Estudo da Função Tiroideana em Uma População com Mais de 50 Anos

Thyroid Function Studies in a Population Sample Over 50 Years of Age

Suzan C.L. Mendonça Paulo T. Jorge Sobre os autores

Resumos

Com objetivo de analisar a freqüência de disfunção tiroideana e de identificar possíveis alterações hormonais decorrentes do envelhecimento, estudamos 198 indivíduos com idade variando de 50 a 85 anos e 106 filhos com idade entre 11 e 49 anos. A prevalência de disfunção tiroideana foi semelhante em ambos grupos (12,6% no grupo de estudo e 14,1% entre os filhos). A presença de um ou dois anticorpos antitiroideanos positivos foi também semelhante entre os grupos (9,1% e 12,3% para os idosos e filhos respectivamente), embora sem correlação disfunção tiroideana. nos idosos. Os níveis séricos de T3 e FT4 foram significantemente menores entre os indivíduos mais velhos quando comparados com os filhos (1,27±0,27 x 1,39±0,31 ng/ml e 0,97±0,29 x 1,18±0,76 ng/dl, respectivamente). Não houve diferença entre os grupos quanto aos níveis de TSH, T4 total e TBG. Concluímos que a prevalência de disfunção tiroideana não foi diferente entre os grupos e que a presença de anticorpos antitiroideanos esteve associada com disfunção da tiróide apenas nos indivíduos mais jovens. A correlação inversa dos níveis de T3 e FT4 com a idade pode refletir uma adaptação à menor necessidade dos hormônios com o envelhecimento.

Disfunção tiroideana; Prevalência; Idoso; Hormônios tiroideanos; Anticorpos antitiroideanos


We evaluated 198 subjects between 50 and 85 years of age (older group) and 106 individuals of their offspring in the age group 11-49 years (younger group) in order to determine the frequency of thyroid dysfunction and also identify possible hormonal changes due to aging. The prevalence of thyroid dysfunction was similar in both groups (12.6% in the older and 14.1% in the younger groups). The positivity to one or two anti-thyroid antibodies was also similar between the groups (9.1% and 12.3% for the elderly and the young, respectively), although no correlation with the thyroid dysfunction was found in the elderly. Serum T3 and FT4 levels were significantly lower in the older as compared with the younger subjects (1.27±0.27 vs 1.39±0,31 ng/mL and 0.97±0.29 vs 1.18±0.76 ng/dL, respectively). No statistical significant difference was found between the groups regarding TSH, total T4 and TBG levels. We conclude that the prevalence of thyroid dysfunction was similar between the groups and that the positivity to anti-thyroid antibodies was associated with thyroid dysfunction only in the younger subjects. The inverse correlation between T3 and FT4 levels and the age can reflect an adaptation to the lowest requirements for the hormones with the aging.

Thyroid dysfunction; Prevalence; Aging; Thyroid antibodies; Thyroid hormones


artigo original

Estudo da Função Tiroideana em Uma População com Mais de 50 Anos

Suzan C.L. Mendonça

Paulo T. Jorge

Departamento de Clínica Médica,

Disciplina de Endocrinologia

e Metabologia, Universidade Federal

de Uberlândia, Uberlândia, MG.

Recebido em 20/02/02

Revisado em 06/05/02

Aceito em 10/06/02

RESUMO

Com objetivo de analisar a freqüência de disfunção tiroideana e de identificar possíveis alterações hormonais decorrentes do envelhecimento, estudamos 198 indivíduos com idade variando de 50 a 85 anos e 106 filhos com idade entre 11 e 49 anos. A prevalência de disfunção tiroideana foi semelhante em ambos grupos (12,6% no grupo de estudo e 14,1% entre os filhos). A presença de um ou dois anticorpos antitiroideanos positivos foi também semelhante entre os grupos (9,1% e 12,3% para os idosos e filhos respectivamente), embora sem correlação disfunção tiroideana. nos idosos. Os níveis séricos de T3 e FT4 foram significantemente menores entre os indivíduos mais velhos quando comparados com os filhos (1,27±0,27 x 1,39±0,31 ng/ml e 0,97±0,29 x 1,18±0,76 ng/dl, respectivamente). Não houve diferença entre os grupos quanto aos níveis de TSH, T4 total e TBG. Concluímos que a prevalência de disfunção tiroideana não foi diferente entre os grupos e que a presença de anticorpos antitiroideanos esteve associada com disfunção da tiróide apenas nos indivíduos mais jovens. A correlação inversa dos níveis de T3 e FT4 com a idade pode refletir uma adaptação à menor necessidade dos hormônios com o envelhecimento. (Arq Bras Endocrinol Metab 2002;46/5:557-565)

Descritores: Disfunção tiroideana; Prevalência; Idoso; Hormônios tiroideanos; Anticorpos antitiroideanos

ABSTRACT

Thyroid Function Studies in a Population Sample Over 50 Years of Age.

We evaluated 198 subjects between 50 and 85 years of age (older group) and 106 individuals of their offspring in the age group 11-49 years (younger group) in order to determine the frequency of thyroid dysfunction and also identify possible hormonal changes due to aging. The prevalence of thyroid dysfunction was similar in both groups (12.6% in the older and 14.1% in the younger groups). The positivity to one or two anti-thyroid antibodies was also similar between the groups (9.1% and 12.3% for the elderly and the young, respectively), although no correlation with the thyroid dysfunction was found in the elderly. Serum T3 and FT4 levels were significantly lower in the older as compared with the younger subjects (1.27±0.27 vs 1.39±0,31 ng/mL and 0.97±0.29 vs 1.18±0.76 ng/dL, respectively). No statistical significant difference was found between the groups regarding TSH, total T4 and TBG levels. We conclude that the prevalence of thyroid dysfunction was similar between the groups and that the positivity to anti-thyroid antibodies was associated with thyroid dysfunction only in the younger subjects. The inverse correlation between T3 and FT4 levels and the age can reflect an adaptation to the lowest requirements for the hormones with the aging. (Arq Bras Endocrinol Metab 2002;46/5:557-565)

Keywords: Thyroid dysfunction; Prevalence; Aging; Thyroid antibodies; Thyroid hormones

A PREVALÊNCIA DE DISFUNÇÕES DA tiróide depende de fatores étnicos, do nível de ingestão de iodo e ainda do modelo de estudo utilizado em uma determinada população. Parece haver um consenso de que o hipotiroidismo seja mais freqüente no idoso, embora estudos de prevalência nesta faixa etária mostrem índices que variam de 0,4% a 3,8% nos homens e 0,7% a 11,6% nas mulheres (1-11). Para o hipertiroidismo, os estudos populacionais em diferentes regiões mostram valores que variam de 0,2% a 3% na população idosa (3-7,12). Um estudo intra-hospitalar encontrou incidência sete vezes maior de hipertiroidismo após 60 anos de idade (13).

Também não há consenso na literatura sobre os níveis dos hormônios tiroideanos e tireotrofina (TSH) nos idosos. Alguns autores concordam que, com a idade, ocorra uma diminuição dos níveis séricos de T3, T4 e FT4 (9,14,18-23,25,26), enquanto para outros estes se mantém inalterados (14,23,24,27) com o envelhecimento. Níveis elevados (4,8,14) de TSH, baixos (15-17) ou inalterados (18) já foram descritos na população idosa. A avaliação dos hormônios tiroideanos em idosos é complexa, devido à presença de doenças concomitantes e uso freqüente de medicações que podem influenciar a dosagem dos hormônios tiroideanos.

Tendo em vista estas particularidades na interpretação dos testes de função tiroideana na população idosa e a dependência dos fatores locais na prevalência de disfunções da tiróide, o objetivo deste trabalho foi estudar a freqüência de hipotiroidismo e hipertiroidismo em uma população com mais de 50 anos, comparada com um grupo controle composto pelos filhos. Avaliamos ainda os níveis séricos de TSH, TBG, anticorpos antitiroideanos e hormônios tiroideanos nesta população, estratificada por faixa etária.

CASUÍSTICA E MÉTODOS

O estudo foi realizado em Uberlândia, MG, no Centro de Educação e Assistência Integrada (CEAI), órgão municipal que visa integração social dos idosos através de lazer, cultura e atividade física. Os idosos cadastrados para prática desportiva no período de fevereiro de 1996 a março de 1997 foram convidados a participar do estudo e esclarecidos sobre a finalidade do trabalho. Foram incluídos 198 indivíduos (38 homens e 160 mulheres), correspondendo a 82,5% da população cadastrada, com idade variando de 50 a 85 anos (mediana de 63 anos). O grupo controle foi composto por 106 filhos (31 homens e 75 mulheres) com idade variando de 11 a 49 anos (mediana de 33), que aceitaram participar do estudo (não randomizado), desde que não tivessem conhecimento prévio dos resultados dos exames dos pais. Todos indivíduos do grupo de estudo e os controles foram avaliados quanto à prevalência de disfunção tiroideana, mesmo aqueles que tinham diagnóstico prévio. Para análise dos níveis de TSH, TBG e dos hormônios tiroideanos por faixas etárias, foram excluídos, nos dois grupos, os portadores de disfunção tiroideana ou que estivessem usando drogas que pudessem alterar as suas dosagens e aqueles que tinham bócio ou anticorpos antitiroideanos positivos. Uma vez que tivemos a intenção de avaliar se, com o envelhecimento, haveria uma nova faixa de normalidade para os hormônios, retiramos doenças da tiróide que pudessem alterar estas dosagens, já que o único fator que quisemos analisar foi a idade.

Os dois grupos responderam um questionário sobre doenças pré-existentes e uso de medicamentos que pudessem interferir na dosagem dos hormônios tiroideanos ou do TSH. Foi realizado, ainda, exame clínico e laboratorial (dosagem de sódio, potássio, uréia creatinina, albumina, hemograma, glicemia e lipidograma) e a dosagem dos hormônios tiroideanos T3, T4, FT4, TSH, TBG, anticorpo antitireoglobulina e antimicrossomal. Para dosagem dos hormônios usamos quimioluminescência com Kit Immulit da Diagnostic Products Corporation. Foram considerados normais valores de T4 de 4,5 a 13µg/dl, T3 de 0,5 a 2,1ng/ml, FT4 de 0,8 a 1,9ng/dl, TSH de 0,3 a 4,2µU/ml e TBG de 13 a 33µg/ml. Os anticorpos antitiroideanos foram dosados através de aglutinação de partículas de gel e foram considerados positivos títulos maiores do que 1:100.

As disfunções tiroideanas foram classificadas da seguinte forma:

Hipotiroidismo: níveis elevados de TSH e baixos de FT4;

Hipotiroidismo subclínico: níveis de TSH maiores que 5µU/ml e normais de T3 e FT4;

Hipertiroidismo: níveis baixos de TSH e elevados de T3 ou FT4;

Hipertiroidismo subclínico: níveis de TSH menores que 0,2µU/ml e normais de T3 e FT4.

Este estudo foi analisado e aprovado pela Comissão de Ética Médica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia.

Para a análise estatística utilizamos o teste Z na comparação das prevalências entre os dois grupos. A comparação das médias dos níveis de hormônios tiroideanos entre os grupos foi feita pelo teste "T de student". Para avaliação estatística dos coeficientes de correlação entre idade e concentração sérica dos hormônios tiroideanos, foi calculada a regressão linear e análise de variância, aplicando-se o Software EPI INFO-6, 1997 da Organização Mundial de Saúde e do Centers for Disease Control and Prevention. Foram considerados significantes valores de p < 0,05.

RESULTADOS

Prevalência de disfunção tiroideana

No grupo de 198 indivíduos com mais de 50 anos foram detectados 25 casos de disfunção tiroideana (12,6%), sendo 21 mulheres e 4 homens. Desses, 2 (1%) eram portadores de hipotiroidismo, um (0,5%) de hipertiroidismo; 14 indivíduos (7,1%) apresentavam hipotiroidismo subclínico e 8 (4%) hipertiroidismo subclínico (tabela 1). Nenhum deles fazia uso de medicamentos que pudessem ter alterado os resultados. Dois portadores de hipertiroidismo subclínico tinham sido submetidos à tiroidectomia por bócio há pelo menos 12 anos, mas não faziam acompanhamento médico, e um caso de hipotiroidismo subclínico tinha diagnóstico prévio de hipotiroidismo pós cirúrgico e fazia uso de levotiroxina sódica para reposição. Os demais desconheciam ser portadores de doença tiroideana. Neste grupo tivemos um caso de hipo-TBGnemia confirmada laboratorialmente por valores muito baixos de T3, T4 e TBG, mas normais de TSH e FT4.

No grupo controle, de 106 indivíduos, tivemos 15 casos (14,1%) de disfunção tiroideana (2 homens e 13 mulheres), sendo o hipotiroidismo responsável por 3 casos (2,8%) e o hipotiroidismo subclínico por 10 (9,4%). Houve apenas dois casos (1,9%) de hipertiroidismo, um deles na forma subclínica (tabela 2). Em dois portadores de hipotiroidismo subclínico, um deles tinha história de tiroidectomia por bócio e o outro passado de uso de PropilthiouracilÆ. Um dos casos de hipotiroidismo franco (TSH > 75mUI/ml) tinha diagnóstico anterior, mas fazia uso irregular do hormônio tiroideano. Os demais não sabiam ser portadores de doença tiroideana. Os pacientes não faziam uso de medicamentos que pudessem ter alterado os resultados. Em uma mesma família, três irmãos tiveram seus exames alterados, fato que contribuiu para que a prevalência de disfunção tiroideana fosse maior neste grupo. Nesta família citada, a mãe não tinha disfunção tiroideana ou anticorpos positivos.

A diferença na prevalência de disfunção tiroideana não foi estatisticamente significante entre os dois grupos (p= 0,24). (gráfico 1, tabela 3).


Prevalência de anticorpos antitiroideanos

No grupo de estudo, a prevalência de pelo menos um dos anticorpos antitiroideanos positivos foi de 9,1% (18 casos), sendo que 14 (77,7%) não apresentavam disfunção tiroideana. Os poucos casos com disfunção tratavam-se de hipotiroidismo (subclínico e clínico).

A prevalência de pelo menos um dos anticorpos antitiroideanos positivos no grupo controle foi de 12,3% (13 casos) e 8 deles (61,5%) eram portadores de hipotiroidismo (subclínico ou clínico). (gráfico 1, tabela 3). Se excluídos novamente os três irmãos que tiveram anticorpos positivos, a nova prevalência seria de 9,4%.

Apesar da tendência do grupo controle apresentar uma maior prevalência de anticorpos positivos, essa diferença não se mostrou significante (p = 0,39). Um achado interessante, foi a grande associação entre anticorpos positivos e disfunção tiroideana observada no grupo controle, mas não no grupo de estudo (gráfico 2).


Nívei dos hormônios tiroideanos, TSH e TBG

As médias dos níveis séricos de T3, T4, FT4, TSH e TBG foram calculadas para os 263 indivíduos sem doença tiroideana, bócio ou anticorpos antitiroideanos e encontram-se na tabela 4.

A comparação dos níveis de T3 e FT4 mostrou valores significantemente menores nos indivíduos com mais de 50 anos (p<0,01). Não houve diferença dos níveis de T4, TSH e TBG entre os grupos.

Toda amostra composta pelo grupo de estudo e pelo grupo controle foi estratificada, e a média dos níveis séricos dos hormônios tiroideanos, TSH e TBG foi calculada para cada faixa etária. Os resultados estão relacionados na tabela 5. A única medicação usada que poderia ter alterado os resultados foi o estrógeno para reposição hormonal em algumas mulheres. Quando estas foram excluídas, não houve alteração da média dos níveis de T4 e TBG, e então foram mantidas na análise.

Houve uma correlação inversa dos níveis de T3 com a idade (r= -0,26; y= 1,58 - 0,005x; p<0,01). O mesmo foi observado com o FT4 (r= -0,19; y= 1,22 - 0,0037x; p<0,01). Por outro lado, os níveis de TBG, T4 e TSH não mostraram diferença estatisticamente significante nas diversas faixas etárias.

DISCUSSÃO

Nós observamos alta prevalência de disfunção tiroideana tanto na população com mais de 50 anos (12,6%) como no grupo controle (14,1%), sendo que, em ambos, o hipotiroidismo subclínico foi a alteração mais freqüente. A maioria dos casos de disfunção tiroideana não tinha diagnóstico prévio, fato observado nos dois grupos. Dois estudos nacionais revelam dados parecidos, com 7% de prevalência de hipotiroidismo no Rio de Janeiro (28) e 21,5% de hipotiroidismo subclínico na Bahia (29). Diversos outros estudos (tabela 6) apontam resultados variados, mas a maioria deles não dispõe de grupo controle. Os levantamentos de Okamura e cols. (7), Tunbridge e cols. (4) e Canaris e cols. (30) mostraram uma maior prevalência de disfunção tiroideana nos idosos quando comparados com os controles. Já no estudo de Sawin e cols. (14), embora tivesse grupo controle, esses dados não foram comparados. Em nosso trabalho, a prevalência semelhante de disfunção tiroideana entre indivíduos com mais de 50 anos e o grupo controle pode demonstrar uma alta prevalência de doença tiroideana nesta população, talvez em função de fatores ambientais e alimentares, sem correlação com o envelhecimento, como tem sido proposto. A crítica feita ao nosso grupo controle seria a técnica usada para seleção, pois a mesma não foi randomizada. Poderíamos considerar que os filhos que aceitaram participar do estudo seriam aqueles cujos pais tiveram exames alterados. Esse aspecto foi minimizado, uma vez que os filhos, ao aceitarem participar do projeto, desconheciam os resultados dos exames dos pais e, além disso, foram convidados a participar de um estudo cujo objetivo visava o diagnóstico de outras patologias altamente prevalentes, como Diabetes Mellitus, Dislipidemia e Hipertensão Arterial.

Outro fato que pode explicar a grande variedade de resultados nos vários estudos sobre prevalência de disfunção tiroideana seria a dificuldade em caracterizar disfunção. Níveis pouco elevados de TSH (entre 5 e 10mU/ml) podem representar pequenas variações do ensaio, que, se repetidos, evidenciam uma tendência de "regressão à média" (31). No entanto, neste estudo, bem como na maioria de outros estudos de prevalência (2,4,5,7,11,12,14,20,30,32), níveis pouco elevados de TSH e normais dos hormônios tiroideanos foram considerados hipotiroidismo subclínico. Em dois estudos (6,10), casos de TSH pouco elevados foram reavaliados, com objetivo de evitar que valores falsamente elevados de TSH, por causa da reação cruzada com imunoglobulinas, fossem considerados alterados. Os baixos índices de prevalência encontrados por Lloyd & Golberg (1), podem ser explicados pelo fato de ter sido utilizado o diagnóstico clínico, e apenas os casos suspeitos foram avaliados laboratorialmente. Parle e cols. (8) acompanharam idosos com valores pouco elevados de TSH e FT4 normais por 12 meses e observaram que 17,8% desenvolveram níveis baixos de FT4. Considerando que a evolução de níveis pouco elevados de TSH é controversa, podendo retornar ao normal na maioria dos casos (8), a aplicação de rastreamento de rotina na população idosa pode ser injustificada se analisarmos o custo-benefício do procedimento.

A tabela 6 mostra resultados dos vários estudos transversais para disfunção tiroideana.

Nossos resultados mostraram, ainda, uma prevalência de anticorpos antitiroideanos semelhante nos dois grupos, embora sem correlação com disfunção tiroideana entre os idosos. Sawin e cols. (32) e Roti e cols. (33) confirmaram esses dados, não encontrando disfunção tiroideana na maioria dos idosos com anticorpos positivos. No grupo controle houve importante correlação entre positividade dos anticorpos e doença tiroideana, principalmente o hipotiroidismo subclínico, o que leva à hipótese de que a tiroidite auto-imune seja a principal causa de hipotiroidismo na amostra estudada, com menos de 50 anos. Mariotti e cols. (34), em uma revisão não muito recente, comentam que a prevalência de anticorpos antitiroideanos é menor em idosos com doença tiroideana estabelecida, concluindo que o fenômeno tiroideano auto-imune e a doença tiroideana auto-imune sejam entidades dissociadas. Dois estudos (35,36) sugerem que a presença isolada de anticorpos antitiroideanos positivos não prediz falência tiroideana na população idosa, mas naqueles com anticorpos positivos e níveis elevados de TSH, o risco de hipotiroidismo é maior. Os estudos de prevalência de anticorpos antitiroideanos em idosos mostram grande diversidade de resultados, dependendo da sensibilidade dos métodos usados para dosagem e provavelmente das características das populações estudadas (4,8,9,12,37-39). Tomimori e cols. (40), avaliando 547 indivíduos com idade entre 27 e 58 anos, encontraram valores muito parecidos com o presente estudo, em uma área urbana de São Paulo. Anticorpos antitiroideanos estavam presentes em 13,4% da amostra e, dentre os indivíduos com anticorpos positivos, 37,5% tinham hipotiroidismo subclínico.

Em nossa casuística, a média dos níveis de T3 e FT4 foram significantemente menores no grupo dos idosos, com uma correlação inversa em função da idade, como confirmado pela regressão linear. Os níveis de TSH, T4 e TBG não foram diferentes nos dois grupos. Embora alguns autores tenham demonstrado níveis de T4 e FT4 diminuídos nos idosos (9,14,19,20-22,), outros (23,24) não mostraram variação desses hormônios com a idade. Um estudo com idosos internados demonstrou que os níveis de FT4 diminuem com a idade, mas aumentam proporcionalmente com a gravidade da doença (41). Com relação aos níveis séricos de T3, vários estudos demonstraram uma diminuição progressiva com a idade (9,18,19,23,25,26), chegando a 5,1ng/dl por década (25), embora o T3 reverso não tenha mostrado a mesma tendência (23,26). Por outro lado, outros trabalhos não confirmaram esta tendência na queda do T3 em função da idade (14,24,27).

Pode ser que, embora a nossa amostra não seja hospitalar, alguns casos de doenças crônicas mais comuns nos idosos, como Diabetes Mellitus, tenham contribuído para valores mais baixos de T3 no total da amostra. Kabadi & Premachandra (42) mostraram que níveis de T3 eram menores e os de RT3 maiores nos idosos portadores de diabetes descompensado. Olsen e cols. (43) avaliaram o efeito das doenças sobre os níveis de T3, confirmando valores baixos nos idosos doentes em relação aos saudáveis, o que foi confirmado por Bermudez e cols. (44). Burrows e cols. (45), investigando testes de função tiroideana em adultos normais e idosos internados e não internados, encontraram níveis baixos de T3 apenas nos internados e sem correlação com o estado clínico, o que reforça a hipótese de que a diminuição dos níveis de T3 não seja secundária apenas ao processo de envelhecimento. A possibilidade levantada para explicar os baixos níveis de T3 seria uma diminuição na conversão periférica de T4 em T3, condição esta chamada "T4 eutiroidismo", que seria responsável pela manutenção do "status" eutiroideano no idoso doente.

Os valores mais baixos de FT4 nos idosos não foram acompanhados de alteração na TBG e a explicação para essa diferença não está clara, talvez ocorra uma adaptação a necessidades menores do T4 com a idade (46). Apesar dos níveis médios de T3 e FT4 terem sido significantemente menores entre os idosos, achamos que não se justifica a elaboração de valores diferentes de normalidade para esta população, uma vez que, embora menores, encontravam-se dentro dos limites estabelecidos pelo ensaio.

Para a TBG, o envelhecimento poderia levar a aumento (19), diminuição (47) ou nenhuma alteração (23), como foi descrito em alguns estudos.

Alguns estudos (4,8,14) encontraram níveis elevados de TSH em idosos, o que pode refletir uma prevalência maior de hipotiroidismo nas populações estudadas, e não uma alteração decorrente do processo de envelhecimento. Hershman e cols. (18), em um modelo de estudo parecido com o nosso, não mostraram alteração do TSH nos homens idosos, embora esses níveis tenham sido um pouco menores nas mulheres idosas. Por outro lado, para Sawin e cols. (17), níveis baixos de TSH são muito comuns nos idosos, e têm um baixo valor preditivo positivo para ocorrência de hipertiroidismo. Ehrhmann e cols. (48) analisaram ensaios sensíveis de TSH no diagnóstico de disfunção tiroideana e concluíram que esses apresentam muitas limitações como exames de primeira linha, independentemente da faixa etária. Dentre os fatores citados pelos autores como envolvidos em confusão no diagnóstico estão as doenças não tiroideanas, as doenças psiquiátricas agudas e o uso de drogas, responsáveis por níveis baixos de TSH em 17% da amostra estudada.

Em nossa região, a doença tiroideana não apresenta freqüência maior na população idosa, ao contrário do que revela a maioria dos estudos. Os níveis séricos de T3 e FT4 foram menores na população com mais de 50 anos e houve uma correlação inversa com a idade, o que foi também demonstrado em vários trabalhos. Provavelmente, as características da população tenham o papel mais importante na ocorrência destas alterações, embora apenas estes dados não possam invalidar a importância do envelhecimento nestes achados.

Endereço para correspondência:

Suzan C. de Lacerda Mendonça

Alameda Teodoro de Sá Filho 82

38411-198 Uberlândia, MG

e.mail: suzan_mendonga@starmedia.com

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jan 2003
  • Data do Fascículo
    Out 2002

Histórico

  • Aceito
    10 Jun 2002
  • Revisado
    06 Maio 2002
  • Recebido
    20 Fev 2002
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