O touro confrontado: o homem ébrio

The confronted bull: the drunk

Resumos

Abordando especialmente os anos 1930-1940, o texto ensaia uma aproximação do contexto de produção da obra de Georges Bataille sem perder de vista seu aspecto multifacetado. Filosofia, literatura, política, moral, sociologia, nenhum caminho demasiado direto pode alcançar o que ela tem de essencial, em sua dimensão a um só tempo sagrada, louca, erótica, malévola, provocadora.

Georges Bataille; Roger Caillois; sagrado; Colégio de Sociologia


Encompassing the period from 1930 to 1940, the text offers an approach to the production's context of the work of Georges Bataille, without losing sight of its multifaceted aspects. Philosophy, literature, politics, ethics, sociology, no direct route can achieve its essential points, in its dimension both sacred, wild, erotic, evil, provocative.

Georges Bataille; Roger Caillois; sacred; College of Sociology


En abordant notamment les années 1930-1940, le texte propose une approche du contexte de production de l'œuvre de Georges Bataille, sans perdre de vue son aspect multiforme. Philosophie, littérature, politique, morale, sociologie, aucune voie directe ne permet d'atteindre ce qu'elle a d'essentiel, dans sa dimension à la fois sacrée, folle, érotique, maléfique, provocatrice.

Georges Bataille; Roger Caillois; sacré; Collège de Sociologie


ARTIGOS

O touro confrontado. O homem ébrio1 1 Trata-se da tradução do primeiro capítulo de Le Pur Bonheur de Francis Marmande (Paris: Nouvelles Éditions Lignes, 2011).

The confronted bull. The drunk

Francis Marmande

Universidade Paris Diderot. Paris, França

RESUMO

Abordando especialmente os anos 1930-1940, o texto ensaia uma aproximação do contexto de produção da obra de Georges Bataille sem perder de vista seu aspecto multifacetado. Filosofia, literatura, política, moral, sociologia, nenhum caminho demasiado direto pode alcançar o que ela tem de essencial, em sua dimensão a um só tempo sagrada, louca, erótica, malévola, provocadora.

Palavras-chave: Georges Bataille; Roger Caillois; sagrado; Colégio de Sociologia.

RÉSUMÉ

En abordant notamment les années 1930-1940, le texte propose une approche du contexte de production de l'œuvre de Georges Bataille, sans perdre de vue son aspect multiforme. Philosophie, littérature, politique, morale, sociologie, aucune voie directe ne permet d'atteindre ce qu'elle a d'essentiel, dans sa dimension à la fois sacrée, folle, érotique, maléfique, provocatrice.

Mots clés: Georges Bataille; Roger Caillois; sacré; Collège de Sociologie.

ABSTRACT

Encompassing the period from 1930 to 1940, the text offers an approach to the production's context of the work of Georges Bataille, without losing sight of its multifaceted aspects. Philosophy, literature, politics, ethics, sociology, no direct route can achieve its essential points, in its dimension both sacred, wild, erotic, evil, provocative.

Keywords: Georges Bataille; Roger Caillois; sacred; College of Sociology.

– Mais uma vez Bataille?

– Apenas uma frase que lhe terá escapado.

– Diga...

– "No fim das contas, é mais alegre se lavar raivosamente do que ser limpo."

– Você está brincando.

– Como é? Você crê poder dizer o contrário? Ou essa aqui: "Sou tido como inimigo da felicidade. É correto, se por 'Felicidade' se entende o contrário da paixão. Mas, se a felicidade for uma resposta ao chamado do desejo e se o desejo for o próprio capricho, então a felicidade é o único valor moral."

– Capricho, paixão, felicidade... E a literatura?

– A literatura? "Não devemos, para ser claros, destacar, em contrapartida, que a literatura, tal como o sonho, é a expressão do desejo – do objeto do desejo –, e por isso mesmo da ausência de constrangimento, da insubordinação leviana?"

– Sim, mas e os grandes motivos? Heterologia? Fora de campo? Despesa? Jogo? Sorte? Impossível? Interdito? Sagrado? O medo? Não reconheço nada em suas palavras daquilo que não sei de Bataille. Nisso, nos perdemos. Nem mesmo o erotismo, a morte, a pornografia.

– No fundo, o lado heteróclito e contraditório da reputação que lhe é atribuída seria, antes de tudo, encorajador. Essa mistura prova pelo menos que as etiquetas com que o enfeitam são despropositadas: "Os homens dançam, cantam, se embriagam, brincam, eles se excitam de mil maneiras para perder sem razão as forças que o transbordam." Ou então: "O prazer é mesmo apenas um viés por onde a sensibilidade que é o domínio do instante deixa entrar o cuidado de um tempo por vir."

No final, Bataille quis reunir diversos textos sob um título, A pura felicidade. Esse título tem o mérito de uma evidência ambígua. Ele implica o instante, em jogo no menor desejo, na sombra do desejo. O instante e o sagrado: "o sagrado, em todo o sentido profanador da palavra: oposto a um mundo indelével da utilidade racional."2 2 Trata-se da referência à edição da Gallimard das Œuvres complètes de Georges Bataille, publicada em 12 volumes entre 1970 e 1988. Mantivemos o padrão do autor do artigo, que cita apenas o volume e o número da página. (N. E.) *1 *1 (XI, 261.) O título de Bataille, deixado inexplorado, merece ser retomado. Ele dá outro colorido.

Eis um livro em que o antigo se mistura ao novo, os fragmentos recompostos aos inéditos, o jocoso ao erudito, o fútil ao essencial, a visão aérea à análise do detalhe. Um livro ofertado a quem nada sabe; mas também proposto, do mesmo modo, a quem tiver tudo lido. Um livro posto sob o signo do outro pensamento do qual se tem o dever de explicar: "Minha linguagem anuncia parcamente a melancolia de não ser nem Deus, nem uma ostra".

O instante, outro pensamento, a poesia: "A poesia abre o vazio ao excesso de desejo". Anunciando os mais amplos dilaceramentos interiores (A experiência interior), a poesia só tem sentido na violência das revoltas. Sua verdade, sua verdade da morte, do desaparecimento, é diversa da verdade da ciência. Ela fascina. Riso insensato, indecente, impossível.*2 *2 (XI, 157.) O instante? "O que acontece, por exemplo, o elefante, a cólera, a debandada desastrosa de um grande numero de elefantes, um embaraço inextricável." O erotismo? "A substituição do que acreditávamos conhecer pelo instante ou pelo desconhecido." Sem esquecer: "Do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida mesmo na morte." Frase liminar que teremos sido pobres o suficiente, menos de espírito do que de pensamento, para lê-la como pensamento macabro, suspeito. O pensamento? "Nunca tão rigoroso quanto em sua violência, no salto, no elã que o leva para além do sério." O pensamento soberano? "Porque é o pensamento destruído ou a morte do pensamento, ele nunca foi fundado e não funda nada".3 3 Todas as citações do fim do parágrafo foram retiradas de L'au-delà du sérieux [ Para além do sério], XI, 112. O que enunciava sem desvios uma copla flamenca do Gitan de Triana:

Un impossible me tue

Pour un impossible je meurs

Il m'est impossible d'atteindre

L'impossible que j'aime

[Um impossível me mata

Por um impossível, eu morro

É-me impossível alcançar

O impossível que amo]

Bataille nunca diz o texto, a escritura – neologismos por vir –, mas com frequência, a literatura e, sobretudo, seu reverso, a poesia – esse movimento de violência "traduzido na coerência calma da linguagem." No final, o silêncio, Molloy, Blanchot: "uma expressão que pretende que ao fim a literatura faça da linguagem essa fachada desordenada pelo vento e perfurada, e que tem a autoridade das ruínas..." E as palavras a René Char: "Não sei se amo a noite, pode ser, pois a frágil beleza humana só me comove até causar desconforto quando sei quão insondável é a noite, de onde ela vem, para onde vai. Mas amo a figura longínqua que os homens traçaram e não cessam de deixar de si próprios nas trevas!"*3 *3 (XI, 179.) Eles não terão, como se teme, ultrapassado o limite do possível, muito pior, eles o pousaram, fixaram, num excesso pavoroso. Daí a celebração – ingênua? Pobre? – da pura liberdade desenfreada, a inocência ruinosa da poesia. Ou ainda, acerca de Os dias de nossa morte, primeiro testemunho de David Rousset sobre os campos da morte, a invocação da nostalgia "não de uma felicidade saciada, mas dos movimentos embriagados da poesia na abjeção." Única condição à sobrevivência no invivível. Com essa injunção glacial: "A moral que comanda, nos campos de concentração, não é nada menos que a noite que indicando a luz".4 4 Serão encontradas outras coincidências com o pensamento de Hannah Arendt. *4 *4 (XI, 425.) Os campos marcaram o absoluto intransponível do mal. Cinco artigos o ruminam, o repetem, e é baseando-se nessa evidência que Hannah Arendt designa que sob a banalidade do mal "estavam homens como nós, com narinas e juízo...". O inverso exato de toda banalização, toda relativização do Mal.

Escândalo, a festa é o tempo sagrado, a literatura é festa, embriaguez, alegria, glória de viver, mas, ao mesmo tempo, morte, angústia, desmesura. A festa, essa entrega total, "abandono alegre ao mundo ilimitado do medo", a festa hostil ao tempo atrelado que caracteriza a vida profana, consumida num relâmpago, a festa da qual a poesia, mais do que o romance, dá a dimensão do homem: "O mito em que se inscreve a ausência de mito que nos entrega ao desvario extremo". Ou ainda, isto: "se digo: a literatura é o uso deslumbrado das palavras, renuncio muitas vezes a defini-la: tenho a taça na mão, perdi o direito de falar dela." Apenas a festa é um jogo "que lança os dados para atingir um número imprevisível", jogo semelhante ao da literatura, o contrário de um trabalho (a filosofia). Desvario, derrisão da política, sem outro sentido a não ser o revolucionário, cuja ligação nunca é durável. Derrisão da moral. E de maneira ainda mais desorientadora "o verdadeiro partido dos literatos é a festa. E ninguém pode falar de festa às cafetinas. A linguagem do gozo está sempre errada".*5 *5 ( Critique, nº 28, agosto de 1948; XI, 51. ) Já que a filosofia continua a ser um empreendimento, um atividade ancilar, não há filosofia do jogo, "Zaratustra não é um livro filosófico" ("A pura felicidade", 1951).5 5 Um texto breve com esse título de "A pura felicidade", fora do dossiê de fragmentos e de notas do conjunto de textos que deviam constituí-lo, em breve será objeto, assim como no Japão, de uma publicação separada. Pensamento sumário, diz-se por vezes para se livrar dele, por que não? A poesia não está de forma alguma engajada numa experiência que a ultrapassa. O que está engajado não é nada: menos o movimento do que um simples resíduo deixado para a agitação. Sem dúvida, sob o reino da atividade útil (no sentido de ser impossível de se evitar), que pelo menos nos dispensem de fazer "dessa triste necessidade", ou do penar dos homens, o valor. Crítica hoje tão datada quanto seu objeto. Ela surge em meados dos anos cinquenta (1950) e exala o século XIX. O domínio baseado no desprezo aos pobres, na violência social, esse pavão de plumas de aço, toda uma dramaturgia expeditiva, se encarregou de desbotar todas essas considerações. Em Paris, essa noite, a fatalidade assassina. A fatalidade assassina os desgraçados, os loucos e miseráveis desabrigados. Antes de matá-los, eles são exibidos para apavorar os escravos. Faz frio. No solo, a neve imunda cobre os corpos dos abandonados. O nonsense da literatura moderna é mais profundo do que o das pedras. O único sentido, aos olhos de Bataille, em seu tempo, que o homem ainda pode dar ao objeto imaginário de seu desejo. A poesia sempre pode se aventurar nos limites. Quanto à filosofia, ela não levou longe o suficiente a crítica da inteligência utilitária,*6 *6 (XI, 119.) "nunca se juntou ao ódio, às exigências do discurso lógico, à simplicidade, à potência da poesia".*7 *7 (BATAILLE, G. "L'équivoque de la culture". In: Comprendre, n. 16. Société Européenne de Culture: Veneza, 1956. ) Os filósofos artistas ainda estão por vir (Coltrane, Sun Râ, Godard, Deleuze, Rebeuyrolle, Lubat, Ornette Coleman, Micel Portal, Joëlle Léandre...).

Essa referência à filosofia atormenta como um dente. Bataille? Reiteradamente, "não sou um filósofo" (mas um santo, um louco etc.), ou então: "Está aqui a filosofia que represento". Plácida declaração feita em 1957, diante de uma corte de justiça que delibera acerca da interdição da publicação de Sade. Testemunhas, Cocteau, Paulhan, Bataille, Breton. Todos se surpreendem. Ninguém a se perguntar se é possível "representar aqui a filosofia" sem ser filósofo. A prova.

Bataille? Uma face bela pintada de carniceiro, todos podiam ver, como sempre, o seu desejo, a voz grave, fluida, suave, sob a máscara negra de uma barafunda de clichês: erotismo imundo, eclesiástico, machista, misógino, criptocomunista, ou então, "super-fascista",6 6 Super-fascista, ultra-fascista. Cf. nota nº 6. (N. do T.) * e isso segundo, retomando mais uma vez a expressão que lhe é imputada, apesar de ser de autoria de Pierre Dugan, aliás, Andler, o tempo do panfleto lançado pelo grupo super-revolucionário, Contra-Ataque.7 7 Contre-attaque, grupo e manifesto antifascista criado em 1953 por Bataille e Breton. Super-fascista (Dugan ou Dautry), como se diz surrealista ou super-homem?8 8 A "velha toupeira" e o prefixo "sur" nas palavras surhomme [super-homem] e surréaliste [surrealista], dossiê da polêmica com André Breton (II, 93). Aproveitemos para lembrar que "super-homem" não é uma exclusividade de Nietzsche: ver Bergson, Bachelard etc. Escritor sem "obra" reconhecível (doze volumosos tomos in-octavo, no total), estudioso que persegue o não saber, de uma vez por todas fixado – seu suplício chinês – num contexto maldito em que dançam como colagens ou marionetes erotismo, poesia, violência, sagrado, pornografia. Mais, para grandes iniciantes, potlach, exuberância, dilapidação, o medo.

Quem? Esse pensador sem outro pensamento a não ser a ironia, sem outra estratégia a não ser enquadramento-transbordamento, sem outro método a não ser a derrocada dos sistemas, que permaneceu fora âmbito do surrealismo, do comunismo, do existencialismo; seja ao encimar, desconfiado, em seguida amistoso (o surrealismo), seja pendente (o comunismo), ou declaradamente hostil (o existencialismo).

Quem, então, entra na carreira "literária" sem o desejar, mas não sem buscar (ele é aluno da École Nationale de Chartes e continua na profissão de bibliotecário até o último dia), mediante um projeto organizado e assinado por André Breton (1929), e uma estocada mortal de Sartre, em 1943? Maneira bizarra de provocar a morte de um autor sem obra, inquieto, mas ainda desconhecido pelo público em 1943, cuja imagem, aliás, é bastante incerta para o público do século XXI. Assim como o rosto de um afogado tremulando na superfície das ondas. Estocada mortal, descolamento, decapitação, acéfalo, nós nos aproximamos. Cremos nos aproximar, tudo se afasta. Sem falar que, nessa convicção, não é raro o recuo. O autor "sem obra", mas, num sentido, o autor mais bem cartografado, permanecendo inencontrável, irrecuperável. Nenhuma livraria, em 2011, conserva nas prateleiras os doze tomos em grande formato de suas obras completas. Algumas edições separadas (os relatos), um grande volume da Pléiade (Romances e relatos), a biografia intelectual que devemos a Surya, uma generosa peça crítica, nada porém que provoque grandes movimentos.

Marguerite Duras, em 1958, numa revista, La Ciguë, cuja edição se resume a um número:9 9 La Ciguë, Georges Bataille, 1958 (direção Jean-François Leroux e Jacques Pimpeneau).

A crítica, mal se vê diante do nome de Bataille, se intimida [...]. Os anos passam: as pessoas continuam a viver na ilusão de que um dia poderão falar de Bataille [...]. Essa abstenção torna-se seu orgulho. Elas vão morrer sem ousar, no cuidado extremo que tomam de suas reputações, confrontar esse touro.

Na Ciguë, a homenagem prestada a Bataille está espremida entre textos sobre a FLN (favoráveis),10 10 FLN: Frente de Libertação Nacional (Argélia). o stalinismo (contrários) e (com) Nicholas Ray.

No programa: René Char, Marguerite Duras, Jean Fautrier, Louis-René des Forêts, André Malraux, Jean Wahl, Michel Leiris e por fim André Masson, a quem Bataille acaba de enviar O erotismo. "Eu não poderia escrever esse livro se tivesse de elaborar sozinho os problemas que ele me punha." Esse sumário tem algo de perturbador. Bataille, muito pouco conhecido em 1958, mobiliza então esses nomes, para uma revista de estudantes sem futuro. Estranho.

Estranho quando não se sabe, quando se sabe mais ou quando não se quer saber. De História do olho (1928) a Lágrimas de Eros (1962), a obra mais dilacerante se dedica à amizade: Leiris e Masson. Klossowski, Queneau, Caillois, Blanchot, mas também Char, Lacan, Michaux, Giacometti, Prévert... Quem é então esse sujeito singular, sem outro objetivo a não ser o impossível, sem outra espera a não ser "O desvanecimento do real discursivo" (que fórmula!), sem outra ansiedade a não ser desnudar a vida e a ideia como uma moça se despe, sem outro princípio a não ser a despesa [dépense] – a parte maldita, esse excesso no qual se condensa o sacrifício? Quem sacode a filosofia, toda a filosofia, algo comicamente amontoada diante dele, numa noite de 1944 – todos presentes na casa de Marcel Moré, de Sartre a Gabriel Marcel – para discutir o "pecado"?*8 *8 (BATAILLE, G. Discussion sur le péché. Apresentação de Michel Surya. Paris: Éditions Lignes, 2010. )

Seu erotismo sujo, duro, estupefato, alegre, tentado pelo nada que duplica a ausência de Deus, não é o que assusta: "Eu causo medo, não pelos meus gritos, mas não posso deixar ninguém em paz". Barthes, em outras palavras:

Bataille, em suma, me comove pouco: o que tenho a fazer com o riso, a devoção, a poesia, a violência? O que tenho a dizer do 'sagrado', do 'impossível'? Entretanto, basta que eu faça coincidir entre toda essa linguagem (estrangeira) com a perturbação que em mim tem o nome de o medo, para que Bataille me reconquiste: tudo o que ele escreve, então, me descreve: isso cola.

Ciclicamente, Bataille desaparece, retorna. Sentimos que ele se alça em direção à notoriedade – o "reconhecimento" que é, em si, o reverso de sua sorte – para tão logo daí retornar ao fundo. Não nos habituamos a isso. Sísifo da glosa. Isso acontece mais ou menos a cada sete anos. Essa periodicidade nunca foi estudada de perto. Com o objeto de torná-lo conhecido, três editores organizam, em 1957, um fogo-cruzado, Jean-Jacques Pauvert, as Éditions de Minuit, Gallimard: O azul do céu, O erotismo e O mal. A partir do início dos anos 60, o grupo Tel Quel se agita e o agrega. Alguns meses após sua morte, em 1962, Critique, a revista francesa fundada em 1946, publica um número especial ao qual outros, mais ruidosos, teriam levado à altura de Manifesto: os textos são de Barthes, Blanchot, Foucault, Klossowski, Leiris, Masson, Métraux, Piel, Queneau, Sollers, J. Wahl.

Seria a ocasião de lê-los.*9 *9 ( Critique, "Hommage à Georges Bataille", números 195/196, agosto-setembro de 1963. )

Mais tarde, dois números da Arc lhe foram consagrados (Leiris, J.-M. Rey, Deguy, Hollier, Derrida, Duvignaud, Kojeve, Perroux etc.). Por que dois? Michel Foucault lança suas Œuvres Complètes. Um colóquio em Cérisy faz falar dela, dele (1973: Sollers, Barthes, Baudry, Hollier, Houdebine, Julia Kristeva, Pleynet, F. Wahl) Artaud, Bataille, por uma revolução cultural. Um invejoso se esconde sob a sombra de "seu cavalo de Bataille" e passa a falar como se nele estivesse montado. Ele também custa a acreditar. Faz parte do jogo. Universitários kamikazes entram na dança. Os colóquios são seguidos de silêncio, silêncios de incursões solitárias: Réda, Baudrillard, Deleuze, J.-L. Nancy, Denis Hollier inventa um Collège de sociologie (1980).11 11 Hollier, autor de Prise de la Concorde (Gallimard, 1974). Depois, Robert Sasso, seu ensaio sobre o riso; Lucette Finas (La Crue), Jacques Risset, Marguerite Duras; as mulheres não falam de Bataille como os homens. Essa observação deveria poder se manter por algumas temporadas.

Após a irradiante reunião de artigos dos Documents por Bernard Noël nas edições Mercure de France (1968)12 12 Documents, revista dirigida por Carl Eisenstein, financiada por Georges Wildenstein e publicada por Bataille e Pierre d'Ezpezel, ambos conservadores do Gabinete de Medalhas da Biblioteca Nacional Francesa, com o apoio ativo de Georges Henri Rivière. Iconoclasta, máquina de guerra e rapidamente orientada para o oposto de seu projeto, a revista publica quinze números de abril de 1929 a janeiro de 1931. Os patrocinadores logo interrompem a aventura. Menos em virtude de pouca repercussão pública (é o mínimo que se pode dizer) do que pelas divergências com os organizadores. D'Espezel a Bataille: "O título que o Sr. escolheu para essa revista em nada se justifica a não ser no sentido de que nos dá 'Documentos' sobre o seu estado de espírito. É muito, mas não o suficiente. É necessário de fato que retornemos ao espírito que nos inspirou o primeiro projeto dessa revista, quando falamos com o Sr. Wildenstein, o Sr. e eu." Ver Didi-Huberman, La Ressemblence informe, ou le gai savoir visuel, em Georges Bataille, Paris, Macula, 1995. – Bernard Noël, cuja obra infinita, no sentido que Blanchot pode falar de Entretien infini [Entrevista infinita], porta a marca, o sentido e o não-sentido de Bataille à flor da pele (La Maladie de la chair) –, os livros se sucedem com a regularidade de um farol na noite. Alguns franco-atiradores vão adiante: Christian Limousin, por exemplo, a quem ninguém fará o esforço de seguir. Aderido demais, difícil demais. Enquanto isso, subalternos conduzem o velho ofício de sua carne de segunda ao ritmo de suas neuroses. Michel Surya, solitário, paciente, traça seu caminho em torno de La Morte à l'œuvre (1987, 1992). Em cada período seu próprio programa.

Após a publicação de Bataille politique (PUL) e L'Indifférence des ruines (Parenthèses), em 1985, vários trabalhos acerca de Bataille, sem contar as teses não publicadas, nos deram dele uma imagem mais completa e, portanto, mais complexa. Além da edição dos tomos X, XI e XII das Œuvres complètes (Gallimard, 1988-1992), de minha autoria, darei aqui destaque às obras de Michel Surya (Correspondance, Une liberté souveraine, Humanimalités, dois números especiais de Lignes sob sua direção); Les Temps Modernes (nº 602, janeiro-fevereiro de 1999), dirigido por Claude Lazmann (conversa com Michel Deguy); a revista Littérature (Bataille écrivain, 2008); dois livros que considero essenciais de Bernard Sichère (Le Dieu des écrivains, Pour Bataille), prefácios de Philippe Sollers entre os quais o de Bleu du ciel, o volume da Blibliothèque de la Pléiade, enfim, Romans et récits, prefácio de Denis Hollier, edição publicada sob a organização de Jean-François Louette, com a colaboração de Gilles Ernst, Marina Galletti, Cécile Moscovitz, Gilles Philippe e Emmanuel Tibloux (Gallimard, 2004). Não poderíamos esquecer os colóquios (Roma 1985/1987, organizados por Jacqueline Risset, Orléans 1996, Denis Hollier, Orléans 1997, F.M., Madri, organizado por Tibloux, 1997), a Jornada do Centésimo Aniversário na Bibliothèque Nationale (1997, organizado por Jacqueline Risste e F.M.) etc.

Aviso aos pesquisadores e outros curiosos: os tomos XI e XII das Œuvres complètes (mais de 1.600 páginas em grande formato), coletânea de artigos de Bataille de 1944 a 1962, constituem um formidável acervo, um canteiro, amplamente subexplorado.

Não retornaremos, aqui, não agora, às análises de Derrida, já consideradas em Bataille politique. Elas tendem, a posteriori, a fazer de Bataille – como o diálogo entre Jean-Luc Nancy (La communauté desœuvrée) e Blanchot (La Communauté inavouable, Minuit, 1984) – um filósofo singular. Mesmo que Blanchot tenha a intuição, atravessando A doença da morte (Marguerite Duras), de descentrar o mundo imaginário dessa filosofia paradoxal para o dos amantes.

Numerosos trabalhos em maior ou menor medida universitários concordam, se apalavram, em manter essas leituras num canal restrito. Abrigados sob o complexo, o espaço hiante e outras fissuras, e muitas vezes a encarnação, sua perspectiva permite escapar de toda visão lateral, binocular, mas também, a todo ponto cego. Caso de antolhos.

Por acaso ou por impossibilidade, parece, neste início de século XXI, que as pesquisas conduzidas no Oriente (Japão, China, Coreia) lhes oferecem – experiência, não saber, neutro – uma possibilidade bastante nova de deslocamento no qual encerramos este estudo. Sem perder de vista os essenciais mais próximos, não apenas nas esferas das ideias, Kojève, Ambrosino, Mascolo, acerca dos quais tive de me expressar em outra oportunidade (em Bataille politique, Lignes, Le Monde e outros artigos), assim como sobre Caillois.

Um breve recuo aqui permitirá abraçar os mundos da amizade e da comunidade.*10 *10 (MARMANDE, F. Prefácio às Lettres à Roger Caillois, reunidas e apresentadas por Jean-Pierre Le Bouler (4 de agosto de 1935 – 4 de Fevereiro de 1959), editadas por Folle Avoine, 1987.) Cartas de George Bataille à Roger Caillois. Elas se estendem por um quarto de século, de 4 de agosto de 1935 a 4 de fevereiro de 1959. Além do interesse de sua apresentação, ligado ao interesse da época que percorrem como um fio desencapado, elas deixam filtrar respostas sem as manifestar. Disperso ou destruído, o correio que Bataille recebe de Caillois permanece como letra morta e lhe deixa na posição, por força das circunstâncias, de um tipo de última palavra inacabada.

Bataille e Caillois se conhecem. Foi no seminário de Alexandre Kojève. A partir de janeiro de 1934, todas as segundas-feiras às 17h30, numa pequena sala da École de Hautes Études, Kojève lê Hegel com uma inimitável dicção. Quando, ao fim de seu comentário da Fenomenologia do espírito, ele declara o fim da História, a guerra, por sua vez, exata, começa.

Os mais fiéis a escutarem essa voz pacífica e áspera – uma mistura curiosa do eslavo com sotaque da Borgonha, diz Surya13 13 Michel Surya, Georges Bataille La mort à l'œuvre, Séguier, 1987, reedição aumentada, Galimmard, 1992. – são Raymond Queneau, Jacques Lacan, Merleau-Ponty, Eric Weil, André Breton, Raymond Aron... Bataille sai tantas vezes dali destruído, moído, morto – são suas palavras –, "sufocado" e "pregado". Queneau conta que por vezes ele cochilava. Uma coisa não impede a outra. É outra maneira de escutar. Juntos, eles dão origem, em março de 1932, a um longo artigo em La Critique sociale: "a crítica dos fundamentos da dialética hegeliana". Ali, eles exigem, a partir daquele momento, a despeito dos preconceitos da extrema-esquerda, que a dialética marxista seja purificada pelos saberes ditos "burgueses": a psicanálise freudiana e a sociologia francesa (Durkheim prolongado por seu sobrinho Mauss). Aron, por sua vez, sai do seminário mil vezes irritado, em razão do stalinismo de Kojève, que se apresenta, aliás, como um marxista de direita. Quanto a Caillois, ele se comporta como discípulo.

É uma época – e ela recomeçará várias vezes, frêmitos passageiros da sensibilidade coletiva –, na qual todos procuram os cursos, os seminários, os grupos de estudo e de pensamento. Ver 1965-1977 na França. Alexandre Koyré já representou para Kojève um papel semelhante. Papel que, cada um à sua maneira, Bataille e depois Lacan (Foucault, Barthes, Deleuze) retomarão.

Bataille e Caillois se sucederam nos bancos do Liceu de Reims, com cerca de quinze anos de distância. Não sem sinais de nervosismo, Bataille se dirige ao mais jovem do que ele. Com frequência, com a vivacidade de uma observação, ele lembra a seu interlocutor a amizade mútua, protesta por sua constância. Essas cartas contam também essa história política e literária. Elas dão uma imagem descolorida, tinta desbotada de sua dimensão passional.

"Entre mim e Bataille", diz Caillois em 1970 a Gilles Lapouge, "havia uma comunidade espiritual muito rara, um tipo de osmose de fundo, a ponto de a parte de um e a parte de outro serem muitas vezes indiscerníveis." Ária conhecida. Parte indiscernível, fusional, atormentada e do mesmo modo exuberante. A amizade solicitada por Bataille num nível quase conceitual nunca reduz a parte sacrificada, suscetível de efeitos e deflagrações. O que ele pensa, jamais pensa sozinho, jamais pessoalmente, como se diz. Ele pensa com os outros, através deles: com Alfred Métraux, André Masson, Michel Leiris, Pierre Klossowski, Kojève, Queneau, e logo Blanchot, Char ou Michaux.

Até a guerra, Bataille, que terá sido o mais solitário de todos, tenta estender ou suscitar comunidades de amizade. Seguir por essa via as análises baseadas na experiência de Jean-Luc Nancy. A partir do fim dos anos 1920, ele conduz seu mundo para a busca dos não lugares, utopias criativas que fundam e transformam novas comunidades. Utopia supercrítica com a revista Documents. Ofensiva, no grupo Contre-Attaque, na qual Caillois mal entra e tão logo sai. Teórica e ativista, no Collège de Sociologie que eles fundam com Michel Leiris acerca de um título devido a, crédito estranho, Jules Monnerot. Secreta, com Acéphale, da qual o Collège é a emanação exterior. A guerra faz com que essas orquestras voltem à inanidade. No retorno de Caillois, após seis anos na América Latina, amizade intacta (único casal no qual Bataille entra, experimentando a esse ponto a necessidade de marcar sua amizade, de se assegurar dela, de estar seguro dela),14 14 Dito isso, não conhecemos as cartas trocadas entre Bataille e Blanchot. Muito numerosas e longas. Por um pacto, eles decidiram destruí-las quando da morte do primeiro deles. O que não é nada. Mas eles o fizeram. O que diz tudo. Caillois não colabora com a Critique que Bataille funda em 1946, mas permanece próximo de seu último projeto malsucedido, a revista Genèse (1957).

A menor das singularidades do Collège de Sociologie é tão somente se deixar tratar com desenvoltura – em sua apresentação dos trabalhos de grupo, Dennis Hollier fala da negligência oriunda dos próprios participantes –, com afastamento. O Collège se afasta da sua própria experiência diluída pela guerra. Afastado de seu passado, ele acaba por se afastar de sua própria memória. É uma pena, pois essa experiência continua a nos falar diretamente, sobretudo nestes tempos que lembram, no sentido lamentável do termo, os anos trinta.

De novembro de 1937 a 4 de julho de 1939, na casa dos fundos das "Galleries du Livre", na rua Gay Lussac, o Collège de Sociologie mantém regularmente suas sessões, após se ter reunido, em sua fase constitutiva, no restaurante Grand Véfour, vizinho do Palais-Royal. A ideia é de Bataille, que acaba de extinguir o grupo Contra-Ataque, de Leiris e – o mais jovem deles – Roger Caillois. Em março, a "Declaração relativa à fundação do Collège de Sociologie" é assinada por Bataille, Caillois, Ambrosino, Klossowski, Pierre Libra e Jules Monnerot. Esse nome, "collège" [colégio], é sugerido por Monnerot, mas ele logo se separa do grupo. A declaração é publicada no nº 3/4 de Acéphale: centro de interesse, a presença ativa do sagrado em todas as manifestações sociais, com, a partir de um apoio incerto dos signatários, a intenção surda de disparar energias violentas, desencadeá-las ao ponto de sua indomável liberação: teorizar, claro, e sobretudo precipitar.

Blum acaba de se demitir. Alguns meses antes, Bataille publicava Sacrifices, acompanhado pela água-forte do ilustrador de Acéphale, André Masson. Foi na casa de Masson, em Tossa de Mar, na Espanha, que ele terminou, no ano anterior, Le Bleu du ciel, o qual só será publicado em 1957, mais de vinte anos depois. Em 19 de agosto de 1936, Garcia Lorca foi fuzilado perto de Granada pelos franquistas. No dia 18 de outubro seguinte, a Alemanha e a Itália reconhecem o fascismo espanhol. Um mês após, Roger Salanegro se suicida. No fim do ano, o PSF [Partido Social Francês] do coronel La Rocque atinge 600 mil membros.

Em 16 de outubro de 1937, Artaud é internado no hospital psiquiátrico de Soteville-lès-Rouen. Na URSS, Boris Pliniak, assim como tantos outros escritores, como tantos outros, é deportado, morrendo em consequência desse exílio. Ele havia sido amante de Colette Peignot, que vive então com Bataille. Céline revela suas repugnantes e reveladoras Bagatelles. Não menos essenciais – inseparáveis dela e de estilo idêntico – do que a indulgente obscuridade de Voyage. Para viver e para pensar juntas. Nada cômodo.15 15 E isso dito num tempo (janeiro de 2011) em que uma instrutiva polêmica – suscitada pelo aniversário da morte de Céline (1961) e pela necessidade de comemorá-lo ou não – faz dos defensores do gênio ( Viagem ao fim da noite, Morte a crédito) os crucificados no necrotério ( Bagatelles etc.). Doutos estudiosos, assustados com a descoberta, perto dos anos cinquenta, de que Céline era antissemita, e mesmo muito antissemita, e eles próprios, ex-maoístas limítrofes, logo não muito limpos, tiram do armário o cadáver do fundo e a forma (cf. o opúsculo Contre Céline, 1997), e se flagelam conceitualmente, se fazendo de arrependidos. Provérbio do sudoeste francês: "Il y a plus d'un âne au Marensin qui s'appelle Martin" [literalmente: No Marensin há mais de um burro chamado Martin]. Estamos nesse ponto. Oitenta mil exemplares destruídos em poucos meses. Alphonse de Chateaubriant profetiza, ao contrário do Collège, comunidades sem qualquer traço de ociosidade, mas que se ativam, levadas por uma espécie de positividade crepuscular utilitária: seu livro se chama "La gerbe des forces" [O feixe de forças]. Tzara dedica desta forma seus Graines e Issues: "À Georges Bataille, cuja tensão do espírito se situa entre os elementos mais preciosos de nosso tempo". Franco bombardeia Guernica. Picasso se põe a pintar este quadro, sobre o qual Bataille diz: "É estranho que a mais livre das artes tenha atingido seu ápice numa pintura política".

Bataille cresceu nas encostas de um vulcão da Auvergne, numa pequena cidade sem igreja. A erupção do Krakatoa o sidera (Le bleu du ciel). A catástrofe de Agadir, ao fim da sua vida, o convulsiona. Com Colette, ele parte para uma visita ao Etna: "Era impossível imaginar algum lugar no qual a horrível instabilidade das coisas fosse mais evidente". Depois de ter experimentado nas entranhas o roncar do ventre da terra, ele se dispõe a medir diretamente o fabuloso movimento intestinal das coisas. O que bastou para Caillois querer provocá-lo. Potlach. Leiris exige um mínimo de seriedade e de rigor no uso das palavras, dos conceitos e referências: a sociologia, que sociologia? Consultado, Kojève previne: não se inventa inteiramente esse "sagrado virulento e devastador que terminaria por contágio epidêmico, ganhando e exaltando aquele que tiver primeiro semeado seus germes...". Tratado de aprendiz de feiticeiro, Bataille reverte a situação e toma a censura como título de sua primeira intervenção. Em 20 de novembro, Bataille e Caillois compartilham uma conferência com três problemas de diapasão, cujo testemunho se encontra na carta do dia 21. A este discurso estereofônico sobre a "sociologia sagrada e as relações entre sociedade, organismo, ser", se sucedem: "As sociedades animais" (Caillois), "O sagrado na vida cotidiana" (Leiris), "Atração e repulsão" (duas exposições de Bataille), "O poder" (Caillois), e, em seguida, mais uma vez a duas vozes, "A sociologia sagrada do mundo contemporâneo". É o programa do primeiro ano. Fora do triunvirato no qual a voz de Leiris se faz cada vez mais desconfortável, silenciosa, apenas um interventor: Kojève, em sua conferência de 4 de dezembro, "As concepções hegelianas". No dia seguinte, Bataille e Colette Peignot (Laure) se dirigem ao lugar escolhido por Sade para seu enterro, em Malmaison. O surrealismo parece ter tomado o caminho das obras e de consagração – em janeiro de 1938, uma exposição internacional lhe é dedicada –, o que significa também o caminho de seu fim. Hitler invadiu a Áustria sem excesso de resistência interior ou internacional. Maurras é eleito para a Academia Francesa. Doente, Colette é hospitalizada, vindo a morrer alguns meses depois. Tudo isso aparece de forma discreta, alusiva ou diretamente nas cartas ("Não me diga uma palavra sequer do que você sabe", escreve Bataille a Caillois em 10 de novembro de 1938). O Collège continua, assim como Acéphale, após a publicação na N.F.R., por Paulhan, de seus três textos inaugurais. Em seu segundo ano de exercício, René M. Guastalla, Klossowski ("Sade e a revolução"), Anatole Lewitzky ("Le chamanisme" ["O xamanismo"]) – ele organiza, a partir de agosto de 1940, a primeira rede de resistência na França ocupada, a rede do Museu do Homem, sendo fuzilado em 1942 – e Hans Mayer ("Os ritos das associações políticas na Alemanha romântica") se juntam aos conferencistas fundadores.

A Tchecoslováquia é invadida. Pouco depois, a Polônia. O Pacto germano-soviético é assinado. Jules Monnerot lança uma enquete para Volontés, ridicularizando o lado maníaco do grupo, no coletivo, na comunotite. Exilado em Londres, Freud morre em 23 de setembro de 1939, comparando-se ao o velho Jacó enviado por seus filhos ao Egito: "Esperemos que não se siga um êxodo ao Egito, como outrora." E acrescentou: "Meus livros são queimados na Alemanha, tive sorte, há alguns séculos, seria eu o queimado." Ainda a esperança: mas, nesse momento, a esperança mata.

Pouco antes de mergulhar em sua "drôle de guerre" [guerra esquisita], como uma desgraça nunca vem só, os "franceses" se veem submetidos a uma das primeiras sondagens IFOP.16 16 Pesquisa de opinião pública, semelhante ao IBOPE no Brasil. (N. do T.) Eles aprovam os acordos de Munique? Sim, sim, sim (57%); não, não (37%). Primeira manifestação pública dos sans-op, os sem "opinião", que a partir desse momento passam, com toda soberania e a todo propósito, a decidir, sem mesmo o saber, sobre qualquer coisa, a dirigir o mundo. Assinado por Bataille, Caillois e Leiris, o Collège de Sociologie publica sem esperar um texto enraivecido e enojado, desaprovando sem nuanças a mentira absoluta dos acordos de Munique uma semana após sua assinatura. Em Viena, uma manifestação católica abençoada pelo cardeal Innitzer desfila aos gritos de "Jesus é nosso Führer!".

De conferência em conferência, Bataille e Caillois se põem em acordo e desacordo em torno de uma palavra sempre, porém, compartilhada. Bataille, por duas vezes, faz improvisos, na ausência de Caillois, doente, tomando como base suas anotações. A comunidade manifesta-se então naquilo que há de mais estranho e de mais difícil de ser delimitado: sob as desavenças, um acordo de enunciação sem origem, limpo de todo toque narcisista, dando adeus à figura da pessoa, do autor, sua assinatura. Paradoxalmente, essa troca de palavras atinge seu contrário, a medida das contradições, ao passo que o estudo do sagrado nas atividades humanas "enquanto criadoras de unidade" devia ter como consequência a criação de unidade interna, ligada.

Sobre a natureza do poder, Caillois parece tomado pela vertigem da vontade, e Bataille absorvido por seu desejo de tragédia, um sonhando com obscuras ordens sociológicas, o outro preconizando práticas rituais sem grandes consequências (recusa a apertar a mão de antissemitas etc.); um tentado pela nova ordem dos conjurados, o outro buscando a experiência interior suscetível de desenvolver o empreendimento. Como que atacado por um estrabismo divergente, o Collège, "lugar de equívoco e dissensão" (Caillois), tropeça, entre sua dupla vocação de sociologia sagrada e sociologia do sagrado, na própria noção de sagrado. Bataille continua a expor o que ele chama de uma "ideologia de combate, [...] isto é, por definição, um erro necessário". Ele se arrependerá das aberrações.

Para a última sessão, cuja ordem do dia parece ser questionar (4 de julho de 1939), Leiris prefere calar-se, mas, enfim, trata-se mesmo de uma escolha, no seu caso? Caillois acaba de partir para a Argentina e Bataille se lança, bastante desamparado, fatigado por esses anos febris, num balanço desses poucos meses. Os membros da revista Esprit, trotskistas que tinham sido próximos de Suvarin, Jean Wahl – "O mais malvado de seus alunos", como ele próprio o diz – mas também Drieu La Rochelle ou Walter Benjamin seguiam as sessões.

Bataille se retira: "Muito feliz", diz ele, "por ter tido a oportunidade de descer ao fundo do meu pensamento não na calma de uma reflexão solitária, mas na desordem das contestações." A desordem das contestações deu origem, assim, à felicidade. Mediante uma carta lida por Bataille em seu lugar, Leiris comunica suas restrições e sua vontade e que seja realizado um congresso, marcado então para a volta das férias. Apenas a guerra cumpre com seu horário. E tem a última palavra, tornando insignificantes os projetos do Collège, assim como reduz a nada as sombrias premonições de Le bleu du ciel. No fim de 1939, durante o lançamento de O homem e o sagrado, Caillois exprimiu sua gratidão a Bataille: "Parece-me que se estabeleceu entre nós uma espécie de osmose intelectual, que não me permite, por minha vez, distinguir com certeza, após tantas discussões, sua parte da minha parte na obra que perseguimos em comum." Bataille diz do livro que não apenas ele é magistral, mas "essencial à compreensão de todos os problemas cuja chave é o sagrado." E mais tarde: "O sagrado, essencialmente, é um retorno ao silêncio da morte." E, voltando a Caillois ("A guerra e a filosofia do sagrado"), em 1951, isto: "O que chamamos de sagrado não pode ser reservado aos sociólogos".

***

A obra transborda. Sobre o desaparecimento de Bataille, conhecemos menos da metade de seus fatos. Ninguém pode abraçá-la. Os verdadeiros leitores, os leitores distantes, os leitores mais próximos (Max Schoendorff, J.-P. Jungo, Michel Butel, Yves Orecchione) não se ocupam dos rumores nem das descobertas. Ao receber os dois últimos tomos das obras completas, Leiris, em 14 de abril de 1988, os alinha em sua biblioteca: "Que coisa, quem podia ter desconfiado de que ele escreveu tanto!" As traduções abrem a via de uma crítica japonesa, inicialmente, anglo-saxã, em seguida, americana, do sul e depois do norte. Perdidos e decepcionados como crianças que veem seu balão escapando pelo céu, restam aqueles que tiveram o desvario bizarro de ler Bataille... De segui-lo... "A revolta é o próprio prazer, e também é o que está em jogo em todo pensamento." Trata-se da experiência livre de amarras, livre mesmo de toda origem.

Regularmente também – uma coisa explica a outra – como um dente que perturba: a suspeita. A ambiguidade de Bataille, seu percurso indecidível, sua velocidade paradoxal, sua escrita de estranhezas acidentais, seu próprio movimento é desviante: "Minha queda vertiginosa e a diferença que ela introduz podem não ser apreensíveis por quem não fizer pessoalmente sua experiência... Nunca concluo. É por isso que a crítica do meu pensamento é tão difícil".

Ninguém gosta. A suspeita como saída. Seus ares de fênix lastimável. O azul de um olhar alemão deveria ser suficiente para desacreditar Le bleu du ciel, chegamos mesmo a ler isso numa exegese caduca. Cremos nela? A teoria literária não se isentou da história.

Tiramos Hegel, Marx e alguns outros da Mancha desse túnel do pensamento, para desmontar a noção de dépense [despesa]. De fato...

Criticamos o marxista, perseguimos o idealista, denunciamos o materialista, desvelamos o místico, odiamos o devasso. Responsabilizamos o bibliotecário.

Rato de biblioteca. Eles não ousarão. Tudo depende do momento. A suspeita lançada sobre Bataille ainda vale como excelente indicador de época. Não temos aí, por muito pouco, o vigor de Breton em 1929, a estranheza de Sartre em 1943: Bataille tem então quarenta e seis anos. Ele acabava de publicar seu "primeiro" livro, A experiência interior.

Uma ciência poderia ser inventada. A meteorologia da suspeita sobre Bataille. Ela daria os ares do tempo. Perfeito barômetro ideológico. E indicaria depressões, perturbações, anticiclones. Temperatura do tom, sua altura, sua trivialidade. Ela manteria apenas uma constante – como se constata o azul do céu ou a tempestade (desejada): "que o exercício da liberdade de pensamento é (ainda hoje) intolerável; que os escritos não são mais lidos" (Jacqueline Risset) e, acessoriamente, que a escrita, quando se abre para a noite, deixa vacilante.

Ri-se também, como se ri a cada página de Proust, sem dizê-lo mais.

Há um risco mais real não pensado, um risco que se pretende, aliás, não ser percebido (os modos, a evolução, o movimento do mundo...) fazendo do sexo um método, do prazer uma violência e do erotismo um abismo mortal. A perda para a qual desliza alegremente todo espírito rumo à sua ausência.

Esse desejo de dizer tudo, "tudo, a qualquer ponto em que se alcance o frêmito do homem" (Sade), a exigência nietzschiana de ir ao não saber, à altura do homem e à altura da morte, a afirmação do sujeito, tão logo negado em sua intimidade recuada, não são senão efeitos de uma transgressão que é cada vez menos suportada. Já que ela obriga a literatura, do lado do mal, a se dizer culpada e porque ela não pode mais responder a não ser a uma moral dominada, aos olhos de Bataille após a guerra, pela abominação dos campos de concentração e o desastre de Hiroshima.

Dizer que terá sido necessário suportar isso também. Que a polícia do pensamento mantenha isso, essa observação, como duvidosa. Miséria. Não se adere, sem violência, à experiência incompartilhável de quem pôde afirmar: "Não escrevo para este mundo." O que é apenas uma maneira, a mais crua e a mais animal, de visar, na história universal, o excesso de pureza em que se queima Edwarda.17 17 Referência a Madame Edwarda, livro publicado, em 1937, por Bataille sob o pseudônimo de Pierre Angélique. (N. do T.) Essa "imperceptível cólera da felicidade". Silêncio e morte inclusos.

Recebido em 05/09/2012

Aprovado em 12/10/2012

Tradução de Caio Meira

(Doutor em Ciência da Literatura/ UFRJ)

Francis Marmande é professor emérito da Universidade Paris Diderot, cronista do jornal Le Monde (jazz, literatura), contrabaixista, piloto de avião e de planador. É autor de diversos livros, mais recentemente Pur Bonheur (Lignes, 2011) e Faites les Fêtes (Lignes, 2012) . Preparou também os posfácios das recentes reedições de La Notion de dépense, de Georges Bataille (Lignes, 2011), e do Préface à la transgression, de Michel Foucault (Lignes, 2012). E-mail: <francis.marmande@noos.fr>.

  • *1 (XI, 261.)*2 (XI, 157.)*3 (XI, 179.)*4 (XI, 425.)*5 (Critique, nº 28, agosto de 1948; XI, 51.
  • )*6 (XI, 119.)*7 (BATAILLE, G. "L'équivoque de la culture". In: Comprendre, n. 16. Société Européenne de Culture: Veneza, 1956.
  • )*8 (BATAILLE, G. Discussion sur le péché. Apresentação de Michel Surya. Paris: Éditions Lignes, 2010.
  • )*9 (Critique, "Hommage à Georges Bataille", números 195/196, agosto-setembro de 1963.

  • *1
    (XI, 261.)
  • *2
    (XI, 157.)
  • *3
    (XI, 179.)
  • *4
    (XI, 425.)
  • *5
    (
    Critique, nº 28, agosto de 1948; XI, 51. )
  • *6
    (XI, 119.)
  • *7
    (BATAILLE, G. "L'équivoque de la culture". In:
    Comprendre, n. 16. Société Européenne de Culture: Veneza, 1956. )
  • *8
    (BATAILLE, G.
    Discussion sur le péché. Apresentação de Michel Surya. Paris: Éditions Lignes, 2010. )
  • *9
    (
    Critique, "Hommage à Georges Bataille", números 195/196, agosto-setembro de 1963. )
  • *10
    (MARMANDE, F. Prefácio às
    Lettres à
    Roger Caillois, reunidas e apresentadas por Jean-Pierre Le Bouler (4 de agosto de 1935 – 4 de Fevereiro de 1959), editadas por Folle Avoine, 1987.)
  • 1
    Trata-se da tradução do primeiro capítulo de
    Le Pur Bonheur de Francis Marmande (Paris: Nouvelles Éditions Lignes, 2011).
  • 2
    Trata-se da referência à edição da Gallimard das Œuvres complètes de Georges Bataille, publicada em 12 volumes entre 1970 e 1988. Mantivemos o padrão do autor do artigo, que cita apenas o volume e o número da página. (N. E.)
  • 3
    Todas as citações do fim do parágrafo foram retiradas de
    L'au-delà du sérieux [
    Para além do sério], XI, 112.
  • 4
    Serão encontradas outras coincidências com o pensamento de Hannah Arendt.
  • 5
    Um texto breve com esse título de "A pura felicidade", fora do dossiê de fragmentos e de notas do conjunto de textos que deviam constituí-lo, em breve será objeto, assim como no Japão, de uma publicação separada.
  • 6
    Super-fascista, ultra-fascista.
    Cf. nota nº 6. (N. do T.)
  • 7
    Contre-attaque, grupo e manifesto antifascista criado em 1953 por Bataille e Breton.
  • 8
    A "velha toupeira" e o prefixo "sur" nas palavras surhomme [super-homem]
    e surréaliste [surrealista], dossiê da polêmica com André Breton (II, 93). Aproveitemos para lembrar que "super-homem" não é uma exclusividade de Nietzsche: ver Bergson, Bachelard etc.
  • 9
    La Ciguë, Georges Bataille, 1958 (direção Jean-François Leroux e Jacques Pimpeneau).
  • 10
    FLN: Frente de Libertação Nacional (Argélia).
  • 11
    Hollier, autor de
    Prise de la Concorde (Gallimard, 1974).
  • 12
    Documents, revista dirigida por Carl Eisenstein, financiada por Georges Wildenstein e publicada por Bataille e Pierre d'Ezpezel, ambos conservadores do Gabinete de Medalhas da Biblioteca Nacional Francesa, com o apoio ativo de Georges Henri Rivière. Iconoclasta, máquina de guerra e rapidamente orientada para o oposto de seu projeto, a revista publica quinze números de abril de 1929 a janeiro de 1931. Os patrocinadores logo interrompem a aventura. Menos em virtude de pouca repercussão pública (é o mínimo que se pode dizer) do que pelas divergências com os organizadores. D'Espezel a Bataille: "O título que o Sr. escolheu para essa revista em nada se justifica a não ser no sentido de que nos dá 'Documentos' sobre o seu estado de espírito. É muito, mas não o suficiente. É necessário de fato que retornemos ao espírito que nos inspirou o primeiro projeto dessa revista, quando falamos com o Sr. Wildenstein, o Sr. e eu." Ver Didi-Huberman,
    La Ressemblence informe, ou le gai savoir visuel, em Georges Bataille, Paris, Macula, 1995.
  • 13
    Michel Surya,
    Georges Bataille La mort à l'œuvre, Séguier, 1987, reedição aumentada, Galimmard, 1992.
  • 14
    Dito isso, não conhecemos as cartas trocadas entre Bataille e Blanchot. Muito numerosas e longas. Por um pacto, eles decidiram destruí-las quando da morte do primeiro deles. O que não é nada. Mas eles o fizeram. O que diz tudo.
  • 15
    E isso dito num tempo (janeiro de 2011) em que uma instrutiva polêmica – suscitada pelo aniversário da morte de Céline (1961) e pela necessidade de comemorá-lo ou não – faz dos defensores do gênio (
    Viagem ao fim da noite, Morte a crédito) os crucificados no necrotério (
    Bagatelles etc.). Doutos estudiosos, assustados com a descoberta, perto dos anos cinquenta, de que Céline era antissemita, e mesmo muito antissemita, e eles próprios, ex-maoístas limítrofes, logo não muito limpos, tiram do armário o cadáver do
    fundo e a
    forma (cf. o opúsculo
    Contre Céline, 1997), e se flagelam conceitualmente, se fazendo de arrependidos. Provérbio do sudoeste francês: "Il y a plus d'un âne au Marensin qui s'appelle Martin" [literalmente: No Marensin há mais de um burro chamado Martin]. Estamos nesse ponto.
  • 16
    Pesquisa de opinião pública, semelhante ao IBOPE no Brasil. (N. do T.)
  • 17
    Referência a
    Madame Edwarda, livro publicado, em 1937, por Bataille sob o pseudônimo de Pierre Angélique. (N. do T.)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Ago 2013
  • Data do Fascículo
    Dez 2013

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2012
  • Aceito
    12 Out 2012
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