RESUMO
Este trabalho avaliou o efeito da temperatura sobre uma formulação pó molhável de B. anticarsia, mantida sob diferentes condições de armazenamento (10, 20, 30, 40 e 50 ºC). Por ocasião do preparo do bioinseticida e após 7 dias, amostras do material foram diluídas em água e pipetadas sobre a superfície de dieta artificial a ser fornecida a lagartas de Anticarsia gemmatalis com 1,5 cm de comprimento. A testemunha recebeu somente água destilada estéril. As temperaturas acima de 40 ºC afetaram a eficiência do vírus.
PALAVRAS-CHAVE:
Formulação; Baculovirus anticarsia, temperatura; Anticarsia gemmatalis.
ABSTRACT
This experiment was conducted to evaluate the effect of temperature on Baculovirus anticarsia in five conditions of storage (10, 20, 30, 40 e 50ºC). Temperatures above 40 ºC reduced the efficacy of microrganism.
KEY WORDS:
Formulation; Baculovirus anticarsia, temperature; Anticarsia gemmatalis.
INTRODUÇÃO
Para o sucesso no desenvolvimento de uma formulação a base de agentes de controle microbiano, diversos fatores devem ser considerados, entre os quais os de natureza física e química, como pH, umid<,1de e temperatura.
Em geral, os vírus entomopatogênicos são muito estáveis a baixas temperaturas. Os trabalhos mostram que os vírus, especialmente aqueles com os corpos de inclusão intactos, quando armazenados em cadáveres, pós secos ou em suspensões abrigadas da luz e mantidas entre O e 4 ºC, mantiveram sua atividade original elevada por vários anos (DAVID & GARDINER, 1967; DULMAGE & BURGERJON, 1977; JACQUES, 1985). Por outro lado, os vírus de partículas livres são menos estáveis mesmo a baixas témperaturas.
Os Baculovirus são menos estáveis a temperatura ambiente, embora possam permanecer ativos por longos períodos, dependendo do método de armazenamento. A atividade do vírus de poliedrose nuclear (VPN) de Diprion hercyniae decresceu consideravelmente após 2 anos de armazenamento (NEILSON & ELGEE, 1960) enquanto o VPN de Lymantria dispar manteve sua eficiência por igual período (LEWIS & ROLLINSON, 1978).
Os vírus entomopatogênicos sendo constituídos de nucleoproteínas são suscetíveis a.desnaturação quando expostos as altas temperaturas. Entre 38 e 42ºC foi observada perda de atividade significativa dentro de poucos meses ou mesmo semanas (DAVID & GARDINER, 1967; HUNTER et al., 1973; LEWIS & ROLLINSON, 1978). Acima de 50 ºC, a atividade do patógeno é perdida em questão de horas ou minutos (JAC..,2UES, 1977). Utilizando temperaturas de até 50ºC, por duas horas, VALICENTE & CRUZ (1993) não observaram efeito sobre a virulência de Baculovirus spodoptera.
Este trabalho teve o objetivo de avaliar o efeito da temperatura no armazenamento de uma formulação pó molhável (PM) de B. anticarsia, importante entomopatógeno que vem sendo utilizado, no Brasil, para controle da principal praga desfolhadora da soja, a lagarta Anticarsia gemmatalis.
MATERIAL E MÉTODOS
Amostras da formulação PM deB. anticarsia, acondicionadas em sacos de polietileno (5g/ amostra) lacrados em seladora térmica e mantidos durante 7 dias, em câmaras incubadoras marca FANEM, reguladas para as temperaturas de 10, 20, 30, 40 e 50ºC.
As avaliações do patógeno foram feitas imediatamente após o preparo das formulações e 7 dias depois de armazenadas. Nessas ocasiões, foram retirados ao acaso, 5 sacos provenientes de cada tratamento, e o conteúdo foi diluído em água destilada estéril. Com o auxílio de um pipetador automático, 0,05ml de cada uma das suspensões que foram distribuídas na superfície de dieta artificial contida em tubo de vidro (8,5 cm de altura x 2,5 cm de diâmetro) na concentração de 2,3 x 103 Corpos de Inclusão Poliédrica (CIP)/ tubo. A testemunha recebeu somente água destilada estéril à temperatura ambiente. Após a secagem, colocou-se no interior de cada tubo uma lagarta de A. gemmatalis com cerca de 1,5 cm de comprimento. Cada tratamento foi formado por um grupo de 100 insetos, subdivididos em 5 repetições de 20 indivíduos.
Os ensaios foram conduzidos sob temperatura de 25ºC ± 1; UR = 65% ± 10 e fotofase de 14 horas. Os insetos foram observados diariamente e os dados de mortalidade foram submetidos à análise de variância dos fatores temperatura, época e temperatura x época e às médias dos tratamentos comparadas através do teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O efeito adverso deste fator ficou evidenciado nos resultados dos materiais armazenados nos 7 dias a 40 e 50ºC, principalmente na maior temperatura, onde se constatou 76% de redução da mortalidade das lagartas (Tabela 1 e Fig. 1). DAVID & GARDINER (1967) também observaram que o NPV de Pieris brassicae não foi inteiramente inativado quando submetido à temperatura de 50ºC pot 5 dias, porém, após 10 dias nenhuma atividade foi encontrada. Os autores observaram ainda que o vírus foi completamente destruído à temperatura de 70ºC por 10 minutos. Houve indícios de que o patógeno apresentou maior estabilidade às baixas temperaturas. Embora em menor intensidade, a temperatura de 40ºC também provocou decréscimo significativo na capacidade infectiva de B. anticarsia a exemplo do observado por DAVID & GARDINER (1967).
Porcentagem de mortalidade de lagartas deAnticarsia gemmatalis obtida pela aplicação da formulação de Baculovirus anticarsia PM (caulim) armazenada em diferentes temperaturas.
Mortalidade de lagartas de A gemmatalis provocada por B. anticarsia PM (caulim) armazenado em diferentes temperaturas.
HARPAZ & RACCAH (1978) realizaram um estudo, expondo o VPN de Spodoptera littoralis a temperatura de 50ºC durante 10 minutos e verificaram que o microrganismo reteve 80% da atividade original. Temperaturas acima de 90ºC inativaram completamente o patógeno. Resultados semelhantes foram obtidos por GUDAUSKAS & CANERDAY (1968), porém, VALICENTE & CRUZ (1993), utilizando temperaturas de até 50ºC, por duas horas, não observaram efeito sobre a virulência deB. spodoptera.
Considerando que nas três temperaturas mais baixas (10, 20 e 30ºC) não foram constatadas alterações no desempenho do patógeno, é possível concluir que o armazenamento da formulação nessas condições, até 7 dias, permite o transporte seguro do bioinseticida até os locais de sua aplicação. Ressalta-se que pode haver a necessidade de que o veículo transportador seja dotado de um sistema de isolamento térmico ou refrigeração para evitar que a temperatura ultrapasse a faixa próxima à 30ºC. Consi derando apenas esse fator, o vírus poderia apresentar boa estabilidade no campo, haja vista que as temperaturas médias registradas em algumas regiões são inferiores a 30ºC. Contudo, é necessário frisar que, em condições de campo, a temperatura tem pouca influência na inativação do vírus, ao contrário daradiação ultravioleta, considerada por diversos autores como o principal fator responsável pela perda de atividade do entomopatógeno (CANTWELL, 1967; ANGUS & LUTHY, 1971; IGNOFFO et al., 1977; KILLICK, 1990; IGNOFFO & GARCIA, 1992).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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