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SILVA, Kalina Vanderlei. Fidalgos, capitães e senhores de engenho: o Humanismo, o Barroco e o diálogo cultural entre Castela e a sociedade açucareira (Pernambuco, séculos XVI e XVII). Varia hist. [online]. 2012, vol.28, n.47, pp. 235-257. ISSN 0104-8775.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752012000100011.


    1 José Antonio Maravall definiu as manifestações filosóficas e políticas do século XVII espanhol, voltadas para o controle absoluto das ações e pensamentos dos indivíduos, como cultura barroca. Considerando essa como a articulação cultural das estruturas sociais, econômicas e políticas da Espanha seiscentista promovida pelo Estado moderno, além de um contexto de crise econômica associada ao desenvolvimento do absolutismo, que se manifestaria também na produção artística e na gesticulação dramática daquele que seria conhecido como homem barroco. MARAVALL, José Antonio. A Cultura do barroco: análise de uma estrutura histórica. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 1997, p.22-25, p.42-45 e p.88. [ Links ]

    O sistema de valores é entendido aqui como o conjunto de crenças duradouras em condutas sociais específicas e que orienta as condutas sociais. Consideramos que tal conjunto está intimamente ligado ao imaginário social, entendido como repositório de representações, imagens, mitos e ideias. Assim, a ética barroca, repleta de valores como honra, bravura, decoro, constituía um sistema de valores vinculado à nobreza ibérica e associado às representações de heroísmo, prudência, discrição. Ver ROKEACH, M. The nature of human values. New York: Free Pres, 1973 apud PEREIRA, Cícero; [ Links ]

    LIMA, Marcus Eugênio e CAMINO, Leoncio. Sistemas de valores e atitudes democráticas de estudantes universitários de João Pessoa. Psicologia: reflexão e crítica, Porto Alegre, n.14, v.1, p.178, 2001; [ Links ]

    LE GOFF, Jacques. O imaginário medieval. Lisboa: Editorial Estampa. 1994, p.12. [ Links ]


    2 Maria P. M. Lourenço considera que esse ritual, chamado borgonhês-habsburgo, foi marcado por um sincretismo durante a União Ibérica, responsável pela instalação de um gosto castelhano nos rituais de corte portugueses, como de resto em toda a Europa. E após Carlos V tal ritual teria se tornando cada vez mais castelhano. LOURENÇO, Maria P. M. Os séquitos das rainhas de Portugal e a influência dos estrangeiros na construção da "Sociedade de Corte" (1640-1754). Penélope, Lisboa, n.29, p.53-54, 2003. [ Links ]

    Para a circulação de fidalgos entre as duas cortes ver RAMINELLI, Ronald. Serviços e mercês de vassalos da América portuguesa. Historia y Sociedad, Colombia, Escuela de Historia de la facultad de Ciencias Humanas y Económicas de la Universidad Nacional de Colombia, v.12, p.107-131, 2006. [ Links ]


    3 Para o bilinguismo da nobreza portuguesa ver ROMO, Eduardo Javier Alonzo. Português e castelhano no Brasil quinhentista à volta dos jesuítas. Revista de Índias, v.LXV, n.234, p.491-492, 2005. [ Links ]

    Já para os casamentos nobres ver SILVA, Ana Maria Nogueira e HESPANHA, Antonio Manuel. A identidade portuguesa. In: MATTOSO, José (org). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Estampa, 1998, v.IV, p.26. [ Links ]

    E para os tratados militares e os comandantes leais aos Habsburgo ver BEBIANO, Rui. Literatura militar da restauração. Penélope, Lisboa, n.9/10, p.83-98, 1993. [ Links ]

    Já a relação entre os tercios e a estrutura militar portuguesa está em SILVA, Kalina Vanderlei. O miserável soldo & A Boa Ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na capitania de Pernambuco nos séc. XVII e XVIII. Recife: FCCR, 2001. [ Links ]

    Para Matias de Albuquerque e sua lealdade aos Habsburgo, depois posta a serviço dos Bragança, ver VALLADARES, Rafael. Las dos guerras de Pernambuco. In: PEREZ, José Manuel Santos e SOUZA, George Cabral (orgs.). El desafío holandés al domínio ibérico en Brasil en el siglo XVII. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2006, p.42. [ Links ]


    4 Esse imaginário fazia parte do que Eduardo D'Oliveira França denomina hidalguía, o complexo de qualidades éticas da nobreza castelhana. FRANÇA, Eduardo D'Oliveira. Portugal na época da restauração. São Paulo: Hucitec, 1997, p.78. [ Links ]

    O grupo dos hidalgos representava 90% da nobreza de Castela. BENNASSAR, Bartolomé. La monarquia española de los Austrias: conceptos, poderes y expresiones sociales. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2006, p.108, p.120-121. [ Links ]


    5 O intercâmbio de estudantes entre as duas universidades, e o predomínio de Salamanca nessa relação, pode ser visto em DIOS, Angel Marcos de. Portugueses en la universidad de Salamanca (1580-1640). 1975. Tesis (Doctoral) - Universidad de Salamanca/Facultad de Filosofía y Letras/Cátedra de Filología Románica, Salamanca; [ Links ]

    RODRÍGUEZ, Marciano Sanchez. Coimbra Y Salamanca. Transferência de Pautas Universitarias. In: TORRES, Ana María Carabias (org). Las relaciones entre Portugal y Castilla en la época de los descubrimientos y la expansión colonial. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1994, p.211. [ Links ]


    7 Essa comparação entre o humanismo e o barroco espanhol pode ser vista em DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías: secreto y disimulación en el barroco hispano. Madrid: Marcial Pons, 2005. Já o papel das universidades castelhanas, no reinado dos Reis Católicos, como instituições gestadoras de um modelo filosófico de Estado e de um humanismo castelhano próprio pode ser visto em MORSE, Richard. O espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.39-41. [ Links ]


    11 As origens da Companhia estão em SCHMITZ, Egídio. Os jesuítas e a educação: filosofia educacional da Companhia de Jesus. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1994; [ Links ]

    e KARNAL, Leandro. Teatro da fé: representação religiosa no Brasil e no México do século XVI. São Paulo: Hucitec, 1998, p.50. [ Links ]


    12 A influência cultural do Império Espanhol sobre a Europa moderna foi observada por FRANÇA, Eduardo D'Oliveira. Portugal na época da restauração, p.31. Já a relação entre artistas e cultura barroca é objeto de discussão em vasta historiografia especializada, por exemplo: BAZIN, Germain. Barroco: um estado de consciência. In: ÁVILA, Affonso. Barroco: teoria e análise. São Paulo: Perspectiva, 1997, p.17-22; [ Links ]

    DE LA FLOR, Fernando. Barroco: representación e ideología en el mundo hispánico (1580-1680). Madrid: Cátedra, 2002; [ Links ]

    PRAZ, Mario. Imágenes del barroco: estudios de emblemática. Madrid: Ediciones Siruela, 2005. [ Links ]


    14 Para Loyola e seus escritos ver LONDOÑO, Fernando Torres. Escrevendo Cartas. Jesuítas, escrita e missão no século XVI. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, p.11-32, 2002. [ Links ]


    15 A relação de Gracián com os cortesãos do período está em PÉCORA, Alcir. Prefácio à edição brasileira. In: CASTIGLIONE, Baldassar. O cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p.VII-XV e p.XIII. [ Links ]

    E a teatralidade pode ser vista, no caso da Europa, em WRIGHT, Jonathan. Os jesuítas: missões, mitos e histórias. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006, p.57, [ Links ]


    16 Para o papel político e sociocultural dos núcleos urbanos na sociedade açucareira ver SILVA, Kalina Vanderlei. Nas solidões e assustadoras: a conquista do sertão de Pernambuco pelas vilas açucareiras nos séculos XVII e XVIII. Recife: CEPE, 2010. [ Links ]

    E para a composição da elite açucareira ver FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Pobres do açúcar: Estrutura produtiva e relações de poder no Nordeste colonial. In: SZMRECSÁNYI, Tamás (org.). História econômica do período colonial. São Paulo: Hucitec/Edusp/ Imprensa Oficial, 2002. [ Links ]

    Aparentemente foi durante as primeiras décadas do século XVII, ou seja, auge da União Ibérica, que a elite açucareira se consolidou através da estabilização de suas famílias principais. MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada: guerra e açúcar no nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro, Topbooks, 1998. [ Links ]


    17 Para o projeto educacional jesuíta ver SCHMITZ. Os jesuítas e a educação; PISNITCHENKO, Olga. A arte de persuadir nos autos religiosos de José de Anchieta. 2004. Dissertação (Mestrado em Letras) - Unicamp, Campinas. [ Links ]


    19 Ver EGIDO, Teófanes; SANCHEZ, Javier e GONZÁLEZ, Manuel. Los jesuitas en España y en el mundo hispánico, p.33. Já para as metas jesuítas na América Portuguesa, ver NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p.72. O primeiro colégio, que seria também o maior pelos séculos seguintes, foi fundado na Bahia, em 1556, seguido pelos de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, respectivamente em 1554, 1568 e 1576. FRANZEN, Beatriz Vasconcelos. Jesuítas portugueses e espanhóis no sul do Brasil e Paraguai coloniais. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003, p.7. [ Links ]


    20 NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p,121. As vilas açucareiras foram centros de difusão cultural também a partir dos sermões pregados nos púlpitos, muitos dos quais seriam posteriormente escritos. Tanto em Salvador, quanto em Olinda e Recife foram os beneditinos aqueles que mais se destacaram nessa atividade, mas seguidos de perto pelos jesuítas e franciscanos. MASSIMI, Marina. Palavras, almas e corpos no Brasil colonial. São Paulo: Edições Loyola, 2005, p.37-38. [ Links ]


    28 RIBEIRO, Marília Azambuja. Livros defensos e bibliotecas privadas no Brasil em finais do século XVI. In: MONTENEGRO et al. História: cultura e sentimento. Outras histórias do Brasil. Recife: Editora UFMT/ Editora Universitária/ UFPE, 2008, p.110. [ Links ]

    Também BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994, p.34. [ Links ]


    29 D. Francisco era um exemplo prático das ideias do "cortesão discreto" de Gracián, influenciado tanto por Castiglione, quanto pelo próprio Gracián. Foi também leitor de Rodrigues Lobo que em sua Corte na aldeia, de 1619, adaptava esses preceitos para a corte lisboeta. FRANCO, Luis Farinha. Da fortuna literária de D. Francisco de Melo e do Barroco. In: RAFAEL, G; FRANCO, L. (coords). D. Francisco Manuel de Melo 1608-1666. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 2008, p.09-10. [ Links ]

    Sua obra poética, tanto em português quanto em castelhano, é considerada uma das mais variadas do barroco ibérico. TOBELLA, Joan E. Cuarenta sonetos manuscritos de Francisco Manuel de Melo. Criticón, n.61, p.7-8, 1994. [ Links ]


    30 Para a vida, formação e obras de Melo ver PRESTAGE, Edgar. D. Francisco Manuel de Melo: esboço biográphico. Coimbra: Editora da Universidade, 1914, p.10-11, p.20 e p.31-32; e TOBELLA. Cuarenta sonetos manuscritos de Francisco Manuel de Melo, p.7-8. Além disso, sua vasta correspondência com cortesãos, escritores e atores sociais os mais diversos na Corte Habsburga pode ser encontrada em AZEVEDO, Antonio Luis (org.). Cartas familiares de D. Francisco Manuel, escritas a varias pessoas sobre assuntos diversos. Lisboa: Oficina dos Herdeiros de Antonio Pedroso Galram, 1752. [ Links ]


    39 SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Recife: Ed. Massangana. 2000, p.90. [ Links ]


    45 Ver sobre isso Requerimento do moço fidalgo da casa real, Lourenço de Azevedo Vasconcelos, ao rei [d Filipe III], pedindo provisão para levantar uma companhia no minho, beira e trás os montes para ir servir na guerra da capitania de Pernambuco. Lisboa. Arquivo Histórico Ultramarino, AHU/ACL/CU/015, cx2, p.131. Também pedido de confirmação de título de fidalguia concedido a português que servira na guerra em Pernambuco. Lisboa. Arquivo Histórico Ultramarino, cx.2, p.108, e KRAUSE, Thiago. Em busca da honra: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo na Bahia e em Pernambuco, 1644-76. Anais do XIII Encontro de História da ANPUH-RJ, Niterói, 2008. Disponível em: <http://encontro2008.rj.anpuh.org/#>. E Sobre las pesquisas que se devem hacer de los procedimientos de Matias d'Albuquerque y Diego Luis d'Oliveira; y letrado que Señora Princesa havia nombrado P[a] ir al Brasil a estas diligencias. Espanha. Archivo General de Simancas, Secretarías Provinciales, Libro 1478, hojas 137-138v. Também CAMENIETZKI, Carlos Ziller e PASTORE, Gianriccardo Grassia. 1625, o fogo e a tinta: a batalha de Salvador nos relatos de guerra. Topoi, Revista de História, v.6, n.11, p.265, jul/dez 2005. [ Links ]