Influência da suplementação com alho (Allium sativum) em pó na flora ruminal e no ganho de peso de cordeiros confinados

Influence of powdered garlic (Allium sativum) supplementation on ruminal flora and weight gain in feedlot lambs

Resumo

The study aimed to study the effects of garlic supplementation on ruminal flora and on weight gain in feedlot lambs. Fourteen animals were divided into two groups (treated and control). The garlic supplementation did not increase weight gain but induced a reduction of ruminal flora activity.

lamb; garlic; Allium sativum; ruminal flora; bacterial activity; protozoal


lamb; garlic; Allium sativum; ruminal flora; bacterial activity; protozoal

ovino; alho; Allium sativum; flora ruminal

COMUNICAÇÃO

Influência da suplementação com alho (Allium sativum) em pó na flora ruminal e no ganho de peso de cordeiros confinados

Influence of powdered garlic (Allium sativum) supplementation on ruminal flora and weight gain in feedlot lambs

M. NoroI; S.R. WosiackiII; M.A. LeandroIII; M. CecimIV, * * Autor para correspondência E-mail: mcecim@hcv.ufsm.br

IUniversidad Austral de Chile (UACh)

IIUniversidade Estadual de Londrina (UEL)

IIIAutônomo

IVUniversidade Federal de Santa Maria (UFSM) Faixa de Camobi, km 9 - Campus Universitário 97105-900 - Santa Maria, RS

Palavras-chave: ovino, alho, Allium sativum, flora ruminal

ABSTRACT

The study aimed to study the effects of garlic supplementation on ruminal flora and on weight gain in feedlot lambs. Fourteen animals were divided into two groups (treated and control). The garlic supplementation did not increase weight gain but induced a reduction of ruminal flora activity.

Keywords: lamb, garlic, Allium sativum, ruminal flora, bacterial activity, protozoal

Diferentes estudos apontam ações específicas do alho nos organismos humano e animal, como prevenção e controle de desordens cardiovasculares (Ernst, 1987) e atividade antibacteriana, antiparasitária e antifúngica (Sarto, 1996), dentre outras.

Na alimentação animal o alho tem sido utilizado como palatabilizante de rações e estimulante do crescimento de suínos, aves, eqüinos e ovinos(Bianchin et al., 2000). Em bovinos, o alho tem sido utilizado no controle de endo e ectoparasitos, como a mosca-do-chifre (Haematobia irritans), carrapato (Boophilus microplus), e berne (Dermatobia hominis) (Bernades, 1997). O efeito do alho é repelente e se dá após a ingestão, pois o produto é metabolizado pelo animal, liberando odor característico pelo suor. Esse odor também é eliminado nas fezes, inibindo a reprodução das moscas (Sarto, 1997). Esse autor revelou que se adicionando o alho em pó em pequena proporção (1%) ao sal mineral ou ração (consumo de 0,7-1,4g alho/dia), pode-se diminuir em até 90% a infestação pela mosca-do-chifre.

Não existem relatos sobre o efeito antibacteriano do alho na flora de ruminantes. A ação possivelmente seria desfavorável e imprópria para o desenvolvimento e manutenção normal da atividade microbiana no rúmen. Assim, este trabalho teve por objetivo estudar alterações na flora microbiana e medir o ganho de peso de cordeiros em regime de confinamento alimentados com alho em pó.

Foram utilizados 14 cordeiros, cruza Suffolk, com idades entre 90 e 100 dias, criados em regime de confinamento, adaptados a uma dieta contendo silagem de milho, capim-cameron picado e concentrado balanceado com 22% de PB e 74% NDT, fornecida três vezes ao dia. Os animais foram distribuídos em dois grupos de sete animais. No grupo com alho, com 32,07± 1,24kg de peso vivo, foi administrada diariamente por via oral, durante 15 dias, uma solução contendo 0,8g de uma formulação comercial de alho desidratado diluído em 5ml de água. O grupo-controle, 33,71± 1,12kg de peso vivo, recebeu diariamente 5ml de água. Pesagens, em jejum prévio de 12h, e colheita de fluído ruminal foram realizadas nos dias 0, 7 e 15 do experimento, por sonda esofágica flexível. Imediatamente após a colheita do fluido ruminal avaliou-se o pH do fluido, com fita comercial reagente, e a atividade bacteriana, pela prova de redução do azul de metileno. Para a contagem de protozoários, preservaram-se 2ml de fluido ruminal em 2ml de formalina a 10%. A contagem e a classificação dos protozoários foram realizadas utilizando-se microscópio (100x) com câmara de Fuchs-Rosenthal. Na estatística, usou-se o test t de Student, para comparação de médias, considerando-se o nível de significância de 5%.

Os animais controle obtiveram ganho de peso de 3,51± 0,70kg no sétimo dia do experimento, superior ao dos animais tratados com alho, 1,64± 0,43kg (P=0,06). Esses resultados diferem dos de Sarto (1996), que observou vantagem para o grupo que recebeu alho na dieta. Esse autor mencionou melhoras no ganho de peso, na reprodução e no crescimento em bovinos. Os animais-controle obtiveram ganho médio diário (GMD) nos primeiros sete dias do experimento (267,34± 107,82g) e os do grupo tratado com alho perderam peso nesse período (-71,43± 35,36g) (P<0,02). Entre o sétimo e o 15º dia do experimento não houve diferença entre os grupos controle e tratado quanto ao ganho de peso, 205,36± 41,34g e 267,86± 56,08g (P<0,5), respectivamente (Fig. 1).

O pH ruminal dos animais tratados com alho e dos não tratados foi similar (6,64± 0,08 vs 6,57± 0,07) (P>0,05). O tempo de redução do azul de metileno foi diferente no sétimo dia do experimento com redução mais lenta para o grupo tratado, 125,71±14,26 segundos, em relação à do grupo controle, 80,71±12,68 segundos (P<0,05). No 14º dia do experimento essa diferença não foi constatada (Fig. 2). Considerando-se o período de adaptação de flora ruminal de aproximadamente 7 a 14 dias, a diferença observada pode ser atribuída à adaptação da flora à suplementação com alho em pó. Isso resultou em diminuição do ganho de peso do grupo tratado no início do experimento. Não houve diferença entre grupos quanto à contagem total e à classificação de protozoários ruminais. É importante considerar que o modo de conservação do alho pela moagem e desidratação pode modificar o seu efeito sobre a flora ruminal. A alicina, princípio antibacteriano do alho, é encontrada na forma de um precursor termoestável que é liberado quando da moagem das células (Saturnino, 1978). Em contato com o oxigênio do ar, a alicina produz diacil dissulfido volátil, por esse motivo o alho triturado deve ser imediatamente utilizado (Kato, 1973), a fim de evitar a inativação do seu efeito bacteriostático.

Em conclusão, o tratamento com alho não favorece o ganho de peso dos animais e a perda de peso que se verifica no início do experimento, e sugere que a mudança na dieta animal altera a flora microbiana.

Recebido para publicação em 11 de março de 2002

Recebido para publicação, após modificações, em 18 de junho de 2003

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  • SARTO, M. Ração à base de alho combate à mosca-do-chifre. Notícia Sebrae Campo Grande, MS. Ano 4, n.9, set, p.4-5, 1997.
  • SARTO, M. Utilização do alho na complementação alimentar da bovinocultura. Rio Verde, MS. Julho, 1996. Laudo Técnico - Universidade Federal de MS.
  • SATURNINO, H.M. Propriedades químicas e usos do alho. Inf. Agropec., dezembro, 1978. p.64-68.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2004
  • Data do Fascículo
    Out 2003

Histórico

  • Revisado
    18 Jun 2003
  • Recebido
    11 Mar 2002
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