Estudo histológico da regeneração esplênica de ratos submetidos a esplenectomia subtotal

Histological study of splenic regeneration in rats underwent to subtotal splenectomy

Orlando Jorge Martins Torres Eliane Lopes Macedo Érica Regina Gomes Picciani Paulo Márcio Sousa Nunes Jeannie Valéria Gonçalves Costa Anamada Barros Carvalho Pedro de Sousa Lobato Junior Sobre os autores

Resumos

Um aumento da susceptibilidade à infecção severa é uma complicação reconhecida da esplenectomia. Um grande número de alternativas tem sido propostas que poderiam impedir esta complicação do estado asplênico. O presente estudo analisa a regeneração histológica do tecido esplênico em ratos submetidos a esplenectomia subtotal. Foram utilizados trinta ratos machos da linhagem Wistar, adultos, pesando entre 160 e 210g. Os animais foram submetidos a esplenectomia subtotal e divididos em três grupos contendo dez ratos cada onde foram estudados após 15, 30 e 45 dias. Após este período de observação o tecido esplênico foi recuperado e submetido a exame histológico. A estrutura tecidual esplênica no 15º dia se apresentava irregular, porém sem necrose. Após 30 dias , a cápsula se apresentava histologicamente espessada e com maior desenvolvimento. Em 45 dias foi observado semelhança considerável entre o tecido esplênico remanescente e o baço normal. O presente estudo mostra que o baço submetido a esplenectomia subtotal se regenera completamente em um período de 45 dias.

Histologia; Regeneração; Baço


An increase susceptibility to overwhelming infection is now a well-recognized complication of splenectomy. A number of alternatives to splenectomy have been proposed that could possibly prevent this complication of the asplenic state. The present study analize the histological regeneration of the splenic tissue in rats underwent to subtotal splenectomy. Thirty adult male Wistar rats were used, weighing 160 to 210g. The rats were underwent to subtotal splenectomy, divided into three groups of ten rats each, and analized after 15, 30, and 45 days. After this period of time the splenic tissue were withdrawn and submitted to histological examination. The splenic tissue structure on the 15th day was irregular without necrosis. The histological examination on the 30th day, the splenic tissue in the capsule was now with a greater development. After 45th day, an important similarity was observed between the splenic tissue recovered and the normal spleen in all its details. The present study showed that the spleen underwent to subtotal splenectomy regenerat completely in a period of 45 days.

Histology; Regeneration; Spleen


ESTUDO HISTOLÓGICO DA REGENERAÇÃO ESPLÊNICA DE RATOS SUBMETIDOS A ESPLENECTOMIA SUBTOTAL1 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Orlando Jorge Martins Torres2 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Eliane Lopes Macedo3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Érica Regina Gomes Picciani 3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Paulo Márcio Sousa Nunes3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Jeannie Valéria Gonçalves Costa3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Anamada Barros Carvalho3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Pedro de Sousa Lobato Junior3 1. Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). 2. Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq. 3. Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Torres OJM, Macedo EL, Picciani ERG, Nunes PMS, Costa JVG, Carvalho AB, Lobato Jr PS. Estudo histológico da regeneração esplênica de ratos submetidos a esplenectomia subtotal. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Apr-Jun;15(2). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: Um aumento da susceptibilidade à infecção severa é uma complicação reconhecida da esplenectomia. Um grande número de alternativas tem sido propostas que poderiam impedir esta complicação do estado asplênico. O presente estudo analisa a regeneração histológica do tecido esplênico em ratos submetidos a esplenectomia subtotal. Foram utilizados trinta ratos machos da linhagem Wistar, adultos, pesando entre 160 e 210g. Os animais foram submetidos a esplenectomia subtotal e divididos em três grupos contendo dez ratos cada onde foram estudados após 15, 30 e 45 dias. Após este período de observação o tecido esplênico foi recuperado e submetido a exame histológico. A estrutura tecidual esplênica no 15º dia se apresentava irregular, porém sem necrose. Após 30 dias , a cápsula se apresentava histologicamente espessada e com maior desenvolvimento. Em 45 dias foi observado semelhança considerável entre o tecido esplênico remanescente e o baço normal. O presente estudo mostra que o baço submetido a esplenectomia subtotal se regenera completamente em um período de 45 dias.

DESCRITORES: Histologia. Regeneração. Baço.

INTRODUÇÃO

Como parte do sistema retículo-endotelial, o baço, apresenta papel importante nas defesas do organismo, através dos mecanismos de filtração, fagocitose e síntese de fatores de complemento e imunoglobulinas, principalmente IgM.3,22,30

O papel do baço no sistema imunológico tem sido objeto de muitos estudos clínicos e experimentais uma vez que é um dos mais importantes órgãos envolvidos nas defesas contra microorganismos. Através de sua rede de folículos linfóides circulam várias células do sistema imunológico.3,25,28

O baço tem sido um desafio para os pesquisadores, foi considerado por muito tempo um órgão misterioso e sem função e, portanto, sua remoção cirúrgica devido a trauma ou outras doenças, não provocaria dano maior ao paciente.8,23

Os estudos de MORRIS e BULLOCK, em 1919, mostraram que a ausência do baço estaria associada com o aumento da susceptibilidade a infecção.14 Ainda assim, a esplenectomia total continuou sendo amplamente utilizada como tratamento de escolha para trauma e distúrbios hematológicos. Em 1952, KING e SHUMACKER, demonstraram cinco casos de crianças com diagnóstico estabelecido de anemia hemolítica congênita que foram submetidas a esplenectomia total. Estes pacientes evoluíram com meningite infecciosa grave, ocorrendo dois óbitos.12 Isto também tem sido observado em esplenectomizados por trauma.3,22,23 Desde então, o risco de infecção fulminante pós-esplenectomia tem sido reconhecido, ocorrendo tanto em crianças quanto em adultos, principalmente nos dois primeiros anos após a cirurgia.13,21

A incidência de infecção grave após a esplenectomia por trauma ( 0,5 a 1,0%) é 58 vezes maior que na população normal e apresenta um índice de mortalidade de 50 a 80%.12,14,25,29 O comprometimento da função fagocitária, depressão dos níveis de imunoglobulinas séricas (classe IgM), properdina e linfócitos T, alterações na atividade do complemento e deficiência de tuftsina têm sido observados nestes pacientes.3,5

A infecção grave pós-esplenectomia se caracteriza por início súbito, crescimento bacteriano incomum e exuberante, alta incidência de coagulação intravascular disseminada e morte, ocorrendo dentro de horas do início dos sintomas e uma mortalidade que atinge 80%. O Streptococcus pneumoniae é o microorganismo mais frequentemente isolado nestes processos infecciosos, entretanto, outros germes encapsulados como o Haemophilus influenzae, Neisseria meningitidis e Escherichia coli têm sido observados.3,12,22

Um grande número de alternativas, principalmente em pacientes politraumatizados, foram propostas para prevenir as complicações relacionadas à ausência total do baço. Em crianças, o tratamento não operatório com controle através de exames seriados e tomografia computadorizada, realizando a cirurgia apenas em casos selecionados, tem mostrado resultados animadores.7,13,29 Os métodos operatórios de preservação esplênica são os preferidos em traumatismos esplênicos tais como a esplenorrafia, aplicação de agentes hemostáticos, ligadura da artéria esplênica, esplenectomia total associado ao autotransplante esplênico e esplenectomias parciais.2,5,11,13,18,20,24,26,28

Em 1962, CAMPOS CHRISTO introduziu o procedimento da esplenectomia parcial na prática cirúrgica de rotina em nosso meio.6 O propósito da esplenectomia parcial é preservar tecido esplênico suficiente para manter a função de defesa do organismo. Diversos estudos clínicos e experimentais demostraram que o índice de infecção pós-operatória diminui quando pelo menos 25% do órgão está preservado. Um ponto técnico importante da esplenectomia parcial a qualquer nível é a manutenção do seu pedículo vascular. Isto pode ser realizado inclusive pela simples preservação dos vasos esplenogástricos, que pode apresentar melhor função fagocítica que o tecido esplênico autotransplantado.1,4,9,10

Existe uma relação entre tecido esplênico e peso corporal, o que faz com que o segmento esplênico remanescente possa crescer e desempenhar a função imunológica. Por definição, a massa crítica é aquela abaixo da qual não se observa resposta a antígenos.9,10

Apesar do reconhecimento do desenvolvimento do tecido esplênico remanescente, torna-se necessário avaliar aquela área regenerada em diferentes fases até atingir o padrão histológico do tecido esplênico normal.28

O presente estudo tem por objetivo verificar o desenvolvimento histológico do baço de ratos submetidos a esplenectomia subtotal e as fases de regeneração, quando comparados com o tecido esplênico normal.

MÉTODO

Foram utilizados 30 ratos da linhagem Wistar adultos, machos, com peso variando de 160 a 210g, provenientes do Biotério da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e transferidos para o Laboratório de Pesquisas do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do Centro de Ciências da Saúde da UFMA. Estes animais foram mantidos em condições ambientais constantes e aclimatizados por um período de 15 dias antes de iniciar o experimento, recebendo ração padrão para ratos (Purina®) e água ad libitum.

Após jejum de 12 h que antecedeu o experimento, os animais foram submetidos ao procedimento cirúrgico, realizado sob condições de limpeza. Foram anestesiados por via inalatória com éter sulfúrico comercial, com ventilação espontânea, pesados e imobilizados em decúbito dorsal horizontal com ligas elásticas; realizada a tricotomia na região ventral do abdômen e a anti-sepsia feita com solução tintura de polivinilpirrolidona-iodo (Povidine tintura®).

Durante o procedimento cirúrgico, inicialmente foi realizada uma incisão mediana de aproximadamente 3 cm de extensão, inventário da cavidade abdominal para verificar a presença de baços acessórios, exposição do hipocôndrio esquerdo com rebatimento do estômago e baço , luxação parcial deste da cavidade abdominal e proteção com gazes umedecidas com solução de cloreto de sódio a 0,9%. Realizou-se então a esplenectomia subtotal com retirada de 2/3 superiores do baço , após isolamento, pinçamento e ligadura de parte do pedículo esplênico com fio de algodão 4.0 (figura 1). O seguimento retirado, foi em seguida pesado, depositado em frascos individuais contendo solução de formalina tamponada a 10% e enviado para estudo histológico afim de se definir as características do tecido esplênico normal. Houve posteriormente hemostasia e reposição do baço remanescente e estômago na cavidade abdominal, síntese da parede abdominal em 2 planos de sutura com fio mononylon 4.0® .

Após o procedimento comum , os ratos foram divididos em 3 grupos, contendo 10 animais cada , denominados de grupos I, II e III e avaliados respectivamente no 15,° 30° e 45° dia após a esplenectomia. O procedimento de avaliação constou de laparotomia mediana xifopúbica e inventário da cavidade abdominal ; posteriormente os ratos foram sacrificados por intoxicação anestésica com éter sulfúrico comercial para recuperação do tecido esplênico remanescente e colocação deste em frascos individuais contendo solução de formalina tamponada a 10 % para ser submetido a estudo histológico (figura 2).

O preparo histológico consistiu em desidratação com álcool etílico em concentrações progressivas de 70 a 100%, diafanização em xilol , impregnação por parafina a 58°C e inclusão nesta para formação do bloco. Após este procedimento, realizou-se cortes do bloco de parafina de 4 a 6µm de espessura , os quais foram colocados sobre lâminas de vidro e corados com hematoxilina - eosina . O exame histológico foi realizado utilizando - se microscópio óptico e os parâmetros avaliados foram : cápsula esplênica , polpa branca ( folículos linfóides e seus componentes), polpa vermelha , estrutura tecidual esplênica , vascularização , linfócitos , plasmócitos e macrófagos .

Avaliamos o grau de desenvolvimento da área de regeneração esplênica de todos os elementos do estudo histológico com os seguintes valores: 0 (ausente), 1 ( discreto), 2 (moderado) e 3 (importante). Este último semelhante ao tecido esplênico normal.

RESULTADOS

Durante o período de observação não ocorreram óbitos ou complicações entre os animais submetidos a esplenectomia parcial. No inventário da cavidade abdominal, após o sacrifício dos animais, observamos poucas aderências intraperitoniais e ausências de hematomas ou abscessos. O remanescente esplênico de cada grupo foi facilmente identificado e recuperado em todos os animais.

O tecido esplênico controle era do tipo reticular, com células reticulares, linfócitos e macrófagos, com uma cápsula fibroelástica com trabéculas que se dirigiam para a região central. Entre a cápsula e as trabéculas observou- se tecido pouco consistente e com pouca quantidade de vasos sangüíneos, identificados como polpa branca e vermelha. A polpa branca estava constituída por sinusóides, que formavam um extenso plexo de espaços sangüíneos irregulares e com dilatações. Entre os sinusóides estavam os cordões da polpa (Cordões de Billroth). Na polpa branca, notou - se a presença de folículos linfóides e arteríolas centrolobulares, ramos das artérias trabeculares que se apresentam não só excêntricas em relação ao folículo ao qual atravessava, mas também envolvidos por um manto linfático constituído por uma rede de células reticulares e por um arcabouço de fibras reticulares com numerosos linfócitos. Foram observados linfócitos em fases distintas de diferenciação, macrófagos e plasmócitos dando origem ao centro germinativo. A zona marginal era constituída predominantemente por linfócitos pequenos e células reticulares.

GRUPO I

Macroscopicamente foram encontrados aderências entre o fígado, estômago, omento, parede abdominal e baço, observando - se também tecido de granulação. O peso médio do tecido esplênico recuperado foi de 0,454g. Histologicamente observamos rarefação do tecido linfóide, com predomínio de macrófagos e grande quantidade de pigmentos de hemossiderina. A estrutura tecidual apresentou-se irregular. A polpa vermelha apresentava-se hiperplásica, sem proliferação fibroblástica na cápsula e sem presença de necrose (figura 3).

GRUPO II

Foram encontrados aderências na parede abdominal, entre o baço e o estômago e tecido de granulação na ferida operatória. O peso médio do tecido esplênico recuperado foi de 0,492g.

No estudo microscópico do tecido esplênico recuperado 30 dias após o procedimento cirúrgico, observou-se leve espessamento da cápsula esplênica com focos de proliferação fibroblástica e pouca quantidade de macrófagos. A polpa branca estava mais desenvolvida, com aumento do tecido linfóide. A polpa vermelha mostrou-se menos congesta, porém não apresentava padrão de desenvolvimento normal (figura 4).

GRUPO III

Observamos ao inventário da cavidade abdominal poucas aderências entre o baço e outras estruturas da cavidade abdominal, particularmente o estômago. O remanescente esplênico recuperado apresentou peso médio de 0,505g.

Neste grupo, do ponto de vista histológico, observamos que a superfície tecidual estava coberta por células mesoteliais e com fina cápsula de tecido fibroelástico. A polpa branca consistiu de pequenos folículos linfóides, centro germinativo em atividade, bainhas linfóides periarteriais e zona marginal bem diferenciada. Na cápsula esplênica foi observada pequena proliferação fibroblástica. A polpa vermelha também se apresentava bem diferenciada. Neste grupo, observamos, na área de regeneração grande semelhança ao tecido esplênico normal (figura 5).

Ao analisarmos o grau de desenvolvimento da área de regeneração esplênica observamos no grupo I, grau 0 (zero) de desenvolvimento; grupo II, graus 1 e 2 e no grupo III, grau 3, semelhante ao tecido esplênico normal.

DISCUSSÃO

O aumento da susceptibilidade à infecção, bem reconhecida em pacientes esplenectomizados tem levado cirurgiões pesquisadores a alternativas visando a preservação do órgão. Este ocupa uma posição central na distribuição sanguínea circulante, recebendo um volume por minutos próximo a 5%. Além disto, representa um importante ponto de encontro entre as informações antigênicas transportadas pelo sangue e o sistema imune. Duas grandes funções podem ser reconhecidas que são a capacidade de funcionar como grande filtro fagocítico e a qualidade de órgão produtor de anticorpos. As alterações de função esplênica são sugeridas por níveis de imunoglobulinas, principalmente IgM e pela presença de corpúsculos sanguíneos anormais que expressam hipofunção esplênica.3,12,14,23,27

Entre as alternativas utilizadas para a preservação da função esplênica está a esplenectomia subtotal, onde 25 a 30% de tecido esplênico deve permanecer no local.18,19

Apesar da esplenectomia segmentar ter sido discutida desde o século passado, somente após os relatos de CAMPOS CHRISTO (1962), este procedimento foi introduzido na prática cirúrgica em nosso meio. A manutenção do baço permite que este mantenha sua capacidade de preservar a função imunológica e de filtro fagocitário.6,15,16,17,19

O rato, utilizado no presente estudo é de fácil manipulação, favorece a técnica cirúrgica de esplenectomia subtotal por sua disposição anatômica e pode ser realizado seguimento pós-operatório com baixo custo. A escolha foi baseada em outros estudos prévios de investigação em mamíferos. Aqueles estudos apontam o rato como sendo adequado para a investigação da vascularização esplênica e apresentam o baço proporcionalmente maiores que outras espécies. Os vasos esplênicos e suas áreas correspondentes de desvascularização são facilmente identificadas nessa espécie.4,10,28 Apesar da morfologia particular de cada espécie, os aspectos microscópicos do tecido e o padrão vascular não são diferentes de humanos. Estes dados são úteis para ser utilizado em condutas conservadoras do baço. A secção e ligaduras vasculares correspondem ao segmento esplênico que deve ser retirado. Por outro lado a retirada da área desvascularizada é prudente afim de evitar o desenvolvimento de necrose e / ou abscessos. A técnica operatória da esplenectomia subtotal em ratos, retirando-se os 2/3 superiores do baço mantendo a vascularização apenas pelo pedículo inferior demonstra uma segmentação vascular esplênica bem definida.17,18,20 O fato de não ter sido observado infecção, abscessos ou necrose do remanescente esplênico no presente estudo estimula a aplicação prática deste procedimento.

Os tecidos imunológicos e hematopoéticos apresentam características estruturais e funcionais em comum, por serem, filtros vasculares com rede vascular que armazena células sangüíneas. Outra característica comum destes tecidos é a sua capacidade de regeneração completa para atingir a sua relação de funcionalidade, denominada hipertrofia compensatória. As células reticulares associadas à rede reticular são responsáveis por este potencial regenerativo. O clareamento sangüíneo esplênico é devido a arquitetura vascular esplênica. O baço capta partículas estranhas através de seu mecanismo de rede e os macrófagos podem eventualmente ser fagocitados. A preservação do tecido esplênico é importante para evitar a imunodeficiência criada pela esplenectomia, principalmente em crianças.2,23,30

O crescimento tecidual da área de ressecção do segmento esplênico, no estudo, apresenta uma fase de resposta inflamatória cicatricial, seguida de uma fase de regeneração. Esses tecidos sofrem em decorrência da ausência da cápsula naquela área e com a deficiência da resposta fagocítica inicial, entretanto apresenta um retorno precoce a partir do seu remanescente. Este segmento é o estímulo inicial e apresenta baixa quantidade de células e elementos linfóides. Assume uma disposição de crescimento que é mantido pela vascularização segmentar.3,19

O desenvolvimento do tecido esplênico ocorre em ratos, em curto espaço de tempo. Em nosso estudo, em 45 dias, foi possível observar histologicamente uma arquitetura semelhante ao tecido esplênico normal. Este desenvolvimento é capaz de promover recuperação da atividade esplênica. Isto tem sido observado experimentalmente na redução significativa nos índices de mortalidade por infecção graves.15,19,22,23,24

As fases de regeneração na área de ressecção esplênica, se assemelham histologicamente àquelas observadas no autotransplante esplênico, onde temos na avaliação inicial tecido de granulação, células fagocíticas e desenvolvimento de fibras reticulares, procurando adquirir um padrão concêntrico. Em seguida há uma proliferação vascular, com artérias e veias procurando constituir o aspecto final da polpa vermelha; a cápsula adquire grau de regeneração com trabéculas, células plasmáticas e fagocitose por macrófagos. Finalmente, após 45 dias, a estrutura tecidual esplênica adquire aspecto histológico semelhante ao tecido normal.24,28 A diferença básica para o autotransplante é que há um retardo na capacidade e função fagocítica do autotransplante e isto representa papel importante na defesa imunológica no pós-operatório. Estudos experimentais demostram que a resistência à infecção é maior em animais submetidos a esplenectomia parcial que aqueles com esplenose.19,24

A observação da eficácia da função esplênica pode ser evidenciada através de avaliação clínica de resposta a agentes infecciosos, laboratorial com o retorno à normalidade dos níveis séricos de substâncias como opsoninas, tuftsina, plaquetas e imunoglobulinas do tipo IgM, do clareamento da circulação sangüínea de substâncias como células-alvo e corpúsculos de Howell-Jolly. Este efeito protetor pode ser observado na capacidade de intensificar a resposta imunológica do animal de experimentação, quando submetido a infecções respiratórias, abdominais e sistêmicas. Estudos clínicos demonstraram a ausência de complicações após esplenectomia subtotal.15,16,19,20

Estudos cintilográficos também tem sido utilizados para avaliar a eficácia de função esplênica. Esta avaliação é baseado em estudos clínicos e experimentais. A imagem cintilográfica esplênica é alcançada após a captura dos macrófagos com enxofre coloidal marcado com tecnécio 99 ( m Tc 9 9 ). Uma alta concentração de radioatividade na área esplênica indica captação de enterócitos levados por calor e sugere função de filtração. O aumento da imagem no período pós-operatório tardio não deve ser considerado apenas o aumento do contorno do remanescente esplênico, mas um aumento da função de filtração.15,16,19

A superfície de corte do baço é o local de maior atividade celular. A proliferação de células reticulares então agrupadas em torno dos seios sangüíneos entrepassados com vasos tortuosos estreitados contendo corpúsculos sangüíneos. As células de cada espaço, estão ainda altas e relacionadas às células reticulares. Estas estruturas, portanto, parecem ser os seios venosos se originando da proliferação de células reticulares. Algumas poucas camadas de fibroblastos então alinhadas paralelamente ao eixo de superfície de corte e firmemente aderidas ao omento abdominal e pâncreas. A cápsula original que circunda a maioria do remanescente esplênico é fina e expande em direção à polpa.15,28

O tecido esplênico submetido a esplenectomia subtotal sofre uma hipertrofia compensatória a partir do seu remanescente. Tem sido observado um aumento considerável no seu peso líquido um a dois meses após o procedimento cirúrgico. Isto é resultado, em primeiro momento ,da proliferação da células reticulares seguida pela formação de seios venosos, produção de polpa branca e vermelha, ou mesmo uma limitada hematopoiese. Um processo semelhante é observado no curso da hipertrofia e àquele do enxerto esplênico. Em ambos os casos, a célula dominante é o célula reticular onde podemos observar, leucócitos, linfócitos, células plasmáticas, corpúsculos vermelhos, monócitos de vários tipos e endotélio dos sérios venosos. A autólise de células esplênicas liberam substâncias termolábeis que estimulam a migração de leucócitos dos vasos sangüíneos.17,19

CONCLUSÕES

Após análise do presente estudo e avaliação da literatura podemos concluir que :

  1. A vascularização bem definida do baço permite a realização de esplenectomias segmentares, elemento importante na manutenção da função imunológica.

  2. A regeneração do baço em ratos é evidente, sem complicações ao exame macroscópico.

  3. Histologicamente , o tecido esplênico apresenta padrão de regeneração gradual da área de ressecção onde, com o tempo de evolução, ele passa por fases que vai desde uma reação inflamatória inicial após 15 dias de seguimento pós-operatório até atingir as características semelhantes ao tecido esplênico normal após 45 dias de evolução.

Torres OJM, Macedo EL, Picciani ERG, Nunes PMS, Costa JVG, Carvalho AB, Lobato Jr PS. Histological study of splenic regeneration in rats underwent to subtotal splenectomy. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Apr-Jun;15(2). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

SUMMARY: An increase susceptibility to overwhelming infection is now a well-recognized complication of splenectomy. A number of alternatives to splenectomy have been proposed that could possibly prevent this complication of the asplenic state. The present study analize the histological regeneration of the splenic tissue in rats underwent to subtotal splenectomy. Thirty adult male Wistar rats were used, weighing 160 to 210g. The rats were underwent to subtotal splenectomy, divided into three groups of ten rats each, and analized after 15, 30, and 45 days. After this period of time the splenic tissue were withdrawn and submitted to histological examination. The splenic tissue structure on the 15th day was irregular without necrosis. The histological examination on the 30th day, the splenic tissue in the capsule was now with a greater development. After 45th day, an important similarity was observed between the splenic tissue recovered and the normal spleen in all its details. The present study showed that the spleen underwent to subtotal splenectomy regenerat completely in a period of 45 days .

SUBJECT HEADINGS: Histology. Regeneration. Spleen

Endereço para correspondência:

Dr. Orlando Torres

Rua Ipanema, 01 Ed. Luggano Bloco I / 204

São Luís - MA

65076-060

e-mail: otorres@elo.com.br

Data do recebimento: 06/12/1999

Data da revisão: 12/02/2000

Data da aprovação: 04/04/2000

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  • 1.
    Trabalho realizado no Departamento de Cirurgia, Disciplina de Clínica Cirúrgica III da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
    2.
    Professor Adjunto-Doutor, Coordenador da Disciplina de Clínica Cirúrgica III (UFMA). Pesquisador 2C CNPq.
    3.
    Estudantes de Medicina - UFMA; Bolsista do PIBIC-CNPq-UFMA.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Jun 2000
  • Data do Fascículo
    Jun 2000

Histórico

  • Aceito
    04 Abr 2000
  • Revisado
    12 Fev 2000
  • Recebido
    06 Dez 1999
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