Memória do programa de pós-graduação em teoria psicanalítica

MEMÓRIA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEORIA PSICANALÍTICA

Magnífico Reitor – Professor Aloísio Teixeira

Decano do Centro de Ciências Humanas – Professor Marcelo Castro

Diretor do Instituto de Psicologia – Professor Marcos Jardim

Meus colegas, alunos, amigos.

Há exatos 40 anos, eu descia as escadas da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil tendo em mãos a portaria me nomeando professor auxiliar, para integrar a equipe do professor Antonio Gomes Penna, catedrático de Psicologia da Universidade.

A indicação tinha sido feita pelo próprio professor Penna. Essa indicação determinou a direção de muitas das minhas escolhas até hoje. Professor Penna e eu já nos conhecíamos desde o final da década de 1950, quando fui seu aluno no curso de filosofia, relação que continuou com os seminários sobre Henri Bérgson, que ele organizava em sua casa para um grupo reduzido de alunos. Relação que permaneceu, anos mais tarde, em seus cursos no Instituto de Psicologia.

Quando do convite e da indicação para eu integrar sua equipe no Instituto de Psicologia, o próprio Instituto estava se transformando de centro de pesquisa e ensino. Surgiu, então, um impasse: eu já era formado em Filosofia, e já lecionava havia alguns anos, mas ainda estava cursando o terceiro ano dessa primeira turma do curso de Psicologia... o impasse era o seguinte: como eu poderia continuar sendo aluno e professor do mesmo curso ao mesmo tempo? Como ser aluno do Instituto de Psicologia da UFRJ e professor do Instituto de Psicologia da UFRJ? Ou, particularizando ainda mais a questão: como ser professor dos meus próprios colegas? Claro que não deixamos a situação chegar a esse ponto: pedi transferência para a Universidade do Estado, a Uerj, e assumi na UFRJ a agradável e fértil tarefa de colaborar com o professor Penna.

No dia em que essa decisão foi tomada e o pedido de transferência foi autorizado, comuniquei o fato a ele. "Ótimo" ele disse, "amanhã às duas horas da tarde tenho que aplicar uma prova no segundo ano do curso de Filosofia. Você vai no meu lugar."

Na tarde do dia seguinte, entrei numa sala apinhada de alunos, muitos deles mais velhos do que eu, e declarei: "Boa tarde, meu nome é Luiz Alfredo Garcia-Roza e estou substituindo o professor Antonio Gomes Penna nessa prova." Passei o olhar por todos eles e perguntei: "Podemos começar?"

Estava iniciando naquele instante minha vida de professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro... que continuou por 35 anos.

Ao longo destes anos, tentei conciliar dois interesses que até então eu julgava conflitantes: apesar de eu ter acabado de entrar para o Instituto de Psicologia, minha escolha primeira tinha sido Filosofia.

Mesmo na Psicologia, o que me encantava era a zona de fronteira que ela mantinha e ainda mantém com a Filosofia — tal como acontece com a Matemática, com a Física e com várias outras ciências. Ultrapassar essas fronteiras significava invadir território estrangeiro, embora, não necessariamente território inimigo. Não raro, essa invasão deu lugar à criação de um novo território.

Quando me dei conta, por exemplo, de que a tão decantada objetividade do behaviorismo psicológico na verdade repousava à sombra do genial e enlouquecido empirismo de David Hume, ou que o propalado racionalismo da teoria gestaltista tinha seus fundamentos em Leibniz, autor da Monadologia, um dos momentos mais lindamente ficcionais da Filosofia, quando me dei conta dessas aparentes contradições, pensei: eis um lugar interessante de se experimentar, mas não permanecendo no centro protegido desse espaço de saber, e sim atravessando suas fronteiras.

E sem dúvida, poucos autores fizeram isso de forma tão genial como Freud ao romper os limites da neurologia e da psiquiatria no final do século XIX, criando a Psicanálise.

Foi precisamente essa fronteira que uma década antes de me aposentar resolvi explorar mais além do que havia explorado até então. O resultado primeiro dessa travessia foi o projeto de criação de um curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica a funcionar no Instituto de Psicologia.

O professor Marcos Jardim era, na época, o diretor do Instituto e o professor Cílio Ziviani, coordenador de pós-graduação. Sem o empenho pessoal e constante do primeiro e sem a colaboração do segundo, o projeto não teria brotado. Pouco tempo depois, recebi da Reitoria a autorização para tocar o projeto, o que implicava encontrar instalações, material, realocar funcionários e, sobretudo, encontrar professores.

Essa última tarefa, a mais difícil. A exigência fundamental era a de que todos os professores tivessem doutorado, além, é claro, de reconhecido saber em Psicanálise. Quando eu encontrava alguém com uma dessas qualidades, faltava a outra. Mas eu estava decidido a não abrir mão dessa exigência.

Saí à procura deste ser ainda raro. Na verdade, eu já sabia da existência de dois deles no Rio de Janeiro: Joel Birman e Anna Carolina Lo Bianco.

O contato com Joel foi o mais direto possível. Liguei para ele e disse: "Joel, quem está falando é Luiz Alfredo Garcia-Roza. Estou montando uma pós-graduação em Teoria Psicanalítica no Instituto de Psicologia da UFRJ, e à procura de professores que conheçam Psicanálise e tenham doutorado. Até agora só encontrei um. Você topa?" E ele respondeu. "Topo." "Ótimo, depois conversamos sobre detalhes." Quando eu ia desligar ele perguntou. "Quem foi o professor que você disse já ter encontrado?" "Você", respondi.

Éramos, então, dois.

Logo em seguida marquei um encontro com Anna Carolina Lo Bianco, que acabara de retornar de um doutorado em Londres. Achei que seria mais adequado tomarmos um chá num shopping perto da casa dela. Anna Carolina era professora da PUC, de onde fora aluna... além de morar defronte da Universidade Católica. Convencê-la a trocar um ambiente de trabalho que já lhe era familiar e garantido, extremamente cômodo pela proximidade, por uma instituição que lhe era desconhecida e um programa que ainda nem existia... ia ser difícil. Quando acabei de falar, ela ajeitou os óclinhos sem aro, e pediu um tempo para pensar. Cinco minutos.

Já éramos três.

Passaram-se alguns dias e veio me procurar uma moça com fala firme e decidida, e que acabara de desembarcar no Brasil portando um doutorado da Universidade de Paris, exatamente na área que me interessava. Tinha humor e uma cabeça da melhor qualidade. Era Teresa Pinheiro.

Tornamo-nos quatro.

Ainda sem casa própria, sem dinheiro, sem armas e sem mais ninguém, fomos à luta.

O que conseguimos, esse pequeno grupo de corajosos e eu, me deu grande alegria: criamos o primeiro Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica (mestrado e doutorado) de que se tinha notícia.

Digo que era um grupo de corajosos porque fui buscá-los onde já estavam estabelecidos e a única coisa que eu tinha para oferecer em troca era um salário modesto, muito trabalho e a chance de criar algo novo.

O fato foi que a idéia brotou, cresceu e floresceu. Passado algum tempo, a professora Ana Beatriz Freire retornou de Paris com seu Diploma de Estudos Aprofundados da Universidade de Paris VIII; já contávamos com a colaboração do professor Cílio Ziviani; mais tarde, o programa foi enriquecido com a entrada da professora Tânia Coelho dos Santos, do professor Waldir Beividas, e da professora Regina Herzog, e, mais recentemente, das professoras Angélica Bastos, Marta Resende e da recentíssima Fernanda Costa-Moura. Hoje em dia, o Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica é um programa sólido e reconhecido internacionalmente.

Minha admiração pela ousadia e coragem daquele pequeno grupo de 20 anos atrás, é ilimitada... e o carinho que sempre senti por ele e da parte dele são maiores do que consigo dizer neste momento.

Se considerarmos os conceitos científicos como construções lógicas, ou ficções lógicas, toda teoria científica é uma science fiction. Devo confessar que o que sempre me interessou na science fiction não foi tanto a science, mas a fiction.

Assim, quando ao final do meu percurso universitário deixo a Universidade para fazer ficção literária, é como se eu continuasse a procurar esse lugar de fronteira. Agora, com mais liberdade... Mas também com grande desamparo.

A Universidade ampara seus professores, seus autores: fornece comentadores, fontes de consulta, modelos de pensamento (teorias), pequenos caminhos já percorridos a pé ou estradas pavimentadas e sinalizadas... fornece um solo institucional e um céu de teorias.

O escritor de ficção, ao contrário, é um solitário que quando olha para cima e para baixo vê apenas um enorme vazio. Para o mundo que ele vai criar, pequeno ou grande, não tem a quem pedir ajuda.

É possível que por ter sentido o conforto e o abrigo de ter vivido tanto tempo sobre esse solo e sob esse céu, eu hoje me sinta seguro para enfrentar o desamparo provocado pela ousadia de tentar criar.

Ser professor da UFRJ foi para mim um grande prazer.

Sinto-me muito honrado com esta homenagem.

Obrigado.

Luiz Alfredo Garcia-Roza

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2007
  • Data do Fascículo
    Jun 2007
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