Hemostasia e infecção

Hemostasia and infection

Resumos

O presente estudo tem por objetivo relacionar o fio cirúrgico e sua natureza, na gênese das infecções da ferida operatória, bem como verificar se o uso do cautério propicia maiores índices de infecção. Foram utilizados 78 ratos Wistar, com peso corporal entre 180 e 250 gramas. Após anestesia geral, quatro incisões foram realizadas no dorso do animal. Para a realização da hemostasia e ao mesmo tempo síntese do plano músculo-aponeurótico, foram utilizados três tipos de fio: Poliglactina, Algodão, Categute simples. Na quarta incisão foi utilizado cautério. Os animais foram divididos em grupos de acordo com os procedimentos no plano músculo-aponeurótico: GI - utilizou-se fios e cautério. GII - inoculou-se bactérias. GIII - utilizou-se fio, cautério e inoculou-se bactérias. Uma semana após, material foi colhido das feridas cirúrgicas para realização de culturas. O grupo GI (n=10), nenhuma das culturas destas feridas desenvolveu crescimento de microorganismos. O grupo II (n=20), 35 % infectaram. No grupo III (n=48), verificou-se a presença de 69,8 % feridas infectadas. Concluimos que o fio é importante fator na gênese de infecção de feridas independente de suas características e que o uso abusivo do cautério propiciou os maiores índices de infecção.

Infecção; Hemostasia; Síntese


The aim of the present study was the correlation between electrocoagulation, sutures and wound infection. Seventy-eight Wistar rats, weighting between 180-250 g were studied. Under ether anaesthesia, 4 incisions were performed at the back of the animal. For hemostasia as well for closure of the dorsal muscular layer, 3 types of sutures were used: poliglactin, cotton, plain catgut. Each wound was closed with one of the sutures mentioned above and electrocoagulation was employed abusively in one of the wounds. The animals were also allocated in 3 different groups: G I - Wounds treated with sutures and electrocoagulation. G II - Wounds without sutures or electrocoagulation, where Staphilococus aureus were inoculated. G III - Wounds with sutures, electrocoagulation and bacteria. Seven days later the wounds were examined, the stitches were taken out and the discharge from the wound was sent for cuture. In the G I group all wounds healed properly, without infection. In the G II group 35 % of the wounds developed infection. In the G III 69,8 % were infected. We conclude that sutures and the eletrocoagulation increased significantly the rate of wound infection.

Infection; Hemostasia; Sutures


7 - ARTIGO ORIGINAL

HEMOSTASIA E INFECÇÃ

O

1 1 Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 4 Médico graduado pela UFPR. 5 Acadêmico de medicina da UFPR.

Fernando Hintz Greca2 1 Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 4 Médico graduado pela UFPR. 5 Acadêmico de medicina da UFPR.

Zacarias Alves Souza Filho3 1 Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 4 Médico graduado pela UFPR. 5 Acadêmico de medicina da UFPR.

Juan Vilela Capriotti4 1 Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 4 Médico graduado pela UFPR. 5 Acadêmico de medicina da UFPR.

Romão Youssef5 1 Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR). 2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. 4 Médico graduado pela UFPR. 5 Acadêmico de medicina da UFPR.

GRECA, F.H.; SOUZA FILHO, Z.A.; CAPRIOTTI, J.R.V.; YOUSSEF, R. - Hemostasia e Infecção. Acta Cir. Bras., 12(4):244-8, 1997.

RESUMO: O presente estudo tem por objetivo relacionar o fio cirúrgico e sua natureza, na gênese das infecções da ferida operatória, bem como verificar se o uso do cautério propicia maiores índices de infecção. Foram utilizados 78 ratos Wistar, com peso corporal entre 180 e 250 gramas. Após anestesia geral, quatro incisões foram realizadas no dorso do animal. Para a realização da hemostasia e ao mesmo tempo síntese do plano músculo-aponeurótico, foram utilizados três tipos de fio: Poliglactina, Algodão, Categute simples. Na quarta incisão foi utilizado cautério. Os animais foram divididos em grupos de acordo com os procedimentos no plano músculo-aponeurótico: GI - utilizou-se fios e cautério. GII - inoculou-se bactérias. GIII - utilizou-se fio, cautério e inoculou-se bactérias. Uma semana após, material foi colhido das feridas cirúrgicas para realização de culturas. O grupo GI (n=10), nenhuma das culturas destas feridas desenvolveu crescimento de microorganismos. O grupo II (n=20), 35 % infectaram. No grupo III (n=48), verificou-se a presença de 69,8 % feridas infectadas. Concluimos que o fio é importante fator na gênese de infecção de feridas independente de suas características e que o uso abusivo do cautério propiciou os maiores índices de infecção.

DESCRITORES: Infecção, Hemostasia, Síntese.

INTRODUÇÃO

A perfeita hemostasia, a síntese adequada dos tecidos por planos, são fatores técnicos importantes na prevenção das infecções cirúrgicas.

A escolha adequada dos fios cirúrgicos, segundo critérios estabelecidos na literatura, bem como uma hemostasia precisa, sem o abusivo uso de cautério são importantes fatores na profilaxia das infecções.

O objetivo do presente estudo foi relacionar a presença do fio cirúrgico e sua natureza, na gênese das infecções da ferida operatória, bem como verificar até que ponto o uso abusivo do cautério propicia maiores índices de infecção.

MÉTODO

Foram estudados 78 ratos da linhagem "Wistar" , com peso entre 280 e 350 gramas, sendo eles 40 machos e 38 fêmeas, obtidos junto ao Biotério do Setor de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná.

Após tricotomia, antissepsia da região operatória e sob anestesia inalatória com éter, quatro incisões foram realizadas no dorso do animal.

Estas incisões longitudinais de 1,5 cm, realizadas com bisturi, situaram-se simétricas à coluna vertebral e comprometeram a pele, tecido celular subcutâneo e o plano músculo-aponeurótico.

Para a realização da hemostasia e ao mesmo tempo síntese destes planos, foram usados três diferentes tipos de fio:

A) Poliglactina

B) Algodão

C) Categute simples

Todos os fios utilizados foram de diâmetro 3-0. Assim, na incisão anterior esquerda foi utilizado o fio de poligalactina; na incisão posterior esquerda, categute simples; na incisão anterior direita utilizamos o fio de algodão e finalmente, na incisão posterior direita, nenhum tipo de sutura foi utilizada para fazer a hemostasia e a síntese dos tecidos, procedendo-se então ao uso do cautério de uma forma abusiva e grosseira (figura 1).

Em todas as incisões a síntese da pele foi realizada com fio de Prolene, também 3-0.

Os setenta e oito animais foi dividido em 03 grupos denominados GI, GII e GIII .

O grupo GI, controle, constou de 10 animais em que a hemostasia foi realizada apenas com os fios e cautério, da forma acima descrita.

O grupo GII, com 20 animais, foi submetido apenas à inoculação das bactérias, sem todavia terem sido utilizados o cautério ou os fios de sutura para a síntese ou hemostasia dos tecidos incisados.

O grupo GIII, contou com 48 animais, nos quais, antes da síntese da pele foi inoculado 01 ml de cultura com 105 Staphilococcus aureus/ml, obtidas junto ao Departamento de Microbiologia da FEMPAR.

Uma semana após a realização das quatro incisões, sob condições assépticas, as feridas foram inspecionadas, os pontos retirados, seus bordos afastados e o material colhido para realização de culturas em placas com "Chappman-Stone Medium", à temperatura de 37° C por um período de 48 horas. Foram contadas as colônias e consideradas infectadas as placas onde cresceram mais que 05 colônias.

A caracterização do Staphilococcus aureus foi realizada com as provas da catalase e coagulase.

Os resultados obtidos foram analisados estatisticamente pelo método "x2".

RESULTADOS

O grupo GI,em que 10 animais foram estudados e 40 feridas foram examinadas e onde não foi inoculada a solução de S. aureus, nenhuma das culturas destas feridas desenvolveu crescimento de microorganismos, apesar de uma delas em que foi usado o cautério, apresentar drenagem de material purulento.

No grupo GII, com 20 animais e 80 feridas, em que não foram usados os fios, somente inoculação de bactérias, 28 infectaram (35%) enquanto que nas 52 restantes (65%) não se verificou a presença de infecção.

O terceiro grupo, com 48 animais e conseqüentes 192 incisões, onde além da hemostasia com fios e cautério houve a inoculação das bactérias, verificou-se a presença de 134 feridas infectadas (69,8%). Destas, 24 albergaram o fio de poliglactina (50%), 36 o fio de algodão (75%) e 33 o fio de categute (68,7%). Na incisão onde foi realizada a hemostasia com cautério e sem a utilização dos fios, 41 apresentaram culturas positivas (85,4%).

Comparando-se as três feridas suturadas com os fios de poliglactina, algodão e categute, não houve diferença estatisticamente significativa, todavia comparando os índices de infecção das feridas suturadas com poliglactina e aquelas em que o cautério foi usado de maneira abusiva e grosseira a diferença é significativa.

Finalmente comparando-se os grupos GI e GII, a presença do fio cirúrgico foi fator significativamente importante na gênese de feridas infectadas.

Figura 1
:Diagrama das incisões no dorso do rato em relação com os meios de síntese e hemostasia.

Figura 2: Percentagem de infecção nos três grupos.

GI = com fios, com cautério, sem bactérias

GII = sem fios, sem cautério, com bactérias

GIII = com fios, com cautério, com bactérias

DISCUSSÃO

Conforme os trabalhos de Levenson, utilizamos animais com idade e peso semelhante, no sentido de diminuir as variáveis que possam eventualmente influir na resposta imunológica do animal diante do trauma cirúrgico e infecção induzida.1,2,3,4,5

Utilizamos em nosso estudo o Staphilococcus aureus, por ser este um dos agentes etiológicos mais comumente envolvidos nas infecções cirúrgicas.

A literatura demonstra que a infecção das feridas não está apenas relacionada ao agente infectante e à resposta imunológica do hospedeiro. A técnica cirúrgica descuidada, a hemostasia imprecisa, a presença de corpos estranhos como os próprios fios de sutura, aumentam consideravelmente o índice de infecção. Este fato é mais evidente ao utilizarmos fios multifilamentares ou que induzam uma reação tissular importante.3,4

Nosso estudo demonstrou que as feridas em que se inoculou o Staphilococcus aureus sem a presença dos fios infectaram em 35% dos casos. Quando se utilizou o material de sutura, independente de sua natureza, este mesmo índice dobrou, chegando próximo a 70% as feridas que desenvolveram infecção.

CONCLUSÃO

I - A presença do fio foi um importante fator na gênese de infecção das feridas cirúrgicas.

II - Os fios estudados guardam entre si diferenças numéricas absolutas quanto à quantidade de feridas infectadas; sendo no entanto estatisticamente não significativa.

III - O uso abusivo do Cautério proporcionou os maiores índices de infecção.

GRECA, F.H.; SOUZA FILHO, Z. A.; CAPRIOTTI, J.R.V.; YOUSSEF, R. - Hemostasia and Infection. Acta Cir. Bras., 12(4):246-8, 1997.

SUMMARY: The aim of the present study was the correlation between electrocoagulation, sutures and wound infection. Seventy-eight Wistar rats, weighting between 180-250 g were studied. Under ether anaesthesia, 4 incisions were performed at the back of the animal. For hemostasia as well for closure of the dorsal muscular layer, 3 types of sutures were used: poliglactin, cotton, plain catgut. Each wound was closed with one of the sutures mentioned above and electrocoagulation was employed abusively in one of the wounds. The animals were also allocated in 3 different groups: G I - Wounds treated with sutures and electrocoagulation. G II - Wounds without sutures or electrocoagulation, where Staphilococus aureus were inoculated. G III - Wounds with sutures, electrocoagulation and bacteria. Seven days later the wounds were examined, the stitches were taken out and the discharge from the wound was sent for cuture. In the G I group all wounds healed properly, without infection. In the G II group 35 % of the wounds developed infection. In the G III 69,8 % were infected. We conclude that sutures and the eletrocoagulation increased significantly the rate of wound infection.

SUBJECT HEADINGS: Infection. Hemostasia. Sutures

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Data do recebimento: 15.04.97

Data da revisão: 14.05.97

Data da aprovação: 11.06.97

  • 1
    CONN, J.; OYASU, R. & WELSH, M. : Vicryl ( poliglactin 910) synthetic absorbable sutures. Am.J. Surg. 128:19-23. 1974.
  • 2
    CRAIG, P.H.; WILLIAMS, J.A. & DAVIS, K.W. : A biological comparison of poliglactin 910 and poliglicolic acid synthetic absorbable sutures. Surg. Gynecol. Obstet. 141:1-10. 1975.
  • 3
    CRUSE, P.J.E. : Antibiotics prophylaxis in aseptic surgery, indicated or not. Antibiotikaprophylaxe in der chirurgie. Huber, Bern-Stuttgard-Wien , pp 55-58. 1981.
  • 4
    CRUSE, P.J.E. & FOORD, R. : The epidemiology of wound infection. Surg. Clin. North Am. 60 (1980 ), 27-40.
  • 5
    HUNT, T.K. : Wound healing and wound infection : Theory and Surgical Practice. Appleton-Century-Crofts, New York. 1980.

  • 1
    Artigo realizado na Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
    2 Professor Adjunto, Doutor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR.
    3 Professor Titular de Clínica Cirurgica. Livre Docente de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR.
    4 Médico graduado pela UFPR.
    5 Acadêmico de medicina da UFPR.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Maio 2001
  • Data do Fascículo
    Dez 1997

Histórico

  • Recebido
    15 Abr 1997
  • Revisado
    14 Maio 1997
  • Aceito
    11 Jun 1997
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