Open-access O paradigma Lean-Green: um framework para a integração de processos, sustentabilidade e certificação na construção

The Lean-Green paradigm: a framework for integrating processes, sustainability, and certification in construction

Resumo

A sinergia entre a filosofia Lean e as certificações ambientais, embora consolidada como postulado teórico, enfrenta lacuna de implementação operacional, evidenciada por estudos que identificaram fragmentação de processos, resistência organizacional e ausência de modelos integrados. Este estudo objetivou mapear e analisar a estrutura do conhecimento que conecta Lean e certificações ambientais. Para tanto, foi conduzida uma revisão sistemática da literatura, com seleção de 39 estudos pelo protocolo PRISMA (2020-2025), complementada por análise bibliométrica da estrutura intelectual do campo e análise de conteúdo, identificando benefícios, desafios, ferramentas e tendências da integração Lean-Green-Digital. Os resultados evidenciaram um arranjo em três pilares, Processos, Pessoas e Tecnologias, com interfaces transversais na cadeia de suprimentos e circularidade, do qual foram derivadas cinco proposições operacionais, associadas aos pilares e interfaces, constituindo a principal contribuição do estudo, articulando BIM, práticas Lean e certificações ambientais em mecanismos de validação de desempenho. A pesquisa avançou ao mover o debate da correlação para um framework conceitual, oferecendo um modelo para alinhar instrumentos de gestão, metas de sustentabilidade e mecanismos de comprovação de desempenho, alinhado aos ODS 11 e 12 da Agenda 2030.

Palavras-chave
Construção enxuta; Sustentabilidade; Construção sustentável; Certificação ambiental; Modelagem da informação da construção (BIM)

Abstract

The synergy between the Lean philosophy and environmental certifications, although consolidated as a theoretical postulate, faces an implementation gap at the operational level, as evidenced by studies that identified process fragmentation, organizational resistance, and the absence of integrated models. This study aimed to map and analyze the knowledge structure connecting Lean and environmental certifications. To that end, a systematic literature review was conducted, selecting 39 studies following the PRISMA protocol (2020-2025), complemented by bibliometric analysis of the field's intellectual structure and content analysis, identifying benefits, challenges, tools, and trends of Lean-Green-Digital integration. The results evidenced a three-pillar arrangement, Processes, People, and Technologies, with cross-cutting interfaces in supply chain and circularity, from which five operational propositions were derived, associated with the pillars and interfaces, constituting the study's main contribution by articulating BIM, Lean practices, and environmental certifications into performance validation mechanisms. The research advanced by shifting the debate from correlation to a conceptual framework, offering a model to align management instruments, sustainability goals, and performance verification mechanisms, in line with SDGs 11 and 12 of the 2030 Agenda.

Keywords
Lean construction; Sustainability; Sustainable construction; Environmental certification; Building Information Modeling (BIM)

1 Introdução

Embora o setor da construção civil seja fundamental para o crescimento econômico e social, suas operações são caracterizadas pelo consumo intensivo de recursos e pela expressiva geração de resíduos, resultando em impactos ambientais adversos (Tafazzoli, 2017; Wu et al., 2019).

Em resposta a um cenário historicamente marcado por baixa produtividade e altos índices de perdas, emergiu o movimento Lean Construction, derivado da aplicação da filosofia Lean Production ao setor e influenciado pelo Sistema Toyota de Produção, com o objetivo de mitigar as perdas no processo industrial do setor (Koskela, 1992). Subsequentemente, a Lean Construction ganhou uma base teórica que redefiniu o conceito de produção, superando a visão tradicional focada apenas na transformação para incluir a gestão de fluxos e a geração de valor (Transformation-Flow-Value generation), proposta por Koskela (2000). A consolidação dessa abordagem transcendeu a dimensão operacional, incorporando a gestão de pessoas, o desenvolvimento organizacional e a governança da cadeia de suprimentos como condições para a implementação prática (Womack; Jones, 1996; Liker, 2004; Sarhan et al., 2018).

Somado às demandas internas de eficiência operacional, o setor passou a enfrentar uma pressão crescente pela mitigação de seus impactos ambientais externos (Du Plessis, 2007). Foi nesse contexto que o conceito de edifício sustentável adquiriu proeminência, sendo definido como uma construção cujo projeto e operação buscam minimizar os impactos ambientais ao longo de todo o seu ciclo de vida (Akadiri et al., 2012).

A materialização e validação desses preceitos foram impulsionadas pelo desenvolvimento de sistemas de certificação ambiental, como o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), o BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method) e o AQUA-HQE (Alta Qualidade Ambiental, adaptação brasileira do método francês Haute Qualité Environnementale), os quais estabelecem diretrizes e métricas para a avaliação de desempenho dos projetos (BRE Group, 1990; Fundação Vanzolini, 2025; GBC Brasil, 2025). Tais certificações estimularam a adoção de práticas que visam otimizar o uso de recursos, promover a eficiência energética e assegurar ambientes internos saudáveis; como consequência, passaram a conferir reconhecimento de excelência às edificações que alcançam seus padrões (Lacerda, 2016; Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024).

A sinergia entre a filosofia Lean e a agenda de sustentabilidade foi então evidenciada na literatura, em que diversos estudos apontaram a aplicação de princípios Lean como um facilitador para o alcance das metas de certificação de forma mais eficaz e econômica (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Sadikoglu; Demirkesen; Zhang, 2022).

Nesse cenário, o Building Information Modeling (BIM), definido como um processo baseado em modelos inteligentes que integram informações coordenadas ao longo de todo o ciclo de vida do projeto, emergiu como catalisador tecnológico dessa integração (Wong; Zhou, 2015). Por meio de plataformas digitais colaborativas, o BIM fornece suporte ao planejamento, orçamento, execução e operação, além de permitir simulações de desempenho e otimizações no uso de recursos, potencializando a sinergia entre as abordagens Lean e Green (Akbari et al., 2024; Khan et al., 2025; Saieg et al., 2018).

Esse papel se insere em um ecossistema digital mais amplo, que abrange também plataformas de Common Data Environment (CDE), IoT (Internet of Things) para monitoramento de recursos e tecnologias de rastreabilidade de materiais, reforçando a integração entre as abordagens Lean e Green (Akbari et al., 2024; Malik et al., 2021).

Embora a sinergia entre as filosofias Lean e Green represente um postulado consolidado na literatura (King; Lenox, 2001; Saieg et al., 2018), o foco do debate científico tem se deslocado. Revisões sistemáticas recentes, como a de Garcés et al. (2025), indicaram uma dissonância entre o consenso teórico e a integração dessas abordagens na prática construtiva, evidenciada pela ausência de modelos que operacionalizem essa integração de forma articulada e verificável, considerando os obstáculos práticos de gestão isolada das abordagens, resistência organizacional e carência de cultura colaborativa (Rosenbaum; Toledo; Gonzalez, 2012; Sarhan; Fox, 2013; Tafazzoli; Mousavi; Kermanshachi, 2020; Garcés et al., 2025).

Nesse contexto, questiona-se: como estruturar e operacionalizar a integração da filosofia Lean, das práticas de sustentabilidade e das tecnologias digitais na construção de modo a validar esse desempenho por meio de certificações ambientais?

Diante da lacuna de integração operacional, identificada na literatura consultada, a presente pesquisa foi delineada com o objetivo de mapear e analisar a estrutura do conhecimento que conecta a filosofia Lean às certificações ambientais, a fim de identificar os desafios, os facilitadores e as tendências que configuram este campo de estudo. Como contribuição derivada da síntese dos resultados, foi proposto um framework conceitual de integração com proposições operacionais testáveis.

A relevância deste estudo também se alinha à Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, especialmente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, que preconiza cidades e comunidades sustentáveis, e ODS 12, que trata da produção e do consumo responsáveis (Nações Unidas, 2015). Assim, foi realizada uma análise bibliométrica, complementada por uma análise de conteúdo para identificar a estrutura intelectual do campo1.

2 Referencial teórico

2.1 Lean Construction

A Lean Construction, entendida como a aplicação da filosofia Lean Production (Womack; Jones; Roos, 1990) à construção, orienta-se à eliminação de perdas e à redução da variabilidade ao longo da cadeia de produção, e não se reduz a um conjunto de ferramentas operacionais isoladas (Koskela, 1992; Sarhan et al., 2018). Sarhan et al. (2018) identificaram que a abordagem centrada em ferramentas constitui a principal limitação à sua implementação, por omitir as dimensões conceituais, organizacionais e culturais da filosofia, cuja consolidação, conforme demonstrado por Valente et al. (2020), demanda transformação organizacional deliberada.

No âmbito operacional, a organização do ambiente e a disciplina foram promovidas pela metodologia 5S (Osada, 1991), enquanto a padronização de processos e a cultura de melhoria contínua (Kaizen) buscaram garantir a estabilidade e a evolução das operações (Koskela, 1992).

A otimização dos processos, por sua vez, foi abordada pelo Mapeamento de Fluxo de Valor ou Value Stream Mapping (VSM), técnica para visualização e eliminação de atividades que não agregam valor (Rother; Shook, 1999), frequentemente associada a sistemas de produção puxada como o Just-in-Time ou JIT (Ohno, 1988). A extensão desses princípios à cadeia de suprimentos orientou práticas de gestão interorganizacional voltadas à pré-qualificação de fornecedores e à contratação sustentável, evidenciando o alcance da Lean Construction para além dos limites do canteiro (Sarhan et al., 2018; Castro e Silva et al., 2022).

No âmbito do planejamento e controle, o Last Planner System® (Ballard, 2000) consolidou-se como ferramenta para conferir maior previsibilidade e estabilidade ao fluxo de trabalho. De forma complementar, o Target Value Design (TVD) alinha o processo de desenvolvimento à maximização de valor desde a concepção, traduzindo as restrições do cliente em diretrizes de projeto (Ballard, 2011). Tais elementos, somados à pré-fabricação, atuam diretamente na integração com metas de sustentabilidade e certificação, reduzindo perdas e emissões ao longo do processo produtivo (Koskela, 1992; Tetik et al., 2025).

2.2 Sustentabilidade e sua sinergia com a filosofia Lean

Paralelamente à busca por eficiência produtiva, consolidou-se o paradigma da sustentabilidade, fundamentado pelo Relatório Brundtland (WCED, 1987) e traduzido para a esfera corporativa pelo Triple Bottom Line (TBL), que preconiza o equilíbrio entre os pilares econômico, social e ambiental (Elkington, 1994).

A intersecção entre as correntes sustentabilidade e Lean Construction estabeleceu uma sinergia natural, validada pela premissa seminal de que Lean é Green (King; Lenox, 2001; Maia; Lima; Barros Neto, 2011). Esta lógica reside no fato de que a eliminação de perdas nos processos produtivos, meta central do Lean, resulta intrinsecamente em um desempenho ambiental superior, com o menor consumo de materiais e energia (Fuenzalida et al., 2016; Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022).

A operacionalização da sustentabilidade ambiental na construção mobilizou instrumentos de avaliação do desempenho ao longo do ciclo de vida da edificação, entre os quais se destacaram a Análise de Ciclo de Vida (ACV), o Custo do Ciclo de Vida (LCC), a gestão de resíduos e as estratégias de economia circular (Akadiri et al., 2012; Lucas; Löschke, 2025).

Alguns estudos avançaram na operacionalização dessa sinergia, demonstrando que práticas como o Last Planner System® (LPS) reduziram retrabalho e, consequentemente, o consumo de materiais e a geração de resíduos (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020), enquanto a pré-fabricação diminuiu perdas no canteiro e as emissões associadas ao transporte (Tetik et al., 2025).

Contudo, Garcés et al. (2025) identificaram que a sinergia, embora validada conceitualmente, enfrenta resistência organizacional e fragmentação contratual como principais barreiras à implementação prática, deslocando o debate da comprovação teórica para a superação de obstáculos operacionais.

2.3 Verificação, validação e integração tecnológica

A necessidade de traduzir os princípios de sustentabilidade em práticas mensuráveis e verificáveis impulsionou o desenvolvimento de sistemas de certificação ambiental, como o LEED, o AQUA-HQE e o BREEAM, que funcionam como frameworks para validar o desempenho ambiental, energético e de qualidade do ambiente interno das edificações ao longo do seu ciclo de vida (Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Fundação Vanzolini, 2025; GBC Brasil, 2025; BRE Group, 1990).

Dentre eles, o sistema LEED foi estruturado com base na obtenção de pontos a partir do cumprimento de pré-requisitos e créditos em diversas categorias, que determinam o nível de certificação (GBC Brasil, 2025). O selo AQUA-HQE, por sua vez, representou uma adaptação da metodologia francesa HQE às especificidades normativas e climáticas do Brasil, propondo uma gestão de desempenho em 7 modalidades (Fundação Vanzolini, 2025). O sistema brasileiro de certificação para a conservação de energia em edificações, coordenado pelo Inmetro, teve sua base regulatória modernizada com a substituição dos antigos Regulamentos Técnicos da Qualidade (RTQ-C e RTQ-R) pelas novas Instruções Normativas (INI-C e INI-R). Essa atualização aprimorou os métodos de avaliação para a concessão da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE), o que a distingue da abordagem mais ampla dos selos de certificação ambiental (Brasil, 2021).

A gestão integrada dos processos Lean e dos requisitos das certificações demanda uma plataforma tecnológica integradora (Akbari et al., 2024). Nesse contexto, o BIM emergiu como o principal catalisador para a integração Lean-Green, sendo um processo baseado em modelos inteligentes que fornece informações coordenadas ao longo do ciclo de vida do projeto (Wong; Zhou, 2015; Lakhiar et al., 2024).

A relação entre BIM e Lean é ampla e multidimensional, na qual Sacks et al. (2010) identificaram 56 instâncias de interação entre as duas abordagens, abrangendo desde a visualização de fluxos, a detecção de interferências e o controle de qualidade até a integração do planejamento de prazos, da estimativa de custos e da gestão de suprimentos ao modelo.

No âmbito da integração com metas de sustentabilidade e certificação, a literatura aponta como contribuições centrais do BIM a parametrização de modelos para simulações de desempenho energético, a integração de dados de ACV e a automação de evidências documentais para auditoria (Akbari et al., 2024; Khan et al., 2025; Doukari et al., 2024).

Para além do BIM, a maturidade do ecossistema digital na construção passou a envolver plataformas CDE para colaboração interorganizacional, IoT para coleta de dados em tempo real sobre o consumo de recursos, gêmeos digitais para simulação e monitoramento operacional com base nesses dados e tecnologias de rastreabilidade como o Blockchain, cujo conjunto amplia a capacidade de integração entre processos Lean e metas de desempenho ambiental ao longo do ciclo de vida (Deng; Menassa; Kamat, 2021; Keles; Rios; Hoque, 2025; Malik et al., 2021; Akbari et al., 2024).

3 Método

O presente estudo adotou a Revisão Sistemática da Literatura (RSL) como metodologia (Tranfield; Denyer; Smart, 2003), uma abordagem de pesquisa que utiliza um método explícito e rigoroso para identificar, selecionar e avaliar os estudos relevantes sobre um tema específico.

Para garantir a transparência, a abrangência e a replicabilidade do processo, a condução desta revisão foi orientada pelas diretrizes do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que é um dos protocolos de referência para o reporte de revisões sistemáticas (Page et al., 2021).

O delineamento metodológico foi estruturado em etapas sequenciais, abrangendo a estratégia de busca, os critérios de elegibilidade e seleção dos estudos, a extração de dados e, por fim, a síntese e análise dos resultados. A etapa de identificação dos estudos foi realizada em bases de dados bibliográficas selecionadas para garantir uma cobertura abrangente da literatura internacional e, ao mesmo tempo, incorporar a relevante produção científica nacional.

Para tal, foram selecionadas as plataformas Scopus®, ScienceDirect® e Web of Science®, além da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES (CTD) e os anais do International Group for Lean Construction (IGLC).

A inclusão dos anais do IGLC foi deliberada e fundamentada no reconhecimento de que esse fórum constitui um lócus de produção e difusão do conhecimento em Lean Construction, com histórico de publicação de contribuições seminais ao campo, como os trabalhos de Ballard e Howell (1994) e Ballard (1997).

A estratégia de busca foi desenhada a partir de quatro pilares conceituais: a abordagem de gestão (Lean Construction), o objetivo de desempenho (Sustentabilidade), o mecanismo de validação (Certificação) e o contexto de aplicação (Indústria da Construção). A combinação destes pilares através de operadores booleanos resultou na string de busca principal, aplicada em inglês e português nas bases de dados. A string de busca foi estruturada da seguinte forma: “Lean Construction” AND (“building performance” OR “energy efficiency” OR sustainability) AND (certification OR LEED OR BREEAM OR “AQUA-HQE”) AND “construction industry”. As buscas foram realizadas em julho e agosto de 2025, período que delimita o escopo temporal da recuperação.

No caso dos anais do IGLC e CTD, cujas plataformas de busca não suportam operadores booleanos complexos, a estratégia de recuperação foi adaptada para buscas por termos isolados, sendo aplicadas as palavras-chave que compuseram a string, com triagem posterior por título e resumo. Essa adaptação foi registrada como limitação do protocolo, tendo sido compensada pela leitura integral dos resumos dos trabalhos recuperados para assegurar a cobertura temática. A limitação de operadores booleanos restringiu-se ao IGLC e ao CTD, fontes complementares de literatura e de inovação aplicada. A recuperação nas bases indexadas principais (Scopus®, ScienceDirect® e Web of Science®) empregou a string completa.

No protocolo de elegibilidade, foram incluídos artigos de periódicos e de conferências revisados por pares, bem como teses e dissertações, nos idiomas português, inglês ou espanhol. A delimitação temporal compreendeu os últimos cinco anos (2020-2025), com o objetivo de focar nas publicações mais recentes e capturar o estado da arte atual do tema. Os critérios de exclusão aplicados na triagem foram:

  1. publicações fora do recorte temporal 2020-2025;

  2. estudos não relacionados à interseção entre Lean Construction, sustentabilidade e certificação ambiental, ou em pelo menos, entre duas delas;

  3. publicações nos idiomas distintos de inglês, português e espanhol; e

  4. trabalhos que não possuíam rigor científico-acadêmico, isto é, não revisados por pares.

A identificação e remoção de duplicatas foi realizada em duas etapas: a primeira com o auxílio do software StArt2, que aplicou detecção automática por correspondência de metadados; a segunda por revisão manual em planilha eletrônica, na qual não foram identificadas ocorrências adicionais. O fluxo completo de identificação, triagem e seleção dos estudos está condensado na Figura 1.

Figura 1
Diagrama PRISMA aplicado no estudo

A avaliação da qualidade dos estudos incluídos foi conduzida por meio de protocolo de pontuação estruturado, no qual cada estudo recebeu um escore de 0 a 5 pontos, atribuído automaticamente por script computacional com base no grau de correspondência entre o conteúdo do resumo e as palavras-chave da string de busca. Foram encaminhados para leitura integral de resumo os estudos que obtiveram escore superior a 2, procedimento compatível com abordagens de triagem assistida por texto em RSL (Tranfield; Denyer; Smart, 2003; Page et al., 2021). A leitura integral dos 39 estudos selecionados foi conduzida de forma independente por dois dos três autores, e as divergências de interpretação foram resolvidas por consenso, com a participação do terceiro autor.

As publicações registradas como não encontradas no diagrama PRISMA (Figura 1) correspondem a estudos identificados pelos metadados, mas cujo acesso integral não estava disponível em regime de acesso aberto nas plataformas consultadas, configurando restrição de acesso e não ausência de existência do trabalho (Page et al., 2021).

Após a definição do portfólio final3, procedeu-se à extração e análise dos dados, combinando abordagens quantitativa e qualitativa. Para a análise bibliométrica, utilizou-se o software VOSviewer4 para mapear a coocorrência de palavras-chave e visualizar a estrutura intelectual do campo. Para identificação do posicionamento estratégico dos temas do campo, procedeu-se à construção do mapa temático por meio do pacote bibliometrix, no ambiente R, que classificou os temas segundo centralidade relacional e densidade interna (Cobo et al., 2011; Aria; Cuccurullo, 2017).

Por fim, realizou-se uma análise de conteúdo temática para sintetizar os principais benefícios, desafios, ferramentas e tendências da integração entre Lean e as certificações ambientais. A análise de conteúdo foi conduzida por meio da leitura integral dos 39 estudos; identificação das categorias analíticas, derivadas dos objetivos da pesquisa; codificação e indexação de cada estudo segundo essas categorias; organização dos dados em matriz analítica; e interpretação das convergências, divergências e lacunas identificadas (Pope; Ziebland; Mays, 2000).

4 Resultados

A análise dos 39 trabalhos selecionados revelou um campo de pesquisa em franca expansão, cuja dinâmica encontra respaldo em fatores socioeconômicos globais. A evolução temporal das publicações (Figura 2) demonstrou um crescimento acentuado a partir de 2022, precedido por uma notável queda no volume de publicações em 2021. Esta retração pode ser interpretada à luz da disrupção global causada pela pandemia de COVID-19, que impactou os ciclos de pesquisa em diversas áreas (Else, 2020). O pico subsequente em 2022, contudo, sugere mais do que uma simples retomada de trabalhos represados. A crise sanitária global intensificou a percepção da importância de ambientes internos saudáveis, impulsionando a demanda e a pesquisa sobre edifícios que promovam o bem-estar e a segurança dos ocupantes, um pilar central de certificações como LEED e WELL, cujo termo WELL Health-Safety Rating foi introduzido no período pandêmico (Villa et al., 2021; Ferro, 2025).

Figura 2
Evolução temporal das publicações

A caracterização das fontes (Figura 3) revelou a predominância da base Scopus®, responsável pela maior parcela dos estudos recuperados, seguida pelo ScienceDirect®, ancorando a análise no conhecimento internacional. A inclusão dos anais do IGLC assegurou a captura de pesquisas de inovações aplicadas, refletindo o estado da arte do campo.

Figura 3
Caracterização das bases de dados

A distribuição por tipologia (Figura 4) indicou a predominância de artigos de periódico (25 estudos), complementada por artigos de conferência e por teses e dissertações. Essa composição resultou em uma triangulação de fontes que equilibrou o rigor dos periódicos, a atualidade dos congressos e a profundidade contextual e o detalhamento metodológico frequentemente ausentes em formatos mais concisos.

Figura 4
Distribuição da tipologia dos documentos

No conteúdo dos documentos recuperados, observaram-se procedimentos analíticos robustos aplicados a desempenho, colaboração e retrofit (Doukari et al., 2024; Ohueri et al., 2023; Benzar et al., 2020) e comparações entre sistemas de certificação (Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Lucas; Löschke, 2025).

As revisões e mapeamentos foram empregadas como sínteses de base e mecanismos de agenda, úteis para organizar conceitos, lacunas e direções (Akbarieh; Han; Klippel, 2025; Akbari et al., 2024; Lee; Han; De Vries, 2024). A produção nacional identificada (teses e dissertações) evidenciou integração pesquisa–prática em aplicações de BIM voltadas à certificação (Postay, 2023; Galvão, 2020).

Paralelamente, contribuições internacionais detalharam mecanismos digitais de suporte à certificação e circularidade, como automação de verificação de créditos (Maraqa; Spatari, 2022; Khan et al., 2025). Além disso, estudos com maior impacto de citação atuaram como referências de ancoragem e difusão (Teixeira et al., 2022; Malik et al., 2021).

Para visualizar as conexões e as comunidades de ideias que formam o campo de pesquisa, foi realizada uma análise de coocorrência de palavras-chave, cujo resultado é apresentado no mapa de rede da Figura 5.

Figura 5
Mapa de redes de coocorrência de palavras-chave

A análise cientométrica de coocorrência de palavras-chave revelou uma estrutura temática coesa, organizada em torno de cinco clusters distintos, sintetizados no Quadro 1.

Quadro 1
Síntese dos clusters temáticos identificados na análise de coocorrência de palavras-chave

O cluster vermelho, cujo epicentro foi sustainable development, funcionou como princípio unificador do campo, articulando os nós sustainable building, green buildings e energy efficiency como materializações desse objetivo macro (Merzouk; Zhao; Xu, 2025; Afful et al., 2024; Lakhiar et al., 2024; Akbari et al., 2024; Ohueri et al., 2023; Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Loo; Wong, 2023; Teixeira et al., 2022; Thaheem; Baber; Bakhtawar, 2022; Farida; Handayani; Wibowo, 2022; Lucas; Löschke, 2025; Khan et al., 2025; Doukari et al., 2024; Vickram; Lakshmi, 2023; Benzar et al., 2020).

O cluster verde representou o domínio das métricas de impacto ambiental, com destaque para life cycle, greenhouse gases e climate change, alinhado à crescente adoção da ACV/LCA na tomada de decisão (Loo; Wong, 2023; Usman; Abdullah, 2024; Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Czarnecki; Rudner, 2023; Maraqa; Spatari, 2022; Farida; Handayani; Wibowo, 2022).

O BIM atuou como ponte informacional entre esse cluster e o vermelho, conectando objetivos de sustentabilidade às métricas de avaliação e consolidando a abordagem Green BIM (Khan et al., 2025; Lakhiar et al., 2024; Ohueri et al., 2023).

O cluster azul concentrou lean construction, certification e LEED, revelando que a filosofia Lean foi investigada como meio para alcançar requisitos de certificações de forma mais eficiente, com expansão dos seus princípios para a cadeia de suprimentos via sustainable procurement (Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Castro e Silva et al., 2022; Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Thaheem; Baber; Bakhtawar, 2022).

As certificações forneceram a estrutura de verificação operacionalizada em análises de sistemas de rating (Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024; Lucas; Löschke, 2025; Usman; Abdullah, 2024), enquanto o Lean contribuiu para estabilizar processos e produzir evidências auditáveis (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020).

O cluster roxo, composto por termos em português, indicou a existência de uma comunidade de pesquisa regional com léxico próprio, potencialmente influenciada pela inclusão de teses e dissertações nacionais no portfólio, e sinalizou oportunidade de maior integração com o debate global.

O cluster amarelo conectou sustainability, energy e contractors, reunindo lean, green e benchmarking e posicionando o Lean como nó periférico conector, cujos efeitos ambientais se materializaram na redução de retrabalho, perdas e transportes (Doukari et al., 2024; Lee; Han; De Vries, 2024; Usman; Abdullah, 2024; Melo, 2024; Akbari et al., 2024; Vickram; Lakshmi, 2023; Loo; Wong, 2023; Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Teixeira et al., 2022; Castro e Silva et al., 2022; Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Benzar et al., 2020).

A análise de coocorrência foi complementada pelo mapa temático (Figura 6), elaborado a partir dos eixos de centralidade e densidade conforme Cobo et al. (2011), que permitiu avaliar a maturidade e o posicionamento estratégico dos temas no portfólio.

Figura 6
Mapa temático conforme estudos identificados no portfólio

O quadrante Motor Themes concentrou building information modelling e sustainable development, confirmando seu papel estruturante identificado na análise de rede e revelando, pela dimensão da densidade, que ambos constituíram domínios com literatura própria e recorrente no período (Akbari et al., 2024; Akbarieh; Han; Klippel, 2025; Afful et al., 2024; Doukari et al., 2024; Farida; Handayani; Wibowo, 2022; Galvão, 2020; Khan et al., 2025; Lakhiar et al., 2024; Lee; Han; De Vries, 2024; Loo; Wong, 2023; Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Merzouk; Zhao; Xu, 2025; Ohueri et al., 2023; Postay, 2023; Teixeira et al., 2022; Thaheem; Baber; Bakhtawar, 2022; Usman; Abdullah, 2024).

O quadrante Niche Themes, com climate change e sustainability, representou o achado de maior relevância analítica: sustainability foi internamente desenvolvida, porém sem articulações densas com os demais temas, oferecendo suporte adicional à lacuna identificada por Garcés et al. (2025), de que o tratamento da sustentabilidade permaneceu fragmentado em relação às práticas operacionais do setor (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Benzar et al., 2020; Czarnecki; Rudner, 2023; Jørgensen; Lædre; Lohne, 2025; Maraqa; Spatari, 2022; Melo, 2024; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Tetik et al., 2025; Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Vickram; Lakshmi, 2023).

No quadrante Emerging or Declining Themes, green buildings se posicionou como categoria em transição, progressivamente substituída por constructos mais específicos e operacionais, como eficiência energética, análise do ciclo de vida e economia circular (Akbarieh; Han; Klippel, 2025; Castro e Silva et al., 2022; Emere; Aigbavboa; Oguntona, 2025; Leicht et al., 2025; Lee; Han; De Vries, 2024; Loo; Wong, 2023; Lucas; Löschke, 2025; Malik et al., 2021; Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024; Oliveira, 2024; Pinheiro, 2023; Sari et al., 2022; Schamne, 2022; Silva, 2022).

A ausência de termos no quadrante Basic Themes e a ausência da Lean Construction no mapa temático, consistente com seu posicionamento periférico identificado na análise de coocorrência, reforçou que sua contribuição ao campo se materializou por meio de outros temas e não como objeto autônomo de investigação no período analisado (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Leicht et al., 2025; Melo, 2024; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Tetik et al., 2025; Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020). Esse posicionamento periférico não indicou perda de protagonismo, mas o papel da Lean Construction como camada operacional que articula objetivos de sustentabilidade, métricas de avaliação e infraestrutura digital, coerente com a função de gerenciamento de processo atribuída por Sacks et al. (2010), e não como objeto absorvido por essas agendas.

5 Discussão

5.1 Dimensões da integração Lean-Green-Digital

Conforme argumentado por Sacks et al. (2010), a articulação entre Lean e BIM é mais bem compreendida quando se distingue o gerenciamento do processo (Lean) do gerenciamento do produto e da informação (BIM). À luz da teoria de perdas de Koskela (2000), a literatura revisada indicou que a melhoria do fluxo de informação via modelos digitais tem potencial para mitigar retrabalho e esperas, perdas recorrentes em projetos de construção (Akbari et al., 2024; Sarhan; Fox, 2013).

Contudo, as perdas por falhas informacionais persistem mesmo em contextos com tecnologia digital avançada, o que indica que a adoção do BIM é condição necessária, mas não suficiente, para a superação dessas perdas (Sarhan; Fox, 2013).

Apesar desse potencial, os impeditivos mais relevantes mostraram-se não técnicos, mas sim culturais, organizacionais e de mercado, como resistência à mudança, fragmentação contratual e lacunas de competências (Sarhan; Fox, 2013; Ohueri et al., 2023; Afful et al., 2024).

Evidências do portfólio indicaram que o engajamento de stakeholders e a coordenação interorganizacional são condições para transformar metas de sustentabilidade em rotinas executáveis e auditáveis, especialmente ao envolver fornecedores e subcontratados (Melo, 2024; Castro e Silva et al., 2022; Merzouk; Zhao; Xu, 2025). Nesse enquadramento, a síntese das lacunas e agendas dos 39 estudos sustenta, de modo convergente, a utilidade de um framework em três pilares, Processos, Pessoas e Tecnologias, para estruturar a integração entre Lean, Sustentabilidade e Certificação.

No pilar Processos, os achados indicaram que práticas Lean, como a estabilização do fluxo, por meio do Last Planner System®, a redução de variabilidade e a pré-fabricação, funcionam como mecanismos operacionais para reduzir retrabalho, perdas e emissões no canteiro (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020; Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022).

Embora a aplicação de instrumentos como o LPS, o VSM e o JIT seja documentada de forma isolada na literatura consultada, com contribuições para a estabilização do fluxo de trabalho, para a identificação de atividades que não agregam valor e para a racionalização logística de materiais, respectivamente (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Melo, 2024), a adoção articulada dos três instrumentos em contextos de certificação ambiental permaneceu sub-representada no portfólio analisado.

Essa articulação foi também identificada por Naser (2025), que propôs um framework operacional acoplando o VSM e o Advanced Work Packaging ao LPS, com vistas ao aprimoramento do desempenho de projetos e indicando a necessidade de validação empírica da abordagem combinada. Tal lacuna orientou a articulação integrada do LPS, do VSM e do JIT proposta no framework conceitual e nas proposições operacionais deste estudo, formuladas como hipóteses a serem testadas, em que os três instrumentos foram vinculados a critérios específicos de certificação ambiental.

O potencial das práticas Lean de contribuir para a redução de perdas e emissões no canteiro foi evidenciado por estudos sobre garantia da qualidade em elementos pré-fabricados e sobre estratégias de execução com baixo carbono incorporado, os quais indicam a conexão entre o controle de qualidade, a redução de defeitos e a geração de registros auditáveis compatíveis com os requisitos de certificação ambiental (Jørgensen; Lædre; Lohne, 2025; Tetik et al., 2025).

A correspondência entre as práticas Lean identificadas no portfólio e as categorias dos sistemas de certificação mostrou-se recorrente nos estudos analisados. A redução de resíduos no canteiro, viabilizada pelo controle de fluxo e pela pré-fabricação, apresentou aderência direta aos pré-requisitos e créditos da categoria Materiais e Recursos do LEED, ao passo que a logística JIT e a estabilização do fluxo pelo LPS foram associadas à redução do consumo energético, com correspondência à categoria Energia e Atmosfera (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Sadikoglu; Demirkesen; Zhang, 2022; Pandithawatta; Zainudeen; Perera, 2020). A documentação gerada pelos rituais de planejamento Lean, como os registros de PPC (Percentual de Pacotes Concluído) e planos de canteiro, foi identificada como evidência auditável compatível com os requisitos de comprovação documental dos sistemas de rating (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Jørgensen; Lædre; Lohne, 2025).

No que se refere às metas de desempenho ambiental que orientam os três pilares, a pesquisa avançou de uma abordagem centrada na obtenção de certificações para a operacionalização por análise de ciclo de vida e circularidade, delineando como os requisitos dos sistemas de rating puderam ser parametrizados e verificados ao longo do ciclo de vida (Lucas; Löschke, 2025; Maraqa; Spatari, 2022).

No pilar Pessoas, a literatura convergiu em três eixos: o engajamento de stakeholders como condição para a difusão de práticas sustentáveis; a colaboração estruturada como fator de qualidade do projeto; e a capacitação contínua como mitigador de lacunas de implementação (Lee; Han; De Vries, 2024; Ohueri et al., 2023; Afful et al., 2024). Evidências de treinamento Lean em subcontratadas indicaram ganhos de confiabilidade no planejamento e na cultura de melhoria contínua (Leicht et al., 2025; Melo, 2024).

No pilar Tecnologias, o BIM consolidou-se como infraestrutura de integração entre os processos Lean e os requisitos de verificação das certificações ambientais, habilitando simulações de desempenho, análise do ciclo de vida, gestão colaborativa e automação de evidências para certificações (Akbari et al., 2024; Lakhiar et al., 2024; Doukari et al., 2024; Sacks et al., 2010).

Além da modelagem paramétrica, emergiram tecnologias complementares que compõem uma infraestrutura digital integrada para a construção sustentável: sensores IoT para monitoramento de recursos em tempo real (Akbari et al., 2024; Malik et al., 2021), design generativo para otimização de metas energéticas (Bhilare et al., 2023; Loo; Wong, 2023), passaportes digitais de materiais para suporte à circularidade (Maraqa; Spatari, 2022) e automação de verificação de créditos de certificação via plugins especializados (Khan et al., 2025).

Essas tecnologias, articuladas ao BIM, configuraram o terceiro pilar do paradigma Lean-Green-Digital, evidenciado pelo portfólio analisado como dimensão indissociável dos pilares Processos e Pessoas (Sacks et al., 2010; Akbari et al., 2024; Khan et al., 2025).

No que se refere à certificação ambiental, os resultados indicaram que os sistemas de rating não operaram apenas como mecanismo de reconhecimento, mas como estrutura de verificação que parametrizou os requisitos de desempenho ao longo dos três pilares identificados, conectando metas de sustentabilidade a evidências auditáveis (Maqbool; Thompson; Ashfaq, 2023; Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024; Lucas; Löschke, 2025).

5.2 Framework conceitual proposto

Tomados em conjunto, esses resultados sustentaram um arranjo sociotécnico no qual a Lean Construction operou como mecanismo de estabilização dos processos produtivos; o BIM proveu a infraestrutura informacional para mensuração e rastreabilidade; e as certificações ambientais estabeleceram os requisitos de comprovação de desempenho. Essa lógica fundamentou o framework apresentado no Quadro 2, no qual cada célula foi associada a mecanismos verificáveis, indicadores mensuráveis e evidências auditáveis, alinhando a melhoria contínua da Lean Construction às exigências formais dos sistemas de avaliação ambiental (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Lakhiar et al., 2024; Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024).

Quadro 2
Framework Conceitual de Integração para a Construção Sustentável

Embora a organização em três pilares guarde semelhança formal com o framework de Succar (2009), que estrutura a implementação do BIM em Tecnologia, Processo e Política, a presente proposta difere em escopo e objeto: os pilares Processos, Pessoas e Tecnologias foram construídos a partir da síntese dos achados do portfólio analisado, com foco na operacionalização da sinergia Lean-Green-Digital, e não na maturidade de adoção do BIM.

5.3 Implicações teóricas e práticas

Do ponto de vista teórico, o framework proposto avançou ao mover o debate da correlação conceitual entre Lean e Green para a operacionalização dessa sinergia em um arranjo sociotécnico passível de verificação empírica futura. Do ponto de vista prático, o framework oferece aos gestores de obra um modelo para alinhar rotinas de planejamento e controle da produção às exigências documentais dos sistemas de certificação ambiental, reduzindo a fragmentação entre as duas agendas (Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022; Lakhiar et al., 2024).

A fim de avançar da proposição conceitual à operacionalização prática, lacuna central identificada neste campo (Garcés et al., 2025; Sarhan; Fox, 2013), cada célula do Quadro 2 fundamentou uma proposição operacional que especificou mecanismos de ação, ferramentas Lean envolvidas e critérios de certificação correspondentes.

Dessa forma, foram propostas operações que atuaram em dois níveis complementares da abordagem Lean: o nível dos princípios, representado pela eliminação de perdas, pela gestão do fluxo contínuo e pela geração de valor (Koskela, 1992, 2000); e o nível dos instrumentos operacionais, representado pelo LPS, pelo VSM e pelo JIT, por meio dos quais os princípios foram aplicados nos processos construtivos (Ballard, 2000; Rother; Shook, 1999; Ohno, 1988).

Das interações entre os três pilares e suas interfaces transversais com a cadeia de suprimentos e a circularidade, dimensões recorrentes na literatura analisada e incorporadas transversalmente nas células do Quadro 2, derivaram-se cinco proposições operacionais, cada uma associando práticas dos pilares a resultados mensuráveis em certificação:

  1. processos: a adoção combinada do LPS, do VSM e da logística JIT foi associada, na literatura consultada, à redução de retrabalho, tempos de espera e transportes, com potencial de contribuição para o alcance de créditos de materiais e resíduos e de energia em processos de certificação ambiental (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Aristizábal-Monsalve; Vásquez-Hernández; Botero, 2022).De forma complementar, a adoção do TVD como restrição de valor desde a fase de projeto foi associada à parametrização de indicadores de ACV e LCC, com potencial de contribuição para a obtenção de créditos de desempenho do ciclo de vida nos sistemas de rating (Lucas; Löschke, 2025; Maraqa; Spatari, 2022);

  2. tecnologias: a integração BIM/ACV e a automação de verificação foram identificadas como recursos com potencial de ampliar a qualidade das evidências documentais em auditorias de certificação ambiental (Akbari et al., 2024; Khan et al., 2025). A utilização de design generativo parametrizado para o TVD (GTVD) foi associada à otimização de metas energéticas desde o projeto, com reflexos no cálculo de créditos de Energia e Atmosfera (Loo; Wong, 2023; Galvão, 2020). O uso de Passaporte de Materiais e Gêmeos Digitais foi relacionado à rastreabilidade de materiais via blockchain e ao planejamento para desconstrução, com aplicação na parametrização de EPDs no modelo e na verificação de créditos de circularidade (Maraqa; Spatari, 2022; Sari et al., 2022);

  3. pessoas: o planejamento colaborativo estruturado pelo IPD (Integrated Project Delivery) e pelo TVD, associado à capacitação contínua das equipes, foi relacionado à internalização de rotinas Lean e à aderência a requisitos de qualidade do ambiente interno e de inovação em projeto (Ohueri et al., 2023; Lee; Han; De Vries, 2024; Afful et al., 2024). O treinamento Lean em subcontratadas foi associado ao desenvolvimento de competências verdes (green skills) e ao atendimento de requisitos de certificação de profissionais e de relatórios de capacitação de equipes (Leicht et al., 2025; Melo, 2024);

  4. interfaces com a cadeia de suprimentos: práticas de contratação sustentável (sustainable procurement), articuladas a benchmarking e a critérios Lean, foram associadas ao aumento do desempenho de fornecedores em créditos de materiais e CO₂ incorporado (Castro e Silva et al., 2022; Teixeira et al., 2022); e

  5. interfaces com a circularidade: o uso de passaportes de materiais e estratégias de desconstrução, integrados ao planejamento Lean, foi associado ao incremento de indicadores de circularidade e à recuperação de resíduos de construção e demolição (Maraqa; Spatari, 2022; Lucas; Löschke, 2025).

Esse encadeamento teórico-operacional sustentou a ligação entre a revisão e a aplicação prática do framework. Persistiram, todavia, lacunas de pesquisa aplicada:

  1. escassez de séries longitudinais que avaliem efeitos causais entre a implementação Lean e a pontuação em créditos;

  2. necessidade de benchmarks multi-selo por tipologia que indiquem quais práticas Lean geram maior retorno em cada sistema de certificação (Nguyen; Pishdad; Fanijo, 2024); e

  3. investigação do efeito de fatores de governança e de rituais de gestão sobre a curva de aprendizado organizacional (Vasconcelos; Cândido; Heineck, 2020; Lee; Han; De Vries, 2024).

Esses pontos delinearam uma agenda empírica para testar, refinar e generalizar o framework proposto.

6 conclusões

Este estudo foi motivado por uma lacuna de pesquisa: a ausência de modelos que operacionalizem a integração entre a Lean Construction e os sistemas de certificação ambiental. Embora consolidada como postulado teórico, essa sinergia não se materializou na prática, em razão da gestão isolada das duas abordagens, da resistência organizacional à mudança e da ausência de modelos que articulassem práticas de gestão, metas de sustentabilidade e mecanismos de verificação em um arranjo integrado. Diante dessa lacuna, o estudo teve por objetivo mapear a estrutura do conhecimento que conecta Lean e certificações ambientais, identificando desafios, facilitadores e tendências que configuraram esse campo, com vistas à proposição de um framework conceitual que orientasse a prática e a pesquisa futura.

Como principal produto da pesquisa, o estudo derivou um framework conceitual organizado nos pilares interdependentes de Processos, Pessoas e Tecnologias, que articulou práticas Lean, metas de sustentabilidade e mecanismos de certificação, do qual foram enunciadas cinco proposições operacionais testáveis, que conectaram tecnologias, arranjos colaborativos, gestão da cadeia de suprimentos e estratégias de circularidade a resultados mensuráveis em créditos de certificação.

A análise que fundamentou o modelo indicou que a integração depende de três condições operacionais: a internalização de metas ambientais como restrições do processo Lean, especialmente por meio do LPS e do TVD; a maturidade da infraestrutura informacional, com o BIM parametrizado e integrado a dados de LCA, como infraestrutura que reduz o custo da conformidade e automatiza a geração de evidências; e a governança da cadeia de suprimentos, por meio de contratações sustentáveis, como fator organizacional relevante para a sustentação da implementação.

Do ponto de vista das contribuições para o conhecimento existente, a pesquisa avançou o debate da correlação conceitual para a operacionalização verificável, ao propor um modelo estruturado para o alinhamento de instrumentos de gestão, metas de sustentabilidade e mecanismos de comprovação de desempenho na construção civil, em consonância com os ODS 11 e 12 da Agenda 2030 (Nações Unidas, 2015).

Entre as limitações do presente estudo, destaca-se o recorte temporal restrito ao período 2020-2025, que, embora adequado à captura do estado da arte recente, aplicou-se ao portfólio sistemático e não ao referencial teórico, no qual os marcos conceituais anteriores ao período foram contemplados (Ohno, 1988; Koskela, 1992, 2000; Ballard, 2000); a análise longitudinal da evolução do campo ao longo das décadas não integrou os objetivos do estudo. A concentração de estudos em contextos europeus e asiáticos limitou a representatividade de experiências latino-americanas, ainda que o portfólio tenha incorporado pesquisas brasileiras; a viabilidade do pilar Tecnologias mostrou-se condicionada à maturidade digital local, ao passo que o pilar Processos, apoiado em LPS e VSM, apresenta menor dependência tecnológica e pode ser adotado de forma autônoma em mercados menos digitalizados.

O framework proposto tem natureza conceitual e careceu de validação empírica em projetos reais. O foco em mecanismos verificáveis não pressupôs suficiência: os fatores organizacionais e de governança, reconhecidos como condicionantes da implementação (Sarhan et al., 2018), foram assumidos como condições de contorno do modelo.

Por fim, o estudo delineou uma agenda para pesquisas futuras, apontando a necessidade de estudos empíricos com séries longitudinais para validar a evidência causal entre a implementação Lean e a pontuação obtida. Como desenho inicial dessa validação, sugere-se a aplicação do framework em estudo de caso em empreendimento em processo de certificação, com mensuração de indicadores consolidados, como o Percentual de Pacotes Concluído vinculado ao LPS, a taxa de perdas vinculada ao VSM e os pontos obtidos nos créditos da certificação, o que permitiria avaliar a viabilidade técnica e financeira da abordagem combinada. A agenda contempla ainda a criação de benchmarks multi-selo por tipologia de edificação e a investigação do impacto de fatores de governança e rituais de gestão sobre a curva de aprendizado organizacional.

Agradecimento

Os autores agradecem à CAPES por seu apoio à pesquisa e à Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec/SE) pela bolsa de estudo concedida (Processo: 019203.08197/2024-8).

  • Suporte Financeiro
    Bolsa de estudo concedida pela Fapitec/SE, Processo: 019203.08197/2024-8.
  • Declaração sobre IA Generativa e Tecnologias Assistidas por IA no Processo de Escrita
    Durante a preparação deste artigo, a primeira autora utilizou a Claude Sonnet 4.6 para revisão de parte do texto. Após a utilização da ferramenta, os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem total responsabilidade pelo conteúdo do artigo publicado.
  • SOUZA, L. de J.; RIBEIRO, P. V. S.; SANTOS, D. de G. O paradigma Lean-Green: um framework para a integração de processos, sustentabilidade e certificação na construção. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 26, e152275, jan./dez. 2026. ISSN 1678-8621 Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. http://dx.doi.org/10.1590/s1678-86212026000101025
  • 1
    A estrutura intelectual do campo é entendida como o conjunto de conceitos, autores, obras e relações temáticas que organizam e delimitam um domínio científico (Zupic; Čater, 2015).
  • 2
    O software StArt (State of the Art through Systematic Review) é uma plataforma de acesso livre desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software (LaPES) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), projetada especificamente para subsidiar e gerenciar as etapas do processo de Revisão Sistemática da Literatura.
  • 3
    O portfólio produzido encontra-se disponível para consulta neste link: https://1drv.ms/b/c/ef80391e715d5a84/IQBeRybSiXctQa_1VW4fNJTdAddrQxvbqR2iZe9NUiBrOpo?e=NSlTHN.
  • 4
    VOSviewer (Visualizing scientific landscapes) é um software especializado na criação e visualização de mapas bibliométricos. O software foi desenvolvido no Centre for Science and Technology Studies (CWTS) da Universidade de Leiden, nos Países Baixos.

Declaração de Disponibilidade de Dados

A tabulação completa dos documentos e respectivas contribuições deste estudo estão disponíveis, mediante solicitação com justificativa à primeira autora deste artigo

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Editado por

  • Editor-chefe:
    Ariovaldo Denis Granja

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 2026

Histórico

  • Recebido
    09 Dez 2025
  • Revisado
    18 Fev 2026
  • Aceito
    05 Ago 2026
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