Polimorfismos dos Genes APOE e RLDL e Tracking de Dislipidemia em Jovens. Estudo do Rio de Janeiro

Rossana Ghessa Andrade de Freitas Erika Maria Gonçalves Campana Roberto Pozzan Andréa Araujo Brandão Ayrton Pires Brandão Maria Eliane Campos Magalhães Dayse Aparecida da Silva Sobre os autores

Resumos

Background:

Studies show an association between changes in apolipoprotein E (ApoE) and LDLR receptor with the occurrence of dyslipidemia.

Objectives:

To investigate the association between polymorphisms of the APOE (ε2, ε3, ε4) and LDLR (A370T) genes with the persistence of abnormal serum lipid levels in young individuals followed up for 17 years in the Rio de Janeiro Study.

Methods:

The study included 56 individuals (35 males) who underwent three assessments at different ages: A1 (mean age 13.30 ± 1.53 years), A2 (22.09 ± 1.91 years) and A3 (31.23 ± 1.99 years). Clinical evaluation with measurement of blood pressure (BP) and body mass index (BMI) was conducted at all three assessments. Measurement of waist circumference (WC) and serum lipids, and analysis of genetic polymorphisms by PCR-RFLP were performed at A2 and A3. Based on dyslipidemia tracking, three groups were established: 0 (no abnormal lipid value at A2 and A3), 1 (up to one abnormal lipid value at A2 or A3) and 2 (one or more abnormal lipid values at A2 and A3).

Results:

Compared with groups 0 and 1, group 2 presented higher mean values of BP, BMI, WC, LDL-c and TG (p < 0.01) and lower mean values of HDL-c (p = 0.001). Across the assessments, all individuals with APOE genotypes ε2/ε4 and ε4/ε4 maintained at least one abnormal lipid variable, whereas those with genotype ε2/ε3 did not show abnormal values (χ2 = 16.848, p = 0.032). For the LDLR genotypes, there was no significant difference among the groups.

Conclusions:

APOE gene polymorphisms were associated with dyslipidemia in young individuals followed up longitudinally from childhood.

Polymorphism, Genetic; Dyslipidemias; Young Adult; Epidemiology; Apolipoproteins E


Fundamento:

Estudos demonstram a associação de alterações da apolipoproteína E (APOE) e do receptor da RLDL com a ocorrência de dislipidemia.

Objetivos:

Investigar a associação entre polimorfismos dos genes da APOE(APOE - ε2, ε3, ε4) e do receptor da LDL (RLDL - A370T) com a persistência de alterações dos níveis lipídicos séricos em jovens acompanhados há 17 anos no Estudo do Rio de Janeiro.

Métodos:

Foram estudados 56 indivíduos (35 masculinos) em três avaliações realizadas em idades distintas: A1 – média de idade: 13,30 ± 1,53 anos; A2 – média de idade: 22,09±1,91 anos e A3 – média de idade: 31,23±1,99 anos. Nas três avaliações foram determinados a pressão arterial (PA) e o índice de massa corporal (IMC). Em A2 e A3 foram obtidos a circunferência abdominal (CA) e os lípides séricos, e analisados os polimorfismos genéticos por PCR-RFLP. Com base no tracking de dislipidemia, três grupos foram constituídos: 0 (nenhum lípide alterado em A2 e A3), 1 (até um lípide alterado em A2 ou A3) e 2 (um ou mais lípides alterados em A2 e A3).

Resultados:

Em comparação aos grupos 0 e 1, o grupo 2 apresentou maiores médias de PA, IMC, CA, LDL-c e TG (p < 0,01) e menor média de HDL-c (p = 0,001) que os grupos 0 e 1. Todos os indivíduos com genótipo APOE ε2/ε4 e ε4/ε4 mantiveram durante as avaliações pelo menos um lípide alterado, enquanto que aqueles com genótipo ε2/ε3 não apresentaram alterações (χ2=16,848, p = 0,032). Para os genótipos RLDL não houve diferença significativa entre os grupos.

Conclusões:

O polimorfismo do gene APOE se associou à presença de dislipidemia em indivíduos jovens em acompanhamento longitudinal desde a infância.

Polimorfismo Genético; Dislipidemias; Adlto Jovem; Epidemiologia; Apolipoproteinas E


Introdução

As doenças cardiovasculares (DCVs) são as principais causas de morte de indivíduos adultos em todo o mundo, concorrendo ainda para altas taxas de morbidade e mortalidade precoces1World Health Organization (WHO). [Internet]. Programmes. Cardiovascular disease. About cardiovascular diseases. Definition. [cited 2013 Oct 16]. Available from: <http://www.who.int/cardiovascular_diseases/about_cvd/en>
http://www.who.int/cardiovascular_diseas...
,2World Health Organization (WHO). [Internet]. Media Centre. Fact Sheets. Noncommunicable diseases. Updated March 2013. [cited 2013 Oct 16]. Available from: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs355/en/index.html>
http://www.who.int/mediacentre/factsheet...
. No Brasil, as DCVs concentram anualmente 1/3 do total de mortes3Ministério da Saúde. [Internet]. Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA). Indicadores e dados básicos (IDB). Indicadores de mortalidade. [atualizada em 2012] [acesso em 2014 dez. 03]. Disponível em: <http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2012/matriz.htm>
http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2012...
,4Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. [Internet]. 6a ed. Brasília; 2009. [atualizada em 2010 dez. 14]. [acesso em 2011 jun. 20]. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/default.cfm?pg=dspDetalheNoticia&id_area=124&CO_NOTICIA=11994>
http://portal.saude.gov.br/portal/aplica...
.

Dentre os fatores de risco (FR) associados ao desenvolvimento das DCVs destaca-se a dislipidemia5World Health Organization (WHO). [Internet]. Prevention of cardiovascular disease: guidelines for assessment and management of cardiovascular risk. Part 1: The total risk approach to prevention of cardiovascular disease. Washington DC; 2007. [cited 2013 Oct 16]. Available from:<http://whqlibdoc.who.int/publications/2007/9789241547178_eng.pdf>
http://whqlibdoc.who.int/publications/20...
. Dada a sua importância, estudos vêm sendo desenvolvidos visando conhecer as alterações que estão relacionadas com as modificações dos níveis lipídicos plasmáticos e suas implicações na gênese das DCV6Berenson GS, Srinivasan SR, Bao W, Newman WP 3rd, Tracy RE, Wattigney WA. Association between multiple cardiovascular risk factors and atherosclerosis in children and young adults. The Bogalusa Heart Study. N Engl J Med. 1998;338(23):1650-6.,7Quezada A, Fajardo MA, Rodríguez MA, Ponce G. Análisis de los factores de riesgo vinculados con el síndrome metabólico en niños de Comodoro Rivadavia. Bioquímica y Patología Clínica. 2010;74(1):30-5.. No campo da genética, polimorfismos e mutações em vários genes já foram identificados e associados à aterosclerose e à doença arterial coronariana (DAC)8López-Reyes A, Rodríguez-Pérez JM, Fernández-Torres J, Martínez-Rodríguez N, Pérez-Hernández N, Fuentes-Gómez AJ, et al. The HIF1A rs 2057482 polymorphism is associated with risk of developing premature coronary artery disease and with some metabolic and cardiovascular risk factors. The Genetics of Atherosclerotic Disease (GEA) Mexican Study. Exp Mol Pathol. 2014;96(3):405-10.,9Keenan TE, Rader DJ. Genetics of lipid traits and relationship to coronary artery disease. Curr Cardiol Rep. 2013;15(9):396.. Tal é o caso da apolipoproteína E (APOE), essencial no transporte e metabolismo do colesterol (Col) e na estabilidade estrutural de lipoproteínas1010 Costa PM. Polimorfismo da apolipoproteína E e perfil de distribuição de subfrações de lipoproteínas. [Dissertação]. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; 2004.,1111 Martinelli N, Olivieri O, Shen GQ, Trabetti E, Pizzolo F, Busti F, et al. Additive effect of LRP8/APOER2 R952Q variant to APOE e2/e3/e4 genotype in modulating apolipoprotein E concentration and the risk of myocardial infarction: a case-control study. BMC Med Genet. 2009;10:41., cujo gene apresenta três alelos polimórficos (ε2, ε3 e ε4)1212 Schwanke CHA, Cruz IBM, Leal NF, Scheibe R, Moriguchi Y, Moriguchi EH. Análise da associação entre polimorfismo do gene da apolipoproteína E e fatores de risco cardiovasculares em idosos longevos. Arq Bras Cardiol. 2002;78(6):561-70.. Em estudos populacionais, os níveis plasmáticos do colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-c) estiveram mais elevados em indivíduos que possuíam o alelo ε41212 Schwanke CHA, Cruz IBM, Leal NF, Scheibe R, Moriguchi Y, Moriguchi EH. Análise da associação entre polimorfismo do gene da apolipoproteína E e fatores de risco cardiovasculares em idosos longevos. Arq Bras Cardiol. 2002;78(6):561-70., e por isso, este alelo tem sido associado à ocorrência da DCV1313 Smith JD. Apolipoprotein E4: an allele associated with many diseases. Ann Med. 2000;32(2):118-27..

Mutações no gene do receptor da LDL (RLDL) também têm sido implicadas com as dislipidemias, notadamente nas formas primárias homozigóticas ou heterozigóticas de hipercolesterolemia, como a hipercolesterolemia familiar (HF), responsável pela presença precoce de aterosclerose grave e DAC1414 Marques e Sá AC. O papel dos polimorfismos genéticos na doença cardíaca isquêmica [Dissertação]. Porto: Universidade do Porto; 2010.

15 Guardamagna O, Restagno G, Rolfo E, Pederiva C, Martini S, Abello F, et al. The type of LDLR gene mutation predicts cardiovascular risk in children with familial hypercholesterolemia. J Pediatr. 2009; 155(2):199-204.e2.
-1616 Oliveira PR. Dislipidemia: hipercolesterolemia familiar. [monografia]. Santa Barbara d'Oeste(SP): Anhanguera Educacional S.A; 2010.. O gene RLDL produz uma proteína com domínios de ligação para as apolipoproteínas B e E. Dentre os diferentes polimorfismos encontrados no gene RLDL, o A370T tem sido investigado pela sua associação com a elevação de lípides e com o risco cardiovascular1717 Vieira JR, Whittall RA, Cooper JA, Miller GJ, Humphries SE. The A370T variant (StuI Polymorphism) in the LDL receptor gene is not associated with plasma lipid levels or cardiovascular risk in UK men. Ann Hum Genet. 2006; 70(Pt 6):697-704.,1818 Wang J, Huff E, Janecka L, Hegele RA. Low density lipoprotein receptor (LDLR) gene mutations in Canadian subjects with familial hypercholesterolemia, but not of French descent. Hum Mutat. 2001;18(4):359..

Ocorre que as dislipidemias podem estar presentes já desde idades precoces e as alterações lipídicas costumam persistir ao longo do tempo (efeito tracking) até a idade adulta. Nesse contexto, a identificação de marcadores genéticos implicados com alterações do metabolismo lipídico pode contribuir para o reconhecimento de padrões de susceptibilidade genética desde idades jovens e guiar intervenções para a correção dessas anormalidades.

Assim, o objetivo do presente trabalho foi investigar o padrão de distribuição dos polimorfismos dos genes APOE e RLDL e suas associações com o fenótipo de dislipidemia, notadamente no seu efeito tracking, em uma população jovem, acompanhada por um período de 17 anos.

Métodos

A amostra do presente estudo é oriunda do Estudo do Rio de Janeiro(ERJ), estudo longitudinal do tipo coorte que faz parte de uma linha de pesquisa sobre pressão arterial (PA) e outros FR cardiovasculares em jovens, desenvolvida em 1983 no setor de Hipertensão Arterial do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)1919 Campana EM, Brandão AA, Pozzan R, França MF, Fonseca FL, Pizzi OL, et al. Pressão arterial em jovens como marcador de risco cardiovascular. Estudo do Rio de Janeiro. Arq Bras Cardiol. 2009;93(6):657-65..

No ERJ foram realizadas três diferentes avaliações denominadas A1, A2 e A3. A avaliação A1 foi realizada de 1987 a 1988 em indivíduos entre 10-16 anos de idade (média 13,30 ± 1,53 anos), a A2 de 1996 a 1999 em indivíduos entre 18-26 anos de idade (média 22,09 ± 1,91 anos) e a A3 de 2004 a 2005 em indivíduos entre 27-35 anos de idade (média 31,23 ± 1,99 anos)1919 Campana EM, Brandão AA, Pozzan R, França MF, Fonseca FL, Pizzi OL, et al. Pressão arterial em jovens como marcador de risco cardiovascular. Estudo do Rio de Janeiro. Arq Bras Cardiol. 2009;93(6):657-65..

Da amostra original do ERJ, foram selecionados 75 indivíduos que compareceram nas três avaliações (A1, A2 e A3) para avaliação do perfil genético. Entretanto, 19 indivíduos não realizaram os exames laboratoriais em A2 e foram excluídos da análise atual, resultando na amostra do presente estudo em 56 indivíduos que realizaram a avaliação laboratorial dos lípides séricos nos momentos A2 e A3, bem como estudo do painel genético.

A dislipidemia foi considerada presente quando um ou mais lípides estavam aumentados (colesterol total [Col-T], LDL-c e triglicérides [TG]) ou diminuído (colesterol da lipoproteína de alta densidade [HDL-c]), isolados ou em associação, de acordo com os pontos de corte presentes na V Diretriz Brasileira Sobre Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose2020 Xavier HT, Izar MC, Faria Neto JR, Assad MH, Rocha VZ, Sposito AC, et al; Sociedade Brasileira de Cardiologia. V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Rio de Janeiro. Arq Bras Cardiol. 2013; 101(4 supl. 1):1-22.. O efeito tracking consiste no comportamento de repetição dessas variáveis alteradas (aumentadas ou diminuídas) nos dois momentos de avaliação (A2 e A3) na fase adulta jovem.

De acordo com o tracking de dislipidemia, três grupos foram constituídos:

Grupo 0: nenhuma variável lipídica alterada em A2 e A3; n = 11 indivíduos (10 mulheres) com média de idade de 30,89 ± 1,64 anos;

Grupo 1: pelo menos uma variável lipídica alterada em uma das avaliações (A2 ou A3); n=12 indivíduos (10 homens), com média de idade de 31,47±2,35 anos;

Grupo 2: uma ou mais variáveis lipídicas alteradas nas duas avaliações (A2 e A3); n = 33 indivíduos (24 homens), com média de idade de 31,25 ± 1,99 anos.

Avaliação clínica, antropométrica, laboratorial e genética

Tanto a PA quanto o IMC foram avaliados em A1, A2 e A3. Em A2 e A3 foram ainda dosados, após jejum de 12 horas, Col-T, HDL-c e TG, e calculado o LDL-c e em A3 foi realizada coleta do sangue para os testes genéticos e medida da circunferência abdominal (CA).

Medida da PA

A medida da PA foi realizada de acordo com as normas das VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão2121 Sociedade Brasileira de Cardiologia; Sociedade Brasileira de Hipertensão; Sociedade Brasileira de Nefrologia. VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão. Arq Bras Cardiol. 2010;95(1 supl. 1):1-51.. A PA foi mensurada no membro superior direito, com o indivíduo deitado e em seguida sentado, utilizando-se esfigmomanômetro de coluna de mercúrio (Romed) fixado à parede, com o ponto zero localizado ao nível da linha axilar média. Foram selecionados manguitos de tamanho e largura apropriados para a circunferência e comprimento dos braços dos indivíduos. Considerou-se para a PA sistólica (PAS) o aparecimento do primeiro ruído dos sons de Korotkoff (fase I de Korotkoff), e para a PA diastólica (PAD), o desaparecimento dos mesmos (fase V de Korotkoff). Foram realizados três registros da PA com intervalos de 5 minutos entre cada medida, sendo o último deles utilizado para a análise. A PA foi considerada aumentada em A1 quando a PAS e/ou PAD estava ≥ do percentil 95 para sexo e idade, e em A2 e A3 quando a PAS estava ≥ 140mmHg e/ou PAD ≥ 90mmHg.

Variáveis antropométricas

O peso (P) e a altura (A) foram medidos em balança do tipo plataforma da marca Filizola (São Paulo, Brasil), com capacidade de até 150 quilogramas (kg) e precisão de 100 gramas. Os valores de peso foram determinados com os indivíduos sem calçados e com roupas leves e expressos em kg. Para a altura, os valores foram determinados com os indivíduos eretos e sem calçados considerando a distância do ponto vértex à região plantar, e os resultados foram representados em centímetros (cm)2222 Callaway CW, Chumlea WC, Bouchard C, Himes JH, Lohman TG, Martin AD, et al. Circumferences. In: Lohman TG, Roche AF, Martorell R, eds. Anthropometric standardization reference manual. Champaign: Human Kinetics; 1991. p.44-5..

O IMC foi calculado a partir das medidas de peso e altura por meio do quociente IMC=P/A2World Health Organization (WHO). [Internet]. Media Centre. Fact Sheets. Noncommunicable diseases. Updated March 2013. [cited 2013 Oct 16]. Available from: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs355/en/index.html>
http://www.who.int/mediacentre/factsheet...
, e os resultados foram representados em kg/m2World Health Organization (WHO). [Internet]. Media Centre. Fact Sheets. Noncommunicable diseases. Updated March 2013. [cited 2013 Oct 16]. Available from: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs355/en/index.html>
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.

A CA foi medida paralelamente ao solo por meio de fita métrica flexível e inelástica com precisão de 0,1 cm com o avaliado na posição ortostática e com o abdome relaxado. A medida foi realizada horizontalmente na região de menor curvatura localizada entre a borda inferior da última costela e a crista ilíaca, com a fita firme sobre a pele e sem compressão dos tecidos2222 Callaway CW, Chumlea WC, Bouchard C, Himes JH, Lohman TG, Martin AD, et al. Circumferences. In: Lohman TG, Roche AF, Martorell R, eds. Anthropometric standardization reference manual. Champaign: Human Kinetics; 1991. p.44-5..

Variáveis laboratoriais

As amostras de sangue venoso foram coletadas através de punção de veia periférica do braço (cubital) pela manhã antes dsa 8h30min, sob condições-padrão e após um período de jejum de 12 horas.

Todas as amostras foram acondicionadas em tubos a vácuo, siliconizados e processadas em um período máximo de 30 minutos. As dosagens foram realizadas em soro obtido após centrifugação a uma velocidade de 3.500 rotações por minuto por cinco minutos.

Para a dosagem do colesterol sérico e da fração HDL-c foi utilizado o método colorimétrico enzimático CHOD/PAP, enquanto os TG foram dosados por meio do método enzimático GPD/BAP, e o LDL-c calculado pela fórmula de Friedewald quando o valor de TG estava < 400 mg/dl.

Análise genética

A extração do DNA foi realizada pelo método de salting-oututilizando alíquotas de sangue total (2 ml)2323 Miller SA, Dykes DD, Polesky HF. A simple salting out procedure for extracting DNA from human nucleated cells. Nucleic Acids Res. 1988;16(3):1215.. As análises das variantes alélicas do gene APOE2, ε3, ε4) foram realizadas com a técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR), utilizando os iniciadores APOE F 5'- TAA GCT TGG CAC GGC TGT CCA AGG A-3' e APOE R 5'- ACA GAA TTC GCC CCG GCC TGG TAC AC-3' em 35 ciclos de PCR (95ºC por 60 seg, 63ºC por 60 seg e 72ºC por 120 seg) para amplificar um produto de 244 pares de base (pb)2424 Hixson JE, Vernier DT. Restriction isotyping of human apolipoprotein E by gene amplification and cleavage with HhaI. J Lipid Res. 1990; 31(3):545-8.. Os produtos da amplificação por PCR foram digeridos com a enzima HhaI (Fermentas) e os fragmentos visualizados em gel de poliacrilamida (12 %), após coloração por nitrato de prata. Os perfis 91, 83 e 48 pb; 91, 72 e 48 pb; 91, 83, 72 e 48 pb; e 91 e 48 pb representaram os genótipos ε2ε3, ε3ε4, ε2ε4 e ε3ε3, respectivamente.

Para a genotipagem do polimorfismo A370T, uma região de 150 pb foi amplificada por PCR utilizando os iniciadores P1: 5’-GAG TGT CAG GAT CCC GAC ACC TGC GCC-3’ e P2: 5’-AAG TCG ACC CAC CCG CCG CCT TCC CGT-3' em 35 ciclos (95°C por 60 seg, 68°C por 60 seg e 72°C por 120 seg)2525 Frikke-Schmidt R, Nordestgaard BG, Schnohr P, Tybjaerg-Hansen A. Single nucleotide polymorphism in the low-density lipoprotein receptor is associated with a threefold risk of stroke. A case-control and prospective study. Eur Heart J. 2004; 25(11):943-51.. Para a determinação do polimorfismo, os produtos da PCR foram digeridos com a enzima HaeIII (Biotech) e os fragmentos visualizados em gel de agarose (3,5 %) após coloração com brometo de etídeo. O alelo A gerou fragmentos com 77, 47 e 26 pb, enquanto que o alelo T gerou fragmentos com 124 e 26 pb.

Com a finalidade de comprovar a aleatoriedade no padrão de distribuição genética da amostra do ERJ, as frequências alélicas e genotípicas dos polimorfismos estudados foram comparadas com as observadas em uma amostra não hospitalar composta por 75 indivíduos (41 homens e 34 mulheres) selecionados ao acaso de um banco de dados de DNA contendo mais de 10.000 amostras de indivíduos que realizaram exames para fins de determinação de parentesco, cedidas para esse estudo pelo Laboratório de Diagnósticos por DNA (LDD) da UERJ. Tal amostra foi identificada como LDD. Vale destacar que para fins de comparação da análise de distribuição genética as populações não necessitam ser homogêneas quanto às características fenotípicas.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HUPE sob o nº 2130-CEP/HUPE e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Análise Estatística

Para o tratamento estatístico dos dados, utilizou-se o programa SPSS for Windows, versão 12.0 (Chicago, Illinois, USA). As frequências gênicas e haplotípicas foram estimadas de acordo com Saitou e Nei 2626 Saitou N, Nei M. The neighbor-joining method: a new method for reconstructing phylogenetic trees. Mol Biol Evol. 1987;4(4):406-25., utilizando o programa Arlequin, versão 3.02727 Excoffier L, Laval G, Schneider S. Arlequin (version 3.0): an integrated software package for population genetics data analysis. Evol Bioinform Online. 2007:1:47-50. . O teste do qui-quadrado (χ2) e a análise de variância (F) foram utilizados para a comparação do padrão de distribuição dos polimorfismos com as variáveis clínicas, antropométricas e lipídicas, considerando-se significante quando p<0,05. O teste de homogeneidade das variâncias foi utilizado para caracterizar a distribuição normal das variáveis estudadas.

Resultados

A amostra foi constituída por 56 indivíduos sendo 35 (62,5%) do sexo masculino e 21 (37,5 %) do feminino, com idades entre 27-35 anos e média de 31,23 ± 1,99 anos. Na Tabela 1
Tabela 1
Dados clínicos, antropométricos e laboratoriais da população estudada nos três momentos de avaliação*
estão apresentadas as variáveis clínicas, antropométricas e laboratoriais da população estudada nos três momentos de avaliação (A1, A2 e A3).

Os dados das variáveis clínicas (pressão arterial sistólica - PAS e pressão arterial diastólica - PAD), antropométricas (CA e IMC) e laboratoriais (Col-T, HDL-c, LDL-c e TG) de A3 para os três grupos (grupos 0, 1 e 2) estratificados pelo tracking de dislipidemia estão apresentados na Tabela 2. Foram observadas maiores médias de PAS, IMC, CA, TG e LDL-c e menor média de HDL-c no grupo 2, quando comparado aos grupos 0 e 1.

Tabela 2
Variáveis clínicas, antropométricas e laboratoriais em A3 nos grupos estudados segundo o tracking de dislipidemia*

A análise genética dos 56 indivíduos identificou os seguintes genótipos APOE: ε3ε3 (62,5 %), ε3ε4 (25,0 %), ε2ε3 (5,4 %), ε2ε4 (5,4 %) e ε4ε4 (1,8 %) (Tabela 3).

Tabela 3
Genótipos do gene APOE de acordo com os grupos de dislipidemia*

Quanto à distribuição dos genótipos APOE nos grupos pelo tracking de dislipidemia, observou-se que no grupo 0, 45,5% dos indivíduos apresentavam o genótipo ε3ε3, seguido do ε2ε3 e ε3ε4, ambos em 27,3% dos indivíduos. No grupo 1, o genótipo ε3ε3 esteve presente em 83,3% dos indivíduos e o genótipo ε3ε4 em 16,7%. Não foram observados os genótipos ε2ε3, ε2ε4 e ε4ε4 no grupo 1. No grupo 2, que apresentou a maior diversidade de genótipos da amostra, 60,6% apresentavam genótipo ε3ε3, 27,3% o genótipo ε3ε4, 9,1% o genótipo ε2ε4 e 3%o genótipo ε4ε4. Não foi observado o genótipo ε2ε3 neste grupo. Essa distribuição apresentou significado estatístico (χ2World Health Organization (WHO). [Internet]. Media Centre. Fact Sheets. Noncommunicable diseases. Updated March 2013. [cited 2013 Oct 16]. Available from: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs355/en/index.html>
http://www.who.int/mediacentre/factsheet...
= 16,848, p = 0,0032) e mostrou que 39,4% dos indivíduos do grupo 2 apresentavam genótipos que continham o alelo ε4. Convém destacar que todos os indivíduos com genótipo ε2ε4 e ε4ε4 mantiveram pelo menos um lípide alterado em A2 e A3 (grupo 2 – uma ou mais variáveis lipídicas alteradas em A2 e A3), enquanto que nenhum indivíduo com genótipo ε2ε3 apresentou lípides alterados nas avaliações (grupo 0 – nenhuma variável lipídica alterada em A2 e A3) (Tabela 3).

A amostra foi também analisada quanto ao polimorfismo do gene RLDL, tendo sido identificados os seguintes genótipos: AA em 85,7%, AT em 12,5% e TT em 1,8% dos indivíduos (Tabela 4).

Tabela 4
Genótipos do gene RLDL de acordo com os grupos de dislipidemia*

A análise da distribuição dos genótipos RLDL de acordo com o tracking de dislipidemia não mostrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos (Tabela 4).

Para efeito de comparação, as frequências alélicas e genotípicas dos polimorfismos dos genes APOE e RLDL dos 56 indivíduos do ERJ e dos 75 indivíduos LDD são mostradas na Tabela 5. O teste exato de Fisher indicou não haver diferenças significativas entre as distribuições alélicas das populações do ERJ e LDD.

Tabela 5
Frequências alélicas e genotípicas dos polimorfismos dos genes APOE e RLDL nas amostras do ERJ e do LDD

Discussão

Estudos têm mostrado associação entre os genótipos APOE e RLDL com níveis elevados de macromoléculas lipídicas como o Col-T, TG e LDL-c e diminuídos de HDL-c, bem como com as DCV, especialmente a DAC1111 Martinelli N, Olivieri O, Shen GQ, Trabetti E, Pizzolo F, Busti F, et al. Additive effect of LRP8/APOER2 R952Q variant to APOE e2/e3/e4 genotype in modulating apolipoprotein E concentration and the risk of myocardial infarction: a case-control study. BMC Med Genet. 2009;10:41.,2828 Moreno JA, López-Miranda J, Pérez-Jiménez F. Influencia de los factores genéticos y ambientales en el metabolismo lipídico y riesgo cardiovascular asociado al gen apõe. Med Clin (Barc). 2006;127(9):343-51..

No presente estudo, foi investigado o padrão de distribuição dos polimorfismos dos genes APOE e RLDL em uma população de adolescentes acompanhada ao longo de 17 anos, considerando a ocorrência de dislipidemia com base na alteração (aumento ou diminuição) de uma ou mais variáveis lipídicas e na sua repetição (tracking) em dois momentos distintos (A2 e A3) na fase adulta jovem.

Nesta análise de polimorfismos APOE baseado no tracking de dislipidemia, nosso estudo mostrou que os indivíduos que possuíam o genótipo ε2ε3 estavam concentrados no grupo 0, isto é, o grupo no qual as variáveis lipídicas analisadas (Col-T, TG, HDL-c e LDL-c) se apresentaram normais nas duas avaliações realizadas (A2 e A3). Esses achados estão em concordância com os dados de Ferreira e cols.2929 Ferreira CN, Carvalho MG, Fernandes AP, Lima LM, Loures-Valle AA, Dantas J, et al. Comparative study of apolipoprotein-E polymorphism and plasma lipid levels in dyslipidemic and asymptomatic subjects, and their implication in cardio/cerebro-vascular disorders. Neurochem Int. 2010;56(1):177-82. que demonstraram em um estudo envolvendo 216 indivíduos (109 dislipidêmicos e 107 normolipidêmicos), semelhança na distribuição das frequências alélicas dos polimorfismos APOE nos dois grupos. Entretanto, nos normolipidêmicos nesse estudo, a presença do alelo ε2 esteve fortemente associada a baixos níveis séricos de Col-T e LDL-c, o que pode sugerir um possível papel protetor associado a esse alelo2929 Ferreira CN, Carvalho MG, Fernandes AP, Lima LM, Loures-Valle AA, Dantas J, et al. Comparative study of apolipoprotein-E polymorphism and plasma lipid levels in dyslipidemic and asymptomatic subjects, and their implication in cardio/cerebro-vascular disorders. Neurochem Int. 2010;56(1):177-82.,3030 Fuzikawa AK, Peixoto SV, Taufer M, Moriguchi EH, Lima-Costa MF. Association of ApoE polymorphisms with prevalent hypertension in 1406 older adults: the Bambuí Health Aging Study (BHAS). Braz J Med Biol Res. 2008; 41(2):89-94..

De forma semelhante, Bazzaz e cols.3131 Bazzaz JT, Nazari M, Nazem H, Amiri P, Fakhrzadeh H, Heshmat R, et al. Apolipoprotein E gene polymorphism and total serum cholesterol level in Iranian population. J Postgrad Med. 2010; 56(3):173-5., em estudo do tipo coorte realizado com 320 indivíduos da população iraniana, investigaram a associação entre os polimorfismos do gene APOE, o perfil lipídico e o IMC. Os autores observaram que o alelo ε2era mais frequente nos indivíduos que apresentaram Col-T < 200 mg/dL (p = 0,01), e mostraram ainda uma maior associação dos indivíduos com níveis séricos de Col-T normais com o genótipo ε2ε3 quando comparados aos indivíduos com níveis anormais de Col-T (p = 0,003)3131 Bazzaz JT, Nazari M, Nazem H, Amiri P, Fakhrzadeh H, Heshmat R, et al. Apolipoprotein E gene polymorphism and total serum cholesterol level in Iranian population. J Postgrad Med. 2010; 56(3):173-5..

Já em relação ao alelo ε4, estudos na população geral e em pacientes hipertensos têm demonstrado associação deste alelo com elevação das taxas de Col-T e de LDL-c, sendo por esta razão, associado com maior risco de DAC, mesmo em indivíduos saudáveis2828 Moreno JA, López-Miranda J, Pérez-Jiménez F. Influencia de los factores genéticos y ambientales en el metabolismo lipídico y riesgo cardiovascular asociado al gen apõe. Med Clin (Barc). 2006;127(9):343-51.,3232 Beydoun MA, Beydoun HA, Kaufman JS, An Y, Resnick SM, O'Brien R, et al. Apolipoprotein E e4 allele interacts with sex and cognitive status to influence all-cause and cause-specific mortality in U.S. older adults. J Am Geriatr Soc. 2013;61(4):525-34.. Fuzikawa e cols.3030 Fuzikawa AK, Peixoto SV, Taufer M, Moriguchi EH, Lima-Costa MF. Association of ApoE polymorphisms with prevalent hypertension in 1406 older adults: the Bambuí Health Aging Study (BHAS). Braz J Med Biol Res. 2008; 41(2):89-94., em estudo envolvendo 1,406 adultos de ambos os sexos, observaram uma alta prevalência de hipertensão (61,3%) e uma maior média de níveis de LDL-c nos portadores do alelo ε4 (p = 0,036) quando comparados aos portadores do alelo ε2 (p < 0,001)3030 Fuzikawa AK, Peixoto SV, Taufer M, Moriguchi EH, Lima-Costa MF. Association of ApoE polymorphisms with prevalent hypertension in 1406 older adults: the Bambuí Health Aging Study (BHAS). Braz J Med Biol Res. 2008; 41(2):89-94.. De forma semelhante, Salazar e cols.3333 Salazar LA, Hirata MH, Giannini SD, Forti N, Diament J, Lima TM, et al. Seven DNA polymorphisms at the candidate genes of atherosclerosis in Brazilian women with angiographically documented coronary artery disease. Clin Chem Acta. 2000; 300(1-2):139-49. mostraram associação do alelo ε4 com dislipidemias em um estudo que investigou o polimorfismo do gene APOE em 150 mulheres com e sem DAC. Nessa amostra foi observado que as mulheres com DAC apresentaram taxas significativamente mais elevadas de Col-T, TG e LDL-c e uma frequência maior do alelo ε4 e do genótipo ε3ε4 em relação às do grupo-controle3333 Salazar LA, Hirata MH, Giannini SD, Forti N, Diament J, Lima TM, et al. Seven DNA polymorphisms at the candidate genes of atherosclerosis in Brazilian women with angiographically documented coronary artery disease. Clin Chem Acta. 2000; 300(1-2):139-49..

No presente estudo, 18 indivíduos (32,1%) apresentavam o alelo ε4 em diferentes combinações de genótipos e destes, 13 (72,2%) estavam concentrados no grupo 2 onde se observou agregação de maiores valores de PAS, IMC e CA e, como consequência, um pior perfil de risco cardiovascular. Vale destacar ainda que no grupo 2 se encontrava o único indivíduo da amostra com o genótipo ε4ε4.

Assim, as evidências parecem apontar para um possível papel danoso relacionado ao alelo ε4 e protetor do alelo ε2. Entretanto, a combinação desses alelos em diferentes genótipos pode tornar esses papéis menos claros. Como exemplo no presente estudo, todos os indivíduos que possuíam o genótipo ε2ε4 estavam no grupo 2, grupo que apresentou pior perfil de risco e no qual uma ou mais variáveis lipídicas se apresentaram alteradas nas duas avaliações. Este resultado parece sugerir que quando o alelo ε4 está presente, a condição protetora do alelo ε2 diminui ou é perdida.

No presente estudo, foi ainda observado predomínio do sexo masculino no grupo 2 (n = 24; 72,72%) (Tabela 2). Este grupo apresentou o pior perfil de risco cardiovascular, em concordância com a premissa de que o sexo masculino está associado a maior risco cardiovascular2121 Sociedade Brasileira de Cardiologia; Sociedade Brasileira de Hipertensão; Sociedade Brasileira de Nefrologia. VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão. Arq Bras Cardiol. 2010;95(1 supl. 1):1-51..

Não foram encontradas associações entre os polimorfismos do gene RLDL e o tracking de dislipidemia nos indivíduos jovens da presente amostra. Frikke-Schmidt e cols.2525 Frikke-Schmidt R, Nordestgaard BG, Schnohr P, Tybjaerg-Hansen A. Single nucleotide polymorphism in the low-density lipoprotein receptor is associated with a threefold risk of stroke. A case-control and prospective study. Eur Heart J. 2004; 25(11):943-51. também não encontraram associação significativa entre os níveis plasmáticos de Col-T, LDL-c e os indivíduos com genótipo AA em relação ao TT, entretanto, relataram aumento do risco para desenvolvimento de isquemia vascular cerebral (3,6 vezes maior) em indivíduos homozigóticos TT em relação aos AA2525 Frikke-Schmidt R, Nordestgaard BG, Schnohr P, Tybjaerg-Hansen A. Single nucleotide polymorphism in the low-density lipoprotein receptor is associated with a threefold risk of stroke. A case-control and prospective study. Eur Heart J. 2004; 25(11):943-51..

Na população do ERJ foram encontrados cinco genótipos para o polimorfismo APOE. Em relação aos polimorfismos RLDL, os três polimorfismos foram encontrados na população do ERJ. O genótipo APOEmais observado foi o ε3ε3, enquanto que para o genótipo RLDL foi o AA.

Vale destacar ainda que as frequências alélicas e genotípicas encontradas na amostra ERJ para os polimorfismos do gene APOE foram semelhantes às encontradas em amostras de outros estados brasileiros, como à do Rio Grande do Sul (Porto Alegre)1212 Schwanke CHA, Cruz IBM, Leal NF, Scheibe R, Moriguchi Y, Moriguchi EH. Análise da associação entre polimorfismo do gene da apolipoproteína E e fatores de risco cardiovasculares em idosos longevos. Arq Bras Cardiol. 2002;78(6):561-70. e outras amostras mundiais 3434 Davignon J, Gregg RE, Sing CF. Apolipoprotein E polymorphism and atherosclerosis. Arterioesclerosis.1988; 8(1):1-21.. As frequências alélicas e genotípicas da amostra do ERJ para os polimorfismos do gene RLDL foram semelhantes às encontradas em outras populações, como as do estudo de Frikke-Schmidt e cols.2525 Frikke-Schmidt R, Nordestgaard BG, Schnohr P, Tybjaerg-Hansen A. Single nucleotide polymorphism in the low-density lipoprotein receptor is associated with a threefold risk of stroke. A case-control and prospective study. Eur Heart J. 2004; 25(11):943-51.. Nessa mesma direção, a comparação dos achados de distribuição genética na amostra do ERJ com um grupo amostral representativo e tomado ao acaso da população do estado do Rio de Janeiro (LDD) e, a constatação de homogeneidade entre suas distribuições, sugere que a amostra do ERJ apresenta perfil de aleatoriedade adequado para o desenvolvimento do estudo proposto.

A despeito das limitações do estudo, a associação de um perfil genético específico com a presença de dislipidemia em jovens ao longo do tempo em uma população de tamanho reduzido traz uma perspectiva nova e pouco conhecida na literatura médica hoje disponível. Estudos com mais de 20 anos de acompanhamento como é o Estudo do Rio de Janeiro apresentam perdas relacionadas ao seguimento longitudinal dos indivíduos estudados, mas têm contribuído de forma inequívoca para o melhor conhecimento do comportamento dos fatores de risco cardiovascular na população brasileira.

Conclusão

O estudo dos polimorfismos do gene APOE na amostra do ERJ mostrou que a presença do alelo ε4 foi mais prevalente no grupo 2, composto por indivíduos jovens que apresentaram repetição de variáveis lipídicas alteradas em acompanhamento longitudinal (efeito tracking). Nesse grupo foi ainda observada agregação de piores variáveis antropométricas (maiores IMC e CA) e de maior PA, conferindo a esses indivíduos pior perfil de risco cardiovascular.

Este estudo foi parcialmente financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

  • Vinculação acadêmica
    Este artigo é parte de Dissertação de Mestrado de Rossana Ghessa Andrade de Freitas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
  • Fontes de financiamento
    O presente estudo foi parcialmente financiado por CAPES E FAPERJ.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Maio 2015
  • Data do Fascículo
    Jun 2015

Histórico

  • Recebido
    27 Ago 2014
  • Revisado
    21 Jan 2015
  • Aceito
    28 Jan 2015
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