Redução na Hospitalização e Aumento na Mortalidade por Doenças Cardiovasculares durante a Pandemia da COVID-19 no Brasil

Paulo Garcia Normando José de Arimatéia Araujo-Filho Gabriela de Alcântara Fonseca Rodrigo Elton Ferreira Rodrigues Victor Agripino Oliveira Ludhmila Abrahão Hajjar André Luiz Cerqueira Almeida Edimar Alcides Bocchi Vera Maria Cury Salemi Marcelo Melo Sobre os autores

Resumo

Fundamento

Na pandemia pela COVID-19, o aumento da ocorrência e da mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV) vem sendo reconhecido no mundo. No Brasil, é essencial que o impacto da COVID-19 na DCV seja analisado.

Objetivos

Avaliar o impacto desta pandemia nos números de internações hospitalares (IH), óbitos hospitalares (OH) e letalidade intra-hospitalar (LH) por DCV a partir de dados epidemiológicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Métodos

Estudo observacional de séries temporais por meio da análise comparativa das taxas de IH, OH e LH por DCV registrados entre janeiro e maio de 2020, usando como referência os valores obtidos no mesmo período entre 2016 e 2019 e os valores projetados por métodos de regressão linear para o ano de 2020. O nível significância estatística utilizado foi de 0,05.

Resultados

Em comparação com o mesmo período de 2019, houve um decréscimo de 15% na taxa de IH e de 9% no total de OH por DCV entre março e maio de 2020, acompanhado de um aumento de 9% na taxa de LH por esse grupo de doenças, sobretudo entre pacientes com idade de 20-59 anos. As taxas de IH e LH registradas em 2020 diferiram significativamente da tendência projetada para o corrente ano (p=0,0005 e 0,0318, respectivamente).

Conclusões

Durante os primeiros meses da pandemia, observou-se um declínio na IH associado a um aumento da LH por DCV no Brasil. Esses dados possivelmente são consequência do planejamento inadequado no manejo das DCV durante a pandemia, sendo necessária a implementação de ações imediatas para modificar esse cenário. (Arq Bras Cardiol. 2021; [online].ahead print, PP.0-0)

COVID-19; Betacoronavírus; Pandemia; Doenças Cardiovasculares/complicações; Epidemiologia; Hospitalização; Mortalidade; Comorbidades; Sistema Único de Saúde (SUS)

Abstract

Background

In the COVID-19 pandemic, the increase in the incidence of cardiovascular diseases (CVD) and mortality from them has been recognized worldwide. In Brazil, the impact of COVID-19 on CVD must be evaluated.

Objectives

To assess the impact of the current pandemic on the numbers of hospital admissions (HA), in-hospital deaths (ID), and in-hospital fatality (IF) from CVD by use of national epidemiological data from the Brazilian Unified Public Health System.

Methods

Time-series observational study using comparative analysis of the HA, ID, and IF due to CVD recorded from January to May 2020, having as reference the values registered in the same period from 2016 to 2019 and the values projected by linear regression methods for 2020. The statistical significance level applied was 0.05.

Results

Compared to the same period in 2019, there was a 15% decrease in the HA rate and a 9% decrease in the total ID due to CVD between March and May 2020, followed by a 9% increase in the IF rate due to CVD, especially among patients aged 20-59 years. The HA and IF rates registered in 2020 differed significantly from the projected trend for 2020 (p = 0.0005 and 0.0318, respectively).

Conclusions

During the first months of the pandemic, there were a decline in HA and an increase in IF due to CVD in Brazil. These data might have resulted from the inadequate planning of the CVD management during the pandemic. Thus, immediate actions are required to change this scenario. (Arq Bras Cardiol. 2021; [online].ahead print, PP.0-0)

COVID-19; Betacoronavirus; Pandemics; Cardiovascular Diseases/complications; Epidemiology; Hospitalization; Mortality; Comorbidities; Unified Health System

Introdução

A COVID-19 (sigla do inglês Coronavirus Disease - 2019) foi declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março de 2020. Em julho de 2020, o Brasil era o segundo país do mundo em número de casos e mortes por COVID-19. Dados do dia 24 de julho de 2020 registraram 2.276.860 casos confirmados da doença no país, responsável por 84.551 mortes. 11. Ahn D-G, Shin H-J, Kim M-H, Lee S, Kim HS, Myoung J, et al. Current status of epidemiology, diagnosis, therapeutics, and vaccines for novel coronavirus disease 2019 (COVID-19). J Microbiol Biotechnol. 2020 Mar 28;30(3):313–24.

Considerando que a transmissão se dá principalmente por gotículas expelidas durante a fala, tosse e espirro ou pela contaminação de superfícies, 44. Wiersinga WJ, Rhodes A, Cheng AC, Peacock SJ, Prescott HC. Pathophysiology, transmission, diagnosis, and treatment of coronavirus disease 2019 (COVID-19): A Review. JAMA. 2020 Aug 25;324(8):782-93. restrições à circulação e contato entre pessoas foram propostas pelas autoridades governamentais e de saúde pública na maioria dos países ocidentais. No Brasil, os desafios logísticos para atender à demanda de pacientes incluíram a ampliação de leitos em unidades de terapia intensiva e enfermarias, a suspensão de atendimentos e da realização de exames complementares e de procedimentos eletivos, bem como o direcionamento dos recursos públicos para o atendimento dessa doença. 55. Castro MC, Carvalho LR de, Chin T, et al. Demand for hospitalization services for COVID-19 patients in Brazil. medRxiv. 2020 Apr 1;2020.03.30.20047662.

Estudos populacionais em outros países registraram uma redução relativa nas admissões hospitalares por doenças cardiovasculares (DCV) durante a corrente pandemia, 88. Brasil, Ministério da Saúde. DATASUS. Morbidade Hospitalar do SUS (SIH/SUS) [Internet]. 2020. [Citado em 20 jul 2020] Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/acesso-a-informacao/morbidade-hospitalar-do-sus-sih-sus/
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, 99. Toniolo M, Negri F, Antonutti M, Masé M, Facchin D. Unpredictable fall of severe emergent cardiovascular diseases hospital admissions during the COVID-19 pandemic: Experience of a single large center in northern Italy. J Am Heart Assoc. 2020 Jul 7;9(13):e017122. associada a um aumento nas taxas de letalidade previamente relacionadas a esse grupo de doenças, 1010. Alsaied T, Aboulhosn JA, Cotts TB, Daniels CJ, Etheridge SP, Feltes TF, et al. Coronavirus disease 2019 (COVID-19) pandemic implications in pediatric and adult congenital heart disease. J Am Heart Assoc. 2020 Jun 16;9(12):e017224. , 1111. Shi S, Qin M, Shen B, Cai Y, Liu T, Yang F, et al. Association of cardiac injury with mortality in hospitalized patients with COVID-19 in Wuhan, China. JAMA Cardiol. 2020 Jul 1;5(7):802-10 motivo de grande preocupação entre a comunidade médica e científica internacional.

Diante do exposto, testamos a hipótese de que, durante a pandemia da COVID-19, um menor número de atendimentos e de intervenções cardiovasculares tenha ocorrido e tal fato poderia resultar em uma maior letalidade intra-hospitalar por DCV na população geral. Utilizando bases de dados de domínio público do Sistema Único de Saúde (SUS), o presente estudo teve o objetivo de avaliar o impacto da pandemia nos números de internações hospitalares e na letalidade intra-hospitalar por DCV no território nacional entre janeiro e maio de 2020, em comparação com o mesmo período dos quatro anos anteriores, englobando a busca de elementos clínicos pré-hospitalares, incluindo procedimentos eletivos, que corroboram essas evidências.

Métodos

Este é um estudo observacional de séries temporais, que compreende as internações, óbitos hospitalares, taxa de letalidade intra-hospitalar (percentual de óbitos dentre as internações) e procedimentos hospitalares e ambulatoriais realizados – sendo os dois primeiros divididos nos grupamentos infanto-juvenil (faixa etária de 0 até 19 anos), adulto (20 a 59 anos) e idosos (60 anos ou mais) – em razão de condições relacionadas ao sistema cardiovascular nos serviços próprios e conveniados ao SUS entre janeiro e maio dos anos de 2016 a 2020. Os dados foram coletados em 9 de julho de 2020 mediante busca nos Sistemas de Informações Hospitalares e Ambulatoriais do SUS (SIH e SIA/SUS, respectivamente), disponíveis na plataforma DATASUS e, portanto, públicos e anônimos em conformidade com o artigo I da resolução 510/2016 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Vale ressaltar que atualizações de internações passadas podem ocorrer na plataforma e, portanto, não há como se certificar que todos os dados estão consolidados, independentemente do ano.

Para a análise dos procedimentos, foram utilizados os códigos do Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e Órteses, Próteses e Materiais do SUS (SIGTAP). Foram somadas as produções hospitalar e ambulatorial de cada procedimento selecionado, considerando todos os códigos de procedimento correlacionados, sendo eles:

Procedimentos diagnósticos: cateterismo cardíaco, ecocardiografia (de estresse, transesofágica e transtorácica), eletrocardiograma, implante de marca-passo cardíaco, monitoramento pelo sistema Holter 24 horas, monitorização ambulatorial de pressão arterial ( MAPA ), teste de esforço/ergométrico.

Procedimentos cirúrgicos: cirurgias cardiovascular, endovascular e vascular.

Para o número de internações, óbitos hospitalares e letalidade intra-hospitalar, foram selecionados, para cada uma das três faixas etárias, os registros dos diagnósticos secundários relacionados a patologias cardiovasculares correspondentes à Lista de Morbidade da Décima Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). As seguintes categorias de doenças foram consideradas: acidente vascular cerebral (AVC), doenças hipertensivas (hipertensão arterial essencial e outras doenças hipertensivas), doenças reumáticas (febre reumática aguda e doença reumática crônica do coração), infarto agudo do miocárdio (IAM), insuficiência cardíaca, malformações congênitas do aparelho circulatório e transtornos de condução e arritmias.

Análise Estatística

Uma vez que os dados de procedimentos e cirurgias estão discriminados no sistema apenas quanto à sua natureza (ambulatorial ou hospitalar), uma análise descritiva de como tais procedimentos se dividiam nessas categorias foi realizada. Com relação aos dados de internação e óbitos hospitalares, variáveis como gênero, faixa etária, cor/raça e caráter de atendimento (urgência ou emergência) foram consideradas.

Tendo como objetivo entender o possível impacto da pandemia na dinâmica dos procedimentos, internações e óbitos hospitalares relacionados às DCV, foram comparados os montantes relativos aos meses de março, abril e maio – meses mais afetados no presente ano pela pandemia no Brasil – para os anos de 2016 a 2020. Foram confrontados os valores registrados entre 2019 e 2020 e a variação percentual correspondente entre eles. Vale ressaltar que uma variação na quantidade de internações e óbitos hospitalares entre um ano e outro ou uma mudança na média dos anos anteriores com relação ao ano atual não é causada necessariamente pela pandemia. Consideramos essa variação hipotética uma possível consequência de uma tendência já estabelecida nos anos anteriores. Finalmente, o valor esperado para o ano de 2020 foi estimado, por meio de regressão linear. Tal análise permite presumir se a quantidade de procedimentos, de cirurgias, de internações e de óbitos hospitalares ou a taxa de letalidade intra-hospitalar que vinha sendo observada nos anos anteriores a 2020 apresentava uma tendência de crescimento ou redução. Portanto, a análise realizada capturou tanto a tendência dos anos quanto as variações estatísticas que ocorreram nos anos anteriores.

Embora testes de normalidade não tenham sido realizados, assumiu-se a normalidade dos dados ao longo do tempo considerando-se o teorema central do limite, visto que o dado de cada ano é uma totalização de diversas variáveis aleatórias. A homocedasticidade não pode ser completamente verificada, uma vez que o DATASUS não fornece os dados inteiramente individualizados.

Tais análises estatísticas foram realizadas tanto com o montante de cirurgias e procedimentos, como individualmente para cada procedimento/cirurgia. Da mesma maneira, essas análises foram feitas para internações, óbitos hospitalares e letalidade intra-hospitalar, tanto considerando cada morbidade estudada individualmente como considerando a soma de todas elas, ou seja, uma análise das causas cardiovasculares de uma forma geral.

Como a regressão linear apresenta um erro gaussiano, foi realizado o teste t de Student para média de uma amostra de modo a comparar os valores projetados com os registrados em 2020, sendo rejeitada a hipótese nula com um p<0,05 (intervalo de confiança de 95%). Os programas Microsoft® Excel® e Scilab® 6.1.0 foram utilizados para realizar as análises estatísticas descritas e confecção das tabulações e gráficos.

Resultados

Análise Descritiva

A partir dos dados coletados referentes aos meses de janeiro a maio dos anos de 2016 a 2020, foram levantados 35.744.058 procedimentos, 1.336.472 internações e 142.157 óbitos hospitalares, sendo os dois últimos divididos por região, gênero, faixa etária, raça/cor e caráter de atendimento conforme dados demonstrados na Tabela 1 . Os dados completos que ilustram a variação dos números iniciando em março de 2020 são apresentados nas figuras do material suplementar.

Tabela 1
– Análise descritiva do número de procedimentos, cirurgias, internações e óbitos hospitalares nos meses de janeiro a maio dos anos de 2016 a 2020

Análise Gráfica

A Figura 1A apresenta os dados relativos aos procedimentos diagnósticos e cirúrgicos pesquisados entre os anos 2016 e 2020, para os meses de março a maio. Também são expostas as projeções para 2020 que foram calculadas utilizando-se os dados de 2016 a 2019. Nota-se uma tendência de crescimento do número de procedimentos diagnósticos e cirúrgicos (linhas pontilhadas) para o ano de 2020. No entanto, os dados reais mostram uma queda expressiva quando comparados aos realizados no ano anterior.

Figura 1
– Análise da tendência do número de (a) procedimentos, cirurgias; (b) internações, óbitos; e (c) taxa de letalidade intra-hospitalar nos meses de março a maio dos anos de 2016 a 2020. p-valor calculado a partir da diferença entre o valor projetado e o registrado em 2020 utilizando a distribuição t de Student.

A Figura 1B apresenta a quantidade de internações e óbitos hospitalares registrados, considerando todas as morbidades pesquisadas. Também são expostas as projeções para 2020, que foram calculadas utilizando os dados de 2016 a 2019. O comportamento observado é semelhante ao do gráfico anterior, onde existe uma tendência de crescimento não confirmada no ano de 2020, quando se observa uma queda acentuada. Com relação ao número de óbitos, a tendência projetada seria de manutenção, o que contrasta com a intensa redução no número de óbitos hospitalares registrados nos meses de março a maio de 2020.

A Figura 1C destaca a taxa de letalidade intra-hospitalar geral por DCV registrada. Pode ser percebido um drástico aumento na taxa de letalidade intra-hospitalar em 2020 se comparado aos números registrados nos anos anteriores. Nesse caso, a direção da variação é oposta às observadas para internações e óbitos hospitalares, que apresentaram decréscimo em 2020.

Tal análise foi replicada para cada tipo de procedimento e cirurgia, assim como para internações, óbitos hospitalares e taxa de letalidade intra-hospitalar em cada patologia estudada. Esses resultados são sumarizados nas Tabelas 2 e 3 , apresentando o registro de 2019 e 2020 para a diferença percentual entre esses anos, o valor projetado para 2020 (que indica a tendência de 2016 a 2019), o intervalo de confiança e o valor de p dessa projeção. Os resultados detalhados por faixa etária são apresentados no material suplementar do artigo.

Tabela 2
– Análise estatística da redução do número de procedimentos e cirurgias nos meses de março a maio comparando-se os anos de 2019 e 2020
Tabela 3
– Análise estatística do número de internações, óbitos hospitalares e taxa de letalidade intra-hospitalar nos meses de março a maio comparando-se os anos de 2019 e 2020

Procedimentos Diagnósticos e Cirúrgicos

A Tabela 2 apresenta a comparação do número de procedimentos diagnósticos e cirúrgicos realizados nos meses de março, abril e maio dos anos de 2019 e 2020, percebendo-se uma queda total de 45% em todos os procedimentos pesquisados no ano de 2020. Os procedimentos que tiveram diminuição mais expressiva foram: MAPA (redução de 74%), teste ergométrico (59%) e Holter 24hs (51%). Eletrocardiograma e ecocardiograma apresentaram queda de 41% e 42%, respectivamente. Os que apresentaram menor declínio foram o cateterismo e o implante de marca-passo, com redução de 27% e 11%, respectivamente.

O número total de cirurgias apresentou uma queda de 20% com relação ao ano anterior, o que não foi estatisticamente significante (p=0,0854). No entanto, quando se consideram apenas as cirurgias cardio- e endovasculares, quedas de 13% e 32% foram registradas, ambas com significância estatística (p<0,05).

Internações

Quanto ao número de internações hospitalares por razões cardiovasculares, foi registrada, nos meses de março, abril e maio de 2020, uma redução de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior ( Tabela 3 ). Os dados de todas as doenças analisadas individualmente também apresentaram redução estatisticamente significante. As maiores diferenças foram internações por doenças hipertensivas, seguidas pelas reumáticas, com queda de 33% e 29%, respectivamente. Destaca-se que o IAM apresentou a menor queda (4%).

De modo geral, todas as doenças apresentaram decréscimo entre os anos 2019 e 2020 para todas as faixas etárias. Destacam-se o IAM, cuja diferença nas internações apresentou significância estatística apenas para o grupo dos idosos, a insuficiência cardíaca, na qual os grupos extremos (infantojuvenil e idosos) foram os mais impactados, e os transtornos de condução e outras arritmias que apresentaram redução estatisticamente significante apenas para os idosos. Ao considerar internações por AVC, os adultos e os idosos apresentaram uma redução significativa (11% e 12%, respectivamente). Para as internações por doenças hipertensivas, todas as faixas etárias apresentaram diminuição estatisticamente significante.

Óbitos Hospitalares e Taxa de Letalidade Intra-hospitalar

Ao se analisar o número absoluto de mortes por DCV, houve um decréscimo de 8% no total entre março e maio de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019 ( Tabela 3 ). Os óbitos ocorridos associados a doenças hipertensivas na faixa etária de 20-59 anos apresentaram um acréscimo de 21% no ano de 2020 (p<0,05; arquivo suplementar).

Já com relação às taxas de letalidade geral, pôde-se observar um aumento global de 9%, comparando-se os mesmos meses de 2019 e 2020. Com exceção do IAM, que apresentou queda de 5%, todas as demais patologias apresentaram crescimento. Com relação às patologias individuais, destacam-se doenças hipertensivas e insuficiência cardíaca, com 29% e 8% de aumento na taxa de letalidade intra-hospitalar, respectivamente, entre 2019 e 2020 (p<0,05).

Na divisão por faixas etárias, o aumento da letalidade intra-hospitalar nas internações por DCV foi estatisticamente significativo apenas entre os adultos. Considerando as doenças individualmente, ressalta-se que esse aumento observado na letalidade intra-hospitalar das doenças hipertensivas foi associado a significância estatística apenas para os adultos; quanto aos dados para insuficiência cardíaca, os adultos e idosos apresentaram diferença estatística (p<0,05; Tabelas 2 e 3 do suplemento).

Discussão

Nosso estudo demonstra uma redução da assistência à saúde cardiovascular da população brasileira atendida pelo SUS durante o período da pandemia da COVID-19, que teve como consequências a redução do número de internações por DCV e o aumento da taxa de letalidade intra-hospitalar decorrente dessas.

Nossos resultados têm semelhanças com os achados de um estudo realizado na Itália ao longo de sete dias do mês de março de 2020, que demonstrou que a proporção de pacientes com IAM foi reduzida em 13,3%, comparada à mesma semana de 2019. Ainda, foi constatado um aumento de 39,2% nas síndromes coronarianas agudas, enquanto o tempo entre o contato médico e a revascularização coronariana aumentou em 31,5%. 1212. De Rosa S, Spaccarotella C, Basso C, Calabro MP, Curcio A, Filardi PP, et al. Reduction of hospitalizations for myocardial infarction in Italy in the COVID-19 era. Eur Heart J. 2020 07;41(22):2083–8. Com relação ao número de internações do nosso estudo, houve redução em todas as morbidades e faixas etárias analisadas, principalmente nos meses de abril e maio, possivelmente um reflexo da pandemia da COVID-19. Outros estudos realizados em diferentes países registraram achados semelhantes. 1313. Laccourreye O, Mirghani H, Evrard D, Bonnefont P, Brugel L, Tankere F, et al. Impact of the first month of Covid-19 lockdown on oncologic surgical activity in the Ile de France region university hospital otorhinolaryngology departments. Eur Ann Otorhinolaryngol Head Neck Dis. 2020 Sep;137(4):273-6. O receio da população em contrair o vírus e a sistematização da assistência, priorizando a pandemia, justificam esse impacto inicial. 1616. . Changes in hospital admissions for urgent conditions during COVID-19 pandemic. Am J Manag Care.2020;26(8):327-8. , 1717. Mantica G, Riccardi N, Terrone C, Gratarola A. Non-COVID-19 visits to emergency departments during the pandemic: the impact of fear. Public Health. 2020 Jun 1;183:40–1. Essa redução também ocorreu para outras doenças, como mostram os estudos com AVC na Itália 1818. Morelli N, Rota E, Terracciano C, Immovilli P, Spallazzi M, Colombi D, et al. The baffling case of ischemic stroke disappearance from the casualty Department in the COVID-19 Era. Eur Neurol. 2020;83(2):213–5. e na China. 1919. Tam C-CF, Cheung K-S, Lam S, Wong A, Yung A, Sze M, et al. Impact of coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak on ST-segment–elevation myocardial infarction care in Hong Kong, China. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2020 Apr;13(4):e006631

A realocação dos recursos humanos no enfrentamento à COVID-19 foi similar em diversos países, apesar de possuírem uma heterogeneidade em seus sistemas de saúde. 1212. De Rosa S, Spaccarotella C, Basso C, Calabro MP, Curcio A, Filardi PP, et al. Reduction of hospitalizations for myocardial infarction in Italy in the COVID-19 era. Eur Heart J. 2020 07;41(22):2083–8. Países como Austrália e Nova Zelândia, no intuito de preparar o hospital para prestar atendimento a um grande volume de pacientes com COVID-19, mantiveram um fornecimento de atendimentos cirúrgicos limitado a casos de emergência e eletivos de alta prioridade. 2020. McBride KE, Brown KG, Fisher OM, Steffens D, Yeo DA, Koh CE. Impact of the COVID-19 pandemic on surgical services: early experiences at a nominated COVID-19 centre. ANZ J Surg. 2020;90(5):663–5. Em hospital da região norte da Itália, um dos epicentros da pandemia no país, as atividades cirúrgicas planejadas foram interrompidas para aumentar o número de intensivistas disponíveis para pacientes com COVID-19, além de as ambulatoriais terem sido reduzidas pela metade. 2121. Maniscalco P, Poggiali E, Quattrini F, Ciatti C, Magnacavallo A, Caprioli S, et al. The deep impact of novel CoVID-19 infection in an Orthopedics and Traumatology Department: the experience of the Piacenza Hospital. Acta Bio-Medica Atenei Parm. 2020 May 11;91(2):97–105. Era de se esperar que tal rearranjo no modelo assistencial apresentasse um impacto na mortalidade por outras enfermidades, uma vez que tais medidas reduziram o fluxo habitual de seu atendimento, favorecendo descompensações clínicas, atraso diagnóstico e progressão de doença.

Apesar da redução em números absolutos de óbitos hospitalares, houve aumento da taxa de letalidade intra-hospitalar nas internações por DCV. A redução do número de óbitos pode ser reflexo da falta de notificação adequada, da falta de estrutura do sistema de saúde em atribuir a causa do óbito relacionado à COVID-19 como cardiovascular. A interação COVID-19 e sistema cardiovascular atualmente é bastante reconhecida, após 7 meses da doença no mundo. A COVID-19 está relacionada a alta prevalência de lesão cardíaca, arritmias, miocardite, síndrome coronária aguda, insuficiência cardíaca, choque cardiogênico e eventos tromboembólicos. 2222. Costa IB, Bittar CS, Rizk SI, Araujo Filho AE, Santos KA, Machado TI, et al. The heart and COVID-19: What cardiologists need to know.. Arq Bras Cardiol. 2020;114(5):805-16. O aumento da letalidade nas internações por DCV reflete o potencial de gravidade da COVID-19 nas DCV e possivelmente o retardo do paciente em procurar assistência médica, sendo admitido no hospital em condição mais grave. O aumento da letalidade no paciente internado por DCV atingiu a parcela mais economicamente ativa da população (20-59 anos), agregando mais uma preocupação à crise econômica vigente. Apesar de outros estudos observarem o impacto similar da pandemia no atendimento hospitalar, 1313. Laccourreye O, Mirghani H, Evrard D, Bonnefont P, Brugel L, Tankere F, et al. Impact of the first month of Covid-19 lockdown on oncologic surgical activity in the Ile de France region university hospital otorhinolaryngology departments. Eur Ann Otorhinolaryngol Head Neck Dis. 2020 Sep;137(4):273-6. , 1515. Bromage DI, Cannata A, Rind IA, Gregorio C, Piper S, Shah AM, et al. The impact of COVID-19 on heart failure hospitalization and management: report from a Heart Failure Unit in London during the peak of the pandemic. Eur J Heart Fail. 2020 Jun;22(6):978-84. , 2020. McBride KE, Brown KG, Fisher OM, Steffens D, Yeo DA, Koh CE. Impact of the COVID-19 pandemic on surgical services: early experiences at a nominated COVID-19 centre. ANZ J Surg. 2020;90(5):663–5. nosso estudo talvez seja um dos primeiros a demonstrar um aumento da taxa de letalidade intra-hospitalar cardiovascular. 1212. De Rosa S, Spaccarotella C, Basso C, Calabro MP, Curcio A, Filardi PP, et al. Reduction of hospitalizations for myocardial infarction in Italy in the COVID-19 era. Eur Heart J. 2020 07;41(22):2083–8.

O estudo apresenta como limitação a avaliação apenas de uma parcela da população brasileira, a que tem acesso apenas ao SUS. Portanto, não se pode extrapolar tais dados para toda a população do país. É possível realçar que o impacto demonstrado na letalidade dos brasileiros esteja superestimado, uma vez que a população assistida pelo serviço público de saúde, sendo socialmente mais desprovida de recursos, apresenta pior controle dos fatores de risco cardiovasculares, além de acesso a medicação de qualidade inferior e de forma insatisfatória. 2424. Mandelzweig L, Goldbourt U, Boyko V, Tanne D. Perceptual, social, and behavioral factors associated with delays in seeking medical care in patients with symptoms of acute stroke. Stroke. 2006 May;37(5):1248–53. Tais fatores per se tornam-na mais vulnerável para descompensação clínica, com consequente maior letalidade intra-hospitalar. Ademais, a restrição de internações eletivas pode ter tido certa influência na letalidade intra-hospitalar, apesar desse tipo de atendimento representar apenas 7,80% do total de internações ( Tabela 1 ). É importante destacar o curto período analisado (3 meses). Novos estudos, portanto, devem validar esses achados ao compará-los com outros períodos.

Conclusões

Nosso estudo é o primeiro a avaliar o impacto na saúde cardiovascular no SUS em todo o Brasil durante a pandemia da COVID-19. Esses dados fundamentam preocupações de que a assistência possa estar sendo adiada ou abreviada durante a pandemia da COVID-19.

Referências

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  • Vinculação Acadêmica
    Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.
  • Aprovação Ética e Consentimento Informado
    Este artigo não contém estudos com humanos ou animais realizados por nenhum dos autores.

  • Fontes de Financiamento .O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Fev 2021

Histórico

  • Recebido
    25 Jul 2020
  • Revisado
    22 Set 2020
  • Aceito
    14 Out 2020
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