Interferon-alfa: um disruptor endócrino?

Interferon-alpha: a endocrine disruptor?

CARTA AO EDITOR

Interferon-alfa: um disruptor endócrino?

Interferon-alpha: a endocrine disruptor?

Luis Jesuino de Oliveira Andrade

Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), Ilhéus, BA, Brasil

Correspondência para

Nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, edição de dezembro de 2010, a Dra. Clarisse M. M. Ponte e cols. apresentaram uma excelente revisão sobre "Distúrbios metabólicos em doenças infecciosas emergentes e negligenciadas". Nesta revisão, os autores apresentam as mais frequentes doenças infecciosas e sua associação, em especial, com o diabetes melito tipo 2 (DM2).

Em relação às hepatites virais, deve-se ter especial atenção à hepatite C crônica (HCC) e seu tratamento, tendo em vista a importância de eventos metabólicos na fisiopatologia da infecção pelo vírus da hepatite C (VHC) cada vez mais aparente, que representa uma importante classe de manifestações endócrinas VHC-relacionada.

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 3% da população mundial esteja infectada com o VHC (1). Interferon-alfa (IFN-α) é atualmente o tratamento padrão em indivíduos com infecção pelo VHC, e as disfunções endócrinas têm sido relatadas durante seu uso, de forma que o IFN-α poderia ser considerado um interferente endócrino (IE) (2).

É importante conhecer as interações entre as citocinas e o sistema endócrino, para assim compreender os mecanismos de desenvolvimento dos eventos endocrinológicos, quando do uso do IFN-α, bem como em endocrinopatias autoimunes. Os estudos publicados demonstram o potencial patogênico do IFN-α para autoimunidade, embora esteja evidente que fatores genéticos e ambientais também sejam essenciais para o desenvolvimento das doenças autoimunes.

Evidências da associação entre as alterações hipotalâmicas e a infecção pelo VHC estão relacionadas ao tratamento com o IFN-α. Os interferons podem modular diretamente ou por meio da indução de outras citocinas a função do eixo hipotalâmico (3). Entretanto, os dados ainda permanecem contraditórios sobre a disfunção do hipotálamo em portadores de HCC em tratamento com IFN-α, sendo um campo importante para futuras pesquisas.

Recentes pesquisas sugerem que a hipófise é potencialmente um dos sítios primários do sistema neuroendócrino alterado pelo IFN-α. Doenças hipofisárias e infecção pelo VHC são relacionadas ao tratamento com IFN-α. Evidências demonstram que o IFN-α pode desempenhar um papel regulador da secreção de hormônio do crescimento, com efeitos estimulantes e inibitórios sobre a secreção desse hormônio (4). Os efeitos do tratamento com IFN-α sobre o hormônio luteinizante e o folículo estimulante não levam a qualquer alteração sobre seus níveis plasmáticos, entretanto o IFN-α induz a uma redução aguda dos níveis séricos dos andrógenos e da testosterona livre (5). A concentração sérica de prolactina (PRL) em homens com HCC apresenta um aumento importante e também tem sido relatado que o IFN-α tem um efeito inibitório dose-dependente sobre a PRL em indivíduos com adenoma hipofisário (6). Raison e cols. avaliaram o impacto do IFN-α sobre a secreção diurna dos hormônios do eixo hipófise-adrenal e demonstraram uma significativa redução nos níveis diurnos do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), e o aumento das concentrações noturnas de ACTH e cortisol (7). O hipopituitarismo secundário à hipofisite foi relatado também durante o tratamento da HCC com IFN-α, porém é uma complicação rara e com normalização da função hipofisária após a descontinuação do tratamento (8).

Os distúrbios no eixo cálcio-PTH-vitamina D estão frequentemente associados com doenças hepáticas crônicas. Nishida e cols. demonstraram que o IFN-α pode melhorar a reabsorção óssea em indivíduos com HCC e esses efeitos seriam provavelmente resultado de uma ação direta de IFN-α na homeostase óssea (9).

Estudos têm demonstrado que a frequência da doença clínica tireoidiana em indivíduos com HCC em tratamento com IFN-α varia de 2,5% para 34,3%, e até 40% desenvolvem anticorpos antitireoidianos (10). O câncer de tireoide tem sido descrito em indivíduos com HCC, e a tireoidite autoimune pode ser um precursor, principalmente no curso do tratamento com IFN-α (11). Portanto, em função da elevada prevalência de disfunção tireoidiana, é essencial que os médicos que tratam indivíduos portadores do VHC com IFN-α estejam cientes da necessidade de avaliação da função tireoidiana antes e no curso do tratamento da HCC.

A infecção pelo VHC e DM são doenças que envolvem milhões de pessoas em todo o mundo, sendo que a HCC está intimamente relacionada à resistência à insulina e um elevado risco de DM2 como bem descrito por Ponte e cols. (12). Além do mais, o tratamento com IFN-α pode desencadear o DM pela indução de apoptose das células-β. Chama atenção que, embora menos frequentes, as disfunções endócrinas em indivíduos com hepatite B quando do uso do IFN-α também podem ocorrer, sendo bem destacado no estudo de Lopes e cols. (13).

São raras as alterações das suprarrenais na HCC durante o tratamento com IFN-α, porém, agindo como IE, o IFN-α pode desencadear a doença de Addison (DA), o hipoadrenalismo subclínico e a positividade de anticorpos anti-21-hidroxilase (14).

O tratamento com IFN-α na infecção pelo HCV tem sido associado à disfunção gonadal em função dos efeitos diretos de IFN sobre as gônadas ou efeitos sobre os centros reguladores hipotalâmicos (15).

Portanto, o IFN-α como um IE pode atuar em todo o sistema endócrino por meio de múltiplos mecanismos de ação.

Declaração: os autores declaram não haver conflitos de interesse científico neste estudo.

Recebido em 7/Ago/2011

Aceito em 20/Jan/2012

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  • Correspondência para:
    Luis Jesuino de Oliveira Andrade
    Rua Nações Unidas, 511
    45600-673 - Itabuna, BA, Brasil

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Maio 2012
  • Data do Fascículo
    Fev 2012
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