam,    o mesmo espa&ccedil;o pelo qual as imagens da propaganda lutam. O espa&ccedil;o    da arte, fechado e elitizado, mesmo que h&aacute; d&eacute;cadas venha se abrindo    ao grande p&uacute;blico, n&atilde;o tem o mesmo poder sobre o imagin&aacute;rio    dos cidad&atilde;os de uma grande metr&oacute;pole como S&atilde;o Paulo que    a paisagem das ruas. Por dia, passam mais pessoas pela Radial Leste, com sua    grande quantidade de picha&ccedil;&otilde;es e grafites, do que por todos os    museus da cidade em um ano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se a picha&ccedil;&atilde;o    precisa da marginalidade para assegurar sua pot&ecirc;ncia, o que dizer do grafite?    A teoria institucional da arte define ser arte o que entra no circuito art&iacute;stico,    constitu&iacute;do e definido pelos profissionais especialistas na &aacute;rea.    Arte seria o que est&aacute; nos museus e nas galerias, e artistas, aqueles    que participam de grandes mostras nacionais e internacionais, que frequentam    o ambiente acad&ecirc;mico da arte e n&atilde;o encontram problemas para terem    seus trabalhos investigados, analisados e criticados pelos acad&ecirc;micos,    isso quando eles mesmos n&atilde;o o s&atilde;o. Um grafite, como qualquer obra    de arte, pode ser analisado como arte contempor&acirc;nea. Muitos grafiteiros    investem na organiza&ccedil;&atilde;o, documenta&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o    da sua obra para al&eacute;m do grupo de origem. Enquanto a picha&ccedil;&atilde;o    parece estar focada num nicho, numa pequena comunidade que det&eacute;m os c&oacute;digos    de aprecia&ccedil;&atilde;o da linguagem, o grafite tem a mesma preocupa&ccedil;&atilde;o    da arte como linguagem: ser aberto a interpreta&ccedil;&otilde;es e almejar    a universalidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O grafite tamb&eacute;m    acontece primariamente na rua e, como foi dito no in&iacute;cio deste ensaio,    o desenho no muro interv&eacute;m na paisagem e nomeia um lugar. Trata-se de    interven&ccedil;&atilde;o urbana, de interven&ccedil;&atilde;o em lugar espec&iacute;fico.    Isso vale para aquelas interven&ccedil;&otilde;es que pensam a rela&ccedil;&atilde;o    do desenho - entendido primeiramente como a figura inscrita no muro - com o    entorno, n&atilde;o podendo existir em outro lugar; ainda que a mesma figura    seja inscrita em outros lugares, outras situa&ccedil;&otilde;es ser&atilde;o    configuradas. A picha&ccedil;&atilde;o se d&aacute; muito mais pela inscri&ccedil;&atilde;o    de <i>tags</i> em qualquer parte onde eles possam ser vistos, na maioria das    vezes tendo uma rela&ccedil;&atilde;o de adi&ccedil;&atilde;o com o entorno    - a arquitetura se torna apenas suporte; o mesmo <i>tag</i> desenhado no papel    vai pro alto do pr&eacute;dio. Sua agressividade e a necessidade da ilegalidade    para a manuten&ccedil;&atilde;o da sua pot&ecirc;ncia po&eacute;tica acabam    por distanciar essa pr&aacute;tica das interven&ccedil;&otilde;es urbanas inseridas    no circuito, que, embora nem sempre ajam no terreno da legalidade, n&atilde;o    t&ecirc;m como norma a apologia &agrave; vandaliza&ccedil;&atilde;o de patrim&ocirc;nio    p&uacute;blico ou privado, mas chamam para si o direito de usar o espa&ccedil;o    p&uacute;blico, refletindo sobre a rela&ccedil;&atilde;o do cidad&atilde;o com    a cidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se as hip&oacute;teses    anteriores fazem algum sentido, a picha&ccedil;&atilde;o tem potencial po&eacute;tico    enquanto a&ccedil;&atilde;o expressiva, apesar de n&atilde;o possuir uma consci&ecirc;ncia    autorreflexiva e cr&iacute;tica sobre sua pr&aacute;tica que se manifeste como    forma e a&ccedil;&atilde;o, se distanciando portanto da esfera da arte contempor&acirc;nea.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Linguagem</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na sua obra <i>Hist&oacute;ria    natural</i>, no livro 35, Pl&iacute;nio descreve o que seria a cria&ccedil;&atilde;o    da primeira escultura modelada em argila<a name="top5"></a><a href="#back5"><sup>5</sup></a>.    Um jovem partia para a guerra, a jovem apaixonada desenha na parede, a carv&atilde;o,    a silhueta definida pela sombra do rapaz. Seu pai, o oleiro Butades, pega um    pouco de argila e modela a face do jovem a partir do contorno de sua sombra.    Na experi&ecirc;ncia vivida por eles, principalmente por ela, a aus&ecirc;ncia    se constitui em um objeto, que presentifica essa aus&ecirc;ncia. O objeto, o    retrato modelado em argila, n&atilde;o ficou circunscrito &agrave;quele pequeno    c&iacute;rculo familiar; Pl&iacute;nio termina relatando que a pequena escultura    havia sido preservada no Santu&aacute;rio das Ninfas. Por que num santu&aacute;rio?    O que seria valorado apenas num pequeno c&iacute;rculo, passa para um dom&iacute;nio    maior, o da coletividade. N&atilde;o &eacute; apenas a aus&ecirc;ncia de um    indiv&iacute;duo amado por algu&eacute;m que merece ser presentificada, mas    o homem membro de uma comunidade, com tudo que isso implica, seu valor social    e a empatia que o objeto pode fazer surgir na sua recep&ccedil;&atilde;o. Segundo    John Dewey, as obras de arte s&atilde;o constitu&iacute;das a partir e com a    experi&ecirc;ncia; a partir das experi&ecirc;ncias de um indiv&iacute;duo ou    grupo para as de outros indiv&iacute;duos e grupos. O que faz com que a arte    inclua em si a comunica&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o s&oacute; isso, pois    n&atilde;o se trata de comunicar uma experi&ecirc;ncia; trata-se de constituir    experi&ecirc;ncias, assim, no plural<a name="top6"></a><a href="#back6"><sup>6</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Que tipo de experi&ecirc;ncia    a picha&ccedil;&atilde;o torna coletiva? Aquela das grandes cidades, da viol&ecirc;ncia    das imagens vendendo produtos, do tr&acirc;nsito incessante, da falta de espa&ccedil;o.    A mesma experi&ecirc;ncia do grafite. Olhando para os muros desta cidade, S&atilde;o    Paulo, grafite e picha&ccedil;&atilde;o se amontoam numa l&oacute;gica de ocupa&ccedil;&atilde;o    de territ&oacute;rio, como naquele jogo, o WAR, disputando terreno visual com    a propaganda. Esta &uacute;ltima dentro da legalidade, os outros nem sempre.    Diferen&ccedil;a fundamental, o pichador e o grafiteiro n&atilde;o querem nos    vender nada, querem ocupar a cidade, com a mesma for&ccedil;a das grandes empresas    porque a cidade &eacute; deles tamb&eacute;m, ou antes, &eacute; primeiramente    deles, de todos os seus habitantes. Somos os sujeitos que buscam reconhecimento.    Por um lado queremos nos reconhecer nas imagens que comp&otilde;em nosso imagin&aacute;rio    e por outro queremos ser reconhecidos por elas. Pichadores e grafiteiros saem    a campo para realizar esse desejo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dominar uma linguagem    &eacute; bem mais do que dominar um meio, &eacute; estabelecer rela&ccedil;&otilde;es    entre os usos desse meio e estar consciente das suas implica&ccedil;&otilde;es.    Muitos alunos que chegam na Universidade Camilo Castelo Branco, no bairro de    Itaquera, em S&atilde;o Paulo, e s&atilde;o grafiteiros e pichadores, se d&atilde;o    conta disso. &Eacute; comum questionarem a validade do grafite como arte e sua    aceita&ccedil;&atilde;o em museus e galerias. Ficam confusos porque entendem    que a ess&ecirc;ncia do grafite, o seu contato com o lugar, parece ser subestimada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Quase uma conclus&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cabe entender o    que acontece quando o grafite &eacute; exibido numa galeria ou num museu. As    a&ccedil;&otilde;es dos grafiteiros podem ser mostradas atrav&eacute;s de fotos,    como em portfolios, como nos blogs e flogs, ou com v&iacute;deos que documentam    as a&ccedil;&otilde;es. De ambas as maneiras a documenta&ccedil;&atilde;o &eacute;    did&aacute;tica e visa estabelecer um canal comunicativo com o espectador de    maneira a explicar e tornar conhecida a a&ccedil;&atilde;o, ainda que distante    da experi&ecirc;ncia est&eacute;tica que se possa ter no contato direto com    um muro grafitado. H&aacute; tamb&eacute;m as exposi&ccedil;&otilde;es onde    os grafiteiros mostram seus trabalhos em pain&eacute;is, telas e cartazes. A    a&ccedil;&atilde;o descontextualizada produz objetos que guardam semelhan&ccedil;a    formal com os grafites na rua mas perdem a sua capacidade de nomear um espa&ccedil;o,    surpreender o olhar, tirar o transeunte do espa&ccedil;o naturalizado da rua.    &Eacute; na rua que as brechas na realidade e a suspens&atilde;o do tempo cont&iacute;nuo    acontecem. Quem chega numa exposi&ccedil;&atilde;o j&aacute; est&aacute; predisposto    a uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, j&aacute; suspendeu o tempo do seu    cotidiano para entrar em outra situa&ccedil;&atilde;o, a da arte. Quando os    personagens imensos ou pequeninos aparecem nos muros e se relacionam diretamente    com as pessoas que passam por eles, h&aacute; nesse encontro um duplo movimento:    os personagens atribuem aos passantes um car&aacute;ter libert&aacute;rio que    parece lhes faltar no cotidiano de indiv&iacute;duos produtivos; as pessoas,    por sua vez, d&atilde;o continuidade e movimento aos personagens fixados nos    muros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O espa&ccedil;o    institucional do museu ou mesmo da galeria pode aparentemente proteger o grafite    e assegurar a sua capacidade po&eacute;tica enquanto objeto de arte. No entanto,    esse mesmo espa&ccedil;o, o cubo branco, espa&ccedil;o de suspens&atilde;o,    n&atilde;o permite que o grafite traga a sua pot&ecirc;ncia de interven&ccedil;&atilde;o.    A pot&ecirc;ncia po&eacute;tica da picha&ccedil;&atilde;o est&aacute; no confronto    com o espa&ccedil;o urbano entendido como espa&ccedil;o do imagin&aacute;rio    dos sujeitos; &eacute; nesse mesmo espa&ccedil;o que acontece o grafite, ele    tamb&eacute;m agindo sobre o nosso imagin&aacute;rio, criando brechas entre    ele e a realidade. O espa&ccedil;o institucional da arte j&aacute; est&aacute;    apartado da realidade, &eacute; um espa&ccedil;o para contempla&ccedil;&atilde;o.    Aqui o grafite em tela ou pain&eacute;is se torna um objeto domestic&aacute;vel,    que, ao se relacionar de maneira ing&ecirc;nua ou at&eacute; prec&aacute;ria    com a tradi&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica e gr&aacute;fica, n&atilde;o consegue    ser um objeto resistente, capaz de se abrir para infinitos retornos, m&uacute;ltiplas    interpreta&ccedil;&otilde;es; ele parece se esgotar no momento, no modismo da    d&eacute;cada, tornando-se presa f&aacute;cil para a reifica&ccedil;&atilde;o.    Isso acontece quando o grafite &eacute; descontextualizado. Seu contexto &eacute;    a rua, onde nomeia uma situa&ccedil;&atilde;o de encontro com os sujeitos no    espa&ccedil;o cotidiano deles; essa mesma situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    pode se reproduzir dentro do espa&ccedil;o protegido do museu ou da galeria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Dois casos,    um mesmo caso</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O grafiteiro paulista    Zez&atilde;o<a name="top7"></a><a href="#back7"><sup>7</sup></a> realiza seu    trabalho dentro das galerias de esgoto e &aacute;guas pluviais da cidade de    S&atilde;o Paulo. Passando pela Marginal Pinheiros ou pela Marginal Tiet&ecirc;,    duas grandes vias de acesso &agrave; cidade, &eacute; poss&iacute;vel para um    observador atento vislumbrar, &agrave; dist&acirc;ncia, na parede de conten&ccedil;&atilde;o    de um c&oacute;rrego, um arabesco do artista. Grafiteiro desde adolescente,    decidiu intervir nos lugares abandonados, que uma popula&ccedil;&atilde;o n&ocirc;made    e despossu&iacute;da habita. S&atilde;o arabescos azuis, grandes, maiores do    que uma pessoa adulta. Zez&atilde;o utilizou as m&iacute;dias digitais, blogs    e flogs, para compartilhar seu trabalho e contar sobre suas experi&ecirc;ncias.    Seu trabalho entrou no mercado; ele exibe, em galerias de arte, fotos e v&iacute;deos    de suas a&ccedil;&otilde;es e tamb&eacute;m faz os seus desenhos, os arabescos    azuis, dentro de ambientes dom&eacute;sticos, residenciais. Deslocar o mesmo    desenho que habita o esgoto para a casa de algu&eacute;m poderia ser uma a&ccedil;&atilde;o    ir&ocirc;nica. No entanto, a for&ccedil;a dessas a&ccedil;&otilde;es que acontecem    nas galerias de esgoto consiste na sua capacidade de resistir &agrave; ordem    produtiva; em vez de se dedicar a embelezar um lugar organizado da cidade, o    sujeito foi se dedicar a desenvolver uma obra gr&aacute;fica e po&eacute;tica    no choque entre a beleza do azul e a sujeira dos fluidos urbanos. Quis dar a    conhecer, em seu blog, suas aventuras por esses lugares, o encontro com os habitantes    subterr&acirc;neos e com o descarte da metr&oacute;pole. Quando esse mesmo desenho,    o mesmo sinal, vai para um espa&ccedil;o interno, dom&eacute;stico, h&aacute;    uma dilui&ccedil;&atilde;o dos significados conquistados quando se examina o    trabalho enquanto conjunto de a&ccedil;&otilde;es, fragilizando a pot&ecirc;ncia    po&eacute;tica do todo, tornando o trabalho suscet&iacute;vel &agrave; reifica&ccedil;&atilde;o    e &agrave; fetichiza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Os g&ecirc;meos"<a name="top8"></a><a href="#back8"><sup>8</sup></a>,    uma dupla de grafiteiros paulistas, criaram um repert&oacute;rio muito particular    de personagens fant&aacute;sticos partindo das ruas do bairro onde sempre moraram,    o Cambuci. Esse bairro tradicional faz parte da regi&atilde;o central da cidade.    Quando escrevia o in&iacute;cio deste ensaio, eram as figuras deles que eu tinha    em mente. Por sua maneira precisa de se relacionarem aos lugares em que est&atilde;o    inseridas, elas criam um curioso espelho da popula&ccedil;&atilde;o; h&aacute;    algo de sublime, fascinante e atemorizante nesses personagens. Na galeria que    os representa, a Fortes Vila&ccedil;a, a primeira exposi&ccedil;&atilde;o, em    2006, foi uma interven&ccedil;&atilde;o no pr&eacute;dio, que se tornou por    fora uma grande cabe&ccedil;a e por dentro uma instala&ccedil;&atilde;o com    telas, murais e objetos. Os personagens descontextualizados, retirados das ruas    para habitar a galeria, acabavam por criar uma situa&ccedil;&atilde;o ensimesmada    e autorreferente. A mesma hip&oacute;tese levantada para o trabalho de Zez&atilde;o    e de outros grafiteiros que mudam de suporte se aplica aqui. O grafite precisa    acontecer como interven&ccedil;&atilde;o no circuito ideol&oacute;gico do imagin&aacute;rio    urbano para n&atilde;o perder sua pot&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em "Vertigem",    sua mostra mais recente<a name="top9"></a><a href="#back9"><sup>9</sup></a>,    a dupla criou um ambiente visual, sonoro e interativo. Interatividade n&atilde;o    assegura por si s&oacute; a capacidade de uma obra refletir criticamente sobre    seu fazer, seu lugar e o lugar dos espectadores, no mundo e em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; obra. Conforme os argumentos desenvolvidos at&eacute; aqui, quando    o grafite perde sua rela&ccedil;&atilde;o com o espa&ccedil;o urbano ele perde    pot&ecirc;ncia e se fragiliza. Os desenhos nos muros configuravam situa&ccedil;&otilde;es    que foram chamadas de brechas na realidade; os transeuntes se vendo neles refletidos    como que por um espelho que os deforma, suspensos das obriga&ccedil;&otilde;es    do cotidiano. Essa situa&ccedil;&atilde;o, uma vez apreendida, leva o sujeito    a pensar em si em um contexto, a ver a si de fora, como sujeito que comp&otilde;e    a cidade e &eacute; composto por ela. Uma vis&atilde;o cr&iacute;tica da constitui&ccedil;&atilde;o    do imagin&aacute;rio. O foco principal da mostra "Vertigem", segundo vem sendo    propagado pela m&iacute;dia, parece ser agradar e divertir de maneira l&uacute;dica.    Fechou-se a brecha conquistada no encontro entre o espa&ccedil;o/tempo real    do cotidiano e o desenho, n&atilde;o sobrou nada do sublime; &eacute; como se    tudo houvesse se tornado pitoresco, agrad&aacute;vel e acolhedor. N&atilde;o    tem sido uma inten&ccedil;&atilde;o da arte contempor&acirc;nea autoafirmar-se    e afirmar o mundo de maneira positiva, como um lugar agrad&aacute;vel e acolhedor.    A arte prop&otilde;e a desnaturaliza&ccedil;&atilde;o do nosso lugar no mundo,    da&iacute; sua capacidade de nos proporcionar um lugar privilegiado de reflex&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em entrevista a    Adriana Paiva, da <i>Verve Press</i><a name="top10"></a><a href="#back10"><sup>10</sup></a>,    por ocasi&atilde;o da primeira exposi&ccedil;&atilde;o d'Os g&ecirc;meos na    Fortes Vila&ccedil;a, em 2006, os artistas afirmaram que aquilo que estava dentro    da galeria n&atilde;o era grafite, era arte contempor&acirc;nea. Podemos concordar    com a primeira afirma&ccedil;&atilde;o - o que est&aacute; l&aacute; dentro    n&atilde;o &eacute; grafite -, mas concordar com a segunda fica muito mais dif&iacute;cil.    Na rua, o grafite pode ser entendido como arte contempor&acirc;nea em toda a    sua pot&ecirc;ncia po&eacute;tica. As experi&ecirc;ncias de inser&ccedil;&atilde;o    do grafite em galerias e museus, na sua descontextualiza&ccedil;&atilde;o, o    tornam fr&aacute;gil e esvaziado de significado. A situa&ccedil;&atilde;o nomeada    pelo desenho no muro, que chamamos de grafite, precisa da rua; n&atilde;o da    ilegalidade, mas simplesmente do espa&ccedil;o urbano, aquele que constr&oacute;i    com mais for&ccedil;a o nosso imagin&aacute;rio e configura a nossa experi&ecirc;ncia    de mundo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ars/v8n16/02f02.jpg" usemap="#Map" border="0">    <map name="Map">      <area shape="rect" coords="126,771,335,800" href="http://naipeskate.blogspot.com" target="_blank">   </map> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para ler a entrevista    na &iacute;ntegra acesse: &lt;<a href="http://www.verveweb.com.br/jornalismo/osgemeios_adraiana-paiva" target="_blank">http://www.verveweb.com.br/jornalismo/osgemeios_adraiana-paiva</a>&gt;.    &Uacute;ltima data de acesso: 29/04/2009.    <br>   <a name="back"></a><a href="#top">*</a> Este texto foi apresentado no 1 Seminario    Internacional sobre Arte P&uacute;blico en Latinoam&eacute;rica, promovido pelo    Grupo de Estudios sobre Arte P&uacute;blico en Latinoam&eacute;rica, Universidad    de Buenos Aires, novembro de 2009.    <!-- ref --><br>   <a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>. DANTO, Arthur. A transfigura&ccedil;&atilde;o    do lugar-comum. S&atilde;o Paulo: Cosac &amp; Naify, 2005, p. 135.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S1678-5320201000020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>   <a name="back2"></a><a href="#top2">2</a>. No Brasil, o ano de 1983 foi muito    importante para a inser&ccedil;&atilde;o do grafite no circuito da arte. O Museu    de Arte Contempor&acirc;nea da Universidade de S&atilde;o Paulo promoveu o evento/exposi&ccedil;&atilde;o    "Arte na rua", que reuniu os grafiteiros da cidade para a&ccedil;&otilde;es    no museu e pelas ruas. Tamb&eacute;m nesse ano a 17ª Bienal Internacional de    S&atilde;o Paulo trouxe o trabalho de Keith Haring; na edi&ccedil;&atilde;o    seguinte, a 18ª Bienal, foi a vez do grafiteiro radicado em S&atilde;o Paulo    Alex Vallauri levar seus personagens urbanos para dentro do cubo branco.    <!-- ref --><br>   <a name="back3"></a><a href="#top3">3</a>."</font><font size="2">&#91;</font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">...</font><font size="2">&#93;</font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    deve-se levar em conta que a condi&ccedil;&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia dos    n&uacute;cleos antigos remanescentes &eacute; determinada pela solu&ccedil;&atilde;o    urban&iacute;stica geral e pelos crit&eacute;rios com que se disciplina, em    torno do chamado n&uacute;cleo hist&oacute;rico, o desastroso periekon das periferias    urbanas </font><font size="2">&#91;</font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">...</font><font size="2">&#93;</font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">.    Essa a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser apenas defensiva ou inibidora, pois    est&aacute; claro que os tecidos antigos n&atilde;o podem ser conservados se    tiverem perdido todas as suas fun&ccedil;&otilde;es e, cortados do dinamismo    urbano, constituam uma esp&eacute;cie de temenos envolvido pela desordem e pelo    barulho da cidade moderna". ARGAN, Giulio Carlo. Hist&oacute;ria da arte como    hist&oacute;ria da cidade. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 77-78.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000064&pid=S1678-5320201000020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>   <a name="back4"></a><a href="#top4">4</a>. DANTO, Arthur. op. cit., p. 136.    <!-- ref --><br>   <a name="back5"></a><a href="#top5">5</a>. PLINY the Elder. Natural history:    a selection. Londres: Penguin Books, 2004, p. 336.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000066&pid=S1678-5320201000020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><br>   <a name="back6"></a><a href="#top6">6</a>. DEWEY, John. Art as experience. Nova    Iorque: Perigee, 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000067&pid=S1678-5320201000020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>   <a name="back7"></a><a href="#top7">7</a>. Para conhecer melhor o trabalho de    Zez&atilde;o v&aacute; ao site do artista: &lt;<a href="http://www.lost.art.br/zezao.htm" target="_blank">http:www.lost.    art.br/zezao.htm</a>&gt;    <br>   <a name="back8"></a><a href="#top8">8</a>. Para saber mais sobre o trabalho    da dupla, consulte: &lt;<a href="http://www.lost.art.br/osgemeos.htm%B7" target="_blank">http://www.lost.art.br/osgemeos.htm</a>&gt;    <!-- ref --><br>   <a name="back9"></a><a href="#top9">9</a>. "Vertigem", exposi&ccedil;&atilde;o    da dupla "Os g&ecirc;meos", de 24 de mar&ccedil;o a 17 de maio, no Centro Cultural    Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000070&pid=S1678-5320201000020000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><br>   <a name="back10"></a><a href="#top10">10</a> Para ler a entrevista na &iacute;ntegra    acesse: &lt;<a href="http://www.verveweb.com.br/jornalismo/osgemeios_adraiana-paiva" target="_blank">http://www.verveweb.com.br/jornalismo/osgemeios_adraiana-paiva</a>&gt;.    &Uacute;ltima data de acesso: 29/04/2009.</font></p>      ]]></body><back>
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