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Por que os homens são tão diferentes das mulheres?

EDITORIAL

Por que os homens são tão diferentes das mulheres?

Ana Claudia Latronico

Professora Livre-Docente, Disciplina de Endocrinologia e Metabologia,Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP,Co-Editora, ABE&M

Endereço para correspondência Endereço para correspondência Ana Claudia Latronico Disciplina de Endocrinologia e Metabologia Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP Av. Enéas Carvalho de Aguiar, 255 05403 São Paulo, SP

A DISTINÇÃO ENTRE HOMENS E MULHERES é considerada absoluta na maioria das circunstâncias.

Do ponto de vista popular, não há ninguém como os homens para localizar ruas e estradas em mapas de um país estrangeiro. Eles sempre sabem o preço da gasolina e, no instante em que ligam o motor de um carro, reconhecem o botão dos faróis, do ar-condicionado, do aquecimento e até mesmo do limpador de pára-brisas do vidro traseiro, aquele que as mulheres jamais conseguem aprender, mesmo cinco anos depois de terem comprado o carro.

Já as mulheres, são capazes de dividir sua atenção entre o programa favorito de televisão, os cuidados com as crianças e uma ou mais atividades domésticas básicas. Diferentemente do homem, que quando assiste futebol fica totalmente absorvido e incomunicável. Estas diferenças podem, eventualmente, ocasionar conflitos de relacionamento, e até mesmo uma guerra, a famosa guerra dos sexos.

Alguns títulos literários bem humorados refletem tais diferenças de comportamento: "Por que os homens mentem e as mulheres choram" (1), "Por que homens fazem sexo e as mulheres fazem amor" (2), "Homens são de Marte, Mulheres de Vênus" (3), "As mentiras que os homens contam" (4), e o mais dramático deles "Quanto mais entendo os homens, mais eu gosto do meu gato" (5), este último logicamente de autoria feminina.

Na visão científica, igualmente interessante, a maioria das características sexuais emerge a partir de precursores bipotenciais no embrião. A determinação e a diferenciação sexual representam processos seqüenciais caracterizados pelo estabelecimento do sexo genético, dependente da presença dos cromossomos sexuais no zigoto no momento da concepção, do sexo gonadal (característica sexual primária), dependente por sua vez do sexo genético, da regulação da diferenciação da genitália externa pelo sexo gonadal e, finalmente, pela determinação do sexo fenotípico.

Na puberdade o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários gera manifestações fenotípicas mais visíveis, intensificando o dimorfismo sexual. Estes processos são regulados por pelo menos 50 genes localizados nos cromossomos sexuais e autossomos que codificam fatores com mecanismos diversos, tais como fatores de transcrição, hormônios e receptores. Embriões de ambos os sexos apresentam células primordiais comuns e indiferenciadas que possuem uma tendência inerente para feminizar, exceto se houver uma interferência ativa dos fatores masculinizantes.

A falência em qualquer fase do desenvolvimento sexual seqüencial, de causa genética ou ambiental, pode ter profundos efeitos no fenótipo, resultando em sexo reverso completo, graus variáveis de ambigüidade sexual ou, nos defeitos mais leves, em uma função sexual anômala que se torna aparente apenas após a maturidade sexual. Anormalidades do desenvolvimento sexual podem ser classificadas em dois grandes grupos:

1. Doenças da determinação, que freqüentemente são causadas por alterações nos cromossomos sexuais ou por anormalidades gênicas que afetam a gênese gonadal,

2. Doenças da diferenciação sexual, que freqüentemente também são causadas por defeitos genéticos e, menos freqüentemente, por fatores adversos no ambiente intra-uterino.

O acúmulo extraordinário de conhecimento nas últimas décadas e as novas e constantes descobertas neste campo da determinação e diferenciação sexual, representam um marco na ciência médica moderna. Nenhum aspecto do desenvolvimento pré-natal humano é tão conhecido. Avanços nas áreas de embriologia, bioquímica, biologia molecular e celular, citogenética, endocrinologia e ciência do comportamento, é claro, têm contribuído para a compreensão das doenças sexuais humanas, com impacto no diagnóstico e tratamento destas condições. Importantes conhecimentos têm surgido a partir de estudos de pacientes com alterações da diferenciação sexual, especialmente a partir da aplicação das técnicas de biologia molecular.

Esta primeira Edição Especial dos ABE&M de 2005 foi coordenada pelos editores convidados, Andréa T. Maciel Guerra e Gil Guerra Junior, que reúnem de forma muito habilidosa artigos de revisão e atualização e artigos originais de pesquisadores estrangeiros e brasileiros experientes no campo da determinação e diferenciação sexual. As diferenças de comportamento sexual mencionadas no início podem, ocasionalmente, trazer problemas; entretanto, quando tais diferenças se completam, levam freqüentemente a relacionamentos harmoniosos, duradouros e trabalhos produtivos, como esta valiosa edição organizada por um homem e uma mulher, diferentes e ambos muito competentes.

REFERÊNCIAS

1. Pease A, Pease B. Por que os homens mentem, e as mulheres choram. Sextante:Rio de Janeiro; 2003.

2. Pease A, Pease B. Por que homens fazem sexo, e as mulheres fazem amor. Sextante:Rio de Janeiro; 2000.

3. Gray J. Homens são de Marte, mulheres de Vênus. Rocco:São Paulo; 1997

4. Veríssimo LF. As mentiras que os homens contam. Objetiva:São Paulo; 2000.

5. Hay D. Quanto mais entendo os homens, mais eu gosto do meu gato. Publifolha:São Paulo; 2004.

  • Endereço para correspondência
    Ana Claudia Latronico
    Disciplina de Endocrinologia e Metabologia
    Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
    Av. Enéas Carvalho de Aguiar, 255
    05403 São Paulo, SP
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      09 Maio 2005
    • Data do Fascículo
      Fev 2005
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