RESUMO
Objetivo Identificar se há presença de tipos de ansiedade em homens e mulheres transgênero e verificar uma possível relação com a autopercepção vocal.
Métodos Estudo transversal, exploratório, com abordagem quantitativa, realizado com 15 homens e 15 mulheres transgênero, entre 18 e 45 anos de idade. Foram aplicados: questionário sociodemográfico; protocolo Trans Woman Voice Questionnaire (TWVQ); TWVQ adaptado para o gênero masculino; Escala de Sintomas Vocais (ESV) e recorte da escala Mini International Neuropsychiatric Interview, focado em transtornos de ansiedade. Os dados foram tratados e analisados por meio de estatística descritiva e inferencial, considerando p=0,05.
Resultados Homens e mulheres transgênero apresentaram insatisfação vocal e pontuações semelhantes no domínio físico da ESV, indicando sintomas vocais com impactos físicos em ambos os grupos. Mulheres transgênero apresentaram escores mais elevados no TWVQ e na ESV total. Foram observadas fortes correlações entre alterações psicológicas e sintomas vocais, especialmente entre agorafobia e pontuação total no ESV.
Conclusão O TWVQ, originalmente desenvolvido para mulheres trans, sugere insatisfação vocal para ambos os grupos estudados, sem associação direta com a presença dos tipos de ansiedade. A ESV apresenta correlações significativas entre sintomas vocais e presença de transtornos de ansiedade, como agorafobia e fobia social.
Palavras-chave:
Ansiedade; Pessoas transgênero; Voz; Autopercepção; Agorafobia; Fobia social
ABSTRACT
Purpose To identify the presence of different types of anxiety disorders in transgender men and women and to examine a possible relationship with vocal self-perception.
Methods This was a cross-sectional, exploratory study with a quantitative approach, conducted with 15 transgender men and 15 transgender women aged 18 and 45 years. The following instruments were applied: (a) a sociodemographic questionnaire; (b) the Transgender Woman Voice Questionnaire (TWVQ); (c) an adaptation of the TWVQ for the male gender; (d) the Vocal Symptoms Scale (VSS); and (e) a selected section of the Mini International Neuropsychiatric Interview (M.I.N.I.), focused on anxiety disorders. Data were processed and analyzed using descriptive and inferential statistics, with the significance level set at p < 0.05.
Results Transgender men and women showed vocal dissatisfaction and similar scores in the physical domain of the VSS, indicating vocal symptoms with physical impact in both groups. Transgender women presented higher scores on the TWVQ and on the total VSS. Significant correlations were observed between psychological alterations and vocal symptoms, particularly between agoraphobia and the total VSS score.
Conclusion The TWVQ, originally developed for transgender women, indicates vocal dissatisfaction in both groups studied, with no direct association with the presence of anxiety disorders. The VSS showed significant correlations between vocal symptoms and the presence of anxiety disorders such as agoraphobia and social phobia.
Keywords:
Anxiety; Transgender persons; Voice; Self concept; Agoraphobia; Phobia social
INTRODUÇÃO
Pessoas transgênero podem experimentar uma trajetória de busca constante de pertencimento ao gênero com o qual se identificam. Esse processo pode ser acompanhado por situações de estresse, ansiedade e vulnerabilidade, principalmente relacionadas à voz. Ainda, o entendimento de vozes femininas e masculinas advindo da cultura do binarismo sexual e de gênero na sociedade atual alimenta a busca pela “voz ideal” da população transgênero nos serviços de Fonoaudiologia(1).
A voz é um instrumento de afirmação de gênero, que pode ser modificada ao longo do processo de transição. Em homens transgênero, a hormonioterapia com testosterona costuma promover o rebaixamento da frequência fundamental, resultando em um pitch mais grave, que pode ser satisfatório em muitos casos(2). Em contrapartida, o tratamento hormonal em mulheres transgênero não produz mudanças vocais significativas(3). Dessa forma, muitas mulheres transgênero buscam procedimentos cirúrgicos e fonoterapia para mudança vocal(3).
A terapia vocal deve considerar as individualidades de cada sujeito, sendo construída a partir de expectativas, vivências e demandas acerca da expressão vocal. Essa abordagem se insere em um modelo biopsicossocial(4), no qual o fonoaudiólogo atua de forma centrada no indivíduo, tratando-o em sua totalidade e respeitando as suas características e histórias individuais(5). Nesse cenário, a atuação fonoaudiológica tem papel relevante no aprimoramento vocal e comunicação da população transgênero, grupo que comumente sofre com a disforia de gênero, sentimento de não pertencimento ao gênero que foi atribuído ao nascimento, comprometendo seu funcionamento social(6).
A frustração gerada pela não identificação vocal relacionada ao gênero, associada à vivência em uma sociedade marcadamente cisnormativa, pode contribuir para o desenvolvimento de transtornos psicológicos, sendo possível sua avaliação por meio do protocolo Trans Woman Voice Questionnaire (TWVQ). O TWVQ é um instrumento de autoavaliação, originalmente desenvolvido para mulheres transgênero, composto por itens que avaliam o impacto da voz na vida cotidiana, incluindo aspectos relacionados à percepção vocal, à congruência entre voz e identidade de gênero e às limitações funcionais associadas ao uso da voz. Os itens são respondidos em escala ordinal, sendo que escores mais elevados indicam maior impacto negativo da voz e maior insatisfação vocal.
Evidências indicam que pessoas trans apresentam maior prevalência de ansiedade, incluindo transtorno de ansiedade generalizada, agorafobia e fobia social, classificados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V)(7). Assim, esses quadros podem impactar negativamente a qualidade de vida e a autonomia desses indivíduos(8). A investigação desses transtornos pode ser realizada por meio de entrevistas estruturadas, como a Mini International Neuropsychiatric Interview (M.I.N.I.)(9), instrumento amplamente utilizado para rastreio e avaliação de transtornos mentais em diferentes contextos clínicos e de pesquisa.
A satisfação vocal, compreendida como a autopercepção positiva da própria voz, é imprescindível para o bem-estar e a sensação de pertencimento ao gênero desejado. Vozes socialmente percebidas como femininas ou masculinas possuem características vocais distintas, como padrões de ressonância, modulação, velocidade de fala, intensidade e pitch vocal(3). Estudo aponta que pessoas transgênero frequentemente relatam autopercepção vocal negativa e que, em mulheres transgênero, essa insatisfação, associada à desvantagem vocal, pode estar relacionada à forma como suas vozes são percebidas por terceiros(3).
A avaliação da autopercepção vocal, método comumente utilizado na clínica, permite identificar o grau de satisfação vocal do indivíduo e pode ser correlacionada com a qualidade de vida da pessoa. Estudo(10) demonstra que as pessoas transgênero podem apresentar uma impressão geral negativa sobre a própria voz, assim como tendência à autopercepção de voz neutra. Além disso, maiores escores no TWVQ têm sido associados à pior qualidade de vida em voz, o que pode impactar a qualidade de vida em mulheres transgênero(11).
A compreensão da relação entre autopercepção vocal e transtornos de ansiedade na população transgênero possui importantes implicações clínicas e sociais. No contexto da prática fonoaudiológica, a identificação de possíveis associações entre sintomas vocais e sofrimento psíquico pode contribuir para avaliações mais abrangentes e para o planejamento de intervenções que ultrapassem uma abordagem estritamente técnica da voz, incorporando dimensões emocionais, subjetivas e sociocomunicativas. Do ponto de vista social, essa discussão é particularmente relevante em uma população historicamente exposta à transfobia, à exclusão e à deslegitimação de sua identidade de gênero, fatores que podem impactar diretamente tanto a saúde mental, quanto a expressão vocal(7,12). Assim, investigar essas relações pode favorecer práticas mais sensíveis, integradas e centradas na pessoa.
Apesar dos avanços na literatura, ainda são escassos estudos que investigam conjuntamente a autopercepção vocal e transtornos de ansiedade na população transgênero, especialmente incluindo homens transgênero e utilizando instrumentos específicos de avaliação vocal e psicológica. No mais, o presente estudo teve como objetivo identificar se há presença de tipos de ansiedade em homens e mulheres transgênero e verificar uma possível relação com a autopercepção vocal.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal, exploratório, com abordagem quantitativa, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (CEP/UNICAMP), com Parecer número 6.643.348. Todos os indivíduos envolvidos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Participantes
Participaram 30 indivíduos autodeclarados transgênero, sendo 15 mulheres e 15 homens, dispostos no núcleo universitário da UNICAMP e no ambulatório de gênero do Hospital das Clínicas da UNICAMP, por meio de indicações de coletivos locais encontrados nas redes sociais, utilizando a técnica “bola de neve”(13), o que caracteriza uma amostra não probabilística.
Os critérios de inclusão foram: indivíduos entre 18 e 45 anos de idade, autodeclarados transgênero, e que faziam, ou já haviam feito, o uso de hormônios. Os critérios de exclusão incluíram cidadãos analfabetos, pessoas que já haviam realizado cirurgias laríngeas e indivíduos que possuíam algum tipo de transtorno ou deficiência em que a comunicação entre avaliador e participante se tornasse inviável.
Procedimentos
A coleta de dados foi realizada presencialmente, por meio de entrevista individual, em ambiente privativo, garantindo o sigilo e a integridade dos participantes. As entrevistas tiveram duração média de 20 minutos e incluíram a aplicação de questionário sociodemográfico e de instrumentos padronizados de avaliação vocal e psicológica.
Instrumentos
Foi aplicado um questionário sociodemográfico elaborado pelos autores, contendo informações de idade, profissão, escolaridade e uso de hormônios.
A autopercepção vocal foi avaliada por meio do protocolo Trans Woman Voice Questionnaire (TWVQ)(14), instrumento traduzido para o português para mulheres transgênero, composto por 30 itens que objetivam a avaliação global da voz atual e da voz desejada e quatro opções de resposta em escala ordinal. O escore total é obtido pela soma das respostas, sendo que valores mais elevados indicam maior impacto vocal percebido. Utilizou-se a versão traduzida para o português publicada em 2015, uma vez que a coleta de dados foi realizada antes da publicação da versão atualizada de 2025(15). Como o protocolo é direcionado para mulheres transgênero, foram realizadas modificações sistemáticas nos itens, incluindo a adequação de pronomes e adjetivos para o gênero masculino e ajustes em termos relacionados à produção do pitch (por exemplo, referências à voz “grave” e “aguda”) e à identidade de gênero (como “homem” e “mulher”), conforme realizado em estudo anterior(1). Esse ajuste não garante equivalência psicométrica, sendo seu uso considerado exploratório no presente estudo.
O uso da voz foi avaliado por meio do instrumento Grau de Quantidade da Fala e Intensidade Vocal (GQFIV)(16) traduzido para o português(17), que investiga a quantidade e a intensidade vocal em contextos habituais e de trabalho, mediante escala ordinal de 7 pontos, sendo “pessoa quieta não falante” (1-3), “pessoa que fala moderadamente” (4-6) e “pessoa extremamente falante” (7)(18). Considerando que a intensidade vocal não foi mensurada objetivamente, utilizou-se o termo loudness para descrever essa variável.
Os sintomas vocais foram avaliados pela Escala de Sintomas Vocais (ESV), instrumento validado para o português(19), composto por itens distribuídos nos domínios total, limitação, emocional e físico, com nota de corte de 16 pontos.
A presença de transtornos de ansiedade foi investigada por meio de um recorte da Mini International Neuropsychiatric Interview (M.I.N.I.)(9), entrevista diagnóstica estruturada proposta por anteriormente(20) e validada para o português brasileiro(9). Foram aplicados os módulos E - Transtorno de Pânico, F - Agorafobia, G - Fobia social, J - Transtorno de Estresse Pós Traumático e P - Transtorno de Ansiedade Generalizada. A aplicação do protocolo foi realizada presencialmente por três dos autores do estudo, previamente treinados. Considerando o delineamento do estudo, o instrumento foi utilizado com finalidade de rastreio dos transtornos de ansiedade, não sendo realizado diagnóstico clínico formal.
Análise dos dados
A análise estatística inferencial foi conduzida no software Jamovi, versão 2.3.281. Inicialmente, realizou-se análise descritiva das variáveis, incluindo médias, desvios padrão, valores mínimos e máximos. A normalidade dos dados foi avaliada por meio do teste de Shapiro-Wilk, indicando distribuição não normal das variáveis.
Dessa forma, foram empregados testes estatísticos não paramétricos. Para análises de associação entre os grupos de participantes e variáveis categóricas binárias foi utilizado o teste do Qui-quadrado. As comparações entre grupos foram realizadas por meio do teste de Kruskal-Wallis, com aplicação do teste de comparações múltiplas de Dwass–Steel–Critchlow–Fligner, quando necessário. Comparações entre medidas pareadas foram conduzidas com o teste de Wilcoxon.
As associações entre variáveis foram analisadas por meio do coeficiente de correlação de Spearman. A força da correlação foi descrita com base na magnitude dos coeficientes de correlação de Spearman (R), conforme os critérios: fraca (|R|=0,1–0,3), moderada (|R|=0,3–0,5) e forte (|R|≥0,5). Adotou-se nível de significância de 5%(21,22).
RESULTADOS
Participaram do estudo 30 pessoas transgênero, sendo 15 homens e 15 mulheres. A Tabela 1 apresenta a análise descritiva das variáveis contínuas e o teste de normalidade, além dos escores do TWVQ total.
Nas análises de associação entre os grupos de participantes e variáveis categóricas binárias, utilizando o teste do Qui-quadrado de Pearson, não foram observadas diferenças entre os grupos para nenhuma das variáveis analisadas, conforme demonstrado na Tabela 2.
Frequência de respostas ‘sim’ e ‘não’ para variáveis de saúde mental e uso de substâncias por grupo e resultados do teste Qui-quadrado
No que se refere às variáveis de autopercepção vocal, a Tabela 3 apresenta as estatísticas descritivas e a comparação entre grupos para as perguntas do TWVQ, original e adaptado para homens trans, referentes à percepção da voz atual, à voz ideal e à variável de incongruência, obtida pela diferença entre os valores atribuídos à voz ideal e à voz atual. Não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres transgênero para a variável “Minha voz é”. Foram identificadas diferenças significativas entre os grupos para as variáveis “Minha voz poderia soar” e “Incongruência”. Mulheres transgênero apresentaram maior desejo por uma voz mais feminina, enquanto homens trans relataram maior desejo por uma voz mais masculina.
Estatísticas descritivas e comparação entre grupos das variáveis do Trans Woman Voice Questionnaire relacionadas à autopercepção vocal (voz atual, voz ideal e incongruência)
Quanto ao uso da voz, a Tabela 4 apresenta as estatísticas descritivas das variáveis quantidade e intensidade vocal autorreferidas nos contextos habitual e de trabalho. Não foram observadas diferenças significativas entre os contextos para nenhum dos grupos avaliados.
Estatísticas descritivas e resultados do teste de Wilcoxon para variáveis de quantidade e intensidade vocal autorreferidas
Por fim, as correlações entre os protocolos de autoavaliação vocal e a presença de transtornos de ansiedade estão apresentadas na Tabela 5. Foram observadas correlações significativas entre os escores do TWVQ (aplicado de forma adaptada nos homens trans) e da ESV, bem como entre os domínios da ESV. Além disso, verificaram-se correlações significativas entre a presença de agorafobia, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada com os escores da ESV, particularmente nos domínios total, limitação e físico. Também foram observadas associações entre variáveis do GQFIV e escores de sintomas vocais.
Correlações de Spearman entre protocolos de autoavaliação vocal e presença de transtornos mentais
DISCUSSÃO
O presente estudo contribui para o campo de pesquisa em voz e gênero, além de associar temas em destaque dos últimos anos - transtornos mentais - com a atuação fonoaudiológica em voz, uma vez que investigou a presença de diferentes tipos de ansiedade em homens e mulheres transgênero e sua relação com a autopercepção vocal. Os achados indicam que ambos os grupos apresentaram insatisfação vocal e sintomas vocais autorreferidos, além de elevada ocorrência de transtornos de ansiedade, com associações relevantes entre sintomas vocais e indicadores de ansiedade.
No que se refere à autopercepção vocal, homens e mulheres transgênero apresentaram escores no TWVQ original e adaptado (Tabela 1), respectivamente, com médias de 54,2 para homens trans e 69,6 para mulheres trans, sugerindo maior impacto percebido da voz. Embora as diferenças entre os grupos nem sempre tenham sido significativas em todos os domínios, mulheres transgênero apresentaram escores mais elevados nos instrumentos de autopercepção e sintomas vocais globais. No entanto, essas diferenças devem ser interpretadas com cautela, uma vez que o TWVQ foi originalmente desenvolvido para mulheres transgênero. Esses achados são consistentes com estudos anteriores que apontam maior impacto vocal percebido por mulheres transgênero, possivelmente relacionado à menor resposta vocal à hormonioterapia nesse grupo e à maior pressão social para adequação da voz a padrões de feminilidade cisnormativos(3,23).
A Escala de Sintomas Vocais (ESV) revelou associações mais consistentes com os indicadores de ansiedade do que o TWVQ. Em especial, os domínios total, limitação e físico da ESV apresentaram correlações com agorafobia, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada. Esses resultados sugerem que sintomas vocais percebidos como limitações funcionais e desconfortos físicos podem estar mais diretamente relacionados ao sofrimento psíquico do que à percepção global de adequação da voz ao gênero, achado que dialoga com evidências que indicam que experiências vocais negativas estão associadas à pior qualidade de vida e maior impacto emocional em pessoas transgênero(10,11). Destaca-se que parte da amostra apresentou escores acima da nota de corte na ESV, indicando possível risco para distúrbios vocais, o que reforça a associação entre sintomas vocais e indicadores de ansiedade observada no estudo.
A ausência de correlação direta entre o TWVQ e os tipos de ansiedade investigados pode ser interpretada considerando diferenças conceituais entre os instrumentos. O TWVQ é um protocolo específico para mulheres trans que aborda a satisfação vocal em relação à identidade de gênero e a contextos sociais, enquanto a ESV avalia sintomas vocais de forma mais ampla e funcional. Dessa forma, é possível que os participantes reconheçam desconfortos e limitações vocais sem necessariamente associá-los diretamente à insatisfação vocal relacionada ao gênero, o que explicaria a maior sensibilidade da ESV para captar associações com ansiedade. Vale ressaltar que a versão brasileira do TWVQ foi atualizada em 2025(15), o que pode implicar diferenças em investigações futuras, uma vez que, sendo a versão mais recente, organiza o instrumento em domínios distintos relacionados à congruência entre voz e gênero, à produção vocal e ao impacto e à restrição vocal.
Uma experiência vocal menos positiva pode estar relacionada ao aparecimento de sintomas vocais como rouquidão. Além disso, mulheres transgênero com menor satisfação vocal tendem a estar menos inseridas no mercado de trabalho e a não se apresentarem socialmente de forma plena com o gênero com o qual se identificam. Além disso, uma autoavaliação vocal negativa pode estar associada a distúrbios psíquicos(24).
Os resultados relacionados ao uso da voz, avaliados pelo GQFIV, indicaram que indivíduos com maiores sintomas vocais e presença de transtornos de ansiedade tendem a relatar menor quantidade e intensidade de fala em determinados contextos. Esse padrão pode refletir comportamentos de evitação e retração social, frequentemente associados a quadros de ansiedade, especialmente agorafobia e fobia social. Estudos prévios apontam que pessoas transgênero podem reduzir sua participação e intensidade vocal em ambientes sociais como estratégia de proteção frente ao medo de julgamento, discriminação ou violência(25,26).
Diante da presença de diferentes tipos de ansiedade em ambos os grupos, associada à insatisfação vocal e aos sintomas vocais identificados, torna-se relevante considerar os impactos desses achados nos aspectos sociocomunicativos. Experiências sociais negativas de pessoas transgênero favorecem o surgimento de insegurança e desconforto, levando algumas delas a buscar a passabilidade como estratégia de proteção frente ao assédio e à violência. Nesse contexto, a passabilidade não se configura como um ideal a ser alcançado, mas como um recurso de sobrevivência em uma sociedade cisnormativa, na qual a voz pode atuar como estopim para a contestação da identidade de gênero(4).
Destaca-se, ainda, que a busca por passabilidade é vivenciada de forma heterogênea, coexistindo com posicionamentos de recusa ou relativização dessa demanda, o que evidencia que o sofrimento associado à voz e à comunicação não é inerente à transgeneridade, mas está relacionado às dinâmicas sociais de deslegitimação e vulnerabilidade. Ressalta-se que o reconhecimento da identidade de gênero é um direito assegurado por lei, e que práticas discriminatórias, como a transfobia, configuram violação legal no contexto brasileiro(27).
Do ponto de vista clínico e social, os achados reforçam a importância de uma abordagem fonoaudiológica integrada, que considere não apenas aspectos técnicos da produção vocal, mas também fatores emocionais, psicológicos e contextuais. A elevada prevalência de ansiedade observada em ambos os grupos evidencia a vulnerabilidade psíquica dessa população, frequentemente exposta a contextos de transfobia estrutural, exclusão social e barreiras de acesso aos serviços de saúde(12,28).
Estudos apontam que a incongruência vocal pode estar associada a discriminações públicas e médicas, além de assédios verbais(29). A falta de suporte e preconceito por parte de profissionais da saúde pode gerar o abandono de acompanhamentos da população transgênero(28). Nesse sentido, a atuação interdisciplinar e sensível às questões de gênero torna-se fundamental para promover cuidado integral e reduzir o sofrimento associado à voz e à comunicação.
Este estudo apresentou limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A coleta presencial, realizada em ambiente universitário, limitou uma amostra mais variada. Além disso, o tamanho reduzido da amostra, aliado ao número de análises realizadas, pode aumentar o risco de erro tipo I (falsos positivos) e, por se tratar de um estudo transversal, não foi possível estabelecer relações de causalidade entre as variáveis, devendo os resultados ser interpretados com cautela, considerando apenas a amostra deste estudo.
A utilização do TWVQ em homens trans por meio de adaptação linguística dos itens também constituiu uma limitação do estudo, podendo ter influenciado as diferenças observadas entre os grupos. No entanto, essa escolha reflete a escassez de instrumentos validados para essa população, sendo essa estratégia também observada em estudos prévios(1,30,31). Ainda, destaca-se a ausência de medidas vocais objetivas, como análise acústica ou julgamento perceptivo-auditivo, o que restringe a compreensão multidimensional da voz.
Salienta-se que variáveis clínicas como tempo de transição de gênero, histórico de acompanhamento fonoaudiológico e treinamento vocal não foram controladas no presente estudo, embora o tempo de hormonioterapia tenha sido considerado e tenha apresentado ampla variabilidade entre os participantes. Dessa forma, esses fatores devem ser ponderados em estudos futuros, com delineamentos que permitam maior controle dessas variáveis. Ainda assim, ao incluir homens e mulheres transgênero e utilizar instrumentos específicos de avaliação vocal e psicológica, a pesquisa contribui para ampliar a compreensão das relações entre voz, ansiedade e saúde na população transgênero.
Sugere-se que novos estudos investiguem amostras mais variadas e delineamentos longitudinais que permitam analisar a direção das relações entre sintomas vocais e transtornos de ansiedade. Também é relevante considerar uma nova análise, com base na versão atual do TWVQ(15), agora subdividida em fatores.
CONCLUSÃO
Observou-se a presença de diferentes tipos de ansiedade em todos os participantes do estudo, indicando vulnerabilidade psíquica nessa população. Embora o Trans Woman Voice Questionnaire (TWVQ), originalmente desenvolvido para mulheres trans, tenha indicado insatisfação vocal em ambos os grupos estudados, não foi identificada associação direta entre esse instrumento e a presença dos tipos de ansiedade investigados. Em contrapartida, a Escala de Sintomas Vocais (ESV) apresentou associações entre sintomas vocais e transtornos de ansiedade, especialmente agorafobia e fobia social. Dessa forma, o presente estudo evidencia correlação entre sintomas vocais e ansiedade em homens e mulheres transgênero, além de presença de insatisfação vocal.
AGRADECIMENTOS
A todos que permitiram a concretização desta pesquisa, especialmente ao Ambgen (Ambulatório de Gênero e Sexualidades da Universidade Estadual de Campinas), local onde ocorreu a maioria das coletas, e às agências de fomento: Fundação de Desenvolvimento da Unicamp/Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FUNCAMP/FAEPEX), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (CNPq/PIBIC).
-
Trabalho realizado na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – Campinas (SP), Brasil.
-
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis em repositório Institucional da Universidade Estadual de Campinas. Ferreira, Maria Vitória Leão; Constantini, Ana Carolina, 2026, “Aspectos vocais e transtornos ansiosos na população transgênero: estudo sobre as relações”, https://doi.org/10.25824/redu/GTYWMW, Repositório de Dados de Pesquisa da Unicamp, V1
-
Financiamento:
Fundação de Desenvolvimento da Unicamp/Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (FUNCAMP/FAEPEX); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico /Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (CNPq/PIBIC).
REFERÊNCIAS
-
1 Martinho DHC, Dias ER, Constantini AC. Different measures of fundamental frequency and vocal satisfaction among transgender men and women. CoDAS. 2025;37(1):e20240087. https://doi.org/10.1590/2317-1782/e20240087en PMid:39879427.
» https://doi.org/10.1590/2317-1782/e20240087en -
2 Costa LBF, Rosa-e-Silva ACJS, Medeiros SF, Nacul AP, Carvalho BR, Benetti-Pinto CL, et al. Recommendations for the use of testosterone in male transgender. Rev Bras Ginecol Obstet. 2018;40(5):275-80. https://doi.org/10.1055/s-0038-1657788 PMid:29913543.
» https://doi.org/10.1055/s-0038-1657788 -
3 Schmidt JG, Goulart BNG, Dorfman MEKY, Kuhl G, Paniagua LM. Voice challenge in transgender women: trans women self-perception of voice handicap as compared to gender perception of naïve listeners. Rev CEFAC. 2018;20(1):79-86. https://doi.org/10.1590/1982-021620182011217
» https://doi.org/10.1590/1982-021620182011217 -
4 Sebastião TF, Constantini AC, Françozo MFC. Françozo MFC. Transgender women: their narrative on health, voice, and dysphoria. Distúrb Comun. 2022;34(3):e54938. https://doi.org/10.23925/2176-2724.2022v34i3e54938
» https://doi.org/10.23925/2176-2724.2022v34i3e54938 -
5 Leal GC, Silva AG, Silva JP, Martins MFL, Sanchez JF, Prudêncio JLG, et al. Atendimento fonoaudiológico à população transgênera: um relato de experiência. Med. 2023;56(3). https://doi.org/10.11606/issn.2176-7262.rmrp.2023.203887
» https://doi.org/10.11606/issn.2176-7262.rmrp.2023.203887 -
6 Fleury HJ, Abdo CHN. Atualidades em disforia de gênero, saúde mental e psicoterapia. Diagnóstico Trat. [Internet]. 2018 [citado em 2026 Fev 20];23(4):147-51. Disponível em: https://periodicosapm.emnuvens.com.br/rdt/article/view/153
» https://periodicosapm.emnuvens.com.br/rdt/article/view/153 -
7 Francisco LCFL, Barros AC, Pacheco MS, Nardi AE, Alves VM. Ansiedade em minorias sexuais e de gênero: uma revisão integrativa. J Bras Psiquiatr. 2020;69(1):48-56. https://doi.org/10.1590/0047-2085000000255
» https://doi.org/10.1590/0047-2085000000255 -
8 Costa CO, Branco JC, Vieira IS, Souza LDM, da Silva RA. Prevalência de ansiedade e fatores associados em adultos. J Bras Psiquiatr. 2019;68(2):92-100. https://doi.org/10.1590/0047-2085000000232
» https://doi.org/10.1590/0047-2085000000232 -
9 Amorim P. Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI): validação de entrevista breve para diagnóstico de transtornos mentais. Rev Bras Psiquiatr. 2000;22(3):106-15. https://doi.org/10.1590/S1516-44462000000300003
» https://doi.org/10.1590/S1516-44462000000300003 -
10 Santana EJ, Barbosa LJ, Irineu RA, Ribeiro VV. Vocal self-perception of trans women and trans men. Res Soc Dev. 2022;11(7):e17111729640. https://doi.org/10.33448/rsd-v11i7.29640
» https://doi.org/10.33448/rsd-v11i7.29640 -
11 Dornelas R, Guedes-Granzotti RB, Souza AS, Jesus AKB, Silva K. Quality of life and voice: the vocal self-perception of transgender people. Audiol Commun Res. 2020;25:e2196. https://doi.org/10.1590/2317-6431-2019-2196
» https://doi.org/10.1590/2317-6431-2019-2196 -
12 ANTRA: Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2023 [Internet]. 2024 [citado em 2026 Fev 20]. Disponível em: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2024/01/dossieantra2024-web.pdf
» https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2024/01/dossieantra2024-web.pdf -
13 Vinuto J. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa. Tematicas. 2014;22(44):203-20. https://doi.org/10.20396/tematicas.v22i44.10977
» https://doi.org/10.20396/tematicas.v22i44.10977 -
14 Santos HHANM, Aguiar AGO, Baeck HE, Van Borsel J. Translation and preliminary evaluation of the brazilian portuguese version of the transgender voice questionnaire for male-to-female transsexuals. CoDAS. 2015;27(1):89-96. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20152014093 PMid:25885202.
» https://doi.org/10.1590/2317-1782/20152014093 -
15 Irineu RDA, Ribeiro VV, Dornelas R, Aguiar AGO, Santos HH, Behlau M. Validation of a self-perception voice protocol for trans women: trans woman voice questionnaire. J Voice. 2025. No prelo. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2025.01.027 PMid:39939182.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2025.01.027 -
16 Reis ASBF, Medeiros AM, Constantini AC, Silva SSP, Ferreira LP, Masson MLV. Vocal fatigue among Brazilian public teachers during remote teaching: a multicenter study. Audiol Commun Res. 2024;29:e2933. https://doi.org/10.1590/2317-6431-2024-2933pt
» https://doi.org/10.1590/2317-6431-2024-2933pt - 17 Behlau M, Pontes P, Moreti F. Higiene vocal: cuidando da voz. Rio de Janeiro: Thieme Revinter; 2018.
-
18 Padilha MP, Moreti F, Raize T, Sauda C, Lourenço L, Oliveira G, et al. Grau de quantidade de fala e intensidade vocal de teleoperadores em ambiente laboral e extralaboral. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2012;17(4):385-90. https://doi.org/10.1590/S1516-80342012000400004
» https://doi.org/10.1590/S1516-80342012000400004 -
19 Moreti F, Zambon F, Oliveira G, Behlau M. Cross-cultural adaptation, validation, and cutoff values of the brazilian version of the voice symptom scale - VoiSS. J Voice. 2014;28(4):458-68. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2013.11.009 PMid:24560004.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2013.11.009 - 20 Sheehan DV, Lecrubier Y, Sheehan KH, Amorim P, Janavs J, Weiller E, et al. The Mini-International Neuropsychiatric Interview (M.I.N.I.): the development and validation of a structured diagnostic psychiatric interview for DSM-IV and ICD-10. J Clin Psychiatry. 1998;59(Suppl 20):22-33. PMid:9881538.
- 21 Mukaka MM. Statistics corner: a guide to appropriate use of correlation coefficient in medical research. Malawi Med J. 2012;24(3):69-71. PMid:23638278.
- 22 Cohen J. Statistical power analysis for the behavioral sciences. 2nd ed. Hillsdale: Lawrence Erlbaum Associates; 1988.
-
23 Cielo CA, Schwarz K, Gonçalves BFT, Lima JPM, Christmann MK. Speech therapy for transgender women. Res Soc Dev. 2021;10(14):e247101421651. https://doi.org/10.33448/rsd-v10i14.21651
» https://doi.org/10.33448/rsd-v10i14.21651 -
24 Oestreicher-Kedem Y, Jacob T, Lior Y, Kurzrock A, Goldman M, Wasserzug O, et al. Voice perception and mental health in transgender women. J Voice. 2024. No prelo. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2024.09.003 PMid:39393954.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2024.09.003 -
25 Menezes DP, de Lira ZS, de Araújo ANB, et al. Prosodic differences in the voices of transgender and cisgender women: self-perception of voice: an auditory and acoustic analysis. J Voice. 2024 Jul;38(4):844-57. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2021.12.020 PMid:35135714.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2021.12.020 -
26 Soncin G, Bafum EA, Gonçalves GAR, Borges GC, Santos KA, Fabbron EMG. Parâmetros vocais e prosódicos na fala de influenciadores digitais transgênero da mídia social brasileira. Rev Estud da Ling. 2024;32(3):700-37. https://doi.org/10.17851/2237-2083.32.3.700-737
» https://doi.org/10.17851/2237-2083.32.3.700-737 -
27 Garcia-Severino FC, Catoia CC, Kawakami EA. Feminoabjeções, lgbticídios e mariellecídios: pós-categorias para tensionar realidades. Estud Fem. 2023;31(3):1. https://doi.org/10.1590/1806-9584-2023v31n385005
» https://doi.org/10.1590/1806-9584-2023v31n385005 -
28 Rocon PC, Sodré F, Rodrigues A, Barros MEB, Wandekoken KD. Desafios enfrentados por pessoas trans para acessar o processo transexualizador do Sistema Único de Saúde. Interface. 2019;23:e180633. https://doi.org/10.1590/interface.180633
» https://doi.org/10.1590/interface.180633 -
29 Stryker SD, Dubey I, Madzia JL, Pickle S, Dion GR, McKenna VS. Vocal-gender incongruence, wellbeing, and safety: the medical necessity of gender-affirming vocal training. Int J Transgender Health. 2025 Mar 6;27(2):888-901. https://doi.org/10.1080/26895269.2025.2475183 PMid:41891066.
» https://doi.org/10.1080/26895269.2025.2475183 -
30 Cruz Martinho DH, Constantini AC. Gender presentation and voice satisfaction: self-perception of voice versus external perception. J Voice. 2025. No Prelo. https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2024.11.043 PMid:39890495.
» https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2024.11.043 -
31 Bultynck C, Pas C, Defreyne J, Cosyns M, T’Sjoen G. Organizing the voice questionnaire for transgender persons. Int J Transgend Health. 2019;21(1):89-97. https://doi.org/10.1080/15532739.2019.1605555 PMid:33005904.
» https://doi.org/10.1080/15532739.2019.1605555
Editado por
-
Editor-Chefe:
Maria Cecilia Martinelli Iorio.
-
Editor Associado:
Vanessa Veis Ribeiro.
Os dados da pesquisa estão disponíveis em repositório Institucional da Universidade Estadual de Campinas. Ferreira, Maria Vitória Leão; Constantini, Ana Carolina, 2026, “Aspectos vocais e transtornos ansiosos na população transgênero: estudo sobre as relações”, https://doi.org/10.25824/redu/GTYWMW, Repositório de Dados de Pesquisa da Unicamp, V1
