Estudo biomecânico e morfológico da cicatrização da parede abdominal sob ação de meloxicam

Biomechanical and morphological study in rats’ abdominal wall healing under meloxicam action

Resumos

Foi realizado um estudo biomecânico e morfológico da cicatrização da parede abdominal de ratos sob ação do meloxicam. Os 60 ratos do grupo controle receberam meloxicam na dose única diária de 0,5mg.kg-1 ou 0,3 ml de solução salina de cloreto de sódio a 0,9% via intramuscular por 4 dias consecutivos. Os 60 ratos do grupo experimento foram submetidos a laparotomia e posterior síntese por técnica padronizada. Os animais desse grupo também receberam meloxicam ou solução salina da mesma maneira do grupo controle. No 5° ,10° ou 15° dias de observação os animais foram avaliados quanto a curva ponderal e os segmentos contendo cicatrizes de laparotomias foram submetidos a análise de força de rotura por meio de um tensiômetro e análise histológica (quantificação de colágeno e macrófagos com auxílio de um programa informatizado). Os resultados foram submetidos a testes estatísticos (alfa#0,05). A curva ponderal mostrou menor perda de peso nos animais que receberam meloxicam no 5° dia de observação, provavelmente devido a menor dor pós-operatória. O teste de rotura e a análise histológica não mostraram diferenças significantes entre os grupos, demonstrando que o meloxicam não interfere na cicatrização. Conclui-se que o meloxicam não induz a alterações biomecânicas e morfológicas na cicatrização da ferida operatória da parede abdominal de ratos.

Meloxicam; Músculos abdominais; Cicatrização de feridas; Colágeno; Ratos


A biomechanical / morphological study in rats’ abdominal wall healing and Meloxicam was performed in 120 male wistar rats. The 60 animals in the control group were injected Meloxicam IM (0,5mg.kg-1) or saline soluction (NaCl 0,9%) in the initial four consecutive days. The 60 animals in the experimental group carried out standart laparotomie and closure. Each animal in the initial four days was injected meloxicam or saline soluction in the same way of the control group. About the 5th, 10th or 15th post-operative day the animals weith-body were measured and segments of the operated abdominal wall was submitted to tensile strength test and hystological analysis (collagenous and macrophages counters with spetial PC-software). Statistical analysis was considered at 5%. The body weight records showed better performance in the animals injected with Meloxicam at five-day observation, probably due to less pain in post-operative period. The tensiometer test showed no statistical differences in all groups, just like the histological counters and qualitative analysis of collagenous tissue and macrophages, showing that Meloxicam had no interference in abdominal wall healing. The findings led us to conclude that Meloxicam doen’t provide biomechanical and morphological healing alterations in rat’s abdominal operative scars.

Meloxicam; Abdominal muscles; Wound healing; Collagenous; Rats


ESTUDO BIOMECÂNICO E MORFOLÓGICO DA CICATRIZAÇÃO DA PAREDE ABDOMINAL SOB AÇÃO DE MELOXICAM1 1 . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

João Ricardo F. Tognini2 1 . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

Djalma José Fagundes3 1 . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

Neil Ferreira Novo4 1 . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

Yara Juliano4 1 . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

Tognini JRF, Fagundes DJ, Novo NF, Juliano Y. Estudo biomecânico e morfológico da cicatrização da parede abdominal de ratos sob ação de meloxicam. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Jul-Sept;15(3). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: Foi realizado um estudo biomecânico e morfológico da cicatrização da parede abdominal de ratos sob ação do meloxicam. Os 60 ratos do grupo controle receberam meloxicam na dose única diária de 0,5mg.kg-1 ou 0,3 ml de solução salina de cloreto de sódio a 0,9% via intramuscular por 4 dias consecutivos. Os 60 ratos do grupo experimento foram submetidos a laparotomia e posterior síntese por técnica padronizada. Os animais desse grupo também receberam meloxicam ou solução salina da mesma maneira do grupo controle. No 5° ,10° ou 15° dias de observação os animais foram avaliados quanto a curva ponderal e os segmentos contendo cicatrizes de laparotomias foram submetidos a análise de força de rotura por meio de um tensiômetro e análise histológica (quantificação de colágeno e macrófagos com auxílio de um programa informatizado). Os resultados foram submetidos a testes estatísticos (alfa#0,05). A curva ponderal mostrou menor perda de peso nos animais que receberam meloxicam no 5° dia de observação, provavelmente devido a menor dor pós-operatória. O teste de rotura e a análise histológica não mostraram diferenças significantes entre os grupos, demonstrando que o meloxicam não interfere na cicatrização. Conclui-se que o meloxicam não induz a alterações biomecânicas e morfológicas na cicatrização da ferida operatória da parede abdominal de ratos.

DESCRITORES: Meloxicam. Músculos abdominais. Cicatrização de feridas. Colágeno. Ratos.

INTRODUÇÃO

Devido ao amplo mecanismo de ação, os antiinflamatórios não hormonais (AINH) são utilizados em diversas situações onde se busca controle da dor, febre e do processo inflamatório. Desta maneira são empregados generosamente no decurso de pós-operatório das mais variáveis entidades cirúrgicas 1,2.

Alguns trabalhos experimentais foram realizados com o objetivo de estudar a ação de um exemplo de AINH, no caso o diclofenaco de sódio na cicatrização de intestino delgado e grosso de ratos com3 ou sem infecção 5,6, assim como o efeito deste medicamento na cicatrização da parede abdominal desses animais6.

Os resultados obtidos por essas pesquisas foram bastante semelhantes, ou seja, quando utilizado o medicamento no período pós-operatório em animais de experimentação, houve um prejuízo na cicatrização dos tecidos estudados

Uma grande contribuição ao entendimento do mecanismo de ação dos AINH foi dado ao identificar-se diferentes isoformas da enzima ciclooxigenase (COX), e por conseguinte o desenvolvimento de medicamentos seletivos ao bloqueio da síntese de prostaglandinas conseqüentes apenas a processos patológicos, evitando-se assim uma possível gama de efeitos colaterais atribuídos aos medicamentos clássicos7,8,1,9,2.

O meloxicam, uma enolcarboxamida cuja estrutura química é 4-hidroxi-2-metil-N-(5-metil-2-tiazolil)-2H-1,2-benzotiazina-3-carboxamida-1,1-dióxido, é um novo AINH preferencialmente inibidor da COX 2 devido mudanças na sua estrutura química em relação a outros AINH de seu grupo7.

Os eficazes efeitos antiinflamatório, analgésico, antipirético, assim como a tolerância gástrica, efeito na função renal, no metabolismo da cartilagem e as interações farmacológicas do meloxicam já foram estudados7,8.

Sobre o possível efeito da droga no tecido conjuntivo e sua influência na cicatrização, de acordo com a linha de pesquisa que visa identificar agentes que interferem na cicatrização da parede abdominal e no intuito de identificar fatores que favoreçam ou desfavoreçam complicações relativas à sua síntese, decidiu-se estudar num modelo experimental padronizado os efeitos biomecânicos e morfológicos do meloxicam no processo de reparação tecidual da parede abdominal.

OBJETIVO

Realizar estudo biomecânico e morfológico da cicatrização de uma ferida operatória da parede abdominal de ratos, sob ação do meloxicam.

MÉTODOS

Amostra

Foram utilizados 120 ratos machos (Rattus norvegicus albinus), da linhagem Wistar-EPM, procedentes do Biotério Central da UFMS, com peso variando de 250 a 300 gramas e idade de 78 a 90 dias.

Os animais foram distribuídos aleatoriamente em 4 grupos:

Grupo CS (Controle/solução salina): formado por 30 animais que por 4 dias consecutivos receberam 1 injeção intramuscular de solução salina de cloreto de sódio a 0,9% (solução salina), e após períodos de observação de 5, 10 ou 15 dias foram submetidos a eutanásia.

Grupo CM (Controle/meloxicam): formado por 30 animais que por 4 dias consecutivos receberam 1 injeção intramuscular diária de meloxicam e após os mesmos períodos de observação, foram submetidos a eutanásia.

Grupo LS (Laparotomia/solução salina): formado por 30 animais submetidos a uma laparotomia, e que a partir do pós-operatório imediato, tiveram tratamento semelhante aos animais do Grupo CS.

Grupo LM (Laparotomia/meloxicam): formado por 30 animais submetidos a uma laparotomia, e que a partir do pós-operatório imediato receberam tratamento semelhante aos animais do Grupo CM.

Procedimentos

Os animais foram mantidos no laboratório, inicialmente por período de adaptação de 5 dias alojados em gaiolas de 0,15 metros quadrados, sendo 5 animais em cada uma, com água e ração apropriada à vontade, com condições de luminosidade, temperatura e ruído controlados. No dia inicial dos procedimentos, foram identificados e pesados.

Os animais do grupo CS (controle/solução salina) foram submetidos a injeções diárias de 0,3 mililitros (ml) de solução salina por 4 dias seguidos, mantidos em observação até os dias programados para a eutanásia.

Os animais do grupo CM (controle/meloxicam) receberam injeção intramuscular diária, por 4 dias consecutivos, de meloxicam na dose de 0,5mg.kg-10, e foram mantidos em observação até completar os períodos de 5, 10 ou 15 dias.

Os animais dos grupos LS e LM foram submetidos a procedimento operatório.

No momento das operações, os animais foram identificados, pesados e anestesiados com injeção intraperitoneal de pentobarbital sódico na dose de 50mg.kg-10.

A partir daí foi realizado laparotomia conforme já padronizado11, que consistiu na abertura da pele, e abertura da cavidade abdominal e posterior síntese do plano músculo-peritôneo-aponeurótico com sutura contínua com fio de poliamida 4-0, e após sutura com as mesmas características na pele.

A partir do ato operatório, no grupo LS (laparotomia/solução salina) foram administradas por 4 dias consecutivos injeções diárias intramusculares de 0,3ml de solução salina 0,9% e no grupo LM (laparotomia/meloxicam), também por 4 dias consecutivos, dose única diária intramuscular de meloxicam a 0,5mg.kg-10.

Nos períodos escolhidos para avaliação (5° , 10° ou 15° dia de pós-operatório), os animais dos respectivos subgrupos foram identificados, pesados e anestesiados.

Nos animais dos grupos LS e LM foram retirados os pontos da cicatriz cutânea, que foi ampliada em uma incisão xifo-púbica, e exposto amplamente o folheto músculo-aponeurótico e a cicatriz da laparotomia. Através de uma incisão em "U" de aproximadamente 6cm de comprimento por 5cm de largura, foi retirado um retalho músculo-aponeurótico, incluindo a linha de sutura da operação anterior

Após esse procedimento, foi realizada a eutanásia por exangüinação, comum a todos os animais.

Os retalhos músculos-aponeuróticos de todos os animais foram então divididos em dois segmentos: cranial e caudal, sendo cada segmento com 2cm no sentido longitudinal e 4cm no sentido transversal.

Um dos segmentos da parede abdominal de cada animal foi fixado em formol a 10% para exame histológico e o outro imerso em solução contendo 60ml de solução salina e 0,5ml de trietiliodeto de galamina por 10 minutos antes serem preparadas para a análise da força de tensão12.

Os segmentos destinados à análise da força de rotura foram embalados individualmente em sacos plásticos e submetidos a congelamento rápido em anidrido carbônico (gelo seco) a 80 graus centígrados negativos (-80° C), permanecendo nessas condições por período máximo de 20 dias até a data da realização do teste13.

Os testes da força de rotura da parede abdominal foram realizados com a utilização de máquina de ensaios de acionamento eletromecânico conectado a microcomputador. A velocidade do ensaio de rotura calibrada no aparelho foi de 30 milímetros por minuto e os resultados da força necessária para rotura das cicatrizes foram expressos em grama-força.

Nos grupos LS5 e LM5, só foi possível analisar 9 segmentos dos 10 inicialmente preparados, pois as cicatrizes se romperam ao serem colocadas no aparelho antes que pudessem ser mensuradas as forças de rotura, porém sem trazer prejuízos a análise estatística. Os segmentos destinados para exame histológico foram fixados em formol a 10% por 48 horas e após foram preparados para estudo histológico, com o preparo de 3 lâminas: uma corada por Hematoxilina Eosina (HE), outra corada por Picrosirius Red e uma terceira preparada para exame imunohistoquímico de identificação de macrófagos.

A identificação dos macrófagos foi possível com a utilização do anticorpo monoclonal HAM56. Para esse estudo foi utilizado o sistema avidina-biotina peroxidase (ABC)9. Como a pesquisa visou estudar os efeitos da droga no processo cicatricial da parede abdominal suturada, os estudos histológicos foram realizados apenas nos animais dos grupos laparotomia, pois os dos grupos controle não possuíam linha de sutura.

O exame quantitativo, tanto do colágeno quanto dos macrófagos, foi realizado mediante o uso de programa informatizado de análise de imagens (Imagelabâ ) baseado nos princípios de espectrofotometria.

A padronização óptica da captação e processamento de imagens foi feita de forma semelhante em todas as lâminas, com os resultados refletindo a porcentagem de área ocupada pelas fibras colágenas ou por macrófagos, após ter sido feita a média de 2 campos estudados.

Também em microscopia óptica foi realizada uma análise descritiva dos fenômenos cicatriciais. Nesta análise preocupou-se em realizar um exame qualitativo dos fenômenos existentes nas linhas de sutura.

Para a análise dos resultados foram utilizados testes não-paramétricos, levando em conta a natureza das variáveis estudadas ou a variabilidade das medidas efetuadas.

Foram aplicados os seguintes testes:

1- teste de MANN-WHITNEY15, para duas amostras independentes, com o objetivo de comparar os grupos CS e CM e os grupos LS e LM em relação às diferenças percentuais (%) dos pesos observados entre os períodos pré e pós-operatório ou inicial e final da observação, no grupo controle.

Para o cálculo do ) %, foi aplicada a fórmula:

O mesmo teste foi aplicado para comparar os mesmos grupos quanto a força de rotura, quantidade de colágeno e contagem de macrófagos. Este teste foi aplicado, separadamente, para os períodos 5, 10 e 15 dias de observação ou de pós-operatório.

2 - Análise de variância por postos de KRUSKAL-WALLIS15 para comparar os grupos de eutanásia aos 5, 10 ou 15 dias, em relação aos valores das variáveis estudadas. Esta análise foi aplicada, em separado, para cada um dos quatro grupos estudados e quando mostrou diferença significante, foi complementada pelo teste de comparações múltiplas16.

Nos testes fixou-se em 0,05 ou 5% (alfa # 0,05) o nível de rejeição da hipótese de nulidade, assinalando-se com asterisco os valores significantes.

RESULTADOS

Análise microscópica qualitativa

Ao serem observadas as lâminas , verificou-se que as cicatrizes dos ratos de ambos os grupos tiveram evolução do processo de reparação tecidual muito semelhante entre si, sugerindo que não houve interferência do medicamento no processo inflamatório cicatricial. Essas observações foram assim descritas:

Grupo GLS e GLM - 5 dias: Na região de intersecção das fibras musculares, observou-se tecido de granulação exibindo edema acentuado, intensa proliferação fibroblástica, com presença de numerosas figuras de mitoses, com proliferação vascular e congestão. Também foram observados em exemplos dos dois grupos, numerosos linfócitos e moderado número de neutrófilos.

Grupo GLS e GLM -10 dias: Nos animais dos dois grupos, verificou-se fibrose mais densa, com deposição de colágeno, permeando fibras musculares em reestruturação e discreta congestão vascular. O processo inflamatório é constituído agora por linfócitos, plasmócitos e ocasionais células gigantes multinucleadas que se dispõem ao redor do orifício de inserção do fio.

Grupo GLS e GLM – 15 dias: Por esta ocasião o tecido fibroso está maduro, denso e verificou-se ocasionais células gigantes tipo corpo estranho circundando o orifício de inserção do fio cirúrgico. Na maioria das lâminas estudadas de exemplares dos dois grupos, observou-se reconstituição completa da parede abdominal por tecido muscular típico.

DISCUSSÃO

Um fator relevante para a escolha do animal é que a farmacocinética do meloxicam no rato é extremamente semelhante a do homem, sendo este o modelo animal mais adequado para comparação, inclusive sendo escolhido para prognósticos clínicos. A ligação do fármaco às proteínas do plasma do rato é comparável a do homem10.

O uso de drogas no pré, intra ou pós-operatório pode alterar o processo de cicatrização e agir como um fator predisponente a ocorrência de deiscências.

Foi realizado experimento estudando o efeito do diclofenaco de sódio na cicatrização da parede abdominal de ratos6 e a conclusão obtida foi que os animais tratados com esse fármaco apresentaram menores concentrações de fibras colágenas nas linhas de sutura de laparotomias no 7° ou 14° dias de pós-operatório, sugerindo retardo nos processos de reparação tecidual por uma possível interferência direta do fármaco, que pela inibição da COX, diminuiria a produção de prostaglandinas com influência no processo cicatricial.

A isoforma constitutiva da COX, a COX-1 tem clara função fisiológica. Sua ativação leva, por exemplo, à produção de prostaciclinas, que quando liberada pelo endotélio, é antitrombogênica, e pela mucosa gástrica e renal é citoprotetora. A isoforma induzida, a COX-2, é produzida por meio de estímulos inflamatórios, é responsável pela produção de prostaglandinas cuja atividade principal ocorre na inflamação. Desta maneira a inibição da COX-1 pode conduzir a efeitos adversos gástricos e renais e comprometimento da função trombocítica2.

O advento dos inibidores preferenciais da COX-2, no caso o meloxicam, trouxe contribuição na terapêutica antiinflamatória e da dor devido a menor incidência de efeitos renais e gástricos, porém não foi encontrado na literatura estudos conclusivos referentes ao efeito do meloxicam na cicatrização dos diversos tecidos, deixando dúvidas da sua aplicabilidade e segurança para ser usado em períodos pós-operatórios no auxílio ao controle da dor.

Os procedimentos operatórios utilizados foram semelhantes aos padronizados em pesquisas anteriores desta linha de pesquisa11,6,13.

O período de observação sem intercorrências clínicas, e o fato de não ter ocorrido óbitos ou complicações (deiscências ou eviscerações), foi considerado como indício de não ter havido efeitos deletérios aos animais tratados com o meloxicam. Porém o parâmetro mais levado em conta como representativo de alterações sistêmicas foi a mensuração do peso de todos os ratos, no início e fim do experimento.

Já foi observado que ratos tratados com AINH inibidor preferencial da COX-1 (diclofenaco de sódio) apresentam retardo na recuperação ponderal em relação a grupo controle, quando submetidos a laparotomia, devido à inibição da síntese protéica pelo medicamento17.

Autores pesquisando tratamento de artrite induzida em ratos com uso de meloxicam por 5 dias consecutivos e com período de observação de 15 dias, constaram que o uso do medicamento não levou a efeito significante no peso dos animais9.

Esses resultados podem ser explicados pelos achados de outros autores que, em ratos, não observaram efeitos do meloxicam no sistema nervoso central; observaram excelente tolerabilidade gastrointestinal sem interferências no esvaziamento gástrico ou motilidade intestinal, além de não notarem efeito na excreção renal de água, eletrólitos ou creatinina, mesmo em altas doses8.

Os animais foram pesados no início do experimento e no momento da eutanásia.

Nos grupos controle (Tabela 1), o teste de MANN WHITNEY mostrou que não houve variação de peso ao se confrontar animais tratados ou não com a droga num mesmo período de observação, e a análise de variância por postos de KRUSKAL-WALLIS confirmou uma variação ponderal com ganhos de peso semelhantes conforme se passavam os dias de observação.

Analisando o percentual nos grupos submetidos a laparotomia (Tabela 2), observou-se que o teste de MANN-WHITNEY mostrou que nos subgrupos avaliados com 5 dias, os ratos operados e que não receberam meloxicam apresentaram significante perda ponderal percentual em relação aos que receberam o medicamento, ou seja, a perda de peso dos ratos que não receberam meloxicam foi maior daqueles que utilizaram a droga. Aos 10 e 15 dias a variação foi semelhante.

A explicação para esse achado pode estar no fato que os ratos que receberam o meloxicam em doses analgésicas teriam tido menos dor e com isso mais conforto pós-operatório nesta fase inicial, contribuindo para a menor perda de peso em relação a animais que não receberam analgésicos, confirmando a hipótese de que a droga teria efeito analgésico sem efeitos sistêmicos que poderiam comprometer a curva ponderal.

A cicatrização é uma série de eventos biológicos que começa com a hemostasia, mas que, a seguir, envolve uma resposta inflamatória, a formação de tecido conjuntivo e a remodelagem da ferida18.

Ao se analisar a força de rotura das cicatrizes operatórias de animais submetidos a laparotomia (Tabela 3), a análise de variância por postos de KRUSKAL-WALLIS mostrou tanto no grupo solução salina, quanto no grupo meloxicam que as cicatrizes eram significantemente mais fracas no 5° dia de pós-operatório, ganhando força com a evolução e tendo mesma resistência em 10 e 15 dias de pós-operatório.

Ao serem confrontados os grupos num mesmo período, o teste de MANN-WHITNEY não mostrou diferenças significantes, ou seja, dentro de um mesmo período, as cicatrizes de laparotomia de animais tanto tratados ou não com meloxicam apresentaram a mesma resistência ao serem avaliadas por esse método, também sugerindo a não interferência do medicamento na resistência da cicatriz.

Além do estudo da resistência das cicatrizes abdominais dos animais, também foi realizado estudo histológico visando identificar os fenômenos microscópicos e as possíveis alterações relacionadas ao uso do meloxicam.

Nas lâminas coradas por HE fez-se uma análise qualitativa e descritiva dos fenômenos cicatriciais de feridas operatórias de ratos que receberam ou não a droga, sem preocupação com quantificação do processo inflamatório. O exame histológico subjetivo sugeriu que o medicamento não exerceu influência nos fenômenos de reparação tecidual nos três períodos de observação.

A quantificação das fibras colágenas foi feita com auxílio de programa de informática desenvolvido para este fim, estabelecendo a porcentagem de colágeno, que se cora pelo vermelho em um campo microscópico anteriormente padronizado.

O programa de informática utilizado permite identificar, selecionar e subtrair estruturas de uma imagem por meio do espectro de 32 x 1.000 tonalidades de cores, definindo os padrões morfológicos através da área e do perímetro para o cálculo do fator de forma, que é obtido da relação dessas duas variáveis19.

Nesse estudo, com os recursos da computação gráfica, foi possível identificar e separar estruturas que até então eram difíceis de serem quantificadas em preparados histológicos como edema, fibras colágenas e substâncias amorfas. Quando realizado contraprova com métodos clássicos de avaliação subjetiva ou de histometria, os resultados foram próximos aos obtidos na análise computadorizada19.

A análise estatística da quantificação de fibras colágenas, confrontando os resultados entre os grupos num mesmo período de tempo pelo teste de MANN-WHITNEY, mostrou que não houve diferença significante na área ocupada por colágeno nas cicatrizes tanto dos animais do grupo controle ou dos animais que receberam medicamento (Tabela 4).

Esse dado corrobora com os achados da análise da resistência das cicatrizes entre os grupos, também num mesmo período de eutanásia, pois indica que houve uma deposição semelhante de colágeno nas cicatrizes, fazendo-as resistentes independente do uso ou não da droga, validando a proposição que este medicamento não interfere na síntese de colágeno e por conseguinte na força intrínseca das cicatrizes.

A identificação e quantificação de macrófagos foram consideradas relevantes como forma de avaliação, devido o conceito que essas células em um determinado momento do processo cicatricial são fundamentais, pois a partir delas há todo o estímulo e regulação do processo de proliferação, modulando estímulos que vão resultar na síntese de colágeno e conseqüentemente na maturação e resistência de uma cicatriz20.

Uma possível interferência de medicamentos no processo inflamatório da cicatrização, com a inibição da migração dos macrófagos para dentro da ferida, poderia levar a retardos no processo de reparação tecidual.

Para identificação exata dessas células é adequado adotar modelo imunohistoquímico que consiste na reação antígeno anticorpo com técnica padronizada. O antígeno macrofágico CD 68 encontrado no citoplasma do macrófago foi detectado pelo anticorpo monoclonal HAM 56, e para a identificação da reação foi utilizado um revelador, que corou os macrófagos em marrom escuro14.

Os resultados obtidos na quantificação de macrófagos nas linhas de sutura dos animais de ambos os grupos conforme expressos na Tabela 5, não mostraram diferenças significantes ao serem aplicados os testes estatísticos, tanto levando-se em conta a variação dos mesmos num mesmo grupo em relação ao período de eutanásia (análise de variância por postos de KRUSKAL-WALLIS), tanto ao se confrontar os grupos controle e medicamento num mesmo período de tempo (teste de MANN-WHITNEY).

A análise dos macrófagos aumenta os subsídios que o meloxicam não causa efeitos ao processo cicatricial, pois não houve alteração da resposta inflamatória ao ser utilizada a droga, tendo os ratos do grupo LM resposta semelhante aos do grupo LS nos períodos estudados.

O exame histológico descritivo qualitativo não observou alterações sugestivas de qualquer interferência do medicamento nos processos de reparação tecidual.

Provavelmente a não interferência deste fármaco nos processos de reparação seja pela inibição seletiva da enzima COX-2, que não levou a efeitos como os já observados por AINH inibidores da isoforma COX-121.

Se for feita uma reflexão sobre o conjunto dos resultados obtidos no experimento, pode-se ter o conceito que o uso desse medicamento não interferiu na reparação de segmentos da parede abdominal de ratos, e pelo contrário, sugerem que de alguma maneira a droga favoreceu no período pós-operatório inicial, pois como visto ao se analisar as variações percentuais de peso, os animais submetidos ao tratamento tiveram menor perda ponderal, talvez por menor dor e conseqüentemente maior conforto pós-operatório.

Talvez não seja prudente transpor esses resultados para a clínica diária, apesar do modelo experimental ser adequado e semelhante ao ser humano, contudo esse estudo sugere uma segurança ao se usar esse inibidor da enzima COX-2.

Cabe com a extensão da linha de pesquisa em cicatrização desenvolvida estudar o efeito desta droga em outros tecidos sujeitos a intervenções operatórias, ou mesmo seu uso em situações adversas aos processos cicatriciais, como uremia, diabetes, infecção, desnutrição, câncer, radiação e tantas outras que sabidamente interferem nos processos de reparação tecidual.

CONCLUSÃO

O meloxicam não induz a alterações biomecânicas e morfológicas na cicatrização da ferida operatória da parede abdominal de ratos.

Tognini JRF, Fagundes DJ, Novo NF, Juliano Y. Biomechanical and morphological study in rats’ abdominal wall healing under meloxicam action. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Jul-Sept;15(3). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT: A biomechanical / morphological study in rats’ abdominal wall healing and Meloxicam was performed in 120 male wistar rats. The 60 animals in the control group were injected Meloxicam IM (0,5mg.kg-1) or saline soluction (NaCl 0,9%) in the initial four consecutive days. The 60 animals in the experimental group carried out standart laparotomie and closure. Each animal in the initial four days was injected meloxicam or saline soluction in the same way of the control group. About the 5th, 10th or 15th post-operative day the animals weith-body were measured and segments of the operated abdominal wall was submitted to tensile strength test and hystological analysis (collagenous and macrophages counters with spetial PC-software). Statistical analysis was considered at 5%. The body weight records showed better performance in the animals injected with Meloxicam at five-day observation, probably due to less pain in post-operative period. The tensiometer test showed no statistical differences in all groups, just like the histological counters and qualitative analysis of collagenous tissue and macrophages, showing that Meloxicam had no interference in abdominal wall healing. The findings led us to conclude that Meloxicam doen’t provide biomechanical and morphological healing alterations in rat’s abdominal operative scars.

SUBJECT HEADINGS: Meloxicam. Abdominal muscles. Wound healing. Collagenous. Rats.

Endereço para correspondência:

João Ricardo F. Tognini

Rua Maracaju, 783

Campo Grande – MS

79002-214

Fones: (67)724-2190 9982-6251

e-mail: jrtog@msinternet.com.br

Data do recebimento: 15/05/2000

Data da revisão: 21/06/2000

Data da aprovação: 18/07/2000

2. Professor Adjunto do Departamento de Clínica Cirúrgica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Doutor em Medicina pela TOCE, UNIFESP-EPM.

3. Professor Adjunto Doutor do Departamento de Cirurgia e Chefe da Disciplina de Técnica Operatória da UNIFESP-EPM..

4. Professores Adjuntos Doutores da Disciplina de Bioestatística da UNIFESP-EPM.

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    . Resumo de Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental (TOCE) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Set 2000
  • Data do Fascículo
    Set 2000

Histórico

  • Aceito
    18 Jul 2000
  • Revisado
    21 Jun 2000
  • Recebido
    15 Maio 2000
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