Você conhece esta síndrome?

Resumos

A lipodistrofia generalizada congênita (síndrome de Berardinelli-Seip), doença autossômica recessiva, caracteriza-se por escassez do tecido subcutâneo. A falta de tecido adiposo propicia disfunção metabólica dos lípides e carboidratos, resistência periférica à insulina, hipertrigliceridemia e hipermetabolismo. Outros achados são acantose nigricante, acromegalia, hepatomegalia e alterações musculares, ósseas, cardiovasculares e neurológicas. Relata-se o caso de paciente com essa síndrome, cujo diagnóstico foi realizado em um serviço de dermatologia.

Acantose nigricans; Acromegalia; Hiperinsulinismo; Hipertrigliceridemia; Lipodistrofia; Resistência a insulina


Congenital generalized lipodystrophy (Berardinelli-Seip syndrome) is a recessive autossomic disease characterized by absence of subcutaneous tissue. The fat tissue absence leads to metabolic dysfunction of lipids and carbohydrates, peripheral insulin resistance and increased seric levels of triglycerides and also a higher metabolic rate. Other findings are acanthosis nigricans, acromegaly, hepatomegaly and muscular, bony, cardiovascular and neurological abnormalities. A case of a patient with this syndrome is reported, whose diagnosis was made in a dermatology ambulatory.

Acanthosis nigricans; Acromegaly; Hiperinsulinism; Hipertriglyceridemia; Insulin resistance; Lipodystrophy


SÍNDROME EM QUESTÃO

Você conhece esta síndrome?* * Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil.

Júnia Bicalho de SousaI; Sílvia Pimenta de CarvalhoI; Luciana Baptista PereiraII; Everton Siviero do ValeII

IMédica especialista pela SBD e pelo MEC

IIProfessor Assistente de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG - Belo Horizonte (MG), Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

A lipodistrofia generalizada congênita (síndrome de Berardinelli-Seip), doença autossômica recessiva, caracteriza-se por escassez do tecido subcutâneo. A falta de tecido adiposo propicia disfunção metabólica dos lípides e carboidratos, resistência periférica à insulina, hipertrigliceridemia e hipermetabolismo. Outros achados são acantose nigricante, acromegalia, hepatomegalia e alterações musculares, ósseas, cardiovasculares e neurológicas. Relata-se o caso de paciente com essa síndrome, cujo diagnóstico foi realizado em um serviço de dermatologia.

Palavras-chave: Acantose nigricans; Acromegalia; Hiperinsulinismo; Hipertrigliceridemia; Lipodistrofia; Resistência a insulina

RELATO DO CASO

Paciente de 14 anos, do sexo feminino, parda, procedente de Felisburgo, MG. Foi atendida com queixa de lesões hipercrômicas aveludadas nas regiões cervical, axilar e inguinal, que se iniciaram aos dois meses de idade e recentemente haviam piorado. Relatava apetite aumentado e amenorréia. Apresentava bom desempenho escolar. Negava doenças prévias. Os pais eram primos distantes e não havia casos semelhantes na família.

Notava-se acantose nigricante nas regiões perioral, cervical, axilar, inguinal e antecubital (Figura 1). Apresentava ainda acromegalia e ausência da gordura de Bichat (Figura 2), hipertrofia muscular axial e de membros, hepatomegalia e escassez acentuada do tecido subcutâneo (Figura 3), exceto em mãos e pés. As mamas eram hipotróficas devido à falta de gordura, e o clitóris mostrava-se proeminente (Figura 3). Seu peso era 45kg, e a altura, 1,56m.




O laboratório revelou elevação da glicemia de jejum (125mg/dl), dos triglicérides (537mg/dl), das aminotransferases (AST 69u/L; ALT 112u/L), da gama-GT (113 u/L, referência 12-43u/L) e da insulinemia (48,6mU/ml; referência 2-27/mU/ml). Hemograma, ionograma, fosfatase alcalina, colesterol total e fracionado, função tireoidiana e renal, exame de urina rotina, sulfato de deidroepiandrosterona, testosterona, prolactina, GH, LH e FSH estavam na faixa da normalidade.

A ultra-sonografia abdominal mostrava hepatomegalia com esteatose e colecistolitíase. O ECG apresentava sinais indiretos de hipertrofia do ventrículo esquerdo. As radiografias de tórax e de ossos longos, e o ecodopplercardiograma não mostravam alterações.

Foi prescrita dieta restritiva para gorduras e açúcares. Evoluiu com o desenvolvimento de diabetes melito, sendo iniciada insulinoterapia e posteriormente glibenclamida, sem controle do quadro. As aminotransferases mantiveram-se elevadas.

A acantose nigricante foi tratada com creme de uréia e ácido salicílico, apresentando melhora parcial. Surgiram lesões papulosas amareladas nos membros superiores, cujo exame histopatológico confirmou a suspeita clínica de xantoma eruptivo (Figura 4).


Apresentou ainda albuminúria, glicosúria, hematúria e hipertensão arterial sistêmica, controlada com dieta hipossódica.

O acompanhamento multidisciplinar foi interrompido após um ano, por iniciativa da paciente.

QUE SÍNDROME É ESSA?

Síndrome de Berardinelli-Seip

As lipodistrofias compreendem um grupo de desordens congênitas ou adquiridas caracterizadas por perda parcial ou quase completa do tecido adiposo.

A lipodistrofia generalizada congênita, conhecida por síndrome de Berardinelli-Seip, de herança autossômica recessiva, caracteriza-se pela escassez de tecido adiposo, já notada ao nascimento ou na infância precoce.1-4 O defeito genético provavelmente resulta no mau desenvolvimento do tecido adiposo metabolicamente ativo.5,6 O tecido adiposo mostra-se escasso na maioria das áreas subcutâneas, no abdômen, no tórax, na medula óssea e na região malar.3,5,7 Encontra-se normal nas palmas, plantas e outros locais onde tem função mecânica.5,7

Hiperlipidemia é achado quase constante, podendo levar à xantomatose.3

A leptina sérica, hormônio importante na homeostase energética, é baixa, o que contribui para a ocorrência de resistência à insulina e de outras anormalidades metabólicas.8-10

Os distúrbios no metabolismo dos carboidratos são provavelmente conseqüentes à limitada capacidade de sua estocagem como gordura. A sobrecarga de carboidratos resulta em hiperinsulinemia e intenso anabolismo, podendo a glicemia manter-se normal. Entretanto, resistência periférica à insulina costuma ser observada desde a infância.3

Os indivíduos afetados geralmente apresentam crescimento linear acelerado, apetite voraz, idade óssea avançada na infância, acromegalia e hipertrofia muscular.3,8

Distúrbios mais graves do metabolismo dos lípides e carboidratos não costumam surgir até a puberdade, pelo efeito protetor da acelerada velocidade de crescimento.3 Com o fim do ganho estatural, a dislipidemia se agrava, e o diabetes melito se manifesta.3,11

Em decorrência da hiperinsulinemia, desenvolve-se acantose nigricante.3 Ocorre esteatose com hepatomegalia, que pode evoluir para esteato-hepatite e cirrose.3 As mulheres podem ter aumento do clitóris, hirsutismo, ovários policísticos e fertilidade reduzida; os homens costumam ter potencial reprodutivo normal.3,8 O tecido glandular mamário é bem desenvolvido, mas há escassez de tecido subcutâneo ao redor das mamas.5

Hipertensão arterial sistêmica e hipertrofia miocárdica são comuns.12,13 Distúrbios neurológicos costumam também ser relatados,4 assim como alterações ósseas.14

Com referência ao tratamento, não há dieta capaz de reverter a lipodistrofia, embora a restrição de gorduras e carboidratos sejam fundamentais.3

Os fibratos e as estatinas podem ser tentados para controlar a hipertrigliceridemia.9

O uso de insulina em geral não permite controle glicêmico adequado. As tiazolidinedionas parecem ser a terapia mais efetiva, embora ainda não sejam ideais.9 A metformina pode ser tentada.9 Em estudo recente, a terapia de reposição da leptina resultou em melhora do controle glicêmico e metabólico.9 No caso relatado, a glibenclamida foi opção da endocrinologia, devido à alteração das enzimas hepáticas, o que teoricamente contra-indicaria a administração de metformina.

Para o tratamento da acantose nigricante e dos xantomas é essencial o controle dos fatores desencadeantes, como a hiperinsulinemia e a dislipidemia.

O caso relatado reforça a importância do conhecimento das lipodistrofias pelo dermatologista, que pode inicialmente ser procurado devido à presença das alterações cutâneas – a partir das quais se pode chegar ao diagnóstico de síndromes metabólicas com importante acometimento sistêmico.

  • Endereço para correspondência:
    Júnia Bicalho de Sousa
    Bela Pele Clínica Dermatológica®
    Rua Montes Claros, 443/104 - Bairro Anchieta
    30310-370 - Belo Horizonte - MG
    Telefone: (31) 3223-3250
    E-mail:
  • Recebido em 27.06.2003.

    Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 05.12.2005.

    Conflito de interesse declarado: Nenhum.

  • *
    Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil.
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    Endereço para correspondência: Júnia Bicalho de Sousa Bela Pele Clínica Dermatológica® Rua Montes Claros, 443/104 - Bairro Anchieta 30310-370 - Belo Horizonte - MG Telefone: (31) 3223-3250 E-mail: juniabicalho@click21.com.br * Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) - Belo Horizonte (MG), Brasil.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      12 Abr 2006
    • Data do Fascículo
      Fev 2006

    Histórico

    • Recebido
      27 Jun 2003
    • Aceito
      05 Dez 2005
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