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RELATO DE CASO: ABSCESSO ESPLÊNICO

ESPLENIC ABSCESS

Resumos

Os abscessos esplênicos constituem uma patologia incomum, encontrada em 0,14 a 0,7% em séries de necropsias. O diagnóstico geralmente é difícil, pois sua apresentação clínica é inespecífica¹ Caso o diagnóstico e o tratamento não sejam realizados precocemente, a evolução fatal é freqüente2,3. Os autores relatam um caso de abscesso esplênico, e enfatizam a terapêutica adotada, que foi exclusivamente clínica, numa patologia onde a conduta praticamente padronizada é a esplenectomia ou drenagem percutânea, ambos acompanhados de antibioticoterapia.

Abscesso; baço


The splenic abscess forms an unusual pathology, found only in 0,14 to 0,7 percent in a series of autopsies. The diagnosis is generally difficult because its clinical presentation is inespecific. When the diagnosis and treatment does not occur at early stages, the evolution is often fatal. Authors report a case of splenic abscess, emphasizing the therapy adapted, wich was exclusively clinical, in a pathology where the most common management is the esplenectomy or percutaneos drainage, both followed by antibiotic therapy.

splenic; abscess


RELATO DE CASO: ABSCESSO ESPLÊNICO1 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília.

ESPLENIC ABSCESS

Zurstrassen, CE2 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília. ; Silva, MER2 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília. ; Doretto, AN3 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília. ; Gasparin, F4 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília. ;

Assolini Jr., RA4 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília. ; Michelone, PRT5 1 Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 2 Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília 3 Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu. 4 Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília. 5 Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília.

Resumo: Os abscessos esplênicos constituem uma patologia incomum, encontrada em 0,14 a 0,7% em séries de necropsias. O diagnóstico geralmente é difícil, pois sua apresentação clínica é inespecífica1

Caso o diagnóstico e o tratamento não sejam realizados precocemente, a evolução fatal é freqüente2,3. Os autores relatam um caso de abscesso esplênico, e enfatizam a terapêutica adotada, que foi exclusivamente clínica, numa patologia onde a conduta praticamente padronizada é a esplenectomia ou drenagem percutânea, ambos acompanhados de antibioticoterapia.

Descritores: Abscesso, baço.

Key words: splenic, abscess.

Introdução: Apesar do baço ser um órgão constantemente exposto a agentes infecciosos, pelo papel que desempenha no sistema imunológico, o abscesso esplênico é uma patologia incomum deste órgão2.

O diagnóstico desta patologia é difícil, existindo grande variação na forma de apresentação clínica e na sua evolução, que não raramente leva a óbito. Recentemente, porém, a modernização dos métodos de imagem permite diagnóstico precoce e prognóstico mais favorável2.

A implantação hematogênica do processo infeccioso é o mecanismo patológico habitual, embora possam originar-se da disseminação de uma infecção adjacente, de traumatismo direto do baço e em pacientes imunossuprimidos2.

Os estreptococus são as bactérias mais comumente isoladas dos abscessos esplênicos, seguidos de Staphylococcus aureus. Entre as gram negativas a E. coli é a mais comum1.

Os sintomas geralmente encontrados são dor abdominal, febre e esplenomegalia. O hemograma mostra uma leucocitose e o raio X simples de tórax pode mostrar infiltrado e derrame pleural a esquerda. O melhor exame para diagnóstico é a tomografia computadorizada abdominal1.

O tratamento preferível é a esplenectomia com antibióticos coadjuvantes, entretanto, a drenagem percutânea também tem sido eficaz2,3.

O presente relato tem por objetivo apresentar um caso de abscesso esplênico, onde obteve-se sucesso terapêutico apenas com tratamento conservador.

Relato de Caso: N.P.C., sexo masculino, 26 anos, foi atendido no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Marília, com queixa de dor em hipocôndrio esquerdo, de média intensidade, iniciada aproximadamente há 2 horas, de caráter contínuo, sem irradiação e sem fator de melhora.

Paciente referiu que há dois dias vinha apresentando febre (não medida), obstipação intestinal, disúria, urina de coloração escura e odor forte. Além disso, referia ser a terceira vez que apresentava este quadro de dor em hipocôndrio esquerdo nos últimos três meses.

Na história pregressa, o paciente relatava ser portador de anemia falciforme, sendo que três irmãos apresentavam a doença.

Ao exame estava em bom estado geral, corado, hidratado, taquipneico, febril (T= 39,2º C), e ictérico (+/++++). O abdome apresentava-se flácido, com ruídos hidroaéreos diminuídos, doloroso à palpação profunda do hipocôndrio esquerdo, sem massas palpáveis e à percussão constatou-se macicez no espaço de Traube.

Os exames laboratoriais inicialmente solicitados revelaram Urina I normal, hemograma com hemoglobina = 13,5 mg/dl, hematrócito = 39,4%, leucocitose (12600 cels/mm3, com 0% de mielócitos, 0% de metamielócitos, 8% de bastões, 83% de segmentados, 1% de eosinófilos, 0% de basófilos, 6% de linfócitos e 2% de monócitos, e com granulações tóxicas finas freqüentes) e amilase = 51 U/L.

O raio X simples de abdome estava normal. O ultra-som mostrou esplenomegalia homogênea (vol. 394 cm3), fígado no limite superior da normalidade e detectou a presença de cálculo em região meso-renal esquerda.

Após avaliação inicial no Pronto Socorro optou-se pela internação.

Evolução: Nos primeiros dias de internação, o paciente apresentava dor à palpação do hipocôndrio esquerdo, icterícia (++ /++++) e três picos febris diários de 39ºC.

No quarto dia de internação o raio X de tórax revelou elevação da hemicúpula diafragmática esquerda, condensação na base pulmonar esquerda, obliteração do seio costofrênico esquerdo. O ultra-som abdominal mostrou esplenomegalia homogênea (volume = 578 cm3).

Diante disso, foram levantadas as hipóteses diagnosticas de abscesso esplênico e endocardite bacteriana. Foi então iniciado tratamento medicamentoso para endocardite, com penicilina cristalina 3.000.000UI endovenosamente 4/4hs e gentamicina 400mg endovenosamente uma vez ao dia.

Em seguida, a hemocultura foi negativa, o ecocardiograma não evidenciou vegetações. A tomografia mostrou uma lesão ovalar hipodensa medindo cerca de 40mm em seu maior diâmetro acometendo a porção anterior do baço, diagnosticando assim o abscesso esplênico (Fig.1).


Feito o diagnóstico, a antibioticoterapia adotada foi metronidazol, 500mg, de 8/8 horas e cefepime, 2g, de 12/12 horas, endovenosamente, mantidos por 20 dias.

Os sinais e sintomas desapareceram dois dias após o início da antibioticoterapia e outra tomografia foi realizada, revelando uma diminuição da "lesão ovalar", no momento com 30mm de diâmetro.

O paciente recebeu alta hospitalar cinco dias após o término do tratamento medicamentoso. O ultra-som abdominal realizado três meses após a data da alta revelou um baço com dimensões e ecotextura anatômicas.

Discussão: Os abscessos esplênicos são encontrados com maior freqüência no sexo masculino, com idade variando entre 35 e 45 anos, sendo o cocos gram positivos os agentes etiológicos mais freqüentes2.

Dentre os fatores predisponentes citam-se a septicemia (73,4%), sendo a endocardite bacteriana a condição mais comum 12 a 37%), o trauma (17,3%) e as hemoglobinopatias (12,1%), como anemias hemolíticas, principalmente a falciforme2,3.

No quadro clínico destacam-se a febre (92 a 100%), a dor abdominal (75%) e a esplenomegalia (25%)1,2.

Laboratorialmente, o hemograma revela leucocitose com desvio à esquerda. Em 40 a 60% dos casos a hemocultura é positiva. Os achados radiológicos mais freqüentes são elevação da cúpula diafragmática e derrame pleural esquerdos, presentes em 70% dos pacientes. A tomografia computadorizada e a ecoaria abdominal tem sensibilidade diagnóstica de 95 a 100% e 80 a 90%, respectivamente1,2.

A literatura encontrada mostrou um certo consenso que o método de tratamento adequado é a esplenectomia ou drenagem percutânea, associada a antibioticoterapia de amplo espectro por, no mínimo, 14 dias. No entanto, em 1969, Diamond criou a denominação Overwhelming post splenectomy infection ou infecção fulminante pós esplenectomia, podendo esta ocorrer em qualquer período após a esplenectomia4,5.

O paciente estudado apresentava-se dentro de uma faixa etária abaixo daquela freqüentemente citada na literatura.

O fator desencadeante provavelmente foi o trauma, visto que o paciente praticava luta corporal e o quadro clínico e os exames laboratoriais não eram compatíveis com anemia falciforme, apesar do mesmo ser portador desta hemoglobinopatia.

No presente caso, diante de um paciente com abscesso esplênico, clinicamente estável, não desenvolvendo infecção generalizada, optou-se por um tratamento não invasivo, com antibioticoterapia de amplo espectro e controles com exames laboratoriais e de imagem, com a finalidade de preservação do órgão.

O intuito de relatar este caso, foi mostrar que, após diagnosticado um abcesso esplênico, dependendo das condições clínicas do paciente o tratamento clínico pode ser eficiente, evitando assim os métodos invasivos, não expondo o paciente ao trauma cirúrgico e preservando um órgão importante para o sistema imunológico.

Abstract: The splenic abscess forms an unusual pathology, found only in 0,14 to 0,7 percent in a series of autopsies. The diagnosis is generally difficult because its clinical presentation is inespecific.

When the diagnosis and treatment does not occur at early stages, the evolution is often fatal.

Authors report a case of splenic abscess, emphasizing the therapy adapted, wich was exclusively clinical, in a pathology where the most common management is the esplenectomy or percutaneos drainage, both followed by antibiotic therapy.

  • 1. Diamond, L. K. Splenectomy in childhood and the overwhelming infection. Pediatric, 1969, 43: 866-867.
  • 2. Herman, P.; Oliveira e Silva, et al. - Abscesso esplênico: relato de oito casos e revisão de literatura. Rev. Hosp. Clinic. Fac. Med. São Paulo, 45: 268-271, 1990.
  • 3. Scarpelini, S.; de Andrade, J.I. et. al. Estudo comparativo entre o tratamento não operatório e a cirurgia conservadora no trauma esplênico. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. V. 26, n. 5, pg. 281-284, 1999.
  • 4. Teich, S.; Oliver, G.C. & Canter, J.W. - The early diagnosis of esplenic abscess. Amar. Surg, 52: 303, 1986.
  • 5. Varella, M. F. Abscesso esplênico: relato de um caso. Jornal Bras. Med., v. 73, n.3, p. 89-90, set. 1997.
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    Trabalho realizado junto a Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília
    2
    Médicos residentes no Serviço de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília
    3
    Médica Residente no Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina de Botucatu.
    4
    Acadêmicos do 6º ano da Faculdade de Medicina de Marília.
    5
    Professor da Disciplina de Cirurgia Geral da Faculdade de Medicina de Marília.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      11 Jun 2002
    • Data do Fascículo
      2001
    Sociedade Brasileira para o Desenvolvimento da Pesquisa em Cirurgia https://actacirbras.com.br/ - São Paulo - SP - Brazil
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