Reencontrá-la (narrativa)

Charles-Ferdinand Ramuz

TRADUÇÃO

Reencontrá-la (narrativa)

Charles-Ferdinand Ramuz

Em: Le Village brûlé, Derniers récits.

La Croix-sur-Lutry: Plaisir de Lire, 1987, p. 49-64.

A jovem morreu. Ele sente que a cada dia que passa, a sua presença vai se tornando mais vaga, os traços mais imprecisos, a lembrança vai morrendo aos poucos. A sua indiferença com os outros, com o seu trabalho, é dominada pela obsessão de reencontrá-la, na neblina da floresta onde costumavam andar juntos, perto da nascente. Foi ali que ela bebera uma água tão cristalina e tão gelada que, no entanto, a levou à morte.

Ela ainda não chegou, mas com certeza ela vai vir. É só esperar por ela, ele tem o tempo. Ele sentou na encosta. Logo abaixo dele, no fundo do buraco, cavado por ela, a nascente continua surgindo de baixo em silêncio, deixando subir à superfície as suas borbulhas parecidas com as pequenas elevações de terra feitas pelas toupeiras. Elas se moviam insensivelmente, eram agitadas, inesgotáveis.

Ele fechava os olhos. Não se ouvia nada; nem se ouvia o ruído furtivo da água que corria no seu leito. Uma folha amarela clara, em vez de cair, se balança; ela vai à direita, à esquerda, como se estivesse pendurada a um fio. Ele fecha os olhos. Apenas se ouvem, muito acima da copa das árvores, os corvos grasnando que voam em bandos nesta estação e se precipitam sobre as lavouras novas, e que refazem à nossa intenção o céu invisível onde estão. Ele fechou os olhos: então soube que ela havia chegado. Também não fez nenhum barulho, mas está chegando. Soube que ela estava, porque podia vê-la através das pálpebras fechadas. Erguendo-se, andando para a frente, estendendo os braços de carne, ela que se deixou debruçar para frente, com seu corpo de carne, que se apóia nas mãos, que deixou cair a terra embaixo dela, com seu peito de carne indo para a frente, esmagado pelo próprio peso. Aí está ela, sua boca se abre, sua boca com seus lábios ávidos, com os quais ela toma a água, a morde com os dentes, recolhendo-a por retalhos que são vistos caindo no queixo. Ela se reergue, os ombros são amplos. Ela se vira para ele e sorri: "Ah! Francine!" Ele não consegue se conter, desta vez; levanta, vai até ela, ele a tomou nos braços; ele abre os olhos, não há ninguém. Seus braços se fecharam no ar, apertando contra ele uma forma sem consistência, uma forma enganosa, uma forma vazia: "Não é nada!" Enquanto isso, ele a empurra para trás, mas ela é só vazio, ausência, vácuo, de modo que seu gesto o impulsiona para frente, como quando você se apóia numa porta que acreditava estar fechada. Ele abana a cabeça. Ela ainda olhou ao redor, mas não havia nada ao redor, senão as coisas de sempre, coisas cheias de ironia. Entretanto não conseguia acreditar. Dizia para si mesmo: "vai ser preciso tentar de novo." Reencontrá-la. E ele ia embora à noite, voltava sem nada, porém nunca desanimava.

Tradução: Pierre Guisan

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jul 2005
  • Data do Fascículo
    Dez 2004
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