Alma de cirurgião

14 - DEPOIMENTO

Alma de cirurgião

Evaldo A. D' Assumpção* * Cirurgião Plástico, Tanatólogo e Membro da Academia Mineira de Medicina

Ser médico é mais do que uma opção: é uma vocação irresistível. Talvez, por isso mesmo, hoje vemos tantos profissionais da medicina incapazes para seu legítimo e puro exercício profissional: formaram-se em medicina por opção e não por vocação. E, muitas, por uma escolha oportunista e pragmática, em busca de uma utópica possibilidade de vultosos ganhos financeiros, o fim de suas atividades.

Resultado: a insatisfação diante da péssima remuneração ou do mercantilismo insensível, esse sim, capaz de gerar grandes lucros. E muitos corpos pisoteados pelo caminho....

Afinal, a medicina, pura e bela, não faz milionários. Os que por ventura existem, sem ter prostituído a profissão, são por outras vias, que não a da ciência hipocrática. Mas, além da vocação para a medicina, existe uma outra, galgada aos poucos, que é a cirurgia. Isso porque ser cirurgião é somar a compaixão e doçura do verdadeiro médico à agressividade do bisturi. Opostos que se tocam e se fundem misteriosamente! Talvez, por isso mesmo, cirurgiões sejam pessoas diferentes, paradoxais e surpreendentes, capazes de um afago e em seguida, de proceder um profundo talho no corpo humano. Sua vida familiar, muitas vezes é difícil. Exige companheira sensível e filhos tolerantes.

Tudo isso somado a uma postura de alerta constante, exigência detalhista, cobranças intermináveis. Humor, nem sempre o desejável.

Se a medicina exige estudo constante, a cirurgia exige estudo e práticas incessantes. Além das patologias, é necessário conhecer as técnicas operatórias – sempre em mutação – e a anatomia detalhada de cada região. E conviver com as exigências do tratamento, confrontadas com as economias do paciente, ao mesmo tempo em que sabe que, cada tempo, cada movimento, cada material gasto são fundamentais para o resultado final.

No teatro cirúrgico, ele é o autor, o diretor e o roteirista. Tudo o que acontece na sala de operação tem de ser de seu total conhecimento. Sua atenção ao ato operatório tem de ser absoluta.

Às vezes conversa, assovia ou cantarola para aliviar suas próprias tensões. Alterna conversas informais – quando o tempo cirúrgico o permite – com silêncios esmagadores, quando todo o seu cérebro, nervos e músculos estão totalmente direcionados a um movimento fino, complexo, essencial.

Caminha com instrumentos cortantes e contundentes, por entre estruturas frágeis; porém vitais. Um descuido, um movimento menos coordenado, pode significar um desastre: uma mutilação ou até mesmo a morte daquele que colocou a sua vida em suas mãos. Por vezes, é até obrigado a improvisar instrumentos por lhe faltar o específico, suprindo o espaço com sua habilidade e criatividade.

Tomar decisões rápidas e às vezes brutais. Dar ordens, sem admitir qualquer contestação ou reticências. Depois, assumir a responsabilidade de tudo e por todos. Afinal, ali ele é o escolhido do paciente. Os outros compõem o seu grupo de trabalho. Essenciais, sem dúvidas. Importantíssimos. Mas quase sempre totalmente desconhecidos pela família do paciente, que entretanto, nunca se esquece de quem foi o cirurgião.

Cobrado muitas vezes a ser gentil com todos, especialmente por seus familiares, quando consegue sê-lo o é por um enorme esforço para conjugar a prepotência que caracteriza seu trabalho, com o respeito àqueles que o ajudam.

Se o êxito é alcançado numa cirurgia, todos se retiram aliviados e felizes. Contudo, o cirurgião continuará a acompanhar o paciente ainda por muitos dias, mantendo seu organismo equilibrado depois das inúmeras alterações produzidas pela cirurgia e pela anestesia. Passará horas e dias de angustia, na expectativa da resposta terapêutica de seu tratamento. Rezando ou torcendo pela sua evolução, segura e tranqüila. Esperando que as bactérias não prevaleçam sobre os cuidados de assepsia que foram tomados. Acostumado a decisões imediatas, tem de aguardar o processo cicatricial do organismo, muitas vezes debilitado pelas patologias que acometiam o paciente. Imediatista, tem de ser tornar expectante.

E, durante todo esse tempo, levar sua vida social e familiar como se nada estivesse a preocupá-lo. Conversando e rindo, muitas vezes seus pensamentos retornam ao hospital, ao quarto do paciente, imaginando o seu estado e a sua recuperação. Enquanto seus amigos, parentes e familiares nada percebem o que vai em seu sigiloso interior, ele sofre e se angustia, enquanto sorri e fala tranqüilo....

E as doenças psicossomáticas que afligem esses profissionais, os problemas familiares que sofrem, separações, divórcios, são a conseqüência de quem atrás de uma imagem despreocupada, esconde um ser humano sensível, por vezes frágil, idêntico aos demais, porém com uma vivência totalmente única, incapaz de ser totalmente percebida pelos que o cercam. Seu fardo só não é excessivo, quando realmente se tem "alma de cirurgião".

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    Cirurgião Plástico, Tanatólogo e Membro da Academia Mineira de Medicina

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Set 2003
  • Data do Fascículo
    Mar 2003
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