Infecção natural por Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 em Euphractus sexcinctus (tatu) mantidos em cativeiro

Natural infection by Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 in Euphractus sexcinctus (armadillo) kept in captivity

Resumo

Fecal samples of two species of armadillos Euphractus sexcinctus (Xenarthra, Dasypodidae), kept in captivity were analysed by direct and sedimentation methods. Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 and E. coli Grassi, 1879 (Amoebida, Endamoebidae) cysts were observed, the former for the first time in armadillos. This parasitism is worthy of registration in the literature because of the possibility of transmission to the human being when these animals are kept in captivity.

Armadillo; Euphractus sexcinctus; Entamoeba histolytica; Entamoeba coli


Armadillo; Euphractus sexcinctus; Entamoeba histolytica; Entamoeba coli

Tatu; Euphractus sexcinctus; Entamoeba histolytica; Entamoeba coli

COMUNICAÇÃO

(Communication)

Infecção natural por Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 em Euphractus sexcinctus (tatu) mantidos em cativeiro

[Natural infection by Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 in Euphractus sexcinctus (armadillo) kept in captivity]

C.A. Soares1, J.B. Oliveira2*, M.D.C. Brito2

1Aluna do Curso de Medicina Veterinária da UFRPE

2Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco

Rua Dom Manoel de Medeiros

52171-030 - Recife, PE

Recebido para publicação, após modificação, em 7 de fevereiro de 2000.

*Autor para correspondência

Os animais silvestres são hospedeiros de uma grande variedade de parasitos, inclusive de alguns agentes de zoonoses, podendo transmiti-los através da urina, sangue, secreções, fezes, artrópodes ou fômites infectados (Siemering, 1993). A literatura mundial sobre o parasitismo natural em animais silvestres é ainda limitada e os conhecimentos atuais estão longe de ser considerados satisfatórios. O estudo dos ecto e endoparasitos que acometem esses animais, tanto de vida livre quanto de cativeiro, justifica-se pela necessidade de determinar as conseqüências das relações parasito-hospedeiro, de identificar as fontes de infecção que visem a implementação de medidas de controle e profilaxia, e de selecionar os agentes antiparasitários adequados (Greve, 1993).

Os dasipodídeos (tatus) estão reunidos em uma única família, Dasypodidae, com cinco gêneros. A espécie Euphractus sexcinctus é endêmica da região Neotropical, ocorrendo em praticamente todos os biomas do território brasileiro tais como mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga, Campos do Sul e Pantanal (Wetzel, 1982 apud Botelho et al., 1989; Fonseca, 1996). Entamoeba histolytica é um protozoário intestinal do homem e de animais domésticos (Soulsby, 1982), além de já ter sido relatado em primatas não humanos das famílias Cebidae e Callitrichidae (Kuntz & Myers, 1972) e em Xenarthras da família Myrmecophagidae, tais como as espécies Myrmecophaga tridactyla (tamanduá-bandeira) e Tamandua tetradactyla (tamanduá-mirim) (Diniz et al., 1995). Santos et al. (1995) relataram o parasitismo por Entamoeba em animais mantidos no criadouro de animais silvestres de Itaipu Binacional (CASIB).

Os animais estudados eram duas fêmeas adultas da espécie Euphractus sexcinctus, conhecidos como tatú-peba. Os animais foram doados pela população e mantidos temporariamente em cativeiro autorizado pelo IBAMA, numa área de 70ha de Floresta Atlântica do Refúgio Ecológico Charles Darwin, localizado no município de Igarassu, Estado de Pernambuco. As amostras de fezes foram coletadas durante três dias consecutivos, imediatamente após a defecação, e foram processadas pelos métodos direto e de sedimentação espontânea.

Observou-se a presença de cistos de Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 e Entamoeba coli Grassi, 1879 (Amoebida, Endamoebidae). Durante o período de coletas não foi constatada nenhuma sintomatologia clínica característica de amebíase. Diniz et al. (1995) registraram a ocorrência desse protozoário em Tamandua tetradactyla e em Myrmecophaga tridactyla cativos no zoológico de São Paulo, e apontaram uma relação direta entre a infecção e o manejo. Apesar da ausência de dados a respeito do potencial dos animais silvestres na transmissão de E. histolytica, acredita-se remota a possibilidade de dasipodídeos da espécie Euphractus sexcinctus, em estado selvagem, representarem fonte de infecção para o homem. Este é o primeiro relato de infecção natural por Entamoeba histolytica em Euphractus sexcinctus sem manifestação clínica, o que se reveste de importância diante da escassez de dados a respeito dos agentes infecciosos que acometem os dasipodídeos e do papel desses animais como reservatórios de agentes de zoonoses.

Palavras-chave: Tatu, Euphractus sexcinctus, Entamoeba histolytica, Entamoeba coli

AGRADECIMENTOS

A Roberto Siqueira Carneiro, biólogo e coordenador de pesquisa do Refúgio Ecológico Charles Darwin.

ABSTRACT

Fecal samples of two species of armadillos Euphractus sexcinctus (Xenarthra, Dasypodidae), kept in captivity were analysed by direct and sedimentation methods. Entamoeba histolytica Schaudinn, 1903 and E. coli Grassi, 1879 (Amoebida, Endamoebidae) cysts were observed, the former for the first time in armadillos. This parasitism is worthy of registration in the literature because of the possibility of transmission to the human being when these animals are kept in captivity.

Keywords: Armadillo, Euphractus sexcinctus, Entamoeba histolytica, Entamoeba coli

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2000
  • Data do Fascículo
    Jun 2000

Histórico

  • Recebido
    07 Fev 2000
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