Editorial

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Assistimos ao longo dos séculos à ação crítica de artistas e escritores, que, por interferirem nos costumes e na ideologia de seu tempo, explícita ou subliminarmente, foram muitas vezes punidos, banidos da sociedade e até mesmo exilados de sua pátria. Esse papel crítico (e perigoso, na visão do poder instituído) que a literatura e as artes sempre exerceram no meio social e político constitui o enfoque central deste número que agora entregamos aos nossos leitores.

Apresentamos, em primeiro lugar, a reflexão filosófica de Jean-Pierre Zarader sobre o sentido de identidade e resistência, conceitos que, de uma forma ou de outra, percorrem a maioria dos textos deste volume. Logo a seguir a luta inacabada de Aimé Césaire ocupa, no artigo de Françoise Vergès, um plano de destaque. Poeta da Negritude, dedicou sua vida a combater, sem qualquer temor ou reticência, os malefícios da colonização francesa, tendo-se recusado inclusive, em 2005, a encontrar-se com Nicolas Sarkozy, que louvara os benefícios da intervenção francesa em territórios de além-mar. O tema é retomado pelo texto de Eurídice Figueiredo onde se abrem os arquivos da escravidão pela voz de Patrick Chamoiseau, um dos sucessores de Césaire na luta anticolonialista. Também as vozes vindas do sul ecoam nestes textos, e de duas formas: do lado africano-português, os brados que tampouco se calam surgem aqui representados pela tenacidade de Pepetela, como nos mostra Laura Cavalcante Padilha; do lado da América, consolida-se ainda uma reflexão teórica a partir de importantes escritores e pensadores latino-americanos, que marcam não apenas a sua diferença com relação à Europa e aos Estados Unidos, mas invertem o tradicional processo de importação cultural do centro para a periferia ao se tornarem ponto de partida para repensar o pós-colonial quer do ponto de vista do ex-colonizador quer do ex-colonizado, como discute Margarida Calafate Ribeiro. Mas não só a reflexão teórica nem apenas o tempo da colonização: Marlene de Castro Correia mostra como a poesia de Drummond traz o "nosso tempo" (1945) à baila, e mostra a fragmentação e a alienação dos tempos de guerra que exigem de nós consciência e participação política. Olivier Neveux, por sua vez, ao analisar o teatro político, no universo francês contemporâneo, ressalta a ligação de seu caráter político com as lutas pela emancipação e pela igualdade que caracterizaram os anos pós-68 na França, e propõe, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre sua história e o estudo de suas estratégias e funções. Patrícia Peterle apresenta-nos a trajetória de Ignazio Silone, cujos escritos refletem sua inserção no mundo e a experiência do vivido, marcadas pelos regimes totalitários, pelo fascismo, pelo antifascismo e pelo exílio.

O texto de Lucia Helena, embora por um outro viés, também põe em destaque o papel transformador e político da literatura, ou seja, a passagem que ela articula entre formas de pensamento e modos de escrever: das certezas do iluminismo às ficções do desassossego do tempo presente. Quanto ao artigo de Marcio Seligmann-Silva, o uso dos topoi da confissão e do testemunho pode trazer ainda uma mudança no foco da análise das narrativas. Segundo o autor, é possível, em Grande Sertão: Veredas, compreender esses conceitos como passagens da tradição da narrativa, que apresentava provas de bravura ou de santidade, para uma literatura que tem como fim a apresentação de verdades escondidas dentro dos indivíduos.

Para finalizar a seção de artigos, José Luiz Fiorin discute a instigante relação entre língua, discurso e política, levando-nos a refletir sobre a natureza intrinsecamente política da linguagem e das línguas; e sobre as relações de poder entre os discursos e sua dimensão política. E conclui, como que em nome de todos, que a língua não é um instrumento neutro de comunicação, mas é atravessada pela política e pelos muitos poderes. A literatura, pelos deslocamentos que produz, pelas passagens e metamorfoses que opera, é uma forma de trapacear a língua, desvelando os poderes nela inscritos.

Na rubrica "Conferência", temos o prazer de reproduzir a exposição de Joël Loher na Faculdade de Letras da UFRJ sobre a presença de Maio de 68 na reflexão de André Malraux que, simbolicamente, aborda a luta pelas liberdades sociais, a superioridade do gênero "colóquio" em função da diversidade de vozes e em detrimento da voz autoral, e, por fim, o poder da escrita e a missão do escritor em tempos de crise.

Agradecemos aos ensaístas, esperando que este conjunto de artigos desperte questionamentos, diálogos e outros textos - outras visões políticas.

Os Editores

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Out 2009
  • Data do Fascículo
    Jun 2009
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