Avaliação do consumo de uma baixa quantidade diária de soja no estresse oxidativo, no perfil lipídico e inflamatório e na resistência à insulina em pacientes com síndrome metabólica

Evaluation of the intake of a low daily amount of soybeans in oxidative stress, lipid and inflammatory profile, and insulin resistance in patients with metabolic syndrome

Resumos

OBJETIVO: Estudos demonstram que o consumo regular de soja diminui o risco cardiovascular e de diabetes. No entanto, grande parte desses estudos preconiza a ingestão diária de 25 g ou mais de proteína de soja, quantidade essa considerada alta e não bem tolerada pelos pacientes. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do baixo consumo diário de soja no estresse oxidativo e nos componentes da síndrome metabólica (SM). SUJEITOS E MÉTODOS:Quarenta indivíduos com SM foram selecionados e alocados em dois grupos: grupo controle (n = 20) e grupo soja (n = 20), que consumiu diariamente 12,95 g de proteína de soja, durante 90 dias. RESULTADOS:Após o tratamento o grupo soja apresentou diminuição da glicemia de jejum e aumento nos níveis de HDL e adiponectina. CONCLUSÃO: O consumo de uma baixa quantidade de soja por 90 dias, além de bem tolerado pelos pacientes, foi capaz de melhorar vários parâmetros relacionados à fisiopatologia da SM.

Síndrome X metabólica; soja; resistência à insulina; metabolismo dos lipídeos; inflamação


OBJECTIVE:Studies show that regular consumption of soybeans reduces the risk of diabetes and cardiovascular diseases. However, most of these studies recommend daily intake of 25 g or more of soy protein, an amount considered high and not well tolerated by patients. The objective of this study was to assess the effect of low daily intake of soybeans in oxidative stress and in components of the metabolic syndrome (MS). SUBJECTS AND METHODS: Forty individuals with MS were selected and divided into two groups: control group (n = 20) and soybean-treated group (n = 20), which consumed 12.95 g of soy protein for 90 days. RESULTS: After the treatment, the soybean-treated group showed a decrease in fasting glucose and increase in serum HDL and adiponectin. CONCLUSION:Low intake of soy protein for 90 days, besides being well tolerated by the patients, was able to improve several parameters related to the pathophysiology of MS.

Metabolic syndrome X; soybeans; insulin resistance; lipid metabolism; inflammation


ARTIGO ORIGINAL

Avaliação do consumo de uma baixa quantidade diária de soja no estresse oxidativo, no perfil lipídico e inflamatório e na resistência à insulina em pacientes com síndrome metabólica

Evaluation of the intake of a low daily amount of soybeans in oxidative stress, lipid and inflammatory profile, and insulin resistance in patients with metabolic syndrome

Larissa Danielle BahlsI; Danielle VenturiniI; Nicole de Angelis ScripesI; Marcell Alysson Batisti LozovoyII; Tathiana Name Colado SimãoII; Andréa Name Colado SimãoI; Isaias DichiIII; Helena Kaminami MorimotoI

I Departamento de Patologia, Análises Clínicas e Toxicológicas, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina (CCS-UEL), Londrina, PR, Brasil

II Departamento de Nutrição, Universidade Norte do Paraná (Unopar), Londrina, PR, Brasil

III Departamento de Prática Clínica, CCS-UEL, Londrina, PR, Brasil

Correspondência

RESUMO

OBJETIVO: Estudos demonstram que o consumo regular de soja diminui o risco cardiovascular e de diabetes. No entanto, grande parte desses estudos preconiza a ingestão diária de 25 g ou mais de proteína de soja, quantidade essa considerada alta e não bem tolerada pelos pacientes. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito do baixo consumo diário de soja no estresse oxidativo e nos componentes da síndrome metabólica (SM).

SUJEITOS E MÉTODOS:Quarenta indivíduos com SM foram selecionados e alocados em dois grupos: grupo controle (n = 20) e grupo soja (n = 20), que consumiu diariamente 12,95 g de proteína de soja, durante 90 dias.

RESULTADOS:Após o tratamento o grupo soja apresentou diminuição da glicemia de jejum e aumento nos níveis de HDL e adiponectina.

CONCLUSÃO: O consumo de uma baixa quantidade de soja por 90 dias, além de bem tolerado pelos pacientes, foi capaz de melhorar vários parâmetros relacionados à fisiopatologia da SM.

Descritores: Síndrome X metabólica; soja; resistência à insulina; metabolismo dos lipídeos; inflamação

ABSTRACT

OBJECTIVE:Studies show that regular consumption of soybeans reduces the risk of diabetes and cardiovascular diseases. However, most of these studies recommend daily intake of 25 g or more of soy protein, an amount considered high and not well tolerated by patients. The objective of this study was to assess the effect of low daily intake of soybeans in oxidative stress and in components of the metabolic syndrome (MS).

SUBJECTS AND METHODS: Forty individuals with MS were selected and divided into two groups: control group (n = 20) and soybean-treated group (n = 20), which consumed 12.95 g of soy protein for 90 days.

RESULTS: After the treatment, the soybean-treated group showed a decrease in fasting glucose and increase in serum HDL and adiponectin.

CONCLUSION:Low intake of soy protein for 90 days, besides being well tolerated by the patients, was able to improve several parameters related to the pathophysiology of MS.

Keywords: Metabolic syndrome X; soybeans; insulin resistance; lipid metabolism; inflammation

INTRODUÇÃO

Asíndrome metabólica (SM) é um transtorno complexo representado por um conjunto de fatores de risco cardiovascular, usualmente relacionado à deposição central de gordura e à resistência à insulina (1). Dislipidemia, com níveis elevados de triacilgliceróis e diminuição nos níveis de lipoproteína de alta densidade (HDL – high density lipoprotein), circunferência abdo-minal aumentada, alterações no metabolismo de glicose, hipertensão arterial e inflamação crônica de baixo grau caracterizam a SM (2).

Tem sido demonstrada relação entre o estresse oxidativo e a obesidade, hipertensão arterial, disfunção endotelial e na fisiopatologia da SM (3-5). Tem sido demonstrado também que os radicais livres principalmente representados por espécies reativas de oxigênio (ROS) e espécies reativas de nitrogênio (RNS), presentes em excesso na obesidade, estão envolvidos no desenvolvimento da resistência periférica à insulina (6-8).

São poucos os dados a respeito da prevalência da SM na população brasileira. A maior parte dos estudos é realizada com a população nipo-brasileira e os resultados indicam uma alta incidência, com mais de um terço da população analisada sendo acometida (9,10). Salaroli e cols. (11) realizaram um estudo no município de Vitória, Espírito Santo, envolvendo 1.663 indivíduos de ambos os sexos, com diferentes ascendências e níveis socioeconômicos. Foi demonstrada uma prevalência média de 29,8% sem diferença entre os sexos. Entre as mulheres, a prevalência foi maior quanto menor o nível socioeconômico, e, no que diz respeito à faixa etária, quanto maior a faixa etária analisada, maior a incidência de SM. Sendo assim, o Brasil se encaixa na faixa de prevalência encontrada na maioria dos países do mundo, que é de 20% a 40% (12).

Considerando sua alta incidência, torna-se fundamental que se desenvolvam maneiras de prevenir e tratar a SM. Vários estudos relacionam o padrão dietético com fatores de risco cardiovascular e demonstram que uma dieta rica em frutas, legumes, vegetais e grãos integrais reduz o risco de resistência à insulina e SM. No entanto, uma dieta composta por grãos refinados, carnes vermelhas, manteiga e produtos lácteos ricos em gordura aumenta o risco de SM (13,14).

O consumo de soja é capaz de reduzir o risco de SM, por meio de seus componentes benéficos, incluindo carboidratos complexos, ácidos graxos insaturados, proteína vegetal, fibras solúveis, oligossacarídeos, vitaminas, minerais, substâncias derivadas do inositol, e fitoestrógenos, as isoflavonas, especialmente genisteína, daidzeína e gliciteína (15,16).

É bem estabelecido que o consumo diário de proteína de soja é capaz de reduzir os níveis sanguíneos de colesterol total, lipoproteína de baixa densidade (LDL – low density lipoprotein) e triacilgliceróis e de aumentar os níveis plasmáticos de HDL (17). No entanto, essas mudanças dependem do nível e da duração da ingestão de proteína de soja, além do sexo e da concentração inicial de lipídios séricos dos pacientes (18). Outros efeitos benéficos da ingestão de proteína de soja são a melhora no perfil glicêmico por meio da redução da glicemia e da diminuição de resistência à insulina (19) e a redução da inflamação sistêmica mediante o aumento dos níveis séricos de adiponectina, uma substância com ação anti-inflamatória secretada pelos adipócitos (20,21). A adiponectina é inversamente relacionada com a resistência à insulina, assim, quanto menor o nível plasmático desta, maior o risco de desenvolvimento de diabetes melito tipo 2 e de SM (22,23). Somado a esses benefícios, as isoflavonas presentes na soja podem reduzir o estresse oxidativo e melhorar a capacidade antioxidante total do plasma (24).

A grande maioria dos estudos avalia o efeito do consumo de soja utilizando de 25 g a 133 g de proteína de soja (25-27). No entanto, essa quantidade é considerada alta e por muitas vezes não bem tolerada pelos pacientes, dificultando a adesão ao tratamento. Nosso trabalho verificou a ação do consumo de uma menor quantidade de proteína de soja, 12,5 gramas, sobre o estresse oxidativo e alguns componentes da SM.

SUJEITOS E MÉTODOS

Foram selecionados aleatoriamente 40 indivíduos com SM atendidos no Ambulatório de Clínica Médica do Hospital Universitário (HU) de Londrina. Os pacientes foram orientados a não mudar seu estilo de vida e hábitos alimentares durante o estudo. Este estudo foi aprovado (CEP 298/05) pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Todos os participantes do estudo foram devidamente esclarecidos e deram seu consentimento por escrito.

Delineamento do estudo

Os indivíduos foram alocados em dois grupos e pareados por sexo, idade e tabagismo. O grupo controle não recebeu nenhuma intervenção e apenas foi orientado a manter sua dieta habitual, enquanto o grupo soja, além de manter sua dieta habitual, consumiu diariamente 25 gramas de farinha de soja torrada (Kinako), o que corresponde a 12,95 gramas de proteína de soja. Os dois grupos foram analisados quanto às medidas antropométricas, perfil lipídico e glicêmico, níveis séricos de adiponectina e parâmetros do estresse oxidativo no início do estudo e após 90 dias de intervenção.

A SM foi definida de acordo com oAdult Treatment Panel III (ATP III) adaptado de Reaven (1), no qual o paciente deve apresentar pelo menos três componentes dos cinco listados: circunferência abdominal (CA) para mulheres > 88 cm e para homens > 102 cm; glicose de jejum ≥ 6,1 mmol/L (110 mg/dL); triacilglicerol ≥ 1,7 mmol/L (150 mg/dL); HDL colesterol homens < 1.036 mmol/L (40 mg/dL) e mulheres < 1.295 mmol/L (50 mg/dL); pressão arterial ≥ 130/85 mmHg (ou em uso de anti-hipertensivos). Os critérios de exclusão foram: estar em uso de medicamentos para redução de colesterol, triglicerídeos e glicemia, apresentar alterações da função tireoidiana, doenças renais e hepáticas crônicas. Os indivíduos de ambos os grupos não faziam consumo regular de bebidas alcoólicas.

A proteína de soja foi fornecida pela Good Soy, Uberaba, Minas Gerais, Brasil, e sua qualidade, certificada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-Soja, Londrina, Paraná, Brasil). Cada porção (25 g) de Kinako contém 12,95 g de proteína, 6,35 g de carboidratos, 5,75 g de lipídios, 3,95 g de fibras e 50 mg de isoflavonas.

Determinações antropométricas

Foram determinados peso (kg), estatura (m) e CA de todos os pacientes. O índice de massa corporal (IMC) de cada paciente foi calculado pela fórmula peso/altura2. O peso e a altura foram avaliados com os pacientes vestindo roupas leves e descalços. A CA foi dada com os pacientes na posição vertical e com os braços elevados e foi utilizada uma fita métrica simples, medindo-se a circunferência a partir da distância intermediária entre a última costela e a crista ilíaca. A pressão arterial (PA) dos pacientes foi aferida no pulso esquerdo após 5 minutos de repouso.

Obtenção das amostras

Foram coletadas amostras de sangue dos pacientes após 12 horas de jejum e, posteriormente, centrifugadas a 3.000 rpm durante 15 minutos para obtenção de plasma e soro que foram aliquotados e armazenados a -70ºC até a realização das análises.

Análises bioquímicas

Os níveis sanguíneos de colesterol total, lipoproteína de baixa densidade (LDL – low density protein), lipoproteína de alta densidade (HDL – high density protein), triacilglicerol e glicose foram determinados pelo autoanalisador bioquímico Dade AR®, utilizando-se kits Dade Behring®. A análise de insulina foi realizada por imunoensaio em micropartículas (MEIA) utilizando o equipamento AXSYM da ABBOTT®. Os níveis séricos de adiponectina (total) foram determinados por ELISA, utilizando-se o kit comercial R&D System.

O Homeostatic Model Assessment (HOMA) é um índice de estimativa da resistência à insulina (IR) (28) e foi calculado utilizando-se a seguinte fórmula:

HOMA-IR = glicemia de jejum (mmol/L) x insulinemia de jejum (mU/L) / 22,5

Análises do estresse oxidativo

Capacidade antioxidante total (TRAP)

A capacidade antioxidante total (TRAP) plasmática foi avaliada utilizando-se uma adaptação do método de quimioluminescência (QL) descrito por Repetto e cols. (29). Essa metodologia detecta antioxidantes presentes no plasma. São adicionados ao meio de reação 2,2-azobis (gera radicais livres que oxidam lipídios e proteínas) e luminol (reage com os radicais livres formados, gerando QL). A adição de plasma faz com que a QL diminua proporcionalmente à quantidade total de antioxidantes presentes na amostra até que os radicais livres sejam regenerados e a QL seja restituída aos níveis iniciais; o tempo gasto nesta reação é chamado tempo de indução (TI). A quantificação do TRAP é feita por meio de uma comparação do TI obtido com concentrações conhecidas de análogos da vitamina E (Trolox) e do TI após adição do plasma do paciente. Os resultados são expressos em uM de Trolox. A análise foi realizada em um contador b marca Backman® (EUA), modelo LS 6000, utilizando um contagem não coincidente por 30 segundos, com faixa de resposta entre 300 e 620 nM.

Quimiluminescência induzida por t-butil hidroperóxidos

Foi efetuada uma adaptação da técnica descrita por Flecha e cols. (30) para analisar a integridade dos mecanismos de defesa antioxidante não enzimáticos. Essa técnica parte da premissa de que um estresse oxidativo prévio sofrido pelo tecido leva à formação de lipoperóxidos, os quais são quantificados por meio de uma reação com t-butil hidroperóxido que gera QL. Foi utilizado contador β marca Backman® (EUA), modelo LS 6000, com contagem não coincidente por 30 segundos e uma faixa de resposta entre 300 e 620 nM. Os resultados foram medidos em contagem por minuto (cpm).

Determinação de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico

A medida da lipoperoxidação foi realizada utilizando-se o método descrito por Jentzsch e cols. (31) segundo o qual a reação entre o ácido tiobarbitúrico (TBA) e o malondialdeído (MDA), que é um produto final da peroxidação lipídica, gera substâncias reativas do ácido tiobarbitúrico (TBARS), com propriedade cromófora. A absorbância do cromóforo foi determinada em espectrofotômetro em 532 nm. Os resultados foram expressos em µmol de MDA.

Análise estatística

Para o cálculo do tamanho estimado da amostra foi considerado a = 0,05 e 80% de poder estatístico para detectar diferenças entre os tempos dentro do grupo. Os valores iniciais obtidos para os diferentes parâmetros avaliados foram comparados entre os grupos com a utilização do teste de Mann-Whitney. Comparação entre os tempos T0 e T90 dentro do grupo foi realizada utilizando-se o teste de Wilcoxon. Foi utilizado o programa estatístico Graph Pad Prism 4. Os resultados foram expressos em mediana, mínimo e máximo. As diferenças foram consideradas significativas quando p < 0,05.

RESULTADOS

Não houve diferença estatística entre os grupos no tempo T0 para os diversos parâmetros avaliados. O IMC e a CA não apresentaram diferença estatística após 90 dias de estudo tanto no grupo controle quanto no grupo soja. O grupo controle manteve seu perfil lipídico semelhante ao do início do tratamento. Já a ingestão diária de 12,95 g de proteína de soja durante 90 dias foi capaz de aumentar significativamente os níveis séricos de HDL (p= 0,0425) (Tabela 1).

Com relação ao metabolismo da glicose, o grupo controle não apresentou diferença estatística em nenhum dos parâmetros analisados durante o tempo de estudo. Os níveis séricos de insulina de jejum e o HOMA-IR não diferiram após 90 dias de intervenção (Tabela 1). Todavia, os indivíduos do grupo soja obtiveram uma redução significativa da glicemia (p = 0,0353) (Tabela 1).

Não houve alteração significativa do estresse oxidativo em ambos os grupos, controle e soja, após o tratamento (Tabela 2). Os níveis séricos de adiponectina também não diferiram no grupo controle. No entanto, a ingestão diária de soja foi capaz de aumentar estatisticamente a adiponectinemia (p = 0,0052) (Figura 1).

DISCUSSÃO

Nossos dados demonstram que uma baixa ingestão diá-ria de soja foi suficiente para melhorar alguns parâmetros da SM.

Vários estudos têm avaliado o efeito do consumo de soja no perfil lipídico, mas os resultados são bastante contraditórios. No presente estudo, o consumo diário de 12,95 gramas de proteína de soja não alterou significativamente os níveis séricos de colesterol total, de LDL e de triacilglicerol, entretanto houve um aumento significativo nos níveis de HDL. Resultados semelhantes referentes aos parâmetros de colesterol total e LDL foram obtidos por Thorp e cols. (32), no entanto, diferentemente do presente estudo, esses autores não obtiveram alteração nos níveis séricos de HDL e verificaram redução significativa dos níveis séricos de triacilglicerol. Já Tabibi e cols. (33) verificaram que a ingestão diária de 14 g de proteína de soja durante oito semanas não apresentou alteração alguma no perfil lipídico dos pacientes.

Estudos prévios utilizaram elevadas quantidades diá-rias de proteína de soja e verificaram resultados que diferem do observado no presente estudo, alguns com diminuição apenas nos níveis séricos de LDL e colesterol total (19,26,34-36) e outros com diminuição dos níveis séricos de colesterol total, de LDL e de triacilgliceróis e aumento de HDL (17,18,27,37). Já Campbell e cols. (38) não obtiveram mudanças no perfil lipídico dos pacientes após um ano de intervenção com ingestão diária de 25 g de proteína de soja.

Essa diferente resposta dos níveis séricos de lipídeos pode ser decorrente da diferença de suas concentrações plasmáticas iniciais, além da quantidade de soja ingerida, da duração do tratamento e do sexo dos indivíduos (18,27,39,40).

O presente estudo verificou redução significativa da glicemia de jejum após ingestão diária de kinako. Este resultado está de acordo com estudos relacionados, os quais relatam melhoras na resistência à insulina e no controle glicêmico com o consumo regular de soja (14,19,20,41-43). Ho e cols. (42) demonstraram uma relação dose-resposta envolvida nos efeitos benéficos obtidos com a ingestão de isoflavonas provenientes da soja. Tem sido observado que a genisteína aumenta a liberação de insulina induzida por glicose, devido ao acúmulo de AMPc e modulação dos canais de cálcio. A daidzeína parece não ser capaz de inibir as tirosinas quinases, sendo menos potentes nos canais de cálcio e potássio, mas também é capaz de aumentar a secreção de insulina. Dessa forma, é provável que o aumento na secreção de insulina envolva outros mecanismos além da inativação de tirosinas quinase. Um outro mecanismo proposto é que a genisteína poderia ter uma ação ativadora das proteínas tirosina fosfatase, que podem agir via desfosforilação seletiva da forma ativa do receptor de insulina, estimulando, dessa forma, a secreção de insulina (44).

Não foi verificada alteração significativa nos parâmetros de estresse oxidativo avaliados neste estudo, indicando que a ingestão de soja, nesta concentração e nesta duração, não foi capaz de diminuir a lipoperoxidação e melhorar a capacidade antioxidante total. Da mesma maneira, estudos semelhantes demonstraram que a ingestão regular de proteína de soja não traz benefícios ao estresse oxidativo (45,46). Em contrapartida, Vega-Lopes e cols. (24) demonstraram aumento do TRAPapós a ingestão de proteína de soja durante 42 dias; neste estudo, foi desenvolvida uma dieta na qual a única proteína consumida diariamente era proveniente de soja, dessa forma, a cada 1.000 kcal ingeridas, consumiram-se 25 g de proteína de soja e 50 mg de isoflavonas. Provavelmente os níveis de proteínas de soja e isoflavonas consumidos em nosso estudo foram insuficientes para melhorar a capacidade antioxidante do plasma e inibir o estresse oxidativo.

O efeito benéfico da soja sobre o perfil inflamatório foi verificado em alguns estudos, com aumento da resposta anti-inflamatória (47) e melhora dos níveis de marcadores inflamatórios, com diminuição dos níveis séricos de TNF-a e IL-6 e aumento dos níveis de adiponectina (20,45). Dessa forma, o aumento da adiponectinemia obtido no presente estudo está de acordo com dados da literatura e indicam uma melhora no perfil inflamatório após ingestão diária de Kinako.

Vários estudos têm demonstrado que a proteína de soja é capaz de melhorar muitos parâmetros relacionados à síndrome metabólica, como o perfil lipídico, a resistência à insulina e o perfil inflamatório, porém esses estudos, em sua maioria, utilizaram quantidades elevadas de proteína de soja, variando de 25 a 133 g de proteína (25-27). Essa quantidade é considerada alta e muitas vezes não é bem tolerada pelos pacientes, resultando em abandono do tratamento. Mesmo indivíduos que se dispõem a participar de projetos e estão cientes da quantidade a ser ingerida muitas vezes não completam o tempo predeterminado por não tolerarem o tratamento e seus efeitos adversos.

Um estudo realizado por Tonstad e cols. (36) analisou a ação de duas diferentes concentrações de proteína de soja, 30 g e 50 g, sobre o perfil lipídico. A taxa de desistência para cada grupo foi 13% e 23%, respectivamente. Os motivos relatados foram principalmente dificuldades em cumprir o protocolo do estudo e complicações gastrointestinais (diarreia, constipação, náuseas e vômito). Outro estudo avaliou a ingestão de 20 g de proteína de soja e apresentou cerca de 13% de desistência entre os pacientes do grupo que consumiu soja. As razões foram desaprovação do suplemento, sintomas clínicos não relatados e perda do interesse na pesquisa (35). Já Campbell e cols. (38) verificaram 29% de desistência entre os grupos controle e soja, sendo que, destas, 32% ocorreram no grupo que ingeria 25 g de proteína de soja diariamente, 48% no grupo controle e 20% não foram especificadas. No entanto, como ocorre na maioria dos estudos, as causas relatadas são inespecíficas, como razões pessoais e abandono do tratamento.

A ingestão diária de uma quantidade relativamente baixa de proteína de soja, 12,95 g, foi bem aceita por todos os pacientes e a adesão ao tratamento foi completa, uma vez que não ocorreu nenhuma desistência dos participantes.

Nosso estudo apresenta algumas limitações. A primeira delas refere-se ao baixo número de participantes justificado pelos rigorosos critérios de inclusão. Uma outra limitação é que o aumento de HDL no grupo que consumiu soja apresentou uma diferença estatística limiar (p = 0,0425), embora significativa. Possivelmente um número maior de participantes poderia contribuir para uma maior significância estatística. Conclui-se que a ingestão diária de uma baixa quantidade de soja, contendo apenas 12,95 g de proteína de soja, além de bem tolerada pelos pacientes, foi capaz de melhorar a resistência à insulina, os níveis de HDL e adiponectina.

Agradecimentos: este estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Declaração: os autores declaram não haver conflitos de interesse científico neste estudo.

Recebido em 22/Nov/2010

Aceito em 22/Jun/2011

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  • Correspondência para:
    Andréa Name Colado Simão
    Departamento de Patologia,
    Análises Clínicas e Toxicológicas,
    Universidade Estadual de Londrina
    Av. Robert Koch, 60
    86038-440 – Londrina, PR, Brasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2011
  • Data do Fascículo
    Ago 2011

Histórico

  • Recebido
    22 Nov 2010
  • Aceito
    22 Jun 2011
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