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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article deals with the transformations occurred in the public space due to the new role of the Museums of Contemporary art in the cities nowadays.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>&Agrave;    margem da rua: o novo espa&ccedil;o p&uacute;blico<a href="#back"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Marco Giannotti</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Marco Giannotti    &eacute; artista pl&aacute;stico e professor do Depto. de Artes Visuais da ECA    - USP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este artigo aborda    as transforma&ccedil;&otilde;es ocorridas no espa&ccedil;o p&uacute;blico em    raz&atilde;o do papel que os museus de arte contempor&acirc;nea passaram a desempenhar    atualmente nas cidades.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:    </b> espa&ccedil;o p&uacute;blico; museus de arte contempor&acirc;nea; Richard    Serra.</font></p> <hr noshade size="1">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This article deals    with the transformations occurred in the public space due to the new role of    the Museums of Contemporary art in the cities nowadays.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    public space; museums of contemporary art; Richard Serra</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ars/v8n16/03f01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Arte n&atilde;o      &eacute; pol&iacute;tica pelas mensagens e pelos sentimentos que transmite      sobre a ordem do mundo. Nem &eacute; pol&iacute;tica pela maneira como representa      as estruturas da sociedade, os conflitos ou as identidades dos grupos sociais.      &Eacute; pol&iacute;tica pela diverg&ecirc;ncia que ela toma em rela&ccedil;&atilde;o      a essas fun&ccedil;&otilde;es e pelo modo como recorta e povoa este espa&ccedil;o.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Jacques Ranci&egrave;re.      Malaise dans Esthetique</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Curioso o fato    de que uma das mais conhecidas obras de arte contempor&acirc;nea planejada para    um espa&ccedil;o p&uacute;blico tenha se tornado c&eacute;lebre n&atilde;o por    sua instala&ccedil;&atilde;o, mas pela sua retirada: refiro-me &agrave; obra    <i>Tilted Arc,</i> de Richard Serra, que permaneceu por nove anos, entre 1981    e 1989, na pra&ccedil;a do centro Jacob Javits, em Nova Iorque. Num amplo debate    jur&iacute;dico, venceram aqueles que acusaram a obra de impedir a livre circula&ccedil;&atilde;o    na pra&ccedil;a e torn&aacute;-la prop&iacute;cia para o grafite. Em 1984, tive    a oportunidade de presenciar o que as obras de Richard Serra causavam no espa&ccedil;o    p&uacute;blico: <i>Clara-Clara</i> tinha tamb&eacute;m sido retirada do lugar    planejado para a Tulherias, em Paris, e foi transferida para uma pequena pra&ccedil;a,    onde v&aacute;rias trepadeiras foram plantadas ao longo das duas l&acirc;minas    de a&ccedil;o a fim de encobri-las integralmente. Num impulso rom&acirc;ntico,    Carlito Carvalhosa e eu retiramos todas as trepadeiras apressadamente para que    a pol&iacute;cia n&atilde;o nos abordasse. A partir de "Tilted Arc", creio que    Serra voltou-se cada vez mais para o espa&ccedil;o interno dos museus, ao inv&eacute;s    de continuar a instalar suas obras na rua. As l&acirc;minas foram se curvando,    de modo que as obras mais atuais tendem a formar um interior, como em uma esp&eacute;cie    de caracol.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Concomitante a    esse processo, deve-se frisar a enorme evolu&ccedil;&atilde;o que ocorreu nos    museus de arte contempor&acirc;nea em v&aacute;rias regi&otilde;es do mundo,    na medida em que passaram a ser considerados um empreendimento altamente rent&aacute;vel,    como p&oacute;los tur&iacute;sticos. O pr&oacute;prio museu &eacute; concebido    como uma obra de arte em que muitas vezes c&eacute;lebres arquitetos relutam    em abrigar outras obras, a n&atilde;o ser a que eles mesmos projetaram. A esse    respeito, vale lembrar a pol&ecirc;mica entre Serra e Frank Gehry, no museu    Guggenheim, em Bilbao.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os museus passaram    a desempenhar um papel pol&iacute;tico, social e econ&ocirc;mico cada vez maior,    transformando muitas vezes por completo o cen&aacute;rio urbano, como no caso    de Bilbao, onde uma cidade portu&aacute;ria decadente renasce gra&ccedil;as    a nova "Meca" das artes. Essa pol&iacute;tica n&atilde;o se d&aacute; por uma    aproxima&ccedil;&atilde;o do museu com a rua; muito pelo contr&aacute;rio, &eacute;    o espa&ccedil;o diferenciado do museu, lugar extra-cotidiano, que acaba por    transformar seu entorno, ruas e vielas das cidades pr&oacute;ximas. Atualmente,    podemos acompanhar as enormes transforma&ccedil;&otilde;es urban&iacute;sticas    que est&atilde;o ocorrendo ao redor de Inhotim, a 60 quil&ocirc;metros de Belo    Horizonte.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; ineg&aacute;vel    que a Bienal de S&atilde;o Paulo desempenha um papel semelhante em S&atilde;o    Paulo: trata-se de um acontecimento social, pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico    sempre aguardado e festejado. Nesse sentido, muito me alegra o fato de presenciar    neste momento seu processo de reconstru&ccedil;&atilde;o, a partir do vazio    institucional que culminou na 28 Bienal. Sua presen&ccedil;a tamb&eacute;m se    mant&eacute;m gra&ccedil;as &agrave; alta qualidade do projeto arquitet&ocirc;nico    de Oscar Niemeyer e de seu lugar privilegiado no Parque do Ibirapuera. A escala    deste projeto chega at&eacute; mesmo a intimidar as esculturas situadas no jardim    de esculturas. Paradoxalmente, a obra com maior presen&ccedil;a visual no parque    &eacute; justamente aquela que est&aacute; resguardada no interior do museu:    a aranha de Louise Bourgeois, presente no pequeno pal&aacute;cio de cristal    do Museu de Arte Moderna de S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Creio que o tema    "arte e pol&iacute;tica", fio condutor tanto desta Bienal quanto das duas edi&ccedil;&otilde;es    anteriores, entra em voga a partir da Documenta de Kassel, de 1997, com a curadoria    de Catherine David.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lembro-me bem que    em sua palestra no Pa&ccedil;o das Artes era poss&iacute;vel notar uma fr&aacute;gil    presen&ccedil;a est&eacute;tica das obras frente a um discurso fortemente ideol&oacute;gico    (&eacute; justamente neste momento que Ranci&egrave;re, seu interlocutor de    ent&atilde;o, passava a se tornar uma refer&ecirc;ncia obrigat&oacute;ria no    mundo das artes).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fato &eacute;    que a imagem recorrente daquela documenta foi o retrato da curadora, ao contr&aacute;rio    das documentas anteriores, em que a obra de Beuys era sempre uma refer&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta Bienal, me    pergunto se n&atilde;o s&atilde;o justamente os artistas que est&atilde;o &agrave;    margem (estar &agrave; margem n&atilde;o significa estar fora do debate) aqueles    que mais se destacam, justamente por n&atilde;o se alinharem a nenhuma mensagem    pol&iacute;tica. As obras de Tatiane Trouv&eacute;, Sara Ramos, Francis Aylis,    Jos&eacute; Spaniol e Rodrigo Andrade t&ecirc;m for&ccedil;a justamente pela    sua <i>po&eacute;tica.</i> S&atilde;o obras que ficam na nossa mem&oacute;ria,    transcendem o tempo e o espa&ccedil;o da Bienal e oferecem uma experi&ecirc;ncia    extra-cotidiana. Infelizmente, essas obras n&atilde;o t&ecirc;m sido fruto de    um debate propriamente est&eacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As obras que suscitam    debate na m&iacute;dia aparecem muito mais pelo seu aspecto extra-art&iacute;stico:    na pol&ecirc;mica de se saber se devemos ou n&atilde;o retirar os urubus da    obra de Nuno Ramos, se devemos aceitar imagens de personalidades prestes a serem    assassinadas ou se imagens da Dilma e do Serra podem ser veiculadas desse modo    em per&iacute;odo eleitoral. Ou seja, temas que parecem escapar do mundo da    arte, que se adequam perfeitamente &agrave; cultura do espet&aacute;culo e que    parecem nos levar para a rua. Nesse caso, n&atilde;o caberia perguntar se essa    recusa est&eacute;tica n&atilde;o transforma essas obras em alegoria? Ali&aacute;s,    um problema recorrente nesse tipo de exposi&ccedil;&atilde;o &eacute; a quest&atilde;o    da escala, pois, se o trabalho n&atilde;o for monumental, ele se perde nos gabinetes    de curiosidade. Pintores brasileiros consagrados paradoxalmente recusam o sil&ecirc;ncio    da pintura e fazem grandes interven&ccedil;&otilde;es sonoras e arquitet&ocirc;nicas.    Artistas de grande talento, como Henrique Oliveira, formado pelo Departamento    de Artes Pl&aacute;sticas da USP, conhecido agora pelos seus <i>Tapumes</i>,    acabam recorrendo a figuras aleg&oacute;ricas, neste caso, a imagem da origem    do mundo, c&eacute;lebre pintura de Courbet, realizada em 1866. Huizinga, em    seu c&eacute;lebre livro <i>O Outono da idade m&eacute;dia,</i> faz uma reflex&atilde;o    sobre a alegoria, muito pertinente nesse contexto: "a representa&ccedil;&atilde;o    aleg&oacute;rica levara a fantasia a um impasse. A alegoria acorrentou reciprocamente    a imagem e o pensamento. A imagem n&atilde;o pode ser criada livremente porque    precisa circunscrever por completo o pensamento, e o pensamento &eacute; limitado    em seu v&ocirc;o pela imagem"<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entretanto, basta    percorrer o interior labir&iacute;ntico dessa instala&ccedil;&atilde;o para    esquecermos da entrada em forma de vulva: &eacute; no interior desses corredores    rupestres que viajamos no tempo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por outro lado,    obras de grande valor hist&oacute;rico, como as gravuras de Goeldi, os desenhos    de Flavio de Carvalho, as obras do grupo Rex e as obras pol&iacute;ticas das    d&eacute;cadas de 1960-1970 ficam perdidas no espa&ccedil;o e mereceriam uma    exposi&ccedil;&atilde;o museogr&aacute;fica mais cuidadosa, principalmente por    sua dimens&atilde;o hist&oacute;rica: elas se perdem no meio da multid&atilde;o    que celebra o eterno presente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse sentido,    a fim de resumir minha fala de maneira projetiva, creio que vale a pena discutir    se a Bienal de S&atilde;o Paulo n&atilde;o deveria ter um n&uacute;cleo hist&oacute;rico    rico e consistente, pois, ao contr&aacute;rio das bienais europ&eacute;ias,    n&atilde;o convivemos sempre com obras paradigm&aacute;ticas contempor&acirc;neas    - e n&atilde;o basta dizer que esse deveria ser o papel dos museus, pois eles    vivem sob a press&atilde;o de obter patroc&iacute;nio para realizar suas exposi&ccedil;&otilde;es,    algo que a Bienal, pelo seu poder institucional, pode obter com um pouco mais    de facilidade, justamente por se tratar de um evento que ocorre a cada dois    anos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Muitas vezes mencionamos    uma bienal n&atilde;o pela sua edi&ccedil;&atilde;o, mas pelos artistas ou obras    que estiveram ali presentes: houve a Bienal da Guernica, da Pop, do Philipp    Guston, do Beuys, do Kiefer, do Anish Kapoor, do Sean Scully, do Waltercio Caldas,    do Cildo Meireles, do Tunga etc. Me pergunto qual ser&atilde;o mesmo as obras    que ficar&atilde;o em nossa mem&oacute;ria quando as cortinas se fecharem. &Eacute;    lament&aacute;vel que o debate sobre a retirada dos urubus tenha se sobreposto    &agrave; instala&ccedil;&atilde;o de Numo Ramos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Bienal poderia    ter menos artistas, mas cada um deles com um conjunto maior de obras, para que    pud&eacute;ssemos efetivamente entrar na po&eacute;tica de cada um, ao inv&eacute;s    de nos perdermos em um labirinto de obras dissonantes. A curadoria poderia ser    feita em parceria com os artistas, e as obras poderiam ser escolhidas de forma    a privilegiar, ao inv&eacute;s de grandes temas determinantes, os conceitos    que pudessem surgir no meio do processo. Paul Val&eacute;ry afirma, em seu discurso    sobre a est&eacute;tica, que, ao contr&aacute;rio dos fil&oacute;sofos que buscam    o discurso como um fim, devemos nos concentrar na obra de arte. Em um filme    recente sobre seu trabalho, Cildo Meireles (que gosta de ficar &agrave; margem)    nos diz que a obra bem resolvida &eacute; aquela que n&atilde;o permite muitas    elucubra&ccedil;&otilde;es, pois tudo j&aacute; est&aacute; na pr&oacute;pria    obra. Temos que apreender com esta li&ccedil;&atilde;o. Espero que estas observa&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o sejam interpretadas de maneira unilateral - o espa&ccedil;o pol&iacute;tico    democr&aacute;tico, tanto na <i>p&oacute;lis</i> como em um terreiro como este    em que agora estamos, deve criar condi&ccedil;&otilde;es para o aprimoramento    de nossas institui&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back"></a><a href="#top">*</a>    Este texto foi feito para uma palestra sobre Arte na Rua, a convite de Henrique    Oliveira e da funda&ccedil;&atilde;o Bienal, em 7 de Outubro de 2007.    <!-- ref --><br>   <a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>. HUIZINGA. O Outono da Idade Media.    Cosac &amp; Naify: S&atilde;o Paulo, 2010, p. 544.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000041&pid=S1678-5320201000020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
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