DESENVOLVIMENTO DE PERIPLANETA AUSTRALASIAE FABRICIUS (BLATTODEA, BLATTIDAE) EM TEMPERATURA CONSTANTE DE 30º C E EM TEMPERATURA AMBIENTE DE LABORATÓRIO

DEVELOPMENT OF PERIPLANETA AUSTRALASIAEFABRICIUS (BLATTODEA, BLATTIDAE) AT A CONSTANT TEMPERATURE OF 30° C AND AT AMBIENT LABORATORY TEMPERATURE

M.C.M Monteiro M.M. Mendes L.M. de Faria Jorge É.E.S. Vianna Sobre os autores

RESUMO

Objetivou-se avaliar o desenvolvimento de ovos e ninfas de Periplaneta australasiae (Fabricius) à temperatura de 30 ± 0,2° C, umidade relativa 80 ± 15% e fotofase de 12h e em condições ambientais de laboratório, sem controle de temperatura e umidade relativa; visando à subsídios para medidas de prevenção e controle. As ootecas foram individualizadas em tubos de ensaio até a eclosão. As ninfas foram transferidas para cubas de vidro e alimentadas com ração comercial para coelhos e água ad libitum até a emergência das imagos. Avaliou-se, período de incubação, número de ovos/ ooteca, viabilidade de ovos, número de ninfas/ooteca, período ninfal, viabilidade de ninfas e período ovo/adulto. A diferença do período médio de incubação à temperatura de 30° C (38 dias) e no ambiente (44,5 dias) foi significativa (p < 0,0001); eclodiram, em média 18,1 ninfas/ooteca a 30° C e 21 ninfas/ooteca em condições ambientais (p = 0,006); o período médio de ninfa a 30° C foi de 155,9 dias e no ambiente 279,7 dias (p < 0,0001); a viabilidade de ninfas foi superior a 50%, tanto a 30° C (55,1%) quanto em condições de laboratório (57,2%); no período médio de ovo-adulto de P. australasiae, houve diferença significativa (p< 0,001) entre a temperatura de 30 °C (194,1 dias) e em condições ambientais de laboratório (337,3 dias). Em condições de laboratório, os períodos de incubação, de ninfa e de ovo-adulto de P. australasiae foram aumentados em relação à temperatura de 30° C, não ocorrendo, entretanto, perda nem redução de viabilidade em nenhuma das fases.

PALAVRAS-CHAVE
Baratas; insetos; praga urbana

ABSTRACT

With the objective of obtaining standards of measurement for prevention and control, this study compared the development of the eggs and nymphs of Periplaneta australasiae (Fabricius) at a temperature of 30 ± 0.2° C, relative humidity 80 ± 15% and photoperiod of 12 hours versus ambient conditions in the laboratory without controls of temperature and RH. Single ootheca were maintained in test tubes until ecolosion, and nymphs were transferred to glass cubes and fed commercial rabbit ration and water ad libitum until emergence of the imagos. The incubation period, number of eggs/ ootheca, viability of the eggs, number of nymphs/ootheca, nymphal duration, viability of nymphs and duration of egg to adult were all evaluated. The mean difference in the incubation period between the temperature of 30° C (38 days) and ambient conditions (44.5 days) was significant (p < 0.0001); a mean of 18.1 nymphs/ootheca ecloded at 30° C, while 21 nymphs/ootheca ecloded under ambient conditions (p = 0.006); the mean nymphal period at 30° C was 155.9 days while for the ambient it was 279.7 days (p < 0.0001); nymphal viability was greater than 50% for both the 30° C laboratory (55.1%) and the ambient (57.2%); and the mean period from egg to adult of P. australasiae was significantly different (p < 0.001) between the 30° C temperature (194.1 days) and the ambient conditions of the laboratory (337.3 days). Under ambient conditions, the duration of nymphal incubation and egg to adult development of P. australasiae were increased relative to the temperature of 30° C without a reduction in viability in any of the stages.

KEY WORDS
Cockroaches; insects; urban pest

INTRODUÇÃO

Na família Blattidae encontram-se várias espécies sinantrópicas e de ampla distribuição mundial, entre estas Periplaneta australasiae (Fabricius) originária da África tropical (Cochran, 1999COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999.; Goddard, 2002GODDARD, J. Physician’s guide to arthopods of medical importance. 4 ed. Boca Raton: CRC Press, 2002. 384p.; Lopes, 2007LOPES, S.M. Página de blattaria do museu nacional. UFRJ. 2007. Disponível em: <http://acd.ufrj.br/mnde/blattaria/>. Acesso em: 19 mai. 2007.
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).

A grande capacidade de adaptação observada nesses insetos pode ser atribuída a uma combinação de características, como onivoria, grande potencial reprodutivo e hábitos abscônditos que os protegem da detecção e destruição (Guimarães, 1984GUIMARÃES, J.H. Baratas: manejo integrado em áreas urbanas. São Paulo: Agroquímica, Ciba-Geigy, 1984, n.25.). As baratas em ambiente extradomiciliar geralmente alimentamse de vegetais, quando em sinantropia, de qualquer tipo de substância desde restos de alimentos até roupas e papéis (Jaramllo, 1999JARAMILLO, G.I. Biologia de las cucarachas: agentes sensibilizantes. Revista de la Asociacion Colombiana de Alergia, Asma e Imnunologia, v.1, p.9-13, 1999.).

Este grupo de insetos apresenta metamorfose incompleta, passando pelos estágios de ovo, ninfa e adulto; ninfas e adultos ocupam o mesmo ambiente e possuem os mesmos hábitos alimentares. Como peculiaridade reprodutiva observa-se que os ovos das baratas são dispostos em estruturas chamadas ootecas, estas geralmente ficam depositadas em locais protegidos até a eclosão das ninfas (Cochran, 1999COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999.; Koehler et al., 2007KOEHLER, P.G.; OL, F.M.; BRANSCOME, D. Cockroaches and Their Management. University of Florida, Institute of Food and Agricultural Sciences. Disponível em: <http:// edis.ifas.ufl.edu/IG082>. Acesso em: 16 set. 2007.
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)

A importância médico-sanitária dos baratas é bastante assinalada, pois estas podem transportar bactérias, vírus patogênicos e fungos, e serem hospedeiros para helmintos e protozoários (Gutrhie; Tindall, 1968GUTHRIE, D.M.; TINDALL, A.R. The biology of cockroach. London and Beccle: Edward Arnold Public, 1968. 408p.; Zorzenon, 2002ZORZENON, F.J. Noções sobre as principais pragas urbanas. O Biológico, São Paulo. v.64, n.2, p.231-234, 2002.; Thyssen et al., 2004THYSSEN, P.J.; MORETTI, T.C.; UETA, M.T.; RIBEIRO, O.B. O papel de insetos (Blattodea, Diptera e Hymenoptera) como possíveis vetores mecânicos de helmintos em ambiente domiciliar e peridomiciliar. Cadernos de Saúde Pública, v.59, p.76-78, 2004.; Lopes, 2007LOPES, S.M. Página de blattaria do museu nacional. UFRJ. 2007. Disponível em: <http://acd.ufrj.br/mnde/blattaria/>. Acesso em: 19 mai. 2007.
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). A lepra, a disenteria, as gastroenterites, o tifo, a meningite, a pneumonia, a difteria, o tétano, a tuberculose, dentre outras, são algumas das doenças, cujos agentes são transportados por baratas (Lopes, 2007LOPES, S.M. Página de blattaria do museu nacional. UFRJ. 2007. Disponível em: <http://acd.ufrj.br/mnde/blattaria/>. Acesso em: 19 mai. 2007.
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). Além disso, os alérgenos provenientes destes insetos são considerados fatores importantes no desenvolvimento e no incremento da morbidade na asma brônquica alérgica (Egea et al., 1995EGEA, E.; GARAVITO, G.; SAN JUAN, H.; BLANCO, A. Hipersensibilidade a los alergenos de la cucaracha em uma muestra de pacientes asmáticos de la ciudade de Barranquilla. Revista de la Asociacion Colombiana de Alergia, Aasma e Imnunologia, v.8, n.2, p.9-13, 1995.; Arruda; Chapman, 2001ARRUDA, L.K.; CHAPMAN, M.D. The role of cockroach allergens in asthma. Current Opinion in Pulmonary Medicine, v.7, n.1, p.14-19, 2001.). Também são conhecidos danos causados pelas baratas na agricultura e em produtos agrícolas armazenados, existem relatos P. australasiae causando danos em estufas, viveiros e jardins botânicos (Ebeling, 2007EBELING, W. Urban entomology. Chapter 6. Pests On or Near Food. University of California. 2007. Disponível em: <http:www:entomology.ucr.edu/ebeling/ebeling6.html>. Acesso em: 5 nov. 2010
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).

Estudos sobre a biologia das baratas são importantes, pois a vida dos insetos é limitada dentro de um intervalo de temperatura, e sua sobrevivência depende de certas adaptações fisiológicas e reações metabólicas incluindo, inclusive, suspensão temporária da vida ativa Abdullah (1961)ABDULLAH, M. Behavioural Effects of Temperature on Insects. Ohio Journal of Science, v.61, n.4, p.212, 1961.. Segundo Dajoz (1983)DAJOZ, R. Ecologia geral. Petrópolis: Vozes, 1983. 472p., a importância da temperatura na vida dos insetos é inquestionável, visto atuar sobre a quantidade de alimento consumido, reprodução, fecundidade, fisiologia, etologia e longevidade.

Neste estudo objetivou-se comparar o desenvolvimento de P. australasiae de ovo à fase adulta em temperatura de 30 ± 0,2° C e umidade relativa 80 ± 15% e em condições ambientais de laboratório sem controle de temperatura e umidade, visando obter subsídios para implementação de medidas profiláticas e de controle deste inseto em ambiente urbano bem como agrícola.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi desenvolvido no Laboratório de Pesquisa do Museu de História Natural da Universidade Católica de Pelotas, RS. Os espécimes de P. australasiae utilizados no estudo foram provenientes de ootecas coletadas em peridomicílio na área urbana de Pelotas, RS, a 31º46’19”S e 52º20’33”W.

Os insetos foram expostos à temperatura de 30 ± 0,2° C mantidos em câmara climatizada, modelo JP-1000, com umidade relativa 80 ± 15% e a condições ambientais de laboratório onde a temperatura e a umidade relativa foram registradas diariamente mediante registro em termo-higrômetro.

Foi objeto deste estudo 50 ootecas viáveis, 25 em cada uma das condições de temperatura e umidade avaliadas. As ootecas foram armazenadas individualmente em tubos de ensaio de 8 cm de altura por 1 cm de diâmetro fechados com algodão para impedir a entrada de parasitoides e conter as ninfas. As ninfas recém eclodidas foram transferidas para cubas de vidro com 18 cm de altura e 8 cm de diâmetro, contendo alimento, água e esconderijos de papel pardo sanfonado. Os indivíduos foram alimentados com ração peletizada comercial para alimentação de coelhos e a água foi disponibilizada em recipientes contendo algodão umedecido, ambos ad libitum.

Foi avaliado o período de incubação, o número de ninfas por ooteca, a viabilidade, o período ninfal e o período de desenvolvimento total.

Foram considerados os valores médios, os números máximos e mínimos e as distribuições de frequências absoluta, relativa e relativa acumulada de todas as variáveis analisadas. Os cálculos de média, máxima, mínima e desvio padrão foram realizados no programa Microsoft Office Excel, 2007; para as distribuições de frequência foi utilizado o Software Estatístico Pestatis, 2002.

Para as análises estatísticas utilizou-se o programa XLSTAT 2008.4.01; as variáveis foram submetidas ao teste t-Student, os resultados foram significativos quando p < 0,01, foi considerado nível de significância de α = 0,01 com intervalo de confiança de 99% entre as méDias observadas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O período de incubação de P. australasiae à temperatura de 30 ± 0,2º C e UR 80 ± 15% variou entre 33 e 47 Dias, com um período médio de 38,2 dias.

Em condições ambientais de laboratório, onde a temperatura absoluta esteve entre 22 e 33° C e a UR entre 52 e 92% o período ficou compreendido entre 42 e 49 dias, com média de 44,5 dias (p < 0,0001). Vários autores como Parker (1988)PARKER, T.A. Study on integrated pest management for libraries and archives. General Information Programe and UNESCO. Paris: Unesco, 1988. 119p., Suiter; Koheler (1991)SUITER, D.R.; KOEHLER, P.G. The Australian Cocckroach, Periplaneta australasiae. University of Florida, 1991. Disponível em: <http://edis.ifas.ufl.edu/MG231>. Acesso em: 25 out. 2008.
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, Cochran (1999)COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999., Jarrat (2001)JARRATT, J.H. Pest-Menagement Principles, Chapter 5. Mississippi State University Extension Service. 2001. Disponível em <http://msucares.com/pubs/ publications/p2247.html>. Acesso em: 22 out. 2008.
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e Ponce et al. (2005)PONCE, G, CANTÚ, C.; FLORES, A.; BADII, M.; BARRAGÁN, A.; ZAPATA, R.; FERNÁNDES, I. Cucarachas: biología e importancia en salud pública. Revista Salud Pública y Nutrición, v.6, n.3, 2005. Disponível em: <http://www.medigraphic.com/pdfs/revsalpubnut/spn-2005/spn053f.pdf>. Acesso em: 25 out. 2008.
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citaram um período de incubação de P. australasiae de 40 Dias, não especificando a que temperatura foi obtido.

Willis et al. (1958)WILLIS, E.R.; RISER, G.R.; ROTH, L. M. Observations on reproduction and development in cockroaches. Annals of the Entomological Society of America, v.51, p.53-69, 1958., em experimentos realizados a 30° C, relataram que a incubação desta espécie ocorreu em um período médio de 40,3 dias, período este ligeiramente superior (6%) ao período médio observado neste estudo, à mesma temperatura.

Em 88,0% das ootecas expostas à temperatura de 30° C, o período de incubação ocorreu entre 33 e 41 dias, já na totalidade das ootecas mantidas no ambiente a eclosão ocorreu após um período superior a 41 dias, constatando que a temperatura foi um fator altamente significativo (p < 0,0001) para P. australasiae (Tabela 1).

Tabela 1
Distribuição de frequências do período de incubação de Periplaneta australasiae à temperatura de 30° C e em condições de laboratório com variação de temperatura (VT) entre 22° C e 33° C.

Eclodiram, em média, 18 e 21 ninfas por ooteca à temperatura de 30° C e na variação de temperatura de 26 a 33° C, respectivamente (p = 0,006). À temperatura de 30° C o mínimo de ninfas eclodidas por ooteca foi 10 e o máximo 26, no ambiente obteve-se o mínimo de 13 e o máximo de 24 ninfas por ooteca (Tabela 2).

Tabela 2
Distribuição de frequências do número de ninfas eclodidas por ooteca de Periplaneta australasiae à temperatura de 30° C e em condições de laboratório com variação de temperatura (VT) entre 26° C e 33° C.

Willis et al. (1958)WILLIS, E.R.; RISER, G.R.; ROTH, L. M. Observations on reproduction and development in cockroaches. Annals of the Entomological Society of America, v.51, p.53-69, 1958. encontraram em estudos realizados a 30° C uma média de 16,4 ninfas por ooteca. Outros autores, como Suiter; KoehLer (1991)SUITER, D.R.; KOEHLER, P.G. The Australian Cocckroach, Periplaneta australasiae. University of Florida, 1991. Disponível em: <http://edis.ifas.ufl.edu/MG231>. Acesso em: 25 out. 2008.
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e Jarratt (2001)JARRATT, J.H. Pest-Menagement Principles, Chapter 5. Mississippi State University Extension Service. 2001. Disponível em <http://msucares.com/pubs/ publications/p2247.html>. Acesso em: 22 out. 2008.
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citaram o número médio de 16 de ninfas eclodidas por ooteca de P. australasiae, contudo não especificaram em que temperatura.

Analisando a distribuição de frequências (Tabela 2) observou-se que em 72% das ootecas mantidas em temperatura de 30° C eclodiram menos de 22 ninfas/ ooteca, ao passo que, com variação de temperatura mais da metade das ootecas (52%) originaram 22 ninfas/ooteca ou mais.

O período médio ninfal de P. australasiae à temperatura de 30° C foi de 155,9 dias, mínimo de 121 dias e máximo de 248 dias e em condições de laboratório (variação de temperatura entre 10° C e 33° C) o período médio foi de 279,7 Dias, variando de 95 dias a 353 dias. Estes dados evidenciaram uma diferença significativa (p < 0,0001) no período entre as duas condições de exposição das ninfas. Cochran (1999)COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999. mencionou que o período de ninfa de P. australasiae, compreende entre 6 e 12 meses dependendo das condições do habitat.

Comparando-se o período ninfal de P. australasiae com o de outras espécies do mesmo gênero (P. americana e P. fuliginosa), observou-se que este apresenta grandes variações, dependendo da temperatura de exposição. O período ninfal de P. americana (Linnaeu) segundo Gier (1947)GIER, H.T. Growth rate in the cockroach Periplaneta americana. Annals of the Entomological Society of America, v.40, p.303-317, 1947. necessita em média 328 dias para se completar, variando entre o mínimo de 190 e o máximo de 520 Dias, Cochran (1999)COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999. reportou este período entre 5 e 15 meses e Vianna et al. (2001)VIANNA, É.E.S.; BERNE, M.E.A.; RIBEIRO, P.B. Desenvolvimento e longevidade de Periplaneta americana Linneu, 1758 (Blattodea: Blattidae). Revista Brasileira de Agrociência, v.2, p.111-115, 2001. observou uma variação de 90 a 313 dias, média de 140,5 dias à temperatura de 30° C.

Wright (1979)WRIGHT, C.G. Life-history of the smokybrown cockroach. Journal of the Georgia Entomological Society, v.14, p.69-75, 1979. citou que o período ninfal de Periplaneta fuliginosa (Serville) à temperatura de 26,7° C necessita de 320 a 388 dias para completar-se; Cochran (1999)COCHRAN, D.G. Cockroaches. Their biology, distribution and control. Genebra: World Healt Organization/CDS/ WHOPES/99.3, 1999., referiu-se ao período de desenvolvimento ninfal dessa espécie, em temperatura ambiente, como sendo de 274 a 439 dias, e à temperatura de 30° C e 36° C este período diminui para 191 e 179 dias, respectivamente.

O período ninfal médio de P. australasiae, à temperatura de 30° C, que originaram machos foi de 154,4 dias com variação de 121 a 218 dias; para imagos fêmeas foi de 161,5 dias sendo o mínimo de 124 e o máximo de 248 dias. Em condições de laboratório, o período ninfal médio, para imagos machos foi de 293,1 dias, com variação entre mínimo de 106 dias e máximo de 353 dias, para imagos fêmeas este período médio foi 267,4 dias, situando-se entre 95 dias e 352 dias, em ambas as condições os espécimes foram mantidos em grupos, isto é, ninfas originadas de uma mesma ooteca em uma mesma cuba de vidro. Willis et al. (1958)WILLIS, E.R.; RISER, G.R.; ROTH, L. M. Observations on reproduction and development in cockroaches. Annals of the Entomological Society of America, v.51, p.53-69, 1958. relataram que ninfas de P. australasiae mantidas individualmente a 30° C, tiveram período ninfal de 253 a 410 dias originando fêmeas, e 306 e 365 dias, originando machos; para os espécimes criados em grupo, o período de ninfa ficou compreendido em 213 dias para as fêmeas, e 198 dias para os machos. P. australasiae possui comportamento gregário, e desta forma o período de desenvolvimento de ninfa é mais curto quando os espécimes são mantidos em grupo, se comparado com período de desenvolvimento de espécimes isolados. O feromônio de agregação, presente nas fezes e nos corpos dos insetos (que se espalha facilmente no lipídica epicuticular gorduroso), é responsável por esta tendência de associação. Nas baratas a agregação pode trazer benefícios diferentes como a redução de estresse físico, facilitação da coprofagia (Kopanic et al., 2001KOPANIC JUNIOR, R. J.; HOLBROOK, G. L.; BACHMANN, J. A. S.; SCHAL, C. Adaptative benefit of facultative coprophagy in the German cockroach Blattella germanica. Ecological Entomology, v.26, p.154-162, 2001.), aumento da eficiência das respostas de alarme e comportamento anti-predação, desenvolvimento mais rápido e reprodução mais eficiente (Schal et al., 1997SCHAL, C.; HOLBROOK, G. L.; BACHMANN, J. A. S.; SEVALA, V. L. Reproductive biology of the German cockroach, Blattella germanica: juvenile hormone as pleiotropic master regulator. Archives of Insect Biochemistry and Physiology, v.35, p.405-426, 1997.).

Analisando a distribuição de frequências (Tabela 3) 99,6% das ninfas mantidas à temperatura de 30° C atingiram o estágio adulto em menos de 230 Dias, 89,1% das ninfas em condições de laboratório necessitaram de mais de 245 dias para emergência dos imagos. O período de ninfa de P. australasiae em ambiente de laboratório foi muito variado, 11,9% das ninfas chegaram a imago em menos de 170 Dias, 16,2% entre 245 e 274 dias e, a maioria das ninfas (82,4%) precisou de um período ≥ a 275 dias para atingir a fase adulta.

Tabela 3
Distribuição de frequências do número de ninfas eclodidas por ooteca de Periplaneta australasiae à temperatura de 30° C e em condições de laboratório com variação de temperatura (VT) entre 10° C e 33° C.

As diferenças na duração do período de ninfa, em condições de laboratório, são diretamente relacionadas às variações de temperatura. A média mensal de temperatura no período em que não ocorreu emergência de imagos foi de 20,3° C, quando estes voltaram a emergir a temperatura média mensal foi de 26° C (Fig 1). As condições desfavoráveis em relação à temperatura fizeram com que os espécimes de P. australasiae, mantidos em condições ambientais, reduzissem sua atividade e metabolismo aumentando a duração do período de ninfa. Carvalho (1996)CARVALHO, J.P. Introdução à entomologia agrícola. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. 361p. corroborou com estes dados ao dizer que a ação direta da temperatura nos insetos consiste na redução da taxa metabólica, interferindo no seu desenvolvimento e comportamento.

Fig. 1
A média mensal de temperatura (°C) e umidade relativa (%) observada em condições ambientais de laboratório, durante o período ninfal de Periplaneta australasiae e meses em que ocorreu emergência de imagos.

A viabilidade média de ninfas por ooteca, expostas a 30° C, foi de 55,1%, variando entre 31,8 e 78,6% e em condições de laboratório foi de 57,2% com uma variação de 21,7 a 80,9%. Willis et al. (1958)WILLIS, E.R.; RISER, G.R.; ROTH, L. M. Observations on reproduction and development in cockroaches. Annals of the Entomological Society of America, v.51, p.53-69, 1958. relataram para a temperatura de 30° C viabilidade média de 55%, dado este similar ao registrado neste estudo na mesma temperatura.

A viabilidade de ninfas obtidas foi superior a 50% em 76% das ootecas testadas, em ambas as condições experimentais; ninfas expostas à variação de temperatura em ambiente de laboratório apresentaram viabilidade superior a 60% em 44% das ootecas, demonstrando que as ninfas expostas a essas condições tiveram aumento no período de desenvolvimento sem redução de viabilidade.

O ciclo total (ovo-adulto) de P. australasiae, à temperatura de 30° C variou entre 154 a 295 dias, com média de 194,1 dias; em condições de laboratório o período oscilou entre 137 e 402 dias, com média de 337,3 dias, p < 0,001 (Tabela 4).

Parker (1988)PARKER, T.A. Study on integrated pest management for libraries and archives. General Information Programe and UNESCO. Paris: Unesco, 1988. 119p., Suiter; Koehler (1991)SUITER, D.R.; KOEHLER, P.G. The Australian Cocckroach, Periplaneta australasiae. University of Florida, 1991. Disponível em: <http://edis.ifas.ufl.edu/MG231>. Acesso em: 25 out. 2008.
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, JaramiLLo (1999)JARAMILLO, G.I. Biologia de las cucarachas: agentes sensibilizantes. Revista de la Asociacion Colombiana de Alergia, Asma e Imnunologia, v.1, p.9-13, 1999. e Jarrat (2001)JARRATT, J.H. Pest-Menagement Principles, Chapter 5. Mississippi State University Extension Service. 2001. Disponível em <http://msucares.com/pubs/ publications/p2247.html>. Acesso em: 22 out. 2008.
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reportaram o período de desenvolvimento de P. australasiae de ovo a adulto em aproximadamente 365 dias, contudo não especificaram a temperatura em que os espécimes foram expostos.

Tabela 4
Períodos mínimos, máximos e médios, de incubação, de ninfa e de ovo-adulto de Periplaneta australasiae à temperatura de 30° C e em condições de laboratório com variação de temperatura (VT) entre 10° C e 33° C.

Conclui-se que o período ninfal de P. australasiae com variações de temperatura entre 10º C e 33º C é distintamente superior ao período de ovo a adulto à temperatura de 30º C; apesar do período de ovo a adulto de P. australasiae, com variação de temperatura, ser acentuadamente aumentado em relação ao de 30º C. Não ocorre perda nem redução de viabilidade em nenhuma das fases; portanto P. australasiae responde biologicamente melhor à variação de temperatura do que à temperatura constante (30 ± 0,2º C) e as baixas temperaturas registradas nos meses de inverno apenas retardam, mas não inviabilizam o desenvolvimento desta espécie.

REFERÊNCIAS

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  • ANDREAZZA, P.E.; OLIVEIRA, H.G. Pestatis 1.0: software estatístico. Pelotas: Educat, 2002. 46p.
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  • CARVALHO, J.P. Introdução à entomologia agrícola Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. 361p.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2021
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2010

Histórico

  • Recebido
    08 Dez 2009
  • Aceito
    13 Nov 2010
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