Dosagem sérica de troponina I em cães com desnível do segmento ST utilizando quimioluminescência

Serum determination of troponin I in dogs with ST deviation by chemiluminescent

Resumos

Com o intuito de verificar algum dano nas células do miocárdio, utilizaram-se 38 cães, 20 com traçado eletrocardiográfico normal, grupo 1, e 18 com desníveis do segmento ST, grupo 2, em registro na derivação II, velocidade de 50mm/s e sensibilidade N (1mV=1cm). No grupo 1, a dosagem sérica da troponina I (cTnI) destinou-se à obtenção dos valores referenciais (ng/mL) que seriam confrontados com os obtidos no grupo 2. A média e o desvio-padrão foram, respectivamente, 0,16ng/mL e 0,11ng/mL e 0,20ng/mL e 0,11ng/mL, nos grupos 1 e 2. A cTnI não apresentou evidências de associação com idade, massa corpórea, creatinafosfoquinase total e potássio nos dois grupos. Não houve diferenças significativas nos valores de cTnI entre os grupos. Conclui-se que é possível a utilização do kit de ensaio imunométrico quimioluminescente humano para a espécie canina e que a hipóxia-isquemia, revelada pelo desnível do segmento ST não acarreta dano miocárdico ou este é mínimo e indetectável.

cão; troponina I; segmento ST; eletrocardiografia


In order to investigate myocardial cells injury, 38 dogs were evaluated, being 20 with a normal electrocardiogram (group 1) and 18 with ST segment elevation or depression (group 2), recorded in lead II, at paper speed of 50 mm/sec and N sensibility (1 mV = 1cm). Serum measurement of troponin I (cTnI) in group 1 was determined to obtain reference values (ng/mL). These values were compared to those obtained in dogs from group 2, to confirm or not myocardial injury. Mean cTnI values in groups 1 and 2 were 0.16ng/mL (SD±0.11ng/mL) and 0.20ng/mL (SD±0.11ng/mL), respectively. Three cTnI null values were found in group 1. cTnI was not related to age, mass, CK-T or serum potassium concentration in both animal groups, for each level varied in the group. There was no difference in cTnI values between groups 1 and 2. In conclusion, it is possible to use the human chemiluminescent immunometric assay kit in canine species and hypoxia/ischemia revealed by ST segment deviation does not mean significant myocardium injury.

dog; troponin I; Dogs; ST segment; electrocardiography


MEDICINA VETERINÁRIA

Dosagem sérica de troponina I em cães com desnível do segmento ST utilizando quimioluminescência

Serum determination of troponin I in dogs with ST deviation by chemiluminescent

A.L.F. SantosI; M.H.M.A. LarssonI; G.G. PereiraI; M.M. SantosI; V.C.R. GutierrezII

IFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - Universidade de São Paulo. Av. Prof. Orlando Marques de Paiva, 87 - 05508-270 - São Paulo, SP

IIHospital Universitário - Universidade de São Paulo - São Paulo, SP

RESUMO

Com o intuito de verificar algum dano nas células do miocárdio, utilizaram-se 38 cães, 20 com traçado eletrocardiográfico normal, grupo 1, e 18 com desníveis do segmento ST, grupo 2, em registro na derivação II, velocidade de 50mm/s e sensibilidade N (1mV=1cm). No grupo 1, a dosagem sérica da troponina I (cTnI) destinou-se à obtenção dos valores referenciais (ng/mL) que seriam confrontados com os obtidos no grupo 2. A média e o desvio-padrão foram, respectivamente, 0,16ng/mL e 0,11ng/mL e 0,20ng/mL e 0,11ng/mL, nos grupos 1 e 2. A cTnI não apresentou evidências de associação com idade, massa corpórea, creatinafosfoquinase total e potássio nos dois grupos. Não houve diferenças significativas nos valores de cTnI entre os grupos. Conclui-se que é possível a utilização do kit de ensaio imunométrico quimioluminescente humano para a espécie canina e que a hipóxia-isquemia, revelada pelo desnível do segmento ST não acarreta dano miocárdico ou este é mínimo e indetectável.

Palavras-chave: cão, troponina I, segmento ST, eletrocardiografia

ABSTRACT

In order to investigate myocardial cells injury, 38 dogs were evaluated, being 20 with a normal electrocardiogram (group 1) and 18 with ST segment elevation or depression (group 2), recorded in lead II, at paper speed of 50 mm/sec and N sensibility (1 mV = 1cm). Serum measurement of troponin I (cTnI) in group 1 was determined to obtain reference values (ng/mL). These values were compared to those obtained in dogs from group 2, to confirm or not myocardial injury. Mean cTnI values in groups 1 and 2 were 0.16ng/mL (SD±0.11ng/mL) and 0.20ng/mL (SD±0.11ng/mL), respectively. Three cTnI null values were found in group 1. cTnI was not related to age, mass, CK-T or serum potassium concentration in both animal groups, for each level varied in the group. There was no difference in cTnI values between groups 1 and 2. In conclusion, it is possible to use the human chemiluminescent immunometric assay kit in canine species and hypoxia/ischemia revealed by ST segment deviation does not mean significant myocardium injury.

Keywords: dog, troponin I, Dogs, ST segment, electrocardiography

INTRODUÇÃO

O infarto agudo do miocárdio (IAM) é uma afecção comum no homem, cujo sintoma típico é a "dor no peito", irradiada para braços e costas. Indivíduos com estes sintomas são monitorados pelo exame eletrocardiográfico, bem como por meio da dosagem dos marcadores de hipóxia-isquemia miocárdica (Bonow et al., 2009). Entende-se por hipóxia miocárdica a insuficiente oxigenação do músculo cardíaco (Robbins et al., 2001), apesar da perfusão adequada (Bonow et al., 2009), enquanto isquemia é a privação de oxigênio, acompanhada de inadequada remoção dos metabólitos.

Um marcador de injúria miocárdica muito utilizado são as troponinas. O complexo troponina regula a interação actina-miosina nos músculos estriados (esquelético e cardíaco) e tem, portanto, papel no acoplamento eletromecânico dessa musculatura, não sendo encontrado na musculatura lisa (Lobetti et al., 2002; Schobber et al., 2002a; Procajlo et al., 2005; Fonfara et al., 2010).

A liberação de troponina na circulação sanguínea ocorre pela dissociação do aparelho contrátil e relaciona-se à lesão irreversível na célula miocárdica, apresentando, na circulação, meia-vida de duas horas e excreção renal (Ramos e Magalhães, 2000). Sabe-se, segundo Feng et al. (1998), que não há aumento nos níveis séricos de troponina I (cTnI) em indivíduos que apresentem doença muscular crônica. A estrutura das troponinas cardíacas é semelhante no cão e no homem (Schobber et al., 2002b). Os genes que codificam cTnI foram sequenciados e clonados nas espécies canina e felina e observou-se semelhança de 95 e 96%, respectivamente, em relação aos mesmos genes no homem (Rishniw et al., 2004). Esse fato ratifica o uso de imunoensaios, utilizando anticorpo monoclonal humano, no diagnóstico de lesão cardíaca em cães e gatos (Rishniw et al., 2004; Adin et al., 2006; Burgener et al., 2006; Fonfara et al., 2010). Nos últimos anos, desenvolveram-se métodos de ensaios analíticos baseados no princípio da quimioluminescência, que ocorre na oxidação de certas moléculas (Weeks, 1997). A oxidação gera produtos em estado eletrônico excitado e estes, consequentemente, emitem luz (Weeks, 1997; Feitosa et al., 2002).

A aterosclerose é rara nos cães e, quando ocorre, está associada ao hipotireoidismo não controlado, porém hipóxia-isquemia, com consequente infarto, é comum em decorrência de embolismo coronariano - endocardite infecciosa, particularmente da valva aórtica -, septicemia e neoplasia pulmonar (Thomas, 1987). Cães que apresentam a síndrome dilatação-torção gástrica frequentemente desenvolvem arritmias ventriculares - extra-sístoles e taquicardia ventricular -, que podem ocasionar isquemia focal e necrose miocárdica, e o mesmo fato ocorre na pancreatite aguda (Fox, 1992; Herndon et al., 2002; Burgener et al., 2006).

Cardiopatias que evoluem para insuficiência cardíaca congestiva - cardiomiopatias dilatada, hipertrófica, restritiva e endocardiose mitral e/ou tricúspide - causam hipóxia-isquemia do músculo cardíaco e, consequentemente, induzem à liberação de cTnI na circulação (Schobber et al., 2002a; Herndon et al., 2002; Fonfara et al., 2010). Além da detecção do dano miocárdico, a cTnI pode ser utilizada para monitorar o dano miocárdico cronicamente, servindo como parâmetro prognóstico (Fonfara et al., 2010). O segmento ST pode apresentar duas alterações em sua morfologia: o infra e o supradesnível, indicando má oxigenação do miocárdio (Tilley, 1992).

Os distúrbios eletrolíticos, especialmente os relacionados ao cátion potássio (K), podem causar alterações na morfologia do segmento ST (Tilley, 1992). A hipopotassemia ocorre quando o nível sérico de potássio está abaixo de 3,0mEq/L, ocasionando aumento na relação K intracelular:K extracelular e tornando o miocárdio menos excitável. Tem como causas a insuficiência renal crônica, a administração excessiva de mineralocorticoides, a emese e quadros diarreicos severos e a administração, de altas doses e por período prolongado, dos diuréticos de alça (Tilley e Junior, 2008). Na hiperpotassemia, a concentração sérica de potássio ultrapassa os 6,5mEq/L e há, consequentemente, a diminuição na relação K intracelular/K extracelular e hiperexcitabilidade miocárdica, tendo como causas a insuficiência renal aguda, ruptura vesical, obstrução uretral, trauma muscular, intoxicação digitálica, altas dosagens de diuréticos poupadores de potássio, entre outras (Tilley e Junior, 2008).

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 38 cães, machos ou fêmeas, com ou sem definição racial, pesos corpóreos e idades variadas, distribuídos em dois grupos: o grupo 1 foi constituído por 20 cães hígidos e com exames eletrocardiográficos normais, e o grupo 2 por 18 cães que apresentavam desníveis (infra ou supra) do segmento ST.

Os cães utilizados foram provenientes do Serviço de Cardiologia de Hospital Veterinário Escola e seu uso foi aprovado pela Comissão de Bioética da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, protocolo nº 238/2002. Cães sabidamente portadores de neoplasias, gastroenterite, dermatopatias, miopatias e frequentadores das regiões litorâneas, em razão do risco de contraírem a Dirofilaria immitis, não foram incluídos no estudo. O exame físico consistiu na determinação das frequências cardíaca e respiratória, mensuração da temperatura retal, inspeção das mucosas oral, ocular e peniana-vaginal, palpação abdominal e dos linfonodos e auscultação cardiorrespiratória.

Os exames radiográficos foram realizados no aparelho de radiodiagnóstico CGR, modelo Chenonceaux, de 600mA e 130Kv, com mesa radiológica com grade e sistema Potter-Buck recipromático tipo Par Speed, ampola de raios-X de anodo giratório. Os filmes foram revelados e fixados na processadora automática RP-OMAT Processor Kodak. O exame radiográfico foi realizado em três projeções: laterolateral direita, laterolateral esquerda e ventrodorsal.

Os exames eletrocardiográficos foram realizados em eletrocardiógrafo Ecafix modelo ECG-6 ou Schiller modelo AT-1v, com os animais posicionados em decúbito lateral direito, sobre superfície isolante. Realizaram-se as derivações bipolares DI, DII, DIII e as unipolares aumentadas aVR, aVL e aVF, além das derivações pré-cordiais CV5RL, CV6LL, CV6LU e V10, segundo Tilley e Junior (2008).

Os exames ecocardiográficos foram realizados em aparelho de ultrassonografia Hitachi modelo EUB 515-A, com transdutor de 5MHz, microconvexo. A impressora utilizada foi a SONY modelo UP 890-CE. Foram mensurados e calculados os seguintes parâmetros no modo M, segundo as especificações e os valores de referência de Bonagura (1983), Boon (1998) e Moise e Fox (1999): dimensão da cavidade do ventrículo esquerdo no final da sístole (DSVEs); espessura da parede livre do ventrículo esquerdo na diástole (Epd);espessura do septo interventricular em diástole (ESd);fração de encurtamento (FE), calculada por meio da fórmula (DVEd-DVEs)x100/DVEd;raiz da aorta (Ao); diâmetro do átrio esquerdo (AE) e relação entre Ao e AE.

As amostras de sangue foram colhidas por meio da punção das veias radial ou safenas ou jugulares - direitas ou esquerdas -, utilizando agulhas e seringas descartáveis e tubos siliconizados, providos de rolha de borracha (Vacutainer®), com capacidade para 4mL. Utilizaram-se tubos contendo EDTA-K2 (3,6mg) com anticoagulante, para a realização do hemograma, e tubos sem anticoagulante, para os exames de bioquímica sérica e cTnI. Após a realização da colheita -10mL de cada animal -, o sangue foi centrifugado a 1500g, durante 10 minutos. O soro para dosagem de cTnI foi armazenado a -20ºC até, no máximo, 30 dias. A dosagem sérica de potássio foi efetuada em, no máximo, 24 horas, e o armazenamento foi idêntico ao das amostras para a dosagem de CK-MB (massa) e cTnI.

Hemograma, perfis renal e hepático e determinação sérica de potássio foram realizados em Laboratório Clínico Escola, enquanto a mensuração da cTnI foi realizada em Laboratório Clínico de Hospital Universitário Escola. A contagem global de hemácias e leucócitos e a determinação da hemoglobina foram realizadas utilizando-se o sistema automatizado Serono modelo System 9020 AX. O hematócrito foi determinado pela técnica do micro-hematócrito, em centrífuga Celm modelo MH, e a contagem diferencial dos leucócitos realizada ao microscópio óptico Carl Zeiss Jenamed, em esfregaços de sangue in natura, corados pelo Rosenfeld.

A avaliação dos perfis renal e hepático foi realizada no analisador bioquímico automático Technicon-Bayer, modelo RA-100. O perfil renal foi avaliado por meio das dosagens séricas de ureia - método colorimétrico da urease - e de creatinina, pelo método cinético. O perfil hepático foi avaliado por meio da determinação sérica da fosfatase alcalina - método cinético colorimétrico -, aspartato e alanino aminotransferases - método cinético em ultra-violeta -, proteína total e albumina.

A dosagem de potássio sérico foi realizada pela técnica do eletrodo íon seletivo, utilizando-se o analisador OMNI-4.

Os procedimentos do ensaio para cTnI (Diagnostic ..., 2002) foram: 1 - adição de 50µL do soro do paciente na unidade teste, onde há a pérola revestida com anticorpo monoclonal de rato antitroponina e incubação a 37ºC, durante 30 minutos, sob agitação intermitente; 2 - ligação da cTnI ao anticorpo da pérola; 3 - remoção do restante do soro, por centrifugação, para a porção coaxial da unidade teste; 4 - adição de 6,5mL de fosfatase alcalina de intestinos de vitelo, conjugada ao anticorpo policlonal de cabra antitroponina I tamponizada; 5 - adição do substrato quimioluminescente (éster fosfato adamantil dioxetano), incubação por 10 minutos e realização da leitura no luminômetro; 6 - para algumas características do ensaio: a) calibração de até 180ng/mL; b) sensibilidade analítica de 0,1ng/mL; c) específicidade para cTnI; d) bilirrubina no soro - causa de depressão nos valores mensurados; e) hemólise de até 570ng/mL e lipemia de até 5000ng/mL - que não alteram a precisão do ensaio.

RESULTADOS

Os animais do grupo 1 apresentaram hemograma, perfil renal, perfil hepático e exames radiográficos do tórax dentro dos padrões de normalidade (Meyer e Harvey, 1998; Tilley e Junior, 2008).

Os cães dos grupos 1 e 2 apresentaram disparidade em relação à faixa etária e peso corpóreo. Os do grupo 1 eram mais jovens - 19 cães com idade abaixo de seis anos. No grupo 2 prevaleceram cães mais velhos, com 15 animais com idade acima de sete anos (Tab. 1). Os cães do grupo 1 apresentaram massa corpórea maior e com distribuição mais homogênea, em relação aos do grupo 2 (Tab. 2). Quanto aos níveis séricos de cTnI, para os do grupo 1, a média e o desvio-padrão foram, respectivamente, de 0,16ng/mL e 0,11ng/mL, enquanto para o grupo 2 foram, respectivamente, de 0,20ng/mL e 0,11ng/mL. O teste exato de Fisher, a 5% de significância, não detectou associação entre os grupos e o nível sérico de cTnI.

DISCUSSÃO

A literatura médico-veterinária ainda é escassa em trabalhos que contemplem os marcadores cardíacos, porém nos últimos anos houve a publicação de alguns artigos que mensuraram as troponinas T e I em cães normais e em algumas situações específicas como miocardiopatias, arritmias, dispneia e síndrome dilatação-torção gástrica e após exercícios prolongados (Herndon et al., 2002; Schobber et al., 2002b; Burgener et al., 2006; Fonfara et al., 2010).

Adin et al. (2006) mensuraram a cTnI em três diferentes analisadores - Biosite Triage Meter, Dade-Behring Stratus e Beckman-Counter Access AccuTnI -, pela metodologia de imunoensaio, sendo que a cTnI foi purificada e diluída em oito concentrações - 0,01; 0,1; 0,78; 1,66; 3,13; 6,25; 12,5 e 25ng/mL - de amostras provenientes de cães cardiopatas e normais. Esses autores observaram correlação entre as mensurações realizadas nos três analisadores. Isto valida os resultados obtidos neste estudo.

O valor médio de cTnI foi de 0,16±0,11ng/mL e média no grupo 1 e de 0,20±0,11ng/mL, no grupo 2. Os valores de cTnI encontrados no grupo 1 assemelham-se aos referidos por Spratt et al. (2005), Adin et al. (2006), Burgener et al. (2006), Fonfara et al. (2010) em animais hígidos de raças, portes e idades variados. O critério de escolha dos cães de cada grupo baseou-se no exame eletrocardiográfico. Cães mais velhos são passíveis de apresentar deflexões do segmento ST e hipóxia-isquemia miocárdica, em razão da maior predisposição à injúria do endotélio das artérias coronárias e em decorrência das válvulo e miocardiopatias.

Nos animais do grupo 2 a distribuição do peso corpóreo foi mais homogênea do que nos do grupo 1, em razão da predominância de animais da raça Poodle, sete animais, e Cocker Spaniel, três animais no grupo 2, que juntos totalizaram 55% da amostra.

Na literatura consultada, não foram encontrados estudos, em cães, que associaram os níveis de cTnI com as deflexões do segmento ST. Sabe-se que um dos estímulos para a formação de vasos colaterais, a partir do tronco das coronárias, é a hipóxia-isquemia crônicas (Bonow, 2009). A partir dessa informação, poder-se-ia pensar que nos animais do grupo 2, com oxigenação miocárdica deficitária, houvesse estimulação para a formação de colaterais, suficientes para manter a integridade ou tornar mínimo o dano ao miócito, mas que não evitasse o distúrbio de repolarização. Burgener et al. (2006) detectaram em cães sacrificados devido à síndrome dilatação-torção-gástrica valores de cTnI de até 369ng/mL. Estes valores são típicos de lesões extensas e agudas do miocárdio, não passíveis de compensação pelo surgimento de vasos colaterais, diferente do que ocorreu com os cães do grupo 2. Sabe-se que as troponinas prestam-se mais ao diagnóstico de lesões agudas, como as obtidas nas lesões oclusivas (Ramos e Magalhães, 2000; Prosek et al., 2007) ou crônicas com maior comprometimento miocárdico - cTnI>1ng/mL - (Fonfara et al., 2010), aspectos que poderiam explicar, unidos à formação dos vasos colaterais, os resultados semelhantes obtidos nos grupos.

CONCLUSÕES

O kit de ensaio imunométrico por quimioluminescência humano, para a mensuração sérica de cTnI, pode ser utilizado na espécie canina, com a finalidade de monitorar possíveis danos ao miocárdio, em condições clínicas ou experimentais; os valores médios de cTnI obtidos em animais normais não podem ser considerados referenciais, em razão do tamanho da amostra do estudo, mas confirmam os resultados encontrados por outros autores; se não houver diferenças entre os animais, sugere-se que a cTnI não seja sensível na detecção de lesões miocárdicas ou que estas são mínimas.

Recebido em 4 de junho de 2010

Aceito em 30 de junho de 2011

E-mail: andrvet@usp.br

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Dez 2011
  • Data do Fascículo
    Dez 2011

Histórico

  • Aceito
    30 Jun 2011
  • Recebido
    04 Jun 2010
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