Entrevista: Janet Todd

Maria Clara Biajoli

O que acontece quando a popularidade de um autor parece ganhar vida própria, independente de sua obra? Essa é a questão que norteia esta entrevista com a professora Janet Todd a respeito do grande sucesso dos romances da escritora inglesa Jane Austen e também sobre todos os filmes, seriados e continuações produzidos na sua esteira, ou, nas palavras de Todd, toda essa "Austen craziness".

Janet Todd é professora emérita da Universidade de Aberdeen, Escócia, e presidente do Lucy Cavendish College em Cambridge, Inglaterra. Construiu sua carreira acadêmica trabalhando com escritoras inglesas que eram esquecidas até então, como Aphra Behn e Mary Wollstonecraft, voltando-se também para Jane Austen quando editou a coleção de nove volumes Cambridge Edition of the Works of Jane Austen, que traz, além de todos os romances publicados de Austen comentados por importantes intelectuais da área, seus manuscritos de juventude e obras inacabadas. Publicou Jane Austen in Context e, pelo aniversário de duzentos anos do romance Orgulho e preconceito, em 2013, organizou uma conferência internacional em Cambridge e editou The Cambridge Companion to Pride and Prejudice. Mais recentemente, publicou Jane Austen, Her Life, Her Times, Her Novels e decidiu entrar de verdade nessa loucura em torno de Austen ao escrever sua própria continuação Lady Susan Plays the Game, baseado no pequeno - e geralmente esquecido - romance epistolar Lady Susan.

Maria Clara Biajoli:Os últimos quatro capítulos de The Cambridge Companion to Pride and Prejudice analisam pontos importantes relacionados com a imagem atual de Jane Austen: sua fama e seus seguidores, a proliferação de continuações, a "darcymania". Como você vê essa transformação de Austen em uma espécie de marca global, para usar sua expressão sobre Orgulho e preconceito?

Janet Todd: A transformação tem a ver mais com os novos meios de comunicação e uma espécie de desejo daquilo que o nome "Jane Austen" vem surpreendentemente a representar do que com os romances irônicos cuidadosamente elaborados. A atenção para a marca global cresce gradualmente.

M.C.B.:Como você escreveu, muitas adaptações para o cinema têm construído Orgulho e preconceito como uma história de Cinderela, ao passo que Mr. Darcy alcançou o status de herói romântico perfeito. Na sua opinião, como isso afeta a forma como o livro é lido hoje em dia? É possível pensar nisso como uma perda permanente para o original, ou se trata de um fenômeno que faz parte da história da recepção do livro e não vai impor efeitos a longo prazo sobre ele?

J.T.: Eu acho que é difícil para as pessoas que viram os filmes e séries de televisão, antes de lerem o livro, ter uma imagem mental do herói que não seja afetada pela presença cinematográfica. George Eliot costumava se preocupar com a interferência das ilustrações de seus livros na imagem mental que um leitor devia obter de suas palavras. Temos ido muito além disso com as nossas representações vivas dos filmes que muitas vezes conversam mais entre elas do que com o livro original. A grande diferença entre hoje e o passado é que, antes, críticos e leitores se concentravam na heroína Elizabeth Bennet, em cuja consciência boa parte da ação ocorre. Vários críticos respeitáveis do século XIX e do início do século XX admitiam estar apaixonados por Lizzie Bennet, bem ao modo como as leitoras - ou antes frequentadoras de cinema - agora admitem estar apaixonadas por Colin Firth como Mr. Darcy. O livro que Jane Austen escreveu está cheio de ironia, assim como todos os seus romances, e nenhum filme tenta dar conta disso. E não há nenhuma razão para que deva procurar fazê-lo, uma vez que, de uma forma geral, todos os filmes inspirados em Austen respondem a uma nostalgia ou a um desejo por um romance à moda antiga e por uma época supostamente mais simples e muito bonita, ao passo que a própria Austen estava criticando os costumes de seus contemporâneos. Os filmes colocam o livro no período da Regência, na Inglaterra, uma época cruel em muitas maneiras, mas agora apresentada como a última época pré-industrial, pré-fotografia, pré-ferrovia, uma espécie de sonho pastoral. Orgulho e preconceito pode sobreviver aos filmes e spin-offs, porque cuidadosos leitores e releitores de Austen sempre vão existir e ser diferentes da maioria dos frequentadores de filmes românticos.

M.C.B.:Por que você acha que Orgulho e preconceito é o preferido de todos os romances de Austen? E como ele pode ser a base para continuações tão diferentes, podendo-se dizer até mesmo opostas em termos de qualidade, estilo e abordagem, como Morte em Pemberley e Cinquenta tons do Sr. Darcy?

J.T.: Ele é o mais "romântico" dos romances e o que tem o herói mais próximo ao dos contos de fadas; é também aquele no qual, excepcionalmente para Austen, o herói é mais passional do que a heroína, e isso se mostra atraente para as leitoras. Uma vez que o livro foi amplamente liberado de suas amarras, as pessoas podem fazer com ele o que quiserem. Escritores de spin-offs não se limitam às convenções do século XIX - sem sexualidade explícita, por exemplo -, mas também não são obrigados de modo algum a tentar imitar a sagacidade e o estilo de Jane Austen. Jane Eyre, de Charlotte Brontë, inspirou um spin-off impressionante: Vasto mar de sargaços, de Jean Rhys. Eu não acho que nenhum spin-off de Austen tenha alcançado tal força.

M.C.B.: Agora, para recuperar a primeira pergunta, você poderia explicar um pouco mais sobre o que Jane Austen tem vindo a representar, na sua opinião?

J.T.: Acho que respondi em grande parte a essa questão quando a associei a uma época supostamente pastoril, nobre, mais elegante e cortês. Além disso, Orgulho e preconceito é o único de seus livros a contar uma história de Cinderela em que uma moça conquista um homem de maior status ou riqueza do que ela sem que ela fizesse qualquer esforço - uma fantasia feminina constante de ser descoberta e passionalmente amada por algum valor intrínseco. Para as mulheres, a ideia de um homem altamente desejável ser inteiramente cativado por uma garota sem enormes beleza e talento parece ser um mito muito atraente. Em Orgulho e preconceito, o homem tem a vantagem de ser definido não só pela riqueza, mas também por uma grande casa ancestral que lhe dá certo verniz de príncipe. E, claro, nos filmes, esta é elevada à altura e importância de Chatsworth, uma das maiores mansões do país e muito além do que a suposta renda de Mr. Darcy poderia sustentar.

M.C.B.:Aparentemente, apaixonar-se por suas personagens, seja Darcy ou Elizabeth, é uma resposta comum a Orgulho e preconceito desde o início, e, certamente, os leitores e o modo como lemos o livro mudaram muito nestes 200 anos. A partir disso, é possível supor que existam características do romance como um gênero que promova esse tipo de reação - empatia, apaixonar-se até mesmo - em seus leitores?

J.T.: Inicialmente, no final do século XVII e ao longo do século XVIII, havia medo de que os leitores se identificassem muito com personagens fictícias, de modo que, por exemplo, uma jovem leitora de classe média se imaginaria uma princesa e esperaria ser cortejada por inúmeros amantes que ela poderia testar antes de fazer sua escolha. Moças romântica e sentimentalmente confusas cometeriam o erro de pensar que rapazes enganadores e aparentemente românticos eram mais adequados como maridos do que aqueles aprovados por suas famílias e abençoados com o tipo de renda que poderia mantê-las em seu estilo de vida habitual. Várias sátiras mostravam românticos empregados da casa e caçadores de fortuna de bela fala fugindo com herdeiras tolas. Jane Austen imaginou um homem que se identificasse com o Lovelace de Richardson e visasse ser um sedutor, mas, no geral, ela não parecia pensar que a leitura do romance pudesse causar muitos danos. A ideia de ser completamente atraído por uma personagem de romance do sexo oposto é mais própria dos séculos XIX e XX do que do século XVIII, e certamente fica evidente no entusiasmo dos críticos do sexo masculino por Elizabeth Bennet e agora no dos do sexo feminino por Mr. Darcy - ao ponto de que algumas mulheres se casam com homens vestidos com as supostas botas e calças do traje do período Regencial de Darcy. Entendi que a comédia romântica "Austenlândia" traz uma mulher americana tentando encontrar um substituto para Mr. Darcy em um evento que imita a Regência organizado na Inglaterra.

M.C.B.:À luz de seus outros romances, como poderíamos explicar esse lado "romântico" forte que Austen coloca em Orgulho e preconceito? Se ela estava aceitando uma fantasia de seu tempo, qual seria essa fantasia e como ela se diferenciaria da atual obsessão por "encontrar o verdadeiro amor"?

J.T.: Acho que jamais pretenderia explicar o que um escritor pensou ao fazer uma trama. Jane Austen era uma jovem em Steventon quando começou Orgulho e preconceito, e, sem dúvida, como a maioria das jovens, começou a se imaginar apaixonada por vários rapazes - Tom Lefroy é o mais amado das versões cinematográficas feitas sobre Austen. Há algumas evidências de que seus pais o viam como acima de Jane social e financeiramente, por isso pode ter havido algum germe do livro aqui, mas suas cartas que sobreviveram não sugerem uma enorme paixão no caso. Não sei o que a atual "obsessão de encontrar o verdadeiro amor" é, mas certamente Jane Austen nunca pensou que qualquer jovem deveria se casar apenas pela atração sexual, que parece ser a moda agora - a química está certa, etc.? -; mesmo Elinor e Edward [de Razão e sensibilidade], ela escreve, não estavam tão apaixonados a ponto de poderem pensar em se casar sem renda suficiente. Ela estava ciente de que havia mais em um casamento de longo prazo do que simplesmente amor, embora nunca tenha sugerido que a melhor ideia seria se casar sem ele. Sabia que, em seu tempo, o casamento era um acontecimento tanto social quanto pessoal, e que o casal tinha que compartilhar a posição social do marido na vida e, assim, trabalhar em equipe. As negociações necessárias hoje são diferentes em uma época em que as atividades profissionais podem muito bem ser iguais, mas alguns dos mesmos pontos poderiam ser válidos.

M.C.B.:Não podemos deixar de indagar por que outros romances, antes e depois de Orgulho e preconceito, com finais felizes semelhantes - Pamela, Jane Eyre, Norte e sul, para citar alguns - não receberam a mesma atenção que as obras de Austen, e, até mesmo entre elas, Orgulho e preconceito é, certamente, a mais adaptada para filmes e continuações. Você acredita que há algo único nesse texto que poderia ser responsável pela sua colocação no centro dessa "mania da Regência", eclipsando os outros romances?

J.T.: Mas esses não são livros predominantemente felizes. Todos têm, em seu núcleo, um sofrimento considerável da heroína, enquanto Orgulho e preconceito é uma obra alegre com uma heroína que tem alguns golpes, mas que não sofre nada de muito terrível, além da queda temporária e aparente de uma irmã. Ela sempre tem uma grande amiga e aliada em uma amada irmã para dar a volta por cima, enquanto Jane Eyre e Pamela estão dolorosamente sozinhas. Os outros romances que você menciona vêm de períodos estilisticamente menos atraentes para o leitor de romance: o início do século XVIII para Richardson - em grande parte desconhecido na consciência popular - e o período vitoriano para Brontë e Gaskell - geralmente retratado como sombrio, denso e gótico ou industrial. Mais uma vez, gostaria de salientar a associação de Orgulho e preconceito com o período da Regência (apesar de ter sido iniciado na década de 1790) e o entusiasmo popular pelo suposto estilo dessa época de se vestir e de decoração. Orgulho e preconceito não tem nada da importância crítico-literária de Pamela, mas tem imensa importância na consciência cultural popular.

M.C.B.:Finalmente, como você vê toda essa austenmania? Você já disse que Orgulho e preconceito pode sobreviver, mas poderia também ter um lado positivo em termos de imortalizar uma escritora muito boa e seus romances?

J.T.: A mania certamente poderia ter acompanhado um escritor muito menor do que Jane Austen; se ela levar apenas umas poucas pessoas a ler seus maravilhosos romances atentamente, então isso deve ser aceito como uma coisa boa. No entanto, acho que poderia ter um efeito maligno se a mensagem passada for aquela superficial: que a realização da mulher se dá através da captura de um homem de alto status. Esse é o aspecto que inspirou a indústria dos escritores de romances românticos que se passam na Regência, começando com Georgette Heyer e Barbara Cartland. É uma mensagem que parece intacta mesmo depois de duas ondas de feminismo e enormes mudanças na condição das mulheres.

Seria bom se o estilo sucinto, irônico e espirituoso de Orgulho e preconceito pudesse influenciar a escrita contemporânea, mas não vejo nenhuma evidência disso. O Twitter pode requerer apenas 140 caracteres, mas as pessoas podem ter tweets ilimitados, e nenhum formato eletrônico parece ter restrições quanto à verbosidade. Tudo favorece a escrita imediata em lugar da composição e edição bastante revisada de Jane Austen, que, notoriamente, aparou e cortou Orgulho e preconceito antes de enviá-lo para o mundo.

Para fins de aproximação entre as nações, é bom que haja um romance como Orgulho e preconceito, que tantas pessoas em diferentes culturas leram com prazer e ao qual responderam de formas distintas mas também semelhantes.

M.C.B.: Ainda sobre esse assunto, qual foi sua motivação para escrever seu próprio romance spin-off? Por que você escolheu Lady Susan?

J.T.: Provavelmente, Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito foram originalmente escritas como obras epistolares e, depois, reformuladas como narrativas de terceira pessoa. Com um pouco de presunção, pensei que poderia fazer o mesmo para Lady Susan, uma novela que Jane Austen, provavelmente, compôs logo após os primeiros esboços daqueles romances. Em Balaustion's Adventure, o poeta Robert Browning traz a observação da fictícia jovem grega de que pessoas diferentes podem levar adiante uma história e personagens e retrabalhar textos familiares, e que qualquer história digna de ser contada também vale a pena ser recontada. Jane Austen se tornou tão famosa que, como um grande número de escritores de spin-offs atestaria, suas obras têm agora algo em comum com os mitos antigos e estão, portanto, amplamente disponíveis para todos os tipos de usos que, talvez por sorte, ela nunca soube e nunca poderia ter imaginado.

Eu amo Lady Susan, porque nele há uma heroína próxima das jovens espirituosas de alguns textos da juvenília de Austen, como The Beautiful Cassandra, que são totalmente egoístas e amorais. Lady Susan não tem nada da vida interior das heroínas dos romances maduros e, de muitas maneiras, ecoa personagens do drama da Restauração em vez de romances realistas. Em meu romance, imaginei dar uma voz à boa mas insípida filha e descrever com mais detalhes a exasperação de uma mãe sofisticada com uma filha entediantemente virtuosa.

  • Tradução de Edmir Missio

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    July-Dec 2014
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