Open-access Colaboração no ambiente contruído: fatores críticos para formação de redes BIM

Collaboration in the built environment: critical factors for the formation of BIM networks

Resumo

Este estudo investiga os fatores críticos para a formação de redes colaborativas no contexto do Building Information Modeling (BIM) na construção civil. Para isso, foi realizada uma revisão sistemática de literatura, resultando em um portfólio final de 25 artigos científicos. A análise desse portfólio baseada em como os autores descreviam condições, práticas, mecanismos, barreiras ou elementos estruturantes associados à colaboração em rede BIM, permitiu identificar 63 fatores associados à formação de redes colaborativas, organizados nos três campos BIM: tecnologia, processos e políticas e em categorias analíticas. Posteriormente, o grau de relevância foi avaliado por especialistas da área por meio de uma escala Likert, estabelecendo uma classificação comparativa de relevância. Os resultados apontam que elementos como adaptação legal e contratual, qualidade e acessibilidade dos dados, interoperabilidade de sistemas e uso de ferramentas padronizadas figuram entre os mais críticos para a consolidação das redes. A pesquisa evidencia que, embora o tema ainda seja incipiente na literatura, sua relevância cresce diante da necessidade de maior integração entre os atores do setor. Como contribuição, o estudo oferece um arcabouço conceitual que pode orientar práticas de implementação e políticas de colaboração em projetos habilitados para BIM, reforçando a importância de estratégias formais e informais para o fortalecimento das redes colaborativas.

Palavras-chave
Building Information Modeling (BIM); Redes colaborativas; Construção civil; Fatores Críticos

Abstract

This study investigates the critical factors for the formation of collaborative networks in the context of Building Information Modeling (BIM) in the construction industry. For this purpose, a systematic literature review was conducted, resulting in a final portfolio of 25 scientific articles. The analysis of this portfolio, based on how the authors described conditions, practices, mechanisms, barriers, or structuring elements associated with BIM network collaboration, identified 63 factors associated with the formation of collaborative networks, organized into the three BIM Fields: technology, processes, and policies, and into analytical categories. Subsequently, the degree of relevance was evaluated by experts in the field using a Likert scale, establishing a comparative classification of relevance. The results indicate that elements such as legal and contractual adaptation, data quality and accessibility, system interoperability, and the use of standardized tools are among the most critical elements for network consolidation. The research shows that, although the topic is still in its early stages in the literature, its relevance is growing given the need for greater integration among the actors in the sector. As a contribution, the srudy offers a conceptual framework that can guide implementation practices and collaboration policies in BIM-enabled projects, reinforcing the importance of both formal and informal strategies for strengthening collaborative networks.

Keywords
Building Information Modeling (BIM); Collaborative networks; Construction industry; Critical factors

1 Introdução

A construção civil é um setor que depende da colaboração entre múltiplos envolvidos, sendo frequentemente dificultada pela fragmentação das partes envolvidas. Nesse contexto, o BIM tem sido apontado como um dos principais vetores de transformação digital no ambiente construído, contribuindo para aprimorar os processos colaborativos. Segundo Aibinu e Papadonikolaki (2020), o BIM é uma inovação tecnológica que se encontra atualmente na vanguarda da transformação digital no setor. Entre suas principais contribuições está a possibilidade de desenvolver modelos digitais integrados e compartilhados, permitindo maior coordenação entre os participantes do projeto (Bryde; Broquetas; Volm, 2013).

O BIM tem se consolidado no gerenciamento de informações ao longo do ciclo de vida de um projeto de construção. Sua capacidade de estruturar modelos digitais tridimensionais e centralizar informações do projeto permite que diferentes profissionais trabalhem de forma mais integrada, favorecendo a coordenação entre arquitetos, engenheiros, construtores e fornecedores. Hijazi et al. (2023) enfatizam a importância das conexões de dados no ambiente BIM, destacando que a integração de informações é fundamental para garantir continuidade digital na gestão de ativos de construção.

Apesar desses avanços, grande parte dos estudos sobre colaboração em projetos BIM tem se nos aspectos tecnológicos, deixando em segundo plano dimensões organizacionais, gerenciais e institucionais da colaboração. Oraee et al. (2017) destacam que a melhoria da colaboração em projetos exige a consideração integrada de múltiplos fatores, embora pesquisas que adotem essa perspectiva mais abrangente ainda sejam pouco frequentes.

Diante desse cenário, o conceito de redes colaborativas BIM emerge como uma abordagem capaz de ampliar a colaboração entre os envolvidos, promovendo não apenas o compartilhamento de informações, mas também mecanismos estruturados de cooperação, coordenação e tomada de decisão ao longo do ciclo de vida do projeto. Nesse contexto, tais redes podem contribuir para fortalecer a transparência, a confiança e a governança entre os participantes.

Dessa forma, este estudo tem como objetivo identificar os fatores críticos associados à formação de redes colaborativas no contexto do BIM, buscando contribuir para a compreensão dos elementos que influenciam a estruturação dessas redes no setor da construção civil.

2 Referencial teórico

2.1 Redes colaborativas na construção

Na indústria da construção, as redes colaborativas podem ser compreendidas como arranjos interorganizacionais dinâmicos, formados por organizações juridicamente autônomas que se articulam em torno de objetivos comuns, compartilhando informações, recursos e responsabilidades ao longo do ciclo de vida do projeto (Pan; Zhang, 2022; Jia et al., 2025). Diferentemente de relações meramente contratuais ou transacionais, essas redes se estruturam a partir de interdependências técnicas, organizacionais e informacionais, ocorrendo em contextos de colaboração entre múltiplos atores (Xue et al., 2022; Hosseini Bamakan; Banaeian Far, 2025).

Deve-se ressaltar a diferença entre cooperação e colaboração no contexto dessas redes. A cooperação refere-se a interações pontuais, nas quais os atores coordenam atividades específicas, mantendo elevado grau de autonomia decisória, sendo frequentemente observada em arranjos baseados em contratos tradicionais e relações predominantemente transacionais (Grilo et al., 2013; Badi; Diamantidou, 2017). Já a colaboração pressupõe compartilhamento estruturado de informações, alinhamento de objetivos, interdependência nas decisões e corresponsabilidade pelos resultados, configurando relações mais profundas e duradouras entre os participantes da rede.

Estudos empíricos em projetos de construção com uso do BIM demonstram que relações colaborativas tendem a emergir quando há integração entre mecanismos formais e informais de coordenação, elevada interdependência das tarefas e uso consistente de modelos e plataformas compartilhadas (Papadonikolaki; Vrijhoef; Wamelink, 2016; Papadonikolaki; Verbraeck; Wamelink, 2017; Cao et al., 2017; Aibinu; Papadonikolaki, 2020; Li et al., 2021). Evidências baseadas em análise de redes sociais e logs de eventos BIM demonstram que a estrutura das interações e a qualidade dos fluxos informacionais influenciam diretamente a dinâmica colaborativa entre os participantes da rede (Badi; Diamantidou, 2017; Zhang; Ashuri, 2018; Pan; Zhang; Skibniewski, 2020). Nesse contexto, o BIM assume papel central, ao oferecer uma base informacional comum e mecanismos que favorecem a integração, a coordenação e a interoperabilidade entre atores da rede (Ma; Ma, 2017; Lin; Yang, 2018; Sattler et al., 2019).

2.2 BIM como facilitador de colaboração

O BIM tem se mostrado um facilitador para enfrentar as limitações históricas de colaboração na indústria da construção. Em termos de redes, projetos habilitados por BIM tendem a apresentar estruturas de comunicação interorganizacional mais coesas, favorecendo a integração entre os atores e reduzindo ambiguidades associadas à fragmentação da rede (Badi; Diamantidou, 2017).

Nas parcerias que utilizam BIM, dimensões formais e informais coexistem e influenciam as relações interorganizacionais, sendo sua articulação necessária para a integração da rede (Papadonikolaki; Verbraeck; Wamelink, 2017. Evidências indicam que a consistência entre redes colaborativas formais e informais amplia a influência relacional dos atores centrais, afetando comportamentos e padrões de interação ao long do projeto e (Li et al., 2021).

A implementação do BIM altera os padrões tradicionais de compromisso e engajamento dos participantes do projeto, ao modificar cadeias de valor e fluxos de trabalho, ampliando o senso de participação e afiliação dos membros da rede durante a fase de construção (Li et al., 2021).

Nesse contexto, a gestão da informação assume a sustentação da colaboração em redes BIM. A série de normas ISO 19650 (ABNT, 2019, 2020a, 2020b, 2022a, 2022b) tem sido adotadas como um referencial para estruturar processos informacionais, definir responsabilidades e apoiar a comunicação entre múltiplos atores em ambientes BIM, contribuindo para reduzir ambiguidades e riscos de fragmentação da rede. Estudos recentes indicam que a aplicação da ISO 19650 (ABNT, 2019, 2020a, 2020b, 2022a, 2022b), especialmente quando integrada a princípios de interoperabilidade e OpenBIM, atua como um mecanismo institucional que favorece a coordenação interorganizacional, sem, contudo, substituir os arranjos relacionais e estratégicos necessários à colaboração efetiva (Kaya; Özener, 2024; Yousfi et al., 2024; Abanda, 2025).

Em redes de construção baseadas em BIM, a colaboração busca atender a objetivos como desempenho em tempo, custo e qualidade do projeto, bem como redução de erros e melhoria do monitoramento das atividades. Contudo, interesses divergentes entre os atores da rede podem gerar conflitos, dificultando a interoperabilidade da rede colaborativa, especialmente na ausência de estratégias de negócios e objetivos de colaboração claramente compartilhados (Grilo et al., 2013). Essas dinâmicas reforçam a necessidade de compreender redes BIM como sistemas adaptativos complexos, cuja evolução depende de mecanismos de coordenação dos atributos das parcerias (Cao et al., 2017).

As relações colaborativas em BIM evoluem ao longo do tempo, sendo influenciadas por fatores como experiência organizacional e maturidade no uso do BIM, que afetam diretamente a capacidade de compartilhamento de informações e colaboração efetiva entre os participantes da rede (Li et al., 2019; Zhao et al., 2017).

Como atributo à colaboração em redes BIM, destaca-se a interoperabilidade, ao permitir o acesso, a verificação e a manipulação precisam de dados entre diferentes participantes e especialidades. Limitações das plataformas existentes evidenciam a necessidade de soluções colaborativas baseadas em BIM com requisitos funcionais claramente definidos, capazes de suportar a coordenação interorganizacional (Sattler et al., 2019; Ma; Ma, 2017).

3 Método

3.1 Revisão sistemática da literatura

O primeiro método empregado no estudo consistiu na realização da revisão sistemática de literatura (RSL), conduzida com o objetivo de identificar e sistematizar os fatores críticos associados à formação de redes colaborativas no contexto do BIM. As RSLs seguem uma abordagem lógica de síntese que consiste na configuração dos dados pelos revisores em padrões para criar uma compreensão conceitual mais rica de um fenômeno. Os autores devem tomar decisões sobre quais estudos de pesquisa incluir em sua revisão e, para que ocorra de forma sistemática e transparente, devem ser desenvolvidas regras sobre quais estudos podem ser selecionados para a revisão (Zawacki-Richter et al., 2020).

A RSL foi orientada pela seguinte questão de pesquisa: “Quais fatores são apontados pela literatura como críticos para a formação e o funcionamento de redes colaborativas no contexto do BIM?”. Para garantir transparência, reprodutibilidade e rigor metodológico, a revisão seguiu um protocolo estruturado com o método de priorização bibliométrica Methodi Ordinatio (Pagani; Kovaleski; Resende, 2017). Sendo assim, a seleção e a ordenação dos estudos foram realizadas com base no Methodi Ordinatio (Pagani; Kovaleski; Resende, 2015, 2017), utilizado neste estudo como um mecanismo de qualificação e priorização do portfólio bibliográfico, e não como substituto do processo de revisão sistemática. Esse método considera simultaneamente o fator de impacto dos periódicos (Journal Citation Reports – JCR), o número de citações e o ano de publicação dos artigos, permitindo a identificação de estudos relevantes sob as perspectivas de impacto científico e atualidade.

As etapas desse método são, em suma:

  1. definição do tema de pesquisa definindo a combinação de palavras-chave e escolhendo as bases de dados a serem utilizadas;

  2. busca definitiva (considerando que cada base de dados possui seus próprios mecanismos de busca); e

  3. procedimentos de filtragem aplicados: título do artigo, fator de impacto (último ano JCR), número de citações e ano de publicação, culminando na classificação dos artigos utilizando a equação InOrdinatio (Pagani; Kovaleski; Resende, 2015).

Na etapa de busca da pesquisa, foram estabelecidas as palavras-chave para identificar estudos relacionados aos fatores de redes colaborativas BIM. A string final adotada foi "COLLABORATIVE* NETWORK*" AND "BUILDING INFORMATION MODELING", aplicada aos campos título, resumo e palavras-chave das bases de dados selecionadas. A definição dessa string foi precedida por testes de aderências com combinações alternativas, tais como “collaborative* cluster*”; “collaboration* network*” OU apenas “collaboration*” e “BIM”, que resultaram em elevado número de publicações não alinhadas ao escopo do estudo. Dessa forma, a string final foi considerada mais adequada para capturar trabalhos explicitamente relacionados à redes colaborativas BIM. Cabe destacar, dessa forma, que o escopo da revisão ficou restrito a estudos que abordam redes colaborativas associadas ao BIM. Dessa forma, pesquisas sobre colaboração na indústria da construção que não utilizam explicitamente esse termo ou que tratam de redes organizacionais de forma mais ampla podem não ter sido capturadas pela estratégia de busca adotada. Assim, as análises e conclusões deste estudo referem-se especificamente ao recorte de redes colaborativas no contexto do BIM.

A busca inicial nas bases de dados selecionadas, utilizando a string aplicada aos campos TITLE–ABS–KEY, resultou em 212 registros. Na etapa de triagem, foram removidos 16 artigos duplicados, bem como livros, capítulos e publicações não indexadas em periódicos com fator de impacto, permanecendo 196 registros para análise dos títulos.

A leitura dos títulos resultou na exclusão de 146 estudos que não apresentavam aderência ao escopo da pesquisa (o critério considerado foi haver relação explicita de rede colaborativa e BIM). Em seguida, a análise dos resumos levou à exclusão de 26 artigos adicionais, por não tratarem explicitamente de redes colaborativas no contexto do BIM. Ao final do processo de seleção, 25 artigos compuseram o portfólio final da revisão sistemática, os quais foram analisados integralmente, para a identificação dos fatores associados à formação de redes colaborativas BIM. O processo de seleção dos estudos é sintetizado no fluxo apresentado na Figura 1.

Figura 1
Fluxo da revisão sistemática da literatura para identificação dos fatores de formação de redes colaborativas BIM

Considerando o número reduzido de artigos resultantes após a aplicação dos critérios de elegibilidade, optou-se por não aplicar etapas adicionais de exclusão do índice InOrdinatio. Essa decisão metodológica teve como objetivo preservar o portfólio, devido ao número reduzido de artigos, por se tratar de um campo de investigação ainda em consolidação.

Com o objetivo de assegurar a atualidade dos achados e verificar a convergência dos resultados da revisão sistemática à literatura recente, foi realizada busca bibliométrica complementar abrangendo o período até dezembro de 2025, utilizando a mesma string de busca e os mesmos campos de consulta (TITLE–ABS–KEY) adotados na RSL principal. Essa etapa teve caráter confirmatório e não implicou na reextração, inclusão ou modificação dos fatores identificados, uma vez que estes já haviam sido validados empiricamente por especialistas. A busca complementar resultou na identificação de três estudos diretamente relacionados às redes colaborativas BIM, os quais foram incorporados ao portfólio atualizado exclusivamente para fins de atualização do referencial teórico e fortalecimento da análise e da discussão dos resultados (Xue et al., 2022; Jia et al., 2025; Hosseini Bamakan; Banaeian Far, 2025).

3.2 Método de compilação, análise e validação dos dados

A identificação dos fatores críticos para a formação de redes colaborativas em BIM foi realizada a partir da leitura integral dos artigos do portfólio final, utilizando-se a análise qualitativa de conteúdo. O embasamento para a identificação dos fatores nesse estudo entende que eles são elementos explicativos que influenciam ou condicionam a ocorrência de determinados resultados, podendo assumir a forma de variáveis observáveis ou constructos analíticos que contribuem para a compreensão, estruturação e explicação de um fenômeno específico (Creswell, 2014; Hair et al., 2014). Mais especificamente, um fator é um agente ou uma causa, é aquilo que faz algo acontecer ou contribui para um resultado específico.

A análise correspondeu a trechos textuais nos quais os autores descreviam condições, práticas, mecanismos, barreiras ou elementos estruturantes associados à colaboração em rede em ambientes BIM. Os fatores foram consolidados por similaridade semântica e conceitual, resultando em um conjunto final de 63 fatores, segregados em categorias e campos BIM. A segregação dos fatores em campos BIM e categorias analíticas constitui uma decisão metodológica fundamentada na literatura, combinando os conceitos amplamente consolidados que são os campos BIM e categorias analíticas identificadas em estudos prévios. Essa abordagem permitiu estruturar os achados de forma sistemática e favoreceu a interpretação deles sem alterar a natureza dos fatores identificados. Embora a codificação tenha sido conduzida por um único pesquisador, o conjunto de fatores identificados foi posteriormente submetido à validação por especialistas da área, contribuindo para mitigar vieses interpretativos inerentes à análise qualitativa.

Com base nos fatores das redes colaborativas BIM, obtidos na análise qualitativa sobre a amostra final da RSL, compilou-se o questionário para determinar a relevância dos fatores a ser aplicado a especialistas. Os fatores foram ponderados em uma escala Likert e os entrevistados classificaram suas respostas a partir dela frequentemente usada para produzir estimativas quantitativas de atributos subjetivos (South et al., 2022). A escala utilizada foi pontuada de 1 a 5, sendo: (1) Não tem relevância para a rede; (2) Baixa relevância para a rede; (3) Aplica-se parcialmente às operações da rede; (4) Aplica-se totalmente às operações da rede; e (5) Aplica-se integralmente e com avaliações periódicas para o funcionamento da rede.

Os especialistas foram selecionados, primeiramente, com base nos autores dos artigos do portfólio, por se tratar de pesquisadores com produção científica diretamente relacionada ao tema investigado. O questionário foi encaminhado aos autores cujos dados de contato estavam disponíveis nas publicações. Diante da baixa adesão (duas respostas), o questionário foi enviado a especialistas atuantes nos setores de arquitetura, engenharia e construção, com experiência comprovada em BIM. Eles foram contatados por meio de associações e entidades de referência que atuam na difusão e implementação do BIM, buscando assegurar a diversidade de perspectivas e aderência prática ao contexto de redes colaborativas orientadas pelo BIM. Para caracterizar os especialistas, o questionário coletou informações classificando-os com base em sua atividade e experiência com BIM.

Foi adotada uma pesquisa online de rodada única, aplicada aos especialistas, com período de distribuição e coleta de dados de dois meses, resultando em 15 respostas válidas. A definição do tamanho da amostra não seguiu critérios de representatividade estatística, mas foi orientada pela adesão dos respondentes e pela adequação do perfil dos especialistas ao objetivo do estudo, conforme práticas consolidadas em pesquisas exploratórias e avaliativas baseadas em julgamento especializado.

A coleta de dados junto aos especialistas foi realizada com identificação dos participantes, os quais foram previamente informados sobre os objetivos da pesquisa, os procedimentos adotados e o uso acadêmico dos dados. A participação ocorreu de forma voluntária, mediante concordância expressa dos respondentes. O estudo foi conduzido em conformidade com os princípios éticos aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, conforme estabelecido pela Resolução CNS nº 510/2016, e contou com aprovação institucional e em Comitê de Ética, nos termos do Ofício nº 17/2022, assegurando o respeito à integridade, à confidencialidade e ao uso responsável das informações coletadas.

Com base nos julgamentos de relevância dos especialistas obtidos por meio do questionário, foi realizada uma análise baseada em escala Likert, com o objetivo de sintetizar padrões de resposta e apoiar a interpretação dos fatores identificados. A literatura reconhece que a escolha dos métodos de análise para dados oriundos de julgamentos especializados deve considerar o contexto da pesquisa, a natureza da amostra e o referencial interpretativo adotado, especialmente em estudos exploratórios e avaliativos (Hussain, 2022). Nesse estudo, essa análise contemplou tanto as características do portfólio da revisão sistemática (abordagem dos estudos e anos de publicação) quanto o perfil dos especialistas entrevistados (atividade e anos de experiência em BIM).

Os itens avaliados por meio de escala Likert foram tratados como dados em escala de intervalo, abordagem amplamente utilizada em pesquisas aplicadas quando o objetivo é comparar e identificar diferenças entre grupos de respondentes (Boone; Boone, 2012). Nesse viés, foram empregados testes de análise de variância, a fim de verificar possíveis diferenças nas avaliações atribuídas pelos especialistas em função de sua atuação com BIM e nível de experiência em BIM. Para categorias compostas por múltiplos fatores, foi aplicada a análise multivariada da variância (MANOVA), enquanto, para categorias com fator único, utilizou-se a análise de variância univariada (ANOVA). As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do software Jamovi®. Ressalta-se que os testes estatísticos foram utilizados com finalidade exploratória e comparativa, não visando inferências populacionais.

Para a identificação dos fatores críticos, a análise da escala Likert em termos de frequências de resposta mostrou-se adequada. Essa análise foi conduzida por meio de histogramas, utilizando o software estatístico R®, que fornece recursos específicos para visualização e análise de dados do tipo Likert, por meio do pacote Likert, permitindo a geração de estatísticas descritivas e a interpretação dos padrões de resposta (Komperda, 2017). Os histogramas representam a distribuição das respostas atribuídas pelos especialistas em cada nível da escala, permitindo observar a concentração das avaliações e interpretar o grau de relevância atribuído a cada fator. Fatores com distribuições mais concentradas nas categorias superiores da escala indicam maior consenso dos especialistas, enquanto distribuições mais dispersas sugerem percepções menos convergentes entre eles.

A abordagem metodológica adotada integrou RSL e categorização analítica dos fatores com validação por especialistas, garantindo rigor, transparência e aderência aos objetivos da pesquisa.

4 Resultados

A partir da análise qualitativa da amostra resultante da RSL foram identificados os fatores associados à formação de redes colaborativas BIM, os quais compõem o portfólio analítico. Os resultados são organizados em duas etapas complementares:

  1. trata da descrição da amostra, voltada à caracterização geral dos dados captados para a obtenção dos fatores identificados; e

  2. uma análise qualitativa, destinada à organização, agrupamento e interpretação dos fatores.

4.1 Descrição da amostra

Os artigos que compõem o portfólio final concentram-se predominantemente em estudos de caso (68%, 17 artigos), seguidos por revisões de literatura (16%, 4 artigos) e estudos de casos voltados à elaboração de modelos (16%, 4 artigos). Essa distribuição evidencia que a maior parte dos fatores identificados deriva de investigações empíricas conduzidas em contextos reais de implementação do BIM. O Quadro 1 apresenta a relação dos artigos selecionados, com seus respectivos autores e títulos.

Quadro 1
Artigos do portfólio final da RSL

A análise do portfólio evidencia a relevância e escassez do tema ao longo do período estudado. Conforme ilustrado na Figura 2, considerando a última década como linha de corte linha de corte dos artigos selecionados, observa-se que o número de publicações se manteve relativamente estável nos anos mais recentes, indicando continuidade do interesse científico pelo tema.

Figura 2
Publicações anuais (número de artigos, n = 25)

Quanto aos especialistas respondentes, foram consideradas duas variáveis: atuação profissional relacionada ao BIM e tempo de experiência em BIM. A Figura 3 apresenta a distribuição percentual dos respondentes segundo essas variáveis, evidenciando que a maioria dos participantes (66,7%) possui mais de três anos de experiência em BIM. Dada a diversidade dos perfis profissionais, todas as respostas foram consideradas válidas para a hierarquização dos fatores.

Figura 3
Informações especialistas: (a) atuação BIM (b) anos de experiência BIM

Essa análise evidencia que o portfólio bibliográfico apresenta diversidade de abordagens e que o conjunto de especialistas possui experiência consolidada em BIM, configurando-se, assim, como uma base adequada para a análise qualitativa e identificação dos fatores críticos de formação de redes colaborativas BIM.

4.2 Análise qualitativa

A análise foi conduzida a partir da leitura integral dos artigos do portfólio, com foco na identificação explícita de fatores associados à formação de redes colaborativas BIM. Os fatores identificados foram organizados e sistematizados a partir de uma estrutura analítica baseada nos campos BIM (Succar, 2009) adotada como critério de organização dos achados. O campo de tecnologia reúne fatores associados à disponibilidade e ao uso de ferramentas BIM que sustentam os fluxos de informação e interação entre os atores da rede. O campo de processos contempla fatores vinculados à organização das atividades, fluxos de trabalho, gestão e coordenação, refletindo práticas de colaboração e compartilhamento de informações ao longo do projeto. O campo de políticas abrange fatores associados a contratos, acordos, diretrizes e mecanismos de governança, que condicionam e formalizam as relações colaborativas em contextos interorganizacionais. Adicionalmente, os fatores identificados foram sistematizados em categorias específicas de redes colaborativas na construção propostas por Grilo et al. (2013) (Quadro 2) com o objetivo de apoiar a análise comparativa e a interpretação dos resultados. Além das categorias inicialmente adotadas, a análise identificou categorias adicionais presentes em outros estudos do portfólio bibliográfico, as quais foram incorporadas ao escopo de categorização dos fatores. Essas categorias incluem: Ferramentas de verificação de modelos (Papadonikolaki; Vrijhoef; Wamelink, 2016), novas tecnologias (Mignone et al., 2016; Wang; Ali; Au-Yong, 2022), treinamentos (Deng et al., 2022; Mignone et al., 2016; Zhao et al., 2017; Papadonikolaki; Verbraeck; Wamelink, 2017, Pan; Zhang, 2022; Belay et al., 2021) e protocolos e padrões (Mignone et al., 2016.; Zhao et al., 2017; Tam et al., 2021; Wang; Ali; Au-Yong, 2022). A Figura 4 apresenta os fatores em função de todas as categorias encontradas.

Quadro 2
Categorias dos fatores baseadas na categorização proposta por Grilo et al. (2013)
Figura 4
Síntese dos fatores de formação de redes colaborativas BIM agrupados em função das categorias pertencentes a cada campo BIM (processos, tecnologias e políticas)

Os fatores identificados foram enquadrados em cada um dos três campos BIM nas 13 subcategorias, totalizando 63 fatores. A Figura 5 resume os fatores que influenciam a colaboração em rede agrupados nas categorias e campos do BIM. Ressalta-se que a quantidade de fatores por campo ou subcategoria não foi utilizada como critério de relevância, uma vez que a análise se baseou nos pesos atribuídos pelos especialistas.

Figura 5
Fatores de formação da rede colaborativa BIM

Para avaliação das respostas dos especialistas, foi aplicada a análise estatística apresentada na Tabela 1, indicando que os valores de “p” foram superiores a 0,05 em todas as categorias avaliadas, não sendo identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de respondentes. Assim, o conjunto completo de respostas foi utilizado no processo de hierarquização dos fatores.

Tabela 1
Análises de variâncias em relação às categorias

A partir das respostas dos especialistas, obtidas por meio da escala de relevância, procedeu-se a análise dos fatores, permitindo identificar aqueles considerados críticos para a atuação em redes colaborativas BIM, com base nas distribuições de frequência (Figuras 5, 6 e 7). Os gráficos apresentam a proporção de respostas atribuídas a cada nível da escala (de “não tem relevância para a rede” a “aplica-se integralmente e com avaliações periódicas para o funcionamento da rede”). Eles revelam a concentração das respostas em cada fator, indicando a tendência de percepção dos respondentes. Quando as barras estão mais concentradas nos níveis superiores da escala, isso sugere maior relevância atribuída ao item analisado. Quando se concentram nos níveis inferiores, indicam menor importância percebida. Distribuições mais equilibradas ou dispersas entre os níveis revelam menor consenso entre os participantes. A interpretação considerou a concentração das avaliações nos níveis superiores da escala como indicador da criticidade percebida pelos especialistas. Dessa forma, foi possível identificar os fatores com maior frequência de avaliações no nível máximo, bem como aqueles com frequências superiores a 90% nos níveis mais altos da escala, caracterizando a criticidade baseada na convergência das percepções dos especialistas nesses níveis.

Figura 6
Fatores de formação da rede colaborativa BIM – categorias
Figura 7
Fatores de formação da rede colaborativa BIM – Campos BIM

Fazendo-se essa análise, os cinco fatores com maior frequência de avaliação em nível máximo de relevância foram: “Adaptação dos aspectos legais/contratuais”, “Ferramentas ou processos padronizados”, “Acessibilidade”, “Qualidade dos dados” e “Ferramentas de troca de dados”. Outros dez fatores apresentaram frequência superior a 90%, com baixa neutralidade, conforme ilustrado na Figura 4.

A Figura 6 apresenta os fatores avaliados segundo suas respectivas categorias. Seguindo-se a mesma lógica analítica do gráfico anterior, evidencia-se que a categoria “Sistemas de informação”, com três fatores entre os cinco mais relevantes, seguida pela categoria “Semântica de negócios”, com dois fatores. A Figura 6 apresenta a priorização dos fatores de acordo com os campos BIM, observando-se que o campo de tecnologia concentra três dos cinco fatores mais relevantes, seguido pelo campo de políticas, com dois fatores. O campo de processos apresentou maior dispersão nas avaliações atribuídas pelos especialistas, indicando maior variabilidade na percepção de relevância entre seus fatores.

5 Discussão

O portfólio de pesquisa evidencia que a formação de redes colaborativas BIM ainda constitui um campo incipiente na literatura. O tema ainda é pouco abordado, no quesito do entendimento de uma rede de colaboração BIM, haja vista o número reduzido de publicações (25 artigos). Embora vários estudos abordem a questão da colaboração, poucos deles tem enfoque na formação de uma rede colaborativa, de maneira estruturada, entendendo todos os fatores necessários. Apesar da ampla presença de estudos que tratam da colaboração em projetos BIM, evidenciada pelo número elevado de artigos obtidos nos testes de aderência utilizando somente a palavra colaboração e BIM, observa-se que apenas um número restrito de publicações aborda explicitamente a colaboração em ambientes BIM a partir da perspectiva de redes interorganizacionais. Esse resultado indica uma lacuna na qual a colaboração é frequentemente analisada de maneira fragmentada, sendo associada à ferramentas, processos ou relações pontuais. Nesse cenário, a discussão dos resultados é estruturada a partir dos campos BIM e categorias como forma de analisar como diferentes fatores condicionam, de maneira integrada, a formação das redes colaborativas BIM.

5.1 Campos BIM

Os resultados indicam que o campo de tecnologia assume liderança na formação de redes colaborativas BIM, concentrando o maior número de fatores classificados como críticos. Esse achado reforça a evidência empírica de que a colaboração em ambientes BIM depende da existência de infraestruturas tecnológicas capazes de sustentar fluxos informacionais contínuos, interoperáveis e acessíveis entre múltiplos atores organizacionais. Estudos do portfólio da RSL convergem ao destacar que limitações em padrões de troca de informações, interoperabilidade entre plataformas e usabilidade das ferramentas comprometem a integração da rede, demandando avanços coordenados por parte dos fornecedores de soluções BIM (Grilo et al., 2013; Papadonikolaki; Vrijhoef; Wamelink, 2016; Mignone et al., 2016; Sattler et al., 2019; Tam et al., 2021; Belay et al., 2021; Deng et al., 2022).

Na sequência, o campo de políticas emerge como o segundo mais relevante, com destaque para os fatores relacionados à adaptação de aspectos legais e contratuais e à adoção de ferramentas ou processos padronizados. A predominância desses fatores evidencia que a consolidação das redes colaborativas BIM não depende apenas de soluções técnicas, mas da existência de mecanismos institucionais capazes de estruturar responsabilidades, direitos e formas de coordenação entre os atores. Papadonikolaki, Verbraeck e Wamelink (2017) confirmam que políticas e protocolos BIM funcionam como estruturas adaptativas que orientam decisões operacionais e táticas. Entretanto, sua efetividade é limitada quando não incorporam explicitamente padrões, fases do projeto, responsabilidades ao longo do ciclo de vida e elementos informais das parcerias. Nessa perspectiva, os resultados reforçam que a formalização normativa, quando dissociada da dinâmica relacional da rede, é insuficiente para sustentar a colaboração, exigindo alinhamento entre políticas, práticas e estrutura da rede.

Por fim, o campo de processos também se destaca na composição dos fatores críticos, especialmente no que se refere à organização das equipes, aos papéis de liderança e à coordenação das atividades colaborativas. Mignone et al. (2016) evidenciam que, em redes compostas por múltiplas disciplinas e organizações, a colaboração tende a ser fragilizada pela perda de identidade coletiva e pelo enfraquecimento do comprometimento com objetivos comuns, podendo ser mitigada por estilos de liderança orientados à tarefa. Resultados convergentes são observados por Badi e Diamantidou (2017), ao demonstrarem que processos BIM bem estruturados ampliam a comunicação interorganizacional e a qualidade da informação compartilhada, destacando o papel estratégico de funções como gerente BIM e coordenador BIM. Em conjunto, esses achados indicam que a efetividade das redes colaborativas BIM depende da articulação entre processos claros, papéis definidos e mecanismos de coordenação contínua.

5.2 Categorias analíticas

A categoria “Sistemas de informação” concentra o maior número de fatores críticos, evidenciando a relevância das ferramentas BIM na sustentação da colaboração em redes. Os resultados indicam que tais sistemas não apenas viabilizam o monitoramento do processo de projeto colaborativo, mas também apoiam a alocação de tarefas e a formulação de estratégias de colaboração com menor grau de incerteza e subjetividade. Essa evidência corrobora resultados que associam a qualidade dos sistemas de informação à previsibilidade e à estabilidade das interações colaborativas em ambientes BIM (Pan; Zhang; Skibniewski, 2020).

As categorias “Processos de negócios colaborativos”, “Semântica de negócios”, “Gestão de relacionamentos externos” e “Estruturas organizacionais” apresentam forte aderência aos mecanismos relacionais que estruturam a colaboração entre os atores da rede. Estudos baseados em análise de redes indicam que padrões colaborativos tendem a compartilhar semelhanças topológicas e comportamentais, ainda que sua configuração varie conforme o contexto e os objetivos da parceria (Pan; Zhang, 2022). Nesse sentido, Mignone et al. (2016) destacam que disparidades de contexto, dispersão organizacional e descontinuidades na configuração das equipes figuram entre as principais barreiras à colaboração efetiva. Resultados empíricos adicionais sugerem que a intensidade da colaboração em redes BIM está mais associada à história relacional, à visão compartilhada e à configuração da rede do que ao volume de atividades executadas com BIM, reforçando a centralidade dos aspectos relacionais na formação dessas redes (Papadonikolaki; Verbraeck; Wamelink, 2016).

A categoria “Treinamentos” emerge como elemento transversal à atuação em redes colaborativas BIM. Os resultados indicam que a capacitação dos atores deve abranger não apenas competências técnicas, mas também práticas de compartilhamento seguro de dados, colaboração interorganizacional e gestão do conhecimento. Evidências encontradas nos estudos do portfólio reforçam que programas de treinamento estruturados, aliados à sistematização de lições aprendidas, contribuem para a consolidação de estratégias colaborativas mais eficazes ao longo do tempo (Zhao et al., 2017; Belay et al., 2021).

Por fim, a categoria “Ferramentas de verificação de modelos” destaca-se pela sua dependência direta de processos colaborativos bem definidos e de habilidades de compartilhamento de dados. Os resultados indicam que tais ferramentas atuam como mecanismos operacionais da colaboração, sendo associadas a padrões recorrentes de interação em parcerias BIM. A atualização contínua dos modelos e a verificação sistemática das informações contribuem para a melhoria da qualidade dos dados e para a redução de problemas nas fases posteriores do ciclo de vida do projeto, reforçando seu papel como fator crítico para a efetividade das redes colaborativas BIM (Papadonikolaki; Verbraeck; Wamelink, 2016; Zhao et al., 2017).

5.3 Implicações dos fatores para formação de redes colaborativas BIM

Os resultados iniciais da revisão sistemática de literatura, que identificaram um número reduzido de estudos dedicados às redes colaborativas BIM, sugerem que o tema ainda apresenta limitada consolidação conceitual e empírica, especialmente no que se refere à sua estruturação.

Observa-se, no conjunto de estudos analisados, a ausência de investigações sobre redes que se mantenham para além de ciclos individuais de projeto. Esse resultado indica que a colaboração em BIM tem sido frequentemente abordada como um fenômeno associado a projetos específicos, e não necessariamente como uma estrutura de rede interorganizacional de longo prazo.

Embora práticas colaborativas baseadas em BIM sejam observadas em diferentes tipos de projeto, a análise do portfólio, em particular a escassez de estudos de caso sobre redes BIM, indica a existência de uma lacuna na literatura quanto à formalização e organização dessas redes. Os estudos analisados sugerem que as relações colaborativas descritas na literatura frequentemente se estruturam a partir de interações entre atores em contextos específicos de projeto, muitas vezes apoiadas em relações interpessoais e arranjos circunstanciais, com menor evidência de estruturas organizacionais formalizadas voltadas à manutenção de redes colaborativas de longo prazo.

Essa constatação torna-se especialmente relevante ao se considerar que a colaboração constitui um dos pilares do BIM, existindo inclusive um arcabouço normativo voltado à organização da produção colaborativa da informação, como a série ISO 19650 (ABNT, 2019, 2020a, 2020b, 2022a, 2022b). Em particular, as partes da norma relacionadas à gestão da informação ao longo do ciclo de vida dos ativos estabelecem diretrizes para papéis, responsabilidades, fluxos informacionais e coordenação entre os atores. No entanto, os resultados da RSL indicam que esse potencial normativo ainda aparece de forma limitada nos estudos analisados quando se trata da discussão sobre redes colaborativas BIM, no contexto da configuração de relações colaborativas mais duradouras.

Apesar dos resultados desta pesquisa não terem sido estruturados a partir de um referencial normativo específico, observa-se convergência entre os fatores críticos identificados e os princípios estabelecidos pela série ISO 19650 (ABNT, 2019, 2020a, 2020b, 2022a, 2022b), especialmente no que se refere à gestão da informação, à definição de responsabilidades e à coordenação interorganizacional em ambientes BIM. Essa convergência permite compreender a norma como um mecanismo institucional de apoio, capaz de estruturar práticas informacionais e organizacionais que favorecem a colaboração em redes BIM, sem, contudo, substituir as dinâmicas relacionais, processuais e tecnológicas que condicionam sua efetividade.

Por outro lado, os resultados também evidenciam oportunidades para o fortalecimento das redes colaborativas BIM. A identificação e a análise dos fatores críticos de formação permitem explicitar os recursos colaborativos da rede, oferecendo subsídios para que processos, tecnologias e políticas sejam avaliados de forma integrada. Essa abordagem possibilita que gestores e organizações adotem estratégias mais direcionadas, alinhadas às características específicas das redes em que atuam, contribuindo para decisões gerenciais mais informadas, para a sistematização de lições aprendidas e para o potencial aumento do desempenho e da produtividade em projetos futuros (Deng et al., 2022; Zhang; Ashuri, 2018).

6 Conclusões

Este estudo realizou uma revisão sistemática da literatura com o objetivo de identificar e organizar os fatores associados à formação de redes colaborativas BIM. A partir da análise do portfólio bibliográfico, foi possível sistematizar um conjunto de fatores estruturantes e, posteriormente, hierarquizá-los com base na avaliação de especialistas, permitindo identificar aqueles considerados críticos para a consolidação dessas redes.

Os resultados indicam que os fatores críticos se concentram predominantemente nos campos BIM de tecnologia e políticas, com destaque para as categorias de sistemas de informação e semântica de negócios. Entre os fatores mais relevantes sobressaem a adaptação de aspectos legais e contratuais, o uso de ferramentas ou processos padronizados, bem como a qualidade, acessibilidade e interoperabilidade dos dados, evidenciando que a efetividade das redes colaborativas BIM depende da articulação entre infraestrutura tecnológica e mecanismos institucionais capazes de estruturar a coordenação interorganizacional.

Do ponto de vista teórico, o estudo evidencia que a literatura ainda apresenta limitada consolidação no tratamento das redes colaborativas BIM como estruturas interorganizacionais duradouras. A maior parte dos estudos analisados aborda a colaboração em BIM predominantemente no contexto de projetos específicos. Na prática, essa característica se reflete na predominância de arranjos informais, baseados em relações interpessoais e contextuais, com baixo grau de formalização organizacional.

Como contribuição, a pesquisa oferece um arcabouço analítico que explicita os fatores críticos, seus campos e categorias, fornecendo subsídios para a compreensão e avaliação das condições que favorecem a formação de redes colaborativas BIM. Ao sistematizar esses elementos, o estudo contribui para apoiar estratégias que favoreçam a consolidação de práticas colaborativas.

Como limitações, destacam-se o número reduzido de estudos que abordam especificamente redes colaborativas BIM, bem como o número restrito de especialistas participantes da etapa de validação, o que pode limitar a generalização dos resultados. Além disso, a estratégia de busca adotada delimitou o escopo da revisão ao contexto específico de colaboração associada ao BIM, não contemplando estudos sobre colaboração na indústria da construção que não utilizam explicitamente essa terminologia.

Como pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos empíricos e longitudinais que investiguem a evolução, a governança e o desempenho de redes colaborativas BIM em diferentes contextos organizacionais e institucionais. Investigações futuras também podem ampliar o escopo de análise da colaboração na indústria da construção, incorporando diferentes abordagens conceituais e terminologias relacionadas a redes interorganizacionais. Adicionalmente, métodos complementares de análise bibliométrica ou técnicas baseadas em processamento de linguagem natural, podem contribuir para aprofundar a identificação de padrões temáticos e relações conceituais no campo das redes colaborativas associadas ao BIM.

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  • Declaração sobre IA Generativa e Tecnologias Assistidas por IA no Processo de Escrita
    Durante a preparação deste manuscrito, os autores utilizaram ferramentas de inteligência artificial generativa para apoio à revisão linguística, aprimoramento da clareza textual e organização estrutural do conteúdo. Essas ferramentas foram empregadas exclusivamente como assistência à redação e não foram utilizadas para gerar, analisar ou interpretar dados, nem para formular resultados, conclusões ou contribuições científicas do estudo. Os autores revisaram e editaram criticamente todo o conteúdo produzido e assumem total responsabilidade pelo conteúdo final publicado.

Declaração de Disponibilidade de Dados

O Apêndice contendo a rastreabilidade completa dos fatores de formação de redes colaborativas BIM identificados na revisão sistemática de literatura pode ser disponibilizado, mediante solicitação com justificativa à primeira autora deste artigo.

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Editado por

  • Editor:
    Ariovaldo Denis Granja

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2025
  • Revisado
    05 Dez 2025
  • Aceito
    27 Abr 2026
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