Dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen

Resumos

Dermatite factícia refere-se à condição em que as lesões cutâneas são autoinduzidas e resultam de algum distúrbio psiquiátrico. As lesões podem se apresentar de diversas formas e ser produzidas por grande variedade de meios. Apresenta-se um caso raro de paciente com dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen, que se refere a indivíduos que intencionalmente produzem sintomas físicos com o intuito de atender a uma necessidade de receber atendimento médico frequente.

Dermatite; Psicopatologia; Síndrome de Münchausen


Factitial dermatitis is a condition in which skin lesions are self-inflicted as the result of a psychiatric disorder. The lesions may be presented in various forms and produced by a wide variety of means. This report refers to the case of a patient with factitial dermatitis triggered by Munchausen syndrome, which refers to individuals who intentionally provoke physical symptoms in themselves in order to satisfy a need to receive frequent medical attention.

Dermatitis; Psychopathology; Munchausen syndrome


CASO CLÍNICO

Dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen

Náiade Maria Rêgo e SilvaI; Giannina Wanderley PetrucciII; Esther Bastos PalitotIII; Mohamed Arbaqui AzzouzIV; Samir de Figueiredo AzzouzV

IAcadêmica de Medicina - Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil

IIAcadêmica de Medicina - Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil

IIIMestre com área de concentração em Dermatologia; professora de Dermatologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil

IVMestre com área de concentração em Dermatologia; professor de Dermatologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil

VAcadêmico de Medicina - Faculdade de Medicina Souza Marques (FMSM) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

Dermatite factícia refere-se à condição em que as lesões cutâneas são autoinduzidas e resultam de algum distúrbio psiquiátrico. As lesões podem se apresentar de diversas formas e ser produzidas por grande variedade de meios. Apresenta-se um caso raro de paciente com dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen, que se refere a indivíduos que intencionalmente produzem sintomas físicos com o intuito de atender a uma necessidade de receber atendimento médico frequente.

Palavras-chave: Dermatite; Psicopatologia; Síndrome de Münchausen

INTRODUÇÃO

A dermatite factícia refere-se à condição em que lesões cutâneas são autoinduzidas, sendo resultado ou manifestação de algum distúrbio psiquiátrico. As lesões podem se apresentar de diversas formas ou padrões e, geralmente, situam-se em locais de fácil alcance às mãos do paciente. São produzidas por uma grande variedade de meios, como unhas, objetos pontiagudos, substâncias químicas, entre outros.1 Considera-se o diagnóstico de dermatite factícia quando as hipóteses de doenças orgânicas são excluídas. Em raros casos, essa dermatite pode estar associada à síndrome de Münchausen, que se refere a indivíduos que intencionalmente produzem ou apresentam sintomas físicos com o intuito de receber atendimento hospitalar frequente.2 Descrita pela primeira vez em 1951, a síndrome de Münchausen tem como critérios diagnósticos definidores a produção ou simulação intencional de sinais e sintomas predominantemente físicos, a necessidade do paciente de sentir-se doente e a ausência de incentivos externos para seu comportamento (ganho econômico, fuga de responsabilidade legal ou melhora de bem-estar físico). Pelas próprias características do quadro, poucos pacientes são atendidos por um psiquiatra. A maioria deles perambula por inúmeros hospitais e é atendida nos diferentes serviços de clínica e de cirurgia de emergência, sendo o diagnóstico dificultado pelo desconhecimento dos profissionais de saúde a respeito da síndrome.3,4 Neste relato, descreve-se e discute-se um caso raro de uma paciente com dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen.

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, 36 anos, solteira, doméstica, procurou serviço médico em um hospital de emergência, referindo lesões dermatológicas há cerca de seis meses e atribuindo a seu patrão a auto-ria das mesmas. Ao exame, apresentava lesões bolhosas exulceradas, bem regulares, distribuídas pelos braços, coxas e tronco (Figura 1). Afirmou já ter sido atendida em outros hospitais, um dos quais deu o diagnóstico clínico de pênfigo vulgar. Posteriormente, a paciente foi submetida à biópsia da lesão, cujo laudo do histopatológico foi compatível com uma dermatite de contato irritativa por um agente causal inespecífico (Figura 2). Como a paciente se apresentava muito inquieta e confusa, foi submetida a uma avaliação psiquiátrica, em que se constatou que as lesões eram decorrentes da aplicação de uma substância cáustica à pele e eram provocadas pela própria paciente. Concluiu-se que se tratava de uma dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen. A paciente recebeu tratamento tópico sintomático das lesões e foi encaminhada para acompanhamento psiquiátrico.

DISCUSSÃO

A paciente descrita no caso mimetizava uma enfermidade dermatológica por meio da aplicação de hidróxido de sódio (soda cáustica) sobre a pele. Negava peremptoriamente a sua participação nas lesões, chegando a acusar o seu patrão de agressão física e responsabilizando-o, dessa forma, pela autoria das lesões. A paciente teve passagens por vários hospitais, com o mesmo quadro clínico, tendo sido aventadas outras hipóteses diagnósticas. Diante da recorrência do quadro e do estado de inquietação em que a paciente se encontrava, no último atendimento, solicitou-se avaliação psiquiátrica; após várias consultas, foi dado o diagnóstico de dermatite factícia desencadeada pela síndrome de Münchausen. O comportamento da paciente é bem característico, sendo motivado por uma necessidade intrínseca de receber atenção, principalmente, do ponto de vista médico-hospitalar.

A associação das duas condições citadas, além de ser rara, muitas vezes, não é diagnosticada, devido ao desconhecimento dos profissionais de saúde a respeito do tema. O manejo clínico desses pacientes é dificultado pela baixa adesão ao tratamento e eles devem ser observados de forma cautelosa, para que novas lesões não sejam provocadas durante o acompanhamento médico.5,6 É imprescindível a abordagem do ponto de vista psiquiátrico, que é a principal responsável pela cura completa dos pacientes, evitando-se, assim, frequentes recidivas.6,7

Recebido em 14.08.2008.

Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 30.10.2008.

Conflito de interesse: Nenhum

Suporte financeiro: Nenhum

* Trabalho realizado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - João Pessoa (PB), Brasil.

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  • Endereço para correspondência:
    Mohamed Azzouz / Esther Palitot
    Rua Augusto dos Anjos, 35 - Centro
    58030090 João Pessoa, PB
    Tel.:/Fax: 83 3241 8303, 9157 0502 e 9106 7840
    E-mail:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Maio 2010
  • Data do Fascículo
    Fev 2010

Histórico

  • Recebido
    14 Ago 2008
  • Aceito
    30 Out 2008
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