Caso 2 / 2018 - Fístula Coronário-Cavitária da Artéria Coronária Direita no Ventrículo Direito, em Evolução Há 5 Anos após Oclusão por Cateterismo Intervencionista

Edmar Atik Fidel Leal Raul Arrieta Sobre os autores

Palavras-chave
Fistula/congênito; Vasos Coronários; Intervenção Coronária Percutânea

Dados clínicos: Sopro cardíaco havia sido auscultado de rotina com 8 anos de idade, sem outros comemorativos. Paciente recebeu diagnóstico de fístula coronário-cavitária entre a artéria coronária direita e o ventrículo direito por suposição clínica, confirmada por ecocardiograma. Na ocasião, a fístula foi ocluída por cateterismo intervencionista, tendo evoluído assintomática, em plena atividade física e mental, até 13 anos de idade. Nunca recebeu qualquer medicação.

Exame físico: bom estado geral, eupneica, acianótica, pulsos normais nos 4 membros. Peso: 36,95 Kg, Alt.: 154 cm, pressão arterial no membro superior direito: 100 x 60 mm Hg, FC: 76 bpm, Sat O2: 97%.

Precórdio: ictus cordis não palpado, sem impulsões sistólicas. Bulhas cardíacas normofonéticas, sem sopros. Fígado não palpado.

Antes do fechamento da fístula, o ictus cordis era localizado no 5º espaço intercostal esquerdo e havia impulsões sistólicas discretas na borda esternal esquerda (BEE), além de sopro contínuo na BEE média e baixa, sem irradiações, com intensidade de ++/4 e bulhas discretamente hiperfonéticas.

Exames Complementares

Eletrocardiograma: Ritmo sinusal, com distúrbio de condução pelo ramo direito, em período prévio ao fechamento da fístula. Essa alteração desapareceu no período tardio e não havia sobrecargas de cavidades.

Radiografia de tórax: Área cardíaca se mostrava ligeiramente aumentada com índice cardiotorácico de 0,47, previamente ao fechamento da fístula coronário-cavitária. Ela nitidamente diminuiu na evolução, 5 anos após, quando o índice cardiotorácico era de 0,41 (Figura 1).

Figura 1
Radiografias de tórax antes (à esquerda) e 5 anos após (à direita) o fechamento da fístula coronário-cavitária, salientando nitidamente a diminuição da área cardíaca, discretamente aumentada previamente.

Ecocardiograma: mostrou no período prévio ao fechamento, que o óstio e o tronco da artéria coronária esquerda eram dilatados (8 mm), assim como a artéria circunflexa (4 mm), sendo normal a artéria descendente anterior (2 mm). A artéria coronária direita emergia da artéria circunflexa, sendo também dilatada, com aneurisma terminal de 15 mm, antes da desembocadura na cavidade de ventrículo direito, entre a via de entrada e de saída, com orifício de 4 mm. Este ventrículo era discretamente dilatado, assim como o átrio direito e as artérias pulmonares. VD = 20, VE = 35, septo e parede posterior = 6, AE = 23, Ao = 20, PSVD = 20 mmHg, APs = 12 mm. Na evolução, cinco anos após o fechamento da fístula, observa-se que as cavidades cardíacas são normais, mas as artérias coronárias continuavam dilatadas, embora com diâmetros menores, sendo o tronco da coronária esquerda de 6 mm e a coronária direita de 4 mm. Havia uma imagem hiperrefringente de 10 mm no terço distal da artéria coronária direita, correspondente ao plug arterial, sem fluxo através da fístula fechada.

Angiotomografia de coronárias: As artérias coronárias eram dilatadas, sendo o tronco esquerdo de 7 mm de diâmetro, a circunflexa de 6 mm, a qual se continuava pela coronária direita também com 6 mm, que desembocava no ventrículo direito.

Diagnóstico Clínico: Fístula coronário-cavitária da artéria coronária direita no ventrículo direito, com discreta repercussão clínica, mas com dilatação acentuada da circulação coronária afetada. A dilatação coronária persistiu, mesmo após a oclusão da fístula.

Raciocínio Clínico: Havia elementos clínicos de orientação diagnóstica da fístula coronário-cavitária, relacionados à presença de sopro contínuo na borda esternal esquerda, média e baixa. Dada a essa condição, era presumível que a suposta fístula sistêmica ocorria em uma das cavidades direitas, no átrio ou no ventrículo direito. A repercussão clínica era discreta em vista do pequeno aumento das cavidades cardíacas direitas, evidenciado pela ecocardiografia. O diagnóstico foi bem estabelecido também pela angiotomografia das artérias coronárias.

Diagnóstico diferencial: Em paciente assintomático com sopro contínuo na borda esternal esquerda baixa, obrigatoriamente faz-se diagnóstico diferencial com outras comunicações entre o lado sistêmico e o pulmonar, como na janela aortopulmonar comunicando a aorta ascendente e o tronco pulmonar, além de fístulas entre os seios de Valsalva aórticos e as cavidades cardíacas direitas. Quando essas mesmas comunicações se fazem no ventrículo esquerdo, o sopro passa a ser diastólico e persiste contínuo quando há anastomose com o átrio esquerdo, mas audível em outras localizações, na ponta do coração e na região axilar.

Conduta: Em face da presença de fístula coronário-cavitária e já com dilatação das artérias coronárias, idealizou-se sua eliminação por meio de cateterismo intervencionista. Verificou-se que a artéria coronária direita tinha 6 mm de diâmetro e um aneurisma no seu final com cerca de 15 mm, e comunicação de 4 mm com o ventrículo direito. Conseguiu-se seu fechamento por um plug-vascular Amplatzer II, com resolução imediata da fístula (Figura 2).

Figura 2
Cinecoronariografia mostra a artéria coronária direita (CD) muito dilatada, originando-se da artéria circunflexa, e terminando em compartimento aneurismático em A e B. Em C, a drenagem a partir do aneurisma terminal da CD fazia-se discretamente no ventrículo direito (VD). Nota-se a inserção, a partir do VD, na CD prévia ao aneurisma coronário, de plug-vascular Amplatzer II (seta), em D, e em E a interrupção da drenagem da referida fístula (seta). Cx: circunflexa; Di: diagonalis; DA: artéria descendente anterior.

Comentários: As raras fístulas congênitas das artérias coronárias são conexões anormais com as cavidades cardíacas ou com a árvore arterial pulmonar. A drenagem mais comum se faz com as cavidades direitas, e ocasionalmente com o seio coronário e com as cavidades esquerdas. Elas são simples ou múltiplas e causam sobrecarga de volume proporcional, com quadros que simulam a comunicação interatrial, comunicação interventricular ou persistência do canal arterial, na dependência do local da drenagem. Ademais, causam isquemia miocárdica, arritmias, ruptura vascular e endocardite. Importa, por isso, a eliminação das fístulas, por cirurgia ou ainda, desde 1983, por cateterismo intervencionista.11 Reddy G, Davies JE, Holmes DR, Schaff HV, Singh SP, Alli OO. Coronary artery fistulae. Circ Cardiovasc Interv. 2015;8(11):e003062. Os bons resultados de ambos superam as complicações como infarto, embolização da prótese, dissecção da fístula e arritmias. Cresce a indicação pela intervenção percutânea em face de recuperação mais rápida, menor morbidade e menor custo. É de interesse notar que a dilatação das artérias coronárias não diminui, mesmo após a eliminação das fístulas, o que expressa a concomitante lesão das fibras elásticas do vaso, ultrapassando seu limite de distensibilidade.

Referências bibliográficas

  • 1
    Reddy G, Davies JE, Holmes DR, Schaff HV, Singh SP, Alli OO. Coronary artery fistulae. Circ Cardiovasc Interv. 2015;8(11):e003062.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Mar 2018
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