Avaliação soroepidemiológica do vírus influenza em aves domésticas e silvestres no Estado do Rio de Janeiro

Serological survey on influenza virus in domestic and wild birds from Rio de Janeiro State, Brazil

Resumos

Estudou-se a presença de anticorpos para o vírus da influenza aviária, subtipos H1N1 e H3N2, por meio da técnica de inibição da hemaglutinação no plasma de 225 aves da Fundação RIO-ZOO, do Bwana Park e de pequenas criações do Estado do Rio de Janeiro. Entre as aves estudadas 60 (26,6%) foram soropositivas, sendo 22 (9,8%) para o subtipo H1N1, 28 (12,4%) para o subtipo H3N2 e 10 (4,4%) para os dois subtipos. Esses resultados indicam a ocorrência dos subtipos do vírus da influenza aviária investigados no Rio de Janeiro e apontam para o risco potencial de sua transmissão para a avicultura industrial e para pessoas.

Ave; vírus da influenza; H1N1; H3N2; inibição da hemaglutinação


The presence of antibodies to the avian influenza virus subtypes H1N1 and H3N2, was studied through the technique of hemagglutination inhibition in the plasma of 225 birds of RIO-ZOO Foundation, Bwana Park and of small flocks of the Rio de Janeiro State. Among the studied birds, 60 (26.6%) were seropositives, being 22 (9.8%) for the subtype H1N1, 28 (12.4%) for the subtype H3N2 and 10 (4.4%) for both subtypes. These results indicate the occurrence of these avian influenza virus subtypes in Rio de Janeiro and point out the potential risk of their transmission for the industrial poultry and humans.

Birds; influenza virus; H1N1; H3N2; hemagglutination inhibition


Avaliação soroepidemiológica do vírus influenza em aves domésticas e silvestres no Estado do Rio de Janeiro

[Serological survey on influenza virus in domestic and wild birds from Rio de Janeiro State, Brazil]

J.G. Oliveira Jr.1, M.S.P. Belluci1, J.S.M. Vianna1,C. Mazur1* * Autor para correspondência E-mail: mazur@ufrrj.br , C.M. Andrade1, L.P.L. Fedullo2, C. Portz3, B.O. Loureiro3

1Instituto de Veterinária da UFRRJ

BR 465 - Km 7

23890-000, Seropédica, RJ

2Fundação RIO-ZOO

3Acadêmicos do Curso de Medicina Veterinária - UFRRJ

Recebido para publicação, após modificações, em 16 de março de 2001

Suporte financeiro FAPERJ e CNPq

RESUMO

Estudou-se a presença de anticorpos para o vírus da influenza aviária, subtipos H1N1 e H3N2, por meio da técnica de inibição da hemaglutinação no plasma de 225 aves da Fundação RIO-ZOO, do Bwana Park e de pequenas criações do Estado do Rio de Janeiro. Entre as aves estudadas 60 (26,6%) foram soropositivas, sendo 22 (9,8%) para o subtipo H1N1, 28 (12,4%) para o subtipo H3N2 e 10 (4,4%) para os dois subtipos. Esses resultados indicam a ocorrência dos subtipos do vírus da influenza aviária investigados no Rio de Janeiro e apontam para o risco potencial de sua transmissão para a avicultura industrial e para pessoas.

Palavras-Chave: Ave, vírus da influenza, H1N1, H3N2, inibição da hemaglutinação

ABSTRACT

The presence of antibodies to the avian influenza virus subtypes H1N1 and H3N2, was studied through the technique of hemagglutination inhibition in the plasma of 225 birds of RIO-ZOO Foundation, Bwana Park and of small flocks of the Rio de Janeiro State. Among the studied birds, 60 (26.6%) were seropositives, being 22 (9.8%) for the subtype H1N1, 28 (12.4%) for the subtype H3N2 and 10 (4.4%) for both subtypes. These results indicate the occurrence of these avian influenza virus subtypes in Rio de Janeiro and point out the potential risk of their transmission for the industrial poultry and humans.

Keywords: Birds, influenza virus, H1N1, H3N2, hemagglutination inhibition

INTRODUÇÃO

A influenza é uma doença respiratória infecciosa aguda, altamente contagiosa, descrita em diversas espécies animais e em humanos, causada pelo Influenzavirus tipo A. Os casos ocorrem usualmente na forma de epidemias com ataque súbito e rápida disseminação em uma região geográfica, causando grandes prejuízos econômicos (Lenette et al., 1995).

A recombinação gênica entre amostras virais em infecções mistas é facultada pelo genoma de RNA segmentado dos Influenzavirus e favorece o surgimento de variantes antigênicas que atravessam a barreira interespécies e podem disseminar graves epidemias em populações animais desprotegidas imunologicamente. Estudos genéticos e antigênicos sugerem que a pandemia em Hong Kong em 1968, causada pelo subtipo H3N2, originou-se da recombinação entre os vírus influenza humano e aviário (Guan et al., 1996).

Em praticamente todas as regiões do mundo o vírus da influenza aviária (VIA) tem sido isolado de aves silvestres, cujas migrações possibilitam a expansão da doença (Panigrahy, 1997). Aves aquáticas e selvagens são consideradas os principais reservatórios naturais do VIA (Webster et al., 1995). Essas aves apresentam comumente infecções inaparentes, causadas por um ou mais subtipos simultaneamente (infecções mistas), podendo eliminar vírus por longos períodos (Johnson & Maxfield, 1976).

O presente trabalho tem como objetivo traçar o perfil sorológico do VIA subtipos H1N1 e H3N2 em aves do Estado do Rio de Janeiro, para avaliar o potencial de populações aviárias como fonte de infecção do vírus para a avicultura industrial e para humanos.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas amostras de VIA H1N1 (A/Turkey/Weybridge/79) e H3N2 (A/Duck/Hong Kong 29/76) cedidas pelo Instituto de Microbiologia Prof. Paulo de Góes, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para padronização do antígeno viral, as amostras virais foram cultivadas em ovos embrionados livres de patógenos específicos (SPF) e inativadas a 56ºC por 30 minutos (Lennette et al., 1995). As hemácias utilizadas nas provas de inibição da hemaglutinação (HI) foram obtidas de galinhas soronegativas para os vírus da doença de Newcastle e da influenza (Brasil-MAARA, 1994).

Como população-alvo, definiu-se a coleta de sangue de aves da Fundação RIO-ZOO e do Bwana Park no município do Rio de Janeiro e de pequenas propriedades nos municípios de Seropédica, Japeri e Paulo de Frontin. As aves tiveram o sangue coletado por punção na veia braquial, com seringas heparinizadas. O plasma foi separado por centrifugação, inativado a 56oC por 30 minutos e estocado a –20oC (Belluci et al., 1999).

Para remoção de inibidores inespecíficos da hemaglutinação, 0,2ml de cada plasma foi adicionado a 0,8ml de caolin a 25% e 1ml de tampão fosfato (PBS) pH 7,2. A mistura foi homogeneizada e incubada de um dia para o outro a 37oC (Balows et al., 1996). Em seguida o plasma foi centrifugado a 600´g por 30 minutos e o sobrenadante transferido para novos tubos. Para remoção de agentes hemaglutinantes inespecíficos, 2,0ml do plasma tratado foi incubado com 0,2ml de suspensão de hemácias de galinha a 50% em PBS, por uma hora em temperatura ambiente (± 25oC). Após a incubação, as hemácias foram removidas por centrifugação a 600´g durante 10 minutos, à temperatura de 8oC (Brasil-MAARA, 1994) e o plasma estocado a –20oC até o momento do uso.

Para pesquisa de anticorpos, a prova de HI foi realizada em microplacas de 96 cavidades, fundo em "U". O plasma tratado foi diluído de 1:10 até 1:80, em alíquotas de 50ml, em PBS pH 7,2, e adicionado com alíquotas de 50ml a 4 unidades hemaglutinantes (UHA) do antígeno viral. Cada diluição foi incubada por 30 minutos em temperatura ambiente (± 25oC). Em seguida 50ml de uma suspensão de hemácias lavadas de galinha, a 1% em PBS, foi acrescentado como indicada no teste. Após mais 30 minutos de incubação em temperatura ambiente, procedia-se à leitura dos resultados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Das 225 aves testadas (123 silvestres e 102 domésticas), 22 (9,8%) foram soropositivas para o H1N1, 28 (12,4%) soropositivas para o H3N2 e 10 (4,4 %) para os dois subtipos. Entre as 123 aves silvestres, 5 (4,1%) foram positivas para o H1N1, 13 (10,6 %) para o H3N2 e 4 (3,2%) para os dois subtipos. Das 102 aves domésticas, 17 (16,7%) foram positivas para o H1N1, 15 (14,7%) para o H3N2 e 6 (5,9%) para os dois subtipos. (Tab.1 e 2 ).

Devido à sua importância econômica e social, o vírus da influenza é submetido à vigilância sanitária em diversos países e a partir da identificação das variantes antigênicas vacinas podem ser desenvolvidas para seu controle (Nicholson et al., 1998). Os subtipos h1n1 e H3N2 do VIA estão entre os patógenos mais importantes na infecção de humanos e de aves em todo o mundo (Rott, 1997). Estudos realizados no Japão entre 1979 e 1991 demonstraram que dos 2963 vírus influenza isolados de crianças durante esse período, 922 (31,1%) e 1006 (33,9 %) são influenza A subtipos h1n1 e H3N2, respectivamente (Nakajima et al., 1995). A grave pandemia denominada "Gripe Espanhola", em 1918, e a pandemia de 1968, em Hong Kong (Guan et al., 1996), também foram causadas por esses dois subtipos. Considerando que as aves podem atuar na epidemiologia do vírus como carreadoras e humanos como hospedeiros, desenvolvendo a doença, a presença do vírus da influenza nessas aves pode originar novas pandemias de influenza em populações humanas e animais (Webster, 1997).

No Brasil o vírus da influenza é pouco estudado. Apesar dos trabalhos de isolamento de Salcedo (1980) e Couceiro (1986), o VIA ainda é considerado exótico no país (Brasil-MAARA, 1994), razão porque estudos soroepidemioló-gicos, seguidos de tentativas de isolamento, são recomendados.

Os resultados da prova de HI permitem concluir que o VIA está provavelmente circulando no Estado, constituindo risco para os animais de produção e a população humana.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Jun 2002
  • Data do Fascículo
    Jun 2001

Histórico

  • Recebido
    16 Mar 2001
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