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Programa de Residência Médica em Cardiologia de Adultos do InCor em 2022: 40 Anos Formando Cardiologistas para as Demandas do Brasil

Marcos Pita Lottenberg Luciana Dornfeld Bichuette Luiz Aparecido Bortolotto Luís Henrique Wolff Gowdak Francisco Carlos da Costa Darrieux Maria Angélica Binotto Roberto Kalil Filho Bruno Caramelli Sobre os autores

Resumo

Fundamento

Diante de dados demográficos referentes às áreas de atuação dos cardiologistas no Brasil, a coordenação do Programa de Residência Médica em Cardiologia do Instituto do Coração (PRM INCOR) entendeu a necessidade de uma atualização de seu conteúdo programático, a fim de adaptar o processo de formação à realidade profissional do cardiologista.

Objetivo

O presente artigo tem como objetivo descrever à comunidade científica as atualizações recentemente implementadas no PRM INCOR.

Métodos

No artigo, descrevemos as atualizações recentes do PRM INCOR, comparando a grade teórica pregressa e a atual. Expomos também o racional por trás de tais mudanças com dados de literatura relacionados à atuação do médico cardiologista no mercado de trabalho.

Resultado

Houve uma redução da carga horária destinada a estágios de terapia intensiva, e um incremento nas atividades ambulatoriais relacionadas a medidas de prevenção primária e secundária. Além disso, o programa passou por uma reformulação de seu conteúdo didático, organizado agora por núcleos de competência.

Conclusão

A atualização da grade curricular decorre da necessidade de adequar o PRM INCOR à realidade atual do mercado de trabalho brasileiro. O grupo envolvido na atualização está ciente que se trata de um processo dinâmico e que pode exigir modificações no decorrer do tempo.

Cardiologia; Residência Médica; Educação Médica

Abstract

Background

Considering demographic data related to the cardiologist’s fields of work in Brazil, the administrative board of the InCor medical residency program decided for an update of its curriculum content, to adapt the educational process to the cardiologist’s work reality.

Objective

This article aimed to describe the recent updates applied to the InCor medical residency program.

Methods

In the article, we described the recent updates on the InCor residency program, and compared the current curriculum track with the previous one. We also presented the rationale for these changes, based on the literature on the participation of cardiologists in the labor market.

Results

There was a reduction in the working hours of residents in training in the intensive care unit, and an increase in the outpatient activities of primary and secondary prevention. Also, the didactic content was reformulated and became organized by the corresponding division.

Conclusion

The update of the curriculum track of the InCor medical residency program was required in order to adapt it to the Brazilian labor market. The commission in charge of this update is aware that this is a dynamic process that may need changes over time.

Cardiology; Medical residency; Medical Education

Introdução

As doenças cardiovasculares representam uma grande preocupação no Brasil e no mundo, sendo a principal causa de morte no país e responsável por uma parcela significativa dos custos relacionados aos cuidados de saúde. No entanto, muitos brasileiros ainda não recebem cuidados cardiovasculares adequados, seja por escassez de recursos ou formação deficitária de médicos especialistas. Melhorar a formação dos profissionais de saúde pode contribuir para mudar esse cenário, embora a compreensão das mudanças necessárias nos programas de treinamento em cardiologia não seja uma tarefa fácil.

Traçar paralelos entre os programas de residência em cardiologia no Brasil e em países desenvolvidos pode ajudar a identificar possíveis alvos de melhoria. Porém, é fundamental conhecer a inserção e a área de atuação dos profissionais de saúde depois de formados, para adaptar o processo de formação à realidade do mercado.

Segundo Scheffer et al., 11. Scheffer M, editor. Demografia Médica no Brasil 2020. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Conselho Federal de Medicina; 2020. em 2020, o número de médicos aproximou-se a meio milhão no Brasil, o que corresponde à relação de 2,4 por mil habitantes. Desses, 4,1% (n=17 802) são cardiologistas, o que coloca essa especialidade entre as 10 com o maior número de médicos, correspondendo à razão de 8,47 por 100.000 habitantes. Apesar do aumento do número de médicos, resultado da abertura de novos cursos de medicina, os profissionais ainda se encontram mal distribuídos geograficamente (entre regiões urbanas, periféricas e rurais) e no sistema de saúde (entre os setores público e privado, e entre os níveis de atenção primária, ambulatorial e hospitalar). 11. Scheffer M, editor. Demografia Médica no Brasil 2020. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Conselho Federal de Medicina; 2020. Ainda segundo este levantamento, apenas 8,16% dos cardiologistas em atividade possui o título de especialista em medicina intensiva. Apesar de não ser obrigatória a obtenção do título de especialista em terapia intensiva para realizar plantões em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e prontos-socorros no país, esse dado pode indicar que, o plantão nesses locais seja apenas uma etapa transitória na vida profissional do cardiologista no Brasil. Por outro lado, a preferência ou a maior duração dos estágios de emergência e UTI na grade curricular da residência, em detrimento de outras áreas clínicas, talvez não reflita o perfil profissional atual.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) realizou, em 2017, um levantamento entre seus sócios para identificar o perfil de atuação profissional do médico cardiologista no território brasileiro. 22. Faganello LS, Pimentel M, Polanczyk CA, Zimerman T, Malachias MVB, Dutra OP, et al. The Profile of the Brazilian Cardiologist - A Sample of Members of the Brazilian Society of Cardiology. Arq Bras Cardiol. 2019;113(1):62-8. doi: 10.5935/abc.20190089. Um total de 2101 médicos responderam ao questionário, sendo que 70,5% eram portadores do título de cardiologia pela SBC e 29,5% eram aspirantes ao título; 49,3% declararam trabalhar em três ou mais locais diferentes, e 46,5% declararam ter o hospital público como local de trabalho mais frequente. Esse dado sugere que a formação do cardiologista, fundamentalmente em um hospital-escola público, traz ao médico residente aspectos práticos do cenário em que provavelmente será inserido após o término de sua formação. Outro estudo observacional transversal 33. Godoy LC, Farkouh ME, Manta ICKA, Dalçóquio TF, Furtado RHM, Yu EHC, et al. Cardiology Training in Brazil and Developed Countries: Some Ideas for Improvement. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):768-74. doi: 10.5935/abc.20190212. envolvendo médicos graduados pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) demonstrou que mais da metade deles trabalha tanto no setor público quanto privado, sendo que 63,4% trabalhavam em consultórios e clínicas particulares.

Este artigo tem como objetivo descrever as mudanças instituídas no programa de Residência Médica (PRM) do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (PRM Incor).

Programa de residência médica

O PRM Incor existe desde 1982, quando aconteceu o credenciamento junto à Comissão de Residência Médica (COREME). Desde então, já foram formados 796 médicos cardiologistas vindos de todos os estados do Brasil. O PRM Incor tinha uma grade curricular que contemplava, no primeiro ano, dois meses de treinamento em urgência e emergência, um mês de treinamento em métodos diagnósticos e o restante do ano em estágios que envolviam atividades em ambulatório e enfermaria. O residente percorria as unidades de aterosclerose, coronariopatia crônica, valvopatias, insuficiência cardíaca, transplante cardíaco, hipertensão, lipídios e marcapasso. O segundo ano do programa também possuía estágios de cunho ambulatorial, como o de arritmia, miocardiopatias e doenças da aorta e cardiopatias congênitas. Além disso, havia grande concentração de atividades de terapia intensiva: cinco meses voltados exclusivamente a atividades na unidade coronariana, na UTI clínica e na UTI pós-operatória. A tabela 1 exemplifica a grade curricular em vigor até o ano de 2021.

Tabela 1
Grade curricular do programa de residência médica do Instituto do Coração em vigor até 2021

Apesar de se tratar de uma grade curricular extremamente competente e abrangente, a nova coordenação do programa decidiu realizar uma atualização considerando que é fundamental que o conteúdo programático da residência reflita a prática do médico cardiologista contemporâneo no país. Este processo envolveu longo período de discussão desenvolvido pelo grupo constituído por diretores de todas as unidades clínicas da instituição, incluindo docentes da Universidade de São Paulo que atuam na formação de médicos residentes há várias décadas e que estão indicados ao final deste artigo.

Neste sentido, alguns pontos de mudança foram definidos: primeiramente, decidiu-se pelo desenvolvimento dos estágios em núcleos de competência, para proporcionar uma melhor organização e continuidade dos temas abordados. Essa dinâmica possibilita, também, que os núcleos unifiquem programas didáticos e organizem de forma mais centralizada as competências primordiais ao residente naqueles estágios. As Tabelas 2 e 3 e as Figuras 1 , 2 , 3 e 4 trazem o exemplo do conteúdo programático e das competências definidas pelos núcleos de valvopatias e coronariopatia crônica/aterosclerose.

Tabela 2
Programa teórico do núcleo de valvopatias
Tabela 3
Programa teórico do núcleo de coronariopatia crônica/aterosclerose

Figura 1
Competências pré-estabelecidas pelo núcleo de valvopatias. TAVI: implante de válvula aórtica transcateter.

Figura 2
Estimativa de pacientes acompanhados no núcleo de valvopatias. TAVI: implante de válvula aórtica transcateter.

Figura 3
Competências pré-estabelecidas pelo núcleo de coronariopatia crônica/aterosclerose. INOCA: isquemia sem doença arterial coronariana; SCC: síndrome coronária crônica; FA: fibrilação atrial; IAM: infarto agudo do miocárdio; DRC: doença renal crônica.

Figura 4
Estimativa de pacientes acompanhados no núcleo de coronariopatia crônica/aterosclerose. INOCA: isquemia sem doença arterial coronariana; SCC: síndrome coronária crônica; FA: fibrilação atrial; DRC: doença renal crônica.

Em segundo lugar, entendeu-se que a carga horária destinada a estágios de terapia intensiva era desproporcional à carga de atuação do médico cardiologista nessa área, e optou-se pela redução do tempo de estágio em UTI. Em terceiro, diante da relevante participação do médico cardiologista em atividades ambulatoriais, e dado que essas contemplam em boa parte a assistência a pacientes em busca de medidas de prevenção primária e secundária, criou-se o núcleo de prevenção. Nesse, o residente tem a oportunidade de ter contato com áreas não contempladas no programa até então, como cardiogeriatria, reabilitação cardiopulmonar e ambulatório de triagem, além de estágios pré-existentes como lípides, hipertensão, tabagismo e ambulatório de atendimento a pacientes com cardiopatias em nível secundário em unidade externa. A Figura 5 mostra a nova grade curricular em vigor a partir de 2022.

Figura 5
Grade curricular do programa de residência médica do Instituto do Coração a partir de 2022. UTI: Unidade de Terapia Intensiva; UCO: Unidade Coronariana; REC: UTI pós-operatória.

Formas de ingresso

Para se tornar cardiologista no Brasil, é necessário, após a formação em Medicina, cursar dois anos de especialização em Clínica Médica, seguidos de dois anos de especialização em Cardiologia. Até o ano de 2021 havia duas formas de ingresso no Incor. A primeira ocorria por meio do processo seletivo de Residência Médica, cuja prova é a mesma para todos as especialidades clínicas oferecidas pela instituição, com remuneração prevista durante o período e 28 vagas ofertadas. A segunda ocorria por meio de um processo seletivo exclusivo do Incor, cujos ingressantes possuíam uma menor carga horária de trabalho e algumas diferenças em relação à grade curricular, sem remuneração prevista. Esses profissionais não recebiam automaticamente, ao término de seu treinamento, o certificado de cardiologista pelo Conselho Federal de Medicina, sendo necessário realizar a prova de título da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Diante da necessidade de homogeneização na formação dos médicos na instituição, foi solicitado no ano de 2022, junto ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o aumento do número de vagas no PRM INCOR, que passou a ofertar 52 vagas, sendo que todos os aprovados passam atualmente por mesma grade curricular. Diante disso, foram extintas outras formas de ingresso.

Conclusão

Entendemos que, para adequar o PRM em cardiologia do Incor à realidade do mercado de trabalho brasileiro, houve a necessidade de atualização da grade curricular, com destaque para atividades ambulatoriais de prevenção primária e secundária, que representam hoje parcela significativa de atuação do médico cardiologista no Brasil.

O grupo envolvido na gestão do PRM INCOR está ciente de que se trata de um processo dinâmico e que pode exigir modificações. O PRM INCOR já foi implementado e está em constante monitoramento por uma Comissão criada nos anos anteriores para acompanhar e resolver demandas de médicos residentes e professores do programa.

Referências

  • 1
    Scheffer M, editor. Demografia Médica no Brasil 2020. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Conselho Federal de Medicina; 2020.
  • 2
    Faganello LS, Pimentel M, Polanczyk CA, Zimerman T, Malachias MVB, Dutra OP, et al. The Profile of the Brazilian Cardiologist - A Sample of Members of the Brazilian Society of Cardiology. Arq Bras Cardiol. 2019;113(1):62-8. doi: 10.5935/abc.20190089.
  • 3
    Godoy LC, Farkouh ME, Manta ICKA, Dalçóquio TF, Furtado RHM, Yu EHC, et al. Cardiology Training in Brazil and Developed Countries: Some Ideas for Improvement. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):768-74. doi: 10.5935/abc.20190212.

  • Em nome do Programa de Residência Médica em Cardiologia do Instituto do Coração (a lista completa dos colaboradores se encontra no final do artigo)
  • Vinculação acadêmica
    Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.
  • Aprovação ética e consentimento informado
    Este artigo não contém estudos com humanos ou animais realizados por nenhum dos autores.

  • Fontes de financiamento: O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Nov 2022
  • Data do Fascículo
    Out 2022

Histórico

  • Recebido
    24 Jun 2022
  • Revisado
    22 Ago 2022
  • Aceito
    23 Ago 2022
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