ESTUDO DA ANATOMIA VASCULAR SANGUÍNEA E BILIAR DO SEGMENTO LATERAL ESQUERDO DO FÍGADO E SUA APLICAÇÃO CIRÚRGICA

Resumo

O objetivo do presente estudo é investigar a anatomia vascular sanguínea e biliar do segmento lateral esquerdo ou segmentos II e III do fígado, assim como suas variações, para se evitarem complicações isquêmicas ou trombóticas do segmento lateral esquerdo, bem como o surgimento de fistulas biliares após o transplante hepático parcial ou reduzido. 25 cadáveres foram avaliados. A veia porta, artéria hepática, via bilífera e veias hepáticas foram submetidas a técnica de injeção de acrílico na forma líquida para posterior obtenção dos moldes hepáticos. Não foram encontradas variações no ramo esquerdo da veia porta. A irrigação arterial de tal segmento se seu a partir da artéria hepática esquerda ramo da artéria hepática comum em 24/25 casos; em um caso encontrou-se uma artéria hepática substituta, ramo da artéria gástrica esquerda, irrigando os segmentos II e III; em outro caso (1/24) foi encontrado um ramo acessório da artéria gástrica esquerda irrigando o segmento II. O ducto hepático esquerdo recebeu os ramos de drenagem dos segmentos II e III em todos os casos estudados; em 23/25 casos notou-se a presença de um ducto bilífero proveniente do segmento IV desembocando ducto hepático esquerdo. Quanto a veia hepática esquerda, responsável pela drenagem de tais segmentos, uniu-se a veia hepática intermédia formando um tronco comum antes de sua desembocadura na veia cava inferior em todos os casos estudados

Modelos Anatômicos; Veia Porta; Artéria Hepática; Ductos Biliares; Veias Hepáticas


ESTUDO DA ANATOMIA VASCULAR SANGUÍNEA E BILIAR DO SEGMENTO LATERAL ESQUERDO DO FÍGADO E SUA APLICAÇÃO CIRÚRGICA 1 1 - Resumo da Tese de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina ( UNIFESP-EPM). Curso de Pós Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP - EPM 2,3. Departamento de Morfologia, Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica da UNIFESP- EPM 4

Marcelo A. F. Ribeiro Jr. 2 2 - Mestre em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP - EPM

Saul Goldenberg 3 3 - Professor Titular do Departamento de Cirurgia da UNIFESP - EPM

José Carlos Prates 4 4 - Professor Titular da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica da UNIFESP - EPM

RESUMO

O objetivo do presente estudo é investigar a anatomia vascular sanguínea e biliar do segmento lateral esquerdo ou segmentos II e III do fígado, assim como suas variações, para se evitarem complicações isquêmicas ou trombóticas do segmento lateral esquerdo, bem como o surgimento de fistulas biliares após o transplante hepático parcial ou reduzido. 25 cadáveres foram avaliados. A veia porta, artéria hepática, via bilífera e veias hepáticas foram submetidas a técnica de injeção de acrílico na forma líquida para posterior obtenção dos moldes hepáticos. Não foram encontradas variações no ramo esquerdo da veia porta. A irrigação arterial de tal segmento se seu a partir da artéria hepática esquerda ramo da artéria hepática comum em 24/25 casos; em um caso encontrou-se uma artéria hepática substituta, ramo da artéria gástrica esquerda, irrigando os segmentos II e III; em outro caso (1/24) foi encontrado um ramo acessório da artéria gástrica esquerda irrigando o segmento II. O ducto hepático esquerdo recebeu os ramos de drenagem dos segmentos II e III em todos os casos estudados; em 23/25 casos notou-se a presença de um ducto bilífero proveniente do segmento IV desembocando ducto hepático esquerdo. Quanto a veia hepática esquerda, responsável pela drenagem de tais segmentos, uniu-se a veia hepática intermédia formando um tronco comum antes de sua desembocadura na veia cava inferior em todos os casos estudados.

DESCRITORES: Modelos Anatômicos. Veia Porta. Artéria Hepática. Ductos Biliares. Veias Hepáticas.

INTRODUÇÃO

O fígado possui uma grande diversificação quanto à distribuição das estruturas vasculares sanguíneas e biliares no interior de seu parênquima, o que contrasta com a ausência de marcadores em sua superfície. A partir do início da década de cinqüenta, trabalhos de grande importância foram publicados, fazendo com que grandes mudanças ocorressem no conhecimento da anatomia hepática tanto no aspecto morfológico quanto funcional.

HJORTSJÖ18 representou o primeiro estudo a propor uma divisão estrutural segmentar do órgão. COUINAUD9 elaborou uma classificação baseada na distribuição intraparenquimatosa da veia porta, onde dividia o órgão em oito segmentos independentes sob o ponto de vista morfológico e funcional. Outros autores como GOLDSMITH & WOODBURNE13 também propuseram classificações anatômicas baseadas na distribuição intra-hepática das estruturas vasculares. A partir da metade da década de 80, o estudo do segmento lateral esquerdo do fígado ganhou importância frente às possibilidades de se realizarem ressecções segmentares do fígado e o transplante de tais segmentos. Alguns autores descreveram seus achados quanto a anatomia do segmento lateral esquerdo do fígado, dentre estes destacaram-se RAT, PARIS e FAVRE24; SILVA, LEITE, BOIN e LEONARDI28 que estudaram fígados de cadáveres após a realização da necropsia e outros autores basearam seus estudos na obtenção de moldes hepáticos, como REICHERT25 que estudou à anatomia das veias hepáticas e LUNGWTZ21 estudou a distribuição e os locais de inserção dos ductos bilíferos no segmento lateral esquerdo do fígado. Frente à crescente importância adquirida de tais segmentos hepáticos, principalmente no campo das reduções hepáticas para o transplante, e por não ter sido encontrado na literatura compilada relatos de estudos de toda a anatomia vascular sanguínea e biliar intra-hepática do segmento lateral esquerdo do fígado, ou segmentos II e III, propusemo-nos a estudar o assunto, utilizando a técnica de injeção-corrosão em fígados de cadáveres para obtenção dos moldes.

MÉTODO

Foram dissecados 25 cadáveres de adultos, 9 cadáveres do sexo Feminino e 16 do sexo Masculino. A idade variou de 19 a 77 anos com média 53,3 e desvio-padrão 15,8, com até 24 horas de óbito, para que o fígado, assim como as estruturas vasculares sanguíneas e bilíferas não se apresentassem em estado de decomposição e estivessem íntegras para suportar a injeção do acrílico e fornecer moldes adequados, procedentes do Serviço de Verificação de Óbito da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina e do Serviço de Verificação de Óbito da Universidade de São Paulo - FMUSP.

Foram utilizados somente órgãos macroscopicamente normais e sem sinais de doenças hepáticas. As estatísticas descritivas, bem como os resultados do teste comparativo entre os sexos Masculino e Feminino, com relação a peso corporal, peso total do fígado e peso estimado do lobo esquerdo encontram-se na tabela I. Não foram encontradas evidências de diferença entre os valores de peso (corporal, total do fígado e estimado do lobo esquerdo) do sexo Masculino e Feminino.

Tabela I.
Médias, desvios-padrão e resultados do teste t-Student para a comparação entre os sexos Masculino e Feminino quando aos valores do Peso Corporal, Peso Total do Fígado e Peso Estimado do Lobo Esquerdo.

Foram realizadas dissecções do fígado com o cadáver em decúbito dorsal. Utilizou-se a técnica de retirada realizada no doador de órgão para o transplante hepático, tendo-se cuidado para evitar qualquer tipo de lesão das estruturas vasculares sanguíneas e bilíferas. Após a hepatectomia, realizou-se o preparo da peça para a injeção do acrílico na forma líquida, monômero metilmetacrílico, de rápida polimerização após a mistura do líquido com o pó. Tal preparo consistia da dissecção dos elementos do hilo hepático, veia cava inferior em toda sua extensão, e retirada de fragmentos de outras estruturas que acompanhavam a peça a ser estudada. Procedia-se, então, a pesagem da peça e estimava-se o peso do lobo esquerdo a partir da fórmula proposta por CHAIB e col. 7 para fins protocolares. Seguia-se introduzindo uma sonda plástica do tipo uretral, com um comprimento de 10 cm, nos calibres 18 para veia cava inferior, 16 para veia porta e 14 para artéria hepática e colédoco.

A solução de JETâ5 4 - JETâ - acrilico autopolimerizante , era preparada pouco antes de sua injeção, a diluição utilizada foi de 50%, ou seja ½ parte de pó e ½ parte de líquido, para as veias. Na artéria e via bilífera se utilizou diluição 2:1, ou seja, 2 parte de líquido para uma parte de pó. Junto à solução adicionou-se tinta em spray automotivo nas cores azul escuro para veia cava inferior, azul claro para veia porta, vermelho para artéria hepática e amarelo para via bilífera, com objetivo de obter-se a identificação das estruturas a serem estudadas. Foram injetados de 60 a 80 ml da solução pela V.C.I., 40 a 60 ml da solução pela veia porta, 20 a 30 ml da solução pela artéria hepática e via bilífera. Após uma hora as peças foram colocadas em um recipiente contendo ácido clorídrico a 35% a fim de promover a corrosão do tecido hepático para posterior análise dos dados a serem coletados. As peças eram mantidas por 48-72 horas imersas no ácido, quando então eram retiradas e lavadas exaustivamente em água corrente para retirada dos fragmentos corroídos. Seguindo o protocolo, foram coletados dados quanto aos diâmetros e distâncias das estruturas vasculares sanguíneas e bilíferas que compõe o segmento lateral esquerdo do fígado.

RESULTADOS

Os diâmetros da Veia hepática esquerda e da Veia hepática intermédia mostraram-se significantemente mais elevados no sexo Masculino (p=0,0166 e p=0,0404 respectivamente). As demais medidas de diâmetro tiveram comportamento semelhante com relação aos sexos Masculino e Feminino. As estatísticas descritivas (médias / desvios-padrão)27,29, bem como os resultados do teste comparativo entre os cadáveres do sexo Masculino e os do sexo Feminino encontram-se na tabela II. Quando comparados os sexos Masculino e Feminino, nenhuma das distâncias mensuradas apresentou diferença estatisticamente significante. As distâncias médias e respectivos desvios-padrão para os cadáveres do sexo Masculino e os do sexo Feminino encontram-se na tabela III. Quanto a presença de uma bifurcação comum a partir dos ramos portais para os segmentos II e III, a mesma esteve presente em 16% dos casos, sendo que houve em 80% dos casos uma bifurcação comum formada pelos ramos portais para o segmento III e IV acima da origem do ramo do segmento II.

Quanto a artéria hepática esquerda, foi observada a origem dos ramos de irrigação dos segmentos II e III a partir de uma bifurcação comum em 88% dos casos. Encontramos em um caso do sexo masculino a presença de uma artéria hepática esquerda do tipo acessória, ramo da artéria gástrica esquerda, irrigando em conjunto com a artéria hepática esquerda o segmento II do fígado. Em outro caso, observamos a presença de uma artéria hepática esquerda do tipo substituta, ramo da artéria gástrica esquerda, responsável pela irrigação dos segmentos II e III. Houve em 80% dos casos a origem do ramo arterial para o segmento IV proveniente da artéria hepática esquerda.

Quanto a via bilífera, observamos em 92% dos casos, a existência de um ducto de drenagem biliar proveniente do segmento IV, desembocando do ducto hepático esquerdo. Houve em 21/25 casos a formação de um tronco comum entre os ductos de drenagem do segmento II e III do fígado formando o ducto hepático esquerdo, nos demais as desembocaduras ductais se deram em locais distintos.

Tabela II.
Médias, desvios-padrão e resultados do teste t-Student para a comparação entre os sexos Masculino e Feminino quando aos valores dos diâmetros de: Ducto Bilífero, Artéria Hepática, Ramo Portal e Veia Hepática.
Tabela III.
Médias, desvios-padrão e resultados do teste t-Student para a comparação entre os sexos Masculino e Feminino quando aos valores das distâncias referentes a: Ducto Bilífero, Artéria Hepática, Ramo Portal e Veia Hepática.

DISCUSSÃO

Diversos estudos já foram realizados no campo da anatomia hepática, e a técnica de moldagem intra-hepática vem demonstrando ser a melhor opção para o estudo de tais estruturas em cadáveres. 3,8,9,10,14,17,18,21,25

O ramo esquerdo da veia porta mostrou-se responsável pela irrigação portal do segmento lateral esquerdo, lobo caudado e segmento medial ou IV, porém, poucas foram as referências quanto as distâncias e diâmetros de tais estruturas, as quais têm importância de destaque para cirurgiões que realizam operações como reduções hepáticas e segmentectomias.

Quanto ao diâmetro do ramo esquerdo da veia porta acima de sua origem, foram encontrados valores entre 1,5 e 2,0 cm descritos por SEGALL21, e 10 e 15 mm, com valor médio de 12,25 mm descritos por SILVA e col28. No presente estudo, encontramos valores entre 6,3 e 11,8 mm, com um valor médio de 9,37 mm. Não encontramos, na literatura compilada, nenhuma referência quanto aos diâmetros dos ramos portais responsáveis pela irrigação dos segmentos II e III que compõem o segmento lateral esquerdo, que em nossa série variaram entre 3,4 e 7,0 mm para o segmento II e 3,5 e 8,5 mm para o segmento III.

ELIAS e PETTY12 descreveram o ramo esquerdo da veia porta como sendo morfologicamente mais constante e mais extenso do que o direito. GOLDSMITH e WOODBURNE13 descrevem como sendo de 3,5 cm a distância entre a bifurcação portal e a origem do ramo segmentar para o segmento II. Em nossa série, observamos que a distância média do ramo esquerdo da veia porta até a origem do ramo portal para o segmento II foi em média de 3,35 cm, local onde ocorre a angulação da veia, e continuação da mesma para dar origem aos ramos dos segmentos III e IV, que ocorreu em 80% dos casos a partir de um tronco comum e que se encontrava em média a 4,92 cm da origem do ramo esquerdo da veia porta .

COUINAUD9 descreveu que a veia porta se dividia em dois ramos principais em cerca de 72% dos casos e que a ausência de bifurcação portal foi fato raro, ocorrendo em menos de 1% dos casos. Assim como encontrado por COUINAUD9, na maior parte dos casos os ramos portais para os segmentos III e IV tiveram suas origens a partir de um tronco comum, sendo por nós encontrado em 80% das peças. RAT e col. 24 demonstraram que o ramo esquerdo da veia porta é sempre mais longo do que o direito, com um comprimento médio de 2,4 cm contra 0,8 cm respectivamente.

Quanto à artéria hepática esquerda, DASELER, ANSON, HAMBLEY e REIMANN11, observaram quinhentas peças e relataram que a artéria hepática esquerda originada a partir da artéria hepática própria ocorreu em 82% ou 410 peças estudadas. Em nossa série, a artéria hepática esquerda teve como origem a artéria hepática comum em 96% dos casos. Nos outros noventa casos estudados, foram encontradas origens diretamente do tronco celíaco em 11,4% dos casos, 1,8% dos casos a partir da artéria gástrica esquerda, 4,4% a partir de uma artéria hepática comum proveniente da artéria mesentérica superior, 0,2% a partir de uma artéria hepática comum originada diretamente da aorta abdominal e em 0,2% teve sua origem a partir da artéria gastroduodenal. Encontramos na peça de número 07 uma artéria hepática esquerda substituta, ramo da artéria gástrica esquerda, representando 4% da série estudada, que era responsável pela irrigação dos segmentos II e III do fígado. Descreveram a presença de uma artéria hepática acessória em 35% dos casos estudados, 175 peças; destas, 19,8% com origem a partir da artéria hepática direita, 10,8% a partir da artéria gástrica esquerda, 2,2% tiveram como origem a artéria hepática comum, 1% foi proveniente do tronco celíaco e 1,2% se apresentou como ramo da artéria gastroduodenal. A presença da artéria hepática acessória na série descrita com ramo a partir da artéria gástrica esquerda foi superior aos números por nós encontrados de 4%, e dos números citados por SEGALL26, o qual encontrou tal variação em 1,8% das peças, porém outros autores 4,19,20,22,30 relatam incidências que variavam entre 10 e 25% dos casos de artérias substitutas ou acessórias. A presença de um caso de artéria substituta e outro de artéria acessória em nossa série (8%) assim como as incidências expressivas descritas por outros autores reforçam a importância da identificação de possíveis alterações anatômicas na região do ligamento hepatogástrico.

HEALEY JR., SCHROY e SORENSEN16 descreveram a divisão da artéria hepática esquerda como sendo feita em ramos para o segmento medial superior e inferior, correspondendo ao segmento IV e lateral superior e inferior correspondendo aos segmentos II e III respectivamente. Em nossa casuística, observamos a irrigação do segmento IV sendo feita a partir da artéria hepática esquerda em 80% dos casos. Nos demais, a mesma se dava a partir da artéria hepática direita. Tais autores comentaram como sendo a distribuição arterial do fígado intimamente relacionada com a distribuição do sistema bilífero no segmento intra-hepático. Na porção extra-hepática tal correlação não é uma constante, corroborando com isto os dados por nós encontrados. Outros autores descrevem incidências expressivas de alterações anatômicas do suprimento arterial do segmento lateral esquerdo do fígado. 4,20,30

SILVA e col. 28 relataram que artéria hepática esquerda, apresentou comprimento entre 12 e 55 mm com média de 26,1 mm e diâmetro entre 3 e 7 mm com média de 4,75 mm. As médias por nós encontradas foram 26,9 mm de comprimento e 3,33 mm de diâmetro. Assim como em nosso estudo, tais autores relataram ter encontrado um caso de artéria substituta proveniente da artéria gástrica esquerda, com 55 mm de comprimento e 4 mm de diâmetro. No caso observado em tal estudo, tais medidas foram 29,8 mm de comprimento e 1,8 mm de diâmetro. No caso da artéria hepática acessória também ramo da artéria gástrica esquerda, relataram que a mesma apresentava um comprimento de 25 mm e diâmetro de 4 milímetros. No caso descrito no presente estudo tal artéria apresentava comprimento de 28,6 mm e diâmetro de 1,9 mm. Os diâmetros dos ramos arteriais para os segmentos II e III não foram descritos em nenhum dos trabalhos consultados, foram em média de 1,98 mm e 2,30 mm respectivamente.

Quanto à via bilífera, HJORTSJÖ18 descreveu o segmento lateral esquerdo do fígado como sendo drenado pelos ramos bilíferos dos segmentos dorsolateral e ventrolateral esquerdo. Tais ramos desembocavam no ducto bilífero esquerdo em todos os casos observados. Tais achados também foram observados em nosso estudo. HEALEY JR. e SCHROY15 demonstraram que o segmento lateral dividiu-se em uma área superior menor e uma área inferior maior. Quanto à forma de drenagem, demonstraram que, em 67% dos casos, os ductos bilíferos oriundos do segmento lateral esquerdo uniam e formavam o ducto do segmento lateral. Nos casos por nós estudados, tal porcentagem foi de 84%. Nos outros 16%, as drenagens ocorreram em pontos distintos do ducto bilífero esquerdo, não havendo a formação de um tronco comum. Quanto à drenagem do segmento medial, por nós chamado de segmento IV, descrevem que em 1% dos casos sua drenagem não se faz no ducto bilífero esquerdo. Em nossas observações tal situação esteve presente em 8% dos casos. COUINAUD8,9 descreveu, em suas observações de 100 moldes hepáticos, o ducto bilífero esquerdo como responsável pela drenagem dos quatro segmentos que compõem o lobo esquerdo. Descreveu a ausência de um ducto bilífero esquerdo verdadeiro em 2 a 9% dos casos. Quando tal fato ocorre, há uma divisão independente da drenagem do ducto do segmento IV e do ducto do segmento lateral esquerdo. Não foram encontradas tais alterações no presente estudo. A única variável encontrada foi a não-formação de um tronco comum de união dos ductos dos segmentos II e III em 16% dos casos e a não-desembocadura do ducto de drenagem do segmento IV diretamente no ducto bilífero esquerdo em 8% dos casos.

RAT e col. 24 estudando a viabilidade da divisão dos elementos portais para o split liver, observaram em 33 figados de cadáveres que, em um caso, havia a união de dois ductos segmentares direitos junto ao ducto bilífero esquerdo e, em outro caso, ocorria junto ao hilo a confluência de ductos de drenagem independentes dos segmentos VI e VII, V e VIII, IV e II e III. Neste caso especificamente não houve a formação do ducto bilífero esquerdo. SILVA e col. 28 descrevem o diâmetro do ducto bilífero esquerdo entre 4 e 9 mm, com uma média de 5,80 mm. Em nossos moldes, observamos um diâmetro entre 2,7 e 6,8 mm, com um valor médio de 4,1 mm.

CHAIB e col. 6 realizaram estudo da anatomia biliar em 60 cadáveres, e descrevem o ducto bilífero esquerdo como sendo múltiplo em 57 casos (95%), sendo sua distribuição principal para os segmentos II, III e IV. Em apenas um caso apresentava ductos de drenagem dos segmentos V e VI. Em 45 casos observados, os autores referem que o ducto bilífero esquerdo recebia ramos dos segmentos II e III; em outros 11 casos, dos ductos II, III e IV. Tais valores vêm ao encontro de nossos resultados onde, em 92% dos casos, observamos o ducto bilífero esquerdo sendo formado pela confluência dos ductos de drenagem dos segmentos II, III e IV, porém não foram observados afluentes provenientes do lobo direito hepático.

LUNGWTZ21 realizou um estudo da drenagem biliar dos segmentos II e III do fígado. Quanto aos diâmetros, foram encontrados no segmento II valores entre 1,5 mm e 3,5 mm, com uma média de entre 2,0 e 2,5 mm. Em nossa casuística, encontramos, o valor mínimo de 1,4 mm e valor máximo de 3,5 mm com um valor médio entre 1,97 e 2,36 mm. No tocante ao segmento III, tal autor observou valores mais homogêneos, com uma média de 2,04 mm, sendo o ducto de menor calibre de 1,0 mm e o maior de 3,5 mm, havendo um predomínio de valores entre 1,5 e 2,5 mm (81,5% dos casos). Entre nós, observamos como ducto de menor calibre o de 1,6 mm e o de maior calibre 4,2 mm, ficando a média dos valores entre 2,35 e 2,56 mm. Quanto aos diâmetros encontrados no ducto bilífero esquerdo, descreve um valor médio de 3,64 mm, com uma variação de 2,0 a 6,0 mm, havendo um predomínio de valores entre 3,0 e 4,0 mm (76,3%). Nos casos por nós observados, encontramos valores entre 2,7 e 6,8 mm, com um valor médio entre 3,97 e 4,32 mm, com um prevalência de valores entre 3,5 e 4,5 mm (68%). Descreveu não ter encontrado variações na implantação dos ductos dos segmentos II e III; em todos os casos, a mesma ocorreu no ducto bilífero esquerdo. As variações pelo autor encontradas, foram quanto à maneira e ao local de implantação no ducto bilífero esquerdo. Tais dados vão o encontro dos por nós observados.

Quanto à veia hepática esquerda, observamos ser a mesma formada na maioria dos casos por um tronco curto, formado pela união de duas raízes provenientes do segmento lateral esquerdo. Tal observação coincide com a descrição de ELIAS e PETTY12, onde os autores descreveram a veia hepática esquerda como sendo formada por dois ramos principais: o radix cranialis aut superior e o radix cranialis aut inferior. Além de tais observações, relataram a existência do tronco comum, porém não descreveram a incidência e importância do mesmo.

COUINAUD9 considerou a disposição das veias hepáticas como sendo mais constante que a dos elementos do pedículo portal. A presença do tronco comum foi evidenciado em 97/100 casos. A veia hepática esquerda apresentou-se como responsável pela drenagem do lobo esquerdo sendo formada por um número bastante variado de veias, com tronco geralmente curto. Descreveu a presença em dezenove fígados de duas veias hepáticas esquerdas. Quanto à veia hepática intermédia, referiu ser a mesma responsável pela drenagem do segmento IV e setor paramediano direito. Em nossos moldes, encontramos o tronco comum em todos os casos e, em nenhuma peça, encontramos duas veias hepáticas esquerdas.

A presença de um tronco comum formado pelas veias hepática intermédia e esquerda assim como seus territórios de drenagem têm sido objeto de estudo de diversos autores. Nos casos por nós observados, encontramos a formação de um tronco comum em todos os moldes (100%). A alta prevalência da presença do tronco comum foi confirmada nos estudos realizados por GOLDSMITH e WOODBURNE13 que descrevem tal tronco como tendo cerca de 1 cm de comprimento, ARAI1 que observou tal incidência em 83,7% dos moldes e BAIRD e BRITTON2 que descreveram a presença do mesmo em 94% dos casos, e tal segmento venoso apresentava um comprimento entre 2 e 22 mm. SILVA e col. 28 descreveram, em seus achados, a existência do tronco comum formado pelas veias hepáticas esquerda e intermédia em 18 dos 20 figados dissecados (90%) e REICHERT25 relatou a existência do tronco comum em 97,4% dos casos (77/79 moldes). Destes, observou que a desembocadura do mesmo ocorria em nível inferior ao da veia hepática direita em 33,7%; em outros 12,9%, ocorria em nível superior e em 53,2% ocorria no mesmo nível.

Quanto ao diâmetro do tronco comum, NAKAMURA e TSUZUKI23 descreveram tais medidas com um valor médio de 1,7 ± 0,5 cm. REICHERT25 relatou que o tronco comum apresentou calibre entre 1,25 e 2,1 cm com média de 1,68 cm. Dentre os casos por nós estudados, o diâmetro médio do tronco comum variou entre 9,0 e 18,2 mm.

COUINAUD e NOGUEIRA10 descreveram um tronco comum entre a veia hepática esquerda e intermédia em 28/30 moldes. Classificaram a veia hepática esquerda em quatro tipos diferentes: uma veia grossa principal recebendo afluentes importantes, do bordo posterior e um paramediano ao tronco principal em 20/30 moldes; uma disposição em forma de pincel em 6/30 moldes; duas veias hepáticas esquerdas em dois moldes e, em dois moldes,

havia três veias de igual calibre, em leque, convergindo para formar o tronco hepático esquerdo.

Quanto ao território de drenagem da veia hepática esquerda, o segmento lateral esquerdo e parte do segmento IV em sua porção superior, representaram as áreas drenadas. Outros autores5,20,23,25, descreveram a drenagem venosa do fígado a partir da veia hepática esquerda, drenando o segmento lateral esquerdo e parte do segmento medial do fígado, a veia hepática intermédia drenando o segmento medial esquerdo e parte do segmento anterior direito. Tais achados vêm confirmar nossas observações quanto ao território de drenagem da veia hepática esquerda. NAKAMURA e TSUZUKI23 observaram que as veias hepáticas esquerda e intermédia formavam um tronco comum em 70 dos 83 moldes. O comprimento desde a veia cava inferior até a bifurcação do tronco comum variou entre 0,2 e 1,7 cm. SILVA e col. 28 descreveram que o diâmetro da veia hepática esquerda variou entre 12 e 20 mm, com média de 15 mm. REICHERT25 demonstrou que a veia hepática esquerda apresentou calibre entre 0,6 e 1,6 cm com média de 1,19 cm. Nossos achados quanto ao diâmetro da veia hepática esquerda demonstraram uma variação entre 7,1 e 14,3 mm, com uma média de 9,64 mm.

CONCLUSÕES

A avaliação dos diâmetros e distâncias das estruturas que compõem o segmento lateral esquerdo do fígado assim como a constância das mesmas, vêm demonstrar que tal área pode ser utilizada como doadora nas reduções hepáticas para o transplante, bem como sua retirada em casos de tumores é plenamente viável. Convém salientar que frente às possíveis variações anatômicas a serem encontradas na região, devemos lançar mão de métodos de imagem a fim de se obterem informações quanto a anatomia vascular e biliar e com isto evitarpossíveis complicações técnicas decorrentes do desconhecimento anatômico preciso da região.

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  • 1
    - Resumo da Tese de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina ( UNIFESP-EPM). Curso de Pós Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP - EPM
    2,3. Departamento de Morfologia, Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica da UNIFESP- EPM
    4
  • 2
    - Mestre em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP - EPM
  • 3
    - Professor Titular do Departamento de Cirurgia da UNIFESP - EPM
  • 4
    - Professor Titular da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica da UNIFESP - EPM
  • 4
    - JETâ - acrilico autopolimerizante
  • *
    Os valores do diâmetro da veia hepática esquerda do sexo masculino são significantemente maiores que os do sexo feminino
  • #
    Os valores do diâmetro da veia hepática intermédia do sexo masculino são significantemente maiores que os do sexo feminino

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Nov 1998
  • Data do Fascículo
    Jan 1998
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