Dopplerfluxometria das artérias renais: valores normais das velocidades sistólica e diastólica e do índice resistivo nas artérias renais principais

Renal arteries Dopplerfluxometry: normal systolic and diastolic flow velocities and resistive index values in the main renal arteries

M.B. Melo J.C.C. Veado E.F. Silva S.M. Moreira L.M.F. Passos Sobre os autores

Resumo

Dopplerfluxometry of renal arteries has been used to estimate renal perfusion in humans. The aim of this study was to use Dopplerfluxometry technique to calculate the resistive index of main renal arteries in dogs, measuring their systolic and diastolic blood flow velocities. Twenty (10 males, 10 females), adult mongrel dogs, were used in this study. The dogs were submitted to Doppler sonographic evaluation of left and right main renal arteries. The systolic and diastolic blood flow velocities, expressed (in centimeters per second) as mean and standard deviation were 79.96± 8.82 and 28.86± 5.11 in the right main renal artery and 80.22± 6.99 and 29.62± 4.14 in the left main renal artery. The value of resistive index expressed as mean ± standard deviation was 0.64± 0.04 for the right main renal artery and 0.63± 0.028 in the left main renal artery.

dog; Dopplerfluxometry; renal arteries; resistive index


dog; Dopplerfluxometry; renal arteries; resistive index

cão; Dopplerfluxometria; artérias renais; índice resistivo

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

Dopplerfluxometria das artérias renais: valores normais das velocidades sistólica e diastólica e do índice resistivo nas artérias renais principais

Renal arteries Dopplerfluxometry: normal systolic and diastolic flow velocities and resistive index values in the main renal arteries

M.B. MeloI; J.C.C. VeadoII,* * Autor para correspondência ( corresponding author) E-mail: cambraia@vet.ufmg.br ; E.F. SilvaI; S.M. MoreiraI; L.M.F. PassosII

IAluno de pós-graduação - EV-UFMG - Belo Horizonte

IIEscola de Veterinária da UFMG Caixa Postal 567 30123-970 - Belo Horizonte, MG

Palavras-chaves: cão, Dopplerfluxometria, artérias renais, índice resistivo

ABSTRACT

Dopplerfluxometry of renal arteries has been used to estimate renal perfusion in humans. The aim of this study was to use Dopplerfluxometry technique to calculate the resistive index of main renal arteries in dogs, measuring their systolic and diastolic blood flow velocities. Twenty (10 males, 10 females), adult mongrel dogs, were used in this study. The dogs were submitted to Doppler sonographic evaluation of left and right main renal arteries. The systolic and diastolic blood flow velocities, expressed (in centimeters per second) as mean and standard deviation were 79.96± 8.82 and 28.86± 5.11 in the right main renal artery and 80.22± 6.99 and 29.62± 4.14 in the left main renal artery. The value of resistive index expressed as mean ± standard deviation was 0.64± 0.04 for the right main renal artery and 0.63± 0.028 in the left main renal artery.

Keywords: dog, Dopplerfluxometry, renal arteries, resistive index

A prevalência de doenças renais é alta na clínica de pequenos animais, afetando aproximadamente 1% dos cães atendidos (MacDougall et al., 1986). Em animais idosos, acima de 15 anos de idade, esse percentual pode atingir 10% (Polzin et al., 1992). Além da idade avançada, fatores como alterações congênitas, alimentação inadequada, utilização de drogas nefrotóxicas, intoxicações e doenças infecciosas predispõem caninos e felinos a lesões do parênquima renal.

Na medicina veterinária, diversos estudos estão sendo realizados com o intuito de se descobrir métodos de avaliação e detecção precoce de doenças renais. Alguns métodos de avaliação da função renal, apesar de eficazes, são complexos e invasivos, o que limita o seu uso na rotina. Segundo Miyamoto et al. (1997), a Dopplerfluxometria é uma técnica útil para estimar, de forma não invasiva, a hemodinâmica renal no cão.

O estudo fundamentado no Doppler dos fluxos sangüíneos de órgãos permite detectar alterações nesses fluxos, contribuindo para diagnósticos mais precisos. Alterações na perfusão, em alguns casos, podem ser os primeiros sinais de que a funcionalidade renal está alterada. A diminuição da perfusão renal pode ocorrer por desordens glomerulares, tubulares e vasculares, causando muitas vezes alterações irreversíveis, que são assintomáticas em estágios iniciais. A possibilidade de antecipar uma possível piora do quadro clínico é muito importante para se evitar lesões adicionais, que poderão levar à disfunção definitiva dos rins. Segundo Nyland et al. (2002), o uso do Doppler para avaliação dos rins de animais tem origem em estudos realizados em humanos. Nestes, a técnica tem demonstrado ser útil para fornecer informações adicionais, em pacientes portadores de insuficiência renal aguda, na obstrução do trato urinário, nas neoplasias renais e em pacientes pós-transplante renal. Estudos em animais têm sido realizados para mostrar as possibilidades da técnica para a avaliação de várias doenças renais. Os trabalhos de Morrow et al. (1996), Rivers et al. (1996) e Rivers et al. (1997) demonstraram a utilidade da técnica em cães portadores de nefrites, insuficiência renal aguda e glomerulopatias.

A medida das velocidades dos fluxos sistólico e diastólico das artérias renais permite o cálculo do índice resistivo (IR), valor adimensional criado para estimar a resistência de leitos vasculares regionais (Rivers et al., 1997).

Para a realização deste estudo, foram utilizados 20 cães, sem raça definida, 10 machos e 10 fêmeas, adultos, com peso médio de 11,53± 4,81 quilos. Todos os animais foram considerados normais, tendo sido realizados exames clínicos e laboratoriais de hemograma, dosagem sérica de uréia e creatinina e teste sorológico para leishmaniose.

Antes dos exames, foram realizadas tricotomias amplas dos flancos direito e esquerdo dos animais, permitindo a livre movimentação do transdutor para obtenção de imagens de boa qualidade de ambos os rins. A tricotomia do flanco direito é mais cranial e dorsal que a tricotomia do flanco esquerdo, devido à posição anatômica mais cranial do rim direito. Os exames foram realizados com os animais posicionados em decúbito lateral, esquerdo ou direito, de acordo com o rim a ser examinado.

Os animais, sedados com maleato de acepromazina1 1 Acepran 1% - UNIVET S.A , na dose de 0,03mg/kg (Trim, 2003) por via intramuscular, 10 minutos antes do início dos exames, foram examinados com um ecoDopplercardiógrafo2 2 HP SONOS 100 CF – Hewlett Packard, USA , utilizando-se um transdutor convexo de varredura setorial bifreqüencial de 5/7.5 MHz em modo Doppler pulsado e mapeamento em cores. Aplicou-se gel para a ultra-sonografia a fim de melhorar o contato do transdutor com a pele. As imagens foram impressas em impressora preto e branco3 3 UP – 890 Sony Corporation , utilizando-se papel termo-sensível4 4 UPP – 110HG Tipo V Sony Corporation , e gravadas em fitas cassete5 * Autor para correspondência ( corresponding author) E-mail: cambraia@vet.ufmg.br .

Para se obter resultados uniformes, foram realizadas três medidas do fluxo sangüíneo no ramo principal de cada artéria renal em cada animal, calculando-se o IR, de acordo com a fórmula de Rivers et al. (1997), e obtendo-se a média e o desvio-padrão dos valores.

Na Tab. 1 são apresentados os valores médios das velocidades sistólica máxima e diastólica mínima do fluxo sangüíneo e do IR das artérias renais principais de todos os cães.

As médias dos valores da velocidade sistólica do fluxo sangüíneo da artéria renal principal obtidas foram similares às citadas na literatura para humanos, que, segundo Zubarev (2001), oscilam entre 60 a 100cm/s. Não existem trabalhos que descrevam quais são os valores considerados normais das velocidades sistólica máxima e diastólica mínima dos fluxos sangüíneos nas artérias renais principais de cães e, como os valores dessas velocidades determinam o IR, é importante conhecer a sua variabilidade.

Os valores obtidos para o IR ficaram acima dos encontrados por Rivers et al. (1997) nas artérias arqueadas de cães sedados, que variaram de 0,33 a 0,57. O protocolo sedativo utilizado não produziu efeitos significativos na freqüência cardíaca e na freqüência respiratória, que se mantiveram dentro dos limites fisiológicos. A diferença observada pode ser creditada, além da diferença do protocolo sedativo utilizado, a fatores como, por exemplo, o ramo arterial avaliado ou o grupo de animais estudado.

Os valores de IR são similares àqueles observados por Nyland et al. (1993) nas artérias arqueadas de cães não sedados. Segundo Radermacher (2002), há tendência de redução dos valores das velocidades sistólica e diastólica e dos valores do IR dos ramos maiores para os ramos menores. Os resultados observados sugerem que o valor do IR pode não se alterar significativamente entre os ramos arteriais renais.

Koch et al. (1997) consideraram 0,70 como o limite superior para o IR em cães normais, valor também proposto por Zubarev (2001) como o normal para humanos. Considerando 0,70 o valor limite também para cães, pode-se afirmar que os cães deste experimento apresentaram valores normais do IR.

As velocidades sistólica máxima e diastólica mínima do fluxo sangüíneo das artérias renais principais não haviam sido ainda descritas. A ultra-sonografia pelo Doppler pode ser uma ferramenta importante e com potencial para avaliar alterações de perfusão renal e avaliações precoces de doenças renais. Entretanto, há necessidade de outras pesquisas para testar as reais possibilidades de uso dessa técnica na rotina clínica.

Recebido em 13 de dezembro de 2004

Aceito em 28 de junho de 2006

  • *
    Autor para correspondência (
    corresponding author)
    E-mail:
  • 1
    Acepran 1% - UNIVET S.A
  • 2
    HP SONOS 100 CF – Hewlett Packard, USA
  • 3
    UP – 890 Sony Corporation
  • 4
    UPP – 110HG Tipo V Sony Corporation
  • 5
    Videocassete - Sony Corporation
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    * Autor para correspondência ( corresponding author) E-mail: cambraia@vet.ufmg.br 1 Acepran 1% - UNIVET S.A 2 HP SONOS 100 CF – Hewlett Packard, USA 3 UP – 890 Sony Corporation 4 UPP – 110HG Tipo V Sony Corporation 5 Videocassete - Sony Corporation

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      06 Out 2006
    • Data do Fascículo
      Ago 2006

    Histórico

    • Recebido
      13 Dez 2004
    • Aceito
      28 Jun 2006
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