Xilazina como pré-medicação para anestesia com tiopental sódico em cães

Xylazine as a pre-medicant for thiopental sodium anaesthesia in the dog

Orlando Ribeiro Prado Filho Vânia Antunes Steffens Adriana Beletato dos Santos Layla Patrícia Azoia Lukiantchuki Renata Pavão Moreira Sobre os autores

Resumos

A xilazina produz um bom efeito sedativo-analgésico quando associado à drogas anestésicas. O tiopental sódico é um barbitúrico de curta duração que produz sonolência, sedação e hipnose. O objetivo deste trabalho é verificar a eficiência da associação da xilazina como pré-medicação e do tiopental sódico na manutenção da anestesia, em cães. Foram usados 32 cães sem raça definida, adultos, machos e com peso entre 8 e 10 kg, que foram submetidos à procedimento operatório no esôfago cervical. A dose média de xilazina administrada foi de 3,8 mg/kg e de tiopental sódico foi de 7,7 mg/kg. Não houve necessidade de intubação endotraqueal e não ocorreu óbito relacionado com as medicações anestésicas. Concluindo, o procedimento anestésico descrito é de fácil execução, é seguro e diminui o estresse do animal.

Anestesia; Cães; Tiopental; Xilazina


The xylazine produce reliable sedative-analgesic effect when coadministered with anesthetics drugs. Thiopental sodium is a shorter duration barbituric, produced somnolence, sedation and hypnosis. The aim of this work is to verify the efficiency in association of xylazine and thiopental sodium to anesthesia in dogs. Thirty-two male mongrel dogs with an average weight between 8 and 10 kg were submitted to surgical procedure with approach of cervical aesophagus. The average dose was 3,8 mg/kg to xilazine and 7,7 mg/kg to thiopental sodium. Was not necessary endotracheal intubation and no deaths due anesthesic procedure were observed. The anesthesic procedure described is easy, safe and decreases the stress of the animal.

Anesthesia; Dogs; Xylazine; Thiopental


XILAZINA COMO PRÉ-MEDICAÇÃO PARA ANESTESIA COM TIOPENTAL SÓDICO EM CÃES1 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Orlando Ribeiro Prado Filho2 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Vânia Antunes Steffens3 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Adriana Beletato dos Santos4 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Layla Patrícia Azoia Lukiantchuki4 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Renata Pavão Moreira4 1. Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR. 2. Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM). 3. Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM). 4. Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Prado Filho OR, Steffens VA, Santos AB, Lukiantchuki LPA, Moreira RP. Xilazina como pré-medicação para anestesia com tiopental sódico em cães. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Apr-Jun;15(2). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: A xilazina produz um bom efeito sedativo-analgésico quando associado à drogas anestésicas. O tiopental sódico é um barbitúrico de curta duração que produz sonolência, sedação e hipnose. O objetivo deste trabalho é verificar a eficiência da associação da xilazina como pré-medicação e do tiopental sódico na manutenção da anestesia, em cães. Foram usados 32 cães sem raça definida, adultos, machos e com peso entre 8 e 10 kg, que foram submetidos à procedimento operatório no esôfago cervical. A dose média de xilazina administrada foi de 3,8 mg/kg e de tiopental sódico foi de 7,7 mg/kg. Não houve necessidade de intubação endotraqueal e não ocorreu óbito relacionado com as medicações anestésicas. Concluindo, o procedimento anestésico descrito é de fácil execução, é seguro e diminui o estresse do animal.

DESCRITORES: Anestesia. Cães. Tiopental. Xilazina.

INTRODUÇÃO

O cão é um animal utilizado freqüentemente em experimentos, tanto em medicina humana quanto veterinária, sendo de grande importância para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da técnica operatória1.

O artigo 6º dos princípios éticos do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal postula que todos os procedimentos com animais que podem causar dor ou angústia, precisam se desenvolver com sedação, analgesia ou anestesia adequados2.

A anestesia é a depressão reversível do sistema nervoso central e tem 3 componentes: analgesia, hipnose e relaxamento muscular4. Várias drogas para uso em anestesia animal têm sido descritas, entre estas temos a xilazina7,13 e o tiopental sódico4,9,10,11 usadas, respectivamente, como pré-anestésico e indutor/mantenedor do plano anestésico.

Apesar das operações em cães serem realizadas de forma rotineira há décadas ainda não é descrito na literatura científica um procedimento anestésico ideal. Não foi encontrado trabalho experimental no qual fossem usadas estas drogas associadas para anestesiar animais de médio porte.

O objetivo deste trabalho é verificar a técnica anestésica que utiliza a xilazina e o tiopental em procedimento operatório experimental, em cães.

MÉTODO

Foram utilizados 32 cães mestiços (Canis familiaris), machos, adultos, com peso variando entre 8 e 10 kg, provenientes do Biotério Central da Universidade Estadual de Maringá (UEM). O protocolo anestésico foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Animal da UEM. Foram mantidos em condições ambientais e alimentares padronizadas.

Os animais antes de serem trazidos para a sala de operação recebiam como pré-anestésico, por via intramuscular, solução de xilazina a 2% na dose inicial de 3 mg/kg de peso. Sob o efeito dessa medicação os cães foram transportados para a Sala Operatória e colocados sobre a mesa cirúrgica.

Foi realizada punção da veia cefálica em um dos membros torácicos, sendo administrada solução de tiopental sódico a 2,5%, na dose inicial 2,5 mg/kg. Manteve-se o acesso venoso com solução fisiológica em gotejamento contínuo para novas administrações da solução de tiopental. Como parâmetros de avaliação do plano anestésico foi realizada a observação clínica de reflexos (palpebral e mandibular), resposta à estímulo doloroso e movimentos respiratórios.

Após ser atingido o plano anestésico apropriado iniciou-se o procedimento operatório sobre o esôfago cervical, que em média durou 34 minutos. Ao término da operação os animais foram encaminhados para os alojamentos individuais e mantidos em jejum por período de 12 h.

RESULTADOS

Dos 32 animais submetidos a este procedimento anestésico todos apresentaram vomito após a administração da xilazina. Apenas três cães (9,4%) apresentaram apnéia, sendo revertido apenas com massagem torácica. Os casos de apnéia ocorreram logo ao final da administração endovenosa de tiopental sódico.

A dose média administrada de xilazina foi de 3,8 mg/kg de peso e a de tiopental foi de 7,7 mg/kg de peso. A mortalidade relacionada ao procedimento foi nula. Não houve complicações pós-operatórias mesmo no cães que apresentaram parada respiratória. Não foi necessário proceder-se a intubação endotraqueal em nenhum animal.

DISCUSSÃO

Há vários fármacos utilizados, de forma isolada ou em associações, para anestesiar cães em experimentação, sendo a via preferencial de administração a endovenosa 4,6,8,9,14. A veia cefálica é a mais comumente usada para medicações e hidratação, sendo uma cânula de calibre 24G a melhor indicada4.

A administração das drogas anestésicas na sala operatória, apresenta o inconveniente de causar grande estresse no animal, que pode levar à alterações nos resultados do experimento4. Os principais objetivos da pré-medicação são reduzir a apreensão dos animais e diminuir a dose de droga requerida para a anestesia13.

A xilazina é uma droga pré-anestésica alfa-2-agonista, usada freqüentemente na medicina veterinária, com efeito similar quando administrada por via endovenosa ou intramuscular. Induz rapidamente a sedação, analgesia e apresenta como efeitos nocivos a hipotensão e a bradicardia. A dose preconizada de xilazina é de 2,0 mg/kg, o pico de concentração da droga no plasma ocorre 12 a 14 minutos após administração intramuscular3,4,7,12,13. Neste experimento usou-se a dose média de 3,8 mg/kg.

O tiopental sódico é um barbitúrico de curta duração que deprime o córtex sensorial, diminui a atividade motora, altera a função cerebelar e produz sonolência, sedação e principalmente hipnose. Geralmente é usado para facilitar a intubação, devido ao seu rápido e potente efeito hipnótico5. A dose utilizada em outros trabalhos para indução anestésica varia de 10 a 25 mg/kg e a de manutenção de 25 a 50 mg/kg4,9,10,11. Neste experimento a dose média necessária para manter o plano anestésico foi de 7,7 mg/kg.

Autores4 ressaltaram que cuidados devem ser tomados durante administração do anestésico por via endovenosa, sempre observando os vários estágios e planos da anestesia. Também que deve-se observar os movimentos inspiratórios devido à depressão respiratória4.

O uso da xilazina como pré-anestésico neste trabalho, apesar da dosagem maior que o preconizado em outros trabalhos, mostrou-se eficiente para sedação e relaxamento do animal. Também contribuiu para a diminuir a quantidade total de tiopental sódico em relação ao usual tanto para indução quanto para a manutenção.

A intubação endotraqueal pode ser realizada para manter a via aérea superior pérvia ou permitir o uso de anestésicos inalatórios4. Neste modelo anestésico não houve necessidade de intubação, pois apenas 9,4% da amostra apresentou apnéia transitória. Como não houve necessidade de intubação endotraqueal em nenhum cão a possibilidade de lesão iatrogênica é nula, com vantagem também por não necessitar de equipamentos especiais.

CONCLUSÃO

O procedimento anestésico descrito é de fácil execução, diminui o estresse do animal, diminui o risco de traumatismo de vias aérea superiores e é seguro.

Prado Filho OR, Steffens VA, Santos AB, Lukiantchuki LPA, Moreira RP. Xylazine as a pre-medicant for thiopental sodium anaesthesia in the dog. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Apr-Jun;15(2). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

SUMMARY: The xylazine produce reliable sedative-analgesic effect when coadministered with anesthetics drugs. Thiopental sodium is a shorter duration barbituric, produced somnolence, sedation and hypnosis. The aim of this work is to verify the efficiency in association of xylazine and thiopental sodium to anesthesia in dogs. Thirty-two male mongrel dogs with an average weight between 8 and 10 kg were submitted to surgical procedure with approach of cervical aesophagus. The average dose was 3,8 mg/kg to xilazine and 7,7 mg/kg to thiopental sodium. Was not necessary endotracheal intubation and no deaths due anesthesic procedure were observed. The anesthesic procedure described is easy, safe and decreases the stress of the animal.

SUBJECT HEADINGS: Anesthesia. Dogs. Xylazine. Thiopental.

Endereço para correspondência:

Orlando Ribeiro Prado Filho

Rua Silva Jardim, 560

Maringá – PR

87013-010

Data do recebimento: 21/03/2000

Data da revisão: 14/04/2000

Data da aprovação: 19/05/2000

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  • 1.
    Trabalho realizado na Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – PR.
    2.
    Professor Assistente da Área de Cirurgia do Departamento de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
    3.
    Médica Veterinária Coordenadora do Biotério Central - Universidade Estadual de Maringá (UEM).
    4.
    Acadêmicas do Curso de Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Jun 2000
  • Data do Fascículo
    Jun 2000

Histórico

  • Aceito
    19 Maio 2000
  • Revisado
    14 Abr 2000
  • Recebido
    21 Mar 2000
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